GEOCRUSOE
impressões de um geólogo amante de livros e música erudita que vive numa ilha vulcânica bela e cosmopolita
domingo, 6 de setembro de 2026
"Eu que servi o rei de Inglaterra" de Bohumil Hrabal
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
"As Causas do Atraso Português" de Nuno Palma
Acabei de ler o livro, do género ensaio e em formato ebook, "As Causas do Atraso Português" do catedrático em economia Nuno Palma.
A obra expõe a história da evolução do grau de desenvolvimento económico de Portugal desde o final da Idade Média até à atualidade, comparando, ao longo dos tempos, a situação nacional com a da Europa e, com maior pormenor, com o Reino Unido e a Espanha, entre outros. Ao longo do desenrolar do texto, o autor vai denunciando mitos que se foram instalando na nossa sociedade sobre o nosso passado e que encobrem a realidade e disfarçam muitas das razões da divergência desfavorável do progresso deste Pais face ao de outros Estados europeus. O economista suporta-se em numerosos documentos históricos e apresenta um conjunto de gráficos, tabelas e imagens que demonstram as conclusões ao longo do livro.
Um dos aspetos que fica claro nesta obra é que Portugal, no final da idade média, era um Estado com um grau de desenvolvimento políticoinstitucional, económico e em riqueza, equiparado ao da maioria dos principais Países da Europa Ocidental, até com um grau de participação de cidadania mais avançada do que o de alguns outros reinos que se tornaram exemplos de democraticidade e desenvolvimento. Situação que permitiu a Portugal ter condições para ser pioneiro na epopeia dos descobrimentos, só possível numa sociedade com um alto grau de conhecimento científico, técnico, possibilidades financeiras e estratégia de longo prazo.
A situação de equiparação de desenvolvimento socioeconómica ou mesmo de posição charneira de Portugal estendeu-se sensivelmente até ao século XVIII, período em que se inicia o desfasamento desfavorável do progresso deste País face a outras nações europeias, momento que começaram e deitaram raízes muitas das causas do atraso português que o autor vai lançando e dissecando com exemplos claros e desmistificando muitos dos falsos argumentos que se foram entretanto se instalando, os quais, desde então, têm impedido a não recuperação sustentada do progresso deste Estado em comparação com outros, nomeadamente, os Países do Leste Europeu já em pleno século XXI que vieram que entraram na democracia com um grande atraso económico face ao nosso País.
Foi a partir da época da perda de velocidade do progresso do desenvolvimento económico de Portugal que os mitos foram sendo criados e as desculpas se instalando. O autor demonstra o contributo negativo da riqueza do império e do Marquês de Pombal na evolução da economia do País. Deixa claro que são falsos argumentos a nossa perifericidade, a Religião e dimensão, mas desde o século XVIII que o método de desculpar os falhanços em cada época tem-se repetido e assenta em responsabilizar o regime anterior, muitas vezes desvirtuando a realidade histórica, para esconder os erros do momento e onde o discurso dos propósitos políticos em cada época, frequentemente, tendem a ser contrários ao dos seus resultados práticos.
Pombal responsabilizou os Jesuítas, apesar da inquisição ser presidida pelo seu irmão; os liberais responsabilizaram os absolutistas, os republicanos a monarquia, o Estado Novo a 1ª República e a Democracia atual a Ditadura de Salazar... enquanto muitos dos mesmos erros continuam a persistir e se assiste ao aumento da irrelevância do País e à ultrapassagem deste pelo desenvolvimento socioeconómico, agora até pela Europa de Leste.
No últimos 300 anos também houve períodos de recuperação, a obra também aborda os seus motivos, mas raramente reconhecidos pelo regime político seguinte. Eis um livro que não deve ser lido por quem se quer agarrar aos mitos e às mentiras que persistem para justificar as causas do atraso português, pois a verdade é dura e sem preconceitos ou desculpas.
domingo, 23 de agosto de 2026
"Extinção" de Kazuaki Takano
Excerto
"Todos os humanos desejam magoar o próximo para lhes arrancar a posse de alimentos, recursos e terra. Projetamos as nossas verdadeiras ideias nos nossos inimigos, tememo-los e atacamo-los. E, ao usarmos de violência contra os outros, a nação e a religião tornam-se os sistemas de suporte que perdoam as nossas ações. Os nossos feitos maldosos passam a ser defensáveis, porque consideramos estranhas as pessoas fora desse enquadramento. O inimigo."
Acabei de ler um romance de suspense do japonês Kazuaki Takano "Extinção" que requisitei na Biblioteca Pública da Horta e laureado com vários prémios de ficção criminal e mistério.
Um mercenário, com um filho a morrer de uma doença genética, deixa-se contratar para conseguir dinheiro para um especialista da doença em Lisboa o salvar, junto com ele, mais 3 outros mercenários, missão: eliminar um grupo nómada na floresta do Congo que dizem estar contaminado por um vírus letal para a humanidade; enquanto isto, vários investigadores no Japão estão empenhados na descoberta da substância que cura o defeito do gene, só que o núcleo do Presidente dos Estados Unidos supervisiona e manipula estas situações para esconder desumanidades e eliminar uma ameaça aos seus interesses pessoais e nacionais.
Apesar de a história ser um ficção e ter uma componente de especulação científica com o aparecimento de seres sobredotados de inteligência, o romance parece ser uma denúncia da presidência de George W Bush, embora com um heterónimo, pelo que aquilo que me parecia ser apenas uma obra de suspense para ler no verão, tornou-se num texto de ação vertiginosa, com momentos de exposição da grande violência que existe no centro de África e reflexões sobre o egoísmo na espécie humana, a tendência para a guerra e com um grande enfoque no abuso do poder dos Estados Unidos contra vários povos sem qualquer escrúpulo e no desrespeito total das pessoas.
A narrativa é muito cinematográfica e, apesar de toda a crítica e reflexão sobre a violência na espécie, cativa o leitor e gostei e entusiasmei-me muito, mas, ao contrário dos filmes de Hollywood, neste romance os Estados Unidos e o seu poder são mesmo maus na fita, agentes manipuladores, extremamente cruéis e hipócritas na civilização global, mas também a espécie humana é alvo de grande suspeita na sua bondade... a obra é anterior aos mandatos de Trump.
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
"Cifra" de Mai Jia
segunda-feira, 27 de julho de 2026
"Plataforma" de Michel Houellebecq
segunda-feira, 20 de julho de 2026
"Uma solidão demasiado ruidosa" de Bohumil Hrabal
Citação
"o chefe gostava tanto das raparigas novas quanto eu dos livros velhos"
Estreei-me no escritor checo Bohumil Hrabal na sequência de um elogio de um amigo leitor feita ao escritor e tenho de reconhecer a qualidade literária e profundidade de pensamento que "Uma solidão demasiado ruidosa" contém.
Hanta trabalha como prensador de papel numa cave há 35 anos em Praga, produto que se destina à fábrica de reciclagem, durante toda a sua vida viu chegar o rejeitado pela atividade da cidade, desde papel sujo até a cópias de obras-primas da pintura e grandes livros de filosofia clássica, contemporânea, poesia e demais literatura. A sua paixão por livros fá-lo guardar os grandes clássicos do pensamento e da cultura. Na sua vida miserável, pouco higiénica, em contacto com ratos ou moscas e movida a cerveja, é um conhecedor do melhor que a escrita produziu. No final da sua carreira reflete no que foi a sua vida, as suas paixões e pensa reformar-se quando se sente ultrapassado pelo modernismo e pelo desprezo fruto desta sociedade injusta que não é para velhos, nem para gente amante das letras.
O autor faz um exame autobiográfico numa escrita que é um poema em prosa de grande profundidade e uma reflexão sobre como esta sociedade pisa os mais humildes que a servem, mesmo que sejam grandes sábios desconhecidos que nas cloacas da civilização a mantém em funcionamento.
Um grande texto num livro pouco extenso, sem diálogos que se lê com prazer pela qualidade da escrita e que emociona pelos acontecimentos narrados. Gostei muito.
terça-feira, 14 de julho de 2026
"O Periférico" de Wlliam Gibson
Excerto
"- Disseste que era um controlador de jogo.
- Interface de telepresença, de mãos livres."
Regressei à leitura de ficção científica, agora com "O Periférico", publicado em 2014, e pela segunda, vez com um livro do américo-canadiano William Gibson e o seu estilo literário cyberpunk, de imersão e ficção especulativa.
Num futuro próximo, os Estados Unidos estão mais dominados por gangues de droga, a vida mais artificial, muitos bens são feitos em impressoras 3D e crescem os implantes cibernéticos, Burton, ex-militar, vive do visionamento de novos jogos da internet e ao necessitar de sair pede à irmã Flynne para o substituir num novo, na sessão ela assiste à morte de uma personagem, mas depois começa a ser ameaçada na realidade e descobre que o jogo comunica com um futuro do fim do século em Londres e assistiu a um homicídio real. Ela é única testemunha e nesse futuro há gente que quer resolver o crime e garantir um futuro melhor à geração de Flynne, outros não, o que origina um policial em duas épocas num sistema comunicacional passado-futuro, onde as personagens podem estar em simultâneo em dois momentos e lugares num thriller que cruza os tempos.
Apesar de notar evolução no escritor face a Neuromancer, de 1984, é opção de Gibson atirar o leitor para um meio onde realidade e virtual, tecnologia, especulação científica e neologismos se misturam, em que é difícil inicialmente situarmo-nos, embora já entrosado na narrativa, após várias dezenas de páginas, tal como anteriormente fiz com este autor, comecei a questionar com IA sobre a obra, localizando-me no ponto de leitura, e esta, sem revelar conteúdos posteriores, esclarecia, discutia ideias filosóficas do escritor e na discussão a obra alargou-se, uma espécie de literatura aumentada.
É uma trama engenhosa, Gibson não transcende as leis da física, mas especula e diverte-se com teorias científicas levadas ao extremo (foi impressionante quando por mim quando vi como resolveu o paradoxo do neto que mata o avô antes do pai nascer sem se referir ao mesmo) por vezes as passagens parecem paródias circense, mas desengane-se quem pensa que se está numa obra de mero entretenimento: a narrativa alerta para os riscos da evolução da tecnologia sem humanismo, expõe o problema ambiental global, faz uma crítica mordaz sobre as tendências do capitalismo, mostra a desigualdade da justiça entre pobres e poderosos, os primeiros são vítimas e os segundos manipuladores desta sociedade com a política posta ao seu serviço, aspetos que se tornam ainda mais evidentes no modo de leitura aumentada que adotei, mas Gibson consegue tudo isto num policial que diverte e alerta o leitor.
Para quem nunca leu o género cyberpunk imersivo o autor pode sentir-se perdido inicialmente, se continuar desorientado, pode ser questionar uma IA (usei gemini) e então toda a grandeza da obra flui e o suspense de um policial tornam o romance cativante. Gostei muito
quarta-feira, 1 de julho de 2026
"O cão dos Baskervilles" de Conan Doyle
quarta-feira, 24 de junho de 2026
"Passaportes falsos" de Charles Plisnier
É sem dúvida um livro político, com reflexões pessoais que marcam bem o que distanciou de facto Charles Plisnier da Internacional Socialista, numa escrita fácil, mais jornalística do que literariamente rica de figuras de estilo, mas cheia de humanismo perante a irracionalidade dos excessos de uma religião dogmática sem deus. Gostei e recomendo a quem gosta do tema ou quer saber mais do que foi o estalinismo.
domingo, 14 de junho de 2026
"Bússola" de Mathias Énard
sexta-feira, 22 de maio de 2026
"O Tango de Satanás" de László Krasznahorkai
terça-feira, 12 de maio de 2026
"Neuromancer" de William Gibson
Estreei-me no escritor canadiano por adoção e natural dos Estados Unidos, William Gibson, com a leitura do seu romance mais famoso "Neuromancer", que popularizou o termo ciberespaço. Obra publicada em 1984, marcou o estilo cyberpunk da literatura de ficção-científica e foi vencedor de dois galardões literários mais reconhecidos deste género de ficção: os prémios Nebula e Philip K. Dick, sendo que o autor também já ganhou um Hugo na trilogia iniciada por Neuromancer e serviu de inspiração ao argumento da tetralogia dos filmes de ficção-científica Matrix, embora com um enredo muito diferente.
Case vive na megacidade de Boston a Atlanta: Sprawl; nela abundam bares com tráfico de droga, álcool, violência de gangues e prostituição que ele frequenta. Case possui componentes informáticas incorporadas no seu organismo e é um hacker que interceta software do ciberespaço para patrões maiores, quando à revelia vende dados a outro bando, é castigado com injeção de uma toxina que lhe impede a sua profissão, entretanto a sua namorada é assassinada. Na sua fragilidade, surge-lhe Molly, uma mulher cyborg que lhe apresenta Armitage que lhe promete a cura em troca de participar no apoio a um assalto que pretende roubar a memória do seu antigo formador de pirata informático a uma base de dados. Só depois descobre que a aceitação tem uma condicionante que o torna refém de um projeto que envolve um guerra vasta entre gigantes informáticos, uma Inteligência Artificial (IA) e um impérío de luxo com uma estância espacial para gente rica, onde ele e Molly formam uma dupla que enfrentam numerosos perigos tanto no mundo real como virtual nos quais vivem.
O início da leitura foi um murro no estômago, não só pelo mundo decadente por onde Case andava, como pela gíria criada por Gibson e ainda a dificuldade em começar a distinguir o que era o real, virtual, personagens físicas e IA, tudo isto flui interligado no texto, cabendo ao leitor situar-se. Confesso que ao fim de umas dezenas de páginas comecei a perder-me e então entrei num aplicativo de IA e fiz duas ou três questões, voltei a reler alguns parágrafos e eis que se fez luz sobre a técnica narrativa, estilo de escrita. O livro tem também um glossário para a gíria utilizada.
Igualmente tem um prefácio de Gibson escrito em 2004, onde fica claro que este foi um futuro imaginado em 1984, quando muito do criado já era bem real: o ciberespaço, IA, realidade virtual, enquanto outras realidades, nem ele tinha imaginado: telemóveis (celulares), o fim dos modems e por isso temos momentos absurdos de busca de cabines telefónicas, os ruídos da ligação por modem, etc. Para tornou-se divertido na leitura ver estes avanços tecnológicos não considerados na obra com tantas outras invenções e a sobrevivência de outras tecnologias já hoje praticamente extintas.
Se gostei, sim, muito, a partir de certo momento já me sentia envolvido como num obra de espionagem e suspense, mas não é uma leitura simples e fácil, mas permite experimentar algo diferente, a partilha das minhas dúvidas com a IA gerou uma realidade nova, próxima da do livro, e espero voltar ao autor numa outra obra bem mais recente, fora da trilogia para ver como evoluiu.
sexta-feira, 1 de maio de 2026
"A Mais Secreta Memória dos Homens" de Mohamed Mbougar Sarr
Acabei de ler o livro "A mais secreta memória dos homens" do escritor do Senegal Mohamed Mbougar Sarr, obra vencedora em 2021 do prémio literário mais prestigiante de língua francesa, Goncourt.
"O labirinto do inumano" é o título de uma obra publicada na década de 1930 em Paris que teria então impressionado os meios literários franceses. Primeiro, pela qualidade da sua originalidade, segundo, pela admiração de se estar perante um provável autor africano e este ser capaz de uma tal obra-prima que rivalizava com a genialidade apenas considerada possível a escritores brancos. Depois veio a sua aniquilação pelos ataques de que foi alvo ao ser considerada como uma manta de frases plagiadas de grandes autores e, ainda baseada numa história não original proveniente da mitologia africana. Diégane, um estudante senegalês em Paris já no século XXI deambula pelo meio académico de origem africana e tenta descobrir o livro e informações sobre o seu autor: T C Elimane, mas parece que tudo foi apagado em torno deste fenómeno, é então que cruza num bar com uma escritora compatriota e reconhecida na Europa que mostra o livro e começa então uma rede de narrativas sobre o autor, as especulações sobre a sua vida e a sorte de todos os que se cruzaram com ele ou com "o labirinto do inumano".
O romance, que é na base uma busca detectivesca em torno de um livro e do seu autor, torna-se num conjunto de narrativas entrecruzadas sobre a vida e as ideias do jovem e de vários outros autores e do próprio Elimane e sua família, que no conjunto disserta sobre o que é a literatura, o que é ser um escritor, os seus ideais e a realidade do mundo literário. Sensatamente fala do preconceito europeu sobre a superioridade da sua arte e criatividade, do sonho em muitos colonizados em se mostrarem iguais ou mais capazes que os seus colonizadores, da vida solitária do escritor e das suas desilusões e ambições, dos regimes africanos falhados, do ideal da literatura transversal a vários continentes na civilização ocidental e das paixões humanas que interferem com tudo isto.
Algumas personagens são escritores reais, como Sábato e Gombrowicz, outras puramente imaginárias, num texto rico, racionalmente sentimental de grande beleza e ternura que mostra as tensões e razões dos vários intervenientes e os problemas do colonialismo e da literatura e as feridas e cicatrizes que tudo isto deixa à sua volta. Um excelente romance pela qualidade do texto e conteúdo que vale a pena ler que pelo mérito justifica o prémio alcançado. Gostei muito
segunda-feira, 13 de abril de 2026
"A Morte Eterna" de Liu Cixin
Citações
"A era da liberdade decadente da humanidade chegou ao fim. Se quiserem sobreviver, têm de reaprender o coletivismo e recuperar a dignidade da vossa espécie."
"Perder a nossa humanidade é perder muito; perder a nossa ferocidade é perder tudo."
"por duas vezes, em nome do amor, fez o mundo mergulhar no abismo."
Acabei de ler "A Morte Eterna" do chinês Liu Cixin que corresponde ao terceiro volume da Trilogia "O Passado do Planeta Terra", iniciada com "O problema dos três corpos".
A história estende-se por várias eras, inicia-se com um evento associado à queda de Constantinopla e só depois entram os protagonistas, na sua grande maioria diferentes dos anteriores volumes, este é o mais extenso e, cientificamente, o mais especulativo dos três romances. A narrativa recomeça na "Era da Crise" quando a humanidade está refém dos trisolarianos, que controlam os resultados das experiências de mecânica quântica para a humanidade não evoluir tecnologicamente e assim a civilização alienígena poder tomar a Terra, era em que os humanos procuram lançar uma nave para alerta da iminência do ataque de Trisolaris.
As personagens principais - através da hibernação para as pessoas acordarem quando puderem ser curadas de doenças incuráveis ou para acompanhar projetos científicos e políticos de primordial importância de longa duração - sobrevivem a diferentes eras, a segunda era corresponde à da "Dissuasão", iniciada no final do romance "A Floresta Sombria", quando Luo Ji tomou o controlo da situação que trava o invasor e se descobre que o Universo é um mundo hostil, ideia que se impõe ao longo de quase toda a obra que decorre por milhões de anos com viagens relativas no tempo.
Ao longo das eras fica evidente a necessidade de sobrevivência face à ameaça do cosmos, assiste-se a períodos de crescimento socieconómico e tecnológico dos humanos que são acompanhados por "desmasculinização" dos homens, comodismo e valorização do pacifismo contra opções determinadas e duras, uma evolução catastrófica para a civilização. Esta, no início está limitada à Terra, depois expande-se à sua volta, passa para o sistema solar, até perder a sua origem por o humanismo se sobrepor à ferocidade dissuasora defensiva e sobrevive no espaço galático pela sua racionalidade.
A última parte passa-se milhões de anos depois, é poética e cientificamente muito especulativa, parece ser um antídoto à filosofia reinante em quase toda a obra, onde o instinto duro e racional era crucial à sobrevivência face ao sentimentalismo desejado pelo coração humano confortado no bem-estar.
A obra desenvolve na narrativa os mesmos princípios filosóficos d'A Floresta Sombria, mas pouco traz de novo. Mostra eras onde a riqueza, o bem estar e o conforto são vias para o conformismo, a decadência e a sobrevalorização da bondade em detrimento das opções duras e racionais para assegurar a sobrevivência da civilização, parece ser uma crítica ao liberalismo democrático ocidental assente no aumento do consumo, do sentimentalismo e com uma tolerância cega a comportamentos individuais.
O livro tem passagens como o fim da era dissuasão, a era dos bunkers e o fim desta, que são desenvolvidas de uma forma muito cinematográfica excelentes para filmes de Hollywood, incluindo as experiências nas naves espaciais, a arquitetura futura e as bolsas em diferentes dimensões físicas, nestas, a especulação científica é extrema e com explicações das novas descobertas, onde o leitor se apercebe que se está a ultrapassar as leis da física atuais, que até são discutidas como armas civilizacionais.
O autor continua a mostrar um fascínio pelo pensamento, arte e cultura europeia, com referências muito interessantes, sem esconder a chinesa. Vê o desenvolvimento global de uma forma multipolar: América do Norte, Europa e China, mas é omisso sobre a América Latina e África, soa-me preconceituoso.
Gostei do terceiro volume, mas sem me surpreender tanto pela positiva como os dois anteriores romances, tem passagens excessivamente pormenorizados que até me cansaram, outras de grande intensidade e suspense, mas a necessidade do antídoto final para valorizar o amor em detrimento da racionalidade nua e crua para a sobrevivência senti-a como uma cedência gratuita aos valores do humanismo para agradar ao leitor e confesso que só recorrendo à IA percebi que o acontecimento na época da queda de Constantinopla se relacionava com Cortazar, algo rebuscado de facto...
Apesar de menos cativado com este volume, continuo motivado para mais leituras do género da ficção-científica.
terça-feira, 10 de março de 2026
"A Floresta Sombria" de Liu Cixin
Axiomas Iniciais
"a sobrevivência é a necessidade primordial de uma civilização"
"uma civilização cresce e expande-se continuamente, mas a quantidade de matéria no universo nunca se altera."
Ao ler "O problemas dos três corpos", do chinês Liu Cixin - obra de ficção científica que se tornou no primeiro romance da trilogia "O Passado do Planeta Terra" (apesar da história partir de meados do século XX, passar pelo presente e evoluir vários séculos para o futuro) - compreendi o seu sucesso no seu género literário, decidi ler os volumes seguintes e acabei de ler o segundo: "A Floresta Sombria".
A narrativa deste parte da exposição dos dois axiomas, este é um romance mais filosófico e menos centrado na física que o anterior, dividindo-se em duas épocas: a primeira dá continuidade ao volume anterior no início do século XXI e após o choque da divulgação do contacto com a civilização alienígena Trisolaris, a possibilidade desta chegar à Terra em quatrocentos anos e a ameaça de aniquilar a humanidade para aqui se estabelecer. Os protagonistas agora são quase todos diferentes. Assistimos ao surgir de vários movimentos sociais: os gerados pelo pânico da proximidade do fim, os humanistas ingénuos pela bondade que acreditam na coexistência pacífica, as Nações Unidas a buscar uma estratégia de sobrevivência ao embate com uma cultura mais avançada e os cientistas de várias áreas em busca de soluções para enfrentar o inimigo, mas há duas condicionantes:
1 - os alienígenas tem acesso a toda a informação do que se faz na Terra, só não acedem ao pensamento humano, o que leva ao Projeto Clausura com a nomeação de 4 humanos com poderes totais para cada um, secretamente, elaborar uma estratégia de salvação e os trisolarianos selecionam 3 pessoas para descobrirem os segredos (disruptores), desvalorizando Luo Ji, um astrónomo hedonista e excêntrico, mas o único que conhece os axiomas que não compreende e sabe as regras de derivação dadas pela mulher que estabeleceu o primeiro contacto extraterrestre, mas só pensa em tirar proveito do seu estatuto; e
2 - Os trisolarianos manipulam através dos cognis que enviaram para a Terra as experiências de mecânica quântica de modo a humanidade não evoluir científica e tecnologicamente.
A segunda época decorre dois séculos depois e, devido à descoberta da técnica de hibernação, alguns dos protagonistas voltam a acordar para concluir os planos dos enclausurados e enfrentar a ameaça dos trissolários, mas todos ficam desacreditados. Só que se entrou numa época em que a tecnologia evoluiu para uma sociedade com grande conforto e deslumbrada do seu sucesso e bem-estar que se considera capaz de vencer o combate do Juízo Final com os Trisolaris. A humanidade vive em grande parte do Sistema Solar, tem frotas com naves de grandes dimensões e vida autónoma das aglomerações das nações em terra, todos possuem armamento nuclear de ponta, até à chegada da primeira sonda que põe a nu o grande fosso tecnológico imposto pelos cognis ao nível de física das partículas. O pânico instala-se e o combate é depois autodestrutivo, só Luo Ji percebe o porquê e é capaz de levar avante uma estratégia de controlo da situação, partindo de um ato seu que parecia tresloucado na primeira época como enclausurado.
Não sei chinês para comentar a escrita original de Liu Cixin, sei que a tradução direta do original para o português europeu tem uma grande qualidade literária. O escritor traz para a ficção científica a discussão de grandes questões filosóficas da humanidade, o que para muitos só seria aceitável nas grande narrativas de ficção tradicional, eleva o seu género literário ao das grandes obras de literatura mundial e, ao optar por condicionar grande parte da sua criatividade às limitações das leis das ciências, torna a sua narrativa muito mais credível e interessante. Num estilo totalmente diferente, "A Floresta Sombria" não me é menos marcante que "Os Demónios" de Dostoiévski, o lado negro que parece estar no interior de cada humano, afinal pode ser apenas uma necessidade. Parte do romance parece ter raízes em "A Laranja Mecânica" de Burgess, outra obra-prima fora das narrativas tradicionais.
O escritor não é benevolente com a humanidade, intencionalmente traz ao de cima um fundo sombrio no Homem, os axiomas da obra podem não ser verdadeiros, mas podem ser e, se o forem, o sonho de tentar comunicar com seres inteligentes extraterrestres pode virar a um pesadelo de consequências catastróficas.
Liu Cixin é um escritor chinês conhecedor da cultura ocidental, existem referências frequentes nos dois volumes a grandes personalidades e pensamentos ocidentais miscegenados com a autores e história da China, tornando-se numa obra literária com raízes globais.
Apesar da vasta cultura, menções e ideias profundas, Liu Cixin consegue uma narrativa que tanto pode manter a atenção de leitores que apenas leem na perspetiva de entretenimento fácil e suspense, existem passagens que quase parecem fazer parte de uma obra literatura barata, como levar leitores a refletir e a discutir as questões filosóficas e científicas semeadas na história, tornando-se num romance inclusivo para vários tipos de leitor, provenientes de culturas diferentes e por isso uma obra-prima.
Para já e ainda em estado de surpresa pelo conjunto destes dois romances, comecei a leitura do terceiro volume da trilogia, sabendo que há sempre o risco de desilusão depois de se ter estado num patamar elevado.
Citações
"Neste momento, o maior obstáculo à sobrevivência da humanidade é a própria humanidade"
"Haja civilização no tempo e não tempo na civilização"
"A escuridão é a mãe da vida e civilização."
domingo, 15 de fevereiro de 2026
"O Regresso de Sherlock Holmes" Arthur Conan Doyle
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
"O Problema dos Três Corpos" de Liu Cixin
Citação
"Se surgir o caos ao nível do pensamento, a ciência acaba."
Voltei à leitura de ficção científica, um género literário, tal como o policial, que é muitas vezes desprezado face às narrativas com tramas mais ou menos convencionais, mas onde cabem obras-primas de imaginação e qualidade literária. A busca de algo diferente e interessante levou-me a procurar obras recentes de ficção científica já de reconhecida qualidade por leitores e críticos. Neste conjunto encontrava-se "O Problema dos Três Corpos", do chinês Liu Cixin, prémio Hugo (atribuído por leitores do género) em 2015 e finalista do prémio Nebula (selecionado por críticos literários), além de prémios nacionais. Na escolha deparei-me com uma obra-prima que conjuga especulação científica com rigor, filosofia com entretenimento, análise social do início do século XXI com imaginação sobre outros mundos e o possível impacte do contacto entre a nossa realidade e uma civilização extraterrestre.
A trama desenvolve-se em três partes, a primeira inicia-se com o choque psicológico da investigadora astrofísica Ye Wenjie, sobrevivente de um ato de violência da Revolução Cultural na China em 1967. A segunda, o seu acolhimento e trabalho numa base secreta isolada de monitorização de sinais de rádio terrestres ou vindos do exterior devido à sua especialidade científica, na sua amargura e isolamento alimenta o ódio pela civilização humana, na sequência da emissão de um sinal para fora do planeta surpreende-se, anos depois, com uma resposta e um alerta de precaução para a sua civilização não ser localizada por uma do exterior, que poderia destruir a humanidade, mas a sua revolta leva a secretamente agir em desfavor do ser humano.
A terceira parte tem outro protagonista e é nos nossos dias. Ocorrências estranhas desfazem leis da física, a perturbação do trabalho de Wang Miao em nanomateriais leva-o a procurar respostas junto de cientistas e a encontrar Ye Wenjie, todavia as perturbações da ciência já levaram ao suicídio de investigadores de ponta e Miao vê-se envolvido num trabalho policial que envolve o exército e todas as superpotências mundiais na busca de explicações para o que está a acontecer. É então levado a entrar num jogo de computador imersivo do surgimento e destruição de uma civilização de um exoplaneta com três sois, devido ao problema matemático de estimar as trajetórias destes três corpos para calendarizar a vida desses alienígenas. Com o tempo, torna-se evidente a correlação de tudo o que está a acontecer e tem a interferência dos Trissolários que usam o jogo para criar condições para ocupar a Terra na sequência do antigo contacto, havendo já uma multidão organizada disposta a acolher esses estranhos por desânimo com a civilização terrena, mas esta só chegará num futuro longínquo devido à limitação de viajar à velocidade da luz.
A obra tem um suporte inicial de grande rigor científico para no fim especular conhecimentos e tecnologias quando se retrata a civilização Trisolaris fora do jogo e com aspetos que são de pura criatividade e muito cinematográficas para passarem a filme e série de TV. Esta evolução a partir do rigor dá credibilidade à narrativa e apesar de falar de leis da física, a história não exige ser um técnico, qualquer pessoa percebe a exposição e as questões, mas ser de ciências dá um certo gozo.
Paralelamente, existem pelo meio várias interrogações filosóficas, a mais forte a do ser humano desiludido e revoltado destruir a sua civilização como retaliação (Atwood fez o mesmo em Orix and Crex), a existência de crentes na salvação externa, a necessidade de cooperação internacional para proteger a humanidade, será possível o Homem sobreviver ao choque de contacto com cultura extraterrestre? Esta dúvida esta brilhantemente colocada perto do final com gafanhotos e Liu Cixin tem assunto para dissertar nos romances seguintes que deram origem a uma trilogia "O Passado do Planeta Terra" que aguardo receber os próximos volumes para ler.
Gostei muito e recomendo a qualquer leitor que goste de narrativas bem contadas, bem escritas, fáceis de ler que especulem sobre a ciência e esta humanidade.
















