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terça-feira, 14 de julho de 2026

"O Periférico" de Wlliam Gibson

 

Excerto

"- Disseste que era um controlador de jogo.

- Interface de telepresença, de mãos livres."

Regressei à leitura de ficção científica, agora com "O Periférico", publicado em 2014, e pela segunda, vez com um livro do américo-canadiano William Gibson e o seu estilo literário cyberpunk, de imersão e ficção especulativa.

Num futuro próximo, os Estados Unidos estão mais dominados por gangues de droga, a vida mais artificial, muitos bens são feitos em impressoras 3D e crescem os implantes cibernéticos, Burton, ex-militar, vive do visionamento de novos jogos da internet e ao necessitar de sair pede à irmã Flynne para o substituir num novo, na sessão ela assiste à morte de uma personagem, mas depois começa a ser ameaçada na realidade e descobre que o jogo comunica com um futuro do fim do século em Londres e assistiu a um homicídio real. Ela é única testemunha e nesse futuro há gente que quer resolver o crime e garantir um futuro melhor à geração de Flynne, outros não, o que origina um policial em duas épocas num sistema comunicacional passado-futuro, onde as personagens podem estar em simultâneo em dois momentos e lugares num thriller que cruza os tempos.

Apesar de notar evolução no escritor face a Neuromancer, de 1984, é opção de Gibson atirar o leitor para um meio onde realidade e virtual, tecnologia, especulação científica e neologismos se misturam, em que é difícil inicialmente situarmo-nos, embora já entrosado na narrativa, após várias dezenas de páginas, tal como anteriormente fiz com este autor, comecei a questionar com IA sobre a obra, localizando-me no ponto de leitura, e esta, sem revelar conteúdos posteriores, esclarecia, discutia ideias filosóficas do escritor e na discussão a obra alargou-se, uma espécie de literatura aumentada.

É uma trama engenhosa, Gibson não transcende as leis da física, mas especula e diverte-se com teorias científicas levadas ao extremo (foi impressionante quando por mim quando vi como resolveu o paradoxo do neto que mata o avô antes do pai nascer sem se referir ao mesmo) por vezes as passagens parecem paródias circense, mas desengane-se quem pensa que se está numa obra de mero entretenimento: a narrativa alerta para os riscos da evolução da tecnologia sem humanismo, expõe o problema ambiental global, faz uma crítica mordaz sobre as tendências do capitalismo, mostra a desigualdade da justiça entre pobres e poderosos, os primeiros são vítimas e os segundos manipuladores desta sociedade com a política posta ao seu serviço, aspetos que se tornam ainda mais evidentes no modo de leitura aumentada que adotei, mas Gibson consegue tudo isto num policial que diverte e alerta o leitor.

Para quem nunca leu o género cyberpunk imersivo o autor pode sentir-se perdido inicialmente, se continuar desorientado, pode ser questionar uma IA (usei gemini) e então toda a grandeza da obra flui e o suspense de um policial tornam o  romance cativante. Gostei muito

terça-feira, 12 de maio de 2026

"Neuromancer" de William Gibson

 

Estreei-me no escritor canadiano por adoção e natural dos Estados Unidos, William Gibson, com a leitura do seu romance mais famoso "Neuromancer", que popularizou o termo ciberespaço. Obra publicada em 1984, marcou o estilo cyberpunk da literatura de ficção-científica e foi vencedor de dois galardões literários mais reconhecidos deste género de ficção: os prémios Nebula e Philip K. Dick, sendo que o autor também já ganhou um Hugo na trilogia iniciada por Neuromancer e serviu de inspiração ao argumento da tetralogia dos filmes de ficção-científica Matrix, embora com um enredo muito diferente.

Case vive na megacidade de Boston a Atlanta: Sprawl; nela abundam bares com tráfico de droga, álcool, violência de gangues e prostituição que ele frequenta. Case possui componentes informáticas incorporadas no seu organismo e é um hacker que interceta software do ciberespaço para patrões maiores, quando à revelia vende dados a outro bando, é castigado com injeção de uma toxina que lhe impede a sua profissão, entretanto a sua namorada é assassinada. Na sua fragilidade, surge-lhe Molly, uma mulher cyborg que lhe apresenta Armitage que lhe promete a cura em troca de participar no apoio a um assalto que pretende roubar a memória do seu antigo formador de pirata informático a uma base de dados. Só depois descobre que a aceitação tem uma condicionante que o torna refém de um projeto que envolve um guerra vasta entre gigantes informáticos, uma Inteligência Artificial (IA) e um impérío de luxo com uma estância espacial para gente rica, onde ele e Molly formam uma dupla que enfrentam numerosos perigos tanto no mundo real como virtual nos quais vivem.

O início da leitura foi um murro no estômago, não só pelo mundo decadente por onde Case andava, como pela gíria criada por Gibson e ainda a dificuldade em começar a distinguir o que era o real, virtual, personagens físicas e IA, tudo isto flui interligado no texto, cabendo ao leitor situar-se. Confesso que ao fim de umas dezenas de páginas comecei a perder-me e então entrei num aplicativo de IA e fiz duas ou três questões, voltei a reler alguns parágrafos e eis que se fez luz sobre a técnica narrativa, estilo de escrita. O livro tem também um glossário para a gíria utilizada.

Igualmente tem um prefácio de Gibson escrito em 2004, onde fica claro que este foi um futuro imaginado em 1984, quando muito do criado já era bem real: o ciberespaço, IA,  realidade virtual, enquanto outras realidades, nem ele tinha imaginado: telemóveis (celulares), o fim dos modems e por isso temos momentos absurdos de busca de cabines telefónicas, os ruídos da ligação por modem, etc. Para tornou-se divertido na leitura ver estes avanços tecnológicos não considerados na obra com tantas outras invenções e a sobrevivência de outras tecnologias já hoje praticamente extintas.

Se gostei, sim, muito, a partir de certo momento já me sentia envolvido como num obra de espionagem e suspense, mas não é uma leitura simples e fácil, mas permite experimentar algo diferente, a partilha das minhas dúvidas com a IA gerou uma realidade nova, próxima da do livro, e espero voltar ao autor numa outra obra bem mais recente, fora da trilogia para ver como evoluiu.

segunda-feira, 13 de abril de 2026

"A Morte Eterna" de Liu Cixin

 

Citações

"A era da liberdade decadente da humanidade chegou ao fim. Se quiserem sobreviver, têm de reaprender o coletivismo e recuperar a dignidade da vossa espécie."

"Perder a nossa humanidade é perder muito; perder a nossa ferocidade é perder tudo."

"por duas vezes, em nome do amor, fez o mundo mergulhar no abismo."

Acabei de ler "A Morte Eterna" do chinês Liu Cixin que corresponde ao terceiro volume da Trilogia "O Passado do Planeta Terra", iniciada com "O problema dos três corpos".

A história estende-se por várias eras, inicia-se com um evento associado à queda de Constantinopla e só depois entram os protagonistas, na sua grande maioria diferentes dos anteriores volumes, este é o mais extenso e, cientificamente, o mais especulativo dos três romances. A narrativa recomeça na "Era da Crise" quando a humanidade está refém dos trisolarianos, que controlam os resultados das experiências de mecânica quântica para a humanidade não evoluir tecnologicamente e assim a civilização alienígena poder tomar a Terra, era em que os humanos procuram lançar uma nave para alerta da iminência do ataque de Trisolaris. 

As personagens principais - através da hibernação para as pessoas acordarem quando puderem ser curadas de doenças incuráveis ou para acompanhar projetos científicos e políticos de primordial importância de longa duração - sobrevivem a diferentes eras, a segunda era corresponde à da "Dissuasão", iniciada no final do romance "A Floresta Sombria", quando Luo Ji tomou o controlo da situação que trava o invasor e se descobre que o Universo é um mundo hostil, ideia que se impõe ao longo de quase toda a obra que decorre por milhões de anos com viagens relativas no tempo.

Ao longo das eras fica evidente a necessidade de sobrevivência face à ameaça do cosmos, assiste-se a períodos de crescimento socieconómico e tecnológico dos humanos que são acompanhados por "desmasculinização" dos homens, comodismo e valorização do pacifismo contra opções determinadas e duras, uma evolução catastrófica para a civilização. Esta, no início está limitada à Terra, depois expande-se à sua volta, passa para o sistema solar, até perder a sua origem por o humanismo se sobrepor à ferocidade dissuasora defensiva e sobrevive no espaço galático pela sua racionalidade.

A última parte passa-se milhões de anos depois, é poética e cientificamente muito especulativa, parece ser um antídoto à filosofia reinante em quase toda a obra, onde o instinto duro e racional era crucial à sobrevivência face ao sentimentalismo desejado pelo coração humano confortado no bem-estar.

A obra desenvolve na narrativa os mesmos princípios filosóficos d'A Floresta Sombria, mas pouco traz de novo. Mostra eras onde a riqueza, o bem estar e o conforto são vias para o conformismo, a decadência e a sobrevalorização da bondade em detrimento das opções duras e racionais para assegurar a sobrevivência da civilização, parece ser uma crítica ao liberalismo democrático ocidental assente no aumento do consumo, do sentimentalismo e com uma tolerância cega a comportamentos individuais.

O livro tem passagens como o fim da era dissuasão, a era dos bunkers e o fim desta, que são desenvolvidas de uma forma muito cinematográfica excelentes para filmes de Hollywood, incluindo as experiências nas naves espaciais, a arquitetura futura e as bolsas em diferentes dimensões físicas, nestas, a especulação científica é extrema e com explicações das novas descobertas, onde o leitor se apercebe que se está a ultrapassar as leis da física atuais, que até são discutidas como armas civilizacionais.

O autor continua a mostrar um fascínio pelo pensamento, arte e cultura europeia, com referências muito interessantes, sem esconder a chinesa. Vê o desenvolvimento global de uma forma multipolar: América do Norte, Europa e China, mas é omisso sobre a América Latina e África, soa-me preconceituoso.

Gostei do terceiro volume, mas sem me surpreender tanto pela positiva como os dois anteriores romances, tem passagens excessivamente pormenorizados que até me cansaram, outras de grande intensidade e suspense, mas a necessidade do antídoto final para valorizar o amor em detrimento da racionalidade nua e crua para a sobrevivência senti-a como uma cedência gratuita aos valores do humanismo para agradar ao leitor e confesso que só recorrendo à IA percebi que o acontecimento na época da queda de Constantinopla se relacionava com Cortazar, algo rebuscado de facto... 

Apesar de menos cativado com este volume, continuo motivado para mais leituras do género da ficção-científica.

terça-feira, 10 de março de 2026

"A Floresta Sombria" de Liu Cixin

 

Axiomas Iniciais

"a sobrevivência é a necessidade primordial de uma civilização"

"uma civilização cresce e expande-se continuamente, mas a quantidade de matéria no universo nunca se altera."

Ao ler "O problemas dos três corpos", do chinês Liu Cixin - obra de ficção científica que se tornou no primeiro romance da trilogia "O Passado do Planeta Terra" (apesar da história partir de meados do século XX, passar pelo presente e evoluir vários séculos para o futuro) - compreendi o seu sucesso no seu género literário, decidi ler os volumes seguintes e acabei de ler o segundo: "A Floresta Sombria".

A narrativa deste parte da exposição dos dois axiomas, este é um romance mais filosófico e menos centrado na física que o anterior, dividindo-se em duas épocas: a primeira dá continuidade ao volume anterior no início do século XXI e após o choque da divulgação do contacto com a civilização alienígena Trisolaris, a possibilidade desta chegar à Terra em quatrocentos anos e a ameaça de aniquilar a humanidade para aqui se estabelecer. Os protagonistas agora são quase todos diferentes. Assistimos ao surgir de vários movimentos sociais: os gerados pelo pânico da proximidade do fim, os humanistas ingénuos pela bondade que acreditam na coexistência pacífica, as Nações Unidas a buscar uma estratégia de sobrevivência ao embate com uma cultura mais avançada e os cientistas de várias áreas em busca de soluções para enfrentar o inimigo, mas há duas condicionantes:

1 - os alienígenas tem acesso a toda a informação do que se faz na Terra, só não acedem ao pensamento humano, o que leva ao Projeto Clausura com a nomeação de 4 humanos com poderes totais para cada um, secretamente, elaborar uma estratégia de salvação e os trisolarianos selecionam 3 pessoas para descobrirem os segredos (disruptores), desvalorizando Luo Ji, um astrónomo hedonista e excêntrico, mas o único que conhece os axiomas que não compreende e sabe as regras de derivação dadas pela mulher que estabeleceu o primeiro contacto extraterrestre, mas só pensa em tirar proveito do seu estatuto; e

2 - Os trisolarianos manipulam através dos cognis que enviaram para a Terra as experiências de mecânica quântica de modo a humanidade não evoluir científica e tecnologicamente.

A segunda época decorre dois séculos depois e, devido à descoberta da técnica de hibernação, alguns dos protagonistas voltam a acordar para concluir os planos dos enclausurados e enfrentar a ameaça dos trissolários, mas todos ficam desacreditados. Só que se entrou numa época em que a tecnologia evoluiu  para uma sociedade com grande conforto e deslumbrada do seu sucesso e bem-estar que se considera capaz de vencer o combate do Juízo Final com os Trisolaris. A humanidade vive em grande parte do Sistema Solar, tem frotas com naves de grandes dimensões e vida autónoma das aglomerações das nações em terra, todos possuem armamento nuclear de ponta, até à chegada da primeira sonda que põe a nu o grande fosso tecnológico imposto pelos cognis ao nível de física das partículas. O pânico instala-se e o combate é depois autodestrutivo, só Luo Ji percebe o porquê e é capaz de levar avante uma estratégia de controlo da situação, partindo de um ato seu que parecia tresloucado na primeira época como enclausurado.

Não sei chinês para comentar a escrita original de Liu Cixin, sei que a tradução direta do original para o português europeu tem uma grande qualidade literária. O escritor traz para a ficção científica a discussão de grandes questões filosóficas da humanidade, o que para muitos só seria aceitável nas grande narrativas de ficção tradicional, eleva o seu género literário ao das grandes obras de literatura mundial e, ao optar por condicionar grande parte da sua criatividade às limitações das leis das ciências, torna a sua narrativa muito mais credível e interessante. Num estilo totalmente diferente, "A Floresta Sombria" não me é menos marcante que "Os Demónios" de Dostoiévski, o lado negro que parece estar no interior de cada humano, afinal pode ser apenas uma necessidade. Parte do romance parece ter raízes em "A Laranja Mecânica" de Burgess, outra obra-prima fora das narrativas tradicionais.

O escritor não é benevolente com a humanidade, intencionalmente traz ao de cima um fundo sombrio no Homem, os axiomas da obra podem não ser verdadeiros, mas podem ser e, se o forem, o sonho de tentar comunicar com seres inteligentes extraterrestres pode virar a um pesadelo de consequências catastróficas.

Liu Cixin é um escritor chinês conhecedor da cultura ocidental, existem referências frequentes nos dois volumes a grandes personalidades e pensamentos ocidentais miscegenados com a autores e história da China, tornando-se numa obra literária com raízes globais.

Apesar da vasta cultura, menções e ideias profundas, Liu Cixin consegue uma narrativa que tanto pode manter a atenção de leitores que apenas leem na perspetiva de entretenimento fácil e suspense, existem passagens que quase parecem fazer parte de uma obra literatura barata, como levar leitores a refletir e a discutir as questões filosóficas e científicas semeadas na história, tornando-se num romance inclusivo para vários tipos de leitor, provenientes de culturas diferentes e por isso uma obra-prima.

Para já e ainda em estado de surpresa pelo conjunto destes dois romances, comecei a leitura do terceiro volume da trilogia, sabendo que há sempre o risco de desilusão depois de se ter estado num patamar elevado.

Citações

"Neste momento, o maior obstáculo à sobrevivência da humanidade é a própria humanidade"

"Haja civilização no tempo e não tempo na civilização"

"A escuridão é a mãe da vida e civilização."

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

"O Problema dos Três Corpos" de Liu Cixin

Citação

 "Se surgir o caos ao nível do pensamento, a ciência acaba."

Voltei à leitura de ficção científica, um género literário, tal como o policial, que é muitas vezes desprezado face às narrativas com tramas mais ou menos convencionais, mas onde cabem obras-primas de imaginação e qualidade literária. A busca de algo diferente e interessante levou-me a procurar obras recentes de ficção científica já de reconhecida qualidade por leitores e críticos. Neste conjunto encontrava-se "O Problema dos Três Corpos", do chinês Liu Cixin, prémio Hugo (atribuído por leitores do género) em 2015 e finalista do prémio Nebula (selecionado por críticos literários), além de prémios nacionais. Na escolha deparei-me com uma obra-prima que conjuga especulação científica com rigor, filosofia com entretenimento, análise social do início do século XXI com imaginação sobre outros mundos e o possível impacte do contacto entre a nossa realidade e uma civilização extraterrestre.

A trama desenvolve-se em três partes, a primeira inicia-se com o choque psicológico da investigadora astrofísica Ye Wenjie, sobrevivente de um ato de violência da Revolução Cultural na China em 1967. A segunda, o seu acolhimento e trabalho numa base secreta isolada de monitorização de sinais de rádio terrestres ou vindos do exterior devido à sua especialidade científica, na sua amargura e isolamento alimenta o ódio pela civilização humana, na sequência da emissão de um sinal para fora do planeta surpreende-se, anos depois, com uma resposta e um alerta de precaução para a sua civilização não ser localizada por uma do exterior, que poderia destruir a humanidade, mas a sua revolta leva a secretamente agir em desfavor do ser humano.

A terceira parte tem outro protagonista e é nos nossos dias. Ocorrências estranhas desfazem leis da física, a perturbação do trabalho de Wang Miao em nanomateriais leva-o a procurar respostas junto de cientistas e a encontrar Ye Wenjie, todavia as perturbações da ciência já levaram ao suicídio de investigadores de ponta e Miao vê-se envolvido num trabalho policial que envolve o exército e todas as superpotências mundiais na busca de explicações para o que está a acontecer. É então levado a entrar num jogo de computador imersivo do surgimento e destruição de uma civilização de um exoplaneta com três sois, devido ao problema matemático de estimar as trajetórias destes três corpos para calendarizar a vida desses alienígenas. Com o tempo, torna-se evidente a correlação de tudo o que está a acontecer e tem a interferência dos Trissolários que usam o jogo para criar condições para ocupar a Terra na sequência do antigo contacto, havendo já uma multidão organizada disposta a acolher esses estranhos por desânimo com a civilização terrena, mas esta só chegará num futuro longínquo devido à limitação de viajar à velocidade da luz.

A obra tem um suporte inicial de grande rigor científico para no fim especular conhecimentos e tecnologias quando se retrata a civilização Trisolaris fora do jogo e com aspetos que são de pura criatividade e muito cinematográficas para passarem a filme e série de TV. Esta evolução a partir do rigor dá credibilidade à narrativa e apesar de falar de leis da física, a história não exige ser um técnico, qualquer pessoa percebe a exposição e as questões, mas ser de ciências dá um certo gozo.

Paralelamente, existem pelo meio várias interrogações filosóficas, a mais forte a do ser humano desiludido e revoltado destruir a sua civilização como retaliação (Atwood fez o mesmo em Orix and Crex), a existência de crentes na salvação externa, a necessidade de cooperação internacional para proteger a humanidade, será possível o Homem sobreviver ao choque de contacto com cultura extraterrestre? Esta dúvida esta brilhantemente colocada perto do final com gafanhotos e Liu Cixin tem assunto para dissertar nos romances seguintes que deram origem a uma trilogia "O Passado do Planeta Terra" que aguardo receber os próximos volumes para ler.

Gostei muito e recomendo a qualquer leitor que goste de narrativas bem contadas, bem escritas, fáceis de ler que especulem sobre a ciência e esta humanidade.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

"O ASSASSINO CEGO" de Margaret Atwood

 

Reli o romance "O Assassino Cego", vencedor do Booker Prize de 2000, da minha escritora canadiana favorita: Margaret Atwood, embora a primeira leitura, há já quase duas décadas, tenha sido no original em inglês, livro que possuo ainda e permitiu-me algumas comparações entre as duas versões, concluído que este é uma boa tradução para  português.

O romance inicia-se com a recordação da octogenária Iris Chase do acidente de carro de sua irmã Laura poucos dias após o termo da II Grande Guerra Mundial, estando Iris consciente que se tratou então de um suicídio. A partir desta memória com uma fotografia na mão, ela reconstitui a história da sua família e da sua vida: a vida na sua cidade natal no sudoeste de Ontário, os seus antepassados, a relação com o seu pai veterano da primeira guerra e industrial decadente, as razões do seu casamento e os litígios com a família do marido cheio de ambições políticas, a retirada da sua filha, o com foco no facto de, na sequência da morte de Laura, Iris ter publicado um livro que aquela teria deixado manuscrito, onde narra uma relação secreta de amantes com encontros em locais escondidos e que se supõe ser ela com um amigo comum de ambas as irmãs. Na intimidade os dois montavam uma história de ficção científica numa sociedade distópica, passada no planeta Zycron, onde um cego vem a ser incumbido de matar o rei de uma cidade-estado, enquanto em paralelo se preparava uma invasão externa por um povo bárbaro. Em paralelo esta narrativa será uma descoberta do amor pelo assassino e o romance tornou-se num grande sucesso, sinal de emancipação feminina e Laura um símbolo para futuras gerações de mulheres, enquanto Laura se se deixou de fora deste fenómeno literário e libertário.

Um romance que é uma matrioska russa de histórias, onde - sobre um cenário que é a história socioeconómica do Canadá, o modo de viver de uma pequena cidade do Ontário e o evoluir das mentalidades ao longo do século XX neste país - se projeta a vida de uma mulher da classe média alta provinciana com os seus temores e sujeita aos preconceitos do mundo que a rodeava, que por sua vez são transpostos para a vida da sua irmã e em seguida refletidos num romance que seria o alter ego desta, onde o amor é gozado plenamente e os anseios da juventude e os seus medos são remetidos para um planeta distante que permite por a nu os tabus terrenos que aprisionam as paixões e os vícios que molda a sociedade. Todos estes níveis contados de forma intercalada levam a que até desenrolar da última camada desta boneca russa surjam sempre surpresas e reconstruções do passado.

É uma obra com uma escrita sem pressa, tal como pode ser a monotonia da vida de uma octogenária, que não se inibe de ser crítica de todos os preconceitos e amarras da hipocrisia da moralidade social que foram caindo ao longo do século XX, para assim evidenciar que no final daquele século muito sofrimento íntimo das mulheres do passado poderiam ter sido evitados e como a sociedade facilmente cai num engano e cria mitos e heróis apenas pela aparência das narrativas.

Quando li pela primeira vez O Assassino Cego considerei uma obra que mostrava a versatilidade narrativa de Margaret Atwood, hoje, ao relê-la, já depois de ler muitas outras obras da autora, considero a sua obra literariamente mais rica e variegada. Exige alguma maturidade ao leitor para assimilar a riqueza deste romance, este não se prende a estereótipos, nem a subterfúgios fáceis para o agarrar. É uma narrativa para se ir degustando lentamente as suas mais de 600 páginas até se saborear de facto a grandiosidade deste romance que justifica ter um prémio do gabarito do que recebeu, uma obra que não precisa de receber um Nobel da literatura para estar a esse nível.

sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

"NEXT" de Michael Crichton

 

Resenha da capa frontal do livro

"Bem-vindo ao mundo da genética.

Acelerado, furioso, sem lei."

Em pouco tempo voltei ao escritor norte-americano criador do género literário denominado de "thriller tecnológico": Michael Crichton, agora com "Next". A trama cruza várias aventuras envolvendo investigadores genéticos concorrentes entre si, todos com ações no limite ou a ultrapassar a legalidade, nomeadamente: experiências genéticas com pessoas com consequências imprevisíveis; criadores de híbridos de genes humanos com animais; lutas por patentes de genes humanos com potencialidades de cura ou causadores de doenças; a utilização abusiva de pessoas como mercadoria sua, desrespeitando os direitos destas e batalhas destas perante a justiça num quadro legislativo cheio de imperfeições e de ética duvidosa.

Assim, a histórias conduzem a situações extremas de suspense de batalhas legais, animais semi-humanos interventivos, raptos de pessoas cujo corpo possui genes patenteados, envelhecimentos precoces imprevistos, animais que são filhos de gente e tornam-se personagens humanas, tudo isto num caos que é mais uma alerta para os riscos da investigação genética sem regras legais claras, sem bom senso, cientistas sem ética na sua investigação e busca de financiamentos numa sociedade onde a comunicação social especulativa agrava ainda mais as situações.

Numa espécie de posfácio, Crichton fala dos principais aspetos a corrigir na legislação americana, justificando várias leis pouco éticas, nomeadamente o de alguém ou uma instituição poderem ser donos de genes naturais sem os terem criado, mas sim a natureza. Importa ter em atenção que a obra foi escrita no início do século XXI e não sei se a legislação foi melhorada, sei que na população muitos temores subsistem em torno da engenharia genética, clonagem e outras tecnologias em torno deste campo de investigação.

O desenrolar do romance intercala capítulos curtos com situações envolvendo as personagens e suas criações com pretensos artigos nos mídia que falam dos mesmos temas que se passam na narrativa, dando assim um cariz de maior abrangência dos casos e o efeito amplificador da comunicação social para o caos. No seu conjunto, o desenrolar das histórias torna-se algo caótico, mas segura o suspense quando passa de situações distintas. A obra vale mais como um alerta para a necessidade de ética e regulação neste domínio científico do que por uma narrativa bem estruturada.


segunda-feira, 11 de novembro de 2024

"PRESAS" de Michael Crichton

 

"Vai haver um momento, algures no século vinte um, em que a nossa inquietação cheia de autoilusões vai colidir com o poder tecnológico em constante crescimento. Uma área em que isto vai acontecer é a zona de contacto entre a nanotecnologia, a biotecnologia e a tecnologia informática."

In Introdução de Michael Crichton ao romance "Presas"

Após quase 20 anos voltei ao norteamericano Michael Crichton, autor do famoso Parque Jurássico que deu origem a vários filmes. Enquadro o romance "Presas" no género de suspense e especulação dos ricos da evolução tecnológica e científica atual sobre a Humanidade por perda de controlo ou falta de ética do seu uso.

Jack Forman é um programador informático que perdeu o emprego devido a princípios éticos, passando a tomar conta dos seus 3 filhos em casa, enquanto a mulher, Júlia, está a desenvolver um projeto em nanotecnologia noutra empresa que pretende revolucionar a medicina com a introdução no sangue de câmaras de filmar inteligentes. Jack começa a desconfiar do comportamento da esposa, um dos seus filhos desenvolve uma doença estranha, Júlia sofre um acidente em circunstâncias dúbias e ele é contactado do ex-emprego para cooperar num programa informático que está a ter resultados indesejados. Ele descobre que é o mesmo associado ao projeto de nanotecnologia da mulher. Uma oportunidade para descobrir o que há de estranho com ela e o pedido de auxílio vindo de quem o despedira, pelo que aceita. Vai para o laboratório no deserto e percebe que a equipa perdeu o controlo daquilo que criara, a tecnologia ameaça o criador e a Humanidade.

O estilo narrativo é de um relatório quase horário de uma semana de acontecimentos, expostos de forma muito cinematográfica, sem grandes artifícios estilísticos que desviem a atenção, mas com diversos diálogos fáceis e informações acessíveis de conhecimentos científicos que mistura teorias reais com aspetos especulativos que apoiam a hipótese da trama, com uma sucessão de momentos inesperados que geram suspense em cadeia que prendem o leitor e o levam a suspeitar do perigo que espreita as personagens, a própria humanidade e a necessária luta entre os que permanecem livres e os reféns da criatura criada que evolui com a sua inteligência artificial (na obra distributiva).

Crichton nem sempre foi bem recebido pela cultura literária dominante e woke, chamou a atenção de determinados excessos para refrear excessos e talvez, nalguns casos, fosse mesmo negacionista. Contudo, sou um admirador da literatura que concilia a especulação científica em obras de suspense e terror e já há muito tempo que nenhum romance me prendia tanto à leitura como este.

Para quem viu ou leu Parque Jurássico e gostou, aqui está outra obra que agarra o leitor com a mesma fórmula e, apesar de ser ficção, leva-nos a pensar sobre as ameaças que a ciência pode trazer se não for eticamente controlada pelo investigador ou patrocinador. Tudo o que li deste autor neste domínio adorei. Presas não foi exceção.

sábado, 13 de março de 2021

"H. G. Wells FICÇÃO CURTA COMPLETA" - Volume 2

Depois de ter lido o 1.º volume desta coletânea, completei a leitura da "Ficção Curta Completa" de H. G. Wells com o volume 2, um livro com contos de géneros bem diferentes entre si e do anterior livro, mas aqui também coexistem narrativas perspetivadas no futuro e outros recuadas ao período pré-histórico, além de alguns especulativos ao nível do paranormal, da investigação científica e da invenção tecnológica contemporâneos da vida do autor do final do século XIX ao primeiro quartel do XX.

Trinta contos, dois mais extensos e quase novelas mas inferiores a uma centena de páginas, enquanto a maioria ronda as 20. Alguns gostei mesmo muito, uns pelo mero aspeto lúdico, outros pela imaginação do que seria a sociedade no século XXI perspetivada há cem anos atrás e outros pela informação antropológica à luz de então de como seria a humanidade há uma dezenas de milhares de anos atrás com as suas primeiras invenções, aventuras para dominar o território da Europa e o contacto com o homem de Neandertal, além dos das especulações mágicas e paranormais enquadradas no período vitoriano. Verdade que também alguns contos não me agradaram, mas como ficção curta passaram depressa e da maioria de tirei grande prazer na leitura.

Transversalmente aos diferentes contos, persiste uma escrita de grande elegância e literariamente rica, por vezes com tiques e humor muito britânico e nem sempre politicamente corretos à luz dos atuais julgamentos históricos descontextualizados que vão surgindo na sociedade nos nossos tempos.

Gostei mais do primeiro volume, mas valeu a pena completar este ciclo do autor da Guerra dos Mundos e renovador da ficção científica no início do século XX que cativa todos os géneros de leitor.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

"MaddAddam" de Margaret Atwood

Ao fim de vários anos regressei à trilogia "Oryx and Crake" da escritora canadiana Margaret Atwood com o terceiro romance "MaddAddam". Para uns leitores este conjunto será classificado de ficção científica ou uma distopia, mas para mim é mais um alerta, em forma de ensaio ficcional, criativo e especulativo sobre os riscos que podem  resultar do modelo de desenvolvimento científico, tecnológico e socioeconómico da sociedade atual hedonista, sem ética e moral, ou seja, uma civilização global desequilibrada, uma natureza descaracterizada e um ambiente doente que já se começa a insinuar e poderá permitir a revolta e vingança de alguém com pretensão de justiceiro que leve á autodestruir da humanidade acompanhado do desejo de substituir o Homem por um outro ser humano idealmente perfeito.

MaddAddam, que li em inglês  e penso não estar traduzido em Portugal e cujo o título traduziria por LoucoAdão, vai buscar muita da sua inspiração ao criacionismo do Génesis da Bíblia e ao anseio do homem participar da criação para criar um mundo sem os defeitos do atual, logicamente, tal como em Frankeinstein, este desejo de fazer o papel de deus tende a gerar outra realidade monstruosa.

No primeiro volume, "Oryx and Crake", assistimos à vida da elite ligada às multinacionais, com os seus estrategas e criativos genéticos e de produtos consumíveis geradores de prazer que escravizam a maioria da população e a tornam refém desta globalização amoral e do nascer da revolta e vingança de Oryx que cria um novo homem e arquiteta e implementou a destruição da humanidade.

No segundo, "The Year of the Flood" vemos a vida no exterior dos  complexos de luxo das elites, os bairros degradados, violentos com clubes de prazer numa sociedade consumista onde, em paralelo, surgem movimentos ambientalistas e humanistas que se tornam num nova religião até que que a pandemia provocada intencional leva ao dilúvio seco e ao fim do homem.

Neste terceiro volume estamos perante os sobreviventes do dilúvio seco que, à semelhança do velho Noé, viram os sinais dos tempos e se prepararam para sobreviver, bem como o encontro destes com o "homem novo" - geneticamente modificado para ser pacifista, vegetariano, sem ambição e maldade, mentalizados para viver numa sociedade igualitária, comunal e sem complexos de sexualidade - mas desta ligação nascerá uma nova mitologia com os seus deuses e guias superiores, talvez os primórdios de uma futura religião ambientalista, mas teísta. A obra abre a porta ao cruzamento genético dos dois tipos de seres humanos, mas tal não é explorado, talvez uma oportunidade para uma tetralogia.

A narrativa está cheia de criaturas aberrantes dos tempos próximos filhas da engenharia genética. A escrita está inundada de neologismos, palavras compostas fruto dessa criatividade e invenção da sociedade consumista e hedonista. por vezes o texto é quase infantil para evidenciar a ingenuidade do homem novo sem maldade, outras bem adulto, com insinuações eróticas nas interpolações ao passado e para explicar a vida dos sobreviventes, alguns nada perfeitos outros idealistas, mas que conhecemos em volumes anteriores, cujas vidas ao serem narradas aos espécimes criados por Oryx gerarão uma nova mitologia e crença.

Regressei a esta sequela tendo em conta que o mundo da atual pandemia me tem levado a desanimar com o comportamento humano de uma forma demasiado abrangente. Assim, com esta desilusão e ao saber deste substituto perfeito que me chocara no primeiro romance, esperava agora voltar a ter saudades do homem atual com as suas virtudes e defeitos. Confesso que o objetivo não foi alcançado completamente, mas também não desejo que a humanidade seja substituída por homúnculos belos e ingénuos à imagem de outra mente humana desiludida com a humanidade.

Para quem gosta de ficção que especula a evolução do mundo atual para o abismo, é uma excelente história. Gostei e cativou-me, apesar de não considerar o estilo de escrita nestes dois últimos volumes da trilogia como tendo um grande valor literário, mas vale muito pela imaginação, momentos de tensão, suspense, criatividade e alerta para o mundo de hoje.


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

"Solaris" de Stanislaw Lem

Excertos
"Seria possível a existência de pensamento sem consciência?"

"-E como é que tu sabes quem és?"

Acabei de ler o romance de 1960 "Solaris" do género de ficção-científica e escrito pelo polaco Stanislaw Lem, que é em simultâneo uma obra de análise filosófica sobre a questão da individualidade, da identidade pessoal, da necessidade de comunicação humana, da inteligência e até da questão de Deus. Um livro considerado de culto neste campo literário, pela sua qualidade e profundidade de análise, complementada com um drama romântico que já deu origem a dois filmes, um em 1972 e outro em 2002.
Kelvin, um psiquiatra, é mandado da Terra à estação sobre o planeta Solaris que orbita em torno de dois sóis, devido a preocupações narradas por um cientista ali estabelecido e antigo professor do médico.
Chegado ao destino, Kelvin é recebido com frieza e medo por um tripulante, sabe da morte do professor e que o outro investigador se está a isolar. Algo de estranho ocorre ali e afeta a mente de todos. Kelvin relê os dados e recolhidos ao longo de décadas e respetivas teorias sobre Solaris. Este é um astro coberto por um extenso oceano rico em matéria orgânica que já foi classificado como um ser vivo e com o qual se tenta infrutiferamente comunicar, embora este até controle características do planeta: será dotado de consciência? Após dormir Kelvin vê-se confrontado pela visita da sua mulher que se suicidara 10 anos antes e em conversa com a restante tripulação percebe que o oceano lhes lê as mentes e as controla, recriando as pessoas que os assombram, mas estas não são iguais aos humanos em termos moleculares, nem são destruíveis pelos terrestres, a situação entra em confronto com a memória e consciência destes que são incapazes de comunicar com o torturador. Kelvin tenta corrigir a sua culpa na morte da ex-mulher perante esta réplica e a tensão entre sentimentos, consciência, identidade, memória, vontade e ciência irá num conflito que coloca em questão princípios da humanidade.
A escrita de Lem é cuidada e algumas das passagens são muito filosóficas e difíceis, havendo outras muito descritivas, embora a história seja alimentada com diálogos fáceis brilhantemente elaborados que põe a nu as questões levantadas. Assim, está-se perante uma obra complexa, densa e não numa mera aventura no espaço típica de muita ficção pseudocientífica comercial.
Raramente após a leitura de um romance vou procurar os filmes na internet, mas neste caso a riqueza dos pormenores no texto levaram-me a tal, embora os filmes sejam bons, seguem o mais fácil, sem aprofundar as descrições dos fenómenos oceanográficos e muita filosofia do livro. Este, apesar de partes difíceis, gostei muito.

Solaris pelo realizador Tarkovski em 1972



sexta-feira, 27 de setembro de 2019

"Máquinas como Eu" de Ian McEwan

Excerto
"... a mente que outrora se tinha revoltado contra os deuses estava prestes as ser destronada fruto do seu próprio extraordinário alcance. Numa versão comprimida, inventaríamos uma máquina um pouco mais inteligente do que nós... ...Que necessidade haveria então de nós?"

Acabei de ler o último romance do inglês Ian McEwan, que me tem fascinado nos últimos tempos e este apesar de me ter surpreendido em muitos aspetos não me desiludiu
"Máquinas como Eu" possui um conjunto de originalidades: é do género ficção científica mas passa-se no passado, década de 1980; está imbuído de referências históricas da época, mas estas por norma têm sentido oposto ao dos acontecimentos então ocorridos de facto adiciona até subtilezas dos problemas atuais do Brexit; apesar de conter andróides que nem hoje existem e especular sobre a sua humanidade, inclui um conjunto de tecnologias, gadgets e internet que então não existia e ainda transportando para o momento génios reais há muito então desaparecidos, surpreendendo-nos a cada passo com estas alterações ficcionadas. Penso que a geração jovem atual pouco conhecedora do passado recente talvez nem se aperceba como McEwan reconta a história contemporânea da juventude dos seus pais, mas para estes parece-me interessante verem uma realidade diferente da que assistiram.
Charlie Friend com o dinheiro da herança da mãe opta por comprar um exemplar da última geração de robôs humanizados, como os de género feminino esgotaram ficou-se por um Adão. Este tem opções de programação de personalidade, Charlie opta então que as características sejam selecionadas a 50% por ele e os restantes pela sua amiga/vizinha por quem está apaixonado, para que ele se torna como um filho de ambos. Só que Adão não é uma simples máquina, aprende, desenvolve comportamentos sentimentais e sexuais, tem uma lógica nas relações humanas e de paixão incapaz de integrar a hipocrisia das pessoas que viabiliza um entendimento social e este choque vai colidir com os problemas pessoais de Adão e da namorada e com reflexos na justiça e neste amor triangular.
McEwan escreve de uma forma que intercala beleza literária e poética ao texto com reflexões oportunas sobre o limite da distinção e sobreposição de carácter do que é um ser humano ou uma máquina e várias outras questões éticas e sociais não só da década de 1980, como também do passado e presente face ao evoluir dos conhecimento, da tecnologia e respetivos choques com a fé/crença íntima de cada um. Gostei muito .

domingo, 18 de agosto de 2019

"Zero K" de Don DeLillo

Excertos
"Todos querem ser donos do fim do mundo."
"O que é o eu?... Mas seremos alguém sem os outros?"
"A morte é um hábito que custa a perder."

Não sei bem como classificar o mais recente romance do americano Don DeLillo: "Zero K"; ficção científica ou especulação científica? Para o primeiro género, a obra passa-se na atualidade e na Terra, sem imaginar civilizações longínquas ou futuras. Para a segunda denominação que inventei, a estória fala de facto do uso atual da criogenia, a conservação do corpo pelo frio de doentes incuráveis antes de morrerem naturalmente, técnica usada na crença de que tal os permitirá um dia "ressuscitar" no futuro e curá-las dos seus males quando se encontrar a solução para tal. Algo que algumas pessoas, por norma muito ricas, se estão a sujeitar com base nesta especulação científica. O vencer a morte é o tema que em forma de ensaio e sem se dirigir para a criogenia já Yuval Noah Harari discute no livro Homo Deus que li este ano e com as mais diversas questões de ética e moral que a ciência pode colocar à humanidade, salvá-la ou destruí-la.
O romance é narrado por Jeffrey Lockhart, que tem dúvidas em como organizar a sua vida adulta: anda à procura de emprego e rejeita a influência do nome de seu pai, um multimilionário de Nova Iorque. Este convida-o a visitar um laboratório que patrocina algures na Ásia, lá descobre que se trata de um local de recolha de órgãos e conservação dos corpos de pessoas por criogenia. Nesta deslocação verifica que a sua madrasta, arqueóloga e com uma doença degenerativa, optou por esta solução e está à espera de se submeter à passagem para depois esperar por uma nova vida no futuro. Entretanto, Jeff recorda a sua relação com a mãe falecida, é confrontado com questões sobre a vida e a morte nas conversas com a madrasta e exposto a uma encenação sobre a crise global: guerras, catástrofes naturais, solidão e desespero que convidam à fuga deste mundo à espera de um outro diferente, havendo voluntários saudáveis para esta passagem denominados arautos e para os quais foi criada a zona Zero K que atrai o pai para acompanhar a mulher.
Entre os problemas da sua vida e daqueles com quem se relaciona socialmente, Jeff analisa a problemática em torno deste assunto: a ética, as incertezas, a solidão da espera e a ânsia de domínio da morte.
Uma escrita escorreita, em tom realista e sóbria, a que me habituei na literatura norteamericana atual que descreve de forma nua as situações incómodas da sociedade de hoje consumista, onde escasseia a esperança e os valores humanos. Contudo gostei do livro, apesar da perspetiva sombria que atravessa a obra.

terça-feira, 11 de junho de 2019

"Fundação" de Isaac Asimov

Excertos
... meus senhores, a queda de um Império é uma coisa imensa e que não é fácil de combater. Ela é ditada por uma burocracia em ascensão, por uma iniciativa em decréscimo, uma imobilidade de castas, um aprisionamento da curiosidade - uma centena de outros fatores."

"A violência é o último refúgio dos incompetentes."

Este livro foi a minha estreia em leitura de obras de mera ficção científica em mundos fora da Terra, já lera obras distópicas previstas para o futuro, mas a "Fundação" de Isaac Asimov, russo naturalizado norteamericano, é uma estória que se passa no espaço, não localizada no tempo, num período em que o homem já colonizou numerosos planetas na galáxia e mostra a força do conhecimento como garante da civilização, causas do declínio desta e o papel da religião (crença), do comércio/economia (ferramenta de bem-estar) como força agregadora de impérios, bem como a inteligência e a astúcia serem mais mais eficazes na preservação do poder do que a guerra e a violência. 
No enredo o homem povoa toda a galáxia num império, o desenvolvimento da ciência "psico-história" permite determinar com grande precisão o evoluir da sociedade no futuro e o seu autor prevê o declínio irreversível do império a que se seguirá um recuo milenar da civilização. Então para acelerar a recuperação da humanidade força a criação de uma colónia num planeta que assegurará a preservação do saber e da tecnologia e servirá de gérmen ao renascimento galático do Homem, deixando mecanismos para este enfrentar as crises que previu nesta caminhada. 
O livro está narrado em cinco episódios espaçados no tempo que se completam e começam com o papel da psico-história, o início da cidade Terminus, duas grande crises que cujo fundador previu e o último com a substituição da religião pela economia como meio de assegurar o preservação do império.
O romance tem um estilo bastante cinematográfico ou de série televisiva, numa escrita escorreita sem preocupações de cultura literária, mas possui mensagens subliminares fortes que convidam o leitor a pensar, sem o obrigar a análises, se for alguém com apenas interesse lúdico, por isso pode ser em simultâneo uma obra popular e de culto pela sua profundidade e daí classificada uma das melhores no seu género.
Estranhamente o poder na obra radica apenas nos homens, às mulheres está reservado um papel de subserviência caseira. Apenas no último episódio existem mulheres enquadras numa sociedade totalmente machista, onde estes são os políticos, os guerreiros, os investigadores e depositários da sabedoria. Pergunto-me se será apenas uma marca do modo de pensar na década de 1950 ou mentalidade do escritor? Igualmente choca que com tantos avanços científicos algumas necessidades sejam bem típicos do século XX: a energia nuclear, eletrodomésticos, recursos minerais, etc.
O livro lê-se muito bem, tem pontos de elevado suspense e ideias para colocar à discussão para quem estiver atento e não se limita a ser um leitor passivo.