sábado, 15 de fevereiro de 2020

"Watt" de Samuel Beckett

Acabei de ler o livro "Watt" do irlandês, laureado com o prémio Nobel, Samuel Beckett. Como já conheço outras obras deste autor, tanto de teatro como romance, já sabia que era um escritor com narrativas de situações absurdas a que se junta uma escrita criativa, aspeto que o distingue em muito de Kafka: onde há uma evolução consistente dentro de uma realidade estranha e um texto sem experimentações livres da sintaxe ou da morfologia.
O romance tem 4 partes. A primeira começa a assemelhar-se a um ato de teatro com diálogos como uma encenação que introduz Watt a partir de um banco de jardim de onde as personagens o estariam a ver carregado de bagagem e fora de cena. Os primeiros pormenores absurdos já despontam aqui. Segue-se a viagem de Watt num comboio com outra personagem e um diálogo estranho, depois a descrição do percurso a pé até a casa de Knott e a sua entrada nesta onde ouve o empregado que está de saída que ele vai substituir e o absurdo vai num crescendo.
O segundo e terceiro capítulos descrevem a vida e as observações de Watt como serviçal e em duas posições distintas. Tomamos conhecimento das rotinas em casa de Knott, que nunca intervém, e dos seus absurdos associados e de todas as combinações possíveis, envolvendo personagens estranhas, para assegurar tais tarefas por tempo indeterminado.
A quarta parte corresponde ao fim da estada em casa de Knott e o regresso à estação de comboio e o absurdo intromete-se na sequência dos acontecimentos. Há ainda uma adenda com complementos a parágrafos ou situações respeitantes aos anteriores capítulos que não acrescentam nada de lógico.
Enquanto se avança no livro, a liberdade criativa da escrita aumenta, juntando ao absurdo variações da mesma, ora ao nível de articulações das frases, ora de situações, ora de combinações e repetições (por vezes de grande extensão) e também a organizar o texto em forma de pauta polifónica, em verso e, nalguns casos, com omissões e erros que se percebem ser intencionais.
Existem momentos hilariantes, outros monótonos e até mesmo irritantes. Uma tristeza que atravessa toda a obra, quer pela solidão e pobreza de Watt, quer pelo desencontro de personagens e ainda em virtude destas frequentemente serem portadoras de alguma deficiência: física, psicológica ou carência emocional e financeira que as torna feias, porcas, mas não más.
Um livro bem diferente, por vezes divertido, mas noutros de difícil leitura cujo absurdo o torna incompreensível. Diz-se que Beckett usou a escrita criativa de Watt como uma forma de escapar à loucura quando estava escondido do nazismo em França. Contudo, eu não consegui parar de ler e diverti-me muito em alguns momentos da narrativas, noutros foi mesmo sofrido.


segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

"A verdade sobre o caso Harry Quebert" de Joël Dickers


Terminei a leitura do romance de suspense e policial "A verdade sobre o caso Harry Quebert" do suíço francófono Joël Dickers. Um livro vencedor de numerosos prémios literários: Prix de la Vocation Bleustein-Blanchet, o Grande Prémio do Romance da Academia Francesa, o Prémio Goncourt des Lycéens e o prémio da revista Lire para Melhor Romance em língua francesa. Na generalidade está-se perante uma obra essencialmente de entretimento, mas com uma trama bem elaborada, uma escrita literária cuidada além da investigação criminal. Em paralelo mostra a pressão  que por questões de mercado o mundo editorial atual exerce sobre os escritores, as angústias do autor e as táticas de promoção em que estes se veem embrulhados por quem coloca os livros no mercado. Assim, estamos perante um livro que discute as angústias dos escritores com obras de sucesso.
Em 1975 Nola é vista a ser perseguida e pouco depois dá-se o homicídio da testemunha e o desaparecimento da moça. Mais de trinta anos depois Marcus, um jovem escritor cuja primeira obra foi um sucesso que se atolou no gozo da fama, sente-se sem inspiração e é pressionado pelo editor pela obrigação de fazer um segundo livro. Decide socorrer-se do seu antigo professor, Harry Quebert, que já teve uma obra de sucesso e o ensinou a ser autor, mas de repente algo leva a que o seu mentor se torne suspeito de ser o criminoso de Nola. Parte então para a cidade de Aurora para demonstrar a inocência do seu amigo, mas o caso não é simples: uma antiga relação amorosa com uma menor, o envolvimento de um grandes empresário, provas contraditórias que apontam para Harry, além de muitas feridas de relações de ódios e ciúme antigos e investigações policiais viciadas complicam tudo. Em paralelo a comunicação social propaga estes escândalos a todos os Estados Unidos. Marcus vê-se com a ajuda de um polícia estadual numa sucessão de descobertas chocantes e reviravoltas que nos vão surpreendendo até ao final do romance, enquanto a editora quer o máximo proveito da situação com a exposição pública de Marcus só sanável com o cumprimento contratual de escrita de um livro que deverá explicar toda a verdade e descobertas. A pressão da investigação e da publicação cruzam-se num universo de escritores modelos que também são capazes de atos condenáveis.
A obra deixa-nos quase sempre em suspense e a ser surpreendido até ao fim e apesar do género policial está cuidadosamente escrita e pontuada com numerosas reflexões sobre a escrita literária e as ambições editoriais que desrespeitam a arte e o interesse público. Fácil leitura e recomendo a qualquer tipo de leitor.

domingo, 2 de fevereiro de 2020

"Bilhar às Nove e Meia" de Heinrich Böll


Citação
"nem mesmo os assassinos eram sempre assassinos, não o eram a todas as horas do dia e da noite, havia a hora de descanso do assassino, como havia o período de descanso dos ferroviários;"

Li "Bilhar às nove e meia" do alemão Heinrich Böll, prémio Nobel da literatura de 1972, um romance que mostra o sofrimento de alemães do início do século XX até 1958. Cidadãos pacifistas ou não subservientes ao regime ditatorial e vítimas de duas guerras, bem como as feridas psicológicas que ficaram após o termo da última.
A ação decorre ao longo do dia 6 de setembro de 1958, mas com recordações narradas desde 1907 em torno dos membros de três gerações de Fähmel: Heinrich, Robert e Joseph; pai, filho e neto, todos arquitetos e com papel ativo  na abadia de Santo António perto de Colónia; as mulheres dos dois primeiros, a namorada do último e sua irmã, a que se juntam amigos e inimigos nas questões de regime e das guerras, tendo Heinrich perdido 6 dos seus sete filhos neste meio século.
Tudo começa por uma transgressão da secretária de Robert, instruída para só o interromper entre as 9 e meia e as 11h se os envolvidos fossem o pai, a mãe, o filho, a filha ou o sr. Schrella que ela desconhece. O patrão repreende-a e Heinrich acalma-a e convida-a para o seu aniversário naquele dia. Descobre-se que às 9 e meia Robert se fecha num hotel para jogar bilhar, uma fuga para recuperar dos traumas do passado. Aos poucos entramos nas memórias de cada um e vai-se tomando conhecimento da difícil história dos Fähmel, iniciada na juventude do provinciano Heinrich após a vitória no concurso, perante consagrados arquitetos, para a construção de uma abadia, o que lhe permitiu riqueza e casamento na cidade com a filha de Kilb.
Três gerações de pessoas onde uns adotaram o caminho da paz: os filhos do cordeiro; e outros optaram pelo oposto e comeram: o sacramento do búfalo que perseguiram os primeiros e mataram. A história decorre em 1959 à sombra da torre de São Seferino o passado é marcado pela construção, destruição e reconstrução da abadia sempre com a intervenção dos arquitetos Fähmel e só para a festa de aniversário no fim de 6 de setembro o Sr. Schrella se encontra com Robert.
A escrita por vezes é rica de diálogos e essas páginas são muito fáceis, mas as narrativas do passado são constituídas por parágrafos muito extensos com conteúdo de difícil apreensão e cheios de simbolismos e referências cristãs, onde as memórias que fluem e se intercalam para completar o passado como peças de um puzzle que se vai montando. Cada capítulo centra-se numa personagem e suas memórias face ao presente; já depois da guerra, da ditadura e dos lobos vestirem pele de cordeiros e manterem-se no poder com dolorosos efeitos nas vítimas.
Sem dúvida um romance muito denso, rico de conteúdo e com páginas difíceis que despertam interesse em descobrir o que escondem das feridas e atos loucos. Gostei de ler, recomendo a quem gosta de textos que dão alguma luta enquanto oferecem reflexões sobre as questões da sobrevivência do bem perante o mal que grassa na sociedade.