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sexta-feira, 1 de maio de 2020

"Contos de São Petersburgo" de Nokolai Gogo

Acabei de ler o livro "Contos de São Petersburgo" do russo de origem ucraniana: Nikolai Gogol, um conjunto de 6 contos não muito curtos. A minha iniciativa de comprar este livro foi impulsionada pelo "O Retrato" que faz parte deste conjunto mas que já lera, gostara muito e é o mais extenso, por isso surge muitas vezes em separado. Todos situam-se na antiga capital da Rússia, deduz-se que no século XIX, época em que o escritor viveu e decorrem sempre fora do estrato social da eleite palaciana do czar, dos nobres ou dos burgueses.
Gogol escreve muito bem e ao estilo típico da literatura russa daquele século, um género de que eu gosto particularmente, mas se adorara "O Retrato", não posso dizer que me agradaram de igual modo todos os restantes contos deste conjunto. Dois deles, "A Caleche", o mais curto, e "O Nariz" são muito divertidos. O primeiro conto do livro cruza duas estórias independentes de dois cidadãos que surgem inicialmente juntos na "Avenida Névski", pelo que quase se pode dizer que são sete contos em um. Na grande maioria os protagonistas não saem bem da estória e talvez seja isso o que me deprimiu nesta coleção. "Diário de um Louco" tive pena pela saída da realidade do narrador que não entende a razão do maltrato de que é vítima e o último da série "O Capote" torturou-me mesmo ver a desgraça escalpelizada ao extremo daquele funcionário pobre, desprezado e vítima da sociedade que o abandona e o explorou.
Três contos, O Retrato, O Nariz e O Capote têm componentes surrealistas, curiosamente são nessas passagem que Gogol conseguiu divertir-me ou dar lições de moral de uma forma que me cativou e gostei, noutros momentos aprofundou descrições da cidade ou de personagens de uma forma para mim exagerada que me cansou e nalguns casos cortou o fio da narrativa. Assim, o conjunto tem momentos excelentes e um conto magnífico, mas ao longo dele não foi homogéneo o prazer da leitura.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

"A Guarda Branca" de Mikhaíl Bulgákov


"A Guarda Branca" do escritor ucraniano Mikhaíl Bulgákov conta-nos a agitação em Kiev no período de transição do regime urbano nacionalista, que declarara a independência da Ucrânia face à Rússia com o apoio dos alemães na sequência da revolução bolchevique, para o regime seguinte de índole socialista nacionalista que toma a cidade com a fuga dos germânicos na perspetiva da derrota destes na 1.ª Grande Guerra. Segundo regime que por sua vez cairá com a invasão soviética que terminará com essa desejada separação, mas que já não entra na história deste romance.
A trama passa-se com a adesão à causa nacionalista tradicional dos três irmãos Turbin, órfãos de uma família culta de vida universitária, e das vicissudes por que eles passam com a tomada da capital pelos partidários nacionalistas socialistas.
Bulgákov narra a história dos principais acontecimentos em 1918 e no início de 1919, enquanto intercala tais situações com a guerra civil, reflexões e análises dos irmãos e seus amigos militares próximos, construindo um retrato pormenorizado desta revolução em Kiev que colocou em confronto ideologias tradicionais e revolucionários à sombra da ameaça externa bolchevique e imperialista da Rússia. Fica claro o dilema deste país encaixado entre as aspirações germânicas e russas, sendo a Ucrânia uma vítima dos interesses das potências vizinhas adversárias também ideologicamente.
A narrativa é algo tumultuosa, uma vez que o estilo de Bulgákov mistura situações caóticas no terreno, pesadelos, reflexões, alucinações e simbolismos junto com a passagem rápidas de personagens reais e fictícias relacionadas com a guerra, contudo a percepção do que terá sido este ano revolucionário fica bem patente na estória, a que se junta o facto de ter sido escrito num período onde a censura estalinista obriga a subtilezas em muitas passagens.
Gostei sobretudo pela informação histórica que esta ficção permite e ainda por mostrar os maiores dilemas da Ucrânia de hoje em dia entre o desejo de se aproximar do Ocidente e a vontade da Rússia em ter este País sob a sua influência, além dos nacionalismos ocos entre povos que habitam o mesmo espaço.


sábado, 26 de janeiro de 2019

Contos de Clarice Lispector


Este livro contém 61 contos daquela que é uma das principais artífices da escrita em língua portuguesa de todos os escritores de expressão lusa no século XX: a brasileira Clarice Lispector, nascida na Ucrânia. Este conjunto tem contos de extensão variada e só não reúne os que foram publicados pela primeira vez sob o título de obra "Laços de Família", pelo que poderíamos dizer que é uma coletânea de quase todos os contos desta autora.
Os contos não são uniformes em termos de extensão: vão de apenas uma única página até próximo da trintena; as temáticas são diversas, desde questões sociais, infância, problemas da degeneração pela velhice e indo até aos desejos corporais mais básicos; e o estilo de escrita é diversificado, até porque entre os mais antigos e os mais recentes há um espaço temporal de mais de três décadas, contudo todos estão excelentemente escritos, uns numa linguagem linear simples, como "Viagem a Petrópolis", outros com monólogos interiores e fluxo da consciência com técnicas modernistas que requerem um certo esforço para a compreensão da narrativa "Seco estudo de cavalos". Também não posso dizer que gostei de todos igualmente, uns deram-me grande prazer de ler, outros não tanto e alguns até foi com sacrifício que concluí a sua leitura.
Nesta coletânea, os contos estão arrumados e sequenciados de acordo com os livros em que foram inicialmente publicados, ao todo cinco, sendo evidente que a harmonia dentro destes conjuntos é maior que o todo, mas o que mais destaco é a mestria do domínio da escrita e da língua, alguns textos serão morais, outros amorais e até alguns por vezes a roçar o imoral ou a expor os íntimos desejos de uma mulher como os que foram publicados em "A via crucis do corpo", talvez os mais fáceis mas que gostei menos.
Antes apenas lera o romance/novela "A paixão segundo G. H." que adorara, alguns contos retomam o estilo e as obsessões: baratas, cabelos ruivos, náuseas animais e deambulações em torno de pormenores. Esta leitura serviu sobretudo para admirar a genialidade da escrita.