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terça-feira, 10 de março de 2026

"A Floresta Sombria" de Liu Cixin

 

Axiomas Iniciais

"a sobrevivência é a necessidade primordial de uma civilização"

"uma civilização cresce e expande-se continuamente, mas a quantidade de matéria no universo nunca se altera."

Ao ler "O problemas dos três corpos", do chinês Liu Cixin - obra de ficção científica que se tornou no primeiro romance da trilogia "O Passado do Planeta Terra" (apesar da história partir de meados do século XX, passar pelo presente e evoluir vários séculos para o futuro) - compreendi o seu sucesso no seu género literário, decidi ler os volumes seguintes e acabei de ler o segundo: "A Floresta Sombria".

A narrativa deste parte da exposição dos dois axiomas, este é um romance mais filosófico e menos centrado na física que o anterior, dividindo-se em duas épocas: a primeira dá continuidade ao volume anterior no início do século XXI e após o choque da divulgação do contacto com a civilização alienígena Trisolaris, a possibilidade desta chegar à Terra em quatrocentos anos e a ameaça de aniquilar a humanidade para aqui se estabelecer. Os protagonistas agora são quase todos diferentes. Assistimos ao surgir de vários movimentos sociais: os gerados pelo pânico da proximidade do fim, os humanistas ingénuos pela bondade que acreditam na coexistência pacífica, as Nações Unidas a buscar uma estratégia de sobrevivência ao embate com uma cultura mais avançada e os cientistas de várias áreas em busca de soluções para enfrentar o inimigo, mas há duas condicionantes:

1 - os alienígenas tem acesso a toda a informação do que se faz na Terra, só não acedem ao pensamento humano, o que leva ao Projeto Clausura com a nomeação de 4 humanos com poderes totais para cada um, secretamente, elaborar uma estratégia de salvação e os trisolarianos selecionam 3 pessoas para descobrirem os segredos (disruptores), desvalorizando Luo Ji, um astrónomo hedonista e excêntrico, mas o único que conhece os axiomas que não compreende e sabe as regras de derivação dadas pela mulher que estabeleceu o primeiro contacto extraterrestre, mas só pensa em tirar proveito do seu estatuto; e

2 - Os trisolarianos manipulam através dos cognis que enviaram para a Terra as experiências de mecânica quântica de modo a humanidade não evoluir científica e tecnologicamente.

A segunda época decorre dois séculos depois e, devido à descoberta da técnica de hibernação, alguns dos protagonistas voltam a acordar para concluir os planos dos enclausurados e enfrentar a ameaça dos trissolários, mas todos ficam desacreditados. Só que se entrou numa época em que a tecnologia evoluiu  para uma sociedade com grande conforto e deslumbrada do seu sucesso e bem-estar que se considera capaz de vencer o combate do Juízo Final com os Trisolaris. A humanidade vive em grande parte do Sistema Solar, tem frotas com naves de grandes dimensões e vida autónoma das aglomerações das nações em terra, todos possuem armamento nuclear de ponta, até à chegada da primeira sonda que põe a nu o grande fosso tecnológico imposto pelos cognis ao nível de física das partículas. O pânico instala-se e o combate é depois autodestrutivo, só Luo Ji percebe o porquê e é capaz de levar avante uma estratégia de controlo da situação, partindo de um ato seu que parecia tresloucado na primeira época como enclausurado.

Não sei chinês para comentar a escrita original de Liu Cixin, sei que a tradução direta do original para o português europeu tem uma grande qualidade literária. O escritor traz para a ficção científica a discussão de grandes questões filosóficas da humanidade, o que para muitos só seria aceitável nas grande narrativas de ficção tradicional, eleva o seu género literário ao das grandes obras de literatura mundial e, ao optar por condicionar grande parte da sua criatividade às limitações das leis das ciências, torna a sua narrativa muito mais credível e interessante. Num estilo totalmente diferente, "A Floresta Sombria" não me é menos marcante que "Os Demónios" de Dostoiévski, o lado negro que parece estar no interior de cada humano, afinal pode ser apenas uma necessidade. Parte do romance parece ter raízes em "A Laranja Mecânica" de Burgess, outra obra-prima fora das narrativas tradicionais.

O escritor não é benevolente com a humanidade, intencionalmente traz ao de cima um fundo sombrio no Homem, os axiomas da obra podem não ser verdadeiros, mas podem ser e, se o forem, o sonho de tentar comunicar com seres inteligentes extraterrestres pode virar a um pesadelo de consequências catastróficas.

Liu Cixin é um escritor chinês conhecedor da cultura ocidental, existem referências frequentes nos dois volumes a grandes personalidades e pensamentos ocidentais miscegenados com a autores e história da China, tornando-se numa obra literária com raízes globais.

Apesar da vasta cultura, menções e ideias profundas, Liu Cixin consegue uma narrativa que tanto pode manter a atenção de leitores que apenas leem na perspetiva de entretenimento fácil e suspense, existem passagens que quase parecem fazer parte de uma obra literatura barata, como levar leitores a refletir e a discutir as questões filosóficas e científicas semeadas na história, tornando-se num romance inclusivo para vários tipos de leitor, provenientes de culturas diferentes e por isso uma obra-prima.

Para já e ainda em estado de surpresa pelo conjunto destes dois romances, comecei a leitura do terceiro volume da trilogia, sabendo que há sempre o risco de desilusão depois de se ter estado num patamar elevado.

Citações

"Neste momento, o maior obstáculo à sobrevivência da humanidade é a própria humanidade"

"Haja civilização no tempo e não tempo na civilização"

"A escuridão é a mãe da vida e civilização."

segunda-feira, 11 de novembro de 2024

"PRESAS" de Michael Crichton

 

"Vai haver um momento, algures no século vinte um, em que a nossa inquietação cheia de autoilusões vai colidir com o poder tecnológico em constante crescimento. Uma área em que isto vai acontecer é a zona de contacto entre a nanotecnologia, a biotecnologia e a tecnologia informática."

In Introdução de Michael Crichton ao romance "Presas"

Após quase 20 anos voltei ao norteamericano Michael Crichton, autor do famoso Parque Jurássico que deu origem a vários filmes. Enquadro o romance "Presas" no género de suspense e especulação dos ricos da evolução tecnológica e científica atual sobre a Humanidade por perda de controlo ou falta de ética do seu uso.

Jack Forman é um programador informático que perdeu o emprego devido a princípios éticos, passando a tomar conta dos seus 3 filhos em casa, enquanto a mulher, Júlia, está a desenvolver um projeto em nanotecnologia noutra empresa que pretende revolucionar a medicina com a introdução no sangue de câmaras de filmar inteligentes. Jack começa a desconfiar do comportamento da esposa, um dos seus filhos desenvolve uma doença estranha, Júlia sofre um acidente em circunstâncias dúbias e ele é contactado do ex-emprego para cooperar num programa informático que está a ter resultados indesejados. Ele descobre que é o mesmo associado ao projeto de nanotecnologia da mulher. Uma oportunidade para descobrir o que há de estranho com ela e o pedido de auxílio vindo de quem o despedira, pelo que aceita. Vai para o laboratório no deserto e percebe que a equipa perdeu o controlo daquilo que criara, a tecnologia ameaça o criador e a Humanidade.

O estilo narrativo é de um relatório quase horário de uma semana de acontecimentos, expostos de forma muito cinematográfica, sem grandes artifícios estilísticos que desviem a atenção, mas com diversos diálogos fáceis e informações acessíveis de conhecimentos científicos que mistura teorias reais com aspetos especulativos que apoiam a hipótese da trama, com uma sucessão de momentos inesperados que geram suspense em cadeia que prendem o leitor e o levam a suspeitar do perigo que espreita as personagens, a própria humanidade e a necessária luta entre os que permanecem livres e os reféns da criatura criada que evolui com a sua inteligência artificial (na obra distributiva).

Crichton nem sempre foi bem recebido pela cultura literária dominante e woke, chamou a atenção de determinados excessos para refrear excessos e talvez, nalguns casos, fosse mesmo negacionista. Contudo, sou um admirador da literatura que concilia a especulação científica em obras de suspense e terror e já há muito tempo que nenhum romance me prendia tanto à leitura como este.

Para quem viu ou leu Parque Jurássico e gostou, aqui está outra obra que agarra o leitor com a mesma fórmula e, apesar de ser ficção, leva-nos a pensar sobre as ameaças que a ciência pode trazer se não for eticamente controlada pelo investigador ou patrocinador. Tudo o que li deste autor neste domínio adorei. Presas não foi exceção.

terça-feira, 28 de janeiro de 2020

"Nós, os micróbios e uma visão alargada da vida" de Ed Yong


"Nós, os micróbios e uma visão alargada da vida", do jornalista inglês Ed Yong, é um livro, li-o em e-book, de divulgação científica das espantosas descobertas nas últimas décadas na área da microbiologia que aponta para o fim do preconceito contra estes seres minúsculos que à partida consideramos como prejudiciais ao Homem quando, na realidade, apenas uma minoria escassa é patogénica enquanto a grande maioria vive em cooperação connosco e até podem ser instrumentos para reforçar as nossas defesas contra doenças.
Curiosamente terminei a obra em plena preocupação com uma possível nova epidemia global provocada por um coronavírus, mas, nesta obra, os micróbios amigos dos animais e das pessoas são bactérias e dos vírus, na generalidade, não tiramos benefícios, antes pelo contrário.
A obra tem uma escrita fácil e deixa claro as razões do nosso preconceito contra os micróbios. Depois, através da exposição de um grande número de casos naturais, mostra a cooperação entre animais e bactérias: simbiose. Demonstra que a maioria das espécies macroscópicas, inclusive o homem, vive em permanente intercâmbio com micróbios corporais que residem no exterior e no interior do corpo, o nosso bioma, e deixa claro que quer o nosso bem-estar quer a saúde, das pessoas e outros animais, resulta desta cooperação, onde cada um de nós é, na realidade, uma comunidade: um ser de maior dimensão carregado de bactérias e o individuo adição de todos estes seres.
Impressiona a descoberta de que o facto de sermos gordos ou magros e certas doenças podem estar dependente das bactérias que transportamos e existem evidência de transplantes de micróbios a curar certas maleitas e até alterar o peso no combate à obesidade e a tolerância de muitos alimentos.
Igualmente esperançoso é a possibilidade de várias viroses muito graves que afetam grande número de pessoas e sua transmissão, como o dengue, o zica, a elefantíase, etc. poderem vir a ser controladas pelo uso de bactérias.
Um livro que mostra que na generalidade as bactérias são nossas amigas que precisamos de saber conviver com elas para tirar o máximo proveito desta realidade.

domingo, 18 de agosto de 2019

"Zero K" de Don DeLillo

Excertos
"Todos querem ser donos do fim do mundo."
"O que é o eu?... Mas seremos alguém sem os outros?"
"A morte é um hábito que custa a perder."

Não sei bem como classificar o mais recente romance do americano Don DeLillo: "Zero K"; ficção científica ou especulação científica? Para o primeiro género, a obra passa-se na atualidade e na Terra, sem imaginar civilizações longínquas ou futuras. Para a segunda denominação que inventei, a estória fala de facto do uso atual da criogenia, a conservação do corpo pelo frio de doentes incuráveis antes de morrerem naturalmente, técnica usada na crença de que tal os permitirá um dia "ressuscitar" no futuro e curá-las dos seus males quando se encontrar a solução para tal. Algo que algumas pessoas, por norma muito ricas, se estão a sujeitar com base nesta especulação científica. O vencer a morte é o tema que em forma de ensaio e sem se dirigir para a criogenia já Yuval Noah Harari discute no livro Homo Deus que li este ano e com as mais diversas questões de ética e moral que a ciência pode colocar à humanidade, salvá-la ou destruí-la.
O romance é narrado por Jeffrey Lockhart, que tem dúvidas em como organizar a sua vida adulta: anda à procura de emprego e rejeita a influência do nome de seu pai, um multimilionário de Nova Iorque. Este convida-o a visitar um laboratório que patrocina algures na Ásia, lá descobre que se trata de um local de recolha de órgãos e conservação dos corpos de pessoas por criogenia. Nesta deslocação verifica que a sua madrasta, arqueóloga e com uma doença degenerativa, optou por esta solução e está à espera de se submeter à passagem para depois esperar por uma nova vida no futuro. Entretanto, Jeff recorda a sua relação com a mãe falecida, é confrontado com questões sobre a vida e a morte nas conversas com a madrasta e exposto a uma encenação sobre a crise global: guerras, catástrofes naturais, solidão e desespero que convidam à fuga deste mundo à espera de um outro diferente, havendo voluntários saudáveis para esta passagem denominados arautos e para os quais foi criada a zona Zero K que atrai o pai para acompanhar a mulher.
Entre os problemas da sua vida e daqueles com quem se relaciona socialmente, Jeff analisa a problemática em torno deste assunto: a ética, as incertezas, a solidão da espera e a ânsia de domínio da morte.
Uma escrita escorreita, em tom realista e sóbria, a que me habituei na literatura norteamericana atual que descreve de forma nua as situações incómodas da sociedade de hoje consumista, onde escasseia a esperança e os valores humanos. Contudo gostei do livro, apesar da perspetiva sombria que atravessa a obra.

segunda-feira, 1 de abril de 2019

"Homo Deus - História Breve do Amanhã" de Yuval Noah Harari


Li o ebook Homo Deus do israelita Yuval Noah Harari em inglês por não existir em suporte digital na língua de Camões em Portugal, uma vez que a edição brasileira não é comercializada na Europa por direitos editoriais, mas esta obra encontra-se traduzida em papel e pode adquirir-se no nosso País aqui.
Na cultura ocidental o Homem desde o início quis ser igual a Deus, é esta a tentação feita a Eva. Durante milénios o mal: a fome, a guerra, a doença e a morte foram vistos como resultado de castigos de Deus ou caprichos dos deuses, esse que movia(m) os cordelinhos que o Homem não dominava. Harari evidencia que nos últimos séculos a humanidade, através da ciência e tecnologia, foi eliminando (pelo menos nas regiões mais desenvolvidas) a fome e muitas das epidemias, tornando-se cada vez mais dona de si, até que se tornou autoconfiante e nasceu o Humanismo onde o Eu do Homem passa a ser o centro e relega Deus para longe.
Humanismo tornou-se uma nova religião e no século XX a política conseguiu criar vastas e longas zonas da Terra sem guerra, a esperança de vida aumentou e já há a busca do grande elixir da vida longa e o Homem sente-se como o deus que gere o seu destino.
Nas últimas décadas a Inteligência Artificial tornou o atributo para muitos característica exclusiva do Homo sapiens numa realidade exterior ao próprio homem e a tecnologia passou a ser capaz de criar ciborgues que substituem danos no corpo e inclusive podem melhorar a suas limitações e arriscamo-nos a criar Super-homems. Só que o humanismo e esta nova via de seres que superam o Homem têm genes que colocam em riscos o próprio Homem e as questões que isto levanta e as preocupações são o cerne do desenvolvimento deste livro.Até onde vai este Homo Deus? Qual o futuro do Homem com sentimentos? Esses seres Inteligentes que criamos sem sensibilidade e exclusivamente lógicos tratar-nos-ão como nós tratámos os animais domésticos? Será o Homem um mero algoritmo que pode ser independente de si mesmo?
Um excelente livro cheio de inquietações que vale a pena ler, onde se fala das religiões das modernidade sem Deus mas que criam o mesmo fanatismo das religiões do passado sem a moral que estava na respetiva base.

sábado, 21 de julho de 2018

"O Homem mais inteligente da História" de Augusto Cury


Li uma resenha num blogue de um amigo sobre este livro "O Homem mais Inteligente da História" do psiquiatra brasileiro Augusto Cury, referente a uma análise romanceada a dissecar a inteligência e a gestão emocional em Jesus tendo como base de trabalho o evangelho de Lucas que fora médico de profissão antes da sua conversão.
Junto com a resenha, uma entrevista com Cury onde ficava evidente que o autor ao analisar esta personagem que, tal como na obra, considerava uma montagem dos seus seguidores, chegara à conclusão que a coerência e a inteligência retratada por Lucas indiciava estar-se perante um homem real e genial e por isso o próprio autor se convertera num "cristão sem fronteiras", um crente não limitado por nenhuma religião específica.
Sendo eu uma pessoa de ciências naturais, que racionalmente decidira tornar-se ateu, mas que estranha e emocionalmente depois converti num cristão que não discute dogmas, senti curiosidade e suspeitas sobre esta obra, acabei por optar por um e-book do romance.
Apresenta uma escrita simples, diria popular e acessível, sem floreados, nem preocupações estilísticas ou pretensões literárias, mas correta. O romance tenta conciliar uma abordagem científica, baseada nas teorias neuropsiquiátricas do autor, em torno das personagens do evangelho de Lucas, com destaque para Maria e Jesus, que são discutidas numa mesa redonda de vários cientistas e teólogos, aberta ao público, com cobertura pela internet e liderada por um psiquiatra: Marco Polo, onde muitas das vidas privada dos intervenientes está ameaçada por desequilíbrios emocionais pessoais, alguns típicos do mundo atual, inclusive a do próprio líder.
A estória não termina, deixa uma porta aberta para novos livros que penso estarem publicados, tem a o interesse de analisar Jesus psicologicamente sem limitações teológicas ou fé, embora alguns aspetos me pareçam pouco aprofundados. Para quem tem interesse em conhecer melhor Jesus sem ser por um catecismo oficial ou hierarquias religiosas, é sem dúvida um maneira interessante de mergulhar nesta personagem que tanto influencia a sociedade mundial.

sábado, 2 de junho de 2018

"Moby-Dick" de Herman Melville


Excertos
Não quero no meu bote homem que não tenha medo da baleia.» ... a coragem mais consistente e mais proveitosa é aquela que nasce da justa avaliação do perigo diante do qual se está, ... um homem totalmente desprovido de medo é um camarada mais perigoso que um cobarde."


"... olhemos para esta portentosa mandíbula inferior, que se assemelha à tampa estreita e comprida de uma imensa caixa de rapé, com a dobradiça numa extremidade em vez de num dos lados. Se a abrirmos de modo a erguê-la e a exibir a sua fileira de dentes, parece uma terrífica ponte levadiça, e ai, é exactamente o que ela é na pesca para tantas desgraçadas criaturas..."

Compreendo! Não é a primeira vez que acontece. A trovoada da noite passada virou a bússola do avesso, Sr. Starbuck... mais nada. Presumo que já ouviste falar de um fenómeno destes.» ... uma vez aniquilada a sua qualidade de íman, a agulha antes magnética fica reduzida à inutilidade da agulha de tricotar de uma dona de casa..."

Este grande clássico da literatura do século XIX: Moby-Dick, do americano Herman Melville, é muito mais que a narrativa de uma viagem contada pelo marinheiro Ismael num navio baleeiro sob as ordens do capitão Ahab com a ideia-fixa de matar o cachalote albino que num acidente anterior lhe amputara a perna e a descrição da faina ali desenrolada. Este livro é também um enorme tratado, escrito de forma literária, da atividade da baleação e do conhecimento técnico, por vezes científico em meados do século XIX sobre os cetáceos e a vida dos baleeiros.
Apenas o primeiro quarto do livro e umas dezenas das páginas finais da obra, de um volume com mais de 600, são essencialmente de narrativa ficcionada, na inicial ficamos conhecer os antecedentes do narrador Ismael que o levaram ao navio Pequod, relatados com grande humor, e na última conta-se o confronto do capitão Ahab e da tripulação com Moby-Dick. Os dois terços centrais da obra são relatos de acontecimentos da viagem que servem de ponte à descrição da atividade e cultura baleeira e a caracterização dos cetáceos.
Tão importante são os aspetos descritivos e técnicos da baleação e cetáceos que muitos capítulos quase não importam para a ficção, são como "fichas" das múltiplas atividades desenvolvidas numa baleeira em viagem: a explicação das funções específicas dos diferentes membros da tripulação, das profissões a bordo e a estrutura de comando; a descrição em pormenor dos utensílios e do seu manuseio, sem esquecer as variabilidades entre comunidades baleeiras repartidas por vários locais da Terra, sobretudo no ocidente; a classificação científica das várias espécies de cetáceos baseada na anatomia externa e, por vezes, órgãos internos e ainda do potencial comercial de distintos tipos de cetáceos e descrição dos produtos obtidos; a exposição de todas as tarefas no ato da caça ao cachalote e transformação deste em alto-mar, sendo a embarcação um navio-fábrica com ferreiros, carpinteiros e outras profissões; os relatos das tradições, superstições e lendas que envolvem a baleação; e ainda e regras de cortesia, diplomacia e códigos de ética dos navios desta faina. Cria-se assim um quadro global de toda a cultura relacionada com esta atividade no mar e das comunidades portuárias associadas por volta de 1850.
A tentativa de descrever tecnicamente e numa linguagem com estilo literário de ficção e cheia de simbolismos, todo o saber dos cetáceos, numa época ainda radicada em muitas incertezas, leva a que por vezes não só se sinta a desatualização da exposição, dando-lhe um cariz que parece ridículo, como a inclusão dos cetáceos  nos peixes e não nos mamíferos, e a forte influência religiosa com numerosas referências ao antigo testamento na perspetiva das religiões protestantes mais radicais anglo-saxónicas, sendo o cachalote também designado por Leviatã e com frequência enquadrado em histórias bíblicas ou da hagiografia cristã, além de personagens e cenas simbólicas, dá um tom conservador e místico à obra numa estranha mistura de figuras de estilo e descrições mecânicas semelhante a tratados científicos medievais, onde o misticismo baralha as observações empíricas.
Por sua vez, as várias dezenas de "fichas" para os diferentes tópicos, o seu grande pormenor descritivo feitas neste estilo místico-científico e alheias à trama tornam a leitura do livro muitas vezes fastidiosa pelo enorme manancial de informação, as um bom documento para historiadores da baleação.
A escrita tem a marca da genialidade estilística do autor e é típica do século XIX, um misto de exposição jornalística cheia de metáforas literárias e opiniões do narrador, é o afinco de Melville incluir todo o universo da baleação neste romance que torna exasperante ler tanta informação sem importar para a trama, mas o escritor nunca secundariza o simbolismo  e misticismo em Moby-Dick.
Confesso, que dada a importância da baleação no Faial e Pico, ter conhecido baleeiros e ao descobrir-me bisneto de alguém que tinha convivido no século XIX com a baleação na Nova Inglaterra despertou-me interesse pela temática, caso contrário teria sido ainda mais difícil acompanhar tanto pormenor, apesar de se estar perante uma obra-prima e marcante da literatura mundial.
Eis uma grande obra literária que não se limitou a ser um romance, mas sim um compêndio completo do saber de então da arte e da atividade da baleação, o que torna esta obra difícil para muitos leitores devido à minúcia com que este assunto é exposto no seio da ficção, o que exige uma dose significativa de resistência para continuar a leitura até ao fim se a temática não interessar.

sábado, 12 de maio de 2018

"A Ilha do Doutor Moreau" de H. G. Wells


Excertos
"No entanto sabia que, se toda aquela dor estivesse a ser experimentada no aposento ao lado por alguém sem voz, acredito que poderia conviver com ela. É somente quando a dor alheia é dotada de voz e põe os nossos nervos à flor da pele que a piedade brota dentro de nós."

"Suponho que existe algo na forma humana que atrai a nossa mentalidade artística de modo mais poderoso do que uma forma animal qualquer. Mas não me restringi a produzir humanos."

"O tipo de inteligência que consigo em geral é de nível muito baixo."

Confesso que durante anos não li "A ilha do Doutor Moreau" de H. G. Wells por pensar que estaria perante uma obra juvenil, erro meu. Esta obra pode de facto ser lida de forma limitada como uma estória simples ou resultar numa adaptação ao cinema acéfalo dos efeitos especiais que despertam emoções sem regar a razão, mas o texto e a trama do livro inclui grandes reflexões ao nível de questões de ética na investigação científica e os riscos que a humanidade pode correr se a sua curiosidade não for temperada pelo bom-senso.
Como pessoa formada em ciências, este romance alerta que o querer saber e experimentar deve ter limites deontológicos. O primeiro excerto que acima publiquei aponta também para outro problema do comportamento do homem perante o sofrimento da humanidade e a sua consciência.
Após um naufrágio, o protagonista relata como foi salvo e despejado numa ilha onde um cientista obsessivo leva ao extremo a tentativa de transformar animais em humanos. Claro que esta aberração quando implementa só poderia levar à catástrofe e Wells é um escritor genial em contar histórias enquanto põe o leitor a refletir sobre a ética em ciências.
Tratando-se de uma obra anterior à descoberta da genética, a ferramenta encontrada para alcançar o fim pretendido parece-nos hoje arcaica, mas com manipulação de genes ou formas para o homem criar uma biodiversidade ao seu gosto de criador as questões de ética são as mesmas e são estas que saltam junto com a aventura do nosso náufrago.
Um livro muito fácil de se ler devido a uma narrativa límpida, elegante e descritiva sem recurso a grandes criatividades de escrita que perturbem o desenrolar dos acontecimentos e as reflexões são feitas de uma forma tão bem enquadra no evoluir da história que não dificultam a leitura. Gostei muito espero ainda ler mais obras deste escritor e um dos pais da ficção científica que vai além do entretenimento.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

"História do Mundo" de Andrew Marr



Eis um livro fora do campo da ficção, área que tem prevalecido neste blogue. "História do Mundo" de Andrew Marr é uma exposição da evolução da humanidade.
Começa com aquela Eva (não a bíblica, embora também aqui se especule) que acompanhou a primeira migração da humanidade para fora do berço africano que levou à expansão da espécie com os genes daquela mãe por todos os continentes da Terra.
Prossegue com o surgir da agricultura, das primeiras cidades como sociedades  organizadas e o surgir de civilizações em todos os cantos do planeta, descreve muitas suas características marcantes.
A seguir entra-se mais num rol de líderes de povos que foram desde heróis humanitários até agentes de terror, mas que moldaram o mundo global atual e termina com pormenores menos conhecidos do próprio século XX e volta a especular a partir de tendências de hoje em dia.
Não é um livro só com uma visão ocidentalista da história global. Nós somos frutos da miscigenação das culturas asiática, médio oriente e mediterrâneo, como Chinesa, Mongol, Indiana, Egípcia, Judia, Fenícia, Grega, Romana, Portuguesa, Espanhola Inglesa e Holandesa, etc. que deixaram marcas muito fortes à escala planetária, mas também somos resultado de civilizações quase esquecidas:  Etíope, Mali, Inca, Azteca e até de Aborígenes.
Houve guerreiros heróis pelas suas vitórias que espalharam o terror como Gengis Khan, Ivan o Terrível e derrotados que estiveram mais próximo de vencer do que de perder: Napoleão ou Hítler, mas é deste resultado final que se fala, mas também há heróis que venceram pela paz como Ghandi
Houve revoluções que para semear a justiça que cultivaram a injustiça e povos que se fecharam ao mundo e depois se abriram como o Japão que influencia o presente à escala global.
Houve gente que lutou pela igualdade e outros que apostaram na escravatura, mas que deu melhores condições que alguns que usaram pessoas livres na revolução industrial e neste confronto houve nações que o mundo ostracizou como o Haiti e outras que foram espoliadas de todo.
Há líderes megalómanos por orgulho e por amor, pessoas de onde brotaram religiões que ora libertam, ora escravizam e por vezes semeiam o amor, noutros o ódio.
O livro é uma história do mundo cheia de pessoas, informações, curiosidades, acidentes e incidentes que moldaram a Humanidade para quem gosta de saber como chegámos até ao presente não se limitando a uma visão ocidental.