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sexta-feira, 18 de setembro de 2026

"As crónicas de Explosão" de Yan Lianke

 
Estreei-me no escritor chinês, Yan Lianke, com o seu romance "As Crónicas de Explosão". Explosão é uma aldeia remota (ficcionada), situada na encosta de uma montanha. Yan Lianke, o filho da terra que, por ser um escritor famoso, foi contratado para pôr em crónica a história de Explosão, mas que aceitou na condição de escrever livremente e à sua maneira (crítica e sardónica). 
O cronista mostra o papel dos protagonistas que em 50 anos fizeram que Explosão tenha sofrido uma explosão económica e demográfica, passando de uma pequena aldeia de província, numa metrópole de milhões de habitantes e com um potencial económico e industrial comparável ao de Pequim e Xangai. 
As crónicas começam a apresentar as origens pré-históricas do local, os protagonistas e a cronologia da publicação, onde fica claro que a narrativa foi rejeitada por quem a encomendou, penalizando o escritor com a sua desnaturalização e apagamento da história, evidenciando logo o teor crítico do livro.
Kong Dongde, avisado num sonho, envia os seus 4 filhos a descobrirem para que estão destinados mandando-os a uma saída noturna e a identificarem o primeiro objeto que encontrarem. Estranhamente todos pais em Explosão tiveram o mesmo sonho e deram a mesma ordem. Kong Mingliang, além de encontrar algo que prova que será o futuro líder de Explosão, cruza-se com a filha do rival do pai: Zhu Ying. Arranca assim a evolução daquele povoado em resultado das ligações de amor, ciúme, ódio rivalidade, prostituição, compadrio, corrupção e ambição de poder desmedida na família Kong.
A narrativa, sempre num tom crítico e de ironia inteligente, é uma intricada teia de vontades, corrupção, prostituição, sedução por dinheiro e sexo, tráfico de influências e iniciativas cujo objetivo é levar ao topo a força e a capacidade de Explosão de vencer na China e perante o Mundo, torna-se assim numa réplica da ascensão do próprio País com exposição dos defeitos e o calcar dos valores e da história, mas reconhece o engenho e capacidade de liderança sobre o povo para alcançar os objetivos comuns traçados para vencer.
A narrativa apoia-se ainda num estilo onde plantas, animais, geologia e meteorologia dão sinais de solidariedade e obediência conformes com a força dos sentimentos, das tensões e das intenções dos protagonistas, metamorfoseando-se em sintonia com os momentos narrados, estilo que se intensifica ao longo do romance. Género literário que no fim Yan Lianke explica no fim e designa de "mitorrealismo", este parece-se com o realismo mágico da América Latina, mas mais intenso e hiperbólico.
Talvez por esta fusão do mitorrealismo com crónica familiar e de uma geografia rural longínqua da civilização, a obra faz recordar "Cem anos de Solidão", onde a dinastia Kong lembra a saga dos Buendía e Explosão é a nova Macondo, embora a qualidade da narrativa não me pareça tão constante e equilibrada ao longo de toda a obra como na de Marquez, mas talvez isto resulte do modo de transpor o texto literário de chinês para um língua tão distante como o português.
Surpreendeu-me muito como o escritor, através de uma linguagem sardónica, expõe feridas no sucesso económico da China ao longo do último meio século, dentro de um País onde a liberdade de expressão não é considerada existente e até consegue brincar com isso! Verdade que não esconde a importância do foco nos objetivos deste Povo e o sucesso e a rivalidade chinesa com os Estados Unidos da América. Na biografia de Yan Lianke pela internet constam alguns problemas que tem tido de enfrentar no regime em que vive. Este romance mostra o valor da China, as feridas do seu progresso acelerado e ainda que esta tem escritores de excelência que devem ser lidos e conhecidos no Ocidente.
Eis um grande romance de um autor que tem uma obra vasta, com várias temáticas e vários prémios literários.

domingo, 23 de agosto de 2026

"Extinção" de Kazuaki Takano

 

Excerto

"Todos os humanos desejam magoar o próximo para lhes arrancar a posse de alimentos, recursos e terra. Projetamos as nossas verdadeiras ideias nos nossos inimigos, tememo-los e atacamo-los. E, ao usarmos de violência contra os outros, a nação e a religião tornam-se os sistemas de suporte que perdoam as nossas ações. Os nossos feitos maldosos passam a ser defensáveis, porque consideramos estranhas as pessoas fora desse enquadramento. O inimigo."

Acabei de ler um romance de suspense do japonês Kazuaki Takano "Extinção" que requisitei na Biblioteca Pública da Horta e laureado com vários prémios de ficção criminal e mistério.

Um mercenário, com um filho a morrer de uma doença genética, deixa-se contratar para conseguir dinheiro para um especialista da doença em Lisboa o salvar, junto com ele, mais 3 outros mercenários, missão: eliminar um grupo nómada na floresta do Congo que dizem estar contaminado por um vírus letal para a humanidade; enquanto isto, vários investigadores no Japão estão empenhados na descoberta da substância que cura o defeito do gene, só que o núcleo do Presidente dos Estados Unidos supervisiona e manipula estas situações para esconder desumanidades e eliminar uma ameaça aos seus interesses pessoais e nacionais.

Apesar de a história ser um ficção e ter uma componente de especulação científica com o aparecimento de seres sobredotados de inteligência, o romance parece ser uma denúncia da presidência de George W Bush, embora com um heterónimo, pelo que aquilo que me parecia ser apenas uma obra de suspense para ler no verão, tornou-se num texto de ação vertiginosa, com momentos de exposição da grande violência que existe no centro de África e reflexões sobre o egoísmo na espécie humana, a tendência para a guerra e com um grande enfoque no abuso do poder dos Estados Unidos contra vários povos sem qualquer escrúpulo e no desrespeito total das pessoas.

A narrativa é muito cinematográfica e, apesar de toda a crítica e reflexão sobre a violência na espécie, cativa o leitor e gostei e entusiasmei-me muito, mas, ao contrário dos filmes de Hollywood, neste romance os Estados Unidos e o seu poder são mesmo maus na fita, agentes manipuladores, extremamente cruéis e hipócritas na civilização global, mas também a espécie humana é alvo de grande suspeita na sua bondade... a obra é anterior aos mandatos de Trump.