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domingo, 5 de fevereiro de 2012

Corte geológico e princípios estratigráficos

Pelo princípio da sobreposição em estratigrafia os sedimentos mais recentes formam leitos que se depositam por cima dos estratos mais antigos e embora as rochas vulcânicas não tenham uma origem igual à das sedimentares, frequentemente, por gerarem camadas, respeitam muitas vezes este princípio.
Junto ao porto de Vila do Porto, na ilha de Santa Maria, é possível observar numa parede, resultante provavelmente de escavação humana, um antigo cone de escória vulcânica (avermelhado) que esteve exposto ao ar e se cobriu por um solo (ocre) e onde todo o conjunto foi posteriormente soterrado por escoadas mais recentes (cinzentas).
O princípio da interseção refere que é mais recente uma estrutura que corte de que a que é cortada e na imagem é possível também observar que tanto o cone, como o paleossolo e ainda as escoadas lávicas são todos cortados por filões verticais, sendo por isso este últimos: as formações mais jovens de todas.

Pormenor do filão situado no centro da foto acima

Aplicar os vários princípios estratigráficos é fundamental para a interpretação e compreensão da história geológica de muitos locais onde se encontram formações rochosas que se apresentam sob a forma de camadas.

Para conhecer os vários princípios estratigráficos, muitos deles enunciados há mais de 300 anos por Nicolas Steno, consulte esta lista.

quarta-feira, 25 de março de 2009

CONE DE ESCÓRIAS "FOSSILIZADO"

A abertura de uma estrada permite descobrir muitas vezes acontecimentos geológicos passados que ficaram cobertos por outros eventos mais recentes.
Na foto observa-se um cone vulcânico de escórias antigo (cinza escuro) perto de Vila Franca do Campo. Este esteve à superfície tempo suficiente para sobre ele se desenvolver um solo antigo (castanho escuro): paleossolo, agora coberto de pedra-pomes (creme-claro) projectada a partir do distante vulcão da Lagoa da Fogo.
O recorte do paleossolo no talude mostra ainda o relevo existente à data da erupção: paleorrelevo, hoje soterrado por uma topografia diferente.
É a partir da relação da sobreposição vertical, distribuição horizontal e modos de contacto das estuturas geológicas e dos vários tipos de rochas, que se torna possível aos olhos dos geólogos fazer a história geológica de um local, região ou mesmo do planeta.
O topo do cone aparece repetido na parte superior do talude apenas porque este possui um patamar e o degrau de cima volta a descobrir uma parte mais elevada da mesma estrutura, situação que permite igualmente determinar a sua forma a 3 dimensões (3D). Tudo isto numa exposição vertical das rochas, corte geológico, em resultado do talude da obra

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

A HISTÓRIA GEOLÓGICA DE S. JORGE III: A COBERTURA CENTRAL

Assim, após o vulcanismo inicial entre Ribeira Seca e o Topo e depois da migração desta actividade para a zona Noroeste até ao Rosais, eis que as erupções mais recentes se passam a localizar em alinhamentos também WNW-ESE na zona central da ilha, edificando cones cuja altitude máxima se situa na Manadas - Pico da Esperança. (clique nas imagens para ampliar)

A cadeia ao fundo formada de picos do complexo vulcânico das Manadas, vistos da Serra do Topo

O conjunto de materiais emitidos por este vulcanismo na parte central da ilha, que parece ter-se desenrolado nos últimos 100.000 anos, denomina-se Complexo Vulcânico das Manadas e as últimas erupções já ocorreram em períodos pós-povoamento da ilha, 1580 e 1808 AD.

Alinhamento de estruturas vulcânicas no eixo central do Complexo Vulcânico das Manadas

O Complexo Vulcânico das Manadas cobriu grandes áreas da metade oriental das lavas pertencentes ao Complexo Vulcânico dos Rosais que assim ficaram soterradas e entrou em contacto, acima do nível do mar, com o extremo ocidental do Complexo Vulcânico do Topo (para alguns da Serra do Topo), unindo, seguramente, São Jorge desde a ponta do Topo até à ponta dos Rosais.

O aspecto juvenil de cratera no cimo de um cone vulcânico nas Manadas

A juventude deste vulcanismo faz com que este esteja ainda pouco erodido, por isso a grande altitude do eixo central da ilha nesta zona, a enorme inclinação das vertentes a norte e a sul desta cadeia de vulcões e a preservação muito nítida das formas eruptivas e dos alinhamentos das bocas por onde jorrou lava e piroclastos.

O Pico da Esperança e as suas vertentes ingremes

As escoadas de lava, saídas destes cones alinhados, desceram, quer para as vertente norte, quer para as vertentes sul e cobriram os materiais mais antigos do Complexo Vulcânico dos Rosais ou formaram novas áreas da ilha de São Jorge.

Vertentes formadas de escoadas de lava que desceram até à costa sul

As últimas escoadas que progrediram para a vertente sul, entre as Manadas e a Queimada, desceram continuamente até ao mar e formaram um nova linha de costa que, devido à sua juventude, tem ainda um desnível muito pequeno.

Campos de lavas espraiados nas vertentes norte próximas do Norte Pequeno

As escoadas entre Manadas e Calheta a sul e, sobretudo, na costa norte, encontraram arribas costeiras com grandes desníveis de altura que em muitos locais se transformaram em arribas fósseis pelas cascatas de lava que aí se formaram.


Um delta lávico na base da arriba fóssil, com a sua fajã na costa norte da ilha

Várias dessas "cascatas" de lava, depois de caírem, prosseguiram ainda pelo mar dentro, dando origem a deltas lávicos, um dos métodos (não único) de se formarem as conhecidas fajãs de São Jorge.



Os morros das Velas, o da direita mais erodido, formados por erupções submarinas surtsianas

No extremo ocidental do Complexo Vulcânico das Manadas, o vulcanismo fissural desenvolveu-se numa direcção mais WNW-ESE, ligeiramente oblíqua à ilha, o que fez com que algumas das erupções ocorressem junto à linha de costa e já debaixo do mar, com as característica de actividade submarina do tipo surtsiano, semelhantes à dos vulcões dos Capelinhos, Costado da Nau e do Monte da Guia no Faial, - os Morros das Velas - estes são anteriores às últimas erupções da Caldeira por também estarem nalguns locais cobertos por pedra-pomes vinda da ilha azul.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

A HISTÓRIA GEOLÓGICA DE S JORGE II: O salto para ocidente

Talvez ainda ocorressem erupções na zona do Complexo Vulcânico do Topo quando uma nova zona de actividade vulcânica fissural, igualmente de direcção WNW-ESE, se iniciou  mais para ocidente.
A partir desta falha geológica, a ilha desenvolveu-se entre a ponta dos Rosais, a ocidente, e a actual região dos Biscoitos, próxima do centro da ilha. Ao conjunto de materiais que forma esta unidade vulcanoestratigráfica denomina-se Complexo Vulcânico dos Rosais.

Caminho de acesso à ponta do Rosais circundado de vegetação natural, para onde a ilha se estendeu ao longo da direcção WNW-ESE, tal como a via.

Curiosamente, no passado talvez tenham existido duas ou mais ilhas ao longo desta cordilheira de cones vulcânicos alinhados (nos Açores conhecidos por cabeços), uma vez que não se conhece contacto, pelo menso acima do nível do mar, entre materiais do Complexo Vulcânico do Topo com os do Complexo Vulcânico dos Rosais.

Freguesia dos Rosais, à direita cabeços alinhados pela direcção WNW-ESE

Quanto à idade do vulcanismo do Complexo Vulcânico dos Rosais não conheço análises laboratoriais em rochas que permitam dizer os milhares de anos do início ou do termo deste vulcanismo - Geocronologia absoluta. Todavia, existem elementos que apontam para um início mais recente que o começo do vulcanismo da região do Topo e outros que provam, seguramente, ser anterior à unidade vulcanoestratigráfica mais nova da ilha (a apresentar brevemente) - Geocronologia relativa.


Freguesia de Santo Amaro, no interior desta estreita ilha e implantada numa zona de relevo suavizado.

Algumas das características que demonstram uma certa antiguidade desta unidade vulcânica são, novamente: o interior da ilha suavizado pela erosão, mas a forma dos cabeços está melhor preservada que para os lados do Topo; e as arribas costeiras, norte e sul, muito escarpadas e com grandes desníveis, indiciando tempo suficiente para um avanço erosivo significativo do mar  que atingiu mesmo cones vulcânicos situados dentro da ilha.

Cone vulcânico cortado pela costa sul escarpada, um sinal de antiguidade, pois já permitiu um grande avanço do mar até atingir o cabeço

Uma curiosidade para os Faialenses, sobre rochas desta zona da ilha encontra-se pedra-pomes proveniente da Caldeira do Faial, um sinal da  intensidade de algumas das explosões então ocorridas na ilha azul e da direcção dos ventos nesse momento, aproximadamente de sudoeste.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

A HISTORIA GEOLÓGICA DE SÃO JORGE I: O início

Tal como fiz para o Faial no verão passado, falarei agora, de uma forma curta, simples e possivelmente descontinuada, da história vulcanoestratigráfica da ilha de São Jorge, ou seja, do seu aparecimento e posterior crescimento, com base em documentação que conheço (ver nota) e nas muitas explorações de campo que agradavelmente faço nesta ilha.

A zona mais antiga da ilha fica além da linha vermelha traçada na foto (clique para a ampliar)

A ilha iniciou-se com a subida de magma ao longo de uma importante fractura na crosta terrestre de orientação Noroeste-Sudeste, o que permitiu a instalação de cones vulcânicos alinhados (vulcanismo fissural) sobre essa falha geológica na zona a leste da Ribeira Seca, até ao Topo.
Assim, a zona oriental da ilha, é a mais antiga de São Jorge, este vulcanismo deve ter surgido acima do nível do mar há mais de 600.000 anos e marcou o nascimento desta ilha. O conjunto das estruturas então formadas é denominado por:  Complexo Vulcânico do Topo.

Farol do Topo, na freguesia que deu o nome à unidade vulcânica mais antiga da ilha.

Tendo em conta o referido aqui, conclui-se que São Jorge é ligeiramente mais novo que o Faial, embora deva ter existido vulcanismo activo simultaneamente na área do Complexo Vulcânico da Ribeirinha do Faial e no Complexo Vulcânico do Topo. 

Relevos suaves no interior da Serra do Topo, devido a sua antiguidade relativa.

O vulcanismo nesta zona desenrolou-se, com possíveis interrupções, ao longo de 500.000 anos aproximadamente. Assim, devido à maior antiguidade desta parte da ilha, a mesma sofreu uma maior erosão pelas águas (chuvas e humidade), ventos, amplitudes térmicas e seres vivos, o que faz com que nas suas zonas interiores o relevo seja mais suave que a ocidente da Ribeira Seca.

O contraste do relevo suave do interior com o abrupto da zona costeiras e linhas de água

Todavia, na zona mais litoral, para onde as águas das chuvas escorriam e o mar fazia recuar a linha de costa, foram escavados profundos vales e a linha de costa foi talhada de forma muito escarpada e com grande altura. 

Vales de linhas de ribeiras muito profundos situados no Complexo Vulcânico do Topo


Nota - Madeira, J. (1998): Estudos de Neotectónica das ilhas do Faial, Pico e S. Jorge. (Tese de doutoramento FCL)

sexta-feira, 16 de maio de 2008

PALEOSSOLOS: Testemunhos do repouso do vulcão

Os vulcões poligenéticos activos podem ter várias erupções efusivas ou explosivas, separadas por curtos períodos de inactividade ou longos períodos de dormência.
Imediatamente após o termo de uma erupção, os materiais expelidos pelo vulcão começam a ser modificados pelos agentes de geodinâmica externa: factores meteorológicos (vento, variações térmicas e água sob a forma de vapor, líquida ou gelo), os seres vivos (plantas e animais) e a gravidade terrestre.

Com o tempo de repouso aumentam as transformações das rochas e instala-se um solo que abriga a vida. Para o mesmo tipo de rocha e clima, a espessura do solo cresce com o duração do período de dormência do vulcão... só que quando se iniciar outra erupção, os novos materiais expelidos soterram o solo e este fica como fossilizado sobre as novas rochas: Paleossolo. É o que testemunha a foto acima onde o paleossolo de cor acastanhada se situa entre escoadas de lava e delimitado por um traço a vermelho (clique na foto para ampliar).

Quando se estuda um vulcão, o número de paleossolos e disposições fornece informações sobre a quantidade mínima de períodos de repouso ocorridos e sobre o relevo antigo: Paleorrelevo.
Se existirem fósseis de animais, plantas ou se estas estiverem transformadas em carvão, pode ser possível datar as várias erupções e outros acontecimentos, ou seja, fazer a história geológica de uma forma datada: Geocronologia.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

EMPILHAMENTO DE LAVAS

Quando se começa a aprender os grandes grupos de rochas em geologia: Ígneas (formadas a partir do arrefecimento do magma na crosta e quando as vemos nos continentes é frequente não serem de origem vulcânica - caso do granito); Sedimentares (formadas junto à superficie devido à acção da água, do vento, dos seres vivos e das variações térmicas) e Metamórficas (formadas a profundidade variável na crosta e a partir de rochas pré-existentes, devido a transformações provocadas pela temperatura e pressão); destas as rochas sedimentares são muitas vezes referidas como possuindo a característica de apresentarem habitualmente estratificação... só que as rochas vulcânicas, que são ígneas também, ao contrário do granito, por norma, são estratificadas. Como se vê na foto pertencente à formação do Complexo Vulcânico do Cedros, no Faial. Cada camada corresponde a uma escoada de lava, por norma o centro de cada uma encontra-se mais coeso (consolidado), na foto cinza mais claro, enquanto o respectivo topo e base muitas vezes tem um aspecto granular solto (clinker), na foto mais escuro e avermelhado e as camadas de cima são geralmente mais recentes - Princípio da Sobreposição.
Estes empilhamentos são típicos de vulcões poligenéticos e, devido a este tipo de sobreposições, conhecidos por estratovulcões. Nesta sobreposição de camadas as rochas da base e do topo têm frequentemente idades que distam centenas de milhares de anos e o estudo das camadas permite fazer a história geológica do vulcão.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

PONTA DELGADA - Primeira Paragem

Ponta Delgada, a penúltima cidade do trajecto da minha vinda para Portugal há 40 anos... Importa esclarecer que não vim de avião, após um primeiro troço de combóio, seguiu-se uma semana de cruzeiro turístico a atravessar meio Atlântico e a minha entrada neste país deu-se na doca de Ponta Delgada mesmo defronte das Portas da Cidade.

Portas da Cidade, antiga entrada portuária da maior cidade do Arquipélago

Como já disse no passado, esta cidade tem uma arte de esculpir a rocha vulcânica de uma forma que para mim é única nos Açores e embora não seja uma urbe arquitectonicamente muito consistente, existem imóveis que vale a pena visitar, só para ver a sua riqueza escultórica na fachada e o interior de algumas igrejas.
Igreja Matriz com uma fachada com basalto esculpido em estilo manuelino, o pórtico principal é de calcário importado


Hoje esta cidade parece querer assemelhar-se a uma megalópolis, construiram espaços típicos de grandes urbes separados por zonas com ruas estreitas e arquitectura tradicional, um transito por vezes caotico. Uma miscelânea confusa que permitiu um adolescente na televisão comparar Ponta Delgada actual a Nova Iorque, mas ainda existem muitas zonas características que interessa conhecer.

Igreja de São Pedro, uma fachada típicamente micaelense onde o basalto sobressai

Ponta Delgada, local onde se encontra concentrada a maior quantidade de vulcanólogos de Portugal, situa-se na unidade estratovulcânica mais recente da ilha, que uniu duas antigas ilhas, uma a leste, que se estendia do vulcão do Fogo até ao Nordeste, e outra a ocidente, formada pelo vulcão das Sete Cidades... hoje há quem pense que, num futuro mais ou menos longíquo, algo de semelhante pode ocorrer no canal Faial - Pico.

PS: Ainda estou em Portugal mas os teclados para os ultimos retoques do post ja embirram com acentos... um treino para o cidade que se segue.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

HISTÓRIA GEOLÓGICA DO FAIAL VII - O Vulcão da Praia do Norte

Após o povoamento do Faial no final do século XV e talvez depois de várias pequenas crises sísmicas que os cronistas não registaram, eis que em Setembro de 1671 os habitantes do Capelo e da Praia do Norte passaram a ser perturbados por tremores de terra que se prolongaram por meses até que, na noite de 24 de Abril de 1672, os faialenses assistiram ao início de uma erupção vulcânica no alinhamento do Capelo e de que resultou a construção do cone de escórias vulcânicas, bagacinas, denominado Cabeço do Fogo, no centro da foto abaixo, a zona escura das suas vertentes resultam destas não estarem ainda completamente cobertas de vegetação.
A zona à direita do cone não tem pastagens pois nos campos de lava recentes não existe ainda solo adequado (clique para ampliar)

Este foi o início de um período sombrio, pois a lava brotou do chão em pelo menos dois locais do alinhamento do Capelo. Formaram-se então duas escoadas lávicas que correram em sentido opostos. Uma para norte que cobriu grande parte da freguesia da Praia do Norte, que na época se situaria mais para oeste e possuía boas terras agrícolas. Outro derrame correu para sul e destruíu um povoado do Capelo denominado Ribeira Brava, que nunca mais teve lugar na toponímia da ilha e que deveria situar-se próximo da actual recta do Areeiro.
Esta erupção mostrou que o Complexo Vulcânico do Capelo tinha um vulcanismo ainda activo.
Vulcão de 1672 à esquerda da foto e a sua escoada para norte, na zona de transição de verdes vê-se a actual Praia do Norte (clique para ampliar)

A erupção estendeu-se até inicio de 1673, teve períodos explosivos de onde saíram cinzas que cobriram grande parte do Faial e como ambas as escoadas chegaram ao mar, isolaram o extremo ocidental do Capelo do resto da ilha, onde as pessoas só foram socorridas por barco. Esta erupção deixou mais de 300 casas destruídas, vários mortos, 1200 desalojados. Destes cerca de 200 cidadãos foram forçados a emigrar por solicitação do municipio da Horta para o Brasil.
Vulcão da Praia do Norte à direita e escoada do lado sul, ao fundo a freguesia do Capelo

Em escoadas de lava junto ao mar na Praia do Norte, atribuídas por geólogos a esta erupção, encontraram-se magníficos fragmentos de rochas do interior da terra, arrancadas pela força do magma em ascensão, chamados Xenólitos. Nestas rochas existe em grande quantidade um mineral chamado Olivina, parece-se com um vidro verde garrafa, e no qual se encontrou, pela primeira vez na natureza, uma variedade pura de olivina rica em ferro e que por isso foi baptizada de Faialite. Hoje, por todo mundo, quem estuda geologia aprende o nome deste importante mineral que regista a sua origem faialense na ciência.

Mas o vulcanismo no Faial desde então não ficou parado, mas isso há-de ficar para uns próximos posts...

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

HISTÓRIA GEOLÓGICA DO FAIAL VI - Complexo Vulcânico do Capelo

Ninguém sabe bem quando, mas o vulcão dos Cedros já andava nos seus arrufos altamente intempestivos e a Caldeira em grande parte formada, quando nos últimos milhares de anos, 2000, 3000 anos, talvez um pouco mais, não se sabe bem, mas eis que a partir de uma grande falha situada a Oeste da Caldeira começou a sair lava, e assim surgiu um vulcão monogenético, provavelmente com uma chaminé alongada numa fissura, alguns anos depois outro vulcão e a seguir muitos mais e todos alinhadinhos como numa parada.


Vários cones alinhados visto de Leste para Oeste na região da Caldeira.


Uns localizaram-se no mar, outros em terra, uns no extremo ocidental da ilha e fizeram-na crescer um pouco para o lado das Flores, outros mais para leste e alargaram aquela ponta comprida de ilha que vai do Capelo até à Caldeira. Todos monogenéticos, todos situados sobre a mesma falha de direcção quase Este-Oeste, embora ligeiramente desviada para Noroeste, deles sairam escoadas lávicas de composição basáltica. Uns em terra produziram bagacina, outros no mar geraram muita cinza vulcânica e em conjunto formaram a Península do Capelo, onde assentam as freguesias do Capelo e da Praia do Norte, à soma das rochas por eles formadas chamam os geólogos o Complexo Vulcânico do Capelo, o capítulo mais jovem da construção do ilha do Faial.

Vários cones alinhados vistos de Oeste para Leste, ao fundo o bordo da Caldeira
Foto proveniente do blog amigo Na Rota das Hortências, com quem Geocrusoe se orgulha de cooperar


Depois do homem chegar à ilha e povoar o Faial, esta falha e este alinhamento mostrou mais de que uma vez que ainda estava vivo, mas isso fica para outros posts.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

HISTÓRIA GEOLÓGICA DO FAIAL V - Formação da Caldeira

Eis como nasceu uma das estruturas mais belas do Faial!
Provavelmente ainda com erupções vulcânicas pertencentes à Formação de Almoxarife, eis que há cerca de 16.000 anos o Vulcão Poligenético dos Cedros reentrou em erupção, de uma forma altamente explosiva e durante os últimos milhares de anos parece ter repetido estas de fúrias pelo menos 14 vezes.
Algumas destas explosões foram tão intensas que expulsavam da cratera fragmentos de magma a grande temperatura que ao cairem cobriram grandes extensões do Faial com pedra-pomes. Uma rocha granular, normalmente clara, cujos grãos são muito porosos e flutuam na água (foto imediatamente acima e abaixo).
Outras vezes as explosões tiveram tanta energia que pulverizavam o próprio magma expelido da cratera e que se depositou em muitos lugares da ilha como um pó a que os geólogos chamam de cinza vulcânica.
Há cerca de mil anos as explosões fizeram escoar núvens de gotícolas de magma sobre muitos vales da ilha, com destaque para os Cedros - Ribeira Funda, Pedro Miguel - Praia do Almoxarife e Flamengos.As gotículas e lava nos vales denominadas de núvens ardente cobriram a floresta de então com dezenas de metros de cinza, pedra-pomes e areia, deixando no sei interior troncos de árvores queimados, uma espécie de carvão natural e que ainda hoje parece actual. À rocha assim formada os geólogos chamam ignimbrito e a sua origem podem destruir cidades inteiras em segundos, como São Pedro da Martinica e Plymouth respectivamente no início e final do século passado.
Como resultado destas explosões o centro do vulcão foi desmantelado e a cratera alargou-se e transformou-se numa estrutura de beleza impar, cujo nome técnico e popular se estendeu para além dos Açores - CALDEIRA - assim nasceu a Caldeira do Faial! (clique para ampliar)
Desde então, talvez pouco antes dos portugueses pisarem o Faial pela primeiroa vez, uma pequena erupção ocorreu no seu interior e formou-se um cone vulcânico na base da Caldeira, provavelmente sinal de um outro vulcanismo que já estava igualmente a nascer no Faial.
Na noite de 12 para 13 de Maio de 1958 uma pequena explosão no fundo da Caldeira cobriu o seu interior de uma fina camada de cinza... talvez para nos lembrar que o Vulcão dos Cedros e que nós faialenses chamamos de Vulcão da Caldeira pode estar a dormir, mas não morto.

Curiosamente a pedra-pomes destas explosões por vezes chegaram à ilha de São Jorge, transportadas pelo vento, mas parece que a nossa ilha irmã do Pico nunca foi tocada por estas fúrias, talvez sinal da fraternidade destas duas ilhas que geologicamente parecem siamesas.
Apesar de tudo os faialenses devem saber que o início de uma erupção é sempre vigiado pelo Centro de Vulcanologia e por isso podem dormir descansados que alguém vigia o vulcão 24 horas por dia...
A tese de doutoramento de PACHECO, J. (2001) – "Processos associados ao desenvolvimento de erupções vulcânicas hidromagmáticas explosivas na ilha do Faial e sua interpretação numa perspectiva de avaliação do hazard e minimização do risco"... é uma das fontes deste e de outros posts deste blog.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

HISTÓRIA GEOLÓGICA DO FAIAL IV - Formação do Almoxarife

A natureza ao longo do tempo prega-nos partidas e apesar do Vulcão Poligenético dos Cedros ter andado a crescer desde há cerca de 400.000 anos até perto dos 30.000 anos atrás e embora continuasse potencialmente activo, eis que entra num sono letárgico! Mas um novo tipo de vulcanismo instala-se no Faial a partir de fissuras no extremo sudeste da ilha...
Mesmo lá em baixo junto ao mar surge um vulcanismo de lavas basálticas, com a formação de pequenos cones vulcânicos de bagacina ou tufo, deles saíram escoadas de lava muito líquida que ao solidificarem davam uma rocha preta - o basalto. Estes vulcões que não estiveram todos activos em simultâneo, devem ter começado a surgir, talvez, há 15 ou 20.000 anos atrás e continuaram a "nascer" novos, até quase há 10.000 anos... depois tudo se acalmou.
Hoje, nos flancos de vários destes cones, em anfiteatro, está a cidade da Horta, que em vez de colinas tem o Monte Carneiro, o Cabeço das Moças, da Conceição, Queimado e o Monte da Guia...
Na zona a Leste da Horta existem vários outros que bordejam a freguesia dos Flamengos...
e algumas lavas sobrepuseram-se às lavas muito mais antigas do vulcão da Ribeirinha, foram até ao mar e formam a base do porto da Praia do Almoxarife, que ao serem estudadas deram o nome ao conjunto de todos esta actividade vulcânica: a Formação de Almoxarife...
só que após a acalmia deste vulcanismo, novamente o vulcão dos Cedros decidiu acordar e de uma forma que esta ilha nunca vira...

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

HISTÓRIA GEOLÓGICA DO FAIAL III - O Complexo vulcânico dos Cedros

Não sei se o fim do Vulcão da Ribeirinha foi resultado do esgotamento de magma da câmara magmática que o alimentava, se aquele material descobriu um outro caminho ou se as profundezas da Terra fundiram novas rochas e criaram uma nova câmara magmática. Certo é, que a alguns escassos quilómetros para Sudoeste do local provável da chaminé do vulcão extinto, há cerca de 410.000 anos um novo vulcão poligenético nasceu e ocupou a zona que hoje é o centro geográfico da ilha do Faial.

Tudo aponta que ao longo de quase 400.000 anos, até cerca de 30.000 anos atrás, aquele vulcão continuou a crescer, a derramar lavas, inicialmente pouco evoluídas e conhecidas por basalto, depois mais ricas em sílica e sódio. O magma foi então tornando-se mais viscoso, ocorreram períodos de alguma explosividade, outros de emissão de escoadas e momentos de dormência, que representam uma evolução natural deste tipo de vulcões com o tempo: os basaltos passaram a havaítos, depois sucessivamente a mugearitos, benmoreítos e traquitos; nomes estranhos, mas que apenas indicam que, tal como os homens, os vulcões poligenéticos também nascem, crescem e amadurecem, e a ilha continuou a crescer em largura e altura, talvez pouco mais de dezena e meia de quilómetros em diâmetro e 1300 m de altura.
Ao conjunto dos materiais formados ao longo destes anos os geólogos decidiram chamar Complexo Vulcânico dos Cedros... mas há menos de 30.000 anos o nosso vulcão decidiu mostrar do que era capaz, transformou-se e nunca mais foi o mesmo e formou uma das estruturas mais belas da ilha...
... mas isso fica para uma próxima vez.

sábado, 25 de agosto de 2007

RIBEIRINHA - Um vulcão extinto?

Ao falar do Complexo Vulcânico da Ribeirinha, declarei este vulcão extinto. Mas então o que leva a considerar um vulcão nesta categoria?
A Geologia não é uma ciência exacta e muitas das classificações em vulcanologia implicam rótulos respeitantes a um intervalo de características ou classe de parâmetros que usamos para comunicar. Mas muitas vezes existem dúvidas em atribuir a um vulcão uma etiqueta, pois na natureza encontram-se todos os elementos de transição entre as várias classe que criámos.


A USGS classifica os vulcões, em relação à actividade como activos, adormecidos (dormentes) ou extintos.


Vulcão extinto é aquele que os cientistas consideram improvável que ele volte a entrar em erupção, mas a incerteza para dizer isto é grande, por isso, utilizam-se vários critérios para o vulcão classificar deste modo, nomeadamente: não ter qualquer erupção há várias dezenas de milhares de anos, não lhe ser conhecida uma actividade sísmica, emissões de gases vulcânicos e deformações à superfície da terra ou outras que indiciem a existência ainda de magma em profundidade... mas por vezes há excepções e porque não admitir mesmo erros?


Apesar do Vulcão da Ribeirinha ser considerado extinto e tudo aponta para isso, incluindo cerca de 500.000 anos a "dormir" e o seu aparelho tão intensamente destuído que já nem se determina com exactidão a sua chaminé principal, tal não foi o fim do vulcanismo poligenético do Faial e a ilha continuou a crescer com um segundo vulcão que para uns está dormente e para outras activo, mas isso fica para um próximo episódio.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

HISTÓRIA GEOLÓGICA DO FAIAL II - a chaminé vulcânica da Ribeirinha

Como todos os grandes vulcões, o da Ribeirinha teve a sua chaminé principal por onde saíram muitos dos seus materiais, deve ter tido uma grande cratera e até... talvez uma pequena caldeira, mas após a sua inactividade, a chuvas, os sismos com os movimentos das falhas e os produtos de outros vulcões posteriores foram desmantelando e cobrindo o grande edífício então construído.

Hoje apenas através do estudo das inclinações das escoadas com a determinação dos pontos prováveis da sua origem, da estruturas pertencentes àquele vulcão é possível suspeitar o local provável da chaminé vulcânica. Vários elementos apontam para que esta se encontrasse próxima desta calma, bucólica e bela paisagem na zona entre os Matos da Ribeirinha e os principais pastos de Pedro Miguel. (clique sobre as fotos para as aumentar)

Com tanta flor, gado, calma e ar puro, dá para imaginar que neste local parece ter-se situado a boca principal do grande vulcão por onde a ilha do Faial começou?

segunda-feira, 20 de agosto de 2007

HISTÓRIA GEOLÓGICA DO FAIAL I - O início

O Faial teve o seu início quando um vulcão poligenético se desenvolveu nesta zona e o seu cone vulcânico atingiu a superfície do mar há cerca de 800.000 anos. Este continuou a crescer por mais 200.000 anos aproximadamente e parece ter-se extinguido há já quase 580.000 anos.
O vulcão emitiu então numerosas escoadas de lava, teve momentos explosivos e períodos de inactividade ou dormência. Foi então responsável pelo nascimento de uma ilha que, provavelmente, teria um diâmetro de 8 Km, menos de 1000 m de altitude e cujos materiais expelidos formam hoje as maiores estruturas da zona nordeste do Faial, entre a Lomba da Espalamaca, a Ponta da Ribeirinha e os Espalhafatos (ver carta).


Vertente Nordeste do Cone Vulcânico principal do primeiro vulcão emerso e responsável pela origem do Faial sobre o vale da Ribeirinha (clique na foto para ampliar).

Devido aos afloramentos das rochas deste antigo vulcão estarem melhor representados na Ribeirinha, os geólogos, presentemente, designam-se ao conjunto de formações provenientes deste vulcão por Complexo Vulcânico da Ribeirinha.
No passado houve quem chamasse a esta mesma unidade vulcanoestratigráfica de Complexo Vulcânico do Galego, o nome do marco geodésico mais elevado na estrutura da foto, mas o nome foi entretanto abandonado.
NOTA: As datações apresentadas neste série de post são aproximadas, pois existem divergências entre autores e por isso o importante é a ordem de grandeza e a sequência dos eventos.