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sábado, 10 de junho de 2023

"Entre dois Palácios" de Naguib Mahfouz

 

Citação
"É impossível escapar a uma desesperança insondável"
" A fé é mais forte que a morte e a morte é mais nobre do que a humilhação."

Neste momento estou numa fase de forte redução do tempo disponibilizado à leitura, pelo que, levei dois meses e meio a ler as 609 páginas do romance "Entre os Dois Palácios", o primeiro da denominada "Trilogia do Cairo", escrito pelo autor egípcio, laureado com o Nobel da literatura, Naguib Mahfouz.

Este romance conta a vida dos membros da família Ahmad Abdel Gawwad, composta pela subserviente segunda mulher e os cinco filhos dele durante o período da I Grande Guerra Mundial  e vai até à revolução de reivindicação da independência do Egito. Um período de transição em que o país está ocupado pelo ingleses e os Turcos do império Otomano já deixaram o território e a nação muçulmana anseia por se libertar da tutela estrangeira cristã.

O líder da família é um importante comerciante influente e respeitado no seu bairro, mas tem duas personalidades: a primeira gere a família com um feroz conservadorismo e obediência à fé muçulmana, retém em casa a mulher e filhas sem qualquer contacto social e impõe aos filhos uma obediência cega às suas diretrizes e apesar de dois deles serem maiores tal não impede o uso da violência física e psicológica. A segunda personalidade é a de um dissoluto com mulheres, apaixonado pela música e poesia e viciado em álcool.

Apesar do terror imposto por sayyed Gawwad, os elementos da família tendem a desobediências e a esconder esses factos, desde o primogénito filho de um primeiro casamento que segue as pisadas do pai na sua vida fora de casa, a uma filha demasiado agressiva na linguagem e a outra de excecional beleza que se quer mostrar, passando pelo idealista Fahmi com ideais políticos de participação na revolução e ainda criança a Kamal que inocentemente desrespeita as regras e se torna mascote de ingleses que ocupam a rua. Exceção para a subserviente mulher, que apenas por um deslize aliciado pela família será alvo de um castigo desproporcionado.

O romance, ao retratar a intimidade desta família, inclusive o pensamento das suas personagens, mostra a cultura egípcia, a mentalidade tradicional das suas gentes, o peso da religião islâmica nas relações humanas e na formação da personalidade. Não faz julgamentos sobre o certo ou o errado de forma evidente, mas ao salientar a hipocrisia, põe a nu uma sociedade patriarcal onde a mulher não é livre, nem tem voz, mas também onde esta inclusive não só aceita essa secundarização, como até se choca com outras que têm maiores liberdades.

A situação também está evidente na tradição dos casamentos negociados pelos mais velhos e não por escolha pessoal dos envolvidos, da imposição do patriarca aos filhos, além das formas como certos personagens contornam a imposição religiosa e moral mantendo as aparências social, sem omitir a exposição do caminhada para a independência deste povo dominado por estrangeiros. O romance mais do que denunciar, serve para reflexão do leitor e compreensão das diferenças culturais entre ocidente e o médio oriente islâmico.

Com numerosas referência ao Corão está-se perante uma narrativa que junta uma trama e informação histórica, com textos, por vezes, com parágrafo muito extensos intercalados com diálogos, onde há um uso de metáforas bem distintas das que podem brotar na cultura ocidental. Um excelente romance que desperta interesse para a continuidade da leitura dos volumes seguintes para completar a saga familiar e compreender a história do Egito na primeira metade do século XX.

sábado, 11 de agosto de 2018

" As cores da Infâmia" de Albert Cossery

Excertos
"É isso mesmo que te reprovo. Não há nada de mais imoral do que roubar sem riscos. É o risco que nos diferencia dos banqueiros e dos seus émulos que praticam o roubo legalizado com cobertura do governo."

"A verdade não tem nenhum futuro, ao passo que a mentira é portadora de grandes esperanças."

"Fica sabendo que a honra é uma noção abstracta, inventada como sempre pela casta dos dominadores para que o mais pobre dos pobres possa orgulhar-se de possuí-la."

Albert Cossery, um egípcio que escrevia em francês, tornou-se num dos meus autores de eleição pelo seu humor sarcástico nos seus pequenos livros, o seu elogio manha como arte de sobrevivência dos mais desprotegidos ou pelo elogio irónico dos defeitos humanos e da sociedade.
"As cores da infâmia" não me desiludiu, faz uma crítica acérrima da diferença no modo de roubar dos fracos e dos poderosos e como frequente nas suas obras, a presente romance também decorre no Cairo, com as personagens principais a viver na pobreza.
Ossama é um jovem pobre que aprendeu que pelo trabalho honrado não sairia da miséria, teve um mestre que o ensinou a ser carteirista e como autodidacta aperfeiçoou o seu ofício, vestindo-se bem para poder selecionar ricos sem levantar suspeitas. Após a espreita e o seu último roubo na carteira da vítima há uma carta de um empreiteiro de construção onde se vê tática de ganhar muito a comercializar edifícios sociais frágeis com risco para os moradores pobres, tudo isto em conluio com um irmão de  ministro o que permite viabilizar a estratégia.
Que fazer com este achado num país onde jornais, poder e corruptos formam uma teia difícil de romper e passar a denúncia? Terá de pedir conselho ao seu mestre e este a um escritor que ex-presidiário pela denúncia de atos políticos num livro, mas que se tornou num génio de se divertir com o cinismo das pessoas em sociedades em todos os estratos.
Divertidíssima a forma como Cossery brinca com os males da sociedade tornando-os em deliciosas guloseimas virtuosas nos seus romances. Adorei.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

"Os mandriões do vale fértil" de Albert Cossery


O romance "Os mandriões do vale fértil" do egípcio francófono Albert Cossery narra de forma irónica e sarcástica o estilo de vida de uma família que vive numa povoação dos subúrbios de uma cidade cujo pai incutiu nos três filhos o orgulho de ser de classe burguesa sem necessidade de trabalhar e a virtude que é passar o tempo a dormir sem necessidade de se misturar com a restante sociedade onde imperam os perigos daqueles que têm de trabalhar para sobreviver.
Assim conheceremos o filho que apenas acorda para comer e outras funções biológicas que ainda por vezes pede ajuda para não ter de sair da cama, o outro que desistiu do amor para que o descanso não fosse perturbado pela obrigação de chefe de família do terceiro que visita uma fábrica inacabada para justificar a impossibilidade de satisfazer a sua vontade de arranjar trabalho e as estratégias para impedir que o pai velho volte a casar devido às perturbações que tal traria ao ócio, bem como as pessoas que circundam este núcleo.
À semelhança dos dois anteriores que li, eis outra pérola literária, uma pequena obra com uma ironia requintada e inteligente onde a preguiça é elevada a um estatuto social só acessível a alguns perante a banalidade dos desprezíveis e perigosos humanos que têm de trabalhar. A obra ainda toca de forma sarcástica noutros comportamentos que a sociedade do politicamente correto contemporâneo sacraliza, tudo isto feito com um humor e qualidade de escrita e se percebe o grande prémio literário da francofonia pelo conjunto da obra atribuído pela França a este egípcio que preguiçosamente se estabeleceu por décadas num hotel de Paris. Adorei e não conseguia parar.

domingo, 8 de maio de 2016

"Mendigos e Altivos" de Albert Cossery


"Mendigos e Altivos" do escritor egípcio Albert Cossery, de expressão francófona e galardoado com o grande prémio da francofonia em 1990, desenrola-se no meio que o autor usa na generalidade das suas obras; os bairros pobres e árabes do Cairo, e, como norma, utiliza a ironia e o sarcasmo, para não só criticar o mundo, como ainda evidenciar a dignidade dos miseráveis, mas cultivando um estilo de permanente humor, mesmo na descrição das situações mais sórdidas em que os seus personagens vivem nas margens do setor europeizado da cidade.
Gohar, um professor universitário e de grande sabedoria cultural, abandonou o seu meio para viver miseravelmente como mendigo e fumador de haxixe no seio do bairro árabe pobre, onde encontra a sua paz no seio de gente excluída, mas que não se deixa enganar pelo sistema, surgem ainda os discípulos das suas ideias e exerce a contabilidade de um bordel. Por impulsão torna-se assassino de uma prostituta e começa então a investigação por um chefe de polícia inquieto, infeliz e pederasta, mas culto, vindo do mundo institucional, desfila então um conjunto de personagens cheias de sabedoria e sobreviventes da injustiça, mais ou menos felizes, mas em paz consigo mesmo que são os amigos e conhecidos do professor que mostram ao chefe do inquérito os valores e as razões do orgulho das suas vidas.
Um excelente romance magnificamente escrito e cheio de bom humor, que mais do que denunciar as injustiças e a desigualdade, mostra o amor próprio e a felicidade que pode alastrar nos excluídos em contraste com um mundo moderno hipócrita, opressivo e infeliz dos integrados na sociedade. Tal como o primeiro livro deste escritor que aqui falei, novamente gostei muito e recomendo a qualquer leitor e Albert Cossery é sem dúvida um autor que merece ser conhecido de todos.

sábado, 12 de abril de 2014

"O Quarteto de Alexandria" - Romance 4 - "Clea" de Lawrence Durrell


Terminei de ler "Clea", o último dos romances que constituem a tetralogia sobre Alexandria no período anterior e durante a 2.ª Grande Guerra Mundial escrita por Lawrence Durrell . A versão que li encontra-se reunida num único volume editada pela Dom Quixote  que mostro na imagem acima.


À semelhança dos dois primeiros romances, Clea volta a ter como narrador principal Darley: um professor, escritor, espião e diplomata inglês que escreve as suas memórias de Alexandria e do seu círculo de amigos, dominado por estrangeiros cultos e alta sociedade copta na cosmopolita cidade.
Se os anteriores volumes são ângulos diferentes das mesmas personagens e acontecimentos em grande parte sincrónicos antes da guerra, Clea fecha este quarteto já durante e no pós-conflito, permitindo assim neste andamento, justificar, fechar e completar o ciclo iniciado em Justine e prosseguido nos seguintes romances e levar-nos ao resultado final das paixões, traições, amizades e políticas antes relatadas e dar o retrato global da vida daquela urbe egípcia numa época específica e onde Durrell foi diplomata.
Apesar de ser uma espécie de epílogo dos romances anteriores, não deixa de nos dar novos ângulos e de mostrar que cada pessoa é o somatório de personagens, onde cada indivíduo apenas constrói uma das suas facetas mas que se pode desfazer ou alterar-se no tempo à medida que se reúnem os dados vindos aqueles com quem convivemos e conhecedores de dados distintos daqueles da verdade que construímos.
Já no fim deste magnífico quarteto, cujo primeiro volume inicialmente se estranha, e ao investigar este surpreendente escritor, percebi por que na sequência desta tetralogia chegou mesmo a finalista do júri do Nobel em 1962... ano da vitória de Steinbeck.

terça-feira, 8 de abril de 2014

"O Quarteto de Alexandria" romance 3 - "Mountolive" de Lawrence Durrel


"Mountolive", de Lawrence Durrel, gira em torno da carreira do diplomata homónimo, uma personagem pouco abordada nos anteriores volumes e tornando-se no protagonista do terceiro volume e ocupa o lugar do escritor como narrador das anteriores histórias de "O quarteto de Alexandria" e onde além do desenrolar da sua paixão a trama vai desembocar num romance de espionagem e guerrilha política no seio de Alexandria com as principais questões do médio oriente ante II Grande Guerra e que vem a colocar as várias personagens amigas e adversárias nos tomos anteriores agora em campos inimigos ou aliado, evidenciando assim novos interesses obscuros que estavam por detrás das relações de amizade, luxúria  e amor que antes foram explorados de uma forma mais emocional sem esta perspetiva.
Passado só em parte em Alexandria, a obra estende-se por outras partes do Egito e até do mundo e mostra de uma forma mais profunda a cultura copta e as suas preocupações de sobrevivência, bem como a sobreposição dos interesses políticos à amizade nas relações humanas a coberto de uma hipocrisia fria que governa a diplomacia.
É um romance cujo enredo é quase independente das tramas anteriores e com uma estrutura romanesca mais acessível e linear, embora várias situações se cruzem sincronicamente com acontecimentos antes descritos e nos mostre uma nova perspetiva e interpretação dos mesmos e cada vez mais esta tetralogia vai crescendo não só em dimensão, mas em riqueza literária do conjunto e evidenciando a multiplicidade de um indivíduo como pessoa.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

"O Quarteto de Alexandria" Romance 2 - "Balthazar" - Lawrence Durrell


O segundo volume da tetralogia "O quarteto de Alexandria" de Lawrence Durrell: "Balthazar"; é um magnífico exercício literário onde se coloca em dúvida a visão do escritor transposta para os seus livros com base em personalidades conhecidas e mostra uma realidade diferente da opinião antes contada pelo autor na sua ficção, isto com base numa abordagem crítica de uma das personagens do primeiro romance ao próprio conteúdo deste e às descrições e interpretações nele contidos pelo autor.
Neste romance, que não deve ser bem compreendido sem a leitura do anterior, quase não existem repetições de acontecimentos do primeiro volume, mas ocorrem outros que servem de reinterpretação e adequadamente relacionadas com o descrito na primeira versão. Existe ainda a introdução de algumas novas personagens ou o aprofundamento de algumas anteriormente conhecidas, o que leva a uma reanálise de "Justine" e no meu caso a ressaborear este livro com novo gosto mesmo depois de o ter lido.
Além de em "Balthazar" e com novos olhos se retomarem as temáticas de "Justine", é igualmente interessante a descrição de Durrell das tradições culturais urbanas da elite de Alexandria, como o seu Carnaval, e do Egito rural e da paisagem que cerca a cidade no tempo anterior à II Guerra Mundial.
"Balthazar" é assim um exercício literário que é um o romance sobre o papel do seu autor na interpretação da realidade, sem cair na frieza de ser um ensaio e mantendo uma trama ficcional viva e interessante.

segunda-feira, 31 de março de 2014

"Quarteto de Alexandria" - Romance 1 - "Justine" de Lawrence Durrell




Acabei de ler o primeiro romance da tetralogia "O quarteto de Alexandria: Justine" de Lawrence Durrell passado na cidade do mesmo nome no período ante-guerra e com o Egito sob o domínio britânico, não um volume separado como na imagem deste artigo, mas num livro único apresentado na coluna da esquerda.
Alexandria era então um centro cosmopolita onde se cruzavam as culturas mediterrânicas: a local árabe e as estrangeiras grega, judia, síria, francesa e a da potência dominante que viviam num mundo onde acima da miséria dos autóctones partilhavam lutas de política, amor e ócio.
O protagonista, um professor inglês que viveu nesse mundo conta as suas memórias com as personagens com quem estava mais próximo e reflete sobre as mulheres por quem se apaixonou e os vícios em que estas relações imergiam: o ciume, as obsessões pelo objeto amado, as dissertações de como os segurar, as infidelidades consentidas e não, a prostituição, a homossexualidade e a diplomacia entre as partes. Tudo isto, embora num estilo de escrita diferente, fez-me lembrar Proust, mas menos profundo na análise dos temas e dos valores. Gostei da forma como Durrell se serve de Justine para através do seu carácter descrever a cidade de Alexandria.
Por agora a prosseguir para o segundo romance Balthazar, personagem já conhecida em Justine.

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

"Miramar" de Naguib Mahfouz

Editora Civilização

Conclui a leitura de "Miramar" do único escritor em língua árabe galardoado com o prémio Nobel da literatura até ao presente, neste caso de nacionalidade egípcia. Escolhi este livro com o objetivo de através desta forma de arte tentar compreender melhor a sociedade deste País.
O romance passa-se na década de 1960 e descreve, nos vários capítulos e na primeira pessoa, a vida por um curto período de quatro clientes egípcios ocidentalizados residentes na pensão Miramar, onde todos ficam fascinados pela criada jovem, bonita, rural e honesta com ambições à modernidade.
Assim, o relato daqueles dias é repetidamente exposto pelos olhares diferentes de cada um dos clientes as respetivas tentativas de a proteger ou de a seduzir, atitude posto em contraste com a pureza ética da jovem face aos interesses individuais destes hóspedes que desenvolveram vícios de sobrevivência numa sociedade em mudança devido à revolução em que o Egito passou do domínio britânico para a esfera dos ideais socialistas, período conturbado e vulnerável às ambições dos arrivistas oportunistas e da resistência dos saudosistas nacionalistas e onde cada um tenta tirar proveito próprio do novo ciclo face às suas origens.
A trama e as várias visões estão bem entrecruzadas, a escrita é fácil, embora os recurso a recordações sobre o passado político do País e a cultura islâmica por vezes tenham levado o tradutor a explicações em nota de rodapé para melhor entendimento do leitor, o estilo literário parece ocidentalizado, pelo que se torna numa obra fácil e dá uma visão do comportamento de uma franja social de cidadãos egipcios que vivem ocidentalmente numa sociedade conservadora, oriental, islâmica e indecisa entre dois mundos culturais. Gostei.