Excerto
"- Disseste que era um controlador de jogo.
- Interface de telepresença, de mãos livres."
Regressei à leitura de ficção científica, agora com "O Periférico", publicado em 2014, e pela segunda, vez com um livro do américo-canadiano William Gibson e o seu estilo literário cyberpunk, de imersão e ficção especulativa.
Num futuro próximo, os Estados Unidos estão mais dominados por gangues de droga, a vida mais artificial, muitos bens são feitos em impressoras 3D e crescem os implantes cibernéticos, Burton, ex-militar, vive do visionamento de novos jogos da internet e ao necessitar de sair pede à irmã Flynne para o substituir num novo, na sessão ela assiste à morte de uma personagem, mas depois começa a ser ameaçada na realidade e descobre que o jogo comunica com um futuro do fim do século em Londres e assistiu a um homicídio real. Ela é única testemunha e nesse futuro há gente que quer resolver o crime e garantir um futuro melhor à geração de Flynne, outros não, o que origina um policial em duas épocas num sistema comunicacional passado-futuro, onde as personagens podem estar em simultâneo em dois momentos e lugares num thriller que cruza os tempos.
Apesar de notar evolução no escritor face a Neuromancer, de 1984, é opção de Gibson atirar o leitor para um meio onde realidade e virtual, tecnologia, especulação científica e neologismos se misturam, em que é difícil inicialmente situarmo-nos, embora já entrosado na narrativa, após várias dezenas de páginas, tal como anteriormente fiz com este autor, comecei a questionar com IA sobre a obra, localizando-me no ponto de leitura, e esta, sem revelar conteúdos posteriores, esclarecia, discutia ideias filosóficas do escritor e na discussão a obra alargou-se, uma espécie de literatura aumentada.
É uma trama engenhosa, Gibson não transcende as leis da física, mas especula e diverte-se com teorias científicas levadas ao extremo (foi impressionante quando por mim quando vi como resolveu o paradoxo do neto que mata o avô antes do pai nascer sem se referir ao mesmo) por vezes as passagens parecem paródias circense, mas desengane-se quem pensa que se está numa obra de mero entretenimento: a narrativa alerta para os riscos da evolução da tecnologia sem humanismo, expõe o problema ambiental global, faz uma crítica mordaz sobre as tendências do capitalismo, mostra a desigualdade da justiça entre pobres e poderosos, os primeiros são vítimas e os segundos manipuladores desta sociedade com a política posta ao seu serviço, aspetos que se tornam ainda mais evidentes no modo de leitura aumentada que adotei, mas Gibson consegue tudo isto num policial que diverte e alerta o leitor.
Para quem nunca leu o género cyberpunk imersivo o autor pode sentir-se perdido inicialmente, se continuar desorientado, pode ser questionar uma IA (usei gemini) e então toda a grandeza da obra flui e o suspense de um policial tornam o romance cativante. Gostei muito
















