terça-feira, 29 de setembro de 2020

"O Mundo de Ontem" de Stefan Zweig

 

Acabei de ler, em formato e-book mas disponível em suporte de papel, o livro de memórias "O Mundo de Ontem" de Stefan Zweig. Judeu, austríaco, autor de largas dezenas de novelas em que explora as situações extremas a que podem levar as tensões dos sentimentos de que muito tenho gostado, escreveu também várias biografias de investigação sobre personalidades históricas que admirava. Considerava-se cidadão do mundo e fugiu do país natal com a ascensão do nazismo e teve como último refúgio o Brasil.
Nesta obra Zweig começa por enquadrar a sua família judia no contexto do centro leste da Europa, o modo como a comunidade a que pertencia se integrava e dinamizava a sociedade de então e faz um retrato da mentalidade coletiva da época onde os seus ascendentes enriqueceram.
Seguem-se as memórias da sua infância na cidade de Viena, a vida nesta, os seus deslumbramentos pela atividade cultural desta capital, sobretudo patrocinada pelos judeus, os preconceitos e os tabus morais de então, usando uma língua que em simultâneo mostra compreensão e crítica aspetos ultraconservadores que hoje nos chocam. Zweig encontrou-se com líderes culturais do teatro à literatura que lhe estenderam a mão e tal possibilitou a entrada no mundo do pensamento, teatro, literatura e dos jornais tendo então e viajado por numerosos países europeus, América e Ásia sempre a encontrar-se com os pensadores que admirava e almejava compreender. A sua lucidez nunca o impediu de ver os riscos do alheamento e da crença no sucesso do mundo que se vivia na Áustria e na Europa que ignorava as ameaças que conduziram à primeira grande guerra e a uma mudança de mentalidade de todo Continente.
No pós-guerra, mais amadurecido e já reconhecido como um dos grandes pensadores da época, Zweig integra-se na comunidade de filósofos e escritores defensores de uma Europa unida, supranacional e em prol do desenvolvimento fraternal da humanidade, assim fala com alguns dos grandes líderes culturais do velho Continente, volta a viajar pelo mundo, apercebe-se das loucuras dos anos vinte, das mudanças exacerbadas das mentalidades, dos extremismos que a cultura e a moral estavam a seguir e das dificuldades das populações nos Estados derrotados. Esteve ns União Soviética sem se deixar enganar pela propaganda e cedo temeu a ascensão dos nacionalismos e extrema-direita no ocidente. Insistiu em denunciar a situação, contou com a colaboração de grandes pensadores e com Hitler a tomar o poder viu a sua obra ser proibida e a premonição levou-o a fugir para Inglaterra e a tornar-se pária, mas ficou cidadão de Estado inimigo quando da guerra, Compreende-se então, mas não conta, o exílio no Brasil. Deixa claro que teve esperança que a América Latina fosse o fiel depositário dos valores humanitários que brotaram da Europa que se a suicidava em nome de ideologias destrutivas.
Não sei, talvez porque no exílio tenha compreendido que o Brasil não iria continuar o seu sonho de um mundo supranacional e humanitário ligado aos valores fraternais por que lutata suicidou-se pouco depois de terminar estas memórias.
Na realização dos retratos da época, exposição dos pensamentos do autor, forma de ser dos povos e o evoluir destes ao longo de meio século, bem as esperanças e desilusões das gentes, a análise crítica de Zweig é escrita com uma perfeição tal e com uma capacidade de síntese enorme, que ele próprio explica, que deslumbram e dão uma vida à narrativa que parece estarmos a viver o que ele viveu, as suas alegrias e tristezas vistas na primeira pessoa. Vale mesmo a pena ler este livro para conhecer o mundo de ontem e, sobretudo, ver e comparar com o presente para compreender melhor o mundo de hoje e as ameaças que nos estão a cercar. Muito, muito bom mesmo.

sábado, 26 de setembro de 2020

"FANNY OWEN" de Agustina Bessa-Luís

 
EXCERTOS
"A amizade não proíbe a ingratidão da lucidez."
"O amor não é senão uma cristalização do desejo."
"As calunias fáceis são obra de desejos infecundos."

Acabei de ler o romance "Fanny Owen" de Agustina Bessa-Luís, baseado num caso real, com personagens históricas e ocorrido em meados do século XIX na cidade do Porto. Segundo o prefácio da autora, esta obra surge na sequência do convite para fazer os diálogos do filme "Francisca" de Manuel de Oliveira. Contudo, lendo-a, é fácil ver que este livro não é a montagem desses diálogos.
José Augusto é um jovem morgado rural que perdeu a mãe. É dado a uma instabilidade emocional sofredora e vive uma certa devassidão no Porto à sombra da amizade do escritor Camilo Castelo Branco. Nesta cidade vai conhecer as filhas Maria e Francisca (Fanny) de um militar escocês que casou em Portugal com uma mulher da corte de D. Pedro IV (I no Brasil) no Rio de Janeiro. Entre estes dois amigos e as duas irmãs vai surgir uma relação de amor, ciume, traição, escândalo público e um casamento, que Camilo, talvez por vingança, levará a uma tragédia. Pelo meio reflexões da guerra civil onde o escritor lutara ao lado da fação miguelista perdedora e o modo de Camilo sobreviver com as suas publicações nos jornais locais.
Agustina, como sempre nas suas obras, não faz uma narrativa linear, vai dissertando sobre a complexidade psicológica das personagens, as suas inseguranças, intenções e ações irrefletidas, o que vai intercalando com situações ocorridas no passado misturadas com pistas para o futuro da história que está a contar e o momento que está a relatar, tudo isto de uma forma labiríntica, pontuado por máximas que saem naturalmente da autora que deixa soltas no texto. Isto conduz à montagem de um "puzzle" ou à pintura de um quadro global esbatido entre as numerosas reflexões, considerações, possibilidades psicológicas e a história em si.
Neste conjunto de quatro protagonistas centrais tratados ao pormenor, Agustina faz um retrato maior de Camilo, disseca a personalidade do escritor mais profícuo do século XIX em Portugal, ela que é sem dúvida a escritora mais profícua do século XX neste País, gerando assim um choque de gigantes da literatura portuguesa, que faz faíscas, ao misturar admiração com abominação, reconhecimento de uma genialidade literária criativa com um agir maquiavélico destrutivo para os que lhe são contemporâneos. Um caso único nos numerosos livros que li.
Se nas obras de pura ficção Agustina arquitecta narrativas complexas que esboçam por detrás retratos da realidade, sobretudo, do norte de Portugal e da personalidade feminina; neste relato histórico, ela consegue espremer as possibilidades da realidade que a torna num esboço ficcional do que pode ter ocorrido e coloca Camilo com todas as suas contradições num estrato acima da mediania que o cercava. Gostei, para mim foi uma obra fácil de ler por gostar e estar familiarizado com o estilo, para outros poderá exigir esforço para seguir a direito este labirinto narrativo.


sábado, 19 de setembro de 2020

"CONTOS de Tchékhov" - Volume II - Anton Tchékhov

 


Penso que nenhum escritor é tão famoso pela obra contista como Tchékhov, uma das estrelas maiores da sublime literatura russa do século XIX, sei que escreveu centenas de contos e penso que estão todos publicados nesta coleção da Relógio d'Água com mais de uma dezenas de volumes. Não costumo falar da editora, mas são tantos os livros com narrativas dele que se não os referenciarmos podemos estar a falar de coletâneas completamente diferentes. Não sei o critério de distribuição dos contos nesta série, mas não é cronológica.
No volume II "Contos de Tchékhov" temos 11 narrativas, algumas com cerca de uma dezena de páginas e outras acima de 50, talvez só numa o desfecho é uma lição de moral, na sua maioria são relatos da personagens comuns acomodadas ou vítimas da vida, por vezes vivendo com dificuldades, noutras vencendo como oportunistas e há ainda os desiludidos e os indecisos, um conjunto de protagonistas que não são heróis diferentes da população em geral, mas todos são únicos e essa particularidade é tratada com mestria pelo contista.
Não sei russo para falar da escrita original, mas a tradução origina textos magníficos, ricos em vocabulário, inclusive de uso na época, e tratados com um cuidado que faz sentir dentro do leitor o frio da Sibéria, a injustiça da estratificação social, a fome do pobre, a modorra do ocioso ou indeciso, a esperteza do oportunista ou a fé e superstição do crente. Narrativas que transmitem reflexos multifacetados de uma jóia excelentemente talhada que me deslumbra e fazem o retrato do povo Russo à época, apesar de uma realidade bem diferente da de hoje podemos ver muitos casos similares no presente.
Vale a pena ler, isto é literatura no seu estado puro sob a forma de conto, gostei muito...

sábado, 12 de setembro de 2020

"Perry Mason e o caso do Gato Distraído" de Erle Standley Gardner

 

Depois de uma obra tão densa, seguiu-se um policial de puro entretenimento "Perry Mason e o Caso do Gato Distraído" do escritor norteamericano Erle Standley Gardner de quem lera várias obras na minha adolescência.

Helen recebe um telefonema do tio a solicitar um encontro secreto para trazer consigo o advogado Perry Mason, tio que desaparecera há 10 anos quando ela era adolescente, e será guiada por hóspede de um hotel, logo a seguir é avisada por sua tia que o gato está com convulsões, descobrindo-se no veterinário que fora envenenado. Mesmo assim, Helen encontra-se com o advogado, mas dá-se o assassinato do guia e ela, Mason com a sua secretária veem-se numa noite atribulada, onde Helen e o namorado quase são mortos, ocorrem desvios de testemunhas na competição entre a polícia e o advogado, acabando o caso no tribunal onde a perícia de Mason e o comportamento do gato levará à descoberta por ele da verdade que clara é diferente da teoria das autoridades.

A trama desenrola-se a um ritmo alucinante, num jogo de competição onde o advogado recorre a métodos estrambólicos no limiar da legalidade e por isso muitas cenas estranhas surgem sequencialmente, mas quando tudo parece perdido para Mason, ele consegue ligar todos factos de modo simples e ainda vencer.

A escrita em português é elegante e bem tratada, apesar de ser uma mera trama de entretenimento, suspense e onde várias explicações surgem de forma que nos surpreendem, lê-se bem devido ao ritmo dos eventos e dos métodos pouco ortodoxos do advogado e do seu sentido de humor. Gostei e é de muito fácil leitura.

sábado, 5 de setembro de 2020

"Os Sete Pilares da Sabedoria" de T. E. Lawrence

 

Acabei de ler um livro com cerca de 800 páginas que é em simultâneo um romance e um relato histórico real, memórias narradas e vividas pelo autor. Uma obra de grande sensibilidade e beleza de escrita literária e também um texto de reflexão sobre o que era o papel e a mentalidade das potências europeias sobre os outros Povos no início do século XX que se torna numa mensagem de respeito e tolerância pelas outras nações, suas culturas e religiões. "Os Sete Pilares da Sabedoria" é o relato da batalha da frente árabe durante a primeira guerra mundial, vista do lado dos árabes mas através dos olhos de um inglês ao serviço da Inglaterra, T E Lawrence, mais conhecido por Lawrence das Arábias na sequência da adaptação desta obra ao cinema. O autor teve como papel estudar e unir todos os povos da península arábica a Damasco numa identidade nacional para assim lutarem pela sua independência do império Otomano governado pelos turcos de Istambul, tendo no seu trabalho integrado a mentalidade dos povos a sublevar e assumido a personagem e comportamento árabe sem renegar a sua identidade de origem como modo a conseguir o respeito e confiança das mais variadas etnias árabes.

Lawrence encontra-se na embaixada no Egito durante a 1.ª Guerra Mundia sendo encarregue de procurar no seio dos árabes um líder para fazer aderir os povos do médio-oriente a uma causa contra os turcos aliados dos alemães. Parte para a península e entre as famílias dominantes da zona e entre vários contactos seleciona Faiçal da dinastia dos Hashemitas para liderar a sublevação com a promessa de posteriormente estes Povos puderem ter independência e estados com a liberdade dos europeus. Passa a integrar os militares da Faiçal e em paralelo dá início a uma guerra de guerrilha e cativa as tribo para o combate, viajando com os árabes adota os seus costumes, trajes e passa grande parte do tempo isolado dos ingleses. Mais tarde as suas vitória tornam as suas forças num braço armado autónomo mas a servir os ingleses na conquista da zona até Damasco, embora tenha a consciência que as potências europeias se vencerem não darão o estatuto de independência que considera justo. 

Brilhantemente escrito, é um relato de guerrilha, mas só na última centena de páginas assistimos a relatos de combates clássicos, o livros com várias viagens em território desértico descreve pormenorizadamenre a paisagem, o clima e a geologia da região, enquanto vamos descobrindo como são as tribos, a sua diversidade e mentalidade e os problemas de consciência de Lawrence, tão próximo sentimentalmente de Faiçal e dos seus chefes guerreiros com quem desenvolve uma amizade e respeito profundo. Uma edição que foi publicada por crowdfunding de potenciais leitores pela E-Primatur, na qual participei, um livro com várias imagens que me orgulho de ter contribuído para a sua publicação, apesar de extenso e do grande número de personagens e topónimos difíceis de decorar, apesar de vários mapas de apoio. A obra mais rica e importante que li nos últimos tempos. Uma obra-prima.