quarta-feira, 31 de julho de 2019

"Auto de Fé" de Elias Canetti

Acabei de ler "Auto-de-Fé", o único romance de Elias Canetti, autor búlgaro que adquiriu a cidadania inglesa, escreveu sobretudo em alemão e vencedor do prémio Nobel da literatura, essencialmente pelas suas obras de ensaio e memórias. Um livro que me deixou impressões contraditórias.
Peter Kien é um apaixonado por livros, estudioso e perito em sinologia, dono da maior biblioteca privada da cidade e detentor de uma fenomenal memória, mas vive isolado do convívio humano por ser um misantropo exacerbado. Na sua casa conhece o porteiro, que lhe assegura o afastamento de intrusos, e a criada, mas deixa-se cativar por esta que lhe demonstra interesseiramente uma admiração por livros que o confunde e com quem vem a casar. Começa então o seu calvário com a ganância da esposa, a sua infidelidade e a ocupação do seu espaço, mas na sua delicadeza é ele que abandona o lar, onde conhece a escória da sociedade com o pior tipo de personagens que se aproveita dele. Peter leva a sua biblioteca na cabeça e contrata um anão para o ajudar no seu transporte livreiro. O choque da sua inadaptação levam ao descalabro psicológico e à confusão da sua imaginação desenraizada do convívio, talvez possa ser salvo pelo seu irmão distante, um psiquiatra gestor de um manicómio que se entusiasmou na cura de loucos.
Canetti leva o aprofundamento das suas personagens trágicas ao extremo da racionalidade, criando situações que se desenvolvem ao pormenor e longamente, o que por vezes leva a uma certa saturação do desenrolar da estória. O que acompanha com a intercalação de muitas informações provenientes da vasta cultura do escritor e do protagonista, este considera o livro acima da pessoa humana.
A escrita é riquíssima, cheia de imagens fortes, a narrativa toca o irrealismo que é enriquecido com a loucura e o desencontro das mentes dos personagens na interpretação do outro e da sociedade. É sem dúvida um grande romance, mas também pela extensão que nalguns momentos satura, mas a beleza do texto assegurou a persistência da leitura e levou-me sobretudo a querer conhecer a obra de memórias autobiográficas de Canetti.
Uma obra difícil e desafiante.

domingo, 21 de julho de 2019

"Um, ninguém e cem mil" de Luigi Pirandello


Excerto
"Você acredita que se conhece, se não se construir de alguma maneira?... Só somos capazes de conhecer aquilo a que conseguimos dar forma."

Em "Um, ninguém e cem mil" o escritor italiano Luigi Pirandello, laureado com o Nobel da literatura, constrói uma dialética, cheia de humor e reflexão, em torno da busca de identidade que cada um tem de si e daquelas que e os outros fazem de nós próprios,não somos únicos mas uma miríade de personagens. Somos uma composição múltipla de todas essas individualidades criadas por nós e por quem socializamos.
A partir de um comentário da mulher enquanto Vitangelo Moscarda se olhava ao espelho, no qual ela lhe comunica a inclinação do seu nariz de que ele nunca se apercebera, começa um conjunto de reflexões de como sou eu? Que imagem têm os outros de mim? Questões que se tornam numa obsessão que vão mudar a sua vida de banqueiro a viver à sombra da sua riqueza herdada em alguém que não apenas se quer mudar mas deseja que os outros o modelem com uma personalidade diferente.
Escrito em estilo de autorreflexão, onde trespassa ao longo dos parágrafos humor, apreciação do problema e dedução, Pirandello monta a mudança de uma personalidade a partir de um ensaio de autoanálise do protagonista.
Originalíssmo e divertido, embora exaustivo pela miríade de variantes que se vão labirinticamente cruzando, não perde interesse por ser relativamente curto, o que alimenta a vontade de saber como ficará Vitangelo Moscarda no fim do romance.
Fiquei com curiosidade de descobrir outras obras deste escritor.

domingo, 14 de julho de 2019

"O legado de Humboldt" de Saul Bellow


Excerto
"É verdade que as melhores coisas da vida estão à livre disposição de qualquer um, mas ninguém é suficientemente livre para desfrutar as melhores coisas da vida."

"Antigamente, os mais amargos reveses da vida enriqueciam apenas os corações dos desgraçados ou tinham unicamente um valor espiritual. Mas hoje em dia qualquer acontecimento pavoroso pode ser transformado numa mina de ouro."

Ao fim de muitos anos voltei a Saul Bellow, vencedor do Nobel da literatura, nascido no Canadá, de ascendência judia e naturalizado Norte-Americano, através do romance: O legado de Humboldt.
Charlie Citrine parte do interior dos EUA para Nova Iorque com o objetivo de conhecer o poeta que o deslumbrou: Humboldt. Com este desenvolve uma amizade profunda que acompanha o auge da carreira dele, só que esta entra em declínio enquanto a de Charlie caminha para o sucesso. Este vem para Chicago onde cresceu, só que a ascensão não é bem digerida por quem entrou em decadência, o que leva ao distanciamento entre ambos, mas não ao fim da admiração. Quando na meia-idade a vida de Citrine se começa a complicar, culturalmente e ao nível privado, já Humboldt morreu, mas ficaram as recordações e as lições por ele deixadas, enquanto se embrulha com mulheres, divórcio e amigos pouco abonatórios da cidade dos gangsters, é então que vem a descobrir que não foi esquecido pelo seu antigo amigo que lhe deixou um legado e a vida dará uma volta.
Bellow escreve bem, de uma forma realista, crua e cobre tudo isto com ironia amarga, humor inteligente e crítica ao estilo de vida norteamericano e de Chicago, que é fútil, onde imperam sonhos básicos capitalistas. Tudo isto é intercalado com numerosas referências/citações culturais, religiosas e filosóficas de pensadores do ocidente. Assim, a narrativa desta amizade serve de pretexto para retratar a sociedade dos Estados Unido, onde o dinheiro complica as relações humanas e os sentimentos, as escapatórias no sexo são normais e os oportunistas pululam construindo fachadas de sucesso e abusando da bondade, o que cria momentos de depressão, vazio moral e sede do transcendente.
Apesar de extenso, mais de 500 páginas, gostei muito, durante dias vivi as amarguras e desventuras deste génio cheio de recordações que nunca perdeu a admiração e amizade pelo seu ídolo cultural numa América oca, onde o dinheiro e a ânsia de sucesso são o modo de vida por excelência.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

"Os dados estão lançados" J. P. Sartre


Li o romance/novela "Os dados estão lançados" do filósofo francês laureado com o Nobel da literatura: Jean Paul-Sartre, apesar de o ter feito em ebook, esta obra existe em livro conforme o link associado ao nome do mesmo.
A obra começa com o desenrolar de dois homicídios: de Pedro - um líder revolucionário em véspera da revolta, morto por um espião; e de Eve - uma esposa rica e infeliz, envenenada pelo marido. Os assassinados no reino dos mortos podem observar sem serem vistos o que se passa no mundo dos vivos e tomam conhecimento de riscos que desejam evitar: Adão envolvendo os seus correlegionários e Eva uma armadilha montada à irmã. Entretanto aquelas vítimas apaixonam-se entre si, só que o amor só se concretiza em vida, mas um artigo da lei permite reviver pessoas que destinadas uma à outra que não se encontraram antes. Assim, terão a morte revogada para concretizar o amor num prazo pré-determinado, só que também se sentem obrigados a evitar os males a que os entes queridos estão expostos, surgindo o problema de conciliar as duas tarefas e mudar o curso da história com os dados lançados não é fácil.
Escrito numa linguagem fria, quase telegráfica e sem recorrer a figuras de estilo evidentes, a trama desenrola-se de uma forma rápida que entrecruza cenas associados aos dois protagonistas assemelhando-se a uma dramatização teatral, e talvez só não seja uma peça por necessitar de recorrer a algumas soluções técnicas para descrever a realidade dos mortos e dos vivos e complexidade de encenar numerosos quadros curtos em ambiente muito distintos.
A ideia de destino e de fatalidade da existência humana atravessa a obra sem obrigar a grandes reflexões e a  crença romântica da força do amor é posta à prova por este filósofo existencialista.
Curto, muito fácil de se ler e consegue ter bom humor no seio das situações tristes em que Pedro e Eva se veem envolvidos, terminando com uma dúvida de esperança. Gostei muito.

quarta-feira, 3 de julho de 2019

"O Processo de Adão Pollo" J. M. G. Le Clézio

Excerto
"Se preferem, Deus tanto se compreende através do seu inverso, do seu Diabo, como dele próprio, na sua essência."

Acabei a primeira leitura de uma obra do francês Le Clézio, precisamente com o romance da sua estreia como escritor: "O Processo de Adão Pollo" alguém que décadas depois foi laureado com com o Nobel da literatura.
Adão Pollo, não se lembra se é desertor das forças armadas ou de um manicómio, sabe que se acolheu numa vivenda abandonada sobre o mar, onde recebe uma amiga que lhe traz mantimentos e tem esboços de situações passadas, talvez uma violação. Desta moradia observa pessoas, animais e acontecimentos que o rodeiam, começa a identificar-se com os seres que vê, entra em delírio com essa comunhão existencial que interfere com a paranóia do medo de ser expulso pelos donos da habitação, mas quando impulsivamente comunica a sua filosofia ao povo dá-se o seu colapso. É interceptado pelas autoridades e levado para uma casa de alienados, onde estudantes de psiquiatria o interrogam. Percebemos então que é um jovem licenciado, muito inteligente que fugiu de casa face ao seu anseio de liberdade e de viver que narra várias situações da sua vida e levanta numerosas questões existenciais deixando os alunos perdidos no seu inquérito de diagnóstico.
A obra excelentemente escrita articula uma narrativa original com escrita criativa experimental e incorpora questões de filosofia existencialista, tentando também revelar a psique de uma mente perturbada que roça a genialidade entre alienação e o racional ao nível das suas interrogações e vontade de viver.
Como obra de ficção gostei de ler, como texto de análise psicológica e filosófica é interessante e a originalidade da estrutura narrativa tornam-no cativante, o que justifica ter sido um sucesso editorial, mesmo sem ser um livro acessível ou interessante para qualquer leitor.