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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

"O Louco de Deus no Fim do Mundo" de Javier Cercas

 

Acabei de ler o livro, em formato de ebook, da reportagem do escritor de ficção, espanhol e ateu, Javier Cercas, da sua viagem, em agosto de 2023, como convidado para a comitiva que acompanhou o Papa Francisco na sua visita à Mongólia, e intitulado de "O Louco de Deus no Fim do Mundo".
A obra contém várias partes, no início expõe a surpresa do convite, feito por Fazzini o editor de uma livraria católica, e a estranheza pela encomenda de um livro escrito por ele sobre a viagem, tendo total liberdade sobre o conteúdo do mesmo. Aceite o convite, Cercas assume o interesse em ter uma audição com Francisco, o que não lhe é garantido, ficou o compromisso de esforços nesse sentido.
Cercas revela a sua educação católica e factos da sua caminhada para o ateísmo, sendo os intervenientes no livro, normalmente informados do seu anticlericalismo, põe em contraste a posição dos Loucos de Deus com a dele, um Louco Sem Deus, mas anseia questionar Francisco sobre a crença da sua mãe na Ressureição da Carne e do reencontro dela com o seu falecido marido.
Na parte seguinte relata os dias em Roma antes da viagem, onde tenta compreender quem é o Jose Mario Bergoglio por detrás do Papa, expõe alguma informação biográfica resultante da sua pesquisa e entrevistas a vários homens fortes da comunicação social e cultura da Santa Sé, que genericamente chama de Soldados de Bergoglio. Aqui inclui o responsável pela Cultura do Vaticano, o poeta português Tolentino Mendonça. Assim, conhecemos a ideia que o escritor vai formando de como é Francisco, as marcas do seu papado, a revolução que faz no coração do Catolicismo e as resistências que o cercam
Depois vem a reportagem dos dias da visita à Mongólia, país onde quase não há católicos. Cercas conta em pormenor a viagem de avião, onde teve uma audiência privada com o Papa que deixa para o final do livro. Descreve o comportamento dos jornalistas presentes e das pessoas da comitiva papal que vai conhecendo. Contacta com vários missionários estabelecidos em Ulan Bator, que descrevem a realidade social e religiosa desta capital e dos Mongóis e reporta os eventos da visita oficial do Papa.
O relato da visita é composto de várias frentes: a dos jornalistas que são mais repórteres políticos com interesse na relação Igreja/China e sem interesse na mensagem religiosa e com ignorância neste domínio. Outra é as entrevistas a missionários vindos de África, América Latina e Europa para um meio tão diferente e a tentativa de perceber estes loucos de Deus no fim do mundo, faz questões difíceis sobre a fé e o seu dia-a-dia. A última é a descrição dos atos oficiais: os encontros políticos, inaugurações e uma missa, onde a sua perspicácia de analista não esconde as tensões, desconfianças e as máscaras entre a religião, a política e a sombra da China.
Por fim o regresso, que contém uma entrevista com o titular do discatério da Doutrina da Fé, ou seja, ao herdeiro da Inquisição e do Santo Ofício no papado de Francisco, outro argentino que até fora alvo da desconfiança do ministério tão mal afamado que agora tutela e a quem Cercas não deixa de fazer questões difíceis e falar sobre o credo e de contrastar este homem com "O grande Inquisidor" de Dostoievski no romance dos Irmãos Karamazov. Já em Barcelona, Cercas vem jantar com a mãe e traz-lhe a resposta que Francisco lhe deu sobre a Ressurreição.
Nunca li nenhum romance de Javier Cercas, mas esta reportagem mostra que é alguém que sabe contar uma história, reportar uma viagem, capaz de entrevistar distinguindo o que são as suas opiniões, crenças e formas de pensar, respeitando as ideias do outro e faz tudo isto com reflexões e análises críticas pessoais sem menorizar tudo o que em contrário lhe é respondido.
A obra tem um epílogo com um acontecimento posterior, a morte da mãe de Cercas, onde uma surpresa veio fechar com chave de ouro o livro deste homem ateu, anticlerical que mostra Jose Maria Bergoglio e o Papa Francisco sem complexos, mas sem qualquer tentativa de o repórter se tornar num apóstolo camuflado para gente sem fé. Vale a pena ler esta obra com muitas ideias para reflexão para crentes ou descrentes. Não é um livro religioso, mas fala de um Francisco verdadeiramente cristão que dirigiu o Vaticano.

quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

"Maus hábitos" de Alana S. Portero

Citações

"O medo que se passa no armário fabrica monstros a partir de sombras chinesas."
"Antes de conseguirmos definir-nos, os outros desenham os nossos contornos com os seus preconceitos e as suas violências."


Acabei de ler o romance estreia da escritora espanhola Alana S. Portero: "Maus hábitos", vencedor de vários prémios literários e um sucesso editorial naquele país.
O romance conta a vida de Alex pelos seus olhos desde criança, quando toma consciência que se sente mulher. Assim, fala do bairro pobre de Madrid onde vive, descreve uma juventude envenenada pela heroína, a vida de operários e domésticas com salários de miséria, famílias com violência doméstica tolerada pelas autoridades, prostitutas e travestis alvo de preconceitos e a sua tomada de consciência de que é diferente e precisa de tomar atitudes que a protejam da discriminação. Na adolescência, enquanto vai estudando, procura longe do bairro gente para relações, conhece o seu primeiro amor decepado pela intolerância, contacta com mulheres trans que a protegem até ser vítima de uma violência homofóbica. Fechada no armário, licencia-se, arranja emprego, mas vai necessitar do apoio da família e assim volta à origem até assumir a sua condição de transgénero já em pleno século XXI.
Apercebemo-nos por pormenores que Alex será o alter-ego da escritora e portanto a obra é quase uma biografia romanceada da sua sobrevivência numa Madrid desde os primeiros anos de democracia e liberdade, mas ainda dominada pela imposição dos costumes da ditadura.
O texto, cheio de metáforas e de imagens pouco comuns por mostrar uma perspectiva diferente da generalidade das personagens habituais na literatura, possui uma escrita sensível e terna, nunca erótica, mas há ações de violência física e psicológica sobre Alex, e muitas referências a artistas da década de 1980, menções de canções e filmes que moldaram a cultura daquela década e ligações as personagens da cultura clássica e da religiosidade popular. Saliento a ternura entre os membros da sua família, num permanente equilíbrio precário entre a incompreensão e a aceitação temperada pelo amor.
Literariamente é um livro bom, fácil de ler, sentimental e acessível a qualquer leitor livre de preconceitos ou para o ajudar a se libertar destes.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

"O Nervo Ótico" de María Gainza


Acabei de ler um livro muito elogiado pela crítica e numerosos leitores "O Nervo Ótico" da argentina María Gainza. A obra embora seja ficção não corresponde a um romance, são uma série de contos ou crónicas narradas por uma personagem feminina, guia turística, amante de pintura e residente em Buenos Aires.
Cada capítulo corresponde a uma crónica diferente no qual a narradora nos faz recordar um quadro, por norma do Museo Nacional de Belas Artes de Buenos Aires, e cruza a sua situação pessoal com os efeitos dessa pintura sobre ela ou conta um pormenor ou aspeto central da vida do pintor.
Assim, ao longo das diferentes estórias vamos percebendo pormenores da vida da narradora: a sua gravidez, memórias de família, a doença do marido, a juventude e namoros deste, a doença dela, o pânico de voar, relações de amizade que servem de mote para valar de episódios da vida, o estilo de pintura de artistas argentinos como o maneta Cándido Lopez, o espírita Augusto Schiavoni, ou outros e ainda nomes da pintura europeia como o mestre em pintar cavalos de Dreux, o academismo incómodo de Courbet, o deficiente Toulouse-Lautrec, uma partida de mau-gosto de Picasso e uma certa inveja de El Greco face a Michelangelo Buonarroti, etc.
Saliento a excelente escrita da María Gainza, dá prazer a sua estética, muito contemporânea, bela e fácil de ler, nem sempre comum nalguns novos estilos de escrita. 
Por norma sou um grande apaixonado por literatura que junta narrativa e informações artísticas como pintura e me faz descobrir obras ou autores. Hoje em dia com a internet posso complementar esses dados com pesquisas onde aprofundo essas indicações. Curiosamente, este livro conseguiu isso tudo numa técnica narrativa original, mas o livro não me deslumbrou como esperava, talvez porque as expectativas já eram muito altas após tantos elogios. Contudo, suspeito que entre as razões da minha falta de deslumbramento se tenha prendido com o grande número dos artistas da obra não serem os que mais me tocam e quando refere os que mais gosto a personalidade que deixa transparecer não é a mais favorável, assim aconteceu com Picasso e, sobretudo, com El Greco, por quem tenho uma grande admiração e conheço extensivamente a sua obra exposta, inclusive em Toledo.
Há um outro aspeto que me incomodou: a narradora é sempre a mesma mas há pormenores desta que não me soam coerentes e senti isso dentro de um mesmo capítulo. Apesar de tudo é uma obra interessante que dá a conhecer artistas, nem sempre os que mais brilham na constelação da história da pintura, e tem uma escrita que encanta.

domingo, 9 de setembro de 2018

"Um homem de partes" de David Lodge


Excertos
"Tive muitas aventuras. Na maior parte delas não houve amor. Pela parte que me toca - e também pela que toca à maioria das mulheres - tratou-se apenas de uma permuta de prazer. A ideia de que temos de fingir que estamos apaixonados por uma mulher para termos relações sexuais com ela - ideia que devemos ao cristianismo e à ficção romântica - é absurda. Só serve para causar frustração física e sofrimento emocional."

"Esta multidão de cérebros vagos, amáveis e acríticos é a matéria-prima com que o velho e querido Marx contava para exercer a ditadura do proletariado,"

Acabei de ler o romance biográfico sobre H. G. Wells - um dos pioneiros da literatura de ficção científica como previsão e alerta do evoluir da humanidade a médio-prazo fruto das descobertas tecnológicas conjugadas com os defeitos do sistema social na transição do século XIX para o XX - escrito pelo inglês David Lodge e com o título "Um homem de partes".
Recomendaram-me esta obra, não só para conhecer Lodge (de quem ainda só li um romance cheio de humor, este), mas, sobretudo, para compreender quem fora Wells, o autor de: A máquina do tempo, A guerra dos mundos, O homem invisível, A Ilha de Doutor Moreau e muito contos, de quem tudo o que lera eu gostara, por isto tomei a decisão de comprar este livro que foi um murro no estômago.
Wells, de origem humildes passou por dificuldades devido à pobreza na infância, mas foi sempre um leitor inveterado e com isto tornou-se num socialista não marxista, num hedonista defensor do amor livre no que considerava quase o cerne da mudança da humanidade, num promotor da igualdade de direitos para homens e mulheres sob um governo mundial único sem Estados, num interessado pelas descobertas em tecnologia e ciências e num escritor de grande sucesso com obras de ficção científica e chocantes pela promoção das suas ideias radicais que o torna rico e num praticante de sexo livre (deduz-se praticado com mais de cem mulheres cultas e de famílias influentes), sendo que as mais importantes na sua vida foram as suas esposas (curiosamente humildes e mesmo frígidas) e cerca de uma dezena de amantes jovens, inteligentes e progressistas, cujas manutenção da relação era do pleno conhecimento e compreensão da sua segunda esposa que sempre amou.
O livro que começa com o ocaso da vida de Wells, faz depois uma retrospetiva e discussão com ele próprio do que foi a sua vida, dos escândalos, das suas lutas políticas com socialistas mais moralistas, das diferendos com outros escritores como Henry James e Bernard Shaw e em paralelo assistimos às mudanças de mentalidades, às evoluções sociais, económicas e estilos culturais na Inglaterra desde 1860 até 1945 e na Europa com a revolução russa e as duas grandes guerras.
A escrita escorreita é principalmente de um tom alegre, por vezes sarcástico e crítico, embora a obra tenha poucos pormenores de práticas íntimas, o livro choca pela forma como Wells praticou  e defendeu amoralmente a sua visão de sexo livre, fez a sua defesa e a oposição aos ideais mais puritanos e tradicionais. Apesar de eu ser um respeitador liberal dos costumes, não sou um antagonista de certos valores cristãos e familiares e daí o grande murro no estômago que levei com este romance amarrado à realidade do que foi a vida de H. G. Wells. Mas é um grande romance.

sábado, 21 de julho de 2018

"O Homem mais inteligente da História" de Augusto Cury


Li uma resenha num blogue de um amigo sobre este livro "O Homem mais Inteligente da História" do psiquiatra brasileiro Augusto Cury, referente a uma análise romanceada a dissecar a inteligência e a gestão emocional em Jesus tendo como base de trabalho o evangelho de Lucas que fora médico de profissão antes da sua conversão.
Junto com a resenha, uma entrevista com Cury onde ficava evidente que o autor ao analisar esta personagem que, tal como na obra, considerava uma montagem dos seus seguidores, chegara à conclusão que a coerência e a inteligência retratada por Lucas indiciava estar-se perante um homem real e genial e por isso o próprio autor se convertera num "cristão sem fronteiras", um crente não limitado por nenhuma religião específica.
Sendo eu uma pessoa de ciências naturais, que racionalmente decidira tornar-se ateu, mas que estranha e emocionalmente depois converti num cristão que não discute dogmas, senti curiosidade e suspeitas sobre esta obra, acabei por optar por um e-book do romance.
Apresenta uma escrita simples, diria popular e acessível, sem floreados, nem preocupações estilísticas ou pretensões literárias, mas correta. O romance tenta conciliar uma abordagem científica, baseada nas teorias neuropsiquiátricas do autor, em torno das personagens do evangelho de Lucas, com destaque para Maria e Jesus, que são discutidas numa mesa redonda de vários cientistas e teólogos, aberta ao público, com cobertura pela internet e liderada por um psiquiatra: Marco Polo, onde muitas das vidas privada dos intervenientes está ameaçada por desequilíbrios emocionais pessoais, alguns típicos do mundo atual, inclusive a do próprio líder.
A estória não termina, deixa uma porta aberta para novos livros que penso estarem publicados, tem a o interesse de analisar Jesus psicologicamente sem limitações teológicas ou fé, embora alguns aspetos me pareçam pouco aprofundados. Para quem tem interesse em conhecer melhor Jesus sem ser por um catecismo oficial ou hierarquias religiosas, é sem dúvida um maneira interessante de mergulhar nesta personagem que tanto influencia a sociedade mundial.

terça-feira, 1 de maio de 2018

"Pão com Fiambre" de Charles Bukowski


Excertos
"A primeira criança da minha idade que conheci foi no jardim de infância. Eram todos muito estranhos, riam e falavam e pareciam felizes. Não gostava deles."
"O primeiro livro de jeito que encontrei foi de alguém  chamado Upton Sinclair. As frases eram simples e falava com raiva. Escrevia com raiva. Escreveu sobre os matadouros de Chicago. Dizia as coisas de forma clara e sem artimanhas."
"..., aprendi que os pobres serão sempre pobres. Que os ricos quando lhes cheira a pobre ainda se divertem com isso."
Acabei de me estrear no escritor que classifico de contracultura: Charles Bukowski, através do seu romance, tido como autobiográfico, "Pão com Fiambre", no Brasil "Misto Quente" e no original "Ham on Rye", onde se narra a infância e juventude do seu alter-ergo que surge em vários das suas obras, a personagem Henry Chinaski.
Henry, nascido na Alemanha nos anos 1920 cresce desde muito criança num bairro pobre de Los Angeles, com um pai autoritário, violento e incompreensivo das necessidades do filho, que impede até a sua integração social, e uma mãe submissa. A crise financeira arrasa a comunidade com desemprego e miséria. Na escola reinam os maus resultados de estudos, o ambiente é de guerra dos fortes e Chinaki sente-se rejeitado. Mesmo assim, luta para sobreviver, tentando tornar-se forte e vencer nesta luta diária.
Na adolescência um acne descomunal afasta-o das mulheres e da escola, tem uma sexualidade frustrada e terá a descoberta do gosto por escrever, mas o álcool e a violência juvenil continua a marcar o seu dia a dia. Ingressa na Universidade por falta de outras alternativas... sai de casa quando o pais espia os seus escritos duros que não poupam ninguém. Esta também foi, na generalidade, a vida de Bukowski antes do sucesso que mais tarde alcançou num género muito próprio.
O segundo excerto acima é também a característica geral da escrita do livro, com um humor ácido e delinquente, por vezes com recurso ao calão e à brejeirice grosseira, típica de meninos de rua e famílias disfuncionais. Ao contrário de Kerouac, não há drogas além do álcool e tabaco.
Apesar de amargo, gostei, não deixa de ser uma obra que dá conhecimento de uma realidade difícil e violenta de muitos estratos desfavorecidos da população urbana, exposta de uma forma crua, dura, por vezes grosseira, mas numa feita de uma forma divertida.

quarta-feira, 25 de abril de 2018

Biografia de "Pierre Elliot Trudeau" por Nino Ricci


Foi a leitura deste livro de ficção de Nino Ricci que me despertou interesse em ler outras obras deste escritor e comecei pelo género biografia, neste caso com um ebook, em inglês e referente à vida do primeiro-ministro mais emblemático da história do Canada: Pierre Trudeau, pai do líder do atual Governo Federal Canadiano Justin Trudeau.
Nunca lera biografias não ficcionadas, o presente livro/ebook é a história e a análise da vida de Pierre Trudeau com destaque dos aspetos mais marcantes que mudaram a sua forma de pensar, bem como as suas atitudes e decisões públicas que moldaram o Canada contemporâneo.
Filho de uma família conservadora católica de Montreal, Pierre foi educado num colégio religioso para famílias abastadas que induzia nos seus alunos a cultura francófona e o catolicismo como marcas de identidade nacionalista do Quebec para deste modo abrir uma frente ideológica de combate a facção anglo-saxónica e protestante minoritária na província mas fortemente maioritária e dominante ao longo de todo o País. Assim surge um jovem preparado para o combate separatista, ultraconservador e manipulado religiosamente que se alia a movimentos deste cariz e por vezes de cariz até fascista.
É este Pierre que depois vai estudar em Havard, Sorbonne e Londres e descobre uma realidade exterior ao seu meio fechado e retrógrado, contacta então com ideias diferentes, por vezes mesmo radicais de esquerda e passa a assumir-se como cidadão do mundo, fortemente influenciado por vários líderes filosóficos que lecionavam por onde passara. Por opção sua, vai à descoberta de outros países interditos ao seu mundo colegial: União Soviética, China e regressa mudado à sua cidade.
Pierre, uma esperança para o movimento elitista e separatista, de repente assume a defesa de mineiros numa greve, é ostracizado pelos influentes, funda um jornal onde expõe ideias revolucionárias como a não entrada do Estado na vida privada dos cidadãos, aproxima-se do partido federal liberal, é admirado por governantes de então e mais tarde lidera o partido e chega a Primeiro-ministro. Promove então uma revolução cultural e abre uma frente em prol do federalismo que entre em guerra direta com os mais aguerridos secessionistas francófonos, católicos ultraconservadores.
O líder do País, já de meia idade casa com uma jovem que por sua vez é alvo das revistas de socialite, o que perturba a estabilidade do casal e faz tremer ideias conservadoras por uma atitude extrema sua. Trudeau muda a constituição do Canada, assume o bilinguismo oficial e o multiculturalismo, reforça o papel social no Estado, ganha eleições, perde, volta a ganhar, mas a sua marca humanitária e de união são a referência do Canada contemporâneo.
O livro está brilhantemente escrito, de fácil leitura e por vezes é mesmo emotiva a forma como Nino Ricci expõe os dilemas ideológicos dele e da época, religioso e libertário nas várias fases da vida de Pierre Trudeau, tornando esta biografia cheia de vida, o que justifica o sucesso que foi o livro no Canada, apesar do seu  género literário. Gostei muito, o ebook pode ser acedido aqui.

domingo, 1 de outubro de 2017

"O Colecionador de Mundos" de Ilija Trojanow

O livro "O Colecionador de Mundos", do Búlgaro refugiado na Alemanha que viveu na Jugoslávia, Itália, Índia e Quénia e presentemente na Austria e escreve em alemão: Ilija Trojanow, narra de modo romanceado três importantes ações da vida do militar, aventureiro, espião e diplomata inglês do século XIX: Sir Richard Francis Burton.
Como todas as obras históricas, o romance está amarrado no essencial aos factos então ocorridos, mas vale pela forma de os narrar e os floreados à sua volta, criando uma obra original, criativa, com a análise social do encontro de culturas (indiana hindu e muçulmana, árabe e africana) e juntando ficção à realidade dos acontecimentos.
O livro é composto por três momentos da vida de Burton, cada um exposto com uma dupla visão que se intercalam e se completam: primeiro o serviço na Índia com a descoberta do hinduísmo, do islão, o choque de culturas e a desconfiança entre povos e onde se conhecem as impressões do protagonista e a versão do chefe de criadagem, um natural local; depois a sua peregrinação a Medina e a Meca, haje ou hadj, disfarçado de muçulmano indiano e integrado numa caravana de povos a partir do Cairo, neste feito que chocou o islão vemos o relato de Burton e uma recolha de testemunhos de companheiros crentes na tentativa de julgar o sacrilégio do infiel; e por fim a expedição a partir do Zanzibar que levou à descoberta do lago Vitória e da nascente do Nilo narrada por ele e um escravo local libertado guia dos ocidentais.
Assim se revela a vida de uma lenda que até à sua morte levantou especulação de qual a sua verdadeira fé, o seu modo de ver o mundo, os povos e as religiões. Um livro muito interessante, cheio de ensinamentos culturais, história, aventura e excelentemente escrito. Recomendo.



quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

"Adoração" de Cristina Drios


Acabei de ler o romance "Adoração" da escritora portuguesa Cristina Drios, estreado este ano de 2016 e a primeira obra que leio desta autora que tem merecido rasgados elogios nos meios literários nacionais.
O romance decorre em três épocas diferentes, que se alternam no decorrer da narrativa: a mais antiga em torno da execução do último quadro de Caravaggio, "Adoração com São Francisco e São Lourenço", exposto na capa do livro, e cobre, sobretudo, os últimos anos da vida do pintor após um crime cometido que o tornou num artista admirado mas foragido da justiça, bem como uma recriação da do patrocinador desta obra; outra época corresponde ao tempo que antecedeu ao roubo desta pintura em 1969 na cidade de Palermo, um facto real, envolvendo um conjunto de personagens relacionadas com o furto e a máfia. O último, quase contemporâneo, envolve uma jovens nascida no dia do roubo e um comissário da política marcado pela sua luta contra o crime organizado na Sicília, período em que se unem todas as pontas deixadas em aberto nos tempos anteriores.
Esclareço desde já que no conjunto mais restrito dos meus pintores preferidos está Caravaggio e este é talvez aquele que melhor conheço e de quem mais quadros visitei, pelo que tudo o que diz respeito a ele me interessa e me cativa, sentimentos que me podem influenciar na admiração que tive por este romance.
Quando comprei o livro, vendo a nota na capa "um polícia, uma rapariga, a máfia e Caravaggio" estava à espera de um mero thriller ou de um policial... mas não é. Temos um romance culto cheio de informações do conjunto dos trabalhos do artista, com denúnica dos demónios do pintor e dos demónios na Sicília de hoje, bem como a busca da redenção de quem espera o perdão, numa obra que dá a conhecer os últimos anos desesperados e de fuga do pintor, o génio cuja moralidade não é exemplar, numa sociedade onde os que se apaixonam pela arte também podem ter muito a esconder, problemas que à sua maneira se prolongam para os dois outros dois períodos da história ficcionada e mostram como hoje os mesmos fantasmas chiaroscuri característica dos quadros do pintor se repetem, apesar da arte que tempera este mundo de sombras e luz com a beleza de obras-primas onde a alma dos artistas fica exposta. Claro que se deduz que gostei do livro que tem muita reflexão íntima da mente dos personagens incluindo Caravaggio

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"O homem que gostava de cães" de Leonardo Padura


Acabei de ler "O homem que gostava de cães" do cubano Leonardo Padura, o livro cruza, através de capítulos intercalados, as vidas ficcionadas de Trosky, apenas como vítima e refugiado de Estaline; do seu assassino, o catalão Mercader; e os encontros do narrador do livro, um escritor falhado e vítima da opressão do regime em Cuba, com um homem doente, amante de cães que teria conhecido o criminoso e confidente dos pormenores da vida deste desde criança até ser formatado para o crime encomendado por Estaline e das suas reflexões posteriores.
Todos os capítulos, tanto nos aspetos ficcionados como nos históricos, são bastante prolixos em pormenores e descritos ora na primeira pessoa como memórias, ora como espetador, ora de forma romanceada, o que torna a obra muito densa, não só em termos de informação dos factos conhecidos, como também ao nível da especulação e, sobretudo, no aprofundamento do que foi a mentira criada em torno de uma proposta de modelo de sociedade igualitária para a libertação do Homem que se transformou num dos maiores pesadelos, máquina de morte e de opressão do século XX, onde Mercader um catalão inicialmente envolvido na guerra civil de Espanha foi trabalhado para ser um instrumento a ser usado para este engano, inicialmente como utopista de um sonho, depois desconfiado das mentiras e montagens que assistiu e por fim já consciente do mal mas impossibilitado de mudar o seu destino, no apaziguar da culpa ficou-lhe o amor pelos cães, tal como perdurou em Trostky e no narrador.
Um romance denso que é uma explicação de como foi possível transformar uma utopia numa distopia tão desumana. Uma narrativa onde, por vezes, o texto tem o aspeto de um relato quase jornalístico, noutras um estilo mais floreado com reflexões das personagens e dos sonhos e desilusões do mesmos, mas, sobretudo, uma denúncia destas terem sido conduzidas e vítimas do medo, um sentimento que é comum à outra obra de Padura que li este ano e falei aqui. Gostei e recomendo para quem quiser conhecer melhor o que foi o pesadelo estabelecido à sombra de um modelo que tinha como princípio libertar o Homem e cujo escritor também conheceu por dentro na sua adaptação a Cuba.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

"O Meteorologista" de Olivier Rolin


O livro "O Meteorologista" do escritor francês contemporâneo, Olivier Rolin, apesar de possuir na capa o termo: "ficção"; não é, nem uma biografia de uma personagem histórica ficcionada, nem um relato de um acontecimento real exposto em forma de romance, mas sim, uma espécie de relatório com a exposição da vida de um cientista russo, Alexei Vangenheim (ou Wangenheim), que liderou a investigação meteorológica na URSS entre as duas grande guerras, foi um comunista convicto e uma vítima do genocídio do período estalinista, sem se saber exatamente a verdadeira causa da sua condenação e que curiosamente enquanto preso desenhou um conjunto de quadros didáticos que remeteu à sua pequena filha os quais estão anexos ao livro que por si só merecem uma observação atenta.
A obra baseada em investigação do autor e de terceiros, encontra-se intercalada com reflexões do escritor, interpretações hipotéticas sobre o seu período de deportado, considerações sobre a época e uma análise final sobre o sonho que foi a revolução russa e a desumanidade que esta trouxe através do terror que destruiu o próprio objetivo. do comunismo soviético. O texto, embora sem deixar de ser o de um relato, está trabalhado literariamente e cuidado, havendo numerosas metáforas, referências a ideias lançadas por romances clássicos e questões filosóficas e excertos das cartas do Meteorologista e de documentos oficiais do seu processo ou que o enquadram na época. Apesar de tudo e da crueldade do acontecimento lê-se com um prazer e com grande facilidade, compreendendo-se porque Rolin é um dos escritores e romancista da atualidade francesa já com diversos prémios pela qualidade das suas obras.
Curiosamente, em investigação na internet, eu descobri que Rolin ideologicamente é ele mesmo um comunista maoista... outro campo sobre o qual seguramente há muito a investigar para se compreender como também a revolução cultural contribuiu para a destruição do mesmo sonho ideolgógico. 
Mesmo sem ser um romance, gostei muito de ler este livro que me deu o mesmo prazer como se fosse uma obra de ficção e as análises políticas e sociais que são feitas sobre o comunismo, o estalinismo e o Meteorologista não são feitas de uma forma ideológica para atacar o que está na base desta ideologia. Recomendo a qualquer leitor que goste de boas leituras e fáceis, independentemente de serem ou não ficção.