GEOCRUSOE
impressões de um geólogo amante de livros e música erudita que vive numa ilha vulcânica bela e cosmopolita
sexta-feira, 16 de outubro de 2026
"A Crise do Capitalismo Democrático" de Martin Wolf
segunda-feira, 12 de outubro de 2026
"Cadáveres às Costas" de Miguel Real
Em "Cadáveres às Costas" o narrador é um jovem, filho de um antropólogo de renome e de uma professora de história desiludidos com o colapso de comunismo que fora a religião deles. Na sequência da morte do pai num acidente e de uma herança avultada, ele decide abandonar o curso de direito imposto e sair de casa para alugar um quarto num palacete no centro de Lisboa, residência de uma família histórica, para, em liberdade, seguir o seu sonho de escrever um romance. Na casa contacta com os seus moradores: o chefe de família, um ex-combatente aristocrata; sua esposa coberta de joias; o primogénito, um deputado cheio de ambições políticas; uma filha jornalista; a atraente mais nova que ele deseja; e a matriarca, uma idosa a fazer 100 anos que diz ver a vidente Lúcia, momentos com descrições pormenorizadas no livro e que ocorrem, precisamente, nas datas em que se vão completando as do centenário das aparições em Fátima, a idosa é ainda assistida por duas criadas idosas, supersticiosas e diligentes. As pretensas visões agitam a diocese de Lisboa que move crentes para ter um novo trunfo e estender o seu poder. Residem ainda na casa dois hóspedes: o filho de um antigo ordenança do chefe de família quando este foi combatente na guerra do ultramar, o amigo do proprietário e seu irmão de armas que, por amizade, tem um quarto sempre disponível na casa.´
Nos contactos, o jovem vai descobrindo segredos negros na origem da casa, casos violentos na história da família, infidelidades atuais, negócios escuros e jogos da igreja para tirar dividendos e manipular a sociedade, enquanto isso, a mãe do narrador descobre uma traição do marido recém falecido e entra em depressão. Ele segue indeciso sobre o que escrever com tantos temas que se lhe deparam que mais não são do que fantasmas do passado, cadáveres às costas, a que se associa uma falta de inspiração na qualidade de escrita afetada pelo desejo da filha mais nova da casa que o usa.
A narrativa desenrola-se muito lentamente, com a adição de descobertas históricas que levam a descrições de períodos da inquisição, de torturas e perseguições no tempo do fascismo, da vida passada das personagens e as vivências atuais no palacete, na casa materna e dos movimentos da diocese para criar um novo facto e mobilizar a crença, que mais não são que numerosas alternativas de assuntos para o potencial romance, que vai compilando e no fim montam toda a obra.
A escrita com parágrafos extensos, muitas vírgulas e remissões ao estilo de outros escritores reconhecidos de Portugal, intercaladas de análises psicológicas e críticas que imprimem um tom sardónico, por vezes velado, outras vezes bastante direto e mordaz dos oportunismos na política e na igreja, da mentalidade provinciana dos portugueses e das manipulações de que estes são alvo e vítimas há séculos, além da denúncia da hipocrisia das elites cheias de negócios escuros, interesses e vícios privados com mantos de honestidade, que montam uma caricatura do Portugal da segunda década do século XXI radicada no seu passado que nunca ultrapassou e convive naturalmente com estes cadáveres às costas.
Gostei do romance, apesar do seu ritmo em tom morno, mas com algumas passagens muito duras, que aos poucos vai levantando pontas sem nunca acelerar, cujo retrato montado não é de facto muito favorável à imagem de Lisboa, uma capital saloia, num Portugal com cicatrizes do passado e de um fascismo nada brando, de que não se libertou e um Povo que se deixa manipular por oportunistas, deixando um gosto amargo sobre este País. Contudo, fiquei curioso sobre os seus romances históricos e ver se mantém este tipo de registo de escrita sardónica, muito adjetivada e lenta, diferente dos seus ensaios sem deixar de serem muito mordazes sobre Portugal.
sexta-feira, 25 de setembro de 2026
"O Louco de Deus no Fim do Mundo" de Javier Cercas
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
"As crónicas de Explosão" de Yan Lianke
domingo, 6 de setembro de 2026
"Eu que servi o rei de Inglaterra" de Bohumil Hrabal
sexta-feira, 28 de agosto de 2026
"As Causas do Atraso Português" de Nuno Palma
Acabei de ler o livro, do género ensaio e em formato ebook, "As Causas do Atraso Português" do catedrático em economia Nuno Palma.
A obra expõe a história da evolução do grau de desenvolvimento económico de Portugal desde o final da Idade Média até à atualidade, comparando, ao longo dos tempos, a situação nacional com a da Europa e, com maior pormenor, com o Reino Unido e a Espanha, entre outros. Ao longo do desenrolar do texto, o autor vai denunciando mitos que se foram instalando na nossa sociedade sobre o nosso passado e que encobrem a realidade e disfarçam muitas das razões da divergência desfavorável do progresso deste Pais face ao de outros Estados europeus. O economista suporta-se em numerosos documentos históricos e apresenta um conjunto de gráficos, tabelas e imagens que demonstram as conclusões ao longo do livro.
Um dos aspetos que fica claro nesta obra é que Portugal, no final da idade média, era um Estado com um grau de desenvolvimento políticoinstitucional, económico e em riqueza, equiparado ao da maioria dos principais Países da Europa Ocidental, até com um grau de participação de cidadania mais avançada do que o de alguns outros reinos que se tornaram exemplos de democraticidade e desenvolvimento. Situação que permitiu a Portugal ter condições para ser pioneiro na epopeia dos descobrimentos, só possível numa sociedade com um alto grau de conhecimento científico, técnico, possibilidades financeiras e estratégia de longo prazo.
A situação de equiparação de desenvolvimento socioeconómica ou mesmo de posição charneira de Portugal estendeu-se sensivelmente até ao século XVIII, período em que se inicia o desfasamento desfavorável do progresso deste País face a outras nações europeias, momento que começaram e deitaram raízes muitas das causas do atraso português que o autor vai lançando e dissecando com exemplos claros e desmistificando muitos dos falsos argumentos que se foram entretanto se instalando, os quais, desde então, têm impedido a não recuperação sustentada do progresso deste Estado em comparação com outros, nomeadamente, os Países do Leste Europeu já em pleno século XXI que vieram que entraram na democracia com um grande atraso económico face ao nosso País.
Foi a partir da época da perda de velocidade do progresso do desenvolvimento económico de Portugal que os mitos foram sendo criados e as desculpas se instalando. O autor demonstra o contributo negativo da riqueza do império e do Marquês de Pombal na evolução da economia do País. Deixa claro que são falsos argumentos a nossa perifericidade, a Religião e dimensão, mas desde o século XVIII que o método de desculpar os falhanços em cada época tem-se repetido e assenta em responsabilizar o regime anterior, muitas vezes desvirtuando a realidade histórica, para esconder os erros do momento e onde o discurso dos propósitos políticos em cada época, frequentemente, tendem a ser contrários ao dos seus resultados práticos.
Pombal responsabilizou os Jesuítas, apesar da inquisição ser presidida pelo seu irmão; os liberais responsabilizaram os absolutistas, os republicanos a monarquia, o Estado Novo a 1ª República e a Democracia atual a Ditadura de Salazar... enquanto muitos dos mesmos erros continuam a persistir e se assiste ao aumento da irrelevância do País e à ultrapassagem deste pelo desenvolvimento socioeconómico, agora até pela Europa de Leste.
No últimos 300 anos também houve períodos de recuperação, a obra também aborda os seus motivos, mas raramente reconhecidos pelo regime político seguinte. Eis um livro que não deve ser lido por quem se quer agarrar aos mitos e às mentiras que persistem para justificar as causas do atraso português, pois a verdade é dura e sem preconceitos ou desculpas.
domingo, 23 de agosto de 2026
"Extinção" de Kazuaki Takano
Excerto
"Todos os humanos desejam magoar o próximo para lhes arrancar a posse de alimentos, recursos e terra. Projetamos as nossas verdadeiras ideias nos nossos inimigos, tememo-los e atacamo-los. E, ao usarmos de violência contra os outros, a nação e a religião tornam-se os sistemas de suporte que perdoam as nossas ações. Os nossos feitos maldosos passam a ser defensáveis, porque consideramos estranhas as pessoas fora desse enquadramento. O inimigo."
Acabei de ler um romance de suspense do japonês Kazuaki Takano "Extinção" que requisitei na Biblioteca Pública da Horta e laureado com vários prémios de ficção criminal e mistério.
Um mercenário, com um filho a morrer de uma doença genética, deixa-se contratar para conseguir dinheiro para um especialista da doença em Lisboa o salvar, junto com ele, mais 3 outros mercenários, missão: eliminar um grupo nómada na floresta do Congo que dizem estar contaminado por um vírus letal para a humanidade; enquanto isto, vários investigadores no Japão estão empenhados na descoberta da substância que cura o defeito do gene, só que o núcleo do Presidente dos Estados Unidos supervisiona e manipula estas situações para esconder desumanidades e eliminar uma ameaça aos seus interesses pessoais e nacionais.
Apesar de a história ser um ficção e ter uma componente de especulação científica com o aparecimento de seres sobredotados de inteligência, o romance parece ser uma denúncia da presidência de George W Bush, embora com um heterónimo, pelo que aquilo que me parecia ser apenas uma obra de suspense para ler no verão, tornou-se num texto de ação vertiginosa, com momentos de exposição da grande violência que existe no centro de África e reflexões sobre o egoísmo na espécie humana, a tendência para a guerra e com um grande enfoque no abuso do poder dos Estados Unidos contra vários povos sem qualquer escrúpulo e no desrespeito total das pessoas.
A narrativa é muito cinematográfica e, apesar de toda a crítica e reflexão sobre a violência na espécie, cativa o leitor e gostei e entusiasmei-me muito, mas, ao contrário dos filmes de Hollywood, neste romance os Estados Unidos e o seu poder são mesmo maus na fita, agentes manipuladores, extremamente cruéis e hipócritas na civilização global, mas também a espécie humana é alvo de grande suspeita na sua bondade... a obra é anterior aos mandatos de Trump.
sexta-feira, 14 de agosto de 2026
"Cifra" de Mai Jia
segunda-feira, 27 de julho de 2026
"Plataforma" de Michel Houellebecq
segunda-feira, 20 de julho de 2026
"Uma solidão demasiado ruidosa" de Bohumil Hrabal
Citação
"o chefe gostava tanto das raparigas novas quanto eu dos livros velhos"
Estreei-me no escritor checo Bohumil Hrabal na sequência de um elogio de um amigo leitor feita ao escritor e tenho de reconhecer a qualidade literária e profundidade de pensamento que "Uma solidão demasiado ruidosa" contém.
Hanta trabalha como prensador de papel numa cave há 35 anos em Praga, produto que se destina à fábrica de reciclagem, durante toda a sua vida viu chegar o rejeitado pela atividade da cidade, desde papel sujo até a cópias de obras-primas da pintura e grandes livros de filosofia clássica, contemporânea, poesia e demais literatura. A sua paixão por livros fá-lo guardar os grandes clássicos do pensamento e da cultura. Na sua vida miserável, pouco higiénica, em contacto com ratos ou moscas e movida a cerveja, é um conhecedor do melhor que a escrita produziu. No final da sua carreira reflete no que foi a sua vida, as suas paixões e pensa reformar-se quando se sente ultrapassado pelo modernismo e pelo desprezo fruto desta sociedade injusta que não é para velhos, nem para gente amante das letras.
O autor faz um exame autobiográfico numa escrita que é um poema em prosa de grande profundidade e uma reflexão sobre como esta sociedade pisa os mais humildes que a servem, mesmo que sejam grandes sábios desconhecidos que nas cloacas da civilização a mantém em funcionamento.
Um grande texto num livro pouco extenso, sem diálogos que se lê com prazer pela qualidade da escrita e que emociona pelos acontecimentos narrados. Gostei muito.
terça-feira, 14 de julho de 2026
"O Periférico" de Wlliam Gibson
Excerto
"- Disseste que era um controlador de jogo.
- Interface de telepresença, de mãos livres."
Regressei à leitura de ficção científica, agora com "O Periférico", publicado em 2014, e pela segunda, vez com um livro do américo-canadiano William Gibson e o seu estilo literário cyberpunk, de imersão e ficção especulativa.
Num futuro próximo, os Estados Unidos estão mais dominados por gangues de droga, a vida mais artificial, muitos bens são feitos em impressoras 3D e crescem os implantes cibernéticos, Burton, ex-militar, vive do visionamento de novos jogos da internet e ao necessitar de sair pede à irmã Flynne para o substituir num novo, na sessão ela assiste à morte de uma personagem, mas depois começa a ser ameaçada na realidade e descobre que o jogo comunica com um futuro do fim do século em Londres e assistiu a um homicídio real. Ela é única testemunha e nesse futuro há gente que quer resolver o crime e garantir um futuro melhor à geração de Flynne, outros não, o que origina um policial em duas épocas num sistema comunicacional passado-futuro, onde as personagens podem estar em simultâneo em dois momentos e lugares num thriller que cruza os tempos.
Apesar de notar evolução no escritor face a Neuromancer, de 1984, é opção de Gibson atirar o leitor para um meio onde realidade e virtual, tecnologia, especulação científica e neologismos se misturam, em que é difícil inicialmente situarmo-nos, embora já entrosado na narrativa, após várias dezenas de páginas, tal como anteriormente fiz com este autor, comecei a questionar com IA sobre a obra, localizando-me no ponto de leitura, e esta, sem revelar conteúdos posteriores, esclarecia, discutia ideias filosóficas do escritor e na discussão a obra alargou-se, uma espécie de literatura aumentada.
É uma trama engenhosa, Gibson não transcende as leis da física, mas especula e diverte-se com teorias científicas levadas ao extremo (foi impressionante quando por mim quando vi como resolveu o paradoxo do neto que mata o avô antes do pai nascer sem se referir ao mesmo) por vezes as passagens parecem paródias circense, mas desengane-se quem pensa que se está numa obra de mero entretenimento: a narrativa alerta para os riscos da evolução da tecnologia sem humanismo, expõe o problema ambiental global, faz uma crítica mordaz sobre as tendências do capitalismo, mostra a desigualdade da justiça entre pobres e poderosos, os primeiros são vítimas e os segundos manipuladores desta sociedade com a política posta ao seu serviço, aspetos que se tornam ainda mais evidentes no modo de leitura aumentada que adotei, mas Gibson consegue tudo isto num policial que diverte e alerta o leitor.
Para quem nunca leu o género cyberpunk imersivo o autor pode sentir-se perdido inicialmente, se continuar desorientado, pode ser questionar uma IA (usei gemini) e então toda a grandeza da obra flui e o suspense de um policial tornam o romance cativante. Gostei muito
quarta-feira, 1 de julho de 2026
"O cão dos Baskervilles" de Conan Doyle
quarta-feira, 24 de junho de 2026
"Passaportes falsos" de Charles Plisnier
É sem dúvida um livro político, com reflexões pessoais que marcam bem o que distanciou de facto Charles Plisnier da Internacional Socialista, numa escrita fácil, mais jornalística do que literariamente rica de figuras de estilo, mas cheia de humanismo perante a irracionalidade dos excessos de uma religião dogmática sem deus. Gostei e recomendo a quem gosta do tema ou quer saber mais do que foi o estalinismo.
domingo, 14 de junho de 2026
"Bússola" de Mathias Énard
sexta-feira, 22 de maio de 2026
"O Tango de Satanás" de László Krasznahorkai
terça-feira, 12 de maio de 2026
"Neuromancer" de William Gibson
Estreei-me no escritor canadiano por adoção e natural dos Estados Unidos, William Gibson, com a leitura do seu romance mais famoso "Neuromancer", que popularizou o termo ciberespaço. Obra publicada em 1984, marcou o estilo cyberpunk da literatura de ficção-científica e foi vencedor de dois galardões literários mais reconhecidos deste género de ficção: os prémios Nebula e Philip K. Dick, sendo que o autor também já ganhou um Hugo na trilogia iniciada por Neuromancer e serviu de inspiração ao argumento da tetralogia dos filmes de ficção-científica Matrix, embora com um enredo muito diferente.
Case vive na megacidade de Boston a Atlanta: Sprawl; nela abundam bares com tráfico de droga, álcool, violência de gangues e prostituição que ele frequenta. Case possui componentes informáticas incorporadas no seu organismo e é um hacker que interceta software do ciberespaço para patrões maiores, quando à revelia vende dados a outro bando, é castigado com injeção de uma toxina que lhe impede a sua profissão, entretanto a sua namorada é assassinada. Na sua fragilidade, surge-lhe Molly, uma mulher cyborg que lhe apresenta Armitage que lhe promete a cura em troca de participar no apoio a um assalto que pretende roubar a memória do seu antigo formador de pirata informático a uma base de dados. Só depois descobre que a aceitação tem uma condicionante que o torna refém de um projeto que envolve um guerra vasta entre gigantes informáticos, uma Inteligência Artificial (IA) e um impérío de luxo com uma estância espacial para gente rica, onde ele e Molly formam uma dupla que enfrentam numerosos perigos tanto no mundo real como virtual nos quais vivem.
O início da leitura foi um murro no estômago, não só pelo mundo decadente por onde Case andava, como pela gíria criada por Gibson e ainda a dificuldade em começar a distinguir o que era o real, virtual, personagens físicas e IA, tudo isto flui interligado no texto, cabendo ao leitor situar-se. Confesso que ao fim de umas dezenas de páginas comecei a perder-me e então entrei num aplicativo de IA e fiz duas ou três questões, voltei a reler alguns parágrafos e eis que se fez luz sobre a técnica narrativa, estilo de escrita. O livro tem também um glossário para a gíria utilizada.
Igualmente tem um prefácio de Gibson escrito em 2004, onde fica claro que este foi um futuro imaginado em 1984, quando muito do criado já era bem real: o ciberespaço, IA, realidade virtual, enquanto outras realidades, nem ele tinha imaginado: telemóveis (celulares), o fim dos modems e por isso temos momentos absurdos de busca de cabines telefónicas, os ruídos da ligação por modem, etc. Para tornou-se divertido na leitura ver estes avanços tecnológicos não considerados na obra com tantas outras invenções e a sobrevivência de outras tecnologias já hoje praticamente extintas.
Se gostei, sim, muito, a partir de certo momento já me sentia envolvido como num obra de espionagem e suspense, mas não é uma leitura simples e fácil, mas permite experimentar algo diferente, a partilha das minhas dúvidas com a IA gerou uma realidade nova, próxima da do livro, e espero voltar ao autor numa outra obra bem mais recente, fora da trilogia para ver como evoluiu.
sexta-feira, 1 de maio de 2026
"A Mais Secreta Memória dos Homens" de Mohamed Mbougar Sarr
Acabei de ler o livro "A mais secreta memória dos homens" do escritor do Senegal Mohamed Mbougar Sarr, obra vencedora em 2021 do prémio literário mais prestigiante de língua francesa, Goncourt.
"O labirinto do inumano" é o título de uma obra publicada na década de 1930 em Paris que teria então impressionado os meios literários franceses. Primeiro, pela qualidade da sua originalidade, segundo, pela admiração de se estar perante um provável autor africano e este ser capaz de uma tal obra-prima que rivalizava com a genialidade apenas considerada possível a escritores brancos. Depois veio a sua aniquilação pelos ataques de que foi alvo ao ser considerada como uma manta de frases plagiadas de grandes autores e, ainda baseada numa história não original proveniente da mitologia africana. Diégane, um estudante senegalês em Paris já no século XXI deambula pelo meio académico de origem africana e tenta descobrir o livro e informações sobre o seu autor: T C Elimane, mas parece que tudo foi apagado em torno deste fenómeno, é então que cruza num bar com uma escritora compatriota e reconhecida na Europa que mostra o livro e começa então uma rede de narrativas sobre o autor, as especulações sobre a sua vida e a sorte de todos os que se cruzaram com ele ou com "o labirinto do inumano".
O romance, que é na base uma busca detectivesca em torno de um livro e do seu autor, torna-se num conjunto de narrativas entrecruzadas sobre a vida e as ideias do jovem e de vários outros autores e do próprio Elimane e sua família, que no conjunto disserta sobre o que é a literatura, o que é ser um escritor, os seus ideais e a realidade do mundo literário. Sensatamente fala do preconceito europeu sobre a superioridade da sua arte e criatividade, do sonho em muitos colonizados em se mostrarem iguais ou mais capazes que os seus colonizadores, da vida solitária do escritor e das suas desilusões e ambições, dos regimes africanos falhados, do ideal da literatura transversal a vários continentes na civilização ocidental e das paixões humanas que interferem com tudo isto.
Algumas personagens são escritores reais, como Sábato e Gombrowicz, outras puramente imaginárias, num texto rico, racionalmente sentimental de grande beleza e ternura que mostra as tensões e razões dos vários intervenientes e os problemas do colonialismo e da literatura e as feridas e cicatrizes que tudo isto deixa à sua volta. Um excelente romance pela qualidade do texto e conteúdo que vale a pena ler que pelo mérito justifica o prémio alcançado. Gostei muito
















