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quarta-feira, 24 de junho de 2026

"Passaportes falsos" de Charles Plisnier

 
Excerto
"Há mais altos valores que a verdade, camarada.... Posso falar desta maneira a um crente.
...
O importante é que a Internacional viva e dure; que continue forte; que os seus soldados, ao baterem-se; tenham a certeza de que ela não se pode enganar. O seu esplendor carece disso."

"Pode-se dar ao partido, camarada, alguma coisa mais que a vida."

Li pela primeira vez uma obra do escritor belga Charles Plisnier: "Passaportes Falsos": esta contém várias narrativas, baseadas e em torno de pessoas reais, que são contadaos pela memória do narrador. Este livro foi vencedor do prémio Goncourt de 1937, o primeiro a um autor não francês, e foi censurada em Portugal logo nesse ano e só em 2026 voltou a ser publicada neste País.
Um livro de contos, cujo narrador será o próprio autor que altera os nomes e os locais das personagens. Nas diferentes histórias, que decorrem entre as duas grandes guerras, o narrador recorda um grupo de pessoas partidárias do comunismo de Lenine e de diferentes países europeus que se envolvem no sonho ideológico da criação da Internacional Socialista e dos esforços por levar em frente o seu projeto contra os regimes ditatoriais de direita em Espanha, Itália, Alemã e Bulgária e em simultâneo com a ascensão de Estaline na União Soviética.
Na sequência das narrativas, vamos tomando consciência do grande sonho inicial dos ideais comunistas, das dificuldades de alguns em abraçar a causa e cortar com certos estilos de vida burguesa e da desconfiança entre alguns voluntários, assistimos a baixas heroicas provocadas pela espionagem dos Estados ditatoriais e por traições dentro dos próprios membros da luta proletária e vamos acompanhado a descoberta do próprio narrador dos abusos soviéticos perante o regime de Estaline, as purgas e as mortes por acusações falsas e exigência de uma obediência cega na nova liderança de Moscovo que arrasam o próprio ideal transformando-o numa religião dogmática onde a vida de cada herói deixa de ter valor face ao novo poder, isto para escândalo nas perspetiva racional do autor que é excomungado, mas não se esquece destas vítimas silenciadas que tudo fizeram pela Revolução.

É sem dúvida um livro político, com reflexões pessoais que marcam bem o que distanciou de facto Charles Plisnier da Internacional Socialista, numa escrita fácil, mais jornalística do que literariamente rica de figuras de estilo, mas cheia de humanismo perante a irracionalidade dos excessos de uma religião dogmática sem deus. Gostei e recomendo a quem gosta do tema ou quer saber mais do que foi o estalinismo.

domingo, 14 de junho de 2026

"Bússola" de Mathias Énard

 


Regressei ao escritor francês contemporâneo Mathias Énard, agora com a leitura do romance "Bússola" vencedor do prestigiado prémio literário Goncourt em 2015.

Franz Ritter é um musicólogo em Viena, recebeu uma informação médica que o preocupa e na insónia da noite vai recordando, aos longo das horas que passam até à madrugada, as suas viagens ao oriente, onde conheceu a francesa Sarah (uma doutoranda do escritor iraniano Sadegh Hedayat e das influências entre o oriente e ocidente na arte) por quem se apaixonou. Com ela teve estadias em Istambul, Alepo, Palmira, Damasco e Teerão. Nessas viagens, conheceu outros universitários, ouviu histórias de europeus que se encantaram com a cultura do oriente, interferiram com árabes, sírios, turcos e persas, bem como deram a conhecer grandes artistas ao outro bloco, bem como se deixaram influenciar pelo oriente com marcas nas suas obras e no movimento cultural europeu do orientalismo.
Apesar de a escrita do Énard recordar a do seu romance Zona, pois as recordações vão sendo narradas como uma sucessão de pequenas ondas que se avançam pela noite, agora há motivos centrais que permitem um fio condutor e unem a grande diversidade de informações e referências históricas que vão sendo progressivamente debitadas, nomeadamente: as reflexões sobre a paixão de Franz por Sarah e a sua timidez em concretizar os seus avanços; a influência entre ocidente e oriente nos dois sentidos e a discussão do tema da alteridade, com a identificação do outro ou a influência de um no outro e a miscigenação que daqui nasce na cultura.
Nas reflexões sobre as discussões que passam pela memória de Franz, vão sendo identificados e dissecado o papel de vários grandes nomes da cultura europeia que contactaram e transpuseram para a sua arte o oriente desde o século XVIII: Mozart, Hammer-Purgstall, Goethe, Félicien David, Mendelsohn, Chopin, Debussy até ao muito discutido e citado no romance - Pessoa, sobretudo no seu heterónimo Alvaro de Campos. Também são identificados e analisados grandes nomes da cultura do médio oriente desde Hafez e os compiladores recentes da sua obra, como Parviz, entre outros e os reflexos daquele na arte ocidental.
O autor mostra-se negativamente desagradado com o nacionalismo e cristianismo doentio de Wagner sob a influência das ideias racistas do escritor e filósofo Arthur Gobineau e evidencia que muita da violência que nos repugna presentemente no terrorismo islâmico também não refletem o sentimento da cultura e dos povos onde o mesmo ocorre e dá-nos um retrato muito humano de acontecimentos da história das cidades e povos visitados na obra.
Assim, ao longo de uma noite, onde inclusive as reflexões são interrompidas com mensagens pela internet entre Franz e Sarah, são expostas e analisadas obras deste intercâmbio, o que me permitiu descobrir algumas composições musicais e referência literárias magistrais e o seu papel na evolução da arte. Não é um texto fácil pois tem um ritmo por vezes lento, mas valeu bem a pena a leitura desta Bússola que aponta para o oriente e é um repositório de referências culturais.