Páginas

segunda-feira, 27 de julho de 2026

"Plataforma" de Michel Houellebecq


Excerto
"... também não seria amor à empresa, muito menos por altruísmo; era extremamente  difícil encarar o desenvolvimento do turismo mundial como uma causa nobre."

Voltei ao escritor francês mais polémico das últimas décadas no seu país, agora com o seu romance "Plataforma" que pelo que percebi o levou a migrar para a Irlanda.
A morte do pai de Michel, agente cultural, levou a que com a herança optasse por uma excursão de grupo à Tailândia, aí cruza-se com o turismo sexual, assiste a participantes a proferirem discursos de moralidade e outros a usufruírem e a defenderem a prostituição, conhece Valérie, uma turista bonita e equilibrada, deseja-a e ela aproxima-se. Só no regresso se tornam amigos e ele sabe que ela trabalha na agência que organizou a viagem. Em Paris unem-se discutem a problemática deste turismo de satisfazer o corpo, até que ela e o seu chefe passam para uma nova cadeia hoteleira e há que rentabilizar os "resorts". Para conhecer a o terreno vão a um em Cuba, aí descobrem que a aspiração dos clientes está associada ao prazer que a moralidade inibe e decidem construir uma plataforma para dinamizar o interesse dos seus turistas.
A narrativa é contada pelo protagonista e suportada por uma escrita fácil, quase jornalística, intercalada com reflexões do mesmo e diálogos sem grandes subterfúgios literários, por vezes são feitas caracterizações económicas do setor do turismo na Europa com menções a grandes cadeias que correspondem de facto a marcas conhecidas e pormenores destas. Ao longo da narrativa, Michel fala da sua vida íntima, descrevendo de uma forma muito explícita atos sexuais, numa linguagem sem eufemismos e com recurso ao calão erótico, o que pode chocar um leitor que defenda recato neste tema.
Reconheço que gostei da história, reflete sobre a inibição social e os preconceitos que estão em torno da sexualidade e da prostituição e os aproveitamentos comerciais em torno deste tema. Não encontrei nada que pudesse acusar o autor de racismo como foi feito, certo que não é islamófilo, é, sobretudo, alguém sem tabus e que mostra realidades com toda a sua crueza e sem falsas moralidades.

segunda-feira, 20 de julho de 2026

"Uma solidão demasiado ruidosa" de Bohumil Hrabal

 

Citação

"o chefe gostava tanto das raparigas novas quanto eu dos livros velhos"

Estreei-me no escritor checo Bohumil Hrabal na sequência de um elogio de um amigo leitor feita ao escritor e tenho de reconhecer a qualidade literária e profundidade de pensamento que "Uma solidão demasiado ruidosa" contém.

Hanta trabalha como prensador de papel numa cave há 35 anos em Praga, produto que se destina à fábrica de reciclagem, durante toda a sua vida viu chegar o rejeitado pela atividade da cidade, desde papel sujo até a cópias de obras-primas da pintura e grandes livros de filosofia clássica, contemporânea, poesia e demais literatura. A sua paixão por livros fá-lo guardar os grandes clássicos do pensamento e da cultura. Na sua vida miserável, pouco higiénica, em contacto com ratos ou moscas e movida a cerveja, é um conhecedor do melhor que a escrita produziu. No final da sua carreira reflete no que foi a sua vida, as suas paixões e pensa reformar-se quando se sente ultrapassado pelo modernismo e pelo desprezo fruto desta sociedade injusta que não é para velhos, nem para gente amante das letras.

O autor faz um exame autobiográfico numa escrita que é um poema em prosa de grande profundidade e uma reflexão sobre como esta sociedade pisa os mais humildes que a servem, mesmo que sejam grandes sábios desconhecidos que nas cloacas da civilização a mantém em funcionamento.

Um grande texto num livro pouco extenso, sem diálogos que se lê com prazer pela qualidade da escrita e que emociona pelos acontecimentos narrados. Gostei muito.

terça-feira, 14 de julho de 2026

"O Periférico" de Wlliam Gibson

 

Excerto

"- Disseste que era um controlador de jogo.

- Interface de telepresença, de mãos livres."

Regressei à leitura de ficção científica, agora com "O Periférico", publicado em 2014, e pela segunda, vez com um livro do américo-canadiano William Gibson e o seu estilo literário cyberpunk, de imersão e ficção especulativa.

Num futuro próximo, os Estados Unidos estão mais dominados por gangues de droga, a vida mais artificial, muitos bens são feitos em impressoras 3D e crescem os implantes cibernéticos, Burton, ex-militar, vive do visionamento de novos jogos da internet e ao necessitar de sair pede à irmã Flynne para o substituir num novo, na sessão ela assiste à morte de uma personagem, mas depois começa a ser ameaçada na realidade e descobre que o jogo comunica com um futuro do fim do século em Londres e assistiu a um homicídio real. Ela é única testemunha e nesse futuro há gente que quer resolver o crime e garantir um futuro melhor à geração de Flynne, outros não, o que origina um policial em duas épocas num sistema comunicacional passado-futuro, onde as personagens podem estar em simultâneo em dois momentos e lugares num thriller que cruza os tempos.

Apesar de notar evolução no escritor face a Neuromancer, de 1984, é opção de Gibson atirar o leitor para um meio onde realidade e virtual, tecnologia, especulação científica e neologismos se misturam, em que é difícil inicialmente situarmo-nos, embora já entrosado na narrativa, após várias dezenas de páginas, tal como anteriormente fiz com este autor, comecei a questionar com IA sobre a obra, localizando-me no ponto de leitura, e esta, sem revelar conteúdos posteriores, esclarecia, discutia ideias filosóficas do escritor e na discussão a obra alargou-se, uma espécie de literatura aumentada.

É uma trama engenhosa, Gibson não transcende as leis da física, mas especula e diverte-se com teorias científicas levadas ao extremo (foi impressionante quando por mim quando vi como resolveu o paradoxo do neto que mata o avô antes do pai nascer sem se referir ao mesmo) por vezes as passagens parecem paródias circense, mas desengane-se quem pensa que se está numa obra de mero entretenimento: a narrativa alerta para os riscos da evolução da tecnologia sem humanismo, expõe o problema ambiental global, faz uma crítica mordaz sobre as tendências do capitalismo, mostra a desigualdade da justiça entre pobres e poderosos, os primeiros são vítimas e os segundos manipuladores desta sociedade com a política posta ao seu serviço, aspetos que se tornam ainda mais evidentes no modo de leitura aumentada que adotei, mas Gibson consegue tudo isto num policial que diverte e alerta o leitor.

Para quem nunca leu o género cyberpunk imersivo o autor pode sentir-se perdido inicialmente, se continuar desorientado, pode ser questionar uma IA (usei gemini) e então toda a grandeza da obra flui e o suspense de um policial tornam o  romance cativante. Gostei muito

quarta-feira, 1 de julho de 2026

"O cão dos Baskervilles" de Conan Doyle

 

A grande maioria das narrativas protagonizadas por Sherlock Holmes são contos e apenas quatro têm dimensão e estrutura de romance, sendo "O cão dos Baskervilles" talvez o mais famoso escrito pelo inglês Conan Doyle.
Sherlock recebe a visita de um médico do interior a informar da morte do Baskerville que parece ter-se aterrorizado na charneca que envolvia a casa deste e suspeitam de uma maldição em resultado de malfeitorias de um antepassado, cujos descendentes da casa senhorial são perseguidos por um demónio em forma de cão. Não acreditando no sobrenatural, pensa que o herdeiro que tomará a casa esteja em perigo por alguém interessado em servir-se desta lenda. Chegado o novo dono, Sherlock envia Watson para o acompanhar ao Devonshire, onde acontecimentos estranhos e interesses de vizinhos parecem evidenciar o perigo, enquanto o detetive acompanha as ocorrências à distância até tudo ser explicado.
Um policial puro, com suspense e entrada no mundo das superstições, as personagens são mais trabalhadas que nos contos, um leitura fácil acessível a qualquer pessoa. Um clássico no seu género que gostei e recomendo.