quarta-feira, 25 de novembro de 2020

"As aventuras de Augie March" de Saul Bellow

 
Acabei de ler o romance "As Aventuras de Augie March" do escritor nascido no Canadá que adquiriu a nacionalidade Norte-americana e vencedor do prémio Nobel da Literatura.
A obra é a autobiografia de Augie que a narra desde criança, quando viveu num bairro pobre de Chicago na década de 1920, até homem estabelecido socialmente e a viver no centro de Paris. Filho de mãe abandonada, com um irmão mais velho e outro mais novo com atraso mental e a partilhar o apartamento com uma anciã aristocrata fugida à revolução russa, ali acolhida para suportar os encargos da família carecida de dinheiro. Do amor à mãe lutadora aos conselhos da idosa autoritária que reconhece potencial nos irmãos mais velhos, o protagonista desenvolve a vontade de viver entre gente rica mas sem perder a sua liberdade individual. O seu aspeto atraente conjugado com o ar de filho abandonado inspiram os endinheirados a acolhê-lo e a adotarem-no, algo não muito diferente ocorre ao nível de mulheres bonitas. Numa vida comparada com a do irmão, que sobe mais rápido acomodado às exigências dos objetivos, Augie, além dos passos rebeldes da infância de bairro, segue uma luta de resistência aos seus protetores sempre que implique cedências pessoais, desperdiçando oportunidades flagrantes na sua alma rebelde à subserviência e por vezes passando por situações arriscadas com a lei, com a vida e com os seus grandes amores, mas sem nunca se desligar da necessidade de proteger as fragilidade do irmão mais novo e da mãe que vai cegando.
As aventura e desventuras de Augie são magníficas. Os retratos de Chicago pobre, do pequeno banditismo, dos efeitos da depressão e do modo de criação de fortuna em certas famílias são excelentes. O exotismo de certas personagens e das cenas passadas no México é fabuloso. Além das numerosas referências à cultura clássica e a personalidade da história da Europa e da América numa coletânea que demonstra o elevado nível cultural do autor. Todavia, o texto muitas vezes estende-se por numerosos pormenores e uma adjetivação excessiva que para mim o tornou demasiado extenso, nalguns momentos mesmo fastidioso de tão prolixo.
Por tudo isto, apesar de ser uma excelente história, confesso que para mim teria sido um magnífico romance se o autor tivesse tido a vontade de sintetizar e de cortar os excessos para que as mais de 700 páginas em letra miúda tivessem passado a cerca de 500 com uma dimensão agradável à leitura. Um bom romance que sei de leitores que desistiram cedo e por isso perderam muitas destas excelentes aventuras, mas a obra exige mesmo alguma resistência ao exagero de palavras.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

"A Nuvem de Smog e a Formiga Argentina" de Italo Calvino

 

Li "A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina" do italiano Italo Calvino, um livro constituído por dois contos que precisamente formam o seu título.

Apesar de diferente, ambos os contos evidenciam um desequilíbrio incómodo com a natureza envolvente, a obra tem o subtítulo de "Uma narrativa lírico-simbólica da relação de um homem com uma realidade" e, de facto, ambas narrativas são algo absurdas e narradas por um personagem masculino.

No primeiro conto, o narrador vem para uma cidade liderar o projeto jornalístico do trabalho de uma empresa em prol da melhoria da qualidade do ar, sendo que o seu gestor integra a de outra poluidora da atmosfera. O jovem vai aprendendo a arte de comunicar em conformidade com os objetivos do empregador, sendo que em paralelo observa o smog e o pó que conspurca tudo sobre a cidade, descobre a vida no bairro onde mora. Entretanto mantém uma relação com uma apaixonada rica que o visita, mas que vive fora da realidade do mundo do cidadão comum, com o avançar ele descobre um mundo de limpeza.

No segundo, uma família vem viver para uma cidade e descobre que a sua zona é dominada pela formiga argentina, esta tende a ocupar todos os espaços livres  e na luta do marido este descobre  um conjunto de vizinhos que vivem obcecados nessa guerra, embora cada um de forma distinta e por vezes com métodos contraditórios, havendo ainda quem renegue ver o problema por orgulho, para um final encontram um local onde gozam a ausência do novo inimigo.

Gostei do livro, embora os contos nos deixem algo incomodados, a obra evidencia que já na década de 1950 o autor se questionava sobre problemas do ambiente e os interesses que permitiam alastrá-los.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

"As Dez Figuras Negras" de Agatha Christie

 

Acabei de ler o romance de suspense, mistério e terror de Agatha Christie "As Dez Figuras Negras". Dez pessoas que não se convivem entre si são convidadas por um desconhecido a passar uma semana na ilha do Negro de que ele é proprietário e a curiosidade leva-as aceitar. Chegadas ao destino descobrem que o anfitrião não está. No quarto de cada um está a lengalenga dos 10 negrinhos que vão sucessivamente desaparecendo. Na primeira refeição são sujeitas a uma voz que as acusa individualmente de terem provocado a morte de alguém inocente devidamente identificado e são questionadas se têm alguma coisa a dizer em sua defesa. Após negações de uns e confirmações de outros, o comum é que nenhuma fora condenado pela justiça e decidem desistir da estadia, mas ficam isoladas pelo mau tempo enquanto vão acontecendo mortes que seguem o registo do texto dos 10 negrinhos. O terror vai-se instalando e a desconfiança sobre quem entre eles é o assassino até chegarmos às últimas vítimas.

Este é um dos enredos mais elaborados e imaginativos que já li na obra de Agatha Christie, bem escrito e com os pormenores muito bem articulados, num último capítulo percebemos como a estratégia foi montada, por quem e levada a cabo com o objetivo justiceiro de culpados cuja justiça não conseguia condenar. Gostei mesmo muito deste romance, foi do melhor que já li no género de suspense e terror sem nada de sobrenatural ou irracional. Recomendo.