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sábado, 22 de janeiro de 2022

"A Laranja Mecânica" de Anthony Burgess

 

Citação

"Será porventura um homem que escolhe o mal de certa forma melhor que um homem ao qual foi imposto o bem?"

Acabei de ler "A Laranja Mecânica" do inglês Anthony Burgess escrito na década de 1960 e adaptado ao cinema por Kubrik, não considero uma obra de ficção científica, mas é sem dúvida uma obra distópica, uma reflexão sobre a violência juvenil e dos limites do Estado para impor-se aos cidadãos para controlar essa mesma violência.

Alex narra a sua vida de adolescente e líder de um gangue cuja vida noturna era atacar cidadãos pacíficos, roubar e violar mulheres, para durante o dia ter uma vida mais calam ou de ressaca da noitada. Só que num desses atos é preso por homicídio. Pela sua idade o detido é convidado para cobaia de um método psiquiátrico sem o informar plenamente das suas consequências. Estas retiram-lhe o livre arbítrio pois torna-se incapaz de fazer o mal a outros por uma indução de indisposição no exercício de tal prática. Sendo ainda alvo de aproveitamento político depois destes danos.

A obra, um clássico da literatura distópica, tem a particularidade de estar escrita com recurso a uma gíria (denominada Nadsate) que Burgess criou, a qual procura evidenciar o linguajar hermético da adolescência e também  como em literatura este tipo de vocabulário não é utilizado, contudo a leitura torna-se no início difícil, havendo um dicionário no fim para dar apoio ao leitor. Todavia a dinâmica que o autor imprime ao texto, se houver habituação aos vocábulos, a leitura torna-se não só fluída como nos faz entrar na mente de um adolescente.

O filme que vi pela primeira vez há várias décadas é um dos filmes que mais me marcou até hoje e o livro ainda é mais impressionante, mas pode não ser uma obra fácil de ler devido a série de atos de violência física ou psicológica ao longo da narrativa, além do Nadsate... mas gostei muito do livro

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

"SAPIENS - História Breve da Humanidade" de Yuval Noah Harari

 

Acabei de ler, em E-book, o ensaio "Sapiens História Breve da Humanidade" do israelita Yuval Noah Harari. A obra tenta mostrar como a nossa espécie, saída da evolução biológica e, como tal, refém da física e da biologia, evoluiu através das revoluções cognitiva, agrícola e, recentemente, científica e tecnológica, se libertou de muitas amarras da natureza e está em vias de ser criadora de um novo Sapiens e, por isso, o deus criador de um novo "Homem". Daí o subtítulo "Sapiens de Animais a Deuses".

Escrito de uma forma vibrante, cada capítulo narra uma parte marcante da história da humanidade onde o homem dá um salto e se torna mais distinto das outras espécies animais, construindo mundos diferentes que levantam novos desafios físicos e questões éticas e morais, mas que, à primeira vista, parecem benéficos para a espécie, mas Harari duvida do seu contributo para um homem mais feliz.

A questão da felicidade e a vontade de vencer a morte é recorrente na obra. O autor questiona se com esta evolução não estamos a ficar cada vez mais escravos e menos felizes, havendo ainda o risco de o Homo sapiens, na sua busca de felicidade e vitória da morte, estar prestes a construir um outro Homem que, apesar dos sonhos que temos, pode resultar num monstro destruidor da própria humanidade.

A ideia lançada neste livro do Homem criador de um novo homem e, por isso, num papel de deus, levou a um outro ensaio posterior que foi o primeiro ebook que li do autor: "Homo Deus", que perspetiva o futuro, e, tal como neste, são obras que assumidamente negam o deus sobrenatural e redefinem o conceito de religião como qualquer ideologia ou crença que defenda absolutamente as suas verdades independentemente de acreditar no transcendental. Este aspeto é muito bem justificado por Yuval Noah Harari, o autor que mais tem contribuído para o meu caminhar para o agnosticismo, por isso a obra pode chocar crentes em ideologias ou religiões.

Muito fácil de ler e acessível a qualquer leitor que goste deste tipo de temas ou se questione sobre a humanidade.

quarta-feira, 12 de janeiro de 2022

"O Quarteto de Havana I - Um passado Perfeito" de Leonardo Padura

 

Acabei de ler o romance policial "Um Passado Perfeito", escrito pelo cubano Leonardo Padura. Este faz parte com outras três obras do mesmo género e independentes entre si do designado "Quarteto de Havana", que foi editado em dois volumes, cada um contendo 2 casos de investigação protagonizados tenente Mário Conde.

Num sábado de madrugada Mário Conde em ressaca da noitada é acordado pelo seu superior para investigar o desaparecimento de um quadro superior de uma empresa pública de importações, eis que ele se apercebe que se trata do seu colega exemplar e ambicioso da escola pré-universidade que, além de ter subido alto na vida, lhe roubou a sua colega bonita e de boas famílias por quem sempre esteve apaixonado. No desenrolar o seu trabalho vai contactar com a mulher dos seus sonhos, as memórias do passado com companheiros de ensino e lutar com o preconceito e desconfiança da perfeição daquela estrela ascendente, avivando sua paixão pela mulher dos seus sonhos e suspeita no desaparecimento.

Passado no final da década de 1980, quando a União Soviética começa a ruir, Padura mostra a decadência do seu protagonista, um homem culto, escritor falhado que virou a polícia, mergulhou no álcool face às suas frustrações, desamores e dificuldades do país: uma metáfora, sem hostilizar o sistema político, que mostra as fragilidades e consequências sociais do castrismo, pondo a nu a pobreza em Havana, expondo vítimas das intervenções militares de Cuba em Angola em nome do comunismo e o frequente sonho de muitos fugirem para o estrangeiro que lhes é inacessível, enquanto uma elite procura subir no setor público através de mecanismos pouco lícitos e permanentemente sob a vigilância do partido único que não consegue eliminar a corrupção e as vigarices. 

Uma escrita realista, escorreita da decadente sociedade e das suas personagens centrais. Lê-se muito bem e onde o estilo policial é uma ferramenta de apoio para mostrar Cuba, assim vai muito além de um simples romance de investigação criminal. Gostei e é fácil de ler, sem ser literatura banal ou de cordel.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

"O Mistério de Sittaford" de Agatha Christie

 

Acabei de ler mais um livro do género policial da genial escritora inglesa Agatha Christie: "O Mistério de Sittaford".

Numa pequena aldeia isolada, durante um nevasca, um grupo de vizinhos reúne-se em convívio e decide fazer uma sessão de espiritismo onde é anunciado o assassinato de Trevelyan que se encontra a 10 km de distância, imediatamente o seu maior amigo não deixa passar o assunto em branco e vai a pé confirmar o facto. Depois disso, o inspetor Narracott decide prender um sobrinho da vítima endividado que o foi visitar à hora do crime e fugido, mas a namorada deste está convicta da sua inocência e com um jornalista decide investigar até à descoberta da verdade.

Este é um dos romances de Agatha Christie onde a investigação não é protagonizada pelos seus personagens mais comuns: Poirot e Miss Marple, o que é bom, pois imprime um estilo diferente sem perder o suspense típico desta escritora que possui uma escrita escorreita mas nunca com a genialidade da sua criatividade da literatura policial.

Um romance de entretenimento simpático, fácil que gostei e recomendo a qualquer leitor, sobretudo aos amantes do género policial.

sábado, 18 de dezembro de 2021

"AUGUSTUS" de John Williams

 


Excerto

"Os princípios fortes emparelhados com uma disposição azeda podem ser uma virtude cruel e desumana."

Acabei de ler a obra ficcionada e vencedora do Book Award de 1973 do americano John Williams "Augustus".

Um romance histórico que faz uma biografia do imperador romano César Augusto, cujo nome era Caio Otávio. A grande particularidade desta ficção é o seu género epistolar, toda a vida do protagonista resulta  da montagem das cartas de intervenientes que falam do imperador ou da sua vida pessoal sob a influência deste e inclusive missivas do próprio Augusto a falar das suas decisões, sentimentos e impressões das pessoas com quem estava envolvido.

Sendo Augusto uma personagem histórica os principais aspetos e figuras secundárias estão condicionados aos factos do passado, contudo o autor assume a sua criatividade em muitos assuntos e algumas acomodações para servir à sua obra. Assim compreenderemos a relação de Marco António e Cleóptera e os objetivos desta como rainha de Egito e amante de senhores de Roma, perceberemos como Augusto conquistou o poder e dominou durante meio século o império e o combate com os seus maiores adversários e assassinos de Júlio César. Tomamos conhecimento do modo de vida romano com os seus vícios, virtudes e abusos bem como a gestão política e militar do império. Sentiremos o choque com a forma como as mulheres da nobreza eram instrumentos políticos dos líderes e como estas poderiam sofrer com isso ou levar uma vida lasciva para compensar a sua necessidade de subserviência à sombra dessas funções. Foi um prazer contactar com os grandes mestre da cultura clássica a descreverem a sua época e a falar da sua obra: Horácio, Virgílio, Mecenas, Ovídio, Estrabão e Nicolau de Damasco, todos eles contemporâneos e próximos de Caio Otávio.

Estilisticamente o autor independentemente da sua grande qualidade de escrita literária, tem o cuidado de elaborar textos com estilos distintos para assim sentirmos as personalidades e as capacidades distintas, as cartas dos pensadores, da filha Júlia de Augusto e de generais ou conspiradores mostram a diversidade e versatilidade de John Williams o que torna este romance não só um retrato de época como uma mostra das capacidades literárias do escritor.

O excerto escolhido, atribuído a Ovídio numa das cartas desta ficção, apenas é contrariado na obra pelo facto de ser necessário qualquer azedume para que a aplicação de princípios, concordando-se ou não com eles, puder ser cruel e desumana como se viu em muitas das decisões de Augusto nesta obra.

Um excelente livro que recomendo a qualquer leitor.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

"A Irmã de Freud" de Goce Smilevski

 

Acabei de ler o romance premiado com o prémio de Literatura da União Europeia em 2010 e escrito por Goce Smilevski da Macedónia "A irmã de Freud".

O livro ficciona as memórias de Adolfine, irmã do psicanalista Sigmund Freud, a única que não se casou e teve problemas de adaptação social e psicológicos. No início da obra, vemos que Freud quando escapou do regime nazi em Viena e partiu para Londres, viagem assegurada por corredores diplomáticos, excluiu da sua comitiva de pessoas a salvar as suas irmãs, tendo estes familiares morrido nos campos de extermínio.

Adolfine, que tivera um relacionamento na infância muito próximo e intenso com Sigmund, vai então recordar toda a sua vida desde a criança até à câmara de gás: descobrimos a hostilidade da mãe por ela ser diferente; lemos uma paixão secreta com um infeliz adotado; partilhamos a amizade com a ativista feminista Klara Klimt, irmã do pintor com o mesmo apelido e perseguida socialmente; a apercebemo-nos dos comportamentos disfuncionais e sofrimentos na família Freud; compreendo-mos o refúgio da protagonista numa clínica psiquiátrica com Klara; e vmos ainda nos surpreender com o encontro no campo de concentração com uma irmã de Kafka. Sendo um romance não sei exatamente onde começam os factos e entramos no mundo ficcionado.

Toda a obra é um desfile filosófico sobre questões das origens e das necessidades psicológicas da crença, se esta cobre a necessidade humana de justiça num mundo injusto, se o comportamento social e individual é para fundamentar o fim da vida ou dos traumas do inconsciente, sobre o que é a normalidade e a loucura e as razões desta, bem como muito do pensamento de Freud que, apesar de ser o pai da teoria da psicanálise moderna, é alguém cheio de falhas e de comportamentos disfuncionais dos quais Adolfine terá sido uma vítima e não uma louca, mas sim um exemplo de racionalidade que questiona Sigmund.

O texto é todo ele um poema permanente, mas atravessado constantemente pela tristeza, solidão e as incertezas das razões de se viver neste mundo. As descrições do comportamento na clínica psiquiátrica e do que é a loucura, bem como a permanente insatisfação de Adolfine neste mundo disfuncional e a definição do que será a morte estão cheias de beleza, aliás, esta última é o consolo da vida segundo o livro. Freud não fica bem no romance e as personagens normais parecem bem inferiores do que a inadaptada e infeliz Adolfine.

Gostei do livro, da escrita e das inúmeras questões levantadas... mas não deixa de ser uma obra cuja leitura  transporta uma beleza que dói ao leitor.

domingo, 14 de novembro de 2021

"José e os seus Irmãos - As histórias de Jaacob" de Thomas Mann

 

Acabei de ler o primeiro romance da tetralogia "José e os Seus Irmãos - As histórias de Jaacob" baseado na personagem do antigo testamento José e considerada a maior obra deste escritor alemão laureado com o prémio Nobel da literatura.

Thomas Mann pega nas narrativas bíblicas e torno de José para romanceadamente as ampliar, reconstituindo a vida dele e das personagens à sua volta como: o pai, a mãe, os irmãos, os avós, recuado aos patriarcas, e outras figuras referidas no antigo testamento e ainda fazer reflexões sobre a época, o nascimento do monoteísmo e judaísmo num médio-oriente politeísta e dividido por múltiplos pequenos reinos bordejados pelo Egito, além de tomar a liberdade de tentar corrigir eventuais erros históricos ou até mesmo questionar a tradição dos textos sobre o que então se passou.

No primeiro romance, depois de um prelúdio em estilo de ensaio sobre a neblina do passado e a época e a dificuldade em distinguir factos e a especulação, onde eu senti grande dificuldade de leitura e desisti, seguem-se sete histórias. Na primeira conhecemos um José excessivamente belo, curioso por descobrir o seu papel entre a mitologia pagã e o Deus do seu pai com quem reflete sobre isso, a sua má convivência com os irmãos por se sentir predestinado e por estes saberem-no predileto de Jaacob com quem tem um diálogo entre a ambiguidade do paganismo e monoteísmo com o fascínio do pai pelo filho que é quase um ensaio sobre a passagem do mundo politeísta ao de Javé. A partir deste capítulo, os restantes episódios são centrados em Jaacob, com os seus defeitos e a consciência de estar destinado a ser gerador da linhagem do povo de Deus, o que lhe serve de guia para os seus atos, nem sempre louváveis, mas justificáveis a esse fim. Assim saberemos do sonho de Jaacob; do episódio infeliz de Dina devido à malvadez dos filhos mais velhos de Jaacob; do roubo deste da benção da primogenitura de Isaac a Esaú; da sua fuga para oriente e servidão em casa de Labão, seu tio e sogro, por amor a Raquel; como foi ludibriado em casar com Lia antes de consumar o casamento com Raquel, a sua amada; a rivalidade entre as irmãs Lia-Raquel; e o nascimento de José e de Benjamim com a morte da mãe. 

No fundo, todas as narrativas em parte são de excertos bíblicos que são reconstruídos e alvo de análise filosófica e teológica e muitas vezes reexplicados sobre um outro prisma ou reinterpretação da narrativa. Muitas vezes pode ser incómodo para quem segue literalmente o conteúdo bíblico como factos históricos que aqui são por vezes desmontados ou mesmo alterados com justificação para essa reconstrução. O texto é muito descritivo e denso, por vezes com parágrafos de várias páginas, mas de grande beleza plástica, só que nem sempre de fácil leitura, mas confesso que com o decorrer desta me fui entusiasmando e embora conhecedor do que é contando no antigo testamento a curiosidade de como Mann tratou o assunto despertou-me suspense na leitura.

Gostei e recomendo a quem gosta de leituras profundas, mas não é um livro fácil e após um intervalo espero voltar a esta tetralogia de modo a perceber a evolução da narrativa que já sabemos irá até ao Egito e à subida de José até principal conselheiro ou ministro do faraó.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

"O Mistério do Comboio Azul" de Agatha Christie

Acabei de ler mais um policial de Agatha Christie "O Mistério do Comboio Azul". O multimilionário americano Van Aldin compra secretamente um rubi valioso em Paris, mas logo no momento é alvo de uma emboscada de que consegue escapar sem perda da pedra preciosa para oferecer à sua filha para a compensar da sua má relação com o marido interessado no dinheiro dela e com uma amante. Para resolver a situação o pai impõe o divórcio mas descobre que a sua herdeira também tem telhados de vidro por ter um amante de reputação duvidosa. Ao encontro do seu amante no sul de França viaja a filha no comboio azul onde se encontra com uma jovem dama de companhia que acaba de receber uma grande herança, esta curiosamente cruza-se com Poirot, mas ao chegar-se ao destino descobre-se que não só a filha foi assassinada como o rubi foi roubado, Quem de facto viajava no comboio e quem teve oportunidade de cometer o homicídio, quem lucrava? Terá sido o roubo e o assassinato cometido pela mesma pessoa? Poirot e Miss Grey irão cooperar naquilo que é para esta uma aventura real dos livros policiais que julgava apenas possíveis em ficção.

Como todas as obras de Agatha Christie, após pistas verdadeiras e erradas e suspeitos vários, no fim o génio Poirot não só consegue desmontar os factos, como a obra conduz a um mundo mais justo, onde os maus são castigados e os bons recompensados. Fácil de ler, gostei e recomendo a qualquer tipo de leitor.

domingo, 17 de outubro de 2021

"As Regras de Cortesia" de Amor Towles

 

Citação

"...sei que as escolhas certas são, por definição, o meio através do qual a vida cristaliza a perda."

Acabei de ler o romance "As regras de cortesia" do norteamericano Amor Towles, este é o segundo livro que leio desde escritor onde, com elegância através da narrativa, se percebe o sonho das personagens preservarem ou a lutarem por alcançar ambientes de luxo e o bem-estar das classes mais abastadas da sociedade, mas no respeito de uma ética e valores tradicionais.

Decorre a noite da passagem de ano de 1937/38 no coração de Manhattan Catherine Kontent e sua amiga Eve quase sem dinheiro nos bolsos procuram divertir-se, cruzam-se com um jovem de grande delicadeza e aspeto de riqueza, travam amizade da dá-se início a um ano de transformação total nas duas amigas, incluindo o convívio com gente afortunada enquanto a Europa mergulha na guerra. Afinal em Nova Iorque há espaço e oportunidade para todos os sonhos, enganos e desilusões Katey verá o melhor e o pior a que as pessoas podem escolher para satisfazer os seus anseios e a cortesia também pode ser uma das ferramentas para se atingir as metas da vida.

Uma narrativa que numa primeira perspetiva parece ser uma história cor de rosa e oca adequada à literatura romântica, ao glamour de gente socialite mas que no fundo está cheia de reflexões éticas e morais sobre as escolhas da vida, referência a clássicos da literatura, exposição da cultura musical dos anos 30 nos EUA e assim consegue compatibilizar a elegância e o entretenimento com uma análise sociológica e abordagem aos valores individuais, algo que este escritor fez com mestria nos dois romances que dele li. Gostei e recomento.

sábado, 25 de setembro de 2021

"Os treze Enigmas" de Agatha Christie

 

Acabei de ler o livro "Os Treze Enigmas" da escritora inglesa Agatha Christie. Este corresponde a 12 narrativas curtas de crimes contados em serões de duas casas pelos presentes e onde o narrador, um dos presentes e em rotação entre eles, sabe a solução do mistério, todos os restantes tentarão identificar quem foi o criminoso, mas em todos eles é Miss Marple quem descobre a verdade, tendo em conta o conhecimento que tem da psicologia das gentes de Saint Mary Mead. O 13.º caso, também curto, decorre fora dos serões e corresponde a um homicídio em que alguém está prestes a ser condenado e ela vai falar com um dos intervenientes para que este colabore com a polícia local e informa-o à priori quem é o assassino e logicamente acerta, enquanto o leitor só no fim se apercebe que seguiu uma falsa pista.

Na sua linguagem simples e típica de convívio está-se perante um livro de contos cuja união será serem narrados pelos convivas que partilham os serões e por isso surgem nas várias histórias independentes. O leitor não se apercebe de todas as pistas importantes que Miss Marple sagaz apreende que são muito mais de intuição com base no comportamento humano do que em provas e indícios deixados pelo criminoso. Contudo é um livro de leitura muito agradável que junta 13 mistérios em vez de um único mais extenso e todos ao estilo de Agatha Christie.

Gostei e recomendo. 

domingo, 19 de setembro de 2021

"A Última Noite em Twisted River" de John Irving

 

Acabei de ler o meu segundo romance do escritor norteamericano e recém-cidadão Canadiano John Irving. "A última noite em Twisted River" narra a vida de Daniel Baciagalupo e seu pai ao longo de mais de meio século entre a Nova Inglaterra, Iowa City e Toronto, nas sequência de uma fuga para proteger o filho depois deste, aos 12 anos, com uma frigideira e por um engano, ter morto a amante do pai em Twisted River, New Hampshire, pensando que este estava a ser atacado por um urso.

Se esta introdução parece algo rocambolesca, na verdade a narrativa começa por mostrar a vida dura e arriscada dos madeireiros em meados do século XX no norte do New Hampshire, para quem Domenic Baciagalupo, cozinheiro, trabalhava no refeitório. Ficamos a saber como este conheceu a sua mulher por quem se apaixonou e foi pai ainda adolescente e depois cúmplice num trio amoroso que acabou numa tragédia que se transformou numa amizade enorme entre o amante da mãe e o pai para proteger a criança. 

Depois do homicídio acidental, pai e filho serão alvo de uma perseguição vinda de um polícia louco que os levará a viver por diversos locais, a prestar serviços em numerosos restaurantes, praticar mudanças de nome e veremos o adolescente virar a escritor. Entretanto haverá lugar para numerosas relações com mulheres de diferentes géneros, assistir ao nascimento do neto e ainda ser testemunhas dos maiores acontecimentos históricos dos Estados Unidos entre a guerra do Vietname e o 11 de setembro de 2001.

Todas estas peripécias de vida são tratadas numa exposição realista da vida dos personagens sem freio na linguagem, que por vezes é grosseira, nem tabus morais no relacionamento sexual e ainda com muitas descrições culinárias sem descrever as receitas dos pratos confecionados pelo cozinheiro, mas cujo conjunto vivido por Daniel servirá de inspiração para os seus livros, onde não se inibe de criticar a política norteamericana, nem de expor alguns assuntos fraturantes como o aborto.

É de facto um romance extenso no tempo, no texto e no realismo e entrecruza períodos. John Irving mostra, sobretudo, a força do amor paternal, filial e conjugal, bem como a da amizade humana e ainda dos abalos pela perda de seres amados, sem deixar de reconhecer a omnipresença das relações mais básicas entre as pessoas como a acomodação às necessidade físicas, nomeadamente sexuais, descomprometidas e sem apreciações moralistas, mas cheio de filosofias nascidas da experiência de vida das personagens fortíssimas do livro.

Sim, gostei muito do romance e da sua força, bem como da sua narrativa algo cinematográfica e hiper-realista, mesmo reconhecendo que para isso recorre à linguagem banal e ao calão frequentemente, o que pode chocar alguns leitores, mas não deixa de ser interessante ler técnicas de escrita do próprio autor do livro, inclusive para este mesmo romance e transpostas pela personagem que também é escritor e dos aspetos autobiográficos do autor e até de enquadramento de futuras decisões deste na sua vida real.

sábado, 28 de agosto de 2021

"A Sombra da Sereia" de Camilla Läckberg

 

Acabei de ler o romance de investigação policial "A sombra da Sereia" da sueca Camilla Läckberg. Na pequena cidade piscatória de Fjällbacka num grupo de 4 amigos um deles é dado como desaparecido; o segundo lança o seu livro de estreia, "A Sereia", e toma-se conhecimento que está a ser ameaçado por cartas anónimas; o terceiro tem a mulher doente em estado terminal mas apercebe-se que a sua morte foi acelerada por denúncia feita por uma intrusa; e o quarto, rico e sem caracter, passa alheio a tudo isto com a sua amante e desprezo por todos, apercebemo-nos que os une algo terrível ocorrido no passado e eis que o corpo do primeiro surge debaixo do gelo costeiro assassinado. Vingança?

Mais uma vez o inspetor Patrick Hedström e a sua equipa da esquadra procuram compreender o que se passa naquela pequena povoação costeira e buscam o assassino, enquanto sua mulher, Erica Falk, grávida de gémeos à revelia dele, vai fazendo a sua investigação, ela que se tornara amiga do novo escritor. O mistério adensa-se e vai desembocar numa descoberta surpreendente que explica todos os acontecimentos.

Este é o terceiro livro policial desta escritora que leio. Em todos eles gosto da história e o mesmo casal envolve-se numa investigação paralela que no fim se funde. Em todos vamos acompanhando de buscas policias com intercalações de cenas da sua vida familiar e doméstica das personagens com maior pormenor do casal protagonista. Neste romance apercebi-me da razão de algum desconforto ao longo do desenrolar do mistério, este prende-se com o facto de na técnica narrativa se fazer uma sucessão de pequenos episódios que terminam em suspense mas onde as descobertas dos protagonistas não são divulgadas ao leitor, ou seja, ao contrário de outros autores que lançam as pistas todas, as certas e os iscos errados para construirmos em paralelo as deduções, aqui muitos dos dados são mantidos sem uma revelação clara do seu conteúdo, embora possamos deduzir alguns aspetos, o que leva a alguma desvantagem no jogo do leitor construir a sua teoria de forma a sentir-se em concorrência detetivesca.

Apesar deste incómodo pessoal, gostei, os muitos momentos de cenas domésticas e tensões familiares servem de anticlimax ao suspense numa escrita escorreita e sem nenhum singularidade especial a salientar, mas fácil de ler.

quarta-feira, 11 de agosto de 2021

"ALICE MUNRO selected stories"

 

Acabei de ler um livro em inglês de contos selecionados da escritora canadiana laureada com o prémio Nobel da literatura "Alice Munro Selected Stories". Este reúne 23 histórias curtas, na sua maioria com cerca de duas dezenas de páginas, que na generalidade são memórias de mulheres comuns sobre momentos fortes da sua vida ou do desenrolar desta no seu dia-a-dia normal e os seus problemas, mostrando assim, não só o seu modo de viver, como também montando retratos da sociedade em várias partes do Canadá, na sua maioria no sudoeste do Ontário e em meio rural.

Reflexões sobre o peso da mentalidade social e religiosa da sociedade canadiana sobre o comportamento das mulheres e no seu relacionamento com os homens na primeira metade do século XX, descrições analíticas das tensões em família ao nível de casais ou entre gerações, exposição de impulsos íntimos e da sexualidade e os problemas do despertar da adolescência para a juventude e maturidade sujeitos a uma pressão em comunidades conservadoras de pequenos aglomerados urbanos, traições e oportunismos no relacionamento entre homens e mulheres e ainda perceção e esforço de compreensão do modo de agir de pessoas próximas do narrador, vão ao longo dos contos sendo tratados de forma introspetiva por olhares no feminino e num desenvolvimento que se vai desenrolando lentamente dentro de cada história até à montagem se completar no final como quadros da realidade esbatidos sobre uma pintura entre o impressionista e o expressionista.

Nesta seleção compreende-se a razão de muitos considerarem Alice Munro uma versão feminina do século XX de Tchékhov, efetivamente, cada conto, mais que uma narrativa linear, é uma história que se vai montando devagar em torno ou a partir de personagens que em nada se destacam do cidadão comum, sem lições morais, mas que no fim deixam pistas para a reflexão moral e ética e constroem o retrato da sociedade de uma época, do país e dos constrangimentos dos protagonistas de cada relato.

Gostei muito destes retratos com uma escrita magnifica que selecionam o que de melhor escrevera Alice Munro em anos bem anteriores ao prémio Nobel da Literatura e, no meu caso, por permitir compreender a mentalidade e muitos pormenores da vida diária e em família da comunidade anglo-saxónica do Canadá, sobretudo do sudoeste de Ontário, onde nasci e que visito com alguma regularidade.

sábado, 17 de julho de 2021

"Contos de Tchékhov - Volume III"

 

Acabei de ler o terceiro volume da coleção completa de Contos de Tchékhov publicados pela Relógio d'Água, este reúne 16 narrativas que oscilam entre perto de uma dezena a poucas dezenas de páginas, em todos eles o português dos tradutores é magnífico, permitindo uma qualidade de texto de elevada envergadura.

Todos contos passam-se longe das grandes cidades da Rússia, na sua quase totalidade situam-se em pleno meio rural isolado. Une-os ainda um descontentamento psicológico com a vida do protagonista ou do povo dessas aldeias vítima de injustiça, ignorância e arreigado a costumes que impedem o seu desenvolvimento. Nuns casos temos senhores burgueses ou nobres ricos que não sabem como ser solidários com os pobres e desejando ardentemente ser bons para com estes e por isso insatisfeitos consigo próprio; noutros, temos pobres que não sabem como sair desta realidade e se perdem no álcool ou noutros problemas; ainda há os infelizes acomodados com a sua situação sem arte para dela se libertarem, desperdiçando oportunidades; e também não falta gente no fim da vida desiludida com o modo como viveram, com medo da morte ou do julgamento do além. Na generalidade os retratos da sociedade e das personagens é triste, mas narrados com grande beleza de escrita e pormenores da vida quotidiana no Rússia do final do século XIX, construindo um excelente retrato de época.

Gostei muito do livro, apesar do tom melancólico e nostálgico os textos não são deprimentes e mostram porque Tchékhov é considerado um dos melhores contadores de histórias curtas da literatura mundial de todos os tempos, fico sempre com vontade de ler outro volume desta coleção.

quinta-feira, 1 de julho de 2021

"O Natal de Poirot" de Agatha Christie

 

Acabei de ler outro livro de investigação criminal da autoria da genial escritora policial Agatha Christie: "O Natal de Poirot".

O idoso Lee, um milionário sádico e de passado mulherengo e conflituoso, decide reunir pelo Natal toda a sua família para se deliciar com as rivalidades entre os seus filhos, humilhá-los e informar da intenção em alterar o testamento e assim observar o desespero e irritação criado neles.

Depois de todos juntos e a seguir ao jantar, quando Lee está só nas suas instalações, eis que é assassinado no seu escritório fechado por dentro com sinais de luta violenta ouvida por todos. Quem o terá matado e como saiu o criminoso daquele quarto? Poirot está hospedado em férias na casa do chefe da polícia local e é convidado a acompanhar as investigações, onde verifica que quase todos têm um motivo, descobre-se então um roubo em paralelo e um conjunto estranho de ocorrências que o nosso protagonista conseguirá justificar no fim.

Com várias referências a obras clássicas da literatura e música, está-se perante um crime em espaço fechado e isolado onde parece que todos têm um alibi e sem acesso ao local do assassinato, mas onde a imaginação para explicação do caso e as pistas que vão sendo lançadas tornam este romance um exemplo de grande criatividade e de solução surpreendente. Um magnífico enredo cheio de imaginação. Gostei muito e recomendo a quem é fã do género policial e como obra de entretenimento e suspense.

sábado, 26 de junho de 2021

"Sinais de Fogo" de Jorge de Sena

Excerto

"As pessoas existiam para se iludirem a si mesmas e às outras, para se torturarem a si mesmas e às mais, para se entredestruírem por amor, por amizade, ou por distração. Tudo isto se organizava numa conspiração colossal, sem fito ou nexo mais que a intenção firme de sobreviver triunfalmente menos à morte que à própria vida."

Acabei de ler o único romance do poeta, novelista, contista e ensaísta português Jorge de Sena "Sinais de Fogo", um dos autores do século XX que mais admiro pela sua originalidade nas formas narrativas e qualidade de escrita, contudo a presente obra foi um murro muito forte no estômago.

Nos anos de 1930 Jorge é um adolescente filho da burguesia que vai descobrindo com dois amigos colegas a realidade da vida sexual dos adultos e da sua geração, vive intensamente o confronto entre professores e os alunos mais revoltos e entra na juventude onde se torna universitário mas, episodicamente, brotam dele versos que não consegue explicar que depois parecem materializar-se na sua vida. No verão de 1936 Espanha está a mergulhar na guerra civil e a ditadura em Portugal dá grandes passos de controlo ideológico e ele vai para a casa de um tio passar as férias na cidade-praia da Ribeira da Foz e zona balnear por excelência de espanhóis. Aqui, ele assiste, já com olhos de homem, a movimentos subversivos políticos de esquerda, cruza-se com atividades para intervenção no país vizinho e mergulha na devassidão e vícios da classe burguesa. Participa em atos orgíacos e sente que as pessoas com quem convive são afetadas e mudadas pelos que ele pratica e de que se sente culpado, após uma morte regressa a casa, mas o mundo já não é o mesmo e reflete sobre as relações entre os humanos, as imagens em espelho que formamos uns dos outros e a sua poesia transborda-o.
Jorge de Sena morreu repentinamente antes de acabar este extenso romance com mais de 600 páginas, mas a obra parece concluída, pois o arco entre o adolescente à descoberta, o jovem iniciante e o adulto a amadurecer está montado. A escrita é das que mais admiro em termos de estilo clássico escorreito na literatura portuguesa do século XX, mas foi o mergulho na divulgação explícita e praticamente sem tabus da vida sexual da burguesia, e não só, e de muitos vícios neste campo que me deram um murro muito forte. Esta surge como elemento de reflexão das relações humanas em sociedade onde se vive uma realidade pública e outra privada de um modo concertado e acomodado mas que tece uma teia que une a sociedade.
Apesar de não ser pornográfico, existem pormenores e descrições de atos sexuais, prostituição masculina e feminina, homossexualidade e reconhecimento do direito de praticar livremente a vida íntima que se encontra amordaçada pela moral pública que servem de ponte para um tratamento filosófico destas questões, concorde-se ou não com o escritor, que dá um passo muito mais em frente do que deu Proust na sua obra. Aliás várias vezes pareceu-me que este influenciou muito Sena.
A verdade é que gostei do enredo, tal não impede que me tenha sentido por vezes chocado e incomodado, o que não me aconteceu com Proust. Não se trata de uma obra banal, mas sim de um tratado profundo das relações humanas onde o sexo está presente de forma central. A escrita é soberba, mas só recomendo o romance a quem esteja preparado para ler com uma mente aberta de que em literatura não deve haver censura, independentemente de se concordar ou não com as ideias defendidas na obra de ficção.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

"Némesis" de Agatha Christie

 

Acabei de ler o policial "Némesis" de Agatha Christie, o último romance com a personagem Miss Maple escrito por esta autora inglesa e, apesar da vitalidade forçada desta velhota que resolve mistérios de crimes pela perspicácia e análise psicológica dos suspeitos, são evidentes na obra os indícios de fim de vida desta protagonista que a escritora estava a caracterizá-la.
Miss Maple, após ler a notícia da morte natural de um conhecido milionário com quem resolvera um mistério num passado recente, recebeu deste uma proposta para tentar descobrir uma situação, verificar se a justiça fora correta e, possivelmente, corrigi-la, só que nada é dito se houve um crime, quem foi a vítima ou o alvo da injustiça, mesmo assim aceita o desafio e aos poucos descobre que os passos a seguir foram programados pelo falecido e incluem uma excursão turística, mas onde e quando terá havido um crime julgado que tem de desvendar se quem lhe legou o mistério também já não lhe pode responder?
Aos pouco e durante a viagem Miss Maple vai descobrindo pistas situações e excursionistas que mais não são que resultado de um programa legado, entretanto  um acidente suspeito ocorre, percebe os riscos mas ela irá percebendo cada vez mais o mistério que lhe foi posto no caminho,.

Como em todos todos os romances de Agatha Christie, a leitura é fácil e a resolução do mistério está na compreensão do comportamento psicológico das personagens apesar da confusão de sinais lançados ao longo do desenrolar do romance, gostei da obra e recomendo a quem gosta desta escritora genial no estilo de crime e mistério.