GEOCRUSOE
impressões de um geólogo amante de livros e música erudita que vive numa ilha vulcânica bela e cosmopolita
sexta-feira, 22 de maio de 2026
"O Tango de Satanás" de László Krasznahorkai
terça-feira, 12 de maio de 2026
"Neuromancer" de William Gibson
Estreei-me no escritor canadiano por adoção e natural dos Estados Unidos, William Gibson, com a leitura do seu romance mais famoso "Neuromancer", que popularizou o termo ciberespaço. Obra publicada em 1984, marcou o estilo cyberpunk da literatura de ficção-científica e foi vencedor de dois galardões literários mais reconhecidos deste género de ficção: os prémios Nebula e Philip K. Dick, sendo que o autor também já ganhou um Hugo na trilogia iniciada por Neuromancer e serviu de inspiração ao argumento da tetralogia dos filmes de ficção-científica Matrix, embora com um enredo muito diferente.
Case vive na megacidade de Boston a Atlanta: Sprawl; nela abundam bares com tráfico de droga, álcool, violência de gangues e prostituição que ele frequenta. Case possui componentes informáticas incorporadas no seu organismo e é um hacker que interceta software do ciberespaço para patrões maiores, quando à revelia vende dados a outro bando, é castigado com injeção de uma toxina que lhe impede a sua profissão, entretanto a sua namorada é assassinada. Na sua fragilidade, surge-lhe Molly, uma mulher cyborg que lhe apresenta Armitage que lhe promete a cura em troca de participar no apoio a um assalto que pretende roubar a memória do seu antigo formador de pirata informático a uma base de dados. Só depois descobre que a aceitação tem uma condicionante que o torna refém de um projeto que envolve um guerra vasta entre gigantes informáticos, uma Inteligência Artificial (IA) e um impérío de luxo com uma estância espacial para gente rica, onde ele e Molly formam uma dupla que enfrentam numerosos perigos tanto no mundo real como virtual nos quais vivem.
O início da leitura foi um murro no estômago, não só pelo mundo decadente por onde Case andava, como pela gíria criada por Gibson e ainda a dificuldade em começar a distinguir o que era o real, virtual, personagens físicas e IA, tudo isto flui interligado no texto, cabendo ao leitor situar-se. Confesso que ao fim de umas dezenas de páginas comecei a perder-me e então entrei num aplicativo de IA e fiz duas ou três questões, voltei a reler alguns parágrafos e eis que se fez luz sobre a técnica narrativa, estilo de escrita. O livro tem também um glossário para a gíria utilizada.
Igualmente tem um prefácio de Gibson escrito em 2004, onde fica claro que este foi um futuro imaginado em 1984, quando muito do criado já era bem real: o ciberespaço, IA, realidade virtual, enquanto outras realidades, nem ele tinha imaginado: telemóveis (celulares), o fim dos modems e por isso temos momentos absurdos de busca de cabines telefónicas, os ruídos da ligação por modem, etc. Para tornou-se divertido na leitura ver estes avanços tecnológicos não considerados na obra com tantas outras invenções e a sobrevivência de outras tecnologias já hoje praticamente extintas.
Se gostei, sim, muito, a partir de certo momento já me sentia envolvido como num obra de espionagem e suspense, mas não é uma leitura simples e fácil, mas permite experimentar algo diferente, a partilha das minhas dúvidas com a IA gerou uma realidade nova, próxima da do livro, e espero voltar ao autor numa outra obra bem mais recente, fora da trilogia para ver como evoluiu.
sexta-feira, 1 de maio de 2026
"A Mais Secreta Memória dos Homens" de Mohamed Mbougar Sarr
Acabei de ler o livro "A mais secreta memória dos homens" do escritor do Senegal Mohamed Mbougar Sarr, obra vencedora em 2021 do prémio literário mais prestigiante de língua francesa, Goncourt.
"O labirinto do inumano" é o título de uma obra publicada na década de 1930 em Paris que teria então impressionado os meios literários franceses. Primeiro, pela qualidade da sua originalidade, segundo, pela admiração de se estar perante um provável autor africano e este ser capaz de uma tal obra-prima que rivalizava com a genialidade apenas considerada possível a escritores brancos. Depois veio a sua aniquilação pelos ataques de que foi alvo ao ser considerada como uma manta de frases plagiadas de grandes autores e, ainda baseada numa história não original proveniente da mitologia africana. Diégane, um estudante senegalês em Paris já no século XXI deambula pelo meio académico de origem africana e tenta descobrir o livro e informações sobre o seu autor: T C Elimane, mas parece que tudo foi apagado em torno deste fenómeno, é então que cruza num bar com uma escritora compatriota e reconhecida na Europa que mostra o livro e começa então uma rede de narrativas sobre o autor, as especulações sobre a sua vida e a sorte de todos os que se cruzaram com ele ou com "o labirinto do inumano".
O romance, que é na base uma busca detectivesca em torno de um livro e do seu autor, torna-se num conjunto de narrativas entrecruzadas sobre a vida e as ideias do jovem e de vários outros autores e do próprio Elimane e sua família, que no conjunto disserta sobre o que é a literatura, o que é ser um escritor, os seus ideais e a realidade do mundo literário. Sensatamente fala do preconceito europeu sobre a superioridade da sua arte e criatividade, do sonho em muitos colonizados em se mostrarem iguais ou mais capazes que os seus colonizadores, da vida solitária do escritor e das suas desilusões e ambições, dos regimes africanos falhados, do ideal da literatura transversal a vários continentes na civilização ocidental e das paixões humanas que interferem com tudo isto.
Algumas personagens são escritores reais, como Sábato e Gombrowicz, outras puramente imaginárias, num texto rico, racionalmente sentimental de grande beleza e ternura que mostra as tensões e razões dos vários intervenientes e os problemas do colonialismo e da literatura e as feridas e cicatrizes que tudo isto deixa à sua volta. Um excelente romance pela qualidade do texto e conteúdo que vale a pena ler que pelo mérito justifica o prémio alcançado. Gostei muito
segunda-feira, 13 de abril de 2026
"A Morte Eterna" de Liu Cixin
Citações
"A era da liberdade decadente da humanidade chegou ao fim. Se quiserem sobreviver, têm de reaprender o coletivismo e recuperar a dignidade da vossa espécie."
"Perder a nossa humanidade é perder muito; perder a nossa ferocidade é perder tudo."
"por duas vezes, em nome do amor, fez o mundo mergulhar no abismo."
Acabei de ler "A Morte Eterna" do chinês Liu Cixin que corresponde ao terceiro volume da Trilogia "O Passado do Planeta Terra", iniciada com "O problema dos três corpos".
A história estende-se por várias eras, inicia-se com um evento associado à queda de Constantinopla e só depois entram os protagonistas, na sua grande maioria diferentes dos anteriores volumes, este é o mais extenso e, cientificamente, o mais especulativo dos três romances. A narrativa recomeça na "Era da Crise" quando a humanidade está refém dos trisolarianos, que controlam os resultados das experiências de mecânica quântica para a humanidade não evoluir tecnologicamente e assim a civilização alienígena poder tomar a Terra, era em que os humanos procuram lançar uma nave para alerta da iminência do ataque de Trisolaris.
As personagens principais - através da hibernação para as pessoas acordarem quando puderem ser curadas de doenças incuráveis ou para acompanhar projetos científicos e políticos de primordial importância de longa duração - sobrevivem a diferentes eras, a segunda era corresponde à da "Dissuasão", iniciada no final do romance "A Floresta Sombria", quando Luo Ji tomou o controlo da situação que trava o invasor e se descobre que o Universo é um mundo hostil, ideia que se impõe ao longo de quase toda a obra que decorre por milhões de anos com viagens relativas no tempo.
Ao longo das eras fica evidente a necessidade de sobrevivência face à ameaça do cosmos, assiste-se a períodos de crescimento socieconómico e tecnológico dos humanos que são acompanhados por "desmasculinização" dos homens, comodismo e valorização do pacifismo contra opções determinadas e duras, uma evolução catastrófica para a civilização. Esta, no início está limitada à Terra, depois expande-se à sua volta, passa para o sistema solar, até perder a sua origem por o humanismo se sobrepor à ferocidade dissuasora defensiva e sobrevive no espaço galático pela sua racionalidade.
A última parte passa-se milhões de anos depois, é poética e cientificamente muito especulativa, parece ser um antídoto à filosofia reinante em quase toda a obra, onde o instinto duro e racional era crucial à sobrevivência face ao sentimentalismo desejado pelo coração humano confortado no bem-estar.
A obra desenvolve na narrativa os mesmos princípios filosóficos d'A Floresta Sombria, mas pouco traz de novo. Mostra eras onde a riqueza, o bem estar e o conforto são vias para o conformismo, a decadência e a sobrevalorização da bondade em detrimento das opções duras e racionais para assegurar a sobrevivência da civilização, parece ser uma crítica ao liberalismo democrático ocidental assente no aumento do consumo, do sentimentalismo e com uma tolerância cega a comportamentos individuais.
O livro tem passagens como o fim da era dissuasão, a era dos bunkers e o fim desta, que são desenvolvidas de uma forma muito cinematográfica excelentes para filmes de Hollywood, incluindo as experiências nas naves espaciais, a arquitetura futura e as bolsas em diferentes dimensões físicas, nestas, a especulação científica é extrema e com explicações das novas descobertas, onde o leitor se apercebe que se está a ultrapassar as leis da física atuais, que até são discutidas como armas civilizacionais.
O autor continua a mostrar um fascínio pelo pensamento, arte e cultura europeia, com referências muito interessantes, sem esconder a chinesa. Vê o desenvolvimento global de uma forma multipolar: América do Norte, Europa e China, mas é omisso sobre a América Latina e África, soa-me preconceituoso.
Gostei do terceiro volume, mas sem me surpreender tanto pela positiva como os dois anteriores romances, tem passagens excessivamente pormenorizados que até me cansaram, outras de grande intensidade e suspense, mas a necessidade do antídoto final para valorizar o amor em detrimento da racionalidade nua e crua para a sobrevivência senti-a como uma cedência gratuita aos valores do humanismo para agradar ao leitor e confesso que só recorrendo à IA percebi que o acontecimento na época da queda de Constantinopla se relacionava com Cortazar, algo rebuscado de facto...
Apesar de menos cativado com este volume, continuo motivado para mais leituras do género da ficção-científica.
terça-feira, 10 de março de 2026
"A Floresta Sombria" de Liu Cixin
Axiomas Iniciais
"a sobrevivência é a necessidade primordial de uma civilização"
"uma civilização cresce e expande-se continuamente, mas a quantidade de matéria no universo nunca se altera."
Ao ler "O problemas dos três corpos", do chinês Liu Cixin - obra de ficção científica que se tornou no primeiro romance da trilogia "O Passado do Planeta Terra" (apesar da história partir de meados do século XX, passar pelo presente e evoluir vários séculos para o futuro) - compreendi o seu sucesso no seu género literário, decidi ler os volumes seguintes e acabei de ler o segundo: "A Floresta Sombria".
A narrativa deste parte da exposição dos dois axiomas, este é um romance mais filosófico e menos centrado na física que o anterior, dividindo-se em duas épocas: a primeira dá continuidade ao volume anterior no início do século XXI e após o choque da divulgação do contacto com a civilização alienígena Trisolaris, a possibilidade desta chegar à Terra em quatrocentos anos e a ameaça de aniquilar a humanidade para aqui se estabelecer. Os protagonistas agora são quase todos diferentes. Assistimos ao surgir de vários movimentos sociais: os gerados pelo pânico da proximidade do fim, os humanistas ingénuos pela bondade que acreditam na coexistência pacífica, as Nações Unidas a buscar uma estratégia de sobrevivência ao embate com uma cultura mais avançada e os cientistas de várias áreas em busca de soluções para enfrentar o inimigo, mas há duas condicionantes:
1 - os alienígenas tem acesso a toda a informação do que se faz na Terra, só não acedem ao pensamento humano, o que leva ao Projeto Clausura com a nomeação de 4 humanos com poderes totais para cada um, secretamente, elaborar uma estratégia de salvação e os trisolarianos selecionam 3 pessoas para descobrirem os segredos (disruptores), desvalorizando Luo Ji, um astrónomo hedonista e excêntrico, mas o único que conhece os axiomas que não compreende e sabe as regras de derivação dadas pela mulher que estabeleceu o primeiro contacto extraterrestre, mas só pensa em tirar proveito do seu estatuto; e
2 - Os trisolarianos manipulam através dos cognis que enviaram para a Terra as experiências de mecânica quântica de modo a humanidade não evoluir científica e tecnologicamente.
A segunda época decorre dois séculos depois e, devido à descoberta da técnica de hibernação, alguns dos protagonistas voltam a acordar para concluir os planos dos enclausurados e enfrentar a ameaça dos trissolários, mas todos ficam desacreditados. Só que se entrou numa época em que a tecnologia evoluiu para uma sociedade com grande conforto e deslumbrada do seu sucesso e bem-estar que se considera capaz de vencer o combate do Juízo Final com os Trisolaris. A humanidade vive em grande parte do Sistema Solar, tem frotas com naves de grandes dimensões e vida autónoma das aglomerações das nações em terra, todos possuem armamento nuclear de ponta, até à chegada da primeira sonda que põe a nu o grande fosso tecnológico imposto pelos cognis ao nível de física das partículas. O pânico instala-se e o combate é depois autodestrutivo, só Luo Ji percebe o porquê e é capaz de levar avante uma estratégia de controlo da situação, partindo de um ato seu que parecia tresloucado na primeira época como enclausurado.
Não sei chinês para comentar a escrita original de Liu Cixin, sei que a tradução direta do original para o português europeu tem uma grande qualidade literária. O escritor traz para a ficção científica a discussão de grandes questões filosóficas da humanidade, o que para muitos só seria aceitável nas grande narrativas de ficção tradicional, eleva o seu género literário ao das grandes obras de literatura mundial e, ao optar por condicionar grande parte da sua criatividade às limitações das leis das ciências, torna a sua narrativa muito mais credível e interessante. Num estilo totalmente diferente, "A Floresta Sombria" não me é menos marcante que "Os Demónios" de Dostoiévski, o lado negro que parece estar no interior de cada humano, afinal pode ser apenas uma necessidade. Parte do romance parece ter raízes em "A Laranja Mecânica" de Burgess, outra obra-prima fora das narrativas tradicionais.
O escritor não é benevolente com a humanidade, intencionalmente traz ao de cima um fundo sombrio no Homem, os axiomas da obra podem não ser verdadeiros, mas podem ser e, se o forem, o sonho de tentar comunicar com seres inteligentes extraterrestres pode virar a um pesadelo de consequências catastróficas.
Liu Cixin é um escritor chinês conhecedor da cultura ocidental, existem referências frequentes nos dois volumes a grandes personalidades e pensamentos ocidentais miscegenados com a autores e história da China, tornando-se numa obra literária com raízes globais.
Apesar da vasta cultura, menções e ideias profundas, Liu Cixin consegue uma narrativa que tanto pode manter a atenção de leitores que apenas leem na perspetiva de entretenimento fácil e suspense, existem passagens que quase parecem fazer parte de uma obra literatura barata, como levar leitores a refletir e a discutir as questões filosóficas e científicas semeadas na história, tornando-se num romance inclusivo para vários tipos de leitor, provenientes de culturas diferentes e por isso uma obra-prima.
Para já e ainda em estado de surpresa pelo conjunto destes dois romances, comecei a leitura do terceiro volume da trilogia, sabendo que há sempre o risco de desilusão depois de se ter estado num patamar elevado.
Citações
"Neste momento, o maior obstáculo à sobrevivência da humanidade é a própria humanidade"
"Haja civilização no tempo e não tempo na civilização"
"A escuridão é a mãe da vida e civilização."
domingo, 15 de fevereiro de 2026
"O Regresso de Sherlock Holmes" Arthur Conan Doyle
sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026
"O Problema dos Três Corpos" de Liu Cixin
Citação
"Se surgir o caos ao nível do pensamento, a ciência acaba."
Voltei à leitura de ficção científica, um género literário, tal como o policial, que é muitas vezes desprezado face às narrativas com tramas mais ou menos convencionais, mas onde cabem obras-primas de imaginação e qualidade literária. A busca de algo diferente e interessante levou-me a procurar obras recentes de ficção científica já de reconhecida qualidade por leitores e críticos. Neste conjunto encontrava-se "O Problema dos Três Corpos", do chinês Liu Cixin, prémio Hugo (atribuído por leitores do género) em 2015 e finalista do prémio Nebula (selecionado por críticos literários), além de prémios nacionais. Na escolha deparei-me com uma obra-prima que conjuga especulação científica com rigor, filosofia com entretenimento, análise social do início do século XXI com imaginação sobre outros mundos e o possível impacte do contacto entre a nossa realidade e uma civilização extraterrestre.
A trama desenvolve-se em três partes, a primeira inicia-se com o choque psicológico da investigadora astrofísica Ye Wenjie, sobrevivente de um ato de violência da Revolução Cultural na China em 1967. A segunda, o seu acolhimento e trabalho numa base secreta isolada de monitorização de sinais de rádio terrestres ou vindos do exterior devido à sua especialidade científica, na sua amargura e isolamento alimenta o ódio pela civilização humana, na sequência da emissão de um sinal para fora do planeta surpreende-se, anos depois, com uma resposta e um alerta de precaução para a sua civilização não ser localizada por uma do exterior, que poderia destruir a humanidade, mas a sua revolta leva a secretamente agir em desfavor do ser humano.
A terceira parte tem outro protagonista e é nos nossos dias. Ocorrências estranhas desfazem leis da física, a perturbação do trabalho de Wang Miao em nanomateriais leva-o a procurar respostas junto de cientistas e a encontrar Ye Wenjie, todavia as perturbações da ciência já levaram ao suicídio de investigadores de ponta e Miao vê-se envolvido num trabalho policial que envolve o exército e todas as superpotências mundiais na busca de explicações para o que está a acontecer. É então levado a entrar num jogo de computador imersivo do surgimento e destruição de uma civilização de um exoplaneta com três sois, devido ao problema matemático de estimar as trajetórias destes três corpos para calendarizar a vida desses alienígenas. Com o tempo, torna-se evidente a correlação de tudo o que está a acontecer e tem a interferência dos Trissolários que usam o jogo para criar condições para ocupar a Terra na sequência do antigo contacto, havendo já uma multidão organizada disposta a acolher esses estranhos por desânimo com a civilização terrena, mas esta só chegará num futuro longínquo devido à limitação de viajar à velocidade da luz.
A obra tem um suporte inicial de grande rigor científico para no fim especular conhecimentos e tecnologias quando se retrata a civilização Trisolaris fora do jogo e com aspetos que são de pura criatividade e muito cinematográficas para passarem a filme e série de TV. Esta evolução a partir do rigor dá credibilidade à narrativa e apesar de falar de leis da física, a história não exige ser um técnico, qualquer pessoa percebe a exposição e as questões, mas ser de ciências dá um certo gozo.
Paralelamente, existem pelo meio várias interrogações filosóficas, a mais forte a do ser humano desiludido e revoltado destruir a sua civilização como retaliação (Atwood fez o mesmo em Orix and Crex), a existência de crentes na salvação externa, a necessidade de cooperação internacional para proteger a humanidade, será possível o Homem sobreviver ao choque de contacto com cultura extraterrestre? Esta dúvida esta brilhantemente colocada perto do final com gafanhotos e Liu Cixin tem assunto para dissertar nos romances seguintes que deram origem a uma trilogia "O Passado do Planeta Terra" que aguardo receber os próximos volumes para ler.
Gostei muito e recomendo a qualquer leitor que goste de narrativas bem contadas, bem escritas, fáceis de ler que especulem sobre a ciência e esta humanidade.
domingo, 25 de janeiro de 2026
"A Multiplicação dos Milagres" João Pedro Porto
Após vários anos, regressei ao escritor de ficção e poesia açoriano João Pedro Porto, com a leitura do seu recente romance "A Multiplicação dos Milagres".
Berto Brisi é um editor em Milão muito especial, não procura obras a publicar só espera que estas lhe venham até ele, é, por isso, conhecido como o Osga. Após conhecermos a sua origem perto de Turim, das suas deambulações por Itália e do histórico sucesso inicial com dois autores, a estagnação leva a que o dono do grupo comece a exigir novas publicações, até ele próprio criar três escritores de enorme sucesso, que, logicamente, ninguém conhece e para quem lhes arranja dados biográficos e acidentes em espaços expostos para justificar a respetiva existência, mas um dia eis que os três autores se cruzam com ele e entra-se numa espiral de situações complexas entre o criador, as personagens criadas e outras imaginadas por Berto.
Uma narrativa deslumbrante, surrealista que lembra Italo Calvino, temperada com absurdos kafkianos e de Saramago, unidos pelo brilhantismo da mitologia pagã pinceladas com o fascínio da história cultural, mitológica e geografia da península itálica, construída com uma escrita mirabolante de grande riqueza lexical e estonteante que monta um edifício todo ele hiperbólico e maravilhoso.
Tal como na sobrecapa, a zona central do livro está ocupada por mais de duas dezenas de desenhos e aguarelas do reconhecido pintor desenhador açoriano: Urbano, várias parecem referências da narrativa, ou esta às pinturas, que enriquecem a obra, complementando o texto com imagem.
Tal como em "A Brecha", João Pedro Porto é um escritor Açoriano, mas não produz obras de cariz regionalista, os seus livros ultrapassam a fronteira temática da açorianidade em que, por vezes, alguns criadores deste arquipélago se limitam, sem deixar de ser um membro da cultura Regional.
Gostei muito, li em ritmo acelerado as piruetas da narrativa, mas não é um texto fácil, pois além das numerosas referências culturais, umas reais, outras lendárias da península Itálica, com enfoque em Dante, que mostram o grande conhecimento do autor sobre esta região as reviravoltas e maravilhoso da narrativa fazem-nos perder nesta vertiginosa história, com histórias no seu interior.
Para quem gosta mesmo de literatura em estado puro, a escrita é muito bela e cheia de frases e ditos que importa sublinhar pelas ideias que encerram e recomendo vivamente este docinho literário.
segunda-feira, 19 de janeiro de 2026
"Junto ao Mar" de Abdulrazak Gurnah
domingo, 4 de janeiro de 2026
"Os Informadores" de Juan Gabriel Vásquez
Citação
"Porque as falhas herdam-se; e herda-se a culpa; cada um paga pelo que fizeram os seus antepassados, isso toda a gente sabe."
Estreei-me na leitura do escritor colombiano: Juan Gabriel Vásquez, com o presente romance "Os Informadores", país que conheço muito mal e de quem lera apenas obras do famoso Gabriel García Marquez.
Gabriel Santoro publica um livro baseado nas memórias que gravou de uma amiga de família sobre a vida na Colômbia da comunidade alemã refugiada ou imigrada naquele país que depois se tornou alvo de discriminação durante a II grande guerra, mas estava longe de prever que o principal detrator público da obra seria o seu homónimo pai, uma personalidade influente que chega ao corte de relações, até ao dia em que a doença deste o obriga a aproximar-se do filho, mas a sua morte inesperada é seguida de um escândalo sobre a ética do seu passado, começa então a buscar o que causou incómodo a partir da sua amiga, descobre então que a sua obra recordou traições e erros de cuja mancha se sente herdeiro.
O livro está dividido em várias partes, na primeira descobrimos o conteúdo da obra que Gabriel publicara e o que era a sociedade colombiana nas décadas de 1930/40, acompanhado da busca em compreender a aversão do pai ao seu conteúdo, a aproximação familiar com a doença e o renascer do progenitor. Após a morte de Santoro sénior, ele descobre o que não lhe fora comunicado antes pela sua fonte, o incómodo e a vergonha que o livro trazia à memória do pai, uma referência pública de ética, o que origina um segundo livro. Por fim, fruto dos livros, dá-se o encontro com as vítimas e a análise das feridas que ainda persistiam.
O texto divide-se entre o tom de memórias, com relatos do passado, reflexões das personagens sobre o essa época e a realidade social da Colômbia durante a guerra e hoje, bem como o evoluir da situação no presente em resultado do livro, é uma narrativa exposta de uma forma original, que intercala factos históricos, com personagens fictícias e reais, entusiasmei-me menos do que a obra merece, talvez por a ter lido no período natalício, pois reconheço a grande qualidade do romance e deixou-me curiosidade suficiente para querer voltar ao escritor que me parece ser uma alguém emergente e original na literatura latinoamericana atual.
sábado, 13 de dezembro de 2025
"O Tempo Envelhece Depressa" de Antonio Tabucchi
terça-feira, 9 de dezembro de 2025
"A Matéria das Estrelas" de Isabel Rio Novo
quarta-feira, 3 de dezembro de 2025
Herscht 07769 de László Krasznahorkai
"...porque as pessoas não têm medo do que deviam ter, mas do que não deviam ter"
Há certos autores que, antes de se tornarem amplamente conhecidos, eu fui informado do seu valor, mas tive medo de ler. O húngaro László Krasznahorkai, vencedor do prémio Nobel da literatura de 2025, foi um desses casos, logo depois de galardoado procurei a obra antes recomendada, mas já estava esgotada, entretanto, acabara de sair um dos seus romances mais recentes Herscht 07769 e aventurei-me.
Fabian Herscht é um simplório, um órfão que foi acolhido por Boss, este é um fanático por Bach, lidera um grupo de neonazis, criou uma orquestra dedicada ao seu compositor e tem uma empresa de limpeza de grafitis em Kana, na Turíngia. De dia Fabian elimina grafitis nas cidades com o patrão, que utiliza para com ele violência, mas a quem Fabian dispensa uma subserviência por o ter tirado do orfanato, nos tempos livres ensaia Bach e convive com os vizinhos que se afeiçoam a ele, apesar de detestarem o patrão. Köhler, um meteorologista, explica a Fabian que o universo se gerou de um defeito de simetria pelo excesso de uma partícula de matéria face às de antimatéria, este deduz que um novo acidente de partículas pode destruir o universo e começa a escrever compulsivamente, como Herscht 07769, à chanceler Angela Merkel para ela agir, mas surgem grafitis de lobos nos imóveis associados a Bach, exasperando Boss, até que lobos reais atacam na cidade, o pânico instala-se, atentados bombistas surgem e o bom Fabian cruza-se com provas que o levam a agir fria e metodicamente.
À semelhança de Énard, Krasznahorkai escreve este romance num único parágrafo, as frases surgem como pinceladas sucessivas e montam o dia a dia de Herscht, de Boss, dos amigos e da cidade, bem como as ideias de cada um, de Kana, da Turíngia e da Alemanha. Boss é um grande utilizador de calão que é sempre abreviado por consoantes que permitem deduzir o vernáculo usado e a trama evolui lentamente, com ações repetitivas, mas o tom satírico alivia o marasmo da primeira metade do livro que desalenta a leitura, na segunda, surgem momentos de grande vivacidade, perseguições como cenas policiais que mostram a versatilidade desta escrita.
A obra parece uma sátira dos medos da sociedade contemporânea europeia, habituada às conveniências de delegar a estabilidade social e o bem-estar no poder político, quando os verdadeiros males estão ao lado e nos passam despercebidos, até que estes despertam e tudo se desfaz. Não é um livro fácil de ler, sobretudo até atingir um ritmo vertiginoso que o tornam num thriller com uma escrita emaranhada que flui para um final surpreendente.
sábado, 15 de novembro de 2025
"Solitária" de Eliane Alves Cruz
terça-feira, 11 de novembro de 2025
"O último Avô" de Afonso Reis Cabral
Há já algum tempo que tinha curiosidade em descobrir os dotes de escrita deste descendente direto de Eça de Queirós, tive interesse nalgumas obras dele mas não cheguei a comprar, talvez por serem obras baseadas em personagens reais e temia serem deprimentes, mas desta vez fiquei desperto mal este romance saiu: "O último avô" de Afonso Reis Cabral.
Augusto Campelo é um escritor idoso reconhecido, mas de grande prepotência em família. Este decide queimar o manuscrito do que talvez fosse a sua obra magistral sobre o seu passado longínquo na guerra de Angola, o seu neto Augusto, seu grande admirador e que lhe segue as pisadas, é chamado, mas pouco depois o avô morre e deixa-o testamenteiro do seu legado. Começa a busca da provável existência de um original escondido em casa, vêm-lhe à memória o que o velho lhe contara sobre África, as recordações sobre sua mãe há muito morta que fugira para se libertar da força do pai que admirara e conhecera as narrativas da guerra. Recorda-se do papel da avó de equilibrar a força do marido, o peso social do sucesso e as tensões familiares . A morte do autor leva a novas pressões do mundo literário, da amante do avô e dos familiares sobre o que estaria no manuscrito e a necessidade de o publicar. Será que África teria assistido a um herói ou um carrasco que destruiria o bom nome que ao neto cabe proteger.
Afonso Reis Cabral não é uma réplica do seu trisavô, aliás a necessidade de alguém ser igual a si próprio e não uma cópia de um génio familiar é magnificamente trabalhada no romance. Escrito e narrado num estilo atual, o autor escreve bem, o romance cativa logo no início, depois entra-se num labirinto de memórias que cruzam três gerações, lugares diferentes e realidades distantes que no fim se entroncam num final surpreendente, cheio de revelações que mostram a distância que pode existir entre a imagem de um génio e a sua personalidade.
Fácil de ler, gostei e recomendo a qualquer tipo de leitor.
sábado, 1 de novembro de 2025
"Sensibilidade e Bom Senso" de Jane Austen
Acabei de ler "Sensibilidade e Bom Senso" da escritora inglesa do início do século XIX Jane Austen, apesar de se situar entre os escritores mais importantes daquele século, esta foi a minha obra de estreia na autora.
Eliane e Marianne são duas irmãs de comportamento distinto, a primeira racional ou sensata e a segunda romântica ou sensível, vivem com os pais, só que por morte do progenitor a casa e o dinheiro passam a pertencer maioritariamente ao meio irmão mais velho como primogénito. Este encontra-se casado com uma mulher ciosa da herança do sogro, o que leva a madrasta e suas filhas a terem de partir para outro condado para uma casa mais em conta e a uma gestão apertada dos rendimentos. Eliane tem uma paixão mal disfarçada pelo cunhado do irmão que também não assume o seu amor por ela, mas ambos mantêm o relacionamento num estado de letargia escondido dos olhos sociais. Marianne conhece Edward por quem se apaixona perdidamente e este também exibe a sua paixão, ambos de forma descuidada, enquanto outro vizinho mais velho nutre um amor por esta de forma discreta. Entre gestão de interesses de riquezas por casamento, traições, confusões e gestão racional ou irracional de paixões, a situação complica-se, sobretudo para Marianne, enquanto Eliane traz o bom-senso e cuida da irmã, mas quando tudo parece perdido a razão mostra-se superior para um inesperado final da obra.
A obra faz um retrato da época e da vida dos estratos sociais médio-alto a alto, em que a racionalismo e o romantismo estão em confronto, quando as mulheres estão fortemente dependentes dos maridos, numa classe onde os casamentos eram frequentemente por interesse e o amor pouco contava na família para este tipo de união.
Uma escrita lúcida, elegante, mais descritiva do que criativa e fortemente temperada pelo ângulo feminino, numa época em que ser mulher e escritora era praticamente impossível e só concretizada por alguém que pela sua qualidade narrativa e tato conseguiu se impor no panorama cultural, pela sua genialidade de retratar tensões de conveniência social, sensibilidade e de moralidade, bem como a arte de sobrevivência em sociedade. Gostei, apesar de ser uma obra datada, centrada no feminino e apenas nos estratos sociais mais altos.
segunda-feira, 13 de outubro de 2025
"Aventuras de Sherlock Holmes" de Arthur Conan Doyle
Neste caso, confesso, que o título induziu-me em erro, pois pretendia comprar as histórias curtas mais antigas com este detetive, pois estas foram sendo publicadas avulso na revista "The Strand Magazine" e depois reunidas, cronologicamente, em conjuntos de livros, onde os primeiros ficaram numa coletânea com o título "The Adventures of Sherlock Holmes". Apesar da semelhança no título, este livro seleciona 7 dos 13 contos do terceiro volume que possui o título original "The Return of Sherlock Holmes" que possuo com o nome de "O retorno de Sherlock Holmes", que ainda não li, duma diferente editora e tradução distinta.
Apesar desta confusão, os sete contos são todos eles cativantes, sendo que neste se encontra "A aventura da casa vazia", onde se narra como Sherlock Holmes sobreviveu ao conto anterior "O Problema Final" no qua se deduzia da morte do detetive e fechava a coletânea com o nome "As memórias de Sherlock" Holmes" que consta do livro aqui falado no neste blogue.
Histórias fáceis de ler, bem construídas, com mistérios e crimes desvendados pela argúcia do poder de observação de Sherlock Holmes", faltam-me ler agora os restantes contos contidos em "O retorno de Sherlock Holmes".
















