sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

"MaddAddam" de Margaret Atwood

Ao fim de vários anos regressei à trilogia "Oryx and Crake" da escritora canadiana Margaret Atwood com o terceiro romance "MaddAddam". Para uns leitores este conjunto será classificado de ficção científica ou uma distopia, mas para mim é mais um alerta, em forma de ensaio ficcional, criativo e especulativo sobre os riscos que podem  resultar do modelo de desenvolvimento científico, tecnológico e socioeconómico da sociedade atual hedonista, sem ética e moral, ou seja, uma civilização global desequilibrada, uma natureza descaracterizada e um ambiente doente que já se começa a insinuar e poderá permitir a revolta e vingança de alguém com pretensão de justiceiro que leve á autodestruir da humanidade acompanhado do desejo de substituir o Homem por um outro ser humano idealmente perfeito.

MaddAddam, que li em inglês  e penso não estar traduzido em Portugal e cujo o título traduziria por LoucoAdão, vai buscar muita da sua inspiração ao criacionismo do Génesis da Bíblia e ao anseio do homem participar da criação para criar um mundo sem os defeitos do atual, logicamente, tal como em Frankeinstein, este desejo de fazer o papel de deus tende a gerar outra realidade monstruosa.

No primeiro volume, "Oryx and Crake", assistimos à vida da elite ligada às multinacionais, com os seus estrategas e criativos genéticos e de produtos consumíveis geradores de prazer que escravizam a maioria da população e a tornam refém desta globalização amoral e do nascer da revolta e vingança de Oryx que cria um novo homem e arquiteta e implementou a destruição da humanidade.

No segundo, "The Year of the Flood" vemos a vida no exterior dos  complexos de luxo das elites, os bairros degradados, violentos com clubes de prazer numa sociedade consumista onde, em paralelo, surgem movimentos ambientalistas e humanistas que se tornam num nova religião até que que a pandemia provocada intencional leva ao dilúvio seco e ao fim do homem.

Neste terceiro volume estamos perante os sobreviventes do dilúvio seco que, à semelhança do velho Noé, viram os sinais dos tempos e se prepararam para sobreviver, bem como o encontro destes com o "homem novo" - geneticamente modificado para ser pacifista, vegetariano, sem ambição e maldade, mentalizados para viver numa sociedade igualitária, comunal e sem complexos de sexualidade - mas desta ligação nascerá uma nova mitologia com os seus deuses e guias superiores, talvez os primórdios de uma futura religião ambientalista, mas teísta. A obra abre a porta ao cruzamento genético dos dois tipos de seres humanos, mas tal não é explorado, talvez uma oportunidade para uma tetralogia.

A narrativa está cheia de criaturas aberrantes dos tempos próximos filhas da engenharia genética. A escrita está inundada de neologismos, palavras compostas fruto dessa criatividade e invenção da sociedade consumista e hedonista. por vezes o texto é quase infantil para evidenciar a ingenuidade do homem novo sem maldade, outras bem adulto, com insinuações eróticas nas interpolações ao passado e para explicar a vida dos sobreviventes, alguns nada perfeitos outros idealistas, mas que conhecemos em volumes anteriores, cujas vidas ao serem narradas aos espécimes criados por Oryx gerarão uma nova mitologia e crença.

Regressei a esta sequela tendo em conta que o mundo da atual pandemia me tem levado a desanimar com o comportamento humano de uma forma demasiado abrangente. Assim, com esta desilusão e ao saber deste substituto perfeito que me chocara no primeiro romance, esperava agora voltar a ter saudades do homem atual com as suas virtudes e defeitos. Confesso que o objetivo não foi alcançado completamente, mas também não desejo que a humanidade seja substituída por homúnculos belos e ingénuos à imagem de outra mente humana desiludida com a humanidade.

Para quem gosta de ficção que especula a evolução do mundo atual para o abismo, é uma excelente história. Gostei e cativou-me, apesar de não considerar o estilo de escrita nestes dois últimos volumes da trilogia como tendo um grande valor literário, mas vale muito pela imaginação, momentos de tensão, suspense, criatividade e alerta para o mundo de hoje.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

"Anúncio de um crime" de Agatha Christie

 

Excerto

"- Nós esquecemo-nos que os criminosos também são pessoas. 
- ...Humanos. E muitas vezes pessoas dignas de compaixão. Mas também muito perigosas."

Acabei de ler mais um romance policial da mestre inglesa Agatha Christie: "Anúncio de um Crime".

A população da Chipping Cleghorn é surpreendida pelo anúncio no jornal local de um crime a cometer numa vivenda da aldeia a uma determinada hora dessa tarde. Uns apenas suspeitando tratar-se de um jogo, outos chocados e todos cheios de curiosidade decidem fazer uma visita à anfitriã da moradia onde ocorrerá o evento. Assim, vão aparecendo como por acaso onde a dona, conhecendo a vizinhança, também os esperava. À hora marcada ocorre o que parece uma tentativa de assalto, morte do ladrão e o ferimento da dona da casa. Só que aquilo que inicialmente parecia um roubo que correu mal em breve torna-se evidente numa tentativa de homicídio que a polícia tentará revelar com escassas pistas, mas eis que Miss Marple surge em cena com a sua sensibilidade humana e apontará para o seguimento de pistas e à resolução do caso.

Na sua linguagem fácil e na ambiência da Inglaterra rural cheia de hábitos tradicionais, a escritora, usando o conhecimento do comportamento psicológico das pessoas, faz-nos conduzir em suspense por uma fila de suspeitos e a uma intricada cadeia de vários crimes cujo autor no fim será desmascarado de forma surpreendente, sem nunca se perder na narrativa o estilo de vida social calmo e humano de Chipping Cleghorn.

Tenho gostado de todos os romances de Agatha Christie e este não foi exceção e é interessante como ela numa toada calma consegue manter vivo o suspense e a ocorrência de crimes que parecem improváveis nestes ambientes.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

"A gaivota * O tio Vânia * Três Irmãs * O Ginjal" de Anton Tchékhov

 

Excertos

"Pois é, chego cada vez mais à conclusão de que o problema não são as formas velhas ou as formas novas, mas precisamente o que escrevemos, sem pensarmos em quaisquer formas, escrevemos porque isso jorra livremente da nossa alma." A Gaivota.

"É assim a vida, não há nada a fazer. Tudo o que nos parece muito importante, com muito significado, muito sério - há-de chegar um tempo em que é esquecido, ou que não parece importante." Três Irmãs.

Terminado o mês em que talvez menos lí nas últimas décadas, mas coincidente com o que mais teatro li, logo no início deste acabei de ler o livro do escritor russo Anton Tchékhov que reúne quatro peças de teatro: A Gaivota, O Tio Vânia, Três Irmãs e O Ginjal

Em A Gaivota, numa casa de família cruza-se uma atriz com passado glorioso com seu filho jovem pretendente a escritor melodramático em busca de novas formas e visitantes que vão desde um escritor consagrado, uma pretendente a atriz e gente entendida no mundo das letras. Ao longo da trama apercebemo-nos das invejas e hipocrisia dos estabelecidos e das inseguranças e sonhos dos mais novos até à sua desilusão, podemos dizer que é uma peça de teatro a  interrogar-se sobre esta arte, os males do meio e os riscos e necessidades de inovação, sem dúvida questões caras ao autor.

N'O Tio Vânia temos gente comum num espaço familiar com desconfianças mútuas sobre os úteis, acomodados e oportunistas e necessidades de mudança de comportamento e incertezas. Uma peça que reflete sobre gente comum de famílias históricas em declínio, um retrato social da Rússia pouco antes da revolução e onde estão subentende aspetos do fim do império monárquico para o soviético.

Nas Três Irmãs, é uma história de gente comum e passa-se na casa de família destas com um irmão mais velho que passa de esperança de todas para a desilusão. Esta situação permite discutir com amigos e dissertar sobre as dificuldades do presente como potencial trampolim e construção de um futuro glorioso, mas incerto e longínquo da humanidade.

N'O Ginjal numa quinta familiar de aristocratas em queda, veremos o declínio da classe dominante no passado a ser ultrapassado pelos investidores capitalistas que pisam a tradição e a cultura para progredir e enriquecer, expelindo despudoradamente os senhores do passado em benefício individual.

Todas as peças mostram Tchekhov a testar novas formas de teatro, retratos de época e a questionar as mudanças de valores, da arte e os conflitos da sociedade de então através de gente tipicamente da Rússia rural da classe antes dominante ou da cultura e em conflito com as novas personalidades. São obras de vanguarda, mas fáceis de ler pela linguagem comum das personagens, só que ainda hoje parecem diferentes do teatro tradicional. Alguns dos atores por vezes debitam textos extensos para construir conceitos perante outros que perturbam e entram e saem de cena como nos momentos de tensão dos romances de Dostoievsky e, tal como este, as perguntas ficam no ar, cabendo ao espetador/leitor questionar-se. Gostei muito.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

"Yaka" de Pepetela

 

Acabei de ler o romance "Yaka" do escritor angolano Pepetela. Este narra a vida da família Semedo de ascendência portuguesa desde o nascimento acidentado de Alexandre Semedo em 1890 até à independência de Angola em novembro de 1975, atravessando 5 gerações em torno de Benguela.

O romance tem como narrador principal Alexandre, um helenista filho de um exilado português, que conta toda a sua vida, a da sua família, a do estilo de vida dos colonos e das etnias do sul de Angola, e da cidade de Benguela, numa montagem que reúne a sua análise crítica politicossocial em resultado da sua troca de opiniões com as impressões que retira de uma escultura indígena "Yaka" guardada na sua casa. Deste modo se monta a história da colónia desde o final do século dezanove, ainda quando a metrópole era uma monarquia, se passa pela esperança da 1.ª república, à dureza da ditadura do Estado Novo, se desemboca na revolução do 25 de Abril e termina com o domínio local do partido MPLA imediatamente antes da independência e o início da guerra após a invasão da África do Sul como aliada da UNITA e feroz anticomunista.

O romance mostra o ambiente de guerrilha alimentado pela comunidade portuguesa que, apesar de ter livres pensadores humanistas no seu seio, permitiu que esta controlasse o comércio e expoliasse as populações autóctones dos melhores terrenos, tendo como suporte desta estratégia o regime governativo ao serviço dos lusitanos. Neste meio, o protagonista, um ser humanista e fascinado pela cultura grega, foi-se acomodando a esta gestão política que ele próprio rejeitava.

A visão apresentada é ocidentalizada e a análise crítica para o final do romance só considera como salvador o partido MPLA a que o escritor pertencia, todavia o livro vale por dar a conhecer as tensões que sempre subsistiram no terreno desde o século XIX, as suas causas e oportunismos, para melhor se compreender o que foi a vida nesta colónia. Não há uma apreciação isenta e justificativa das divergências entre partidos que lutaram pela independência que permita compreender porque Angola foi depois palco da guerra civil mais longa em África e sugada por um único partido que se transformou num sistema de capitalista centrado em nepotismo e corrupção.

A escrita é fácil, apesar dos numerosos vocábulos angolanos, há um pequeno dicionário no fim, e a própria narrativa não oral utiliza uma sintaxe distinta da que de Portugal e do Brasil. Um bom romance para compreender Angola, agradável em estilo de saga, o que permite ver a evolução dos tempos e a diversidade dentro de uma família e de uma comunidade colonial, onde os portugueses não ficam bem nos seus comportamentos coletivos, mas que consegue ser delicado para não se tornar num manifesto contra todos os lusitanos. Gostei.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

"TRAGÉDIAS I" Eurípides

 


Iniciei o novo ano estreando-me num género literário e período histórico totalmente diferente do habitual: teatro grego da época clássica. "Tragédias I", do poeta dramático Eurípides do século V antes de Cristo, é o primeiro volume de um conjunto de três que reúnem as tragédias escritas por este autor que chegaram até hoje. Livros editados pela "Imprensa Nacional Casa da Moeda", encontrando-se o segundo esgotado enquanto o terceiro comprei antes que deixasse de estar disponível.
O presente livro contém quatro peças, uma sátira: Ciclope; e três tragédias: Alceste, Medeia e Heráclidas. A primeira corresponde a um episódio baseado na Odisseia, a aventura de Ulisses quando se vem abastecer em terra com a sua tripulação do regresso da Guerra de Troia e se encontra na gruta do gigante de um só olho e antropófago, o ciclope Polifemo, que imediatamente procura utilizar estes homens nos seus futuros repastos, mas a astúcia de Ulisses com o uso do vinho e aliciando os sátiros que serviam o ciclope lá se conseguirá libertar da situação. Uma peça cheia de humor com uma linguagem por vezes brejeira e fácil.
As restantes 3 peças são de uma profundidade e grande e todas elas envolvem lições de moral.
Em Alceste, Admeto, o rei de Feras, está condenado a morrer doente pelos deuses da morte, exceto se alguém der a sua vida por ele, ninguém assume tal ato, nem os seus pais idosos, então em segredo a sua mulher e mãe dos seus filhos, Alceste, assume o sacrifício com todas as tensões e análises morais que tal ato heroico e comportamento das personagens implica. Hércules conhecendo a situação irá procurar resgatar a heroína do mundo dos mortos e devolvê-la ao marido com toda a abordagem pós clímax. 
Medeia é uma história de infidelidade e vingança. Uma filha de rei que fugiu da sua casa real, que se opunha ao seu objetivo de se casar com grego Jasão, provocando ainda a morte do irmão. Jasão mais tarde decide abandoná-la com os filhos para se casar com a filha do rei da sua nova cidade Atenas. Apesar da condenação dos personagens pelo ato do marido, o rei ainda expulsa Medeia da cidade por questões de segurança. Só que a vingança de Medeia levará ao homicídio dos seus próprios filhos e da princesa, para não haver redenção em Jasão. Uma peça que analisa as questões morais do comportamento das personagens envolvidas e com um elogio belíssimo sobre os valores morais e de justiça defendidos por Atenas. 
Heráclidas, o nome dado aos filhos de Hércules, é uma peça com um teor moral mais fluído. Após a morte do herói Hércules por perseguições do rei Eristeu, este decide perseguir os próprios filhos daquele que se abrigaram no estrangeiro à sombra de um templo a Zeus na cidade de Maratona. Defendendo o princípio de hospitalidade o rei anfitrião, mesmo perante a ameaça de invasão resiste, mas é abalado quando os oráculos vaticinam a derrota de Maratona se não houver o sacrifício de uma jovem nobre, algo que Demofonte não está em condições de implementar no seu reino democrático. Eis que Macária, uma das filhas de Hércules, assume o sacrifício pela sua família e cidade de acolhimento, o que levará à derrota do inimigo e à entrega de Eristeu à velha mãe de Hércules, mas apesar das regras de clemência de Maratona este o modelo não é respeitado pela anciã Alcmena.
Nenhuma peças é extensa, necessitando de poucas horas de leitura, contudo o livro está cheio de anotações de peritos na arte clássica e existe para cada uma destas obras uma introdução de contexto que muito enriquece a respetiva compreensão e nos dão informações sobre a representação, o mundo helénico à época de Eurípides e o seu papel na abordagem das grandes questões morais, filosóficas, sociais e políticas de então que o levaram a tornar num dos três maiores trágicos clássicos.
Gostei muito, valeu a pena e o terceiro volume em breve deverá merecer a minha atenção. Foi um grande prazer apreciar estas obras com deuses e seres mitológicos perante grandes questões morais e sociais encenadas para o teatro há cerca de 2500 anos.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

"Oliver Twist" de Charles Dickens

 

Acabei de ler um dos livros mais conhecidos do escritor inglês do século XIX Charles Dickens, o romance em parte autobiográfico "Oliver Twist". A narrativa corresponde à vida de um órfão nascido numa estrutura de acolhimento de crianças abandonadas e onde a mãe, uma desconhecida a aparentar fugir de uma família para salvar a honra desta, morreu ao dar à luz o bebé e batizado por Oliver Twist.

No início, os responsáveis pelos órfãos sem amor deixam-nos passar fome e frio para economizar verbas e daí tirar dividendos da poupança excessiva e o protagonista, humilde e de bom trato, é uma das maiores vítimas. Ao chegar à idade em que é possível explorá-lo como mão-de-obra infantil entra outra série de sofrimentos e perseguições a que foge e cai nas mão de ladrões que exploram adolescentes nos seus roubo. Na ingenuidade num treino de assalto é preso mas acolhido por alguém bom que vê nele os traços de uma conhecida, só que a tentativa de os bandidos o recuperarem leva-o ao que parece ser o seu destino até que num assalto mal sucedido a situação levará a um confronto entre a tentativa da sua retoma pelos bandidos, a identificação das suas origem e alguém que o odeia e deseja a sua perdição.

Esta obra, como muitas outras de Dickens, é uma denúncia da injustiça social, a defesa da reabilitação das vítimas pela vitória do bem. Oliver Twist cumpre esta estrutura na íntegra, tendo também memórias da sua infância e mostra do submundo da pobreza e crime na Londres de então. Muito bem escrita, embora com a leveza típica de obra publicada por fascículos em jornais da época, e é muito fácil de ler. Também, como habitualmente em Dickens, a maioria das personagens são estilizadas de forma aos maus não terem virtudes e inspirarem ódio, enquanto os bons são quase perfeitos e vítimas dos primeiros e ansiamos a sua salvação, tudo isto sob uma luz de conceitos religiosos sobre a luta entre  bem e o mal com uma lição de moral, o que dá uma encenação algo forçada, mas é género fácil de agradar a qualquer leitor.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

"O rapaz que seguiu Ripley" de Patricia Highsmith

 

Acabei de ler o quarto livro dos romances da americana Patricia Highsmith com a personagem Tom Ripley, um criminoso amoral, simpático e amante de uma vida elegante com luxo e bom gosto artístico: "O rapaz que seguiu Ripley".

O protagonista americano continua a viver numa vivenda nos arredores de Paris com a sua esposa, filha de gente rica, que é tolerante com a suspeita dos seus atos ilegais. Um dia-a-dia de bem-estar na prática musical, a acompanhar os seus investimentos nas galerias e escola de pintura de que é sócio onde se introduziram quadros falsos de um pintor antes assassinado e a apreciar boa comida e convívio social. Nisto cruza-se com um adolescente que ele descobre ser alguém fugido de uma família milionária nos EUA após a morte do pai, rapaz que se sente atraído por Ripley dado o seu passado de suspeito criminoso. Desenvolve-se então uma amizade entre os dois apesar do risco do jovem vir a ser reconhecido das notícias sociais e ser alvo de rapto para resgate, mas Tom descobre-lhe um ato criminoso no adolescente. Na tentativa de o levar até à sua família e distraí-lo, enquanto um detetive o busca eles viajam por Berlim, Hamburgo e serão ainda vítimas de bandidos que obrigam o protagonista aos seus habituais atos geniais de disfarce e crime de modo a salvar o rapaz.

Apesar deste livro ter momentos de tensão, assassinatos e viagens a submundos, neste caso a noite gay de Berlim Ocidental dentro do muro, e a frieza de Ripley, é um romance suave, terno atravessado pela veia protetora do criminoso amoral que chega a ser paternal para com o rapaz. Uma obra de entretenimento mais suave que as anteriores e de menor suspense nas dificuldades que o protagonista atravessa, um carácter que mesmo sendo mau é capaz de gerar simpatias noutros personagens dos seus livros e no leitor. Gostei, manteve-me interessado mas sem a tensão tão elevada como os anteriores, sempre bem escrito e entretém.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

"Khadji-Murat" de Lev Tolstoi

 

Acabei de ler a última das obras de ficção do russo Lev Tolstoi, uma novela que só foi publicada postumamente: "Khadji-Murat"
A trama passa-se no Cáucaso e dá-nos uma imagem da guerra de ocupação russa da Chechénia e da resistência do seu povo. Khadji-Murat é um chefe guerrilheiro checheno, convertido profundamente ao islamismo, que mesmo sem confiar no líder do seu povo, que o conduz numa "guerra-santa" contra o invasor cristão russo, lutou intensamente ao seu lado com importantes vitórias. Todavia, a desconfiança e o mal que reconhece em Chamil, leva-o a optar por pessoalmente se entregar ao czar através de militares ocupantes que lhe despertam confiança. Decorre então um período de desconfiança dos russos que o mantém cativo experimentalmente, entretanto Khadji-Murat é alvo de chantagem do seu imã que tem como refém a família do protagonista. Neste período vamos descobrir um homem íntegro que se vê entre o mau e ambicioso líder checheno e uma sociedade de militares e nobreza sem valores morais, viciada e interesseira, uma tensão entre dois mundos perversos em confronto que conduzirá ao choque final.
Uma obra curta, sem o vigor dos seus maiores romances, mas onde a filosofia que marcou Tolstoi está presente: a integridade do homem bom no seio do mal, as divisões culturais entre a Rússia e a Europa ocidental, o conflito do império com os vizinhos do sul, os valores das religiões e o desprezo por quem as usa como estandarte para conquistar ou manter o poder. 
Tolstoi, apesar de assumidamente cristão e russo, neste livro deixa claro os podres que gangrenam o seu povo e os crentes, sendo a integridade humana uma raridade que dificilmente resiste estas ameaças.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

"Baía dos Tigres" de Pedro Rosa Mendes

 

Excerto

"Capitalismo é exploração. Comunismo não traz progresso. Mas este país é miséria. Só há uma lei: manda quem pode e obedece quem tem juízo."

Acabei de ler o livro "Baía dos Tigres", prémio PEN clube de 1999, do jornalista, escritor e repórter de guerra português Pedro Rosa Mendes. Apesar da obra estar qualificada como romance, de facto é uma reportagem, provavelmente com personagens e passagens ficcionadas, mas radicadas em factos e pessoas que foram narrados ao autor ou este se cruzou.

Pedro Rosa Mendes em 1997, período de interregno na guerra civil angolana na sequência do acordo de Lusaka, implementou uma travessia de Angola a Moçambique que, em simultâneo, recordava várias viagens de séculos anteriores que foram então feitas na tentativa de unir estas colónias portuguesas e para o controlo luso desta faixa africana.  O livro é composto de pequenos textos com impressões da sua viagem que aqui são reunidos sob a forma de crónica, conto, ensaio ou reportagem, os quais fazem um retrato, sobretudo, do sul de Angola, um pouco de Moçambique e até da Zâmbia. Não sei se poderia chamar literatura de viagem, mas sem dúvida que é uma mistura de ficção e reportagem.

Mesmo escrito por um jornalista, todos os textos são trabalhados literariamente de um forma bastante rica e diversificada, nele estão incorporados figuras de estilo literário clássicas e formas tipicamente africanas: vocabulário, modo de pensar, falar e estar. Existem momentos a descrever o terror com humor, até hilariantes e de grande beleza imagética. Há outras passagens que são, sobretudo, narrativas descritivas e memórias ricamente trabalhadas de forma estética, que vão do alegre ao terror da guerra e passam pela amargura de um povo que não pode ter perspetivas à sua frente e onde os mais velhos têm memórias de outros tempos e os mais novos nem passado nem futuro, apenas a sobrevivência do presente. Há ainda poesia a pontuar a obra, poemas de guerra, poemas cheio de alma e tradições do sul de Angola. Há denúncias de situações, há relatos de horror e da sua destruição louca, mas nunca a escrita perde a forma de ser grande literatura, como qualificou a obra José Eduardo Agualusa.

No conjunto, o livro está cheio de vozes como as que compõe as obras da laureada com o Nobel da literatura Svetlana Alexijevich e não menor riqueza literária. No livro há sobretudo vítimas, percebe-se quem foram os senhores da guerra, percebe-se que há culpados e há oportunistas ainda piores que os maus e nem o poder oficial ou oposição são isentados nesta obra, mas o que Pedro Rosa Mendes faz é um retrato da situação no terreno naquele momento de interregno da guerra e por isso o tom alegre inicial vai-se tornando mais triste. Gostaria que houvesse uma obra equivalente atual para saber como está a situação no terreno hoje.

Uma obra que apesar de dura, a ternura e a beleza de escrita a tornam fácil de ler e gostei muito.


quarta-feira, 25 de novembro de 2020

"As aventuras de Augie March" de Saul Bellow

 
Acabei de ler o romance "As Aventuras de Augie March" do escritor nascido no Canadá que adquiriu a nacionalidade Norte-americana e vencedor do prémio Nobel da Literatura.
A obra é a autobiografia de Augie que a narra desde criança, quando viveu num bairro pobre de Chicago na década de 1920, até homem estabelecido socialmente e a viver no centro de Paris. Filho de mãe abandonada, com um irmão mais velho e outro mais novo com atraso mental e a partilhar o apartamento com uma anciã aristocrata fugida à revolução russa, ali acolhida para suportar os encargos da família carecida de dinheiro. Do amor à mãe lutadora aos conselhos da idosa autoritária que reconhece potencial nos irmãos mais velhos, o protagonista desenvolve a vontade de viver entre gente rica mas sem perder a sua liberdade individual. O seu aspeto atraente conjugado com o ar de filho abandonado inspiram os endinheirados a acolhê-lo e a adotarem-no, algo não muito diferente ocorre ao nível de mulheres bonitas. Numa vida comparada com a do irmão, que sobe mais rápido acomodado às exigências dos objetivos, Augie, além dos passos rebeldes da infância de bairro, segue uma luta de resistência aos seus protetores sempre que implique cedências pessoais, desperdiçando oportunidades flagrantes na sua alma rebelde à subserviência e por vezes passando por situações arriscadas com a lei, com a vida e com os seus grandes amores, mas sem nunca se desligar da necessidade de proteger as fragilidade do irmão mais novo e da mãe que vai cegando.
As aventura e desventuras de Augie são magníficas. Os retratos de Chicago pobre, do pequeno banditismo, dos efeitos da depressão e do modo de criação de fortuna em certas famílias são excelentes. O exotismo de certas personagens e das cenas passadas no México é fabuloso. Além das numerosas referências à cultura clássica e a personalidade da história da Europa e da América numa coletânea que demonstra o elevado nível cultural do autor. Todavia, o texto muitas vezes estende-se por numerosos pormenores e uma adjetivação excessiva que para mim o tornou demasiado extenso, nalguns momentos mesmo fastidioso de tão prolixo.
Por tudo isto, apesar de ser uma excelente história, confesso que para mim teria sido um magnífico romance se o autor tivesse tido a vontade de sintetizar e de cortar os excessos para que as mais de 700 páginas em letra miúda tivessem passado a cerca de 500 com uma dimensão agradável à leitura. Um bom romance que sei de leitores que desistiram cedo e por isso perderam muitas destas excelentes aventuras, mas a obra exige mesmo alguma resistência ao exagero de palavras.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

"A Nuvem de Smog e a Formiga Argentina" de Italo Calvino

 

Li "A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina" do italiano Italo Calvino, um livro constituído por dois contos que precisamente formam o seu título.

Apesar de diferente, ambos os contos evidenciam um desequilíbrio incómodo com a natureza envolvente, a obra tem o subtítulo de "Uma narrativa lírico-simbólica da relação de um homem com uma realidade" e, de facto, ambas narrativas são algo absurdas e narradas por um personagem masculino.

No primeiro conto, o narrador vem para uma cidade liderar o projeto jornalístico do trabalho de uma empresa em prol da melhoria da qualidade do ar, sendo que o seu gestor integra a de outra poluidora da atmosfera. O jovem vai aprendendo a arte de comunicar em conformidade com os objetivos do empregador, sendo que em paralelo observa o smog e o pó que conspurca tudo sobre a cidade, descobre a vida no bairro onde mora. Entretanto mantém uma relação com uma apaixonada rica que o visita, mas que vive fora da realidade do mundo do cidadão comum, com o avançar ele descobre um mundo de limpeza.

No segundo, uma família vem viver para uma cidade e descobre que a sua zona é dominada pela formiga argentina, esta tende a ocupar todos os espaços livres  e na luta do marido este descobre  um conjunto de vizinhos que vivem obcecados nessa guerra, embora cada um de forma distinta e por vezes com métodos contraditórios, havendo ainda quem renegue ver o problema por orgulho, para um final encontram um local onde gozam a ausência do novo inimigo.

Gostei do livro, embora os contos nos deixem algo incomodados, a obra evidencia que já na década de 1950 o autor se questionava sobre problemas do ambiente e os interesses que permitiam alastrá-los.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

"As Dez Figuras Negras" de Agatha Christie

 

Acabei de ler o romance de suspense, mistério e terror de Agatha Christie "As Dez Figuras Negras". Dez pessoas que não se convivem entre si são convidadas por um desconhecido a passar uma semana na ilha do Negro de que ele é proprietário e a curiosidade leva-as aceitar. Chegadas ao destino descobrem que o anfitrião não está. No quarto de cada um está a lengalenga dos 10 negrinhos que vão sucessivamente desaparecendo. Na primeira refeição são sujeitas a uma voz que as acusa individualmente de terem provocado a morte de alguém inocente devidamente identificado e são questionadas se têm alguma coisa a dizer em sua defesa. Após negações de uns e confirmações de outros, o comum é que nenhuma fora condenado pela justiça e decidem desistir da estadia, mas ficam isoladas pelo mau tempo enquanto vão acontecendo mortes que seguem o registo do texto dos 10 negrinhos. O terror vai-se instalando e a desconfiança sobre quem entre eles é o assassino até chegarmos às últimas vítimas.

Este é um dos enredos mais elaborados e imaginativos que já li na obra de Agatha Christie, bem escrito e com os pormenores muito bem articulados, num último capítulo percebemos como a estratégia foi montada, por quem e levada a cabo com o objetivo justiceiro de culpados cuja justiça não conseguia condenar. Gostei mesmo muito deste romance, foi do melhor que já li no género de suspense e terror sem nada de sobrenatural ou irracional. Recomendo.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

"As Mansão" de William Faulkner

Acabei de ler o romance "A Mansão" escrito pelo norteamericano galardoado com o prémio Nobel da literatura: William Faulkner. Este constitui o último da trilogia da família Snopes que li ao longo do corrente ano.
Esta saga familiar iniciada com a A Aldeia, onde Rattlif, um vendedor ambulante residente na cidade de Jefferson e excelente perceção, relata como Flem Snopes, o filho de um rendeiro recém-acolhido  nos domínios rurais Will Varner consegue, de forma capciosa e pouco escrupulosa, assumir a liderança dos negócios do homem forte e tornar-se senhor dos seus terrenos e ainda trazer parentes de forma a criar um clã ominoso e execrável que controle a zona. Seguiu-se a A Cidade, onde Ratliff, o seu amigo advogado Stevens e o sobrinho deste ainda criança relatam como o mesmo Flem vem com a mulher e a filha para Jefferson, a esposa deslumbra o advogado, enquanto a filha o tio e sobrinho, e em simultâneo por vias igualmente pouco dignas Flem estabelece relações com o Presidente da Câmara e banqueiro e com isso não só se torna maioritário na instituição como senhor da sua mansão e como afasta de forma vil os seus familiares que possam manchar a sua reputação pouco digna.
Este volume prossegue a saga de Snopes, desde a década de 1930 e prolonga-se pela de 1940 e é de novo contada pelos mesmos três narradores do segundo romance. Agora assistiremos ao modo como Flem se acomodou à sua situação de rico, como um primo Snopes detido de modo perpétuo nos volumes anteriores por falta de ajuda do líder do clã procurará agora vingar-se e o papel da filha do banqueiro em tudo isto a coberto de uma bondade ideológica onde tentará corrigir erros e retaliará dentro de portas, no que culminará com o fim do domínio regional de Flem Snopes.
Logo no início do livro Faulkner alerta-nos para a existência de incoerências entre este romance e os anteriores e de facto algumas são mesmo incompatíveis ou inconsistentes, mas faz parte da evolução de como ele desejou para as suas personagens, sendo que este último foi escrito duas décadas depois do anterior. Uma vez que os lera há poucos meses a memória logo se apercebeu de contradições e reformulações, por vezes extensas, de acontecimentos contados antes.
No que se refere ao estilo de escrita, Faulkner, além do quase permanente tom de ironia e insinuação a aspetos futuros, utiliza o fluxo de consciência, ou seja: a narrativa vai sendo destilada ao ritmo da memória, da fala e da observação dos acontecimentos, sendo ainda intercalada com análises e considerações do narrador que surgem encadeadas e sem filtro ao longo de frases extensas. Isto faz com que o texto pareça caótico com mudança brusca de sujeito, do tempo, do local ou do ângulo do comentário e exige grande atenção para o leitor não se perder. Eu adotei há muito um método de ultrapassar esta dificuldade em Faulkner: ler ao ritmo da narrativa, construindo mentalmente a história sem me fixar nos pormenores que a rodeiam, o que torna mais fluida a leitura, mas há por vezes que reler um parágrafo descubro aspetos da narrativa não fixados, só que o essencial fora retido. Ler Faulkner é um desafio, pois cada parágrafo é um denso ramalhete das mais díspares informações cuja beleza brota do conjunto e exige técnica.
O primeiro volume tem um tradutor diferente dos outros dois, estes parecem-me ter um brilho e vivacidade superior, mostrando como a tradução pode realçar ou enfraquecer um livro escrito em língua estrangeira. Há outros escritores com narrativas intencionalmente difíceis, mas poucos me cativam como Faulkner. Recomendo-o a quem gosta de desafios de leitura e sabe tirar prazer destes.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

"Os últimos dias dos nossos pais" de Joël Dicker

 
Citação
"A coragem não é não ter medo: é ter medo e, mesmo assim, resistir."

Após ter lido a segunda obra de ficção do escritor suíço Joël Dicker", regressei a este autor com o seu primeiro romance publicado "O último dia dos nossos pais" com a qual ganhou o prémio Escritores de Genebra de 2010, este é um livro que se distingue de todos os outros que ele desde então saíram, pois não é um livro policial nem uma obra de suspense apesar de incluído no género de espionagem.

Após a invasão alemã de França, no início da II Grande Guerra, o jovem de 21 anos parisiense, órfão de mãe e extremamente ligado ao pai, decide ir para Inglaterra para lutar contra o invasor. Em Londres é selecionado para integrar uma rede de espionagem na sua pátria a exercer em território ocupado. Acompanhamos a sua formação intensa com cerca de duas dezenas de pessoas, só uma é mulher, o que dura vários meses de exercícios duros com grande desenvolvimento de amizade e espírito de grupo, apesar de alguns irem sendo eliminados, os finalistas tornaram-se numa família coesa embora com gente diferente, Paul e Laura apaixonam-se, mas o respeito na equipa é total. Estes espiões são enviados para o terreno com tarefas específicas e separados uns dos outros, pontualmente cruzam-se mas o segredo das ações de cada um é fundamental para a segurança. Todos são ricos de sentimentos e o amor do casal ou a carência deste noutros está presente, mas o mais forte é o amor filial de Pal, o que o leva a uma medida drástica e de risco que depois será conhecida pelos colegas que nunca deixarão que um colega perca a honra de herói e até um alemão inimigo deixa-se cativar por aquele filho.

Apesar da escrita deste romance não se pautar pela criatividade e riqueza de figuras de estilo literário, o texto é todo ele de uma grande elegância e atravessado pela amizade, amor fraterno, filial e romântico, o que lhe confere uma grande beleza e mesmo quando a narrativa é de tensão e tragédia nunca perde o tom e postura calma, o que é uma raridade em obras de espionagem em ambiente de guerra e talvez este seja o melhor trunfo deste livro, pois a dor é coberta de ternura que se estende ao inimigo. Um romance diferente que gostei e fácil de ler.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

"Sinais de Infinito" de Humberto Moura


Acabei de ler o romance "Sinais de Infinito" da autoria de Humberto Moura, açoriano e residente na ilha do Faial e de quem sou amigo de família desde jovem, tendo recebido este exemplar por oferta do próprio, com dedicatória já há uns anos e já octogenários mas portador de uma grande lucidez e cultura em vários campos. 

A presente obra vem na sequência de outro romance do autor: "Sismo na Madrugada" que já li ainda antes deste blogue se dedicar à divulgação das minhas leituras, que me deixara então bem impressionado, o qual era referente a um filho do Faial e de mãe solteira que se destacara pela sua inteligência e por condicionantes pessoais e da ilha que o levara a sair da sua terra se tornara num jornalista de referência numa cadeia estrangeira e correra o mundo, passando a ser uma pessoa mundialmente influente, conhecida e próxima de muitos líderes  e acontecimentos que marcaram o século XX, mas que no ocaso da vida se recolhera às origens como um simples cidadão pouco compreendido pelos seus conterrâneos ainda isolados do exterior.

Sinais de Infinito prossegue a saga familiar através da neta: jornalista e igualmente famosa na mesma cadeia internacional de comunicação social. Contudo o anterior protagonista apenas soube da sua existência e a conheceu nas vésperas da sua morte já no final do anterior romance. Harriet Terra agora irá tentar perceber melhor quem foi o avô através dos seus amigos mais chegados no Faial nos últimos tempos e por um diário que terá sobrevivido ao sismo de 1998. Entretanto faz uma reportagem televisiva sobre a sua personalidade que coloca a ilha no palco do mundo, gerando um alvoroço na terra e a seguir vai visitar locais por onde ele andou e ver-se-á envolvida no cenário de uma das maiores guerras de transição do século XX para XXI.

O autor cria um romance com elementos históricos e conteúdo enciclopédico pelo saber e diversidade das personagens em torno das quais a obra progride que têm uma amizade de grupo: a jornalista conhecedora e crítica do mundo contemporâneo, um padre historiador do Faial, um médico local que questiona o seu papel na sociedade e, sobretudo, um investigador da Horta de ciências, entendido nos maiores filósofos, gnóstico e herético e interessado em descobrir o prolongamento da vida. A este núcleo juntam-se personagens secundárias que complementam o ramalhete: o presidente da câmara interessado em tirar proveito político do fenómeno, um leitor dos documentos dos Açores no arquivo nacional, uma criada do Pico entendida no saber popular e um operador de câmara sobrinho de um escritor famoso com sucessos sobre conflitos com temas de sociedades ocultas, religiões e o graal.

Deste leque brotarão numerosas reflexões sobre questões éticas e morais da sociedade contemporânea, menções a personalidades do passado e suas ideias que se destacaram pelo seu saber gnóstico, científico ou filosófico e foram vítimas dos poderes da sua época, o que permite um debate sobre os objetivos da vida, o envelhecimento, o prolongamento da esperança de vida com qualidade e as questões das ciências, tudo isto com uma pitada de especulação em torno do ocultismo e a colocação do Faial no centro de um papel messiânico para a humanidade. A referência a temas gnósticos, maçónicos e filosóficos tem um papel muito importante na obra.

A narrativa opta por ser escorreita sem a perturbação de escritas criativas que estão na moda, contudo autor destaca em itálico numerosas expressões locais e pensamentos que pretende levar à reflexão, postos em confronto, por vezes devem refletir a opinião do autor expressados pelos seus personagens, concorde-se ou não com essas deduções.

Gostei imenso da contextualização da Horta no evoluir da história dos últimos cinco séculos devido ao seu papel como porto que acolhia a navegação mundial que passava no Atlântico Norte e como polo das telecomunicações no final do século XIX até meados do XX, dando oportunidade para numerosas revelações do passado da ilha e da complementaridade com o Pico. Apesar da referência a se estar perante uma obra de ficção, na verdade é possível perceber a influência de certas personalidades da ilha que serviram de fonte às personagens e, inclusive, o quanto do autor (porque o conheço) está na forma de olhar o mundo de hoje e as questões morais e éticas levantadas.

Apesar da grande quantidade de assuntos abordados mais ou menos profundamente, o livro lê-se muito bem e mesmo centrado no Faial tem temática para interessar leitores de qualquer outra região, mas sem dúvida a compreensão da sua riqueza aumenta se o leitor conhecer bem as ilha do Faial e Pico e suas gentes, permitindo assim tirar muito mais gozo da leitura desta obra. Não é essencial ler o romance anterior, mas não só ajuda como é muito interessante esse primeiro volume da saga que poderia dar uma trilogia.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

"A Casa Grande de Romarigães" de Aquilino Ribeiro

 

Excerto
"O amigo está numa casa em que todos, até os mais patifes, eram católicos desde as unhas dos pés até à flor dos cabelos. Lá que alguns pecaram pecaram....Uma casa fidalga sem pecado é mais enfadonha que uma boda sem bebedeira."

Acabei de ler o romance, o autor chama-lhe crónica romanceada, "A Grande Casa de Romarigães" do escritor português Aquilino Ribeiro, que possui uma obra vasta desde o final de 1.ª Grande Guerra até à década de 1960.
O livro conta a história das várias gerações que construíram, ampliaram e viveram nesta casa solarenga do Minho, com capela e uma grande quinta do lugar de Romarigães, um imóvel classificado de interesse público. A narrativa começa no início do século XVII, período de Portugal sob o domínio espanhol, e vai até meados do século XIX, já no período constitucional após as lutas liberais. Um solar com origem no sonho de um padre em adquirir o terreno, o que conseguiu a bom preço, que duma relação amorosa ilícita teve um filho que  permitiu prosseguir uma dinastia fidalga que dominou a zona e ali se estendeu por cerca de 300 anos, onde se falará da restauração, do terramoto de Lisboa, das invasões francesas, das lutas liberais vistas à distância da capital.
Não existe uma trama, mas sim uma sequência de biografias dos senhores da casa (desconheço se são personagens reais), sendo que desde o início até ao final praticamente todos cheios de defeitos morais, tanto na sua vida privada, como nos métodos de assegurar a influência social e de preservar o património na família. Seis gerações de escassas virtudes e muitos vícios, vários dos atos mais importantes na obra estão ilustrados com estampas a preto e branco que valorizam o livro.
Aquilino Ribeiro viveu nesta casa como genro de um dos primeiros Presidentes da República que dela foi proprietário e quando esta já fazia parte de outra família que não a da dinastia das crónicas deste livro, considerado um dos mais importantes da literatura nacional de meados do século XX.
O escritor utiliza um vocabulário muitíssimo rico, com muitos regionalismos do Alto Minho, a que adiciona numerosos sinónimos raros das palavras de uso comum, pelo que deduzimos o seu significado: ora pelo contexto, ora com recurso ao dicionário se quisermos acompanhar toda a riqueza lexical da prosa. O tom utilizado é, na generalidade, satírico e mordaz, o que cria uma sucessão genealógica que varia de mesquinha a pródiga, patrões injustos e abusadores, quezilentos, dominados pela lascívia, preguiça ou oportunistas, tudo isto a coberto de valores tradicionais religiosos, ligados ao clero e ao poder. A literatura lusa tende a ser  um contraste absoluto da inglesa que tende a dignificar os líderes da comunidade e o seu povo, nesta obra praticamente ninguém desperta respeito, algo que talvez explique uma certa mentalidade portuguesa que penso também ter deixado escola o Brasil, que conduz à normalização da maledicência e à destruição da imagem da generalidade dos seus líderes sociais.
Como romance está excelentemente escrito e é uma narrativa cheia de vida.

Estado pouco conservado do imóvel presentemente
(fonte Wikipedia)

terça-feira, 29 de setembro de 2020

"O Mundo de Ontem" de Stefan Zweig

 

Acabei de ler, em formato e-book mas disponível em suporte de papel, o livro de memórias "O Mundo de Ontem" de Stefan Zweig. Judeu, austríaco, autor de largas dezenas de novelas em que explora as situações extremas a que podem levar as tensões dos sentimentos de que muito tenho gostado, escreveu também várias biografias de investigação sobre personalidades históricas que admirava. Considerava-se cidadão do mundo e fugiu do país natal com a ascensão do nazismo e teve como último refúgio o Brasil.
Nesta obra Zweig começa por enquadrar a sua família judia no contexto do centro leste da Europa, o modo como a comunidade a que pertencia se integrava e dinamizava a sociedade de então e faz um retrato da mentalidade coletiva da época onde os seus ascendentes enriqueceram.
Seguem-se as memórias da sua infância na cidade de Viena, a vida nesta, os seus deslumbramentos pela atividade cultural desta capital, sobretudo patrocinada pelos judeus, os preconceitos e os tabus morais de então, usando uma língua que em simultâneo mostra compreensão e crítica aspetos ultraconservadores que hoje nos chocam. Zweig encontrou-se com líderes culturais do teatro à literatura que lhe estenderam a mão e tal possibilitou a entrada no mundo do pensamento, teatro, literatura e dos jornais tendo então e viajado por numerosos países europeus, América e Ásia sempre a encontrar-se com os pensadores que admirava e almejava compreender. A sua lucidez nunca o impediu de ver os riscos do alheamento e da crença no sucesso do mundo que se vivia na Áustria e na Europa que ignorava as ameaças que conduziram à primeira grande guerra e a uma mudança de mentalidade de todo Continente.
No pós-guerra, mais amadurecido e já reconhecido como um dos grandes pensadores da época, Zweig integra-se na comunidade de filósofos e escritores defensores de uma Europa unida, supranacional e em prol do desenvolvimento fraternal da humanidade, assim fala com alguns dos grandes líderes culturais do velho Continente, volta a viajar pelo mundo, apercebe-se das loucuras dos anos vinte, das mudanças exacerbadas das mentalidades, dos extremismos que a cultura e a moral estavam a seguir e das dificuldades das populações nos Estados derrotados. Esteve ns União Soviética sem se deixar enganar pela propaganda e cedo temeu a ascensão dos nacionalismos e extrema-direita no ocidente. Insistiu em denunciar a situação, contou com a colaboração de grandes pensadores e com Hitler a tomar o poder viu a sua obra ser proibida e a premonição levou-o a fugir para Inglaterra e a tornar-se pária, mas ficou cidadão de Estado inimigo quando da guerra, Compreende-se então, mas não conta, o exílio no Brasil. Deixa claro que teve esperança que a América Latina fosse o fiel depositário dos valores humanitários que brotaram da Europa que se a suicidava em nome de ideologias destrutivas.
Não sei, talvez porque no exílio tenha compreendido que o Brasil não iria continuar o seu sonho de um mundo supranacional e humanitário ligado aos valores fraternais por que lutata suicidou-se pouco depois de terminar estas memórias.
Na realização dos retratos da época, exposição dos pensamentos do autor, forma de ser dos povos e o evoluir destes ao longo de meio século, bem as esperanças e desilusões das gentes, a análise crítica de Zweig é escrita com uma perfeição tal e com uma capacidade de síntese enorme, que ele próprio explica, que deslumbram e dão uma vida à narrativa que parece estarmos a viver o que ele viveu, as suas alegrias e tristezas vistas na primeira pessoa. Vale mesmo a pena ler este livro para conhecer o mundo de ontem e, sobretudo, ver e comparar com o presente para compreender melhor o mundo de hoje e as ameaças que nos estão a cercar. Muito, muito bom mesmo.