sábado, 24 de abril de 2021

"Os Memoráveis" de Lídia Jorge

 

Citação

"Toda a revolução é uma grande alegria que anuncia uma grande tristeza"

Escolhi ler a obra "Os Memoráveis" da escritora portuguesa Lídia Jorge para este mês por saber que a mesma esboçava fazer um retrato metafórico dos ideais dos heróis da Revolução do 25 de Abril em Portugal e uma reflexão do que desta resultou décadas depois e foi esta a minha opção de comemorar Abril este ano, através de um livro sobre o tema.

Ana Maria Machado, repórter de guerra está em 2004 em casa de um embaixador em Washington que acompanhou a Revolução dos Cravos, este tem uma admiração pela originalidade desta e tenta convencer junto com o seu afilhado, que tem uma relação próxima com ela, para vir a Portugal fazer uma reportagem sobre o 25 de Abril que ele considera uma Fábula. Seduzida por notas disponibilizadas pelo diplomata Ana volta a casa do pai, um jornalista próximo dos heróis, mas com quem teve uma desavença. A partir de uma fotografia de grupo destes Memoráveis contrata dois colegas para entrevistar as personagens fotografadas e é a segunda parte a Viagem ao coração da Fábula. Vemos então momentos marcantes do que foi aquele dia para vários dos memoráveis e o que é a realidade deles e de Portugal 30 anos depois, ideais que se partiram, reconhecimentos que se perderam, retaliações que sofreram. Na terceira parte é apresentado o Argumento para Robert Peterson onde se vê o projeto retratado pela arte e visão de Ana do que foi a Revolução dos Cravos.

Magnificamente escrito, num tom nostálgico entre a memória e os problemas do presente (2004), o teor das entrevistas aos Memoráveis da Revolução em torno de uma fotografia de um jantar que marcou as diferenças entre os envolvidos, todos designados por uma alcunha mas onde se consegue perceber o herói original, apesar dos retoques da ficção e dos desvios à realidade pertinente à ficção, é sem dúvida o melhor romance que li sobre Abril. Uma homenagem aos seus Memoráveis e uma reflexão sobre o que foi a dádiva da Revolução, mas também uma reflexão sobre o uso e o aproveitamento da liberdade nas décadas seguintes por quem desde então teve acesso ao poder para moldar Portugal.

Excelente livro e recomendo a quem gosta de perceber o que foi Abril e os dilemas que se colocaram entre os seus protagonistas e algumas "evoluções" que Portugal teve desde Aquele Dia da conquista da Liberdade.

Esta mensagem é também a minha homenagem deste ano ao 25 de Abril de 1974.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

23 de Abril - Dia Mundial do Livro - Os escolhidos de um ano de leitura

Todos aos anos escolho esta data para expor aqueles que foram os meus livros predilectos desde o anterior Dia Mundial do Livro. Nos últimos 12 meses li obras excelentes e a escolha não foi fácil nas várias categorias habituais. Como sempre a seleção final teve peso o momento da escolha, talvez pudesse haver uma ou outra substituição, mas ficou assim:

Melhor Livro de Ficção em Língua Original Portuguesa

Penso que é a primeira vez que não consigo optar, por isso vão duas obras bem diferentes, sendo que a segunda coloca a escritora dois anos consecutivos nesta lista e categoria


A Casa Grande de Romarigães - Aquilino Ribeiro
 
Mais informações neste blogue sobre esta grande saga de vários séculos da história de Portugal aqui.

Fanny Owen - Agustina Bessa-Luís

Pouco extenso e por isso esta talvez seja uma das obras mais fáceis para entrar nesta escritora que aqui não tem complexo de expor o lado pouco simpático de um dos maiores escritores da literatura portuguesa: Camilo Castelo-Branco. Mais pormenores sobre este livro neste testo de Geocrusoe.

Melhor Romance Histórico

Os sete pilares da Sabedoria de T. E. Lawrence

Um misto de memórias e romance histórico narrado pelo próprio autor e ele mesmo como protagonista da narrativa, mas não é uma livro de ficção, embora seja romanceado, a obra que deu origem ao filme Lawrence das Arábias. A informação e o estilo de narrativa são constroem uma obra única de excecional interesse, informação histórica e prazer de leitura. Mais impressões em Geocrusoe aqui.

Melhor livro de memórias


O Mundo de Ontem de Stefan Zweig

Neste caso foi lido em formato ebook, mas o retrato da Europa desde o final do século XIX até à II Grande Guerra Mundial feito por Stefan Zweig, quer pelo conteúdo, quer pela qualidade da escrita e ainda pelos pensamentos e reflexões do autor e de grandes homens comm quem se cruzou, torna-o numa obra magnífica que merece uma leitura para quem gosta de história e boa escrita. A análise desta obra no blogue pode ser lida aqui

Melhor Obra de Ficção Canadiana

MaddAddam - Margaret Atwood

Não foi difícil a escolha, pois foi o único livro do meu país natal que li ao longo deste, penso que ainda não está traduzido em Portugal, tem a importância de fechar uma trilogia e de ser um especulação futurista do presente, onde o homem pode ser o gerador da sua própria destruição, neste caso, por uma pandemia intencional o que o torna muito pertinente nestes tempos. Mais dados aqui.

sábado, 10 de abril de 2021

"Ripley debaixo de Água" de Patricia Highsmith

 

Acabei de ler o quinto e último livro do conjunto dos cinco romances da escritora norteamericana Patricia Highsmith protagonizados pela personagem Tom Ripley: um assassino americano, estabelecido em França numa vida de luxo após herdar a fortuna da sua primeira vítima e perito em escapar à justiça dos seus atos criminosos. Alguém totalmente amoral, inteligente, calmo, bem parecido, apreciador do bom-gosto em matéria de música erudita, livros, gastronomia, vinho, vestuário, viagens, pintura e jardinagem.
Neste romance, "Ripley debaixo de Água", o nosso protagonista vê-se seguido de perto por um americano que se estabelece nas vizinhanças, sabe demasiado sobre o seu passado e está disposto a descobrir o corpo de um milionário assassinado há anos e atirado à água num dos canais que bordejam Paris, tarefa que depois descobrimos fazê-la em articulação com familiares de vítimas dos anteriores romances. Em paralelo, este intruso força uma amizade assumidamente sarcástica com Tom pelo prazer de o aterrorizar e manifestar a sua intenção de o denunciar, este, entretanto, procura manter a sua vida luxuosa, calma, enquanto viaja por Marrocos e Londres, sem perder oportunidade de acompanhar à sua maneira a ameaça que se lhe depara, até o corpo ser de facto pescado e tudo ir desencadear um final novamente original.

Numa escrita sempre elegante, fácil e cheia de pormenores diários, já característica de anteriores volumes, a obra mostra a calma com que se desenrola vida social e de luxo de Tom, desde a sua relação madura e descomprometidas com a esposa, as descrições de hábitos quotidianos numa aldeia periférica de Paris com os pormenores gastronómicos fornecidos pela sua empregada, os cuidados do cultivo das várias espécies de flores do jardim, até pormenores das aulas de cravo e das viagens internacionais que se intercalam com os períodos de tensão fria e calculista perante as ameaças, onde é mantido sempre a compostura do nosso vilão.

A escritora tem a arte de nos colocar suspensos e interessados em que o nosso protagonista amoral escape às malhas dos seus perseguidores, uns em nome da justiça oficial, outros vindos de gangues ou amantes do castigo popular que lhe vão tecendo armadilhas a que ele com os seus ardis ele habitualmente sobrevive ileso.

Apesar do suspense, não é um romance em ritmo acelerado, neste não ocorrem cenas violentas como nalguns dos anteriores, mas mantém o interesse e, apesar de ser uma história independente do passado, possui numerosas referências às aventuras criminosas anteriores de Tom Ripley que o tornam mais interessante se forem já do conhecimento do leitor. Uma obra  de lazer que dá prazer ler e gostei.

Para consultar sobre anteriores volumes desta coleção postados neste blogue clique aqui. O Talentoso Mr. Ripley li anteriormente ao Geocrusoe ter mensagens dedicadas a livros e talvez o mais elaborado deste conjunto.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

"O caso do Camarada Tulaev" de Victor Serge

 
Citações
"Heróis de ontem, o lixo de hoje, é a dialética da História..."

"Encontramo-nos cobertos de crimes, todavia temos razão perante o Universo..."

"Talvez seja muito bom, isto de não podermos dominar por completo o nosso cérebro, e que ele nos imponha imagens e ideias que preferíamos rejeitar cobardemente: é assim que a verdade faz o seu trajeto..."

Acabei de ler o romance do russo-belga Victor Serge "O Caso do camarada Tulaev" uma obra de ficção que procura retratar o período de perseguição estalinista.
Kostia vive amargurado com as injustiças e infelicidade que vê num regime que procura libertar o Homem e numa conversa com o vizinho do quarto ao lado este empresta-lhe uma arma que acabara de adquirir. Depois, ao passear na noite moscovita, cruza-se casualmente com Tulaev, um dos maiores do regime, e num impulso faz justiça dispara e consegue fugir. Começa então a perseguição aos homens fortes do aparelho que poderiam estar interessados neste crime, teremos então uma série de interrogatórios a quem pode ter ambições e fazer sombra aos sonhos de outros ou à revolução, une-os o facto de estarem todos inocentes neste caso mas um perigo no sistema.
Ao longo dos vários capítulos vamos percebendo de forma crua o que foi a fidelidade de cada um dos suspeitos à revolução em curso, o respetivo modo de ascensão no aparelho, a exigência de obediência cega imposta pelo partido e como se criou uma justiça destruidora dos seus heróis em nome dessa revolução que eles próprios fizeram de tal modo que praticamente todos estão à espera de serem condenados nesta teia que teceram que já os levou à derrota na guerra civil espanhola.
A escrita é de grande qualidade estética, bela e cheia de reflexões, o que torna esta obra não só uma denúncia política do autor (um anarquista, comunista e trostkista filho de russos mas nascido na Bélgica) um texto literariamente rico, profundo e originalidade na trama, com um humor subtil com ironia e sarcasmo que se subentende a partir dos pensamentos e frases dos personagens que vão desfilando e, entre eles, o que nunca é identificado pelo nome: Estaline.
Apesar do ambiente tenso é uma obra fácil de ler, a riqueza de pensamentos torna-o apto a muitos sublinhados e fonte de citações, o que justifica ter sido considerado uma obra-prima da literatura de exílio de meados do século XX. Muito bom... excelente!

segunda-feira, 22 de março de 2021

"O Livro dos Baltimore" de Joël Dicker

 

Acabei de ler mais um livro do escritor suíço Joël Dicker que tem publicado recentemente obras de grande sucesso, sobretudo do género suspense e policial. "O livro dos Baltimore" não se enquadra bem em nenhum dos géneros citados, embora tenha o mesmo protagonista do livro de suspense e investigação policial "A verdade sobre o caso Harry Quebert".

Marcus Goldman, o escritor que no anterior romance procurou descobrir o que estava por detrás do desaparecimento de Nolla Kellergan que destruíra a vida do seu professor de literatura, agora vira-se para uma narrativa de memórias autobiográfica de criança até ao presente em que goza de grande fama. A obra envolve a comparação e a sua admiração progressiva pelos seus parentes Goldman ricos e com sucesso público de Baltimore face à mediania da sua família Goldman em Montclair, as amizades entre primos e amigos comuns onde também a rivalidade do amor dá entrada na adolescência. 

A narrativa, à semelhança da outra, desenrola-se cruzando episódios ocorridos em vários períodos da história das personagens e distanciados entre si de anos e décadas, sem respeitar uma perfeita ordem cronológica que se intercalam com situações no presente, o que permite reconstituir a linha evolutiva dos acontecimentos. Desde o início temos a perceção que algo de catastrófico decorreu nesta viagem temporal que só no fim o protagonista perceberá tudo o que aconteceu e os seus erros de perceção. Entretanto, assistimos ao estilo de vida de uma família da classe média e outra da classe alta no leste dos Estados Unidos e com alguns olhares para a realidade desta sociedade. Afinal, quantos segredos estavam escondidos por trás das atitudes públicas das relações entre ambos os ramos e dentro de cada agregado que desembocaram numa drama trágico que nunca se imaginaria possível.

Joël Dicker escreve muito bem sem procurar ser revolucionário e sabe manter ocultos aspetos que prendem o leitor à narrativa, pois lança pistas de interesse para só descobrir tudo posteriormente. Cria assim uma obra que tem um excelente carácter lúdico, fácil, mas com um nível literário acima da mediania de muitos romances de sucesso rápido. Gostei da história que prende num género de livro entretenimento que agrada a quem também valoriza a qualidade da escrita.

sábado, 13 de março de 2021

"H. G. Wells FICÇÃO CURTA COMPLETA" - Volume 2

Depois de ter lido o 1.º volume desta coletânea, completei a leitura da "Ficção Curta Completa" de H. G. Wells com o volume 2, um livro com contos de géneros bem diferentes entre si e do anterior livro, mas aqui também coexistem narrativas perspetivadas no futuro e outros recuadas ao período pré-histórico, além de alguns especulativos ao nível do paranormal, da investigação científica e da invenção tecnológica contemporâneos da vida do autor do final do século XIX ao primeiro quartel do XX.

Trinta contos, dois mais extensos e quase novelas mas inferiores a uma centena de páginas, enquanto a maioria ronda as 20. Alguns gostei mesmo muito, uns pelo mero aspeto lúdico, outros pela imaginação do que seria a sociedade no século XXI perspetivada há cem anos atrás e outros pela informação antropológica à luz de então de como seria a humanidade há uma dezenas de milhares de anos atrás com as suas primeiras invenções, aventuras para dominar o território da Europa e o contacto com o homem de Neandertal, além dos das especulações mágicas e paranormais enquadradas no período vitoriano. Verdade que também alguns contos não me agradaram, mas como ficção curta passaram depressa e da maioria de tirei grande prazer na leitura.

Transversalmente aos diferentes contos, persiste uma escrita de grande elegância e literariamente rica, por vezes com tiques e humor muito britânico e nem sempre politicamente corretos à luz dos atuais julgamentos históricos descontextualizados que vão surgindo na sociedade nos nossos tempos.

Gostei mais do primeiro volume, mas valeu a pena completar este ciclo do autor da Guerra dos Mundos e renovador da ficção científica no início do século XX que cativa todos os géneros de leitor.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

"MaddAddam" de Margaret Atwood

Ao fim de vários anos regressei à trilogia "Oryx and Crake" da escritora canadiana Margaret Atwood com o terceiro romance "MaddAddam". Para uns leitores este conjunto será classificado de ficção científica ou uma distopia, mas para mim é mais um alerta, em forma de ensaio ficcional, criativo e especulativo sobre os riscos que podem  resultar do modelo de desenvolvimento científico, tecnológico e socioeconómico da sociedade atual hedonista, sem ética e moral, ou seja, uma civilização global desequilibrada, uma natureza descaracterizada e um ambiente doente que já se começa a insinuar e poderá permitir a revolta e vingança de alguém com pretensão de justiceiro que leve á autodestruir da humanidade acompanhado do desejo de substituir o Homem por um outro ser humano idealmente perfeito.

MaddAddam, que li em inglês  e penso não estar traduzido em Portugal e cujo o título traduziria por LoucoAdão, vai buscar muita da sua inspiração ao criacionismo do Génesis da Bíblia e ao anseio do homem participar da criação para criar um mundo sem os defeitos do atual, logicamente, tal como em Frankeinstein, este desejo de fazer o papel de deus tende a gerar outra realidade monstruosa.

No primeiro volume, "Oryx and Crake", assistimos à vida da elite ligada às multinacionais, com os seus estrategas e criativos genéticos e de produtos consumíveis geradores de prazer que escravizam a maioria da população e a tornam refém desta globalização amoral e do nascer da revolta e vingança de Oryx que cria um novo homem e arquiteta e implementou a destruição da humanidade.

No segundo, "The Year of the Flood" vemos a vida no exterior dos  complexos de luxo das elites, os bairros degradados, violentos com clubes de prazer numa sociedade consumista onde, em paralelo, surgem movimentos ambientalistas e humanistas que se tornam num nova religião até que que a pandemia provocada intencional leva ao dilúvio seco e ao fim do homem.

Neste terceiro volume estamos perante os sobreviventes do dilúvio seco que, à semelhança do velho Noé, viram os sinais dos tempos e se prepararam para sobreviver, bem como o encontro destes com o "homem novo" - geneticamente modificado para ser pacifista, vegetariano, sem ambição e maldade, mentalizados para viver numa sociedade igualitária, comunal e sem complexos de sexualidade - mas desta ligação nascerá uma nova mitologia com os seus deuses e guias superiores, talvez os primórdios de uma futura religião ambientalista, mas teísta. A obra abre a porta ao cruzamento genético dos dois tipos de seres humanos, mas tal não é explorado, talvez uma oportunidade para uma tetralogia.

A narrativa está cheia de criaturas aberrantes dos tempos próximos filhas da engenharia genética. A escrita está inundada de neologismos, palavras compostas fruto dessa criatividade e invenção da sociedade consumista e hedonista. por vezes o texto é quase infantil para evidenciar a ingenuidade do homem novo sem maldade, outras bem adulto, com insinuações eróticas nas interpolações ao passado e para explicar a vida dos sobreviventes, alguns nada perfeitos outros idealistas, mas que conhecemos em volumes anteriores, cujas vidas ao serem narradas aos espécimes criados por Oryx gerarão uma nova mitologia e crença.

Regressei a esta sequela tendo em conta que o mundo da atual pandemia me tem levado a desanimar com o comportamento humano de uma forma demasiado abrangente. Assim, com esta desilusão e ao saber deste substituto perfeito que me chocara no primeiro romance, esperava agora voltar a ter saudades do homem atual com as suas virtudes e defeitos. Confesso que o objetivo não foi alcançado completamente, mas também não desejo que a humanidade seja substituída por homúnculos belos e ingénuos à imagem de outra mente humana desiludida com a humanidade.

Para quem gosta de ficção que especula a evolução do mundo atual para o abismo, é uma excelente história. Gostei e cativou-me, apesar de não considerar o estilo de escrita nestes dois últimos volumes da trilogia como tendo um grande valor literário, mas vale muito pela imaginação, momentos de tensão, suspense, criatividade e alerta para o mundo de hoje.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

"Anúncio de um crime" de Agatha Christie

 

Excerto

"- Nós esquecemo-nos que os criminosos também são pessoas. 
- ...Humanos. E muitas vezes pessoas dignas de compaixão. Mas também muito perigosas."

Acabei de ler mais um romance policial da mestre inglesa Agatha Christie: "Anúncio de um Crime".

A população da Chipping Cleghorn é surpreendida pelo anúncio no jornal local de um crime a cometer numa vivenda da aldeia a uma determinada hora dessa tarde. Uns apenas suspeitando tratar-se de um jogo, outos chocados e todos cheios de curiosidade decidem fazer uma visita à anfitriã da moradia onde ocorrerá o evento. Assim, vão aparecendo como por acaso onde a dona, conhecendo a vizinhança, também os esperava. À hora marcada ocorre o que parece uma tentativa de assalto, morte do ladrão e o ferimento da dona da casa. Só que aquilo que inicialmente parecia um roubo que correu mal em breve torna-se evidente numa tentativa de homicídio que a polícia tentará revelar com escassas pistas, mas eis que Miss Marple surge em cena com a sua sensibilidade humana e apontará para o seguimento de pistas e à resolução do caso.

Na sua linguagem fácil e na ambiência da Inglaterra rural cheia de hábitos tradicionais, a escritora, usando o conhecimento do comportamento psicológico das pessoas, faz-nos conduzir em suspense por uma fila de suspeitos e a uma intricada cadeia de vários crimes cujo autor no fim será desmascarado de forma surpreendente, sem nunca se perder na narrativa o estilo de vida social calmo e humano de Chipping Cleghorn.

Tenho gostado de todos os romances de Agatha Christie e este não foi exceção e é interessante como ela numa toada calma consegue manter vivo o suspense e a ocorrência de crimes que parecem improváveis nestes ambientes.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

"A gaivota * O tio Vânia * Três Irmãs * O Ginjal" de Anton Tchékhov

 

Excertos

"Pois é, chego cada vez mais à conclusão de que o problema não são as formas velhas ou as formas novas, mas precisamente o que escrevemos, sem pensarmos em quaisquer formas, escrevemos porque isso jorra livremente da nossa alma." A Gaivota.

"É assim a vida, não há nada a fazer. Tudo o que nos parece muito importante, com muito significado, muito sério - há-de chegar um tempo em que é esquecido, ou que não parece importante." Três Irmãs.

Terminado o mês em que talvez menos lí nas últimas décadas, mas coincidente com o que mais teatro li, logo no início deste acabei de ler o livro do escritor russo Anton Tchékhov que reúne quatro peças de teatro: A Gaivota, O Tio Vânia, Três Irmãs e O Ginjal

Em A Gaivota, numa casa de família cruza-se uma atriz com passado glorioso com seu filho jovem pretendente a escritor melodramático em busca de novas formas e visitantes que vão desde um escritor consagrado, uma pretendente a atriz e gente entendida no mundo das letras. Ao longo da trama apercebemo-nos das invejas e hipocrisia dos estabelecidos e das inseguranças e sonhos dos mais novos até à sua desilusão, podemos dizer que é uma peça de teatro a  interrogar-se sobre esta arte, os males do meio e os riscos e necessidades de inovação, sem dúvida questões caras ao autor.

N'O Tio Vânia temos gente comum num espaço familiar com desconfianças mútuas sobre os úteis, acomodados e oportunistas e necessidades de mudança de comportamento e incertezas. Uma peça que reflete sobre gente comum de famílias históricas em declínio, um retrato social da Rússia pouco antes da revolução e onde estão subentende aspetos do fim do império monárquico para o soviético.

Nas Três Irmãs, é uma história de gente comum e passa-se na casa de família destas com um irmão mais velho que passa de esperança de todas para a desilusão. Esta situação permite discutir com amigos e dissertar sobre as dificuldades do presente como potencial trampolim e construção de um futuro glorioso, mas incerto e longínquo da humanidade.

N'O Ginjal numa quinta familiar de aristocratas em queda, veremos o declínio da classe dominante no passado a ser ultrapassado pelos investidores capitalistas que pisam a tradição e a cultura para progredir e enriquecer, expelindo despudoradamente os senhores do passado em benefício individual.

Todas as peças mostram Tchekhov a testar novas formas de teatro, retratos de época e a questionar as mudanças de valores, da arte e os conflitos da sociedade de então através de gente tipicamente da Rússia rural da classe antes dominante ou da cultura e em conflito com as novas personalidades. São obras de vanguarda, mas fáceis de ler pela linguagem comum das personagens, só que ainda hoje parecem diferentes do teatro tradicional. Alguns dos atores por vezes debitam textos extensos para construir conceitos perante outros que perturbam e entram e saem de cena como nos momentos de tensão dos romances de Dostoievsky e, tal como este, as perguntas ficam no ar, cabendo ao espetador/leitor questionar-se. Gostei muito.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

"Yaka" de Pepetela

 

Acabei de ler o romance "Yaka" do escritor angolano Pepetela. Este narra a vida da família Semedo de ascendência portuguesa desde o nascimento acidentado de Alexandre Semedo em 1890 até à independência de Angola em novembro de 1975, atravessando 5 gerações em torno de Benguela.

O romance tem como narrador principal Alexandre, um helenista filho de um exilado português, que conta toda a sua vida, a da sua família, a do estilo de vida dos colonos e das etnias do sul de Angola, e da cidade de Benguela, numa montagem que reúne a sua análise crítica politicossocial em resultado da sua troca de opiniões com as impressões que retira de uma escultura indígena "Yaka" guardada na sua casa. Deste modo se monta a história da colónia desde o final do século dezanove, ainda quando a metrópole era uma monarquia, se passa pela esperança da 1.ª república, à dureza da ditadura do Estado Novo, se desemboca na revolução do 25 de Abril e termina com o domínio local do partido MPLA imediatamente antes da independência e o início da guerra após a invasão da África do Sul como aliada da UNITA e feroz anticomunista.

O romance mostra o ambiente de guerrilha alimentado pela comunidade portuguesa que, apesar de ter livres pensadores humanistas no seu seio, permitiu que esta controlasse o comércio e expoliasse as populações autóctones dos melhores terrenos, tendo como suporte desta estratégia o regime governativo ao serviço dos lusitanos. Neste meio, o protagonista, um ser humanista e fascinado pela cultura grega, foi-se acomodando a esta gestão política que ele próprio rejeitava.

A visão apresentada é ocidentalizada e a análise crítica para o final do romance só considera como salvador o partido MPLA a que o escritor pertencia, todavia o livro vale por dar a conhecer as tensões que sempre subsistiram no terreno desde o século XIX, as suas causas e oportunismos, para melhor se compreender o que foi a vida nesta colónia. Não há uma apreciação isenta e justificativa das divergências entre partidos que lutaram pela independência que permita compreender porque Angola foi depois palco da guerra civil mais longa em África e sugada por um único partido que se transformou num sistema de capitalista centrado em nepotismo e corrupção.

A escrita é fácil, apesar dos numerosos vocábulos angolanos, há um pequeno dicionário no fim, e a própria narrativa não oral utiliza uma sintaxe distinta da que de Portugal e do Brasil. Um bom romance para compreender Angola, agradável em estilo de saga, o que permite ver a evolução dos tempos e a diversidade dentro de uma família e de uma comunidade colonial, onde os portugueses não ficam bem nos seus comportamentos coletivos, mas que consegue ser delicado para não se tornar num manifesto contra todos os lusitanos. Gostei.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

"TRAGÉDIAS I" Eurípides

 


Iniciei o novo ano estreando-me num género literário e período histórico totalmente diferente do habitual: teatro grego da época clássica. "Tragédias I", do poeta dramático Eurípides do século V antes de Cristo, é o primeiro volume de um conjunto de três que reúnem as tragédias escritas por este autor que chegaram até hoje. Livros editados pela "Imprensa Nacional Casa da Moeda", encontrando-se o segundo esgotado enquanto o terceiro comprei antes que deixasse de estar disponível.
O presente livro contém quatro peças, uma sátira: Ciclope; e três tragédias: Alceste, Medeia e Heráclidas. A primeira corresponde a um episódio baseado na Odisseia, a aventura de Ulisses quando se vem abastecer em terra com a sua tripulação do regresso da Guerra de Troia e se encontra na gruta do gigante de um só olho e antropófago, o ciclope Polifemo, que imediatamente procura utilizar estes homens nos seus futuros repastos, mas a astúcia de Ulisses com o uso do vinho e aliciando os sátiros que serviam o ciclope lá se conseguirá libertar da situação. Uma peça cheia de humor com uma linguagem por vezes brejeira e fácil.
As restantes 3 peças são de uma profundidade e grande e todas elas envolvem lições de moral.
Em Alceste, Admeto, o rei de Feras, está condenado a morrer doente pelos deuses da morte, exceto se alguém der a sua vida por ele, ninguém assume tal ato, nem os seus pais idosos, então em segredo a sua mulher e mãe dos seus filhos, Alceste, assume o sacrifício com todas as tensões e análises morais que tal ato heroico e comportamento das personagens implica. Hércules conhecendo a situação irá procurar resgatar a heroína do mundo dos mortos e devolvê-la ao marido com toda a abordagem pós clímax. 
Medeia é uma história de infidelidade e vingança. Uma filha de rei que fugiu da sua casa real, que se opunha ao seu objetivo de se casar com grego Jasão, provocando ainda a morte do irmão. Jasão mais tarde decide abandoná-la com os filhos para se casar com a filha do rei da sua nova cidade Atenas. Apesar da condenação dos personagens pelo ato do marido, o rei ainda expulsa Medeia da cidade por questões de segurança. Só que a vingança de Medeia levará ao homicídio dos seus próprios filhos e da princesa, para não haver redenção em Jasão. Uma peça que analisa as questões morais do comportamento das personagens envolvidas e com um elogio belíssimo sobre os valores morais e de justiça defendidos por Atenas. 
Heráclidas, o nome dado aos filhos de Hércules, é uma peça com um teor moral mais fluído. Após a morte do herói Hércules por perseguições do rei Eristeu, este decide perseguir os próprios filhos daquele que se abrigaram no estrangeiro à sombra de um templo a Zeus na cidade de Maratona. Defendendo o princípio de hospitalidade o rei anfitrião, mesmo perante a ameaça de invasão resiste, mas é abalado quando os oráculos vaticinam a derrota de Maratona se não houver o sacrifício de uma jovem nobre, algo que Demofonte não está em condições de implementar no seu reino democrático. Eis que Macária, uma das filhas de Hércules, assume o sacrifício pela sua família e cidade de acolhimento, o que levará à derrota do inimigo e à entrega de Eristeu à velha mãe de Hércules, mas apesar das regras de clemência de Maratona este o modelo não é respeitado pela anciã Alcmena.
Nenhuma peças é extensa, necessitando de poucas horas de leitura, contudo o livro está cheio de anotações de peritos na arte clássica e existe para cada uma destas obras uma introdução de contexto que muito enriquece a respetiva compreensão e nos dão informações sobre a representação, o mundo helénico à época de Eurípides e o seu papel na abordagem das grandes questões morais, filosóficas, sociais e políticas de então que o levaram a tornar num dos três maiores trágicos clássicos.
Gostei muito, valeu a pena e o terceiro volume em breve deverá merecer a minha atenção. Foi um grande prazer apreciar estas obras com deuses e seres mitológicos perante grandes questões morais e sociais encenadas para o teatro há cerca de 2500 anos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

"Oliver Twist" de Charles Dickens

 

Acabei de ler um dos livros mais conhecidos do escritor inglês do século XIX Charles Dickens, o romance em parte autobiográfico "Oliver Twist". A narrativa corresponde à vida de um órfão nascido numa estrutura de acolhimento de crianças abandonadas e onde a mãe, uma desconhecida a aparentar fugir de uma família para salvar a honra desta, morreu ao dar à luz o bebé e batizado por Oliver Twist.

No início, os responsáveis pelos órfãos sem amor deixam-nos passar fome e frio para economizar verbas e daí tirar dividendos da poupança excessiva e o protagonista, humilde e de bom trato, é uma das maiores vítimas. Ao chegar à idade em que é possível explorá-lo como mão-de-obra infantil entra outra série de sofrimentos e perseguições a que foge e cai nas mão de ladrões que exploram adolescentes nos seus roubo. Na ingenuidade num treino de assalto é preso mas acolhido por alguém bom que vê nele os traços de uma conhecida, só que a tentativa de os bandidos o recuperarem leva-o ao que parece ser o seu destino até que num assalto mal sucedido a situação levará a um confronto entre a tentativa da sua retoma pelos bandidos, a identificação das suas origem e alguém que o odeia e deseja a sua perdição.

Esta obra, como muitas outras de Dickens, é uma denúncia da injustiça social, a defesa da reabilitação das vítimas pela vitória do bem. Oliver Twist cumpre esta estrutura na íntegra, tendo também memórias da sua infância e mostra do submundo da pobreza e crime na Londres de então. Muito bem escrita, embora com a leveza típica de obra publicada por fascículos em jornais da época, e é muito fácil de ler. Também, como habitualmente em Dickens, a maioria das personagens são estilizadas de forma aos maus não terem virtudes e inspirarem ódio, enquanto os bons são quase perfeitos e vítimas dos primeiros e ansiamos a sua salvação, tudo isto sob uma luz de conceitos religiosos sobre a luta entre  bem e o mal com uma lição de moral, o que dá uma encenação algo forçada, mas é género fácil de agradar a qualquer leitor.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

"O rapaz que seguiu Ripley" de Patricia Highsmith

 

Acabei de ler o quarto livro dos romances da americana Patricia Highsmith com a personagem Tom Ripley, um criminoso amoral, simpático e amante de uma vida elegante com luxo e bom gosto artístico: "O rapaz que seguiu Ripley".

O protagonista americano continua a viver numa vivenda nos arredores de Paris com a sua esposa, filha de gente rica, que é tolerante com a suspeita dos seus atos ilegais. Um dia-a-dia de bem-estar na prática musical, a acompanhar os seus investimentos nas galerias e escola de pintura de que é sócio onde se introduziram quadros falsos de um pintor antes assassinado e a apreciar boa comida e convívio social. Nisto cruza-se com um adolescente que ele descobre ser alguém fugido de uma família milionária nos EUA após a morte do pai, rapaz que se sente atraído por Ripley dado o seu passado de suspeito criminoso. Desenvolve-se então uma amizade entre os dois apesar do risco do jovem vir a ser reconhecido das notícias sociais e ser alvo de rapto para resgate, mas Tom descobre-lhe um ato criminoso no adolescente. Na tentativa de o levar até à sua família e distraí-lo, enquanto um detetive o busca eles viajam por Berlim, Hamburgo e serão ainda vítimas de bandidos que obrigam o protagonista aos seus habituais atos geniais de disfarce e crime de modo a salvar o rapaz.

Apesar deste livro ter momentos de tensão, assassinatos e viagens a submundos, neste caso a noite gay de Berlim Ocidental dentro do muro, e a frieza de Ripley, é um romance suave, terno atravessado pela veia protetora do criminoso amoral que chega a ser paternal para com o rapaz. Uma obra de entretenimento mais suave que as anteriores e de menor suspense nas dificuldades que o protagonista atravessa, um carácter que mesmo sendo mau é capaz de gerar simpatias noutros personagens dos seus livros e no leitor. Gostei, manteve-me interessado mas sem a tensão tão elevada como os anteriores, sempre bem escrito e entretém.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

"Khadji-Murat" de Lev Tolstoi

 

Acabei de ler a última das obras de ficção do russo Lev Tolstoi, uma novela que só foi publicada postumamente: "Khadji-Murat"
A trama passa-se no Cáucaso e dá-nos uma imagem da guerra de ocupação russa da Chechénia e da resistência do seu povo. Khadji-Murat é um chefe guerrilheiro checheno, convertido profundamente ao islamismo, que mesmo sem confiar no líder do seu povo, que o conduz numa "guerra-santa" contra o invasor cristão russo, lutou intensamente ao seu lado com importantes vitórias. Todavia, a desconfiança e o mal que reconhece em Chamil, leva-o a optar por pessoalmente se entregar ao czar através de militares ocupantes que lhe despertam confiança. Decorre então um período de desconfiança dos russos que o mantém cativo experimentalmente, entretanto Khadji-Murat é alvo de chantagem do seu imã que tem como refém a família do protagonista. Neste período vamos descobrir um homem íntegro que se vê entre o mau e ambicioso líder checheno e uma sociedade de militares e nobreza sem valores morais, viciada e interesseira, uma tensão entre dois mundos perversos em confronto que conduzirá ao choque final.
Uma obra curta, sem o vigor dos seus maiores romances, mas onde a filosofia que marcou Tolstoi está presente: a integridade do homem bom no seio do mal, as divisões culturais entre a Rússia e a Europa ocidental, o conflito do império com os vizinhos do sul, os valores das religiões e o desprezo por quem as usa como estandarte para conquistar ou manter o poder. 
Tolstoi, apesar de assumidamente cristão e russo, neste livro deixa claro os podres que gangrenam o seu povo e os crentes, sendo a integridade humana uma raridade que dificilmente resiste estas ameaças.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

"Baía dos Tigres" de Pedro Rosa Mendes

 

Excerto

"Capitalismo é exploração. Comunismo não traz progresso. Mas este país é miséria. Só há uma lei: manda quem pode e obedece quem tem juízo."

Acabei de ler o livro "Baía dos Tigres", prémio PEN clube de 1999, do jornalista, escritor e repórter de guerra português Pedro Rosa Mendes. Apesar da obra estar qualificada como romance, de facto é uma reportagem, provavelmente com personagens e passagens ficcionadas, mas radicadas em factos e pessoas que foram narrados ao autor ou este se cruzou.

Pedro Rosa Mendes em 1997, período de interregno na guerra civil angolana na sequência do acordo de Lusaka, implementou uma travessia de Angola a Moçambique que, em simultâneo, recordava várias viagens de séculos anteriores que foram então feitas na tentativa de unir estas colónias portuguesas e para o controlo luso desta faixa africana.  O livro é composto de pequenos textos com impressões da sua viagem que aqui são reunidos sob a forma de crónica, conto, ensaio ou reportagem, os quais fazem um retrato, sobretudo, do sul de Angola, um pouco de Moçambique e até da Zâmbia. Não sei se poderia chamar literatura de viagem, mas sem dúvida que é uma mistura de ficção e reportagem.

Mesmo escrito por um jornalista, todos os textos são trabalhados literariamente de um forma bastante rica e diversificada, nele estão incorporados figuras de estilo literário clássicas e formas tipicamente africanas: vocabulário, modo de pensar, falar e estar. Existem momentos a descrever o terror com humor, até hilariantes e de grande beleza imagética. Há outras passagens que são, sobretudo, narrativas descritivas e memórias ricamente trabalhadas de forma estética, que vão do alegre ao terror da guerra e passam pela amargura de um povo que não pode ter perspetivas à sua frente e onde os mais velhos têm memórias de outros tempos e os mais novos nem passado nem futuro, apenas a sobrevivência do presente. Há ainda poesia a pontuar a obra, poemas de guerra, poemas cheio de alma e tradições do sul de Angola. Há denúncias de situações, há relatos de horror e da sua destruição louca, mas nunca a escrita perde a forma de ser grande literatura, como qualificou a obra José Eduardo Agualusa.

No conjunto, o livro está cheio de vozes como as que compõe as obras da laureada com o Nobel da literatura Svetlana Alexijevich e não menor riqueza literária. No livro há sobretudo vítimas, percebe-se quem foram os senhores da guerra, percebe-se que há culpados e há oportunistas ainda piores que os maus e nem o poder oficial ou oposição são isentados nesta obra, mas o que Pedro Rosa Mendes faz é um retrato da situação no terreno naquele momento de interregno da guerra e por isso o tom alegre inicial vai-se tornando mais triste. Gostaria que houvesse uma obra equivalente atual para saber como está a situação no terreno hoje.

Uma obra que apesar de dura, a ternura e a beleza de escrita a tornam fácil de ler e gostei muito.


quarta-feira, 25 de novembro de 2020

"As aventuras de Augie March" de Saul Bellow

 
Acabei de ler o romance "As Aventuras de Augie March" do escritor nascido no Canadá que adquiriu a nacionalidade Norte-americana e vencedor do prémio Nobel da Literatura.
A obra é a autobiografia de Augie que a narra desde criança, quando viveu num bairro pobre de Chicago na década de 1920, até homem estabelecido socialmente e a viver no centro de Paris. Filho de mãe abandonada, com um irmão mais velho e outro mais novo com atraso mental e a partilhar o apartamento com uma anciã aristocrata fugida à revolução russa, ali acolhida para suportar os encargos da família carecida de dinheiro. Do amor à mãe lutadora aos conselhos da idosa autoritária que reconhece potencial nos irmãos mais velhos, o protagonista desenvolve a vontade de viver entre gente rica mas sem perder a sua liberdade individual. O seu aspeto atraente conjugado com o ar de filho abandonado inspiram os endinheirados a acolhê-lo e a adotarem-no, algo não muito diferente ocorre ao nível de mulheres bonitas. Numa vida comparada com a do irmão, que sobe mais rápido acomodado às exigências dos objetivos, Augie, além dos passos rebeldes da infância de bairro, segue uma luta de resistência aos seus protetores sempre que implique cedências pessoais, desperdiçando oportunidades flagrantes na sua alma rebelde à subserviência e por vezes passando por situações arriscadas com a lei, com a vida e com os seus grandes amores, mas sem nunca se desligar da necessidade de proteger as fragilidade do irmão mais novo e da mãe que vai cegando.
As aventura e desventuras de Augie são magníficas. Os retratos de Chicago pobre, do pequeno banditismo, dos efeitos da depressão e do modo de criação de fortuna em certas famílias são excelentes. O exotismo de certas personagens e das cenas passadas no México é fabuloso. Além das numerosas referências à cultura clássica e a personalidade da história da Europa e da América numa coletânea que demonstra o elevado nível cultural do autor. Todavia, o texto muitas vezes estende-se por numerosos pormenores e uma adjetivação excessiva que para mim o tornou demasiado extenso, nalguns momentos mesmo fastidioso de tão prolixo.
Por tudo isto, apesar de ser uma excelente história, confesso que para mim teria sido um magnífico romance se o autor tivesse tido a vontade de sintetizar e de cortar os excessos para que as mais de 700 páginas em letra miúda tivessem passado a cerca de 500 com uma dimensão agradável à leitura. Um bom romance que sei de leitores que desistiram cedo e por isso perderam muitas destas excelentes aventuras, mas a obra exige mesmo alguma resistência ao exagero de palavras.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

"A Nuvem de Smog e a Formiga Argentina" de Italo Calvino

 

Li "A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina" do italiano Italo Calvino, um livro constituído por dois contos que precisamente formam o seu título.

Apesar de diferente, ambos os contos evidenciam um desequilíbrio incómodo com a natureza envolvente, a obra tem o subtítulo de "Uma narrativa lírico-simbólica da relação de um homem com uma realidade" e, de facto, ambas narrativas são algo absurdas e narradas por um personagem masculino.

No primeiro conto, o narrador vem para uma cidade liderar o projeto jornalístico do trabalho de uma empresa em prol da melhoria da qualidade do ar, sendo que o seu gestor integra a de outra poluidora da atmosfera. O jovem vai aprendendo a arte de comunicar em conformidade com os objetivos do empregador, sendo que em paralelo observa o smog e o pó que conspurca tudo sobre a cidade, descobre a vida no bairro onde mora. Entretanto mantém uma relação com uma apaixonada rica que o visita, mas que vive fora da realidade do mundo do cidadão comum, com o avançar ele descobre um mundo de limpeza.

No segundo, uma família vem viver para uma cidade e descobre que a sua zona é dominada pela formiga argentina, esta tende a ocupar todos os espaços livres  e na luta do marido este descobre  um conjunto de vizinhos que vivem obcecados nessa guerra, embora cada um de forma distinta e por vezes com métodos contraditórios, havendo ainda quem renegue ver o problema por orgulho, para um final encontram um local onde gozam a ausência do novo inimigo.

Gostei do livro, embora os contos nos deixem algo incomodados, a obra evidencia que já na década de 1950 o autor se questionava sobre problemas do ambiente e os interesses que permitiam alastrá-los.