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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

"Oliver Twist" de Charles Dickens

 

Acabei de ler um dos livros mais conhecidos do escritor inglês do século XIX Charles Dickens, o romance em parte autobiográfico "Oliver Twist". A narrativa corresponde à vida de um órfão nascido numa estrutura de acolhimento de crianças abandonadas e onde a mãe, uma desconhecida a aparentar fugir de uma família para salvar a honra desta, morreu ao dar à luz o bebé e batizado por Oliver Twist.

No início, os responsáveis pelos órfãos sem amor deixam-nos passar fome e frio para economizar verbas e daí tirar dividendos da poupança excessiva e o protagonista, humilde e de bom trato, é uma das maiores vítimas. Ao chegar à idade em que é possível explorá-lo como mão-de-obra infantil entra outra série de sofrimentos e perseguições a que foge e cai nas mão de ladrões que exploram adolescentes nos seus roubo. Na ingenuidade num treino de assalto é preso mas acolhido por alguém bom que vê nele os traços de uma conhecida, só que a tentativa de os bandidos o recuperarem leva-o ao que parece ser o seu destino até que num assalto mal sucedido a situação levará a um confronto entre a tentativa da sua retoma pelos bandidos, a identificação das suas origem e alguém que o odeia e deseja a sua perdição.

Esta obra, como muitas outras de Dickens, é uma denúncia da injustiça social, a defesa da reabilitação das vítimas pela vitória do bem. Oliver Twist cumpre esta estrutura na íntegra, tendo também memórias da sua infância e mostra do submundo da pobreza e crime na Londres de então. Muito bem escrita, embora com a leveza típica de obra publicada por fascículos em jornais da época, e é muito fácil de ler. Também, como habitualmente em Dickens, a maioria das personagens são estilizadas de forma aos maus não terem virtudes e inspirarem ódio, enquanto os bons são quase perfeitos e vítimas dos primeiros e ansiamos a sua salvação, tudo isto sob uma luz de conceitos religiosos sobre a luta entre  bem e o mal com uma lição de moral, o que dá uma encenação algo forçada, mas é género fácil de agradar a qualquer leitor.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

"O rapaz que seguiu Ripley" de Patricia Highsmith

 

Acabei de ler o quarto livro dos romances da americana Patricia Highsmith com a personagem Tom Ripley, um criminoso amoral, simpático e amante de uma vida elegante com luxo e bom gosto artístico: "O rapaz que seguiu Ripley".

O protagonista americano continua a viver numa vivenda nos arredores de Paris com a sua esposa, filha de gente rica, que é tolerante com a suspeita dos seus atos ilegais. Um dia-a-dia de bem-estar na prática musical, a acompanhar os seus investimentos nas galerias e escola de pintura de que é sócio onde se introduziram quadros falsos de um pintor antes assassinado e a apreciar boa comida e convívio social. Nisto cruza-se com um adolescente que ele descobre ser alguém fugido de uma família milionária nos EUA após a morte do pai, rapaz que se sente atraído por Ripley dado o seu passado de suspeito criminoso. Desenvolve-se então uma amizade entre os dois apesar do risco do jovem vir a ser reconhecido das notícias sociais e ser alvo de rapto para resgate, mas Tom descobre-lhe um ato criminoso no adolescente. Na tentativa de o levar até à sua família e distraí-lo, enquanto um detetive o busca eles viajam por Berlim, Hamburgo e serão ainda vítimas de bandidos que obrigam o protagonista aos seus habituais atos geniais de disfarce e crime de modo a salvar o rapaz.

Apesar deste livro ter momentos de tensão, assassinatos e viagens a submundos, neste caso a noite gay de Berlim Ocidental dentro do muro, e a frieza de Ripley, é um romance suave, terno atravessado pela veia protetora do criminoso amoral que chega a ser paternal para com o rapaz. Uma obra de entretenimento mais suave que as anteriores e de menor suspense nas dificuldades que o protagonista atravessa, um carácter que mesmo sendo mau é capaz de gerar simpatias noutros personagens dos seus livros e no leitor. Gostei, manteve-me interessado mas sem a tensão tão elevada como os anteriores, sempre bem escrito e entretém.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

"Khadji-Murat" de Lev Tolstoi

 

Acabei de ler a última das obras de ficção do russo Lev Tolstoi, uma novela que só foi publicada postumamente: "Khadji-Murat"
A trama passa-se no Cáucaso e dá-nos uma imagem da guerra de ocupação russa da Chechénia e da resistência do seu povo. Khadji-Murat é um chefe guerrilheiro checheno, convertido profundamente ao islamismo, que mesmo sem confiar no líder do seu povo, que o conduz numa "guerra-santa" contra o invasor cristão russo, lutou intensamente ao seu lado com importantes vitórias. Todavia, a desconfiança e o mal que reconhece em Chamil, leva-o a optar por pessoalmente se entregar ao czar através de militares ocupantes que lhe despertam confiança. Decorre então um período de desconfiança dos russos que o mantém cativo experimentalmente, entretanto Khadji-Murat é alvo de chantagem do seu imã que tem como refém a família do protagonista. Neste período vamos descobrir um homem íntegro que se vê entre o mau e ambicioso líder checheno e uma sociedade de militares e nobreza sem valores morais, viciada e interesseira, uma tensão entre dois mundos perversos em confronto que conduzirá ao choque final.
Uma obra curta, sem o vigor dos seus maiores romances, mas onde a filosofia que marcou Tolstoi está presente: a integridade do homem bom no seio do mal, as divisões culturais entre a Rússia e a Europa ocidental, o conflito do império com os vizinhos do sul, os valores das religiões e o desprezo por quem as usa como estandarte para conquistar ou manter o poder. 
Tolstoi, apesar de assumidamente cristão e russo, neste livro deixa claro os podres que gangrenam o seu povo e os crentes, sendo a integridade humana uma raridade que dificilmente resiste estas ameaças.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

"Baía dos Tigres" de Pedro Rosa Mendes

 

Excerto

"Capitalismo é exploração. Comunismo não traz progresso. Mas este país é miséria. Só há uma lei: manda quem pode e obedece quem tem juízo."

Acabei de ler o livro "Baía dos Tigres", prémio PEN clube de 1999, do jornalista, escritor e repórter de guerra português Pedro Rosa Mendes. Apesar da obra estar qualificada como romance, de facto é uma reportagem, provavelmente com personagens e passagens ficcionadas, mas radicadas em factos e pessoas que foram narrados ao autor ou este se cruzou.

Pedro Rosa Mendes em 1997, período de interregno na guerra civil angolana na sequência do acordo de Lusaka, implementou uma travessia de Angola a Moçambique que, em simultâneo, recordava várias viagens de séculos anteriores que foram então feitas na tentativa de unir estas colónias portuguesas e para o controlo luso desta faixa africana.  O livro é composto de pequenos textos com impressões da sua viagem que aqui são reunidos sob a forma de crónica, conto, ensaio ou reportagem, os quais fazem um retrato, sobretudo, do sul de Angola, um pouco de Moçambique e até da Zâmbia. Não sei se poderia chamar literatura de viagem, mas sem dúvida que é uma mistura de ficção e reportagem.

Mesmo escrito por um jornalista, todos os textos são trabalhados literariamente de um forma bastante rica e diversificada, nele estão incorporados figuras de estilo literário clássicas e formas tipicamente africanas: vocabulário, modo de pensar, falar e estar. Existem momentos a descrever o terror com humor, até hilariantes e de grande beleza imagética. Há outras passagens que são, sobretudo, narrativas descritivas e memórias ricamente trabalhadas de forma estética, que vão do alegre ao terror da guerra e passam pela amargura de um povo que não pode ter perspetivas à sua frente e onde os mais velhos têm memórias de outros tempos e os mais novos nem passado nem futuro, apenas a sobrevivência do presente. Há ainda poesia a pontuar a obra, poemas de guerra, poemas cheio de alma e tradições do sul de Angola. Há denúncias de situações, há relatos de horror e da sua destruição louca, mas nunca a escrita perde a forma de ser grande literatura, como qualificou a obra José Eduardo Agualusa.

No conjunto, o livro está cheio de vozes como as que compõe as obras da laureada com o Nobel da literatura Svetlana Alexijevich e não menor riqueza literária. No livro há sobretudo vítimas, percebe-se quem foram os senhores da guerra, percebe-se que há culpados e há oportunistas ainda piores que os maus e nem o poder oficial ou oposição são isentados nesta obra, mas o que Pedro Rosa Mendes faz é um retrato da situação no terreno naquele momento de interregno da guerra e por isso o tom alegre inicial vai-se tornando mais triste. Gostaria que houvesse uma obra equivalente atual para saber como está a situação no terreno hoje.

Uma obra que apesar de dura, a ternura e a beleza de escrita a tornam fácil de ler e gostei muito.


quarta-feira, 25 de novembro de 2020

"As aventuras de Augie March" de Saul Bellow

 
Acabei de ler o romance "As Aventuras de Augie March" do escritor nascido no Canadá que adquiriu a nacionalidade Norte-americana e vencedor do prémio Nobel da Literatura.
A obra é a autobiografia de Augie que a narra desde criança, quando viveu num bairro pobre de Chicago na década de 1920, até homem estabelecido socialmente e a viver no centro de Paris. Filho de mãe abandonada, com um irmão mais velho e outro mais novo com atraso mental e a partilhar o apartamento com uma anciã aristocrata fugida à revolução russa, ali acolhida para suportar os encargos da família carecida de dinheiro. Do amor à mãe lutadora aos conselhos da idosa autoritária que reconhece potencial nos irmãos mais velhos, o protagonista desenvolve a vontade de viver entre gente rica mas sem perder a sua liberdade individual. O seu aspeto atraente conjugado com o ar de filho abandonado inspiram os endinheirados a acolhê-lo e a adotarem-no, algo não muito diferente ocorre ao nível de mulheres bonitas. Numa vida comparada com a do irmão, que sobe mais rápido acomodado às exigências dos objetivos, Augie, além dos passos rebeldes da infância de bairro, segue uma luta de resistência aos seus protetores sempre que implique cedências pessoais, desperdiçando oportunidades flagrantes na sua alma rebelde à subserviência e por vezes passando por situações arriscadas com a lei, com a vida e com os seus grandes amores, mas sem nunca se desligar da necessidade de proteger as fragilidade do irmão mais novo e da mãe que vai cegando.
As aventura e desventuras de Augie são magníficas. Os retratos de Chicago pobre, do pequeno banditismo, dos efeitos da depressão e do modo de criação de fortuna em certas famílias são excelentes. O exotismo de certas personagens e das cenas passadas no México é fabuloso. Além das numerosas referências à cultura clássica e a personalidade da história da Europa e da América numa coletânea que demonstra o elevado nível cultural do autor. Todavia, o texto muitas vezes estende-se por numerosos pormenores e uma adjetivação excessiva que para mim o tornou demasiado extenso, nalguns momentos mesmo fastidioso de tão prolixo.
Por tudo isto, apesar de ser uma excelente história, confesso que para mim teria sido um magnífico romance se o autor tivesse tido a vontade de sintetizar e de cortar os excessos para que as mais de 700 páginas em letra miúda tivessem passado a cerca de 500 com uma dimensão agradável à leitura. Um bom romance que sei de leitores que desistiram cedo e por isso perderam muitas destas excelentes aventuras, mas a obra exige mesmo alguma resistência ao exagero de palavras.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

"A Nuvem de Smog e a Formiga Argentina" de Italo Calvino

 

Li "A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina" do italiano Italo Calvino, um livro constituído por dois contos que precisamente formam o seu título.

Apesar de diferente, ambos os contos evidenciam um desequilíbrio incómodo com a natureza envolvente, a obra tem o subtítulo de "Uma narrativa lírico-simbólica da relação de um homem com uma realidade" e, de facto, ambas narrativas são algo absurdas e narradas por um personagem masculino.

No primeiro conto, o narrador vem para uma cidade liderar o projeto jornalístico do trabalho de uma empresa em prol da melhoria da qualidade do ar, sendo que o seu gestor integra a de outra poluidora da atmosfera. O jovem vai aprendendo a arte de comunicar em conformidade com os objetivos do empregador, sendo que em paralelo observa o smog e o pó que conspurca tudo sobre a cidade, descobre a vida no bairro onde mora. Entretanto mantém uma relação com uma apaixonada rica que o visita, mas que vive fora da realidade do mundo do cidadão comum, com o avançar ele descobre um mundo de limpeza.

No segundo, uma família vem viver para uma cidade e descobre que a sua zona é dominada pela formiga argentina, esta tende a ocupar todos os espaços livres  e na luta do marido este descobre  um conjunto de vizinhos que vivem obcecados nessa guerra, embora cada um de forma distinta e por vezes com métodos contraditórios, havendo ainda quem renegue ver o problema por orgulho, para um final encontram um local onde gozam a ausência do novo inimigo.

Gostei do livro, embora os contos nos deixem algo incomodados, a obra evidencia que já na década de 1950 o autor se questionava sobre problemas do ambiente e os interesses que permitiam alastrá-los.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

"As Dez Figuras Negras" de Agatha Christie

 

Acabei de ler o romance de suspense, mistério e terror de Agatha Christie "As Dez Figuras Negras". Dez pessoas que não se convivem entre si são convidadas por um desconhecido a passar uma semana na ilha do Negro de que ele é proprietário e a curiosidade leva-as aceitar. Chegadas ao destino descobrem que o anfitrião não está. No quarto de cada um está a lengalenga dos 10 negrinhos que vão sucessivamente desaparecendo. Na primeira refeição são sujeitas a uma voz que as acusa individualmente de terem provocado a morte de alguém inocente devidamente identificado e são questionadas se têm alguma coisa a dizer em sua defesa. Após negações de uns e confirmações de outros, o comum é que nenhuma fora condenado pela justiça e decidem desistir da estadia, mas ficam isoladas pelo mau tempo enquanto vão acontecendo mortes que seguem o registo do texto dos 10 negrinhos. O terror vai-se instalando e a desconfiança sobre quem entre eles é o assassino até chegarmos às últimas vítimas.

Este é um dos enredos mais elaborados e imaginativos que já li na obra de Agatha Christie, bem escrito e com os pormenores muito bem articulados, num último capítulo percebemos como a estratégia foi montada, por quem e levada a cabo com o objetivo justiceiro de culpados cuja justiça não conseguia condenar. Gostei mesmo muito deste romance, foi do melhor que já li no género de suspense e terror sem nada de sobrenatural ou irracional. Recomendo.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

"As Mansão" de William Faulkner

Acabei de ler o romance "A Mansão" escrito pelo norteamericano galardoado com o prémio Nobel da literatura: William Faulkner. Este constitui o último da trilogia da família Snopes que li ao longo do corrente ano.
Esta saga familiar iniciada com a A Aldeia, onde Rattlif, um vendedor ambulante residente na cidade de Jefferson e excelente perceção, relata como Flem Snopes, o filho de um rendeiro recém-acolhido  nos domínios rurais Will Varner consegue, de forma capciosa e pouco escrupulosa, assumir a liderança dos negócios do homem forte e tornar-se senhor dos seus terrenos e ainda trazer parentes de forma a criar um clã ominoso e execrável que controle a zona. Seguiu-se a A Cidade, onde Ratliff, o seu amigo advogado Stevens e o sobrinho deste ainda criança relatam como o mesmo Flem vem com a mulher e a filha para Jefferson, a esposa deslumbra o advogado, enquanto a filha o tio e sobrinho, e em simultâneo por vias igualmente pouco dignas Flem estabelece relações com o Presidente da Câmara e banqueiro e com isso não só se torna maioritário na instituição como senhor da sua mansão e como afasta de forma vil os seus familiares que possam manchar a sua reputação pouco digna.
Este volume prossegue a saga de Snopes, desde a década de 1930 e prolonga-se pela de 1940 e é de novo contada pelos mesmos três narradores do segundo romance. Agora assistiremos ao modo como Flem se acomodou à sua situação de rico, como um primo Snopes detido de modo perpétuo nos volumes anteriores por falta de ajuda do líder do clã procurará agora vingar-se e o papel da filha do banqueiro em tudo isto a coberto de uma bondade ideológica onde tentará corrigir erros e retaliará dentro de portas, no que culminará com o fim do domínio regional de Flem Snopes.
Logo no início do livro Faulkner alerta-nos para a existência de incoerências entre este romance e os anteriores e de facto algumas são mesmo incompatíveis ou inconsistentes, mas faz parte da evolução de como ele desejou para as suas personagens, sendo que este último foi escrito duas décadas depois do anterior. Uma vez que os lera há poucos meses a memória logo se apercebeu de contradições e reformulações, por vezes extensas, de acontecimentos contados antes.
No que se refere ao estilo de escrita, Faulkner, além do quase permanente tom de ironia e insinuação a aspetos futuros, utiliza o fluxo de consciência, ou seja: a narrativa vai sendo destilada ao ritmo da memória, da fala e da observação dos acontecimentos, sendo ainda intercalada com análises e considerações do narrador que surgem encadeadas e sem filtro ao longo de frases extensas. Isto faz com que o texto pareça caótico com mudança brusca de sujeito, do tempo, do local ou do ângulo do comentário e exige grande atenção para o leitor não se perder. Eu adotei há muito um método de ultrapassar esta dificuldade em Faulkner: ler ao ritmo da narrativa, construindo mentalmente a história sem me fixar nos pormenores que a rodeiam, o que torna mais fluida a leitura, mas há por vezes que reler um parágrafo descubro aspetos da narrativa não fixados, só que o essencial fora retido. Ler Faulkner é um desafio, pois cada parágrafo é um denso ramalhete das mais díspares informações cuja beleza brota do conjunto e exige técnica.
O primeiro volume tem um tradutor diferente dos outros dois, estes parecem-me ter um brilho e vivacidade superior, mostrando como a tradução pode realçar ou enfraquecer um livro escrito em língua estrangeira. Há outros escritores com narrativas intencionalmente difíceis, mas poucos me cativam como Faulkner. Recomendo-o a quem gosta de desafios de leitura e sabe tirar prazer destes.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

"Os últimos dias dos nossos pais" de Joël Dicker

 
Citação
"A coragem não é não ter medo: é ter medo e, mesmo assim, resistir."

Após ter lido a segunda obra de ficção do escritor suíço Joël Dicker", regressei a este autor com o seu primeiro romance publicado "O último dia dos nossos pais" com a qual ganhou o prémio Escritores de Genebra de 2010, este é um livro que se distingue de todos os outros que ele desde então saíram, pois não é um livro policial nem uma obra de suspense apesar de incluído no género de espionagem.

Após a invasão alemã de França, no início da II Grande Guerra, o jovem de 21 anos parisiense, órfão de mãe e extremamente ligado ao pai, decide ir para Inglaterra para lutar contra o invasor. Em Londres é selecionado para integrar uma rede de espionagem na sua pátria a exercer em território ocupado. Acompanhamos a sua formação intensa com cerca de duas dezenas de pessoas, só uma é mulher, o que dura vários meses de exercícios duros com grande desenvolvimento de amizade e espírito de grupo, apesar de alguns irem sendo eliminados, os finalistas tornaram-se numa família coesa embora com gente diferente, Paul e Laura apaixonam-se, mas o respeito na equipa é total. Estes espiões são enviados para o terreno com tarefas específicas e separados uns dos outros, pontualmente cruzam-se mas o segredo das ações de cada um é fundamental para a segurança. Todos são ricos de sentimentos e o amor do casal ou a carência deste noutros está presente, mas o mais forte é o amor filial de Pal, o que o leva a uma medida drástica e de risco que depois será conhecida pelos colegas que nunca deixarão que um colega perca a honra de herói e até um alemão inimigo deixa-se cativar por aquele filho.

Apesar da escrita deste romance não se pautar pela criatividade e riqueza de figuras de estilo literário, o texto é todo ele de uma grande elegância e atravessado pela amizade, amor fraterno, filial e romântico, o que lhe confere uma grande beleza e mesmo quando a narrativa é de tensão e tragédia nunca perde o tom e postura calma, o que é uma raridade em obras de espionagem em ambiente de guerra e talvez este seja o melhor trunfo deste livro, pois a dor é coberta de ternura que se estende ao inimigo. Um romance diferente que gostei e fácil de ler.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

"Sinais de Infinito" de Humberto Moura


Acabei de ler o romance "Sinais de Infinito" da autoria de Humberto Moura, açoriano e residente na ilha do Faial e de quem sou amigo de família desde jovem, tendo recebido este exemplar por oferta do próprio, com dedicatória já há uns anos e já octogenários mas portador de uma grande lucidez e cultura em vários campos. 

A presente obra vem na sequência de outro romance do autor: "Sismo na Madrugada" que já li ainda antes deste blogue se dedicar à divulgação das minhas leituras, que me deixara então bem impressionado, o qual era referente a um filho do Faial e de mãe solteira que se destacara pela sua inteligência e por condicionantes pessoais e da ilha que o levara a sair da sua terra se tornara num jornalista de referência numa cadeia estrangeira e correra o mundo, passando a ser uma pessoa mundialmente influente, conhecida e próxima de muitos líderes  e acontecimentos que marcaram o século XX, mas que no ocaso da vida se recolhera às origens como um simples cidadão pouco compreendido pelos seus conterrâneos ainda isolados do exterior.

Sinais de Infinito prossegue a saga familiar através da neta: jornalista e igualmente famosa na mesma cadeia internacional de comunicação social. Contudo o anterior protagonista apenas soube da sua existência e a conheceu nas vésperas da sua morte já no final do anterior romance. Harriet Terra agora irá tentar perceber melhor quem foi o avô através dos seus amigos mais chegados no Faial nos últimos tempos e por um diário que terá sobrevivido ao sismo de 1998. Entretanto faz uma reportagem televisiva sobre a sua personalidade que coloca a ilha no palco do mundo, gerando um alvoroço na terra e a seguir vai visitar locais por onde ele andou e ver-se-á envolvida no cenário de uma das maiores guerras de transição do século XX para XXI.

O autor cria um romance com elementos históricos e conteúdo enciclopédico pelo saber e diversidade das personagens em torno das quais a obra progride que têm uma amizade de grupo: a jornalista conhecedora e crítica do mundo contemporâneo, um padre historiador do Faial, um médico local que questiona o seu papel na sociedade e, sobretudo, um investigador da Horta de ciências, entendido nos maiores filósofos, gnóstico e herético e interessado em descobrir o prolongamento da vida. A este núcleo juntam-se personagens secundárias que complementam o ramalhete: o presidente da câmara interessado em tirar proveito político do fenómeno, um leitor dos documentos dos Açores no arquivo nacional, uma criada do Pico entendida no saber popular e um operador de câmara sobrinho de um escritor famoso com sucessos sobre conflitos com temas de sociedades ocultas, religiões e o graal.

Deste leque brotarão numerosas reflexões sobre questões éticas e morais da sociedade contemporânea, menções a personalidades do passado e suas ideias que se destacaram pelo seu saber gnóstico, científico ou filosófico e foram vítimas dos poderes da sua época, o que permite um debate sobre os objetivos da vida, o envelhecimento, o prolongamento da esperança de vida com qualidade e as questões das ciências, tudo isto com uma pitada de especulação em torno do ocultismo e a colocação do Faial no centro de um papel messiânico para a humanidade. A referência a temas gnósticos, maçónicos e filosóficos tem um papel muito importante na obra.

A narrativa opta por ser escorreita sem a perturbação de escritas criativas que estão na moda, contudo autor destaca em itálico numerosas expressões locais e pensamentos que pretende levar à reflexão, postos em confronto, por vezes devem refletir a opinião do autor expressados pelos seus personagens, concorde-se ou não com essas deduções.

Gostei imenso da contextualização da Horta no evoluir da história dos últimos cinco séculos devido ao seu papel como porto que acolhia a navegação mundial que passava no Atlântico Norte e como polo das telecomunicações no final do século XIX até meados do XX, dando oportunidade para numerosas revelações do passado da ilha e da complementaridade com o Pico. Apesar da referência a se estar perante uma obra de ficção, na verdade é possível perceber a influência de certas personalidades da ilha que serviram de fonte às personagens e, inclusive, o quanto do autor (porque o conheço) está na forma de olhar o mundo de hoje e as questões morais e éticas levantadas.

Apesar da grande quantidade de assuntos abordados mais ou menos profundamente, o livro lê-se muito bem e mesmo centrado no Faial tem temática para interessar leitores de qualquer outra região, mas sem dúvida a compreensão da sua riqueza aumenta se o leitor conhecer bem as ilha do Faial e Pico e suas gentes, permitindo assim tirar muito mais gozo da leitura desta obra. Não é essencial ler o romance anterior, mas não só ajuda como é muito interessante esse primeiro volume da saga que poderia dar uma trilogia.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

"A Casa Grande de Romarigães" de Aquilino Ribeiro

 

Excerto
"O amigo está numa casa em que todos, até os mais patifes, eram católicos desde as unhas dos pés até à flor dos cabelos. Lá que alguns pecaram pecaram....Uma casa fidalga sem pecado é mais enfadonha que uma boda sem bebedeira."

Acabei de ler o romance, o autor chama-lhe crónica romanceada, "A Grande Casa de Romarigães" do escritor português Aquilino Ribeiro, que possui uma obra vasta desde o final de 1.ª Grande Guerra até à década de 1960.
O livro conta a história das várias gerações que construíram, ampliaram e viveram nesta casa solarenga do Minho, com capela e uma grande quinta do lugar de Romarigães, um imóvel classificado de interesse público. A narrativa começa no início do século XVII, período de Portugal sob o domínio espanhol, e vai até meados do século XIX, já no período constitucional após as lutas liberais. Um solar com origem no sonho de um padre em adquirir o terreno, o que conseguiu a bom preço, que duma relação amorosa ilícita teve um filho que  permitiu prosseguir uma dinastia fidalga que dominou a zona e ali se estendeu por cerca de 300 anos, onde se falará da restauração, do terramoto de Lisboa, das invasões francesas, das lutas liberais vistas à distância da capital.
Não existe uma trama, mas sim uma sequência de biografias dos senhores da casa (desconheço se são personagens reais), sendo que desde o início até ao final praticamente todos cheios de defeitos morais, tanto na sua vida privada, como nos métodos de assegurar a influência social e de preservar o património na família. Seis gerações de escassas virtudes e muitos vícios, vários dos atos mais importantes na obra estão ilustrados com estampas a preto e branco que valorizam o livro.
Aquilino Ribeiro viveu nesta casa como genro de um dos primeiros Presidentes da República que dela foi proprietário e quando esta já fazia parte de outra família que não a da dinastia das crónicas deste livro, considerado um dos mais importantes da literatura nacional de meados do século XX.
O escritor utiliza um vocabulário muitíssimo rico, com muitos regionalismos do Alto Minho, a que adiciona numerosos sinónimos raros das palavras de uso comum, pelo que deduzimos o seu significado: ora pelo contexto, ora com recurso ao dicionário se quisermos acompanhar toda a riqueza lexical da prosa. O tom utilizado é, na generalidade, satírico e mordaz, o que cria uma sucessão genealógica que varia de mesquinha a pródiga, patrões injustos e abusadores, quezilentos, dominados pela lascívia, preguiça ou oportunistas, tudo isto a coberto de valores tradicionais religiosos, ligados ao clero e ao poder. A literatura lusa tende a ser  um contraste absoluto da inglesa que tende a dignificar os líderes da comunidade e o seu povo, nesta obra praticamente ninguém desperta respeito, algo que talvez explique uma certa mentalidade portuguesa que penso também ter deixado escola o Brasil, que conduz à normalização da maledicência e à destruição da imagem da generalidade dos seus líderes sociais.
Como romance está excelentemente escrito e é uma narrativa cheia de vida.

Estado pouco conservado do imóvel presentemente
(fonte Wikipedia)

terça-feira, 29 de setembro de 2020

"O Mundo de Ontem" de Stefan Zweig

 

Acabei de ler, em formato e-book mas disponível em suporte de papel, o livro de memórias "O Mundo de Ontem" de Stefan Zweig. Judeu, austríaco, autor de largas dezenas de novelas em que explora as situações extremas a que podem levar as tensões dos sentimentos de que muito tenho gostado, escreveu também várias biografias de investigação sobre personalidades históricas que admirava. Considerava-se cidadão do mundo e fugiu do país natal com a ascensão do nazismo e teve como último refúgio o Brasil.
Nesta obra Zweig começa por enquadrar a sua família judia no contexto do centro leste da Europa, o modo como a comunidade a que pertencia se integrava e dinamizava a sociedade de então e faz um retrato da mentalidade coletiva da época onde os seus ascendentes enriqueceram.
Seguem-se as memórias da sua infância na cidade de Viena, a vida nesta, os seus deslumbramentos pela atividade cultural desta capital, sobretudo patrocinada pelos judeus, os preconceitos e os tabus morais de então, usando uma língua que em simultâneo mostra compreensão e crítica aspetos ultraconservadores que hoje nos chocam. Zweig encontrou-se com líderes culturais do teatro à literatura que lhe estenderam a mão e tal possibilitou a entrada no mundo do pensamento, teatro, literatura e dos jornais tendo então e viajado por numerosos países europeus, América e Ásia sempre a encontrar-se com os pensadores que admirava e almejava compreender. A sua lucidez nunca o impediu de ver os riscos do alheamento e da crença no sucesso do mundo que se vivia na Áustria e na Europa que ignorava as ameaças que conduziram à primeira grande guerra e a uma mudança de mentalidade de todo Continente.
No pós-guerra, mais amadurecido e já reconhecido como um dos grandes pensadores da época, Zweig integra-se na comunidade de filósofos e escritores defensores de uma Europa unida, supranacional e em prol do desenvolvimento fraternal da humanidade, assim fala com alguns dos grandes líderes culturais do velho Continente, volta a viajar pelo mundo, apercebe-se das loucuras dos anos vinte, das mudanças exacerbadas das mentalidades, dos extremismos que a cultura e a moral estavam a seguir e das dificuldades das populações nos Estados derrotados. Esteve ns União Soviética sem se deixar enganar pela propaganda e cedo temeu a ascensão dos nacionalismos e extrema-direita no ocidente. Insistiu em denunciar a situação, contou com a colaboração de grandes pensadores e com Hitler a tomar o poder viu a sua obra ser proibida e a premonição levou-o a fugir para Inglaterra e a tornar-se pária, mas ficou cidadão de Estado inimigo quando da guerra, Compreende-se então, mas não conta, o exílio no Brasil. Deixa claro que teve esperança que a América Latina fosse o fiel depositário dos valores humanitários que brotaram da Europa que se a suicidava em nome de ideologias destrutivas.
Não sei, talvez porque no exílio tenha compreendido que o Brasil não iria continuar o seu sonho de um mundo supranacional e humanitário ligado aos valores fraternais por que lutata suicidou-se pouco depois de terminar estas memórias.
Na realização dos retratos da época, exposição dos pensamentos do autor, forma de ser dos povos e o evoluir destes ao longo de meio século, bem as esperanças e desilusões das gentes, a análise crítica de Zweig é escrita com uma perfeição tal e com uma capacidade de síntese enorme, que ele próprio explica, que deslumbram e dão uma vida à narrativa que parece estarmos a viver o que ele viveu, as suas alegrias e tristezas vistas na primeira pessoa. Vale mesmo a pena ler este livro para conhecer o mundo de ontem e, sobretudo, ver e comparar com o presente para compreender melhor o mundo de hoje e as ameaças que nos estão a cercar. Muito, muito bom mesmo.

sábado, 26 de setembro de 2020

"FANNY OWEN" de Agustina Bessa-Luís

 
EXCERTOS
"A amizade não proíbe a ingratidão da lucidez."
"O amor não é senão uma cristalização do desejo."
"As calunias fáceis são obra de desejos infecundos."

Acabei de ler o romance "Fanny Owen" de Agustina Bessa-Luís, baseado num caso real, com personagens históricas e ocorrido em meados do século XIX na cidade do Porto. Segundo o prefácio da autora, esta obra surge na sequência do convite para fazer os diálogos do filme "Francisca" de Manuel de Oliveira. Contudo, lendo-a, é fácil ver que este livro não é a montagem desses diálogos.
José Augusto é um jovem morgado rural que perdeu a mãe. É dado a uma instabilidade emocional sofredora e vive uma certa devassidão no Porto à sombra da amizade do escritor Camilo Castelo Branco. Nesta cidade vai conhecer as filhas Maria e Francisca (Fanny) de um militar escocês que casou em Portugal com uma mulher da corte de D. Pedro IV (I no Brasil) no Rio de Janeiro. Entre estes dois amigos e as duas irmãs vai surgir uma relação de amor, ciume, traição, escândalo público e um casamento, que Camilo, talvez por vingança, levará a uma tragédia. Pelo meio reflexões da guerra civil onde o escritor lutara ao lado da fação miguelista perdedora e o modo de Camilo sobreviver com as suas publicações nos jornais locais.
Agustina, como sempre nas suas obras, não faz uma narrativa linear, vai dissertando sobre a complexidade psicológica das personagens, as suas inseguranças, intenções e ações irrefletidas, o que vai intercalando com situações ocorridas no passado misturadas com pistas para o futuro da história que está a contar e o momento que está a relatar, tudo isto de uma forma labiríntica, pontuado por máximas que saem naturalmente da autora que deixa soltas no texto. Isto conduz à montagem de um "puzzle" ou à pintura de um quadro global esbatido entre as numerosas reflexões, considerações, possibilidades psicológicas e a história em si.
Neste conjunto de quatro protagonistas centrais tratados ao pormenor, Agustina faz um retrato maior de Camilo, disseca a personalidade do escritor mais profícuo do século XIX em Portugal, ela que é sem dúvida a escritora mais profícua do século XX neste País, gerando assim um choque de gigantes da literatura portuguesa, que faz faíscas, ao misturar admiração com abominação, reconhecimento de uma genialidade literária criativa com um agir maquiavélico destrutivo para os que lhe são contemporâneos. Um caso único nos numerosos livros que li.
Se nas obras de pura ficção Agustina arquitecta narrativas complexas que esboçam por detrás retratos da realidade, sobretudo, do norte de Portugal e da personalidade feminina; neste relato histórico, ela consegue espremer as possibilidades da realidade que a torna num esboço ficcional do que pode ter ocorrido e coloca Camilo com todas as suas contradições num estrato acima da mediania que o cercava. Gostei, para mim foi uma obra fácil de ler por gostar e estar familiarizado com o estilo, para outros poderá exigir esforço para seguir a direito este labirinto narrativo.


sábado, 19 de setembro de 2020

"CONTOS de Tchékhov" - Volume II - Anton Tchékhov

 


Penso que nenhum escritor é tão famoso pela obra contista como Tchékhov, uma das estrelas maiores da sublime literatura russa do século XIX, sei que escreveu centenas de contos e penso que estão todos publicados nesta coleção da Relógio d'Água com mais de uma dezenas de volumes. Não costumo falar da editora, mas são tantos os livros com narrativas dele que se não os referenciarmos podemos estar a falar de coletâneas completamente diferentes. Não sei o critério de distribuição dos contos nesta série, mas não é cronológica.
No volume II "Contos de Tchékhov" temos 11 narrativas, algumas com cerca de uma dezena de páginas e outras acima de 50, talvez só numa o desfecho é uma lição de moral, na sua maioria são relatos da personagens comuns acomodadas ou vítimas da vida, por vezes vivendo com dificuldades, noutras vencendo como oportunistas e há ainda os desiludidos e os indecisos, um conjunto de protagonistas que não são heróis diferentes da população em geral, mas todos são únicos e essa particularidade é tratada com mestria pelo contista.
Não sei russo para falar da escrita original, mas a tradução origina textos magníficos, ricos em vocabulário, inclusive de uso na época, e tratados com um cuidado que faz sentir dentro do leitor o frio da Sibéria, a injustiça da estratificação social, a fome do pobre, a modorra do ocioso ou indeciso, a esperteza do oportunista ou a fé e superstição do crente. Narrativas que transmitem reflexos multifacetados de uma jóia excelentemente talhada que me deslumbra e fazem o retrato do povo Russo à época, apesar de uma realidade bem diferente da de hoje podemos ver muitos casos similares no presente.
Vale a pena ler, isto é literatura no seu estado puro sob a forma de conto, gostei muito...

sábado, 12 de setembro de 2020

"Perry Mason e o caso do Gato Distraído" de Erle Standley Gardner

 

Depois de uma obra tão densa, seguiu-se um policial de puro entretenimento "Perry Mason e o Caso do Gato Distraído" do escritor norteamericano Erle Standley Gardner de quem lera várias obras na minha adolescência.

Helen recebe um telefonema do tio a solicitar um encontro secreto para trazer consigo o advogado Perry Mason, tio que desaparecera há 10 anos quando ela era adolescente, e será guiada por hóspede de um hotel, logo a seguir é avisada por sua tia que o gato está com convulsões, descobrindo-se no veterinário que fora envenenado. Mesmo assim, Helen encontra-se com o advogado, mas dá-se o assassinato do guia e ela, Mason com a sua secretária veem-se numa noite atribulada, onde Helen e o namorado quase são mortos, ocorrem desvios de testemunhas na competição entre a polícia e o advogado, acabando o caso no tribunal onde a perícia de Mason e o comportamento do gato levará à descoberta por ele da verdade que clara é diferente da teoria das autoridades.

A trama desenrola-se a um ritmo alucinante, num jogo de competição onde o advogado recorre a métodos estrambólicos no limiar da legalidade e por isso muitas cenas estranhas surgem sequencialmente, mas quando tudo parece perdido para Mason, ele consegue ligar todos factos de modo simples e ainda vencer.

A escrita em português é elegante e bem tratada, apesar de ser uma mera trama de entretenimento, suspense e onde várias explicações surgem de forma que nos surpreendem, lê-se bem devido ao ritmo dos eventos e dos métodos pouco ortodoxos do advogado e do seu sentido de humor. Gostei e é de muito fácil leitura.

sábado, 5 de setembro de 2020

"Os Sete Pilares da Sabedoria" de T. E. Lawrence

 

Acabei de ler um livro com cerca de 800 páginas que é em simultâneo um romance e um relato histórico real, memórias narradas e vividas pelo autor. Uma obra de grande sensibilidade e beleza de escrita literária e também um texto de reflexão sobre o que era o papel e a mentalidade das potências europeias sobre os outros Povos no início do século XX que se torna numa mensagem de respeito e tolerância pelas outras nações, suas culturas e religiões. "Os Sete Pilares da Sabedoria" é o relato da batalha da frente árabe durante a primeira guerra mundial, vista do lado dos árabes mas através dos olhos de um inglês ao serviço da Inglaterra, T E Lawrence, mais conhecido por Lawrence das Arábias na sequência da adaptação desta obra ao cinema. O autor teve como papel estudar e unir todos os povos da península arábica a Damasco numa identidade nacional para assim lutarem pela sua independência do império Otomano governado pelos turcos de Istambul, tendo no seu trabalho integrado a mentalidade dos povos a sublevar e assumido a personagem e comportamento árabe sem renegar a sua identidade de origem como modo a conseguir o respeito e confiança das mais variadas etnias árabes.

Lawrence encontra-se na embaixada no Egito durante a 1.ª Guerra Mundia sendo encarregue de procurar no seio dos árabes um líder para fazer aderir os povos do médio-oriente a uma causa contra os turcos aliados dos alemães. Parte para a península e entre as famílias dominantes da zona e entre vários contactos seleciona Faiçal da dinastia dos Hashemitas para liderar a sublevação com a promessa de posteriormente estes Povos puderem ter independência e estados com a liberdade dos europeus. Passa a integrar os militares da Faiçal e em paralelo dá início a uma guerra de guerrilha e cativa as tribo para o combate, viajando com os árabes adota os seus costumes, trajes e passa grande parte do tempo isolado dos ingleses. Mais tarde as suas vitória tornam as suas forças num braço armado autónomo mas a servir os ingleses na conquista da zona até Damasco, embora tenha a consciência que as potências europeias se vencerem não darão o estatuto de independência que considera justo. 

Brilhantemente escrito, é um relato de guerrilha, mas só na última centena de páginas assistimos a relatos de combates clássicos, o livros com várias viagens em território desértico descreve pormenorizadamenre a paisagem, o clima e a geologia da região, enquanto vamos descobrindo como são as tribos, a sua diversidade e mentalidade e os problemas de consciência de Lawrence, tão próximo sentimentalmente de Faiçal e dos seus chefes guerreiros com quem desenvolve uma amizade e respeito profundo. Uma edição que foi publicada por crowdfunding de potenciais leitores pela E-Primatur, na qual participei, um livro com várias imagens que me orgulho de ter contribuído para a sua publicação, apesar de extenso e do grande número de personagens e topónimos difíceis de decorar, apesar de vários mapas de apoio. A obra mais rica e importante que li nos últimos tempos. Uma obra-prima.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

"Crime no Vicariato" de Agatha Christie

 

Acabei de ler mais um policial de Agatha Christie, "Crime no Vicariato", a obra onde a autora integrou pela primeira vez a sua personagem de Miss Marple. Um dos romances considerados entre os mais geniais da escritora.

Na aldeia de St. Mary Mead o vigário vai-se se reunir com o coronel Protheroe para uma fiscalização às contas da paróquia depois de uma fiel ter reclamado que dera uma maior nota na coleta que o valor declarado. Toda a gente sabe do encontro e muitos odeiam o militar que persegue caçadores e cidadãos pacatos em nome duma justiça sem tolerância. Antes da hora da reunião o vigário é chamado a casa de uma doente, um falso alarme, no regresso encontra um pintor que fora expulso da mansão de Protheroe e amigo da esposa deste e da filha em delírio por ter encontrado o inspetor assassinado no escritório de vicariato. Entre o sacerdote, a sua esposa e passando até pela família da vítima há muitos suspeitos locais para o crime que a polícia investiga, mas a vizinha da casa ao lado é uma velhota observadora de tudo o que se passa à volta e apesar de um pouco inconveniente é capaz de interpretar o comportamento de todos e, com tal atributo indiscreto, de desvendar quem matou de facto o coronel.

A obra, de escrita escorreita simples, tem como primeiro narrador o vigário que conhece toda aldeia, inclusive os que ali estão de forma um pouco estranha, aos poucos chegam-lhe aos ouvidos todos os mexericos do lugar e, inclusive, os comentários daquela vizinha humilde mas inconveniente e vê a arrogância do polícia. Assim, surpreendidos com a lógica avançada da idosa e o trabalho árduo da autoridade vamos percebendo as muitas hipóteses, exclusões e motivos que até podem ter raízes antigas, até que quando tudo parece esclarecido Miss Marple ainda tem mais uma palavra dar na solução final. Para lazer é um excelente romance no género, onde transpira o ambiente rural inglês e o estilo de vida da comunidade anglicana. Gostei e valeu a pena ler.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

"O Herói das mulheres" de Adolfo Bioy Casares

 

Estava com saudades de estórias curtas, pelo que optei por ler o livro de contos do argentino Bioy Casares: "O herói das Mulheres", correspondendo este título ao do último desta coletânea de 8 narrativas reunidas em cerca de 150 páginas.

Existem alguns contos muito curtos, os maiores têm cerca de uma trintena de páginas, como os que abrem e fecham a coleção. Temos sobretudo narrativas fantásticas ou surrealistas na mesma linha da do amigo do autor: Jorge Luis Borges, com quem partilha a honra de ser um dos maiores escritores da Argentina. Algumas tornam-se divertidas pelo seu final surpreendente, outras são absurdas, mas o conjunto evidencia a diversidade por onde a psique humana se perde, labirintos entre a realidade e a imaginação.

Desde de um túnel curto que une pontos longínquos por onde um estudante se desviou em fuga aos estudos e encontrou o amor que se lhe tornou inacessível; a uma descoberta útil para o aproveitamento da dor física; ao jovem que não segue os conselhos da mãe e sai protegido pela magia; ao homem que foge da mulher obsessiva mas que a encontra no fim da sua fuga; à mulher que viaja em primeira-classe justificando as desvantagens; um intrincado jardim fantástico que embaraça a fuga de um jornalista perseguido politicamente; ao rapto por fantasma que talvez seria um tigre. Tudo isto numa panóplia diversificada e interessante. 

Para quem gosta do género é um livro muito bom entre o estilo de Kafka e de Borges, e também excelentemente escrito e narrado.

sábado, 15 de agosto de 2020

"A Improvável Viagem de Harold Fry" de Rachel Joyce

 

CITAÇÃO
"uma vida não fica completa enquanto não encontra o seu desfecho."

Acabei de ler o romance de estreia de Rachel Joyce: "A improvável viagem de Harold Fry", com o qual ganhou o National Book Ward para o melhor primeiro romance de escritor em 2012, embora eu já tivesse lido este outro romance posterior dela.
Harold vive numa cidade no extremo sul da Inglaterra, reformado, vive com a mulher que o rejeita e o critica permanentemente, recebe uma carta de uma ex-colega a informar que está em fase terminal de um cancro e espera que ele esteja bem. Harold, que já não a via há 20 anos, lembra-se de uma amizade que terminou com o despedimento dela. Enche-se de compaixão e responde-lhe uma carta singela que decide pôr no correio, na ida sente que é pouco, alguém lhe fala de atos de fé para salvar outra doente e ele toma de imediato a resolução de ir a pé até ao hospital que se situa na cidade mais a norte do País. A decisão é logo posta em prática e já no caminho após muitas horas comunica-a à mulher e prossegue a viagem que durará dezenas de dias, sacrifícios extremos, conhecimento do mais diversificado tipo de pessoas, interesse jornalística e aproveitamentos. Em paralelo, ele vai dando notícias à mulher que não sabe come agir e ambos vão refletindo nos falhanços do seu passado como um exame de consciência e de compreensão do outro que mudará para sempre as suas vidas.
Um romance muito original, cheio de ternura e dureza em simultâneo, que faz uma crítica à sociedade atual e aos comportamentos coletivos e muito bem escrito. Tem uma técnica que por vezes parece deixar-nos cair num sentimentalismo fácil que logo é cortado por uma chamada à razão de forma implacável, pois a realidade é mesmo assim: com alegrias e dores e temos de conviver com isto e superar o mau sem nos amarrarmos a sonhos impossíveis.
Gostei muito da narrativa, por momentos comoventes, outros duros, alguns irritantes, alguns murros ao leitor que se deixar levar pela crendice fácil e surpresas praticamente até ao final.

sábado, 8 de agosto de 2020

"Meio Sol Amarelo" de Chimamanda Ngozi Adichie

Excerto
"Há coisas tão imperdoáveis que tornam outras facilmente perdoáveis."

Acabei de ler "Meio Sol Amarelo" da nigeriana de etnia igbo Chimamanda Ngozi Adichie, vencedor do Pulitzer Prize. Este é o terceiro romance de ficção dela que leio, ela que também é autora de ensaios sobre o feminismo, mas os romances não se centram nesta temática.
No início da década de 1960 Ugwu é uma criança de 13 anos que a tia leva para cidade para ser o criado da casa do professor universitário Odenigbo, ele será o narrador central à sua volta. Na morada reúne-se gente com esperança no futuro glorioso de África. O dono tem uma relação amorosa com Olanna, filha de um dos homens mais ricos do País e habituado à corrupção para singrar nos negócios, via que a filha rejeita. Esta tem uma irmã gémea, Kainene, que dirige empresas do pai e desenvolve uma relação com um jornalista inglês encantado com a cultura local. Todos vivem tempos de fartura e esperança no Estado recém-independente. Este grupo, culto e rico, é da etnia igbo, maioritariamente cristã ou animista que vive no sudeste do país e é o que mais progride politica e economicamente na Nigéria, mas a rivalidade de outras tribos leva ao seu massacre no norte muçulmano. Então as províncias onde eles se concentram declaram-se independentes sob o nome de Biafra, o que levará a uma guerra civil com grande mortandade dos civis pela fome devido ao bloqueio alimentar com o conluio das grande potências mundiais e pelos bombardeamentos federais. É o o período de luta pela sobrevivência em que a esperança dá lugar ao medo e à necessidade de decisões extremas e os problemas do passado terão de ser ultrapassados pelo amor e altruísmo, face aos ódios, oportunismos e morte no Biafra.
O livro está dividido em quatro partes: na primeira, início da década, ficamos a conhecer o estilo de vida desta gente pelos olhos de Ugwu; na segunda, já no início da guerra, é evidente terem existido problemas nos casais por ciúmes, traições e choque cultural; a terceira vai ao revelar as situações problemática nestas famílias; e na última, a mais extensa, acompanhamos o agudizar da crise humanitária até à derrota do Biafra onde todas as anteriores tensões são secundárias face ao que se vive durante a guerra. Contudo, quase não há relatos de combates, a obra centra-se na dificuldade das pessoas civis e não na frente.
A escrita é escorreita, sem grandes rasgos estilísticos, bem temperada pelos sentimentos humanos e vida íntima, o que torna a obra fácil de se ler, pois toca o coração do leitor. No conjunto aprende-se o que foi a vida no Biafra durante a guerra vista do lado de quem, cheio de esperança, lutou pelo que acreditava e viu-se derrotado. Uma lição de história romanceada, eu que nem sabia onde era o Biafra fiquei a saber muito do que foram as feridas abertas pelo colonialismo, descolonização e guerra-fria em África.
Portugal, nunca é referido diretamente na obra, mas esteve do lado do Biafra e um corredor humanitário existente no romance fazia abastecimento alimentar com grande risco via São Tomé, então colónia portuguesa, mostrando a posição lusa. Gostei sobretudo pelo que aprendi numa boa narrativa onde o humanismo nunca desaparece mesmo no meio das atrocidade que vamos assistindo.

sábado, 1 de agosto de 2020

" Morte no Nilo" de Ágatha Christie



Acabei de ler o policial "Morte no Nilo" da escritora britânica rainha neste género literário: Agatha Christie; um dos romances considerados no grupo dos seus mais geniais.
Uma jovem rica e bela, e alvo de colunas sociais, na sequência de um pedido de ajuda de uma amiga para dar emprego ao seu noivo conquista-o e casa com ele, indo a seguir passar a lua-de-mel numa subida ao rio Nilo, só que a outra ofendida decide perseguir com a sua presença todos os locais por onde o casal passa.
Em paralelo, o casamento rápido levou a advogados da milionária e a gestores do seu património e menos honestos a agir e a participarem na mesma viagem para um golpe, onde embarcam outras pessoas da elite social relacionadas ou não com os recém-casados e entre eles o genial Poirot, até que se dá a morte da jovem e muitos até têm motivos para o assassínio, mas talvez o crime não tenha sido perfeito, o que conduz a uma série de incidentes e o célebre detetive terá de pôr os seus neurónios em ação para deslindar o caso e claro que consegue com um final surpreendente.
Escrita fácil, mas escorreita e sem grandes rasgos artísticos, mas permitindo uma leitura muito agradável com uma metade a apontar para um potencial crime futuro e uma segunda parte com o suspense e surpresas até à resolução final. Gostei muito do intrincado esquema montado para o crime até à sua descoberta.

domingo, 26 de julho de 2020

"A Colmeia" de Camilo José Cela

Acabei de ler uma das obras de referência do escritor da Galiza e vencedor do prémio Nobel, Camilo José Cela: A Colmeia,
A obra decorre na cidade de Madrid pouco depois do confronto que colocou Franco no poder, em plena II Grande Guerra, quando esta começa a ser desfavorável aos alemães, e narra o dia-a-dia de um conjunto de cidadãos da classe média e baixa, com a escassez de dinheiro, os seus artifícios diversos de sobrevivência e manhas numa sociedade influenciada pela hipocrisia pública religiosa e conservadora e uma prática privada cheia de vícios.
O romance não tem propriamente uma trama, temos uma série de cenas curtas (às vezes de um pequeno parágrafo e na maioria das vezes estendendo-se por perto de uma página de texto), onde em cada uma se relata um episódio da vida das personagens que vão sendo apresentadas sucessivamente, por vezes com repetição, outras uma única vez e só um pequeno número surge desde perto do início do livro e continuam a reaparecer até quase ao fim do mesmo. Uma parte dos episódios decorre no café da senhora Rosa, onde vemos as suas relações duras com vários empregados e clientes, histórias da vida destes, do engraxador, do vendedor de tabaco, da criança cigana que canta rua, da mulher de vida em final de carreira e solitária em busca de um conforto para o futuro, do poeta sem dinheiro e dos músicos que animam o espaço, entre outros.
Outro conjunto de episódios decorre numa pensão barata de encontros íntimos onde por coincidência frequenta um pai, uma filha e os respetivos amantes, que procuram esconder entre si as sua relações íntimas. Há também uma casa de apartamentos onde ocorre um homicídio de uma idosa e mãe de um homossexual de vida escandalosa, aqui coexiste gente diversa, incluindo um médico e sua família. Há ainda uma casa de um contabilista que nos trabalhos ajeita as contas em favor dos clientes, casado cuja mulher tudo faz para ajudar o poeta pobre apesar da relação conflituosa deste com o cunhado. Além destes casos, onde é possível traçar uma linha evolutiva, existem cenas de rua e muitos outros episódios em mais locais que no conjunto envolvem 160 personagens (o número consta de um prefácio) em duas centenas e meia de páginas que dão um retrato da miséria de vida das gentes de Madrid no pós guerra civil e numa Europa em luta. Uma espécie de colmeia onde a maioria busca salvar-se individualmente e por vezes com que dores. 
O texto é muito bem escrito, vai desde linguagem popular até outra mais trabalhada e literariamente é uma obra bem original. Gostei de muitos episódios, a minha dificuldade resultou do facto de eu ser péssimo e memorizar  nomes e nesta sequência tive de fazer um esforço significativo para identificar as personagens que tinham linha evolutiva na obra e quando as comecei a identificar o contexto o romance estava a acabar... se acabou de facto!
Para quem gosta de experiências literárias: recomendo; não pelo enredo da narrativa que é escasso mas é uma obra inesquecível.

terça-feira, 21 de julho de 2020

"A Luz de Pequim" de Francisco José Viegas

Excerto
"Se tivesses de juntar todas as histórias que acontecem, nunca terias um livro, por exemplo, e nunca terminarias de fazer ligações, de descobrir coincidências que são apenas coincidências. Temos de caminhar sempre em frente até chegar a um lugar onde não há mais caminhos."

Acabei de ler o romance mais recente do escritor português Francisco José Viegas: "A Luz de Pequim", com o seu habitual personagem: o inspetor Jaime Ramos. Só que desengane-se quem, como eu, pensou tratar-se de um livro policial. Sim, na obra há assassinatos, há inquéritos e até há conclusões sobre quem os cometeu, mas este é uma narrativa melancólica sobre a vida do protagonista já em fim de carreira e considerado ultrapassado pelas ondas de modernização e voracidade da administração para com os mais antigos e curricula marcante.
Assim surgem demonstração do seu passado imperfeito, reflexões privadas da sua militância política em conversas com aqueles que mais o marcaram e de quem o investiga. Depois, a propósito ou a despropósito, vêm inúmeras referências ou descrições do Porto, do seu rio, dos seus cafés, restaurantes e gastronomia, das suas livrarias, dos seus bairros, da sua atmosfera chuvosa, do estilo de vida dos seus marginais em conflito mortífero entre gangues dispersos pelas periferias. O autor junta ainda retratos paisagístico e do bucolismo do Alto Douro e dos vícios das elites nacionais e seu modo de moldar a política de Portugal e até este País visto por um espião brasileiro como forma de tecer a sua teia para cativar um lusitano na sua rede, denunciando assim habilidosamente como somos.
No início, um assassinato e o aparecimento de um corpo de um traficante pendurado na ponte D. Luís I no Porto, depois investigações, interrogatórios a algumas famílias de renome ou de riqueza duvidosa e um pedido particular de um amigo para lhe encontrar o filho que sabe ter ido para o Brasil, ter-se licenciado e aparecer depois em convites oficiais no extremo oriente. Neste País pequeno estará tudo ligado ou serão apenas coincidências? É que após muitos anos de vida ele já vê e sabe muito mais do que são os pequenos bandidos do Porto, os Portugueses e Portugal.
Eu fiquei amarrado às múltiplas descrições que vão surgindo surpreendentemente no livro, quer se cruzem entre si ou apenas surjam na narrativa como algo paralelo que brota no dia-a-dia além do programado, nem sempre juntando informação à trama mas dando muito à narrativa. É sem dúvida um romance marcado pelo tom melancólico que cerca a perspetiva de ocaso da carreira deste inspetor que sempre viveu a espreitar o crime e conhece bem de mais a vida dos criminosos e a ingratidão do tempo e, sobretudo, ama o seu Porto e o modo de viver nele.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

"A desvastação do Silêncio" de João Reis

Excerto
"Era preciso, isso sim, comer, apercebi-me de que me doía a cabeça por conta da fome e o dia não era já tão agradável como fora de manhã cedo, o médico prosseguiu o discurso e, nesse momento, desejei morrer, jamais ter existido, mas, verdade seja dita, se queria assim tanto morrer, talvez não fosse preciso ir comer..."

Li o pequeno livro "A devastação do silêncio" do ainda jovem escritor português João Reis, é também uma obra ilustrada pelo artista luso Lord Mantraste, cujo traço dos vários desenhos interiores é o mesmo do da capa.
No fim da 1.ª Grande Guerra o narrador encontra-se com um amigo num café antes de uma viagem de comboio, este pede-lhe que conte a sua experiência de gravação de voz para uma equipa de cientistas germânicos, só que este opta por falar de como capitão do Exército Expedicionário Português foi capturado pelos alemãs, enviado para um campo de prisioneiros, roubado e por não possuir comprovativo de ser oficial foi obrigado a ficar com os soldados, portugueses e de outras nacionalidades, onde a vida era marcada pela escassez de alimentos, parasitas, trabalhos forçados e jogos de cartas. Desenvolveu então amizade com o médico do campo do qual ouve as suas confidências dos seus problemas familiares e que pretende apresentá-lo a um grupo que estuda pronúncias através de gravações. O protagonista foi constantemente torturado pela fome e a ânsia do silêncio e todos insistem em conversar, desabafar e as autoridades  usam a falta de comida como arma de poder.
O desenvolvimento da vida no campo é pontualmente intercalado pela insistência do companheiro interessado na gravação e pelas cenas no café, mas narrativa centra-se na vida de prisioneiro e as peripécias por que o narrador então passou.
O texto é muito contemporâneo e trabalhado com um persistente humor sarcástico, por vezes com sequências absurdas que evidenciam o vazio da guerra, o ilógico de povos que partilham sentimentos e a civilização estarem em confronto e levarem o inimigo a situações humilhantes e desumanas apenas pelo contexto do confronto bélico cujos motivos nunca parecem justificados.
O romance fez-me lembrar o impressionante Catch-22, por também pôr a nu o absurdo da guerra e deixar muito mais questões do que soluções e em suspenso o assunto lançado praticamente no início da narrativa.
A leitura não cansa por a obra ser pouco extensa (130 páginas), ter momentos de suspense, o permanentemente humor mordaz e as ilustrações ajudarem a visualizar alguns episódios.
Gostei, é uma obra arrojada para apreciadores que degustam a arte de narrar de forma original e a escrita criativa, não é uma simples estória linear de estilo mais tradicional.

sábado, 11 de julho de 2020

"O velho que lia romances de amor" de Luis Sepúlveda


Excertos
Dê-me um romance bem triste, com muito sofrimento por causa do amor e com um final feliz».
"A vida na floresta temperou-lhe cada pormenor do corpo. Adquiriu músculos felinos que, com o passar dos anos se tornaram secos. Sabia tanto da floresta como um shuar."

Acabei de ler o meu primeiro livro do chileno Luis Sepúlveda "O velho que lias romances de amor".
A obra, apesar de ficção, baseia-se numa pessoa que o autor conheceu quando esteve refugiado na floresta que o acolheu durante uma tempestade na chocha em que residia, na qual, além do essencial, guardava conjunto de livros que para ler nas horas livres. Em sua homenagem, Sepúlveda criou um personagem fã de romances de paixões que se acolheu e adaptou à floresta.
Antonio José Bolívar reside na Amazónia do Equador, mas saberemos dos acontecimentos do seu passado: o seu casamento infértil, o seu acolhimento pela tribo shuar e a sua saída desta comunidade;  até ao seu exílio atual. No presente, o representante do Governo no local depara-se com a chegada de um cadáver de ocidental trazido numa canoa por indígenas, aquele pretende acusá-los de assassínio mas a experiência do protagonista prova que o homem fora morto por uma onça por lhe terem abatido as crias que deverá estar nas redondezas. Outro incidente fortalece as suspeitas de Bolívar e a tensão levará a que António José tenha de enfrentar a fera sozinho num jogo de inteligência felina face à do conhecedor da Amazónia em contraste com a estupidez de quem não ama esta floresta.
O texto, bem escrito, numa linguagem cheia de carinho e humor, homenageia o índio e os homens que protegem a Amazónia da ganância de forasteiros. Fica-se a conhecer um conjunto de costumes dos shuar e curiosidades essenciais à sobrevivência neste ecossistema peculiar e cheio de perigos para quem não é capaz de entrar em comunhão e equilíbrio com esta selva a proteger e a respeitar.
Gostei, uma obra pequena, fácil de ler que recomendo.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

"A Princesa de Gelo" de Camilla Läckberg


Acabei de ler o romance policial "A Princesa de Gelo" da sueca Camilla Läckberg.
Numa povoação piscatória que no verão é inundada por turistas, mas que no inverno é um pequeno lugar pacato, um residente encarregado de reparar a caldeira de uma habitação de uma família rica local e residente na cidade ao deslocar-se à casa depara-se com uma mulher que aparentemente se suicidou na banheira onde ficou congelada pelo frio nórdico. Este pede ajuda a uma amiga de infância da falecida que passava, agora escritora de biografias. Esta, chocada com a cena, começa depois a pesquisar a história de vida da vítima e conhece um agente policial por quem se apaixona. Juntos cooperam na investigação que afinal é um assassinato talvez com motivos em factos escabrosos de há várias décadas quando a protagonista estranhamente vira sem perceber o afastamento da sua amiga.
Um romance que além das descobertas dos investigadores junta os sentimentos e os problemas individuais e familiares das personagens principais e dos suspeitos, pelo que vemos o evoluir do trabalho policial e das relações humanas criando uma atmosfera romântica.
Uma escrita escorreita, sem grande rasgos de originalidade literária, que ao integrar os sentimentos das personagens e os ingredientes do suspense da descoberta do criminoso permite construir uma estória simpática e agradável que alimenta o interesse do leitor. Uma obra fácil que gostei de ler, sem a violência física sádica de alguma literatura policial nórdica, pois opta mais pela análise da psicologia dos envolvidos, que também descobrem atos bem chocantes.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

"A Torre da Barbela" de Ruben A.


Excerto
"E a multidão que no Jardim dos Buxos entretinha o tempo, em nada se diferenciava das outras multidões: apenas não se viam - viviam no suspenso dos sons. Os que se individualizaram, como Dom Raymundo, o Cavaleiro, Dona Mafalda, Madeleine, etc. é porque em si sintetizavam a necessidade premente de continuar a história do mundo pelas vias da Criação."

"A Torre da Barbela" do português Ruben A., é um romance publicado em 1965, vencedor então de um prémio literário que caiu no esquecimento e agora foi reeditado como uma obra a redescobrir, não só pela sua reconhecida originalidade e temática, mas também por mostrar o papel do seu autor como um importante escritor que deu novos rumos ao evoluir da literatura em Portugal.
O romance é uma obra macabra, centrada em torno de uma torre nas margens do rio Lima no Minho que existe desde os primórdios de Portugal e casa de uma das famílias nobres mais importantes e participativas no evoluir da história do País até ao século XX: os Barbela. Durante o dia o monumento nacional é alvo de visitas diárias onde o guia/caseiro recebe excursões, discursa sobre a heroicidade dos Barbelas e promove as belezas e produtos locais; só que durante a noite são os antepassados ligados à Torre, ao solar e seus parentes próximos que saem dos túmulos e convivem entre si, amam, odeiam e mexericam independentemente do século em que viveram. Estes desfilam com todas as características individuais que tinham quando vivos, construindo um retrato satírico e psicológico das virtudes e defeitos dos fidalgos lusos e dos vícios sociais que moldaram este Povo.
Ruben A. pertencente a uma famílias de vultos da cultura portuguesa no século XX e numa linguagem mordaz mostra um Portugal tacanho, provinciano, sujeito publicamente ao clero católico e em segredo transgressor de toda a moralidade religiosa, uma hipocrisia falsa que inveja o estrangeiro e fala das virtudes e superioridade do seu País.
O autor foi um mestre na arte de escrever bem e utilizar ao máximo os recursos da língua combinada com a imaginação e coexistência de falares, mentalidades e tecnologias de diferentes épocas ao longo dos séculos e aqui extrema estas capacidades. Na obra, cada personagem está amarrada ao seu século: o cavaleiro medieval desloca-se a cavalo sem tal impedir que a sua amada viaje de carro e outro parente já use o avião; tal como numa guerra há a opção do uso da força no homem companheiro de luta de D. Afonso Henriques e os argumentos demagógicos e populistas de um político do século XX. Nesta estória cruzam-se amores infiéis, bastardos, homossexuais, amantes de soberanos, beatas, padres, santos, bruxas, cruzados e marinheiros,  além de uma fábrica de enguias fumadas secular e muito mais.
Apesar destas impressionantes características do romance, da excelente descrição de muitas das belezas paisagísticas, do património cultural do Minho e da imaginação que por vezes me deslumbraram, também houve momentos que me cansaram por serem demasiado prolixas, mas valeu a leitura.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

"Doutor Jivago" de Boris Pasternak

Excerto
"Já aconteceu assim algumas vezes na história. O que foi concebido como ideal e elevado, acabou em grosseiro materialismo.  Assim a Grécia se tornou Roma, assim o Iluminismo russo se tornou na Revolução Russa."

Acabei de ler o romance "Doutor Jivago" que está na origem da atribuição do prémio Nobel da literatura ao seu autor: Boris Pasternak, russo de nascimento, galardoado quando soviético, apesar de então o livro ter sido proibido na União Soviética, foi igualmente adaptado ao cinema em Hollywood com o mesmo nome e vencedor de vários prémios, incluindo 5 Oscar e 5 Globos de Ouro, entre outros.
Apesar de tantos galardões em torno desta obra, eu tinha algum preconceito relativamente a este romance por saber que alguns prémios foram usados como arma política na guerra fria, o que me deixava dúvidas sobre o seu valor intrínseco. Agora tenho de reconhecer que é de facto um grande romance que mistura componentes históricas, paixão romântica, prosa e poesia e enraizado no legado filosófico e literário dos escritores geniais da Rússia: Dostoiévski e Tolstoi.
A obra divide-se em duas partes: a primeira até à I Guerra Mundial e início da revolução russa, esta arranca com a apresentação de numerosas personagens de várias classes sociais, muitas delas ainda crianças e adolescentes, mas quase todas afetadas por questões de injustiça ou problemas familiares e onde conhecemos o quarteto das personagens em torno do qual se centrará a obra: Iuri Jivago, Toina, Lara e Antipov, na qual se casam e assim entram na segunda parte que começa no tempo da guerra civil russa, a vitória do exército vermelho e vai até à segunda guerra mundial. Temos assim quase meio século de história do País e onde já brotara a defesa dos valores de justiça e fé na grande literatura russa, mas que desembocou numa tragédia de desconfiança e perseguição política que estilhaçou famílias e o amor, nomeadamente na vida dos protagonistas vítimas de tudo isto apesar de abraçarem quase os mesmos valores e até professarem simpatia ou pelo menos não alimentarem antipatia pelo comunismo.
Zivago, médico e poeta com o seu conflito entre a fidelidade conjugal para com Toina e amor à família e a sua paixão por Lara que sofre de um dilema semelhante com a sua admiração pelo marido, o revolucionário Antipov, e o seu amor para com Iuri, aspetos que vão estar presentes no confronto da frente ocidental russa da 1.ª Grande Guerra e no campo da guerra civil na Sibéria a oriente, passando várias vezes por Moscovo e levantando questões filosóficas dos valores da revolução até ao extremismo e a desilusão de uma mudança que em nome da libertação levou não só à destruição como à opressão do povo que era para libertar. A estória não é contra os ideais revolucionários iniciais mas  evidencia como o seu evoluir acabou por destruir o que defendia de forma injustificada. No fim veremos os poemas de Zivago numa rara adição póstuma do trabalho poético do protagonista ao seu tempo de vida.
Gostei do romance, tive dificuldade em entrar nele devido ao elevado número de personagens que vão desfilando no início em espaços paralelos, mas depois de fixado o elenco, as suas relações, pensamentos e a evolução política no País, descobre-se uma grande obra, que fica mais rica para quem já conhece a literatura russa do século XIX, onde se é evidente a constatação de que a solução para as denúncias de injustiça e a defesa dos valores levaram depois a uma degradação desumana bem contrária ao proposto por Dostoiévski e, sobretudo, Tolstoi.
Uma obra que levanta questões políticas e filosóficas temperadas com um amor romântico racionalizado entre pessoas maduras que não deixam de se questionar sobre a relação entre as suas obrigações pessoais face à rendição sentimental às paixões o que o torna num excelente livro onde a razão e o desejo não convivem facilmente..

quinta-feira, 11 de junho de 2020

"A Cidade" de William Faulkner


"A Cidade" de William Faulkner", norteamericano laureado com o Nobel da literatura, é o segundo volume da trilogia da família Snopes, cujo primeiro "A Aldeia" li recentemente.
Em A Aldeia Lem Snopes dominou a economia rural do Velho Domínio do Francês, enriqueceu ao entrar na família de Will Varner e no fim partiu para a capital do condado: Jefferson. 
Aqui, a sua ambição desmedida não pára, para tal alia-se ao presidente da câmara, explorando a relação deste com a sua mulher e mãe da sua filha Linda, bastarda, mas que o levou ao casamento de conveniência. Assim, em paralelo, desvia bens municipais de que sai ileso devido à teia montada, enquanto os seus parentes, já conhecidos anteriormente, vão sendo atraídos do campo para esta cidade com atos mais ou menos duvidosos até ao desfalque no banco onde Lem e o sogro tem ações. A partir de então começa a fase deste subir no domínio da cidade, enriquecer e limpar o seu nome socialmente numa terra de moral conservadora das religiões protestantes britânicas e ainda vingar-se como marido traído, retendo Linda de quem depende grande parte do património que deseja, expulsa os elementos do clã que lhe sujam o nome e vai até ao sucesso final com vítimas pelo caminho. Ficam as pistas para o terceiro volume.
Toda a estória é contada por três testemunhas das práticas de Lem Snopes: (1) Rattlif que fora o principal narrador do primeiro volume que o compreende, explica e perspetiva as ações futuras dele; (2) Gavin Stevens, advogado e depois procurador público de Jefferson, que se apaixona também pela mulher de Lem e mais tarde por Linda e vive em permanente luta entre os seus sentimentos, a aproximação e o cuidado social, sendo alvo dos reparos e conselhos da sua irmã gémea, casada e com quem coabita e (3) o filho desta, Charles Mallison, cujos primórdios de Lem na cidade lhe foram contados por um primo e passa a testemunha e agente envolvido como criança e adolescente que servia de intermediário inocente entre partes em jogo.
O texto tem, por norma, um tom sarcástico, irónico ou de crítica social, o que o torna divertido, e recorre à técnica escrita de fluxo da consciência: o narrador vai expondo de forma cruzada e sequencial no parágrafo as ações, os comentários, os à partes, reposições de omissões de dados passados, as reflexões pessoais do narrador e até as suas hesitações, erros e correções. Isto obriga a uma grande atenção do leitor devido às variações bruscas no tempo, lugar e de sujeitos, com frequentes intercalações estranhas entre a introdução da ideia da frase e a conclusão do assunto.
Apesar de leitura difícil diverti-me muito, embora certos capítulos se tornem prolixos de pormenores do início à conclusão da ação devido ao fluxo da consciência, o que pode cansar, mas em paralelo permite um retrato social profundo das populações dos Estados Unidos longe dos grandes centros urbanos.

terça-feira, 2 de junho de 2020

"A Letra Escarlate" de Nathaniel Hawthorne


Excerto
"É assunto curioso de especulação, se o ódio e o amor não serão no fundo a mesma coisa... ...filosoficamente, as duas paixões parecem essencialmente a mesma, excepto que uma nos aparece cercada de uma luz celeste, e a outra de uma luz baça e vermelha"

Li o romance "A letra Escarlate", um dos clássicos da literatura norteamericana escrito no século XIX por um dos principais autores do país: Nathaniel Hawthorne, sobretudo famoso pelos seus numerosos contos e por esta obra, aqui traduzida por Fernando Pessoa.
Na cidade de Boston, então colónia de Inglaterra, é dominada pelos protestantes puritanos ingleses, sendo ainda mais extremados do que na origem. Hester, uma imigrante recente cujo marido médico ainda não chegara, é condenada a subir a um cadafalso na praça central com uma recém-nascida e a exibir para sempre sobre o vestido letra A de adúltera num pano vermelho, mas recusa-se a denunciar quem é o pai da filha, no evento ela descobre na multidão o seu idoso marido. Este, como médico e sem assumir o lugar de esposo, visita-a e obriga-a a manter o segredo da sua relação, mas permanece na cidade para descobrir e vingar-se lenta e continuadamente do ultraje, feito por alguém idolatrado pela sua virtude. Hester sobrevive pelos dotes de costureira isolada e de forma exemplar mas cheia de brio individual, só que o remorso e a vingança vão crescer neste terreno ultraconservador para pecados privados e estalar.
Hawthorne é descendente dos juízes que condenaram as bruxas de Salém e grande parte da sua obra vai no sentido de destruir a intolerância e este romance entra neste género. A narrativa está cheia de reflexões sobre a moralidade pudica sem amor cristão e da luta no interior da consciência e dos sentimentos das personagens, os diálogos estão subjugados a esta análise, além de descrições pormenorizadas da cidade, vestuário e costumes.
A escrita é trabalhada com grande qualidade estilística e a suas metáforas e comparações são extensas, gerando parágrafos densos, algo longo e profundos. Apesar de tudo, o autor tempera no carácter das suas personagens para que a leitura não se torne tão negra quanto a sociedade que descreve. Um magnífico romance que vai muito além da sua trama.