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domingo, 14 de junho de 2026

"Bússola" de Mathias Énard

 


Regressei ao escritor francês contemporâneo Mathias Énard, agora com a leitura do romance "Bússola" vencedor do prestigiado prémio literário Goncourt em 2015.

Franz Ritter é um musicólogo em Viena, recebeu uma informação médica que o preocupa e na insónia da noite vai recordando, aos longo das horas que passam até à madrugada, as suas viagens ao oriente, onde conheceu a francesa Sarah (uma doutoranda do escritor iraniano Sadegh Hedayat e das influências entre o oriente e ocidente na arte) por quem se apaixonou. Com ela teve estadias em Istambul, Alepo, Palmira, Damasco e Teerão. Nessas viagens, conheceu outros universitários, ouviu histórias de europeus que se encantaram com a cultura do oriente, interferiram com árabes, sírios, turcos e persas, bem como deram a conhecer grandes artistas ao outro bloco, bem como se deixaram influenciar pelo oriente com marcas nas suas obras e no movimento cultural europeu do orientalismo.
Apesar de a escrita do Énard recordar a do seu romance Zona, pois as recordações vão sendo narradas como uma sucessão de pequenas ondas que se avançam pela noite, agora há motivos centrais que permitem um fio condutor e unem a grande diversidade de informações e referências históricas que vão sendo progressivamente debitadas, nomeadamente: as reflexões sobre a paixão de Franz por Sarah e a sua timidez em concretizar os seus avanços; a influência entre ocidente e oriente nos dois sentidos e a discussão do tema da alteridade, com a identificação do outro ou a influência de um no outro e a miscigenação que daqui nasce na cultura.
Nas reflexões sobre as discussões que passam pela memória de Franz, vão sendo identificados e dissecado o papel de vários grandes nomes da cultura europeia que contactaram e transpuseram para a sua arte o oriente desde o século XVIII: Mozart, Hammer-Purgstall, Goethe, Félicien David, Mendelsohn, Chopin, Debussy até ao muito discutido e citado no romance - Pessoa, sobretudo no seu heterónimo Alvaro de Campos. Também são identificados e analisados grandes nomes da cultura do médio oriente desde Hafez e os compiladores recentes da sua obra, como Parviz, entre outros e os reflexos daquele na arte ocidental.
O autor mostra-se negativamente desagradado com o nacionalismo e cristianismo doentio de Wagner sob a influência das ideias racistas do escritor e filósofo Arthur Gobineau e evidencia que muita da violência que nos repugna presentemente no terrorismo islâmico também não refletem o sentimento da cultura e dos povos onde o mesmo ocorre e dá-nos um retrato muito humano de acontecimentos da história das cidades e povos visitados na obra.
Assim, ao longo de uma noite, onde inclusive as reflexões são interrompidas com mensagens pela internet entre Franz e Sarah, são expostas e analisadas obras deste intercâmbio, o que me permitiu descobrir algumas composições musicais e referência literárias magistrais e o seu papel na evolução da arte. Não é um texto fácil pois tem um ritmo por vezes lento, mas valeu bem a pena a leitura desta Bússola que aponta para o oriente e é um repositório de referências culturais.

domingo, 29 de março de 2020

"As Mil e Uma Noites" Volume 1


Excerto
"nada detém uma mulher quando ela quer alguma coisa."

Acabei de ler o primeiro volume da edição dos contos da obra "As mil e uma noites", um dos clássicos da literatura universal, com origem na idade média saído do mundo islâmico, sendo esta edição uma tradução da versão mais antiga conhecida em língua árabe editada por crowdfunding.
Este volume começa com um historial sobre as origens geográficas, linguísticas e divulgação desta obra até chegar ao ocidente e depois alguma evolução que esta sofreu já na Europa por adições para satisfazer o público não constantes no início, onde fica evidente porque se está perante uma das obras mais conhecidas das pessoas que simultaneamente o real conteúdo é desconhecido. Apesar da sua importância para o contexto da obra, confesso que apenas folheei e li excertos.
Depois segue-se a obra propriamente dita, onde se descobrem as razões porque o rei Xariar decidiu todos os dias casar com uma súbdita diferente, matá-la a seguir à noite de núpcias e a estratégia de Xerazade para pôr termo a esta carnificina através de se oferecer em casamento a ele e iniciar um série de contos narrados a sua irmã, Dinazarde, que alimentassem a curiosidade do marido e a mantivesse viva.
Os contos, na sua grande maioria, são do estilo fantástico ou do género fábula, não com bruxas e fadas do estilo ocidental, mas com os seus equivalentes no imaginário do médio oriente: génios e ifrites, cuja narrativa pode atravessar várias noites, sendo interrompida em momentos de suspense para manter o interesse e quando terminam deixam com frequência pistas por esclarecer que permitem o encadear de estórias e preservar a curiosidade.
Os contos encerram muitas vezes lições de moral e bons costumes, intercalados com aprendizagens da vida sobre as injustiças na vida terrena, havendo partes em prosa e outras em verso que sintetizam provérbios ou são cantos de amor ou do elogio à beleza física e intelectual. Pelo meio há algumas passagens quase eróticas e mesmo momentos brejeiros. Contudo o papel superior da vontade do Deus único, como agente do triunfo da Justiça e do Bem sobre a perfídia e  malvadez, é frequentemente invocado e atravessa todo livro, mas não se está perante o deus ex-machina da literatura clássica ocidental que intervém diretamente para castigar ou corrigir o mal.
O tradutor disponibiliza numerosas notas em rodapé que esclarecem pormenores do texto relativos à cultura da época, à mentalidade do médio oriente ou do mundo muçulmano e, inclusive, dificuldades de tradução e enquadramentos históricos que muito enriquecem o saber do leitor e ajudam a compreender e a referenciar aspetos que passariam despercebidos.
Não sou um habitual fã de contos fantásticos, mas reconheço a riqueza destas histórias, a influência cultural das mesmas e confesso que além de se estar perante uma obra de fácil leitura, o suspense que é mantido assegura o interesse e o prazer da leitura e em breve espero entrar no volume seguinte deste clássico da literatura mundial que vale a pena conhecer.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

"O século primeiro depois de Beatriz" de Amin Maalouf


"O Século Primeiro depois de Beatriz" do libanês Amin Maalouf é um romance escrito em forma de crónica/memórias de um idoso sobre uma época futura e distópica em resultado não da explosão demográfica que tememos mas de um controlo artificial da natalidade que favorecia o nascimento de rapazes em detrimento das raparigas para satisfazer os anseios e as preferências históricos radicadas em muitos homens em várias sociedades.
Tirando proveito do desequilíbrio na relação entre os dois géneros surgido nesse período, Amin Maalouf faz uma intensa denúncia de muitos dos defeitos da atual sociedade global: desde a desigualdade norte/sul, o racismo, os complexos entre povos colonizadores e colonizados do passado, os mecanismos políticos de controlo de etnias, ditaduras africanas e oportunismos dos dirigentes das nações e, apesar de negritude do ambiente social, é em simultâneo uma homenagem cheia de ternura à mulher no seu papel de companheira, filha e estabilizadora da paz no seio da humanidade face à prevalência das tendências violentas no género masculino.
Tendo sido escrito há cerca de 20 anos, é interessante ver que a obra é anterior ao domínio da internet e da computação na sociedade, aspeto que o autor na previu, pelo que apesar de se retratar uma sociedade futura à data da obra esta decorre no primeiro quartel do século XXI que já vivemos, mas os mecanismos de difusão e de comunicação entre as pessoas no livro são os tradicionais do final do século XX, mas os vícios denunciados são bem atuais. Um livro que gostei e recomendo.