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terça-feira, 8 de agosto de 2023

As sete mortes de Evelyn Hardcastle de Stuart Turton

 


Acabei de ler "As sete mortes de Evelyn Hardcastle" de Stuart Turton" do escritor inglês Stuart Turton, sabia tratar-se de uma obra enigmática e de investigação criminal, mas pouco mais sabia do romance.

Alguém desmemoriado perdido numa floresta segue uma ordem de ir para leste com uma bússola, recorda que assistiu ao assassinato de Ana, nada mais, na sua rota chega a uma casa senhorial, isolada, mal conservava e é reconhecido e acolhido como um dos convidados de uma festa privada. Nesta, ao final da noite ocorre numa encenação de suicídio o assassinato da filha dos anfitriões e dá-se a situação de o protagonista estar obrigado a deslindar o caso para poder sair da mansão, mas a realidade está muito além de uma simples investigação e Aiden Bishop não é um simples indivíduo único, pois o dia volta a repetir-se com o mesmo desfecho e festa até ser desvendado o criminoso, havendo quem faça tudo para impedir o seu sucesso, incluindo a matando os eus de Bishop e procurar matar Ana.

Aquilo que inicialmente parecia uma simples trama linear de crime e investigação, veio a revelar-se num romance gótico com crime, castigo num mundo surrealista. Sobre o ponto de vista de escrita, o texto está cheio de frases e ideias para recordar e fazem pensar... mas as repetições dos acontecimentos com mudanças subtis à semelhança de uma obra uma musical com tema e variações, tecem uma malha que embora mantenha o suspense, vai-nos surpreendendo. Gosto de obras góticas no domínio do terror, já de investigação criminal com surrealismo ou fantástico deixou-me incomodado... mas para quem gosta do estilo de narrativa é um excelente puzzle eo texto é riquíssimo para muitos sublinhados.


terça-feira, 8 de fevereiro de 2022

"As mil e uma noites" Volume 2

 

Acabei de ler o segundo volume da tradução feita pela E-primatur da coletânea de contos que constituem a obra "As mil uma noites" e com a informação de se basear nos manuscritos mais antigos desta. Este conjunto é composto de 3 volume e já falara aqui do primeiro quando o lera.

O presente volume é a continuidade do anterior a partir da narrativa de Xerazade na 102.ª noite  como mulher de Xariar e vai até à 282.ª. Cada conto, por norma atravessa noites sucessivas, sendo interrompidos muitas vezes em momento de suspense com a confissão à irmã Dinarzade de que haverá muitas mais a contar se o príncipe lhe poupar a vida, uma estratégia de lhe alimentar a curiosidade e a poupar a sua morte como costumava fazer às suas mulheres após a noite de núpcias. Frequentemente, a mudança de de uma para outra história diferente faz-se também a meio da narrativa noturna para assim manter a suspenso com a nova e o interesse de Xariar.

Ao contrário do primeiro volume, neste poucos contos são curtos e raramente têm uma lição de moral no seu cerne, sendo comum a beleza dos jovens, o luxo das elites, a atração sexual como normalidade, os atributos físicos das mulheres dependentes de ricos que evitam o acesso ao exterior e o erotismo da narrativa que entra em choque com a ideia atual de um islamismo muito conservador e casto. Aqui o enlace no casal apaixonado, nem sempre com o laço matrimonial, é visto frequentemente como um prémio e sem a censura de moral religiosa, mas sempre sujeito à bondade do deus altíssimo e as referências ao Corão são muitas. Nem todos os contos são fantásticos, mas os mais extensos são dominados pela fantasia e personagens mágicas.

O texto que intercala narrativa em prosa com passagens complementares em verso, procura verbalizar a linguagem oral ao estilo antigo. Existem muitas notas sobre a escolha de determinados termos na tradução, explicações de vocabulário, de costumes da época e referências a correções e adoção de excertos de edições antigas de diferentes regiões geográficas do médio oriente de modo a tornar coerente o discurso e consistente o conto.

Fácil de ler, embora, por vezes, me cansei do excesso de pormenores de luxo, gastronomia rica, beleza e fantasia, mas isto resulta do estilo da obra original que procura entrar num mundo que vai muito além da realidade e procura ir ao encontro da imaginação de estratos sociais ricos, belos e cheios de luxo que estariam na base da felicidade e justiça na idade média no médio oriente no seio da cultura islâmica de então.

Pelos dados transmitidos até ao final deste volume, o terceiro completa histórias já narradas que têm outros desenvolvimentos e variantes noutras edições das Mil e Uma Noites e textos com informações gastronómicas e de costumes muito referidos nestes 2 volumes mas pouco desenvolvidos. Um tomo para completar a visão do conjunto que foi esta obra e das variantes que havia no passado, sendo que não há contos para além da 282.ª noite, muito longe do total de 1001 que se poderia depreender do título. 

Gostei, vale a pena ler para compreender como no início do segundo milénio os árabes eram bem diferentes daquilo que são hoje em termos de mentalidade.

sábado, 30 de maio de 2020

"O Físico Prodigioso" de Jorge de Sena

Excerto
"...Disseste-me também que eu era um deus. E eu sinto que sou. Ou sinto que estou sendo. E é uma coisa insuportável."

Acabei de ler a novela "O Físico Prodigioso" do português Jorge de Sena, obra inicialmente integrada na coletânea de contos do autor "Antigas e Novas Andanças do Demónio", mas que depois da queda da ditadura ficou com o seu texto definitivo, a ter vida própria e foi publicada autonomamente por vontade do escritor.
Uma novela que vai buscar as suas raízes em dois mitos antigos expostos em contos portugueses da idade média que o autor integra num só, numa narrativa do género fantástico, mágico e gótico.
Um jovem inocente e de beleza impressionante desperta a paixão no Demónio que lhe permite poderes fantástico de físico (mago/médico da idade média). Aquele ao banhar-se num lago é descoberto por três donzelas que o cativam para a sua senhoria, uma viúva retida no seu castelo e a definhar de uma doença que se diz apenas ser curada por um jovem belo e virgem. Aceite o desafio irá então desenrolar-se uma evolução orgíaca, a descoberta de um passado sangrento da castelã e momentos de bruxaria que desemboca num tribunal coletivo religioso com juízes (magníficas caricaturas de puritanos cheios de ruindade) que o julgará no obscurantismo da igreja com a intervenção do demónio numa luta entre o misticismo, o castigo da sujeição às tentações e a liberdade individual.
Uma narrativa onde a língua portuguesa é trabalhada com genialidade numa escrita criativa que vai da prosa à poesia com timbre medieval e textos paralelos que põem frente a frente o ocultismo da época, o erotismo e o misticimo religioso, puritano e castrador. Jorge de Sena cria uma trama que está entre um conto das mil e uma noites numa cultura cristã e um história gótica de terror e luta com a religião e o demónio, qual deles mais pernicioso ao homem e à liberdade neste contexto.
A novela, com pouco mais de 100 páginas, é seguida por uma pequena nota explicativa de Jorge de Sena sobre os mitos em causa e excertos dos dois contos medievais que serviram de inspiração a esta obra, o que permite uma compreensão mais vasta que a simples leitura da narrativa.
Uma obra diferente com insinuações eróticas tratadas na liberdade de um mundo fantástico como projeções de sonhos livres sem as inibições sociais e morais dos desejos, o que pode ferir sensibilidades, mas que me deu um enorme gozo de leitura, pela imaginação e o tratamento da língua lusa.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

"A Mulher-sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado" de Gonçalo M. Tavares


Acabei de ler o pequeno romance de personagens e acontecimentos do domínio do fantástico e dos mitos "A Mulher-sem-Cabeça e o Homem-do-Mau-Olhado" de Gonçalo M. Tavares. Uma obra que ao longo de cerca de 150 páginas que encadeia personagens e situações irrealistas descritas como normais, mesmo que absurdas, deixando-nos como se estivéssemos numa banda-desenhada ou num sonho e onde os heróis não são necessariamente benéficos nem a sobrevivência ao serviço do bem. a
Alguns relatos com um toque de terror puro mas de tal forma estranho que se torna cómico são expostos de forma fria sem sentimentos mas narrados com uma naturalidade como se vivêssemos numa sociedade apática incapaz de se chocar e onde se cruza o mundo da tecnologia, as revoltas sociais e mesmo factos históricos
Escrita é perfeita, cheia de ritmo e da frieza que caracteriza Gonçalo M. Tavares nos seus livros negros, o que me desperta um prazer de leitura que pouco escritores nacionais são capazes de conseguir, embora a obra tenha soltas pistas de reflexão não é uma obra com mensagem para além do papel lúdico e da capacidade de expor a fealdade de situações com uma beleza estilística inigualável. Gostei, mas será uma obra estranha aos olhos de muitos leitores e como se assistíssemos por dentro a uma luta de anti-heróis num pesadelo que não assusta.