sábado, 5 de setembro de 2020

"Os Sete Pilares da Sabedoria" de T. E. Lawrence

 

Acabei de ler um livro com cerca de 800 páginas que é em simultâneo um romance e um relato histórico real, memórias narradas e vividas pelo autor. Uma obra de grande sensibilidade e beleza de escrita literária e também um texto de reflexão sobre o que era o papel e a mentalidade das potências europeias sobre os outros Povos no início do século XX que se torna numa mensagem de respeito e tolerância pelas outras nações, suas culturas e religiões. "Os Sete Pilares da Sabedoria" é o relato da batalha da frente árabe durante a primeira guerra mundial, vista do lado dos árabes mas através dos olhos de um inglês ao serviço da Inglaterra, T E Lawrence, mais conhecido por Lawrence das Arábias na sequência da adaptação desta obra ao cinema. O autor teve como papel estudar e unir todos os povos da península arábica a Damasco numa identidade nacional para assim lutarem pela sua independência do império Otomano governado pelos turcos de Istambul, tendo no seu trabalho integrado a mentalidade dos povos a sublevar e assumido a personagem e comportamento árabe sem renegar a sua identidade de origem como modo a conseguir o respeito e confiança das mais variadas etnias árabes.

Lawrence encontra-se na embaixada no Egito durante a 1.ª Guerra Mundia sendo encarregue de procurar no seio dos árabes um líder para fazer aderir os povos do médio-oriente a uma causa contra os turcos aliados dos alemães. Parte para a península e entre as famílias dominantes da zona e entre vários contactos seleciona Faiçal da dinastia dos Hashemitas para liderar a sublevação com a promessa de posteriormente estes Povos puderem ter independência e estados com a liberdade dos europeus. Passa a integrar os militares da Faiçal e em paralelo dá início a uma guerra de guerrilha e cativa as tribo para o combate, viajando com os árabes adota os seus costumes, trajes e passa grande parte do tempo isolado dos ingleses. Mais tarde as suas vitória tornam as suas forças num braço armado autónomo mas a servir os ingleses na conquista da zona até Damasco, embora tenha a consciência que as potências europeias se vencerem não darão o estatuto de independência que considera justo. 

Brilhantemente escrito, é um relato de guerrilha, mas só na última centena de páginas assistimos a relatos de combates clássicos, o livros com várias viagens em território desértico descreve pormenorizadamenre a paisagem, o clima e a geologia da região, enquanto vamos descobrindo como são as tribos, a sua diversidade e mentalidade e os problemas de consciência de Lawrence, tão próximo sentimentalmente de Faiçal e dos seus chefes guerreiros com quem desenvolve uma amizade e respeito profundo. Uma edição que foi publicada por crowdfunding de potenciais leitores pela E-Primatur, na qual participei, um livro com várias imagens que me orgulho de ter contribuído para a sua publicação, apesar de extenso e do grande número de personagens e topónimos difíceis de decorar, apesar de vários mapas de apoio. A obra mais rica e importante que li nos últimos tempos. Uma obra-prima.

7 comentários:

Pedrita disse...

não teria prestado atenção ao livro pelo título. e foi surpreendente. muito triste q a arte precise recorrer ao crowfunding para existir. q bom q tenham pessoas como vc q venham a investir em arte. fiquei curiosa pelo livro. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

Esta editora, com quem colaboro pontualmente, só edita obras esgotadas no mercado que são consideradas importantes pela sua qualidade, originalidade ou informação ou valor histórico, etc e colocadas à seleção dos interessados de modo a alcançar um número mínimo de apoiantes.
As Mil e uma Noites foram editadas integralmente novamente em Portugal por esta via, mas também há nesta editora autores de língua portuguesa, curiosamente, alguns destes livros, como é o caso deste, tornaram-se sucessos e já estão a ser reeditados.
Praticamente toda a gente conhece ou ouviu falar do filme "Lawrence das Arábias", mas conhecer a obra que serviu de base a tão premiado filme são poucas as pessoas, o que eu não sabia era que estava tão maravilhosamente escrito.

Kelly Oliveira Barbosa disse...

Muito interessante Carlos.

Carlos Faria disse...

Kelly
Como se diz em Portugal, este é um livro de outro campeonato, tal é a sua supremacia. São memórias romanceadas, tive um problema com a leitura devido ao grande número de nomes e de toponímias, eu que sou péssimo em os fixar e ainda por cima quase tudo nomes árabes que me soam parecidos. Mas é uma obra magnífica.

Maria disse...

Desde que vi o filme Lawrence of Arabia (há imensos anos) que ando para ler este livro... e ainda não consegui.
Bem, primeiro tenho que o comprar, e esta edição da E-Primatur parece-me a ideal.
Vamos lá a ver se é desta...
Desta editora já comprei livros da Virginia Woolf, da Natália Correia e do Mário de Sá-Carneiro.
🌿

Maria disse...

Carlos, volto aqui para fazer uma rectificação: os livros da Virginia Woolf e da Natália Correia são da Ponto de Fuga, uma editora cujos livros também dá gosto comprar.

Carlos Faria disse...

Penso que vale a pena esta leitura, mais memória que romance, mas a narrativa está romanceada sobre factos reais.