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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

"As Causas do Atraso Português" de Nuno Palma

 

Acabei de ler o livro, do género ensaio e em formato ebook, "As Causas do Atraso Português" do catedrático em economia Nuno Palma.

A obra expõe a história da evolução do grau de desenvolvimento económico de Portugal desde o final da Idade Média até à atualidade, comparando, ao longo dos tempos, a situação nacional com a da Europa e, com maior pormenor, com o Reino Unido e a Espanha, entre outros. Ao longo do desenrolar do texto, o autor vai denunciando mitos que se foram instalando na nossa sociedade sobre o nosso passado e que encobrem a realidade e disfarçam muitas das razões da divergência desfavorável do progresso deste Pais face ao de outros Estados europeus. O economista suporta-se em numerosos documentos históricos e apresenta um conjunto de gráficos, tabelas e  imagens que demonstram as conclusões ao longo do livro.

Um dos aspetos que fica claro nesta obra é que Portugal, no final da idade média, era um Estado com um grau de desenvolvimento políticoinstitucional, económico e em riqueza, equiparado ao da maioria dos principais Países da Europa Ocidental, até com um grau de participação de cidadania mais avançada do que o de alguns outros reinos que se tornaram exemplos de democraticidade e desenvolvimento. Situação que permitiu a Portugal ter condições para ser pioneiro na epopeia dos descobrimentos, só possível numa sociedade com um alto grau de conhecimento científico, técnico, possibilidades financeiras e estratégia de longo prazo.

A situação de equiparação de desenvolvimento socioeconómica ou mesmo de posição charneira de Portugal estendeu-se sensivelmente até ao século XVIII, período em que se inicia o desfasamento desfavorável do progresso deste País face a outras nações europeias, momento que começaram e deitaram raízes  muitas das causas do atraso português que o autor vai lançando e dissecando com exemplos claros e desmistificando muitos dos falsos argumentos que se foram entretanto se instalando, os quais, desde então, têm impedido a não recuperação sustentada do progresso deste Estado em comparação com outros, nomeadamente, os Países do Leste Europeu já em pleno século XXI que vieram que entraram na democracia com um grande atraso económico face ao nosso País.

Foi a partir da época da perda de velocidade do progresso do desenvolvimento económico de Portugal que os mitos foram sendo criados e as desculpas se instalando. O autor demonstra o contributo negativo da riqueza do império e do Marquês de Pombal na evolução da economia do País. Deixa claro que são falsos argumentos a nossa perifericidade, a Religião e dimensão, mas desde o século XVIII que o método de desculpar os falhanços em cada época tem-se repetido e assenta em responsabilizar o regime anterior, muitas vezes desvirtuando a realidade histórica, para esconder os erros do momento e onde o discurso dos propósitos políticos em cada época, frequentemente, tendem a ser contrários ao dos seus resultados práticos.

Pombal responsabilizou os Jesuítas, apesar da inquisição ser presidida pelo seu irmão; os liberais responsabilizaram os absolutistas, os republicanos a monarquia, o Estado Novo a 1ª República e a Democracia atual a Ditadura de Salazar... enquanto muitos dos mesmos erros continuam a persistir e se assiste ao aumento da irrelevância do País e à ultrapassagem deste pelo desenvolvimento socioeconómico, agora até pela Europa de Leste.

No últimos 300 anos também houve períodos de recuperação, a obra também aborda os seus motivos, mas raramente reconhecidos pelo regime político seguinte. Eis um livro que não deve ser lido por quem se quer agarrar aos mitos e às mentiras que persistem para justificar as causas do atraso português, pois a verdade é dura e sem preconceitos ou desculpas.

domingo, 23 de agosto de 2026

"Extinção" de Kazuaki Takano

 

Excerto

"Todos os humanos desejam magoar o próximo para lhes arrancar a posse de alimentos, recursos e terra. Projetamos as nossas verdadeiras ideias nos nossos inimigos, tememo-los e atacamo-los. E, ao usarmos de violência contra os outros, a nação e a religião tornam-se os sistemas de suporte que perdoam as nossas ações. Os nossos feitos maldosos passam a ser defensáveis, porque consideramos estranhas as pessoas fora desse enquadramento. O inimigo."

Acabei de ler um romance de suspense do japonês Kazuaki Takano "Extinção" que requisitei na Biblioteca Pública da Horta e laureado com vários prémios de ficção criminal e mistério.

Um mercenário, com um filho a morrer de uma doença genética, deixa-se contratar para conseguir dinheiro para um especialista da doença em Lisboa o salvar, junto com ele, mais 3 outros mercenários, missão: eliminar um grupo nómada na floresta do Congo que dizem estar contaminado por um vírus letal para a humanidade; enquanto isto, vários investigadores no Japão estão empenhados na descoberta da substância que cura o defeito do gene, só que o núcleo do Presidente dos Estados Unidos supervisiona e manipula estas situações para esconder desumanidades e eliminar uma ameaça aos seus interesses pessoais e nacionais.

Apesar de a história ser um ficção e ter uma componente de especulação científica com o aparecimento de seres sobredotados de inteligência, o romance parece ser uma denúncia da presidência de George W Bush, embora com um heterónimo, pelo que aquilo que me parecia ser apenas uma obra de suspense para ler no verão, tornou-se num texto de ação vertiginosa, com momentos de exposição da grande violência que existe no centro de África e reflexões sobre o egoísmo na espécie humana, a tendência para a guerra e com um grande enfoque no abuso do poder dos Estados Unidos contra vários povos sem qualquer escrúpulo e no desrespeito total das pessoas.

A narrativa é muito cinematográfica e, apesar de toda a crítica e reflexão sobre a violência na espécie, cativa o leitor e gostei e entusiasmei-me muito, mas, ao contrário dos filmes de Hollywood, neste romance os Estados Unidos e o seu poder são mesmo maus na fita, agentes manipuladores, extremamente cruéis e hipócritas na civilização global, mas também a espécie humana é alvo de grande suspeita na sua bondade... a obra é anterior aos mandatos de Trump.

sexta-feira, 14 de agosto de 2026

"Cifra" de Mai Jia

 

Recentemente descobri uma secção na Biblioteca Pública da Horta de livros disponíveis de autores orientais e "Cifra", do chinês Mai Jia, despertou-me curiosidade.
Na rica família Rong o contacto com o mundo exterior da China permitiu descobrir um conjunto de grandes cérebros para a matemática, entre eles surge Jinzhen, apesar de mal acolhido e educado por compaixão por um estrangeiro, com a morte deste um parente próximo apercebe-se da sua inteligência e decide trazê-lo para sua casa e inscreve-lo na Universidade que a família dinamizou. Aí, a sua precocidade e genialidade original em resolver problemas matemáticos desperta interesse em núcleos de serviços de descodificação de vários países, sendo integrado ao serviço da sua pátria, numa unidade secreta, onde quebra uma cifra considerada inquebrável. Torna-se um herói nacional, mas a vida de um decifrador passa-se numa corda bamba entre o equilíbrio e o desequilíbrio mental, entre a admiração e a solidão e sua biografia será um retrato contado de uma forma com partes maravilhosas e outras amargas.
Quando escolhi o livro estimei que a narrativa seguisse o caminho de uma aventura entre códigos e perspetivas para a sua quebra de uma forma de que o leitor se envolveria nas pistas para a sua descoberta à semelhança de um policial e onde seria desarmado pela superioridade de Jinzhen. Afinal, após um exemplo exposto na vida do protagonista ainda criança que permite ao leitor participar, a história desenrola-se através de testemunhos de familiares e conhecidos sobre o herói e reflexões do narrador, numa exposição da sua biografia de uma forma calma, muito bem escrita e com pormenorizações do que é a solidão deste tipo de trabalho e da corrida entre nações na guerra da espionagem e contraespionagem.
Interessante que o controlo do Estado ao mundo da informação e também ao trabalho dos autores surge de uma forma natural na obra que se lê bem, apesar de um ritmo lento do seu desenrolar.