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sábado, 7 de junho de 2025

"O Problema Final" de Arturo Pérez-Reverte

 

Citação

"Tratando-se de seres humanos, nunca se deve atribuir à loucura o que se pode atribuir à perversidade"

Voltei ao versátil escritor espanhol Arturo Pérez-Reverte com a leitura do seu mais recente romance, agora de género policial: "O Problema Final" mas onde, intencionalmente, revisita o estilo de tantos livros clássicos do mesmo género da primeira metade do século XX.

Em junho de 1960, numa pequeníssima ilha grega, ao largo de Corfu e com apenas um hotel, ficam retidos nove hóspedes por questões meteorológicas, quando se dá a morte de uma destes, inicialmente parece um suicídio num quarto fechado, só que entre os presentes encontra-se Hopalong Basil, um dos principais atores de filmes de Sherlock Holmes na primeira metade do século que encarnou muito do caracter da sua personagem, bem como, um escritor com algum sucesso de livros policiais, provavelmente medianos e conhecedor da obra de Conan Doyle, que são indicados pelos presentes para tentar desvendar o caso, que assim assumem o papel da dupla Sherlock e Watson. Após o aparecimento de indícios cada vez mais evidentes do crime, dá-se uma segunda morte, novamente em quarto fechado e quando o círculo aperta, a terceira surge com evidências bem diferentes. Será que o ator de Sherlock por excelência conseguirá igualar a sua personagem? Uma obra com surpresas até às últimas páginas. 

Numa excelente qualidade de escrita, a obra do género policial, onde a sagacidade e minúcia de observação do investigador está acima do género negro mais recente, em que a violência da descrições, o suspense do ato seguinte se sobrepõem à frieza da análise que vai sendo exposta na narrativa e discutida entre protagonista e seu auxiliar, com abordagens à psicologia e numerosas referências e citações da obra de Conan Doyle, menções de casos de Agatha Christie, Gaston Leroux, Poe entre outros escritores policiais. Assim, resulta uma obra que permite muitos sublinhados de citações que, frequentemente, são referenciadas a outras obras

Por o protagonista ter sito um ator famoso de cinema, a obra fala de numerosas estrelas da sétima arte da primeira metade do século XX, bem como de alguns realizadores, fazendo assim memória e homenagem àquelas luzes da ribalta de há longas décadas que encheram as colunas sociais e hoje quase esquecidos fora dos historiadores desta arte. Igualmente é colocado em confronto numerosos aspetos da representação e a realidade ou a forma de narrar pela escrita, desnudando estratégias de encaminhar o leitor ou o espetador ao longo do romance mistério, tendo em vista engrandecer a capacidade do detetive ou prender o público.

Cativante sobre todos os ângulos, eis uma obra-prima literária no género policial clássico, sem deixar de ser de entretenimento, sendo também uma grande homenagem aos grandes autores deste mesmo estilo de obras e do cinema. Gostei muito é, sem dúvida, um livro muito bom.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

"Maus hábitos" de Alana S. Portero

Citações

"O medo que se passa no armário fabrica monstros a partir de sombras chinesas."
"Antes de conseguirmos definir-nos, os outros desenham os nossos contornos com os seus preconceitos e as suas violências."


Acabei de ler o romance estreia da escritora espanhola Alana S. Portero: "Maus hábitos", vencedor de vários prémios literários e um sucesso editorial naquele país.
O romance conta a vida de Alex pelos seus olhos desde criança, quando toma consciência que se sente mulher. Assim, fala do bairro pobre de Madrid onde vive, descreve uma juventude envenenada pela heroína, a vida de operários e domésticas com salários de miséria, famílias com violência doméstica tolerada pelas autoridades, prostitutas e travestis alvo de preconceitos e a sua tomada de consciência de que é diferente e precisa de tomar atitudes que a protejam da discriminação. Na adolescência, enquanto vai estudando, procura longe do bairro gente para relações, conhece o seu primeiro amor decepado pela intolerância, contacta com mulheres trans que a protegem até ser vítima de uma violência homofóbica. Fechada no armário, licencia-se, arranja emprego, mas vai necessitar do apoio da família e assim volta à origem até assumir a sua condição de transgénero já em pleno século XXI.
Apercebemo-nos por pormenores que Alex será o alter-ego da escritora e portanto a obra é quase uma biografia romanceada da sua sobrevivência numa Madrid desde os primeiros anos de democracia e liberdade, mas ainda dominada pela imposição dos costumes da ditadura.
O texto, cheio de metáforas e de imagens pouco comuns por mostrar uma perspectiva diferente da generalidade das personagens habituais na literatura, possui uma escrita sensível e terna, nunca erótica, mas há ações de violência física e psicológica sobre Alex, e muitas referências a artistas da década de 1980, menções de canções e filmes que moldaram a cultura daquela década e ligações as personagens da cultura clássica e da religiosidade popular. Saliento a ternura entre os membros da sua família, num permanente equilíbrio precário entre a incompreensão e a aceitação temperada pelo amor.
Literariamente é um livro bom, fácil de ler, sentimental e acessível a qualquer leitor livre de preconceitos ou para o ajudar a se libertar destes.

quinta-feira, 21 de novembro de 2024

"Os Enamoramentos" de Javier Marías

 

Regressei ao meu escritor fetiche dos últimos dois anos, o espanhol Javier Marías, com o romance "Os Enamoramentos".

Maria Doltz habituou-se a observar a felicidade de um casal durante o pequeno-almoço que assiduamente comia no mesmo café em que ela passava antes de se dirigir ao seu emprego, algo que fazia parte da sua rotina e motivador para melhor enfrentar o trabalho, só que o casal deixou de aparecer e pouco depois descobre o assassinato do marido. No reaparecimento posterior da esposa no café, ela entabula uma conversa de condolências, o que lhe vai levar a uma visita a esta, a compreender o luto da mulher e a conhecer o melhor amigo do esposo. Situação que lhe abre portas para a descoberta de um segredo horripilante sobre a morte dele, à reflexão sobre o esquecimento dos defuntos de cada um e à evolução dos enamoramentos que o tempo traz aos vivos.

Como habitual nos livros de Javier Marías, não há pressa no evoluir dos acontecimentos, antes o texto deambula por reflexões em todos os momentos da narrativa, uma sucessão de pensamentos e casos encadeados por uma série de pormenorizações, de adjetivos e de sinónimos que emolduraram cada ideia e constroem parágrafos muito extensos. Um caudal de conceitos e meditações que fluem de modo indolente até se completarem e, de repente, interrompidos por situações de surpresa e choque que mudam o rumo da história e retiram o leitor da anestesia e modorra em que caíra.

Não conheço nenhum escritor que consiga ir tão profundo na análises que leva a cabo em matéria de consciência, memória e do potencial do comportamento humano para concretizar atos extremos e em Os Enamoramentos Javier Marías volta a fazê-lo com a sua habitual genialidade e mestria. Literatura como obra de arte no seu mais alto grau. Acabo sempre por adorar os livros deste autor e este romance não foi exceção.

sexta-feira, 27 de setembro de 2024

"A pele do Tambor" de Arturo Pérez-Reverte


Regressei ao escritor espanhol: Arturo Pérez-Reverte, um autor profícuo e diversificado de romances históricos, policiais ou ensaios e um bom analista da cultura hispânica. "A Pele do Tambor" enquadra-se no género ligeiro de investigação criminal e tem o tempero de mostrar o mundo menos exposto dos interesses terrenos da igreja e do Vaticano.
Numa sala de controlo da rede informática do Vaticano é detetado a entrada de um hacker que deixa uma mensagem ao Papa sobre uma igreja em Sevilha que mata para se defender, a situação abre uma investigação a partir do da secretaria de serviços estrangeiros e do departamento sucessor da Inquisição, sendo então encarregue do caso o padre Lorenzo Quart, que mais não é que um agente de espionagem da Santa Sé.
Em Sevilha Quart depara-se com um templo que um banco e a diocese estão interessados em demolir para investimento e especulação imobiliária, isto contra a vontade do pároco e de uma família nobre ligada àquela igreja, situação que parece já ter causado acidentes mortais dúbios e atritos familiares entre o gestor bancário e a sua mulher nobre, além de contratar alguns rufias para levar a cabo atos sujos de modo a conseguir os seus intentos. O padre vê-se numa situação de proteger os interesses do Vaticano sem se imiscuir nas guerrilhas locais, incluindo da diocese, enquanto também uma mulher jovem e atraente está no cerne do caso.
Costumo gostar das obras de Pérez-Reverte por ser um autor que junta boa escrita literária aos diferentes tipos de ficção que produz, pelo que é viável ler um policial sem sentirmos que estamos perante literatura de cordel de mero entretimento. A Pele do Tambor não é exceção, contudo, foi uma obra que embora me tenha entusiasmado nas primeiras páginas - quando o hacker quebra as seguranças do Vaticano e se sente em seguida o saudosismo dos senhores todo-poderosos da Santa Sé de agirem sobre o mundo na defesa dos seus interesses terrenos, cheios de grande frieza e pouco humanismo em nome de um deus que dizem ser amor - só que depois o interesse desvaneceu-se um pouco sem aquela ansiedade de uma obra de suspense. É um romance simpático, que mostra o grande encanto de Sevilha, que conheço, e tem um final surpreendente. Gostei mas não me deslumbrou. 

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

"Assim começa o mal" de Javier Marías


 Citações

"Na realidade, tudo aquilo que se conta, tudo aquilo a que não se assiste, é apenas rumor, por muito que venha envolvido em juramentos de pura verdade."

"... quando se renuncia a saber aquilo que não se pode saber... talvez então assim comece o mal, mas em contrapartida, o pior fica para trás."

" O perdão não aguenta tanto como a vingança."

Regressei ao meu escritor sensação e fetiche dos último ano e meio, nunca um escritor me levou a acompanhar a sua obra tão intensamente como o espanhol Javier Marías, agora chegou a vez de um dos seus romances publicados há quase uma década "Assim começa o mal".

O jovem Juan de Vere é contratado pelo realizador de cinema Eduardo Muriel para seu secretário particular, logo de início descobre o mau relacionamento deste com a mulher Beatriz e entra em contacto com o círculo de amigos do empregador. Muriel incube o seu secretário de descobrir a veracidade de um boato sobre um dos seus amigos mais próximos de quem ouviu ter um passado desonrado relacionado com a atitude do mesmo com mulheres. O jovem não só descobre aproveitamentos relacionados com o seu poder de influência perante o regime ditatorial de Franco, como promiscuidades recentes, enquanto em paralelo verifica uma vida secreta de Beatriz e a infelicidade desta, como ainda desenvolve uma paixão juvenil pela mesma. A investigação leva ao perceber uma teia complexa de relacionamentos humanos com vingança sob o regime político subalternizava as mulheres, mentiras e abusos de poder imorais que logicamente apontam para tragédia e infelicidade.

Como sempre é a escrita o elemento que mais me cativa em Javier Marías, um narrador onde as suas histórias se desenrolam a uma velocidade lentíssima, quase paradas e travadas por uma engrenagem de reflexões sobre comportamento humano, pormenores linguísticos e tratamento de sinónimos que travam o evoluir da narrativa mas criam textos extensos riquíssimos, no caso presente também na denúncia do que foi a vida sob a ditadura e o pacto social para criar uma paz podre cheia de segredos e de reescritas do passado de muitos que permitisse a democracia se instalar até ao início dos anos de 1980 sem a vingança destruir o novo regime.

Gostei do romance, não é o meu favorito do autor, mas também não me desiludiu e como sempre a sua escrita deixou cativado na apreciação do texto, mas não é uma obra fácil e de leitura rápida.



sexta-feira, 17 de fevereiro de 2023

"Tomás Nevinson" de Javier Marías

 

Regressei ao escritor que descobri e me cativou intensamente no ano passado: o espanhol Javier Marías. Agora li o seu último romance escrito antes do seu recente falecimento: "Tomás Nevinson". O título é o nome de uma personagem importante da anterior: Berta Isla, e este o da principal narradora desta obra, de quem Tomás era o marido, embora houvesse partes significativas também contadas por este e apesar da maioria da sua vida ao longo da duração do romance nos ser intencionalmente escondida. Confesso, que foi a curiosidade do ocultado que me levou adquirir este último para descobrir o que não fora relatado, só que a obra é uma sequela, continuando omissos os casos em que este narrador antes se envolvera.

Após tomar a decisão de abandonar a carreira nos serviços secretos ingleses sob as ordens de Tupra no fim do livro anterior, Tomás regressou ao trabalho oficial na embaixada e aproximou-se da mulher, sente agora os prazeres da vida comum, mas ficou-lhe o saudosismo dos tempos de ação à margem da lei e do conhecimento público e reflete sobre os males maiores que evitou com os seus atos ilegais. Mas Tupra volta a aliciá-lo para descobrir uma terrorista corresponsável de um atentando sanguinário (evento real) que se suspeita ser uma de três mulheres de passado desconhecido que vivem numa cidade nordeste de Espanha. Cede e, disfarçado de professor de inglês, aproxima-se destas, mas as dúvidas são muitas sobre qual delas é responsável de tantas mortes e as questões morais sobre a oportunidade de eliminar ou não alguém errado antes que esta possa matar de novo levantam-se. Houve quem teve a hipótese de disparar contra Hitler antes do mal que fez, será ético agir erradamente por precaução?

Este romance continua a misturar factos reais e ficcionais, bem como a levantar questões morais e éticas dos atos à margem da lei para evitar males maiores, e ainda a manter uma exposição de particularidades linguísticas que distinguem o inglês do espanhol para qualificar situações, pensamentos e comportamentos numa escrita sem pressa e cheia de sinónimos e adjetivos que criam extensos parágrafos onde se comparam expressões para referir os aspetos em discussão e, nisto, é um Javier Marías típico. Embora haja referências e menções a momentos retrospetivos relatados noutros romances do autor e repetição de personagens que já haviam surgido em O teu rosto Amanhã publicado décadas antes, esta obra pareceu-me menos perturbadora e com um desenrolar temporal mais linear e fácil de seguir. Gostei muito, mas tirando a surpresa de não descobrir as partes que buscava, não me provocou nenhum murro no estômago como outros que li dele, mas continuo fã e interessado em descobrir mais da sua obra.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2022

"Berta Isla" de Javier Marías

 

Citação

"Esse conceito moderno de «crimes de guerra» é ridículo, é estúpido, porque a guerra consiste sobretudo em crimes, em todas as frentes e desde o primeiro até ao último dia."

Voltei à leitura daquele que se tornou ou meu escritor contemporâneo preferido: Javier Marías, do seu penúltimo romance de 2017 "Berta Isla" que também não me desiludiu, até manteve o fascínio e levou ao interesse de leitura de outros dele, sobretudo o seu último publicado antes de morrer, cujo protagonista é o marido de Berta Isla: Tomás Nevinson, que deu título à obra.

Berta apaixonou-se no colégio pelo seu colega Tomás, um jovem sobredotado línguas, imitar pronúncias e com dupla nacionalidade (espanhola e inglesa) com quem iniciam uma relação. Na universidade ele vai para Oxford e ela fica em Madrid, só que Tomás volta diferente, mas casam-se. Ele parece perdido, inquieto e no tem muitas viagens a Londres de que não pode falar e na sequência de um incidente ameaçador descobre que o marido tornou-se agente secreto inglês, por isso terá sempre uma vida oculta e demasiadas ausências. Por amor aceita ser uma mulher em simultâneo casada e sem parceiro, viúva e mãe de órfãos de um pai desaparecido, amada e ignorada. Tudo isto gera um conjunto de reflexões sobre o outro, a sua intimidade e dúvidas sobre as funções do marido situadas no fio da navalha entre o bem e o mal.

Já falei nos anteriores romances que li sobre uma escrita riquíssima de sinónimos e sem pressa deste autor. Em Berta Isla, talvez, haja um menor confronto de vocabulário e as cenas curtas não se estendem por tão grande número de páginas como em O teu rosto Amanhã, ou Amanhã na Batalha pensa em Mim, existem personagens que são retomadas neste romance, todavia as reflexões éticas sobre as questões da realidade e não realidade, da vida e da morte ou existênciais estão igualmente bem desenvolvidas neste livro, tornando-o num Javier Marías puro, mas mais enxuto, sendo que neste há muito que se subentende sem se dizer, um técnica que o escritor domina com uma genialidade única. Gostei muito espero em breve ler mais romances deste que se tornou um escritor fetiche para mim, embora não escreva obras muito fáceis.

domingo, 9 de outubro de 2022

"Amanhã na batalha pensa em mim" de Javier Marías

 

Excertos

"ninguém faz nada convencido que é mal feito, acontece apenas que em muitos momentos não podemos ter os outros em conta, ficaríamos paralisados, às vezes não podemos pensar senão em nós mesmos e no instante presente, não no que vem a seguir."

"Há coisas que devemos saber de imediato para não andarmos pelo mundo um único minuto com uma convicção de tal forma errada que o mundo é outro para nós."

Seis meses após a descoberta de Javier Marías, que então era ainda um autor vivo e para mim desconhecido, voltei àquele que considero o maior escritor que se me revelou nos últimos tempos e, entretanto, já falecido. Se tanto me impressionou então o romance em três volumes "O teu rosto amanhã", a minha admiração por este romancista espanhol não diminuiu nada com "Amanhã na batalha pensa em mim", mesmo sendo uma obra de menor envergadura em extensão.

Quando Víctor Francés vai para a cama de Marta, uma recém-conhecida e casada e em casa de quem  fora convidado a jantar, deparou-se com um mal-estar desta que acaba inesperadamente por lhe morrer nos braços. À surpresa inicial, seguem-se as indecisões perante a necessidade de deixar o filho dela em segurança e a conveniência de comunicar o facto ao marido ausente no estrangeiro, a que se junta as comunicações comprometedoras no gravador de mensagem entretanto recebidas. Então o protagonista opta por uma solução de ficar incógnito e se sair silenciosamente, mas as questões pendentes levam-no a aproximar-se da família de Marta e do seu marido, bem como a refletir na sua anterior relação com a ex-mulher e no fim a conhecer consequências imprevistas da sua opção.

Tão importante como os acontecimentos que vão sendo narrados e que fazem fluir a narrativa gota a gota, é a pormenorização dos momentos que se desenrolam no romance, a dissecação  das personagens envolvidas e as reflexões que se vão tecendo e entrelaçando em torno de tudo o que se passa no livro. 

A narrativa de Javier Marías não é para se ler em ritmo acelerado, é para se ir degustando calmamente cada frase, cada pensamento, cada aparte, cada reminiscência da própria obra (não é frequente um autor citar-se a si mesmo e menos ainda fazendo-o com frases e ideias expressas na mesma obra, Javier fê-lo e soube-o fazer no que queria realçar). Por vezes há que reler a densa teia de ideias lançadas ao longo do parágrafo. Não há perigo porque não é uma repetição, há sempre um pormenor e uma perspetiva que brota a cada nova leitura de uma parte do texto.

Tal como em Proust e Faulkner, mas sem qualquer imitação destes, a narrativa de Javier Marías é um fluxo contínuo de ideias, de pormenores dos acontecimentos narrados, de reflexões do momento vivido, de pensamentos dos respetivos efeitos e de justificações de comportamentos reativos do ser humano, expondo as situações e as personagens sobre múltiplos ângulos de visão e de abordagem em que o passado e a memória fundamentam parte do presente e este é condicionado pelas várias possibilidade do futuro por se concretizar. Temas como a vida e morte, presença e ausência, memórias e desejos a concretizar vão montando quadros psicológicos com mais pontos de que muita pintura impressionista.

Nem sempre concordo com todas as deduções e afirmações que vão sendo libertadas ao longo do fluxo narrativo, mas estou certo que nem Javier Marías, ou não haveria lugar a algumas possíveis contradições lançadas à reflexão na obra, mas sublinhar a riqueza de pensamentos colocados nos diferentes parágrafos dos livros deste escritor que já li levava quase a um sublinhado contínuo de todo o texto.

Para mim, há escritores que são reconhecidos devido à atribuição de um prémio Nobel da literatura, há outros que enobreceram o prémio por estarem na lista dos laureados por ele e há aqueles que teriam enobrecido se tivessem recebido este galardão literário no período da vigência deste, neste grupo coloco Tolstoi, Proust e agora, estou convicto também Javier Marías. Este romance foi premiado com outros galardões como Fastenrath, Internacional Rómulo Gallegos e Fémina Étranger.

Gostei mesmo muitíssimo do romance, mas, tal como já antes alertara na outra obra, não é um livro de leitura fluída rápida e fácil devido à densidade e riqueza de conteúdo narrativo, neste caso menos lexical, e, como tal, recomendo-o a leitores maduros na apreciação da beleza da escrita e da riqueza literária e pensamentos do um texto.

sexta-feira, 8 de julho de 2022

"A Rainha do Sul" de Arturo Pérez-Reverte

 

Excertos

"O medo não deve ser avidado de chofre,... A arte reside em infiltrá-lo pouco a pouco: que dure, e tire o sono, e amadureça, por desse forma se converte em respeito."

"Há silêncios que não podemos alegar não ter ouvido com absoluta clareza. Sim. A a partir de determinado momento da vida, cada um é responsável pelo que faz. E pelo que não faz."

Acabo de ler mais um romance do escritor espanhol Arturo Pérez-Mendoza: "A rainha do sul", no qual um jornalista faz a pesquisa biográfica Teresa Mendoza : uma simples mulher, pobre, sem estudos e companheira de um traficante de narcóticos na província de Sinaloa no México; mas que após o assassinato deste e de ela sobreviver à ordem para a matar, consegue em seguida refugiar-se no sul de Espanha e construir um império de narcotráfico e uma fortuna que a tornam uma referência para a imprensa social e em simultâneo com ligação à classe política e aos maiores cartéis mundiais.

O texto é uma sequência de episódios que correspondem a cenas romanceadas de recolha de informações de testemunhas que conviveram ou conheceram Teresa Mendoza e onde o jornalista é o narrador na primeira pessoa, estes são intercalados com outras onde são expostas, de forma cinematográfica e intensa a vida da protagonista, sendo esta quem descreve a ação e expõe os seus pensamentos e sentimentos.

Como habitual em Pérez-Reverte, as suas personagens são muito realistas com virtudes e defeitos, aqui ninguém é exclusivamente mau ou ingenuamente bom, e as suas narrativas são cinematográficas, por vezes muito intensas, e onde se nota, na descrição e pormenores, uma investigação técnica e social profunda dos meios de vivência e dos objetos que integram as suas cenas. Tudo isto é exposto num texto bem trabalhado com referências as marcas de equipamentos, objetos de luxo, sensações dos seus usos e a descrição profunda da vida nas redes de narcotráficos com as suas regras, dureza e desumanidade no México, bem como a fragilidade das forças de segurança na Europa face a um controlo legal e ético dos mídia muito fortes em democracia aquando dos seus atos de combate ao banditismo, e ainda, o laxismo destes aspetos no Norte de África, tudo isto a coberto de uma rede política, legislativa e financeira internacional que permite a montagem de esquemas de branqueamento de capitais, corrupção e cooperação entre o poderes legítimos e dos fora-da-lei.

Um bom romance que retrata com qualidade literária os mundos mafiosos, com alguns episódios muito intensos, gostei, texto acessível a qualquer leitor e recomendo.

sábado, 28 de maio de 2022

"Os detetives selvagens" de Roberto Bolaño

 

Citação

"o poeta não morre, afunda-se, mas não morre."

Acabei de ler o meu segundo e extenso romance do chileno Roberto Bolaño: "Os Detetives Selvagens" e tal como o enorme anterior "2666" este é sem dúvida uma obra difícil de classificar, aliás, é este o legado dos livros deste autor: trabalhos que procuram mudar os estilo e a forma de fazer literatura latinoamericana e, sem dúvida, que ele conseguiu distinguir-se.

O romance está dividido em três partes: a primeira, em 1975, é a narrativa, em forma de diário, de Juan García Madero, um órfão com 17 anos que é forçado pelos tutores a seguir direito quando queria literatura, mas que entra em contacto com um grupo de poetas que querem criar um novo movimento literário de poesia mexicana: o "real visceralismo"; que teria origem numa poeta há muito desaparecida e cuja obra era quase desconhecida: Cesárea Tinajero. O grupo é então liderado por Arturo Belano e Ulises Lima a que se associaram diversos jovens, uns filhos de ricos, outros miseráveis, que vivem uma vida revolucionária em termos de arte e de costumes livres que Juan relata e onde mergulha nessa forma de viver e prática sexual. Esta parte termina numa cena de fuga na noite de final do ano em que Garcia Madero participa para proteger uma prostituta do seu explorador.

Na segunda parte temos múltiplas narrativas ao estilo de memórias, desde muito curtas a mais extensas, por vezes são quase contos autónomos. Nestas temos episódios de vida dos diversos membros reais visceralistas ou de gente que esteve em contacto com Belano e Lima. Relatos que vão de 1976 a 1996 e além de mostrarem o estilo de vida de sexo livre, álcool e drogas de muitos das personagens envolvidas, evidencia a busca do grupo em descobrir quem foi Cesárea e a sua obra desaparecida. Entretanto, vai-se montando, de um modo mais ou menos caótico, a biografia daqueles dois líderes e poetas não aceites pela escolas artísticas estabelecidas e, muitas vezes, em confronto com a própria lei. É evidente que Arturo Belano é um alter ego do autor, pois, conhecida a biografia de Bolaño, verifica-se ao longo da narrativa que estes dois são ambos chilenos de esquerda, refugiados no México devido a Pinochet, procuram mudar a literatura, vivem com dificuldades e estabelecem-se mais tarde em Barcelona onde têm família. Talvez muitas das memórias expostas mais não sejam que retratos do que foi a vida de muitos jovens próximos do autor e algumas personagens e referências na obra são escritores e artistas consagrados que se misturam com outros ficcionados no livro.

A terceira parte, retoma novamente o diário de Garcia Madero, com a continuação da fuga na passagem para o ano de 1976, a que se associa uma busca para encontrar Cesárea Tinajero pela região desértica de Sonora, enquanto são perseguidos por inimigos que tentam recapturar a fugitiva que retiraram ao explorador desta, isto numa viagem e investigação que dura cerca de um mês e com um final surpreendente.

A escrita é muito cativante, com um estilo fácil de leitura, mas verifica-se que é muto cuidada, mesmo quando segue a forma do falar diário banal e nas memórias, onde por vezes se adequa a forma ao tipo de personagem que a narra, culto em várias áreas ou cidadão comum. Bolaño faz uso de vocábulos grosseiros, sobretudo de cariz sexual, e relatos explícitos das relações íntimas sem se ater perante as várias orientações das personagens, o que pode ferir certos leitores mais pudicos ou preconceituosos, mas faz um retrato cru e, provavelmente, realista do grupo constituído pelos artistas e jovens de esquerda latinoamericanos de língua hispânica que se exilou na cidade do México e em Barcelona na década de 1970 por razões políticas e das suas ligações com as gentes destas cidades e a outras partes do mundo. Gostei da obra, é efetivamente original e mostra todo um universo hispânico, contudo, não deixa de ser um romance extenso com partes mais ou menos vivas, mas todas cheias da força da capacidade narrativa que era o forte deste escritor.

terça-feira, 3 de maio de 2022

"O teu rosto amanhã - Veneno e sombra e adeus" Volume III de Javier Marías

 

Excertos

"Oh, sim, uma pessoa nunca é, o que é" ... "como tão-pouco deixamos de ser inteiramente aquilo que fomos"

"O Estado precisa da traição, da venalidade, da intrujice, do delito, das ilegalidades, da conspiração, dos golpes baixos (em contrapartida, as heroicidades apenas a conta-gotas e de tempos a tempos). ... Porque julgas que se criam cada vez mais delitos novos?"

Acabei de ler o terceiro e último volume de "O teu rosto amanhã" do espanhol Javier Marías, um romance difícil de classificar, é essencialmente uma obra de ficção, mas possui duas personagens importantes que foram pessoas reais, Peter Wheeler e o pai do escritor, além de aspetos da experiência de vida do autor e da sua relação com a Universidade de Oxford, aqui como narrador no papel do seu avatar: Jacques Deza, além de referências a numerosas ocorrências hist´rocas da guerra civil de de Espanha e, um pouco menos, dos serviços secretos ingleses na II Grande Guerra.

Efetivamente, este romance que começa com o alerta do narrador de que ninguém devia falar e contar nada, mas centra-se num grupo anónimo de pessoas, não reconhecido pelos serviços secretos ingleses que tem como tarefa "a «coragem de de ver» e que assumem «a irresponsabilidade de ver», e o contam.", tal como diz Javier Marías no epílogo e, como eu percebi da obra: fica sem remorsos das consequências perniciosas e, até mesmo por vezes catastróficas, para as pessoas por eles observadas e descritas nos seus relatórios ultrassecretos. Pelo meio, vamos acompanhando a relação do protagonista com a sua mulher, de quem está separado, mas que mantêm uma amizade e relação em virtude dos filhos, além de uma incerteza se ao nível da manutenção do amor entre eles.

Assim este romance resulta num extenso desfilar de inconfidências e reflexões sobre como somos num dado momento, como mudamos no tempo, como nos denunciamos no que fomos ou no que podemos vir a ser no futuro através das nossas conversas, interpelações e de como podemos observar nos outros todas essas indiscrições e as potencialidades dos eus de cada um.

Apesar da originalidade do tema, que não é um romance do género de espionagem, nem policial, nem de memórias, nem histórico, nem ensaio, nem romântico, mas que de facto envolve isto tudo, foi a escrita que me fascinou, apesar de com menos sinonímias e adjetivações neste volume, talvez para não exagerar a extensão do texto, a narrativa continua sem pressa em concluir as ideias e os factos que vai lançando vão sendo intercalados por divagações que se afastam do ponto inicial, mas após uma caminhada mais ou menos longa retoma-se o tema com um remate final e completando o assunto muitas linhas ou páginas posteriores após uma viagem com numerosas referências paralelas.

A riqueza lexical, as variações de sintaxe e as comparações das subtilezas linguísticas existentes entre a várias frases em inglês (por norma traduzidas dentro do parágrafo) e as ideias e dizeres em espanhol geram uma beleza intencional e trabalhada ao pormenor do ponto de vista literário e evidenciam estar-se perante um escritor contemporâneo com um valor acima da média, contudo, como já disse, poderá não ser uma leitura fácil para quem não tenha por hábito degustar as frases e as palavras, além da extensão do romance.

Este foi o romance que mais gostei nos últimos tempos, mas não é uma obra fácil para qualquer leitor. É livro para quem degusta a escrita e não tem pressa. Um texto para gente que não desespera ansiosa pela conclusão duma ação rápida  e ágil, pois esta espraia-se por reflexões e divagações do narrador, criando uma imagem parada sobre a qual recai uma extensa legenda analítica e psicológica. A introspeção sobre a mente humana, como fomos, somos e podemos vir a ser e a consciência que temos disto e do que assistimos e fizemos ou pensamos vir a fazer é um traço que atravessa toda a exposição narrativa. Para mim uma obra-prima e original, uma peça de literatura de alto gabarito que requer estar preparado para a apreciar.

Mensagem sobre o volume I

Mensagem sobre o volume II

sábado, 16 de abril de 2022

"O teu rosto amanhã" Vol. II - Dança e Sonho, de Javier Marías

 

Excerto

"Nunca sabemos até que ponto e de que modo somos observados pelos que nos rodeiam, pelos mais próximos e mais leais, que aparentam renunciar há muito à objectividade e dar-nos por certos..."

Continuo a leitura desta vasta narrativa que começou no primeiro volume com o aviso de Jacques Deza de que nunca devemos contar nada, falar, dizer, responder, mas  que logo se tornou numa extensa e prolixa exposição do modo como foi recrutado para um serviço secreto inglês no ambiente da Universidade de Oxford e das memórias benevolentes do seu pai denunciado ao regime de Franco na sequência da guerra civil de Espanha e da sua relação com a sua mulher de quem recentemente se separara em Madrid o o trouxera de novo para Londres.

O segundo volume, com o subtítulo das suas duas partes: Dança e Sonho, o narrador, Jaime, Jack ou Jacobo Deza continua a contar pormenorizadamente a sua vida, as justificações de seu pai para a sua benevolência e as surpresas de comportamento dos membros da equipa de trabalho do serviço secreto e dos seus orientadores académicos Peter e . Jacques continua a não saber quem o dirige, talvez Tupra e para quem o seu esforço contribui. Enquanto a narrativa se torna numa reflexão sobre o comportamento humano face à culpa, à reação ao medo, à necessidade de nos proteger e de nos integrarmos socialmente  e à capacidade de fazer o mal extremo como defesa e factos históricos e da atualidade política.

Confesso, Javier Marías - com o seu texto cheio de sinónimos, paralelismos e referências a semelhanças e diferenças entre o idioma inglês e o castelhano para levar à análise das múltiplas faces de cada questão ou assunto que debate ou reflete - conquistou-me pela riqueza da sua escrita e beleza literária da sua forma de narrativa. Onde um escritor em momento de suspense tende de cortar o momento para nos deixar presos e retomá-lo mais tarde ou então despejar de chofre o que nos vai surpreender, Javier Marías dilata o tempo e expõe reflexões do instante em câmara lenta ao longo de páginas sucessivas sem nos cansar, enquanto a espada no seu trajeto vertiginoso ao longo de todo esse período prossegue o seu caminho para uma cabeça em risco de ser decepada e, terminada essa duração esticada, não houve perda de emoção, nem do efeito que nos prendeu ao instante inicial. Só um génio consegue fazer isto em texto.

A teoria de que o tempo é relativo está de facto intrinsecamente instalada nesta narrativa, tudo decorre a uma velocidade cronológica variável de acordo com a vontade do narrador e transposta para a escrita, por norma sem pressa alguma, mas não ao ritmo a que o leitor está habituado ver decorrer uma ação. A riqueza lexical e as variações de sintaxe no texto são de  modo a gerar uma beleza intencional e trabalhada ao pormenor do ponto de vista literário e evidenciam estar-se perante um escritor contemporâneo com um valor acima da média, contudo poderá não ser uma leitura fácil a quem não tem por hábito degustar as frases e as palavras, além da extensão do romance... entretanto, já entrei no terceiro volume que vem em continuidade de cena iniciada no segundo.

quarta-feira, 30 de março de 2022

"O teu rosto amanhã" Vol. I - Febre e Lança - de Javier Marías

 

Excertos

"tudo tem o seu tempo para ser acreditado, até o mais inverosímil e o mais anódino, o mais incrível e o mais ignorante."

"Há uma obsessão por compreender o odioso, no fundo há uma malsã  fascinação por isso, e com isto faz-se um imenso favor aos odiosos. Eu não compartilho essa curiosidade infinita do nosso tempo..."

Há muito que ouvia falar do espanhol Javier Marías como um dos escritores mais originais da atualidade, mas só agora me decidi a descobrir e logo através da sua obra mais extensa: o romance de três volumes "O teu rosto amanhã". No primeiro tomo duas partes do romance: "Febre" e "Lança".

Jacques Deza, começa a obra a explicar a importância de estar calado, de nunca se contar nada, ele, um madrileno recém-separado regressou à Inglaterra para fazer um programa de cultura espanhola na BBC, doutorado na Universidade de Oxford, frequenta a casa de um professor amigo naquela academia, lá é convidado a integrar um grupo secreto. Este procura interpretar o comportamento de pessoas seguidas pelo serviços de informação britânicos e ver-se-á num mundo onde responder, contar e dizer são armas bumerangue que atacam quem fala. Seguem-se reflexões sobre os indivíduos, a importância da comunicação, a pressão social, questões da atualidade, efeitos psicológicos da guerra civil de Espanha e da II Grande Guerra, disserta ainda sobre a sua vida individual, familiar e com quem convive e vai contando, contando, contando memórias ao contrário do que avisara.

A escrita, com um vocabulário rico e culto, cheia de referências linguísticas, é de uma fertilidade de adjetivos e pormenores, sinonímias lexicais que se estendem por longos parágrafos que vão desenvolvendo uma musicalidade em ritmos lentos que é única nos autores atuais que conheço. A densidade dos pensamentos, dos conteúdos desenvolvidos e das referências históricas e culturais tornam o texto como uma versão contemporânea de Proust, Musil temperado com o género de literatura de ficção académica anglo-saxónico típico de Robertson Davies e David Lodge, mas  mais rebuscado que estes.

A narrativa não tem pressa em concluir as ideias e os temas que vai lançando... vai divagando sem se perder no ponto inicial, embora o leitor por vezes se desencontre, mas após uma caminhada mais ou menos longa retoma com um remate final e completa o assunto começado muitas linhas ou páginas antes.

Não será um texto fácil para leitores apressados ou que não apreciem deixar-se passear na beleza do texto saboreando-o para depois chegar à conclusão, é um romance que avança a velocidade lenta, quase de caracol, mas para quem sabe apreciar é delicioso e compreendo porque se diz ser mais um candidato a Nobel, não sei, para mim já atingiu tal nível que não necessita de tal prémio para eu reconhecer a sua grande qualidade... não consigo parar e já adquiri e iniciei o segundo volume.

domingo, 26 de julho de 2020

"A Colmeia" de Camilo José Cela

Acabei de ler uma das obras de referência do escritor da Galiza e vencedor do prémio Nobel, Camilo José Cela: A Colmeia,
A obra decorre na cidade de Madrid pouco depois do confronto que colocou Franco no poder, em plena II Grande Guerra, quando esta começa a ser desfavorável aos alemães, e narra o dia-a-dia de um conjunto de cidadãos da classe média e baixa, com a escassez de dinheiro, os seus artifícios diversos de sobrevivência e manhas numa sociedade influenciada pela hipocrisia pública religiosa e conservadora e uma prática privada cheia de vícios.
O romance não tem propriamente uma trama, temos uma série de cenas curtas (às vezes de um pequeno parágrafo e na maioria das vezes estendendo-se por perto de uma página de texto), onde em cada uma se relata um episódio da vida das personagens que vão sendo apresentadas sucessivamente, por vezes com repetição, outras uma única vez e só um pequeno número surge desde perto do início do livro e continuam a reaparecer até quase ao fim do mesmo. Uma parte dos episódios decorre no café da senhora Rosa, onde vemos as suas relações duras com vários empregados e clientes, histórias da vida destes, do engraxador, do vendedor de tabaco, da criança cigana que canta rua, da mulher de vida em final de carreira e solitária em busca de um conforto para o futuro, do poeta sem dinheiro e dos músicos que animam o espaço, entre outros.
Outro conjunto de episódios decorre numa pensão barata de encontros íntimos onde por coincidência frequenta um pai, uma filha e os respetivos amantes, que procuram esconder entre si as sua relações íntimas. Há também uma casa de apartamentos onde ocorre um homicídio de uma idosa e mãe de um homossexual de vida escandalosa, aqui coexiste gente diversa, incluindo um médico e sua família. Há ainda uma casa de um contabilista que nos trabalhos ajeita as contas em favor dos clientes, casado cuja mulher tudo faz para ajudar o poeta pobre apesar da relação conflituosa deste com o cunhado. Além destes casos, onde é possível traçar uma linha evolutiva, existem cenas de rua e muitos outros episódios em mais locais que no conjunto envolvem 160 personagens (o número consta de um prefácio) em duas centenas e meia de páginas que dão um retrato da miséria de vida das gentes de Madrid no pós guerra civil e numa Europa em luta. Uma espécie de colmeia onde a maioria busca salvar-se individualmente e por vezes com que dores. 
O texto é muito bem escrito, vai desde linguagem popular até outra mais trabalhada e literariamente é uma obra bem original. Gostei de muitos episódios, a minha dificuldade resultou do facto de eu ser péssimo e memorizar  nomes e nesta sequência tive de fazer um esforço significativo para identificar as personagens que tinham linha evolutiva na obra e quando as comecei a identificar o contexto o romance estava a acabar... se acabou de facto!
Para quem gosta de experiências literárias: recomendo; não pelo enredo da narrativa que é escasso mas é uma obra inesquecível.

terça-feira, 26 de junho de 2018

"A Tábua de Flandres" de Arturo Pérez-Reverte


Excertos
"Na realidade, meus filhos, paroquianos, constituímos um bizarro exército. Temos a desfaçatez de perseguir segredos que, no fundo,  mais não são do que os enigmas da nossa própria vida."

"Uma vez li que o homem não nasceu para resolver o problema do mundo mas sim para averiguar em que consiste esse problema..."

"A Tábua de Flandres", do espanhol Pérez-Reverte, é um romance onde o autor junta o género policial, enigma/charada e crime a uma boa escrita trabalhada com estilo, fazendo numerosas referências culturais, neste caso música e pintura, e ainda adiciona momentos de reflexão e de análise psicológica com as personagens, tornando o livro  numa boa obra literária.
Júlia, uma restauradora de arte, trabalha numa pintura em madeira com 300 anos de van Huys, pertencente a uma coleção privada e destinada a um leilão que representa uma partida de xadrez. Ela descobre sob a tinta a questão oculta sobre quem matou o cavaleiro, iniciando-se uma charada cuja resposta estará nas jogadas antecedentes ao exposto na tela. A presença da mensagem escondida valoriza o quadro e durante os esforços de resolução ocorre uma morte associada a um desafio para a continuação da partida, há assim sobreposição de um crime no passado e assassinatos no presente. Um jogador é convidado a desenrolar a partida enquanto a polícia se perde entre questões fúteis face às considerações discutidas pelas personagens centrais da trama, as regras e o simbolismo são a chave de tudo e indiciam o risco de vida para Júlia.
Além da boa escrita, reflexões e análise de enigmas lançadas com as estratégias e regras do xadrez, o autor consegue até manter o interesse do leitor por várias dezenas de páginas após se desvendar os mistérios, isto porque Pérez-Reverte concilia a técnica do suspense policial com os ingredientes da boa literatura, agradando não só os leitores de obras de ação, como outros mais exigentes literariamente.

sábado, 14 de abril de 2018

"Pátria" de Fernando Aramburu


Excertos
"Dizer-te que peço desculpa, mas que não posso te cumprimentar porque isso me iria trazer problemas. Mas se te vir na rua quero que saibas que te estou a cumprimentar em pensamento."

"A mim mandam-me executar um fulano e eu executo seja quem for. A sua missão não era pensar nem sentir, mas sim cumprir ordens. Os que depois criticam não entendem isto."

"Pedir perdão exige mais coragem do que disparar uma arma, do que acionar uma bomba. Isso qualquer um faz. Basta ser jovem, crédulo e ter o sangue quente."

"Não estarás a insinuar que a paz está em perigo porque a viúva de um assassinado vem passar umas horas a sua casa?"

"Pátria", do hispano-basco Fernando Aramburu, foi um livro que antes de estar traduzido já eu estava ansioso por ler. É um retrato das tensões sociais ao longo de décadas entre gente amiga numa povoação onde todos se conhecem no País Basco sobre a pressão do terrorismo separatista da ETA, entra ainda uns anos pós acordo de paz já no século XXI, mas em que as feridas ainda sangram. Um romance que tem sido um sucesso editorial em Espanha, mesmo agora sobre pressões secessionista na Catalunha.
Miren e Bittori foram as maiores amigas desde a infância na sua terra nos arredores de San Sebastián, ambas casaram e suas as famílias continuaram a partilhar a mesma amizade e cooperação, até que um dia o filho de uma se torna membro da estrutura terrorista da ETA, depois o marido da outra é ameaçado e mais tarde assassinado, isto numa terra onde todos se conhecem, os jovens convivem  em grupo e a pressão separatista considera inimigo quem não assume a defesa desta guerra.
A narrativa vai-se completando com as descrições de cenas passadas ao longo de décadas, onde de coabitam os encontros/desencontros, o amadurecimento das amizades/inimizades, o domínio do medo/preconceito com a opção pela sujeição à pressão ou pela tentativa de ultrapassar, o crime, as vítimas e as feridas sangrantes com a benção de uma igreja comprometida.
A escrita é muito fácil, por vezes com um narrador externo omnisciente e sarcástico que nos dá a conhecer os sentimentos dúbios, frequentemente encadeados como no parágrafo anterior, que une a hipocrisia das situações com a realidade oculta. Outras vezes é tenso, contudo, mesmo nos momentos mais violentos, não é agressivo, pois há sempre um tempero que não ultrapassa uma certa sobriedade e distanciamento de forma ao leitor sentir os vários aspetos em conflito sem tomar uma opção inequívoca por uma das partes, mas sem desculpar culpados.
Adorei o livro e li-o de rajada, recomendo a qualquer leitor pela sua facilidade de leitura e retrato real do que é uma sociedade extremada que se deixa dominar pela violência que impede de ouvir o outro de quem é amigo apenas por já não haver condições sociais de conviverem com a diferença, mesmo que esta seja simplesmente não estar assumida ou não fazer parte dos objetivos.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"O Clube Dumas" de Arturo Pérez-Reverte


O romance "O Clube Dumas" do escritor espanhol Pérez-Reverte é uma obra de suspense e mistério que envolve a busca de livros históricos raros, a validação de um manuscrito de Alexandre Dumas pai, aventura, ocultismo, perseguições, charadas e crimes, numa narrativa onde existe preocupações de juntar a literatura como objeto de lazer sem desvalorizar a qualidade de escrita e em paralelo fornecer informações ao nível de histórias de literatura, sobretudo, do autor que cujo nome consta no título.
Como todos os livros de suspense e aventura, este lê-se bem e desperta curiosidade para cenas futuras, algumas destas são em Portugal, o que já não é primeira vez nos livros que leio deste escritor. Uma obra sobre livros, amantes de destes e fãs de um escritor, cruza o secretismo associado a obras de ocultismo e os artifícios que os seus crentes fizeram para manter viva as suas mensagens e no desenlace Pérez-Reverte fala da importância do leitor em se deixar envolver pelo mundo das obras e o risco que quando se mistura realidade e ficção, um jogo romanceado bem feito que diverte, alimenta o gosto pela leitura e divulga factos da história de escritores e da adoração dos livros como objeto de culto. Gostei e acessível a qualquer tipo de leitor. 

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

" A República dos Sonhos" de Nélida Piñon


Nélida Piñon, escritora brasileira de origem galega, galardoada pela sua obra com o prémio Príncipe das Astúrias, foi a primeira  mulher a presidir à Academia Brasileira de Letras e neste seu extenso romance (mais de 700 páginas em letra miúda) "A República dos Sonhos" faz em simultâneo uma homenagem à imigração para o Brasil das pessoas da Galiza, ressuscita a memória da sua família, bem como expõe de uma forma ora crítica, ora amarga, ora com ternura: o pensar, a cultura, a sociedade e a política deste país Sul-Americano, desde o início dos século XX até à década de 1970, destilando as virtudes, defeitos e sonhos, bem como as raízes desta mistura que originou uma mescla social única no mundo, unida pela língua Portuguesa na sua variante deste continente.
A história arranca quando Eulália decide que chegou a hora de se deixar morrer - a matriarca da família de Madruga, o imigrante pobre de 1913 e criador de um império no Rio. As memórias dos que a cercam levam então à narração de acontecimentos sem respeitar uma sequência cronológica, que vão saltando por vezes bruscamente desde o avô do protagonista, o galego que conta as estórias do seu povo para manter viva a cultura da sua nação e língua que marcou o protagonista, passando pelo sogro deste, a versão aristocrática decadente de quem marcou o passado da Galiza e de quem ficaram as histórias, passa pelo pais, filhos e a neta mais velha do herói do livro, sempre na companhia do seu amigo fiel e companheiro da viagem na primeira travessia do Atlântico, mas de comportamento oposto: Venâncio, que representa os derrotados desta imigração mas é necessário para viver os sonhos para que Madruga possa ter a frieza de vencer na vida real.
Um grupo familiar com membros tão díspares que vai do ambicioso, ao preocupado com os desfavorecidos, à mulher obediente, à que se refugia em Deus mas vê tudo em torno, passando pela serva acolhida e pela que rompe com as regras que escravizam o género feminino, sem faltar o homem cujo a importância reside na virilidade de macho, ao que os valores dos contos e das tradições são o cerne da cultura do País e das raízes ibéricas, a uma agregado que vê passar as principais figuras políticas do Brasil: como Janos, Getúlio e Juscelino, sofreu com a guerra civil de Espanha e desejou a autossustentabilidade económica brasileira, assistiu à democracia com as suas esperanças, passou pela ditadura e desilusões, medos e fugas possíveis nesta América e República de sonhos alcançados e também de falhados.
Uma obra de grande profundidade, por vezes densa e prolixa em pormenores, com dois narradores principais e outros que se escondem atrás do escritor. É um hino ao Brasil, à língua Portuguesa, à Galiza, a Espanha e um tributo aos imigrantes vencedores e louvor aos vencidos e àqueles cujo contar histórias marcam a cultura dos Povos. Grande Obra Literária.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"O homem que gostava de cães" de Leonardo Padura


Acabei de ler "O homem que gostava de cães" do cubano Leonardo Padura, o livro cruza, através de capítulos intercalados, as vidas ficcionadas de Trosky, apenas como vítima e refugiado de Estaline; do seu assassino, o catalão Mercader; e os encontros do narrador do livro, um escritor falhado e vítima da opressão do regime em Cuba, com um homem doente, amante de cães que teria conhecido o criminoso e confidente dos pormenores da vida deste desde criança até ser formatado para o crime encomendado por Estaline e das suas reflexões posteriores.
Todos os capítulos, tanto nos aspetos ficcionados como nos históricos, são bastante prolixos em pormenores e descritos ora na primeira pessoa como memórias, ora como espetador, ora de forma romanceada, o que torna a obra muito densa, não só em termos de informação dos factos conhecidos, como também ao nível da especulação e, sobretudo, no aprofundamento do que foi a mentira criada em torno de uma proposta de modelo de sociedade igualitária para a libertação do Homem que se transformou num dos maiores pesadelos, máquina de morte e de opressão do século XX, onde Mercader um catalão inicialmente envolvido na guerra civil de Espanha foi trabalhado para ser um instrumento a ser usado para este engano, inicialmente como utopista de um sonho, depois desconfiado das mentiras e montagens que assistiu e por fim já consciente do mal mas impossibilitado de mudar o seu destino, no apaziguar da culpa ficou-lhe o amor pelos cães, tal como perdurou em Trostky e no narrador.
Um romance denso que é uma explicação de como foi possível transformar uma utopia numa distopia tão desumana. Uma narrativa onde, por vezes, o texto tem o aspeto de um relato quase jornalístico, noutras um estilo mais floreado com reflexões das personagens e dos sonhos e desilusões do mesmos, mas, sobretudo, uma denúncia destas terem sido conduzidas e vítimas do medo, um sentimento que é comum à outra obra de Padura que li este ano e falei aqui. Gostei e recomendo para quem quiser conhecer melhor o que foi o pesadelo estabelecido à sombra de um modelo que tinha como princípio libertar o Homem e cujo escritor também conheceu por dentro na sua adaptação a Cuba.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

"O Sol Nasce Sempre" ou "Fiesta" de Ernest Hemingway


"O Sol Nasce Sempre", também intitulado noutra edições por "Fiesta", é um dos romances mais icónicos do laureado norteamericano com o Nobel da literatura Ernest Hemingway, embora talvez, para alguns leitores, seja moralmente dos mais difíceis de digerir, tendo em conta a sua componente hedonista ou, para os mais exagerados até niilista, e é uma obra muito diferente das outras que já li deste autor, nomeadamente as duas aqui e aqui faladas.
O romance narra, na perspetiva de um elemento pertencente a um grupo de amigos americanos e ingleses, que goza a vida passando uma temporada em Paris, homens e mulheres que procuram tirar o proveito máximo da noite boémia desta cidade onde confluem artistas plásticos, escritores e "bon-vivants", sem grandes planos que não seja usufruir desta liberdade de pensamento e divertimento, do sexo e álcool que marcou os anos loucos das décadas entres as duas guerras mundiais na capital francesa.
Este estilo desemboca também em vazio e incompatibiliza-se com sentimentos humanos como o amor e paixões de momento que brotam deste convívio sem compromissos, fidelidades mais tradicionais ou perspetivas de futuro. A ânsia de novas experiências num momento de saturação do que entretanto se foi disfrutando repetidamente e até à exaustão em Paris leva parte do grupo para festas de San Fermin em Pamplona, um meio muito diferente mas vivido num mesmo estilo na loucura daquelas festividades.
De uma forma que até parece despretensiosa, pelo estilo quase jornalístico da narração, conta-se assim o estilo de vida de uma geração de jovens hedonistas que aproveitam para gozar ao máximo o dia-a-dia, sem planos para o futuro e sem a restrições que o convívio social obriga. Diria que se "On the road" de Kerouac está para a geração beatnik nos anos 1950/60, "Fiesta" está para a geração louca e despreocupada dos anos 1920/30, duas denominadas por alguns "gerações perdidas". Se o primeiro, bem mais recente, mostra muito do modo de viver do seu autor, o gosto pelo estilo de vida preferido de Hemingway está nesta sua obra e a sua paixão pela "arte" tauromáquica está magnificamente tratada neste romance que foi sem dúvida o maior cartaz de sempre daquele festival a mundialmente famosa corrida de touros de San Fermin... a "fiesta".
Para quem pense que este livro é amoral, está errado, os riscos deste hedonismo estão bem expostos sem ser necessário narrar uma história que julgue as personagens ou dê uma lição de moral. Gostei.