segunda-feira, 22 de junho de 2020

"Doutor Jivago" de Boris Pasternak

Excerto
"Já aconteceu assim algumas vezes na história. O que foi concebido como ideal e elevado, acabou em grosseiro materialismo.  Assim a Grécia se tornou Roma, assim o Iluminismo russo se tornou na Revolução Russa."

Acabei de ler o romance "Doutor Jivago" que está na origem da atribuição do prémio Nobel da literatura ao seu autor: Boris Pasternak, russo de nascimento, galardoado quando soviético, apesar de então o livro ter sido proibido na União Soviética, foi igualmente adaptado ao cinema em Hollywood com o mesmo nome e vencedor de vários prémios, incluindo 5 Oscar e 5 Globos de Ouro, entre outros.
Apesar de tantos galardões em torno desta obra, eu tinha algum preconceito relativamente a este romance por saber que alguns prémios foram usados como arma política na guerra fria, o que me deixava dúvidas sobre o seu valor intrínseco. Agora tenho de reconhecer que é de facto um grande romance que mistura componentes históricas, paixão romântica, prosa e poesia e enraizado no legado filosófico e literário dos escritores geniais da Rússia: Dostoiévski e Tolstoi.
A obra divide-se em duas partes: a primeira até à I Guerra Mundial e início da revolução russa, esta arranca com a apresentação de numerosas personagens de várias classes sociais, muitas delas ainda crianças e adolescentes, mas quase todas afetadas por questões de injustiça ou problemas familiares e onde conhecemos o quarteto das personagens em torno do qual se centrará a obra: Iuri Jivago, Toina, Lara e Antipov, na qual se casam e assim entram na segunda parte que começa no tempo da guerra civil russa, a vitória do exército vermelho e vai até à segunda guerra mundial. Temos assim quase meio século de história do País e onde já brotara a defesa dos valores de justiça e fé na grande literatura russa, mas que desembocou numa tragédia de desconfiança e perseguição política que estilhaçou famílias e o amor, nomeadamente na vida dos protagonistas vítimas de tudo isto apesar de abraçarem quase os mesmos valores e até professarem simpatia ou pelo menos não alimentarem antipatia pelo comunismo.
Zivago, médico e poeta com o seu conflito entre a fidelidade conjugal para com Toina e amor à família e a sua paixão por Lara que sofre de um dilema semelhante com a sua admiração pelo marido, o revolucionário Antipov, e o seu amor para com Iuri, aspetos que vão estar presentes no confronto da frente ocidental russa da 1.ª Grande Guerra e no campo da guerra civil na Sibéria a oriente, passando várias vezes por Moscovo e levantando questões filosóficas dos valores da revolução até ao extremismo e a desilusão de uma mudança que em nome da libertação levou não só à destruição como à opressão do povo que era para libertar. A estória não é contra os ideais revolucionários iniciais mas  evidencia como o seu evoluir acabou por destruir o que defendia de forma injustificada. No fim veremos os poemas de Zivago numa rara adição póstuma do trabalho poético do protagonista ao seu tempo de vida.
Gostei do romance, tive dificuldade em entrar nele devido ao elevado número de personagens que vão desfilando no início em espaços paralelos, mas depois de fixado o elenco, as suas relações, pensamentos e a evolução política no País, descobre-se uma grande obra, que fica mais rica para quem já conhece a literatura russa do século XIX, onde se é evidente a constatação de que a solução para as denúncias de injustiça e a defesa dos valores levaram depois a uma degradação desumana bem contrária ao proposto por Dostoiévski e, sobretudo, Tolstoi.
Uma obra que levanta questões políticas e filosóficas temperadas com um amor romântico racionalizado entre pessoas maduras que não deixam de se questionar sobre a relação entre as suas obrigações pessoais face à rendição sentimental às paixões o que o torna num excelente livro onde a razão e o desejo não convivem facilmente..

4 comentários:

Pedrita disse...

ah, eu vi q vc estava lendo e aguardava. tb li e é muito impactante. a capa da sua edição é tão bonita qt a q eu li. ah, eu comentei o mesmo, da dificuldade de acompanhar tanto personagem. a edição q li tem no início os personagens pra ajudar. é um grande obra realmente. beijos, pedrita
https://mataharie007.blogspot.com/2011/03/doutor-jivago.html

Carlos Faria disse...

Eu ao fim de algumas páginas fiz o elenco das personagens na primeira página em branco e valeu até para alguns que reaparecem ao fim de muito tempo na segunda parte.
O que mais me impressionou foi que não é um livro nem contra ideias subjacentes ao marxismo nem deixa de ensinar que seguir as paixões pode levar a não cumprir certos deveres familiares e em tudo tem que haver um equilíbrio.

Bárbara Ferreira disse...

Li este livro há já alguns anos e achei talvez demasiado dramático para o meu gosto; aquela que reconheço ser uma boa história acabou por me aborrecer...

Carlos Faria disse...

Curiosamente o que me fez mais gostar do livro foi a contenção dos envolvidos na estória de amor.
Houve pormenores que achei desnecessários insistir, o penúltimo capítulo é meramente para evidenciar a desilusão da revolução russa sem acrescentar nada à trama. Os poemas, como não admirei o género, também não encantaram... mas o conjunto da obra gostei mesmo muito, mas pode cansar