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sábado, 17 de julho de 2021

"Contos de Tchékhov - Volume III"

 

Acabei de ler o terceiro volume da coleção completa de Contos de Tchékhov publicados pela Relógio d'Água, este reúne 16 narrativas que oscilam entre perto de uma dezena a poucas dezenas de páginas, em todos eles o português dos tradutores é magnífico, permitindo uma qualidade de texto de elevada envergadura.

Todos contos passam-se longe das grandes cidades da Rússia, na sua quase totalidade situam-se em pleno meio rural isolado. Une-os ainda um descontentamento psicológico com a vida do protagonista ou do povo dessas aldeias vítima de injustiça, ignorância e arreigado a costumes que impedem o seu desenvolvimento. Nuns casos temos senhores burgueses ou nobres ricos que não sabem como ser solidários com os pobres e desejando ardentemente ser bons para com estes e por isso insatisfeitos consigo próprio; noutros, temos pobres que não sabem como sair desta realidade e se perdem no álcool ou noutros problemas; ainda há os infelizes acomodados com a sua situação sem arte para dela se libertarem, desperdiçando oportunidades; e também não falta gente no fim da vida desiludida com o modo como viveram, com medo da morte ou do julgamento do além. Na generalidade os retratos da sociedade e das personagens é triste, mas narrados com grande beleza de escrita e pormenores da vida quotidiana no Rússia do final do século XIX, construindo um excelente retrato de época.

Gostei muito do livro, apesar do tom melancólico e nostálgico os textos não são deprimentes e mostram porque Tchékhov é considerado um dos melhores contadores de histórias curtas da literatura mundial de todos os tempos, fico sempre com vontade de ler outro volume desta coleção.

quinta-feira, 1 de julho de 2021

"O Natal de Poirot" de Agatha Christie

 

Acabei de ler outro livro de investigação criminal da autoria da genial escritora policial Agatha Christie: "O Natal de Poirot".

O idoso Lee, um milionário sádico e de passado mulherengo e conflituoso, decide reunir pelo Natal toda a sua família para se deliciar com as rivalidades entre os seus filhos, humilhá-los e informar da intenção em alterar o testamento e assim observar o desespero e irritação criado neles.

Depois de todos juntos e a seguir ao jantar, quando Lee está só nas suas instalações, eis que é assassinado no seu escritório fechado por dentro com sinais de luta violenta ouvida por todos. Quem o terá matado e como saiu o criminoso daquele quarto? Poirot está hospedado em férias na casa do chefe da polícia local e é convidado a acompanhar as investigações, onde verifica que quase todos têm um motivo, descobre-se então um roubo em paralelo e um conjunto estranho de ocorrências que o nosso protagonista conseguirá justificar no fim.

Com várias referências a obras clássicas da literatura e música, está-se perante um crime em espaço fechado e isolado onde parece que todos têm um alibi e sem acesso ao local do assassinato, mas onde a imaginação para explicação do caso e as pistas que vão sendo lançadas tornam este romance um exemplo de grande criatividade e de solução surpreendente. Um magnífico enredo cheio de imaginação. Gostei muito e recomendo a quem é fã do género policial e como obra de entretenimento e suspense.

sábado, 26 de junho de 2021

"Sinais de Fogo" de Jorge de Sena

Excerto

"As pessoas existiam para se iludirem a si mesmas e às outras, para se torturarem a si mesmas e às mais, para se entredestruírem por amor, por amizade, ou por distração. Tudo isto se organizava numa conspiração colossal, sem fito ou nexo mais que a intenção firme de sobreviver triunfalmente menos à morte que à própria vida."

Acabei de ler o único romance do poeta, novelista, contista e ensaísta português Jorge de Sena "Sinais de Fogo", um dos autores do século XX que mais admiro pela sua originalidade nas formas narrativas e qualidade de escrita, contudo a presente obra foi um murro muito forte no estômago.

Nos anos de 1930 Jorge é um adolescente filho da burguesia que vai descobrindo com dois amigos colegas a realidade da vida sexual dos adultos e da sua geração, vive intensamente o confronto entre professores e os alunos mais revoltos e entra na juventude onde se torna universitário mas, episodicamente, brotam dele versos que não consegue explicar que depois parecem materializar-se na sua vida. No verão de 1936 Espanha está a mergulhar na guerra civil e a ditadura em Portugal dá grandes passos de controlo ideológico e ele vai para a casa de um tio passar as férias na cidade-praia da Ribeira da Foz e zona balnear por excelência de espanhóis. Aqui, ele assiste, já com olhos de homem, a movimentos subversivos políticos de esquerda, cruza-se com atividades para intervenção no país vizinho e mergulha na devassidão e vícios da classe burguesa. Participa em atos orgíacos e sente que as pessoas com quem convive são afetadas e mudadas pelos que ele pratica e de que se sente culpado, após uma morte regressa a casa, mas o mundo já não é o mesmo e reflete sobre as relações entre os humanos, as imagens em espelho que formamos uns dos outros e a sua poesia transborda-o.
Jorge de Sena morreu repentinamente antes de acabar este extenso romance com mais de 600 páginas, mas a obra parece concluída, pois o arco entre o adolescente à descoberta, o jovem iniciante e o adulto a amadurecer está montado. A escrita é das que mais admiro em termos de estilo clássico escorreito na literatura portuguesa do século XX, mas foi o mergulho na divulgação explícita e praticamente sem tabus da vida sexual da burguesia, e não só, e de muitos vícios neste campo que me deram um murro muito forte. Esta surge como elemento de reflexão das relações humanas em sociedade onde se vive uma realidade pública e outra privada de um modo concertado e acomodado mas que tece uma teia que une a sociedade.
Apesar de não ser pornográfico, existem pormenores e descrições de atos sexuais, prostituição masculina e feminina, homossexualidade e reconhecimento do direito de praticar livremente a vida íntima que se encontra amordaçada pela moral pública que servem de ponte para um tratamento filosófico destas questões, concorde-se ou não com o escritor, que dá um passo muito mais em frente do que deu Proust na sua obra. Aliás várias vezes pareceu-me que este influenciou muito Sena.
A verdade é que gostei do enredo, tal não impede que me tenha sentido por vezes chocado e incomodado, o que não me aconteceu com Proust. Não se trata de uma obra banal, mas sim de um tratado profundo das relações humanas onde o sexo está presente de forma central. A escrita é soberba, mas só recomendo o romance a quem esteja preparado para ler com uma mente aberta de que em literatura não deve haver censura, independentemente de se concordar ou não com as ideias defendidas na obra de ficção.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

"Némesis" de Agatha Christie

 

Acabei de ler o policial "Némesis" de Agatha Christie, o último romance com a personagem Miss Maple escrito por esta autora inglesa e, apesar da vitalidade forçada desta velhota que resolve mistérios de crimes pela perspicácia e análise psicológica dos suspeitos, são evidentes na obra os indícios de fim de vida desta protagonista que a escritora estava a caracterizá-la.
Miss Maple, após ler a notícia da morte natural de um conhecido milionário com quem resolvera um mistério num passado recente, recebeu deste uma proposta para tentar descobrir uma situação, verificar se a justiça fora correta e, possivelmente, corrigi-la, só que nada é dito se houve um crime, quem foi a vítima ou o alvo da injustiça, mesmo assim aceita o desafio e aos poucos descobre que os passos a seguir foram programados pelo falecido e incluem uma excursão turística, mas onde e quando terá havido um crime julgado que tem de desvendar se quem lhe legou o mistério também já não lhe pode responder?
Aos pouco e durante a viagem Miss Maple vai descobrindo pistas situações e excursionistas que mais não são que resultado de um programa legado, entretanto  um acidente suspeito ocorre, percebe os riscos mas ela irá percebendo cada vez mais o mistério que lhe foi posto no caminho,.

Como em todos todos os romances de Agatha Christie, a leitura é fácil e a resolução do mistério está na compreensão do comportamento psicológico das personagens apesar da confusão de sinais lançados ao longo do desenrolar do romance, gostei da obra e recomendo a quem gosta desta escritora genial no estilo de crime e mistério.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

"Memorial do Convento" de José Saramago

Terminei a releitura de "Memorial do Convento" de José Saramago, o único premiado com o Nobel da literatura de expressão portuguesa e para muitos o romance emblemático da sua obra de ficção. Pouco releio livros, se gosto muito da escrita opto por rever excertos, pois a surpresa no desenrolar da trama conta também muito para o meu prazer de leitor, mas este lera-o há cerca de 33 anos atrás, aliás, foi a minha estreia neste autor que depois tornei-me seguidor pontual por mais de uma década. Decorrido este tempo todo, tirando o tema e personagens principais, já pouco me lembrava do seu conteúdo e foi quase uma primeira leitura ao nível de pormenores e das cenas que se vão desenrolando na história. O exemplar que possuo, quer a capa, quer a editora, já nem correspondem às da imagem, pois os direitos editoriais foram transferidos para outra casa distinta da que o escritor foi fiel em vida. Na verdade possuo centenas de livros que não folheio há muito tempo e penso ter chegado ao momento de os redescobrir e optei começar por este.

A história tem como centro a razão de se edificar e os trabalhos de construção do Convento de Mafra, todavia em Saramago nada é uma simples narrativa. O escritor, além de romancear um conjunto de personagens que existiram à época: como o rei D. João V e família, o inventor Bartolomeu de Gusmão, o compositor Scarlatti e diversos membros do clero e nobreza; foca a trama em Baltasar Sete-Sóis, maneta, e Blimunda Sete-Luas, vidente do interior das pessoas, que se encontram num ato da inquisição, juntam os seus trapos e se tornam num casal sem as regras legais e morais da época. Estes vivem as dificuldades do povo sem instrução e servem de defesa das relações naturais sem obediência a regras exteriores aos elementos apaixonados ou acostumados entre si e ainda de denúncia das injustiças face à opulência da realeza e clero a coberto da religião e a escassez e riscos dos pobres e pessoas livres pensadoras sob a ameaça da inquisição. Na primeira parte teremos Bartolomeu Gusmão a ser auxiliado pelo par na sua invenção aeronáutica quando a tecnologia era vista como uma arte demoníaca e onde o sonho e a vontade do Homem estão acima das limitações físicas da Natureza e da castração religiosa.

Na segunda da obra o mesmo par integra-se no grupo de trabalhadores explorados na construção do monumento edificado à custa da extração da riqueza das colónias do império para glória de Deus no agradecimento pelo Seu papel de satisfação dos anseios e caprichos dos ricos em detrimentos dos pobres por Ele amados.

A escrita da obra é tipicamente ao estilo único criado por Saramago, mas agora com o tempo verifico que ainda tinha sido levado à exaustão alcançada em obras posteriores. O sarcasmo pícaro sobre a justiça, a ética e a moral sexual atravessam todo o texto, numa crítica mordaz, por vezes a rondar a brejeirice e irónica, e frequentemente alavancada em ditos populares. A denúncia dos defeitos e vícios do clero e realeza, a coberto de uma teologia interesseira destas partes, não é minimamente travada neste romance.

É sem dúvida um grande romance, um clássico da literatura mundial, nem sempre fácil de ler devido à forma narrativa e a uma forma única de realismo mágico exclusiva de Saramago, mas cheio de informações históricas e vale bem a pena o esforço, na releitura não sofri o choque da primeira vez em que me estreei no autor, mas mesmo assim continuo a gostar muito deste romance e foi o que mais me marcou à partida, mesmo que hoje prefira outros do escritor.

quinta-feira, 13 de maio de 2021

"Gritos dos Passado" de Camilla Läckberg

Acabei de ler um livro policial nórdico da sueca Camilla Läckberg, uma autora de suspense suave que contrasta com outros escritores violentos da Escandinávia: "Gritos do Passado", onde se mistura investigação de crimes a partir de uma esquadra e o ambiente familiar dos protagonista. Este é o segundo romance da autora que leio e a história decorre, como parece ser o seu cenário habitual, na sua pequena cidade natal, turística e costeira Fjällbacka e com a investigação pelo casal formado pelo polícia Patrick e sua esposa Erica.

No presente caso, uma criança encontra um corpo de uma jovem numa cavidade que se vem a descobrir estar junto dos esqueletos de duas desaparecidas há mais de duas décadas atrás, entretanto, uma outra jovem desaparece na cidade e tudo aponta para ser um crime perpetrado por membros de uma família local que mistura elementos de fanatismo religioso e outros de delinquência, mas onde o suspeito do passado entretanto morreu e os parentes atuais vivem numa rivalidade de acusações e defesa que tudo baralha, paralelamente as novas tecnologia de ADN também vêm lançar novas confusões. Entretanto Erica está grávida e o calor de verão e hóspedes oportunistas vêm perturbar os raciocínios do casal numa toada onde alguns mais velhos não são bons cooperantes na investigação.

Bem escrito, num tom um pouco intimista que mistura trabalho e sentimentos familiares e com colegas laborais, o livro começa num ritmo lento para depois a tensão aumentar com o decorrer da história e acelerar. Gostei, embora sem o brilhantismo dos grandes génios do policial é uma leitura relaxante, em ambiente quase provinciano e sem levantar perturbações no leitor.

sábado, 24 de abril de 2021

"Os Memoráveis" de Lídia Jorge

 

Citação

"Toda a revolução é uma grande alegria que anuncia uma grande tristeza"

Escolhi ler a obra "Os Memoráveis" da escritora portuguesa Lídia Jorge para este mês por saber que a mesma esboçava fazer um retrato metafórico dos ideais dos heróis da Revolução do 25 de Abril em Portugal e uma reflexão do que desta resultou décadas depois e foi esta a minha opção de comemorar Abril este ano, através de um livro sobre o tema.

Ana Maria Machado, repórter de guerra está em 2004 em casa de um embaixador em Washington que acompanhou a Revolução dos Cravos, este tem uma admiração pela originalidade desta e tenta convencer junto com o seu afilhado, que tem uma relação próxima com ela, para vir a Portugal fazer uma reportagem sobre o 25 de Abril que ele considera uma Fábula. Seduzida por notas disponibilizadas pelo diplomata Ana volta a casa do pai, um jornalista próximo dos heróis, mas com quem teve uma desavença. A partir de uma fotografia de grupo destes Memoráveis contrata dois colegas para entrevistar as personagens fotografadas e é a segunda parte a Viagem ao coração da Fábula. Vemos então momentos marcantes do que foi aquele dia para vários dos memoráveis e o que é a realidade deles e de Portugal 30 anos depois, ideais que se partiram, reconhecimentos que se perderam, retaliações que sofreram. Na terceira parte é apresentado o Argumento para Robert Peterson onde se vê o projeto retratado pela arte e visão de Ana do que foi a Revolução dos Cravos.

Magnificamente escrito, num tom nostálgico entre a memória e os problemas do presente (2004), o teor das entrevistas aos Memoráveis da Revolução em torno de uma fotografia de um jantar que marcou as diferenças entre os envolvidos, todos designados por uma alcunha mas onde se consegue perceber o herói original, apesar dos retoques da ficção e dos desvios à realidade pertinente à ficção, é sem dúvida o melhor romance que li sobre Abril. Uma homenagem aos seus Memoráveis e uma reflexão sobre o que foi a dádiva da Revolução, mas também uma reflexão sobre o uso e o aproveitamento da liberdade nas décadas seguintes por quem desde então teve acesso ao poder para moldar Portugal.

Excelente livro e recomendo a quem gosta de perceber o que foi Abril e os dilemas que se colocaram entre os seus protagonistas e algumas "evoluções" que Portugal teve desde Aquele Dia da conquista da Liberdade.

Esta mensagem é também a minha homenagem deste ano ao 25 de Abril de 1974.

sexta-feira, 23 de abril de 2021

23 de Abril - Dia Mundial do Livro - Os escolhidos de um ano de leitura

Todos aos anos escolho esta data para expor aqueles que foram os meus livros predilectos desde o anterior Dia Mundial do Livro. Nos últimos 12 meses li obras excelentes e a escolha não foi fácil nas várias categorias habituais. Como sempre a seleção final teve peso o momento da escolha, talvez pudesse haver uma ou outra substituição, mas ficou assim:

Melhor Livro de Ficção em Língua Original Portuguesa

Penso que é a primeira vez que não consigo optar, por isso vão duas obras bem diferentes, sendo que a segunda coloca a escritora dois anos consecutivos nesta lista e categoria


A Casa Grande de Romarigães - Aquilino Ribeiro
 
Mais informações neste blogue sobre esta grande saga de vários séculos da história de Portugal aqui.

Fanny Owen - Agustina Bessa-Luís

Pouco extenso e por isso esta talvez seja uma das obras mais fáceis para entrar nesta escritora que aqui não tem complexo de expor o lado pouco simpático de um dos maiores escritores da literatura portuguesa: Camilo Castelo-Branco. Mais pormenores sobre este livro neste testo de Geocrusoe.

Melhor Romance Histórico

Os sete pilares da Sabedoria de T. E. Lawrence

Um misto de memórias e romance histórico narrado pelo próprio autor e ele mesmo como protagonista da narrativa, mas não é uma livro de ficção, embora seja romanceado, a obra que deu origem ao filme Lawrence das Arábias. A informação e o estilo de narrativa são constroem uma obra única de excecional interesse, informação histórica e prazer de leitura. Mais impressões em Geocrusoe aqui.

Melhor livro de memórias


O Mundo de Ontem de Stefan Zweig

Neste caso foi lido em formato ebook, mas o retrato da Europa desde o final do século XIX até à II Grande Guerra Mundial feito por Stefan Zweig, quer pelo conteúdo, quer pela qualidade da escrita e ainda pelos pensamentos e reflexões do autor e de grandes homens comm quem se cruzou, torna-o numa obra magnífica que merece uma leitura para quem gosta de história e boa escrita. A análise desta obra no blogue pode ser lida aqui

Melhor Obra de Ficção Canadiana

MaddAddam - Margaret Atwood

Não foi difícil a escolha, pois foi o único livro do meu país natal que li ao longo deste, penso que ainda não está traduzido em Portugal, tem a importância de fechar uma trilogia e de ser um especulação futurista do presente, onde o homem pode ser o gerador da sua própria destruição, neste caso, por uma pandemia intencional o que o torna muito pertinente nestes tempos. Mais dados aqui.

sábado, 10 de abril de 2021

"Ripley debaixo de Água" de Patricia Highsmith

 

Acabei de ler o quinto e último livro do conjunto dos cinco romances da escritora norteamericana Patricia Highsmith protagonizados pela personagem Tom Ripley: um assassino americano, estabelecido em França numa vida de luxo após herdar a fortuna da sua primeira vítima e perito em escapar à justiça dos seus atos criminosos. Alguém totalmente amoral, inteligente, calmo, bem parecido, apreciador do bom-gosto em matéria de música erudita, livros, gastronomia, vinho, vestuário, viagens, pintura e jardinagem.
Neste romance, "Ripley debaixo de Água", o nosso protagonista vê-se seguido de perto por um americano que se estabelece nas vizinhanças, sabe demasiado sobre o seu passado e está disposto a descobrir o corpo de um milionário assassinado há anos e atirado à água num dos canais que bordejam Paris, tarefa que depois descobrimos fazê-la em articulação com familiares de vítimas dos anteriores romances. Em paralelo, este intruso força uma amizade assumidamente sarcástica com Tom pelo prazer de o aterrorizar e manifestar a sua intenção de o denunciar, este, entretanto, procura manter a sua vida luxuosa, calma, enquanto viaja por Marrocos e Londres, sem perder oportunidade de acompanhar à sua maneira a ameaça que se lhe depara, até o corpo ser de facto pescado e tudo ir desencadear um final novamente original.

Numa escrita sempre elegante, fácil e cheia de pormenores diários, já característica de anteriores volumes, a obra mostra a calma com que se desenrola vida social e de luxo de Tom, desde a sua relação madura e descomprometidas com a esposa, as descrições de hábitos quotidianos numa aldeia periférica de Paris com os pormenores gastronómicos fornecidos pela sua empregada, os cuidados do cultivo das várias espécies de flores do jardim, até pormenores das aulas de cravo e das viagens internacionais que se intercalam com os períodos de tensão fria e calculista perante as ameaças, onde é mantido sempre a compostura do nosso vilão.

A escritora tem a arte de nos colocar suspensos e interessados em que o nosso protagonista amoral escape às malhas dos seus perseguidores, uns em nome da justiça oficial, outros vindos de gangues ou amantes do castigo popular que lhe vão tecendo armadilhas a que ele com os seus ardis ele habitualmente sobrevive ileso.

Apesar do suspense, não é um romance em ritmo acelerado, neste não ocorrem cenas violentas como nalguns dos anteriores, mas mantém o interesse e, apesar de ser uma história independente do passado, possui numerosas referências às aventuras criminosas anteriores de Tom Ripley que o tornam mais interessante se forem já do conhecimento do leitor. Uma obra  de lazer que dá prazer ler e gostei.

Para consultar sobre anteriores volumes desta coleção postados neste blogue clique aqui. O Talentoso Mr. Ripley li anteriormente ao Geocrusoe ter mensagens dedicadas a livros e talvez o mais elaborado deste conjunto.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

"O caso do Camarada Tulaev" de Victor Serge

 
Citações
"Heróis de ontem, o lixo de hoje, é a dialética da História..."

"Encontramo-nos cobertos de crimes, todavia temos razão perante o Universo..."

"Talvez seja muito bom, isto de não podermos dominar por completo o nosso cérebro, e que ele nos imponha imagens e ideias que preferíamos rejeitar cobardemente: é assim que a verdade faz o seu trajeto..."

Acabei de ler o romance do russo-belga Victor Serge "O Caso do camarada Tulaev" uma obra de ficção que procura retratar o período de perseguição estalinista.
Kostia vive amargurado com as injustiças e infelicidade que vê num regime que procura libertar o Homem e numa conversa com o vizinho do quarto ao lado este empresta-lhe uma arma que acabara de adquirir. Depois, ao passear na noite moscovita, cruza-se casualmente com Tulaev, um dos maiores do regime, e num impulso faz justiça dispara e consegue fugir. Começa então a perseguição aos homens fortes do aparelho que poderiam estar interessados neste crime, teremos então uma série de interrogatórios a quem pode ter ambições e fazer sombra aos sonhos de outros ou à revolução, une-os o facto de estarem todos inocentes neste caso mas um perigo no sistema.
Ao longo dos vários capítulos vamos percebendo de forma crua o que foi a fidelidade de cada um dos suspeitos à revolução em curso, o respetivo modo de ascensão no aparelho, a exigência de obediência cega imposta pelo partido e como se criou uma justiça destruidora dos seus heróis em nome dessa revolução que eles próprios fizeram de tal modo que praticamente todos estão à espera de serem condenados nesta teia que teceram que já os levou à derrota na guerra civil espanhola.
A escrita é de grande qualidade estética, bela e cheia de reflexões, o que torna esta obra não só uma denúncia política do autor (um anarquista, comunista e trostkista filho de russos mas nascido na Bélgica) um texto literariamente rico, profundo e originalidade na trama, com um humor subtil com ironia e sarcasmo que se subentende a partir dos pensamentos e frases dos personagens que vão desfilando e, entre eles, o que nunca é identificado pelo nome: Estaline.
Apesar do ambiente tenso é uma obra fácil de ler, a riqueza de pensamentos torna-o apto a muitos sublinhados e fonte de citações, o que justifica ter sido considerado uma obra-prima da literatura de exílio de meados do século XX. Muito bom... excelente!

segunda-feira, 22 de março de 2021

"O Livro dos Baltimore" de Joël Dicker

 

Acabei de ler mais um livro do escritor suíço Joël Dicker que tem publicado recentemente obras de grande sucesso, sobretudo do género suspense e policial. "O livro dos Baltimore" não se enquadra bem em nenhum dos géneros citados, embora tenha o mesmo protagonista do livro de suspense e investigação policial "A verdade sobre o caso Harry Quebert".

Marcus Goldman, o escritor que no anterior romance procurou descobrir o que estava por detrás do desaparecimento de Nolla Kellergan que destruíra a vida do seu professor de literatura, agora vira-se para uma narrativa de memórias autobiográfica de criança até ao presente em que goza de grande fama. A obra envolve a comparação e a sua admiração progressiva pelos seus parentes Goldman ricos e com sucesso público de Baltimore face à mediania da sua família Goldman em Montclair, as amizades entre primos e amigos comuns onde também a rivalidade do amor dá entrada na adolescência. 

A narrativa, à semelhança da outra, desenrola-se cruzando episódios ocorridos em vários períodos da história das personagens e distanciados entre si de anos e décadas, sem respeitar uma perfeita ordem cronológica que se intercalam com situações no presente, o que permite reconstituir a linha evolutiva dos acontecimentos. Desde o início temos a perceção que algo de catastrófico decorreu nesta viagem temporal que só no fim o protagonista perceberá tudo o que aconteceu e os seus erros de perceção. Entretanto, assistimos ao estilo de vida de uma família da classe média e outra da classe alta no leste dos Estados Unidos e com alguns olhares para a realidade desta sociedade. Afinal, quantos segredos estavam escondidos por trás das atitudes públicas das relações entre ambos os ramos e dentro de cada agregado que desembocaram numa drama trágico que nunca se imaginaria possível.

Joël Dicker escreve muito bem sem procurar ser revolucionário e sabe manter ocultos aspetos que prendem o leitor à narrativa, pois lança pistas de interesse para só descobrir tudo posteriormente. Cria assim uma obra que tem um excelente carácter lúdico, fácil, mas com um nível literário acima da mediania de muitos romances de sucesso rápido. Gostei da história que prende num género de livro entretenimento que agrada a quem também valoriza a qualidade da escrita.

sábado, 13 de março de 2021

"H. G. Wells FICÇÃO CURTA COMPLETA" - Volume 2

Depois de ter lido o 1.º volume desta coletânea, completei a leitura da "Ficção Curta Completa" de H. G. Wells com o volume 2, um livro com contos de géneros bem diferentes entre si e do anterior livro, mas aqui também coexistem narrativas perspetivadas no futuro e outros recuadas ao período pré-histórico, além de alguns especulativos ao nível do paranormal, da investigação científica e da invenção tecnológica contemporâneos da vida do autor do final do século XIX ao primeiro quartel do XX.

Trinta contos, dois mais extensos e quase novelas mas inferiores a uma centena de páginas, enquanto a maioria ronda as 20. Alguns gostei mesmo muito, uns pelo mero aspeto lúdico, outros pela imaginação do que seria a sociedade no século XXI perspetivada há cem anos atrás e outros pela informação antropológica à luz de então de como seria a humanidade há uma dezenas de milhares de anos atrás com as suas primeiras invenções, aventuras para dominar o território da Europa e o contacto com o homem de Neandertal, além dos das especulações mágicas e paranormais enquadradas no período vitoriano. Verdade que também alguns contos não me agradaram, mas como ficção curta passaram depressa e da maioria de tirei grande prazer na leitura.

Transversalmente aos diferentes contos, persiste uma escrita de grande elegância e literariamente rica, por vezes com tiques e humor muito britânico e nem sempre politicamente corretos à luz dos atuais julgamentos históricos descontextualizados que vão surgindo na sociedade nos nossos tempos.

Gostei mais do primeiro volume, mas valeu a pena completar este ciclo do autor da Guerra dos Mundos e renovador da ficção científica no início do século XX que cativa todos os géneros de leitor.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

"MaddAddam" de Margaret Atwood

Ao fim de vários anos regressei à trilogia "Oryx and Crake" da escritora canadiana Margaret Atwood com o terceiro romance "MaddAddam". Para uns leitores este conjunto será classificado de ficção científica ou uma distopia, mas para mim é mais um alerta, em forma de ensaio ficcional, criativo e especulativo sobre os riscos que podem  resultar do modelo de desenvolvimento científico, tecnológico e socioeconómico da sociedade atual hedonista, sem ética e moral, ou seja, uma civilização global desequilibrada, uma natureza descaracterizada e um ambiente doente que já se começa a insinuar e poderá permitir a revolta e vingança de alguém com pretensão de justiceiro que leve á autodestruir da humanidade acompanhado do desejo de substituir o Homem por um outro ser humano idealmente perfeito.

MaddAddam, que li em inglês  e penso não estar traduzido em Portugal e cujo o título traduziria por LoucoAdão, vai buscar muita da sua inspiração ao criacionismo do Génesis da Bíblia e ao anseio do homem participar da criação para criar um mundo sem os defeitos do atual, logicamente, tal como em Frankeinstein, este desejo de fazer o papel de deus tende a gerar outra realidade monstruosa.

No primeiro volume, "Oryx and Crake", assistimos à vida da elite ligada às multinacionais, com os seus estrategas e criativos genéticos e de produtos consumíveis geradores de prazer que escravizam a maioria da população e a tornam refém desta globalização amoral e do nascer da revolta e vingança de Oryx que cria um novo homem e arquiteta e implementou a destruição da humanidade.

No segundo, "The Year of the Flood" vemos a vida no exterior dos  complexos de luxo das elites, os bairros degradados, violentos com clubes de prazer numa sociedade consumista onde, em paralelo, surgem movimentos ambientalistas e humanistas que se tornam num nova religião até que que a pandemia provocada intencional leva ao dilúvio seco e ao fim do homem.

Neste terceiro volume estamos perante os sobreviventes do dilúvio seco que, à semelhança do velho Noé, viram os sinais dos tempos e se prepararam para sobreviver, bem como o encontro destes com o "homem novo" - geneticamente modificado para ser pacifista, vegetariano, sem ambição e maldade, mentalizados para viver numa sociedade igualitária, comunal e sem complexos de sexualidade - mas desta ligação nascerá uma nova mitologia com os seus deuses e guias superiores, talvez os primórdios de uma futura religião ambientalista, mas teísta. A obra abre a porta ao cruzamento genético dos dois tipos de seres humanos, mas tal não é explorado, talvez uma oportunidade para uma tetralogia.

A narrativa está cheia de criaturas aberrantes dos tempos próximos filhas da engenharia genética. A escrita está inundada de neologismos, palavras compostas fruto dessa criatividade e invenção da sociedade consumista e hedonista. por vezes o texto é quase infantil para evidenciar a ingenuidade do homem novo sem maldade, outras bem adulto, com insinuações eróticas nas interpolações ao passado e para explicar a vida dos sobreviventes, alguns nada perfeitos outros idealistas, mas que conhecemos em volumes anteriores, cujas vidas ao serem narradas aos espécimes criados por Oryx gerarão uma nova mitologia e crença.

Regressei a esta sequela tendo em conta que o mundo da atual pandemia me tem levado a desanimar com o comportamento humano de uma forma demasiado abrangente. Assim, com esta desilusão e ao saber deste substituto perfeito que me chocara no primeiro romance, esperava agora voltar a ter saudades do homem atual com as suas virtudes e defeitos. Confesso que o objetivo não foi alcançado completamente, mas também não desejo que a humanidade seja substituída por homúnculos belos e ingénuos à imagem de outra mente humana desiludida com a humanidade.

Para quem gosta de ficção que especula a evolução do mundo atual para o abismo, é uma excelente história. Gostei e cativou-me, apesar de não considerar o estilo de escrita nestes dois últimos volumes da trilogia como tendo um grande valor literário, mas vale muito pela imaginação, momentos de tensão, suspense, criatividade e alerta para o mundo de hoje.


quarta-feira, 10 de fevereiro de 2021

"Anúncio de um crime" de Agatha Christie

 

Excerto

"- Nós esquecemo-nos que os criminosos também são pessoas. 
- ...Humanos. E muitas vezes pessoas dignas de compaixão. Mas também muito perigosas."

Acabei de ler mais um romance policial da mestre inglesa Agatha Christie: "Anúncio de um Crime".

A população da Chipping Cleghorn é surpreendida pelo anúncio no jornal local de um crime a cometer numa vivenda da aldeia a uma determinada hora dessa tarde. Uns apenas suspeitando tratar-se de um jogo, outos chocados e todos cheios de curiosidade decidem fazer uma visita à anfitriã da moradia onde ocorrerá o evento. Assim, vão aparecendo como por acaso onde a dona, conhecendo a vizinhança, também os esperava. À hora marcada ocorre o que parece uma tentativa de assalto, morte do ladrão e o ferimento da dona da casa. Só que aquilo que inicialmente parecia um roubo que correu mal em breve torna-se evidente numa tentativa de homicídio que a polícia tentará revelar com escassas pistas, mas eis que Miss Marple surge em cena com a sua sensibilidade humana e apontará para o seguimento de pistas e à resolução do caso.

Na sua linguagem fácil e na ambiência da Inglaterra rural cheia de hábitos tradicionais, a escritora, usando o conhecimento do comportamento psicológico das pessoas, faz-nos conduzir em suspense por uma fila de suspeitos e a uma intricada cadeia de vários crimes cujo autor no fim será desmascarado de forma surpreendente, sem nunca se perder na narrativa o estilo de vida social calmo e humano de Chipping Cleghorn.

Tenho gostado de todos os romances de Agatha Christie e este não foi exceção e é interessante como ela numa toada calma consegue manter vivo o suspense e a ocorrência de crimes que parecem improváveis nestes ambientes.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2021

"A gaivota * O tio Vânia * Três Irmãs * O Ginjal" de Anton Tchékhov

 

Excertos

"Pois é, chego cada vez mais à conclusão de que o problema não são as formas velhas ou as formas novas, mas precisamente o que escrevemos, sem pensarmos em quaisquer formas, escrevemos porque isso jorra livremente da nossa alma." A Gaivota.

"É assim a vida, não há nada a fazer. Tudo o que nos parece muito importante, com muito significado, muito sério - há-de chegar um tempo em que é esquecido, ou que não parece importante." Três Irmãs.

Terminado o mês em que talvez menos lí nas últimas décadas, mas coincidente com o que mais teatro li, logo no início deste acabei de ler o livro do escritor russo Anton Tchékhov que reúne quatro peças de teatro: A Gaivota, O Tio Vânia, Três Irmãs e O Ginjal

Em A Gaivota, numa casa de família cruza-se uma atriz com passado glorioso com seu filho jovem pretendente a escritor melodramático em busca de novas formas e visitantes que vão desde um escritor consagrado, uma pretendente a atriz e gente entendida no mundo das letras. Ao longo da trama apercebemo-nos das invejas e hipocrisia dos estabelecidos e das inseguranças e sonhos dos mais novos até à sua desilusão, podemos dizer que é uma peça de teatro a  interrogar-se sobre esta arte, os males do meio e os riscos e necessidades de inovação, sem dúvida questões caras ao autor.

N'O Tio Vânia temos gente comum num espaço familiar com desconfianças mútuas sobre os úteis, acomodados e oportunistas e necessidades de mudança de comportamento e incertezas. Uma peça que reflete sobre gente comum de famílias históricas em declínio, um retrato social da Rússia pouco antes da revolução e onde estão subentende aspetos do fim do império monárquico para o soviético.

Nas Três Irmãs, é uma história de gente comum e passa-se na casa de família destas com um irmão mais velho que passa de esperança de todas para a desilusão. Esta situação permite discutir com amigos e dissertar sobre as dificuldades do presente como potencial trampolim e construção de um futuro glorioso, mas incerto e longínquo da humanidade.

N'O Ginjal numa quinta familiar de aristocratas em queda, veremos o declínio da classe dominante no passado a ser ultrapassado pelos investidores capitalistas que pisam a tradição e a cultura para progredir e enriquecer, expelindo despudoradamente os senhores do passado em benefício individual.

Todas as peças mostram Tchekhov a testar novas formas de teatro, retratos de época e a questionar as mudanças de valores, da arte e os conflitos da sociedade de então através de gente tipicamente da Rússia rural da classe antes dominante ou da cultura e em conflito com as novas personalidades. São obras de vanguarda, mas fáceis de ler pela linguagem comum das personagens, só que ainda hoje parecem diferentes do teatro tradicional. Alguns dos atores por vezes debitam textos extensos para construir conceitos perante outros que perturbam e entram e saem de cena como nos momentos de tensão dos romances de Dostoievsky e, tal como este, as perguntas ficam no ar, cabendo ao espetador/leitor questionar-se. Gostei muito.

terça-feira, 19 de janeiro de 2021

"Yaka" de Pepetela

 

Acabei de ler o romance "Yaka" do escritor angolano Pepetela. Este narra a vida da família Semedo de ascendência portuguesa desde o nascimento acidentado de Alexandre Semedo em 1890 até à independência de Angola em novembro de 1975, atravessando 5 gerações em torno de Benguela.

O romance tem como narrador principal Alexandre, um helenista filho de um exilado português, que conta toda a sua vida, a da sua família, a do estilo de vida dos colonos e das etnias do sul de Angola, e da cidade de Benguela, numa montagem que reúne a sua análise crítica politicossocial em resultado da sua troca de opiniões com as impressões que retira de uma escultura indígena "Yaka" guardada na sua casa. Deste modo se monta a história da colónia desde o final do século dezanove, ainda quando a metrópole era uma monarquia, se passa pela esperança da 1.ª república, à dureza da ditadura do Estado Novo, se desemboca na revolução do 25 de Abril e termina com o domínio local do partido MPLA imediatamente antes da independência e o início da guerra após a invasão da África do Sul como aliada da UNITA e feroz anticomunista.

O romance mostra o ambiente de guerrilha alimentado pela comunidade portuguesa que, apesar de ter livres pensadores humanistas no seu seio, permitiu que esta controlasse o comércio e expoliasse as populações autóctones dos melhores terrenos, tendo como suporte desta estratégia o regime governativo ao serviço dos lusitanos. Neste meio, o protagonista, um ser humanista e fascinado pela cultura grega, foi-se acomodando a esta gestão política que ele próprio rejeitava.

A visão apresentada é ocidentalizada e a análise crítica para o final do romance só considera como salvador o partido MPLA a que o escritor pertencia, todavia o livro vale por dar a conhecer as tensões que sempre subsistiram no terreno desde o século XIX, as suas causas e oportunismos, para melhor se compreender o que foi a vida nesta colónia. Não há uma apreciação isenta e justificativa das divergências entre partidos que lutaram pela independência que permita compreender porque Angola foi depois palco da guerra civil mais longa em África e sugada por um único partido que se transformou num sistema de capitalista centrado em nepotismo e corrupção.

A escrita é fácil, apesar dos numerosos vocábulos angolanos, há um pequeno dicionário no fim, e a própria narrativa não oral utiliza uma sintaxe distinta da que de Portugal e do Brasil. Um bom romance para compreender Angola, agradável em estilo de saga, o que permite ver a evolução dos tempos e a diversidade dentro de uma família e de uma comunidade colonial, onde os portugueses não ficam bem nos seus comportamentos coletivos, mas que consegue ser delicado para não se tornar num manifesto contra todos os lusitanos. Gostei.

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

"TRAGÉDIAS I" Eurípides

 


Iniciei o novo ano estreando-me num género literário e período histórico totalmente diferente do habitual: teatro grego da época clássica. "Tragédias I", do poeta dramático Eurípides do século V antes de Cristo, é o primeiro volume de um conjunto de três que reúnem as tragédias escritas por este autor que chegaram até hoje. Livros editados pela "Imprensa Nacional Casa da Moeda", encontrando-se o segundo esgotado enquanto o terceiro comprei antes que deixasse de estar disponível.
O presente livro contém quatro peças, uma sátira: Ciclope; e três tragédias: Alceste, Medeia e Heráclidas. A primeira corresponde a um episódio baseado na Odisseia, a aventura de Ulisses quando se vem abastecer em terra com a sua tripulação do regresso da Guerra de Troia e se encontra na gruta do gigante de um só olho e antropófago, o ciclope Polifemo, que imediatamente procura utilizar estes homens nos seus futuros repastos, mas a astúcia de Ulisses com o uso do vinho e aliciando os sátiros que serviam o ciclope lá se conseguirá libertar da situação. Uma peça cheia de humor com uma linguagem por vezes brejeira e fácil.
As restantes 3 peças são de uma profundidade e grande e todas elas envolvem lições de moral.
Em Alceste, Admeto, o rei de Feras, está condenado a morrer doente pelos deuses da morte, exceto se alguém der a sua vida por ele, ninguém assume tal ato, nem os seus pais idosos, então em segredo a sua mulher e mãe dos seus filhos, Alceste, assume o sacrifício com todas as tensões e análises morais que tal ato heroico e comportamento das personagens implica. Hércules conhecendo a situação irá procurar resgatar a heroína do mundo dos mortos e devolvê-la ao marido com toda a abordagem pós clímax. 
Medeia é uma história de infidelidade e vingança. Uma filha de rei que fugiu da sua casa real, que se opunha ao seu objetivo de se casar com grego Jasão, provocando ainda a morte do irmão. Jasão mais tarde decide abandoná-la com os filhos para se casar com a filha do rei da sua nova cidade Atenas. Apesar da condenação dos personagens pelo ato do marido, o rei ainda expulsa Medeia da cidade por questões de segurança. Só que a vingança de Medeia levará ao homicídio dos seus próprios filhos e da princesa, para não haver redenção em Jasão. Uma peça que analisa as questões morais do comportamento das personagens envolvidas e com um elogio belíssimo sobre os valores morais e de justiça defendidos por Atenas. 
Heráclidas, o nome dado aos filhos de Hércules, é uma peça com um teor moral mais fluído. Após a morte do herói Hércules por perseguições do rei Eristeu, este decide perseguir os próprios filhos daquele que se abrigaram no estrangeiro à sombra de um templo a Zeus na cidade de Maratona. Defendendo o princípio de hospitalidade o rei anfitrião, mesmo perante a ameaça de invasão resiste, mas é abalado quando os oráculos vaticinam a derrota de Maratona se não houver o sacrifício de uma jovem nobre, algo que Demofonte não está em condições de implementar no seu reino democrático. Eis que Macária, uma das filhas de Hércules, assume o sacrifício pela sua família e cidade de acolhimento, o que levará à derrota do inimigo e à entrega de Eristeu à velha mãe de Hércules, mas apesar das regras de clemência de Maratona este o modelo não é respeitado pela anciã Alcmena.
Nenhuma peças é extensa, necessitando de poucas horas de leitura, contudo o livro está cheio de anotações de peritos na arte clássica e existe para cada uma destas obras uma introdução de contexto que muito enriquece a respetiva compreensão e nos dão informações sobre a representação, o mundo helénico à época de Eurípides e o seu papel na abordagem das grandes questões morais, filosóficas, sociais e políticas de então que o levaram a tornar num dos três maiores trágicos clássicos.
Gostei muito, valeu a pena e o terceiro volume em breve deverá merecer a minha atenção. Foi um grande prazer apreciar estas obras com deuses e seres mitológicos perante grandes questões morais e sociais encenadas para o teatro há cerca de 2500 anos.