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domingo, 5 de março de 2017

"A Ponte sobre o Drina" de Ivo Andric

O romance "A ponte sobre o Drina", do bósnio croata e prémio Nobel da literatura em 1961: Ivo Andric, tem como protagonista esta obra de arquitetura, ou seja, a história da sua origem, construção e posterior importância desta infraestrutura, que é Património Mundial da Humanidade, na vida da cidade de Visegrad, a qual serviu de ligação entre o mundo islâmico/turco e o mundo cristão/sérvio e entre a cultura ocidental e oriental da Europa através dos Balcãs desde meados do século XVI, até à sua primeira destruição parcial na I Grande Guerra Mundial do século XX.
À semelhança do anterior livro que li deste autor "A crónica de Travnik", o mesmo caracteriza-se por uma escrita muito elegante, rica de adjetivos e metáforas em série e por vezes prolixa de pormenores, o que dá lugar a uma narrativa que se desenrola a um ritmo lento, como a vida na província. No presente romance não há um protagonista, o narrador faz desfilar uma série de personagens desde o não ficcionado sérvio raptado pelos turcos, que ocupavam a zona no século XV, para torná-lo militar forçado ao serviço do islamismo, ou seja um janízaro, que se tornou Mehmed Paxá, com um cargo equivalente a Primeiro-ministro governando todo o vasto Império Otomano, o qual decidiu mandar contruir esta ponte na sua província natal, prosseguido com personagens reais e lendárias, bem como a origem das lendas associadas à sua construção e ao imóvel, para depois ao longo de três séculos relatar estórias relacionadas com cidadãos sérvios, bósnios e judeus desta cidade, desde as suas paixões, investimentos, desgraças, amizades e tensões entre os vários credos e com as mudanças de mão dos povos que ocuparam e lutaram pelo domínio ou independência desta zona multiétnica da antiga Jugoslávia: turcos, austríacos, sérvios e bósnios; tudo isto sempre à sombra desta imponente ponte que marcava o pulsar cultural e social de Visegrad, unia mundos tão diversos e assistiu a mudanças muito significativas no modo de viver das populações e assistiu ao nascer de novas tecnologias industriais.
Assim, numa obra única e como numa passarela desfilam aventuras de juventude, reflexões de velhice, discussões de ideias, gente ébria e sóbria, exércitos, amores, paixões, ciúmes, desconfianças, rivalidades e ódios que em momentos de paz são mutuamente toleráveis, por vezes ridículos ou causadores de incidentes divertidos, mas que em períodos de guerra atingem extremos de desumanidade que deixam marcas para sempre.
Um grande livro, que dá a conhecer a complexidade do que é a mistura multicultural da Bósnia-Herzegovina tendo como ponto de união esta ponte secular Património da Humanidade, isto num romance que é também uma obra de arte global.
Visegrad e a sua ponte (wikipedia)

quarta-feira, 19 de agosto de 2015

"A crónica de Travnik" de Ivo Andric



"A crónica de Travnik" do escritor Ivo Andric - Nobel de 1961, um croata da Bósnia que se sentia jugoslavo e passou a escrever em servocroata - que acabei de ler, é de facto mais uma crónica do que uma trama de relações entre protagonistas e auxiliada por entidades secundárias comum a um romance tradicional. O livro mostra pelos olhos do cônsul francês - uma personalidade que vibrou em criança com a monarquia absolutista e depois se converteu em jovem às ideias liberais napoleónicas e que busca o caminho certo que não encontra, o que o torna inseguro - a forma de ver a vida de Travnik no período de abertura e fecho do consulado nesta cidade bósnia durante as guerras napoleónicas para defender os interesses do império que representava. 
O livro além de ser uma obra com uma escrita muito agradável, é um desfile de personagens que retratam a miscelânea de católicos, ortodoxos, judeus e muçulmanos sob o domínio turco numa pequena cidade onde confluem desconfianças entre religiões, choques de cultura entre ocidente e o oriente e ainda onde através da diplomacia se jogo interesses entre impérios que se atropelam para conquistar mais poder, sem esquecer as visões da realidade fruto da juventude, maturidade e velhice.
Nestes tempos conturbados e de choque de mentalidades, decorreram períodos ternurentos, outros deprimentes e inclusive do horror típico de quando o poder toma a rua com culturas que se odeiam ou de quando o terror é usado como uma arma. Gostei do livro e comecei a compreender o que foi de facto o rastilho da ainda recente guerra dos Balcãs. Mais do que uma lição de história, este romance é uma mostra do choque de gerações, de mentalidades e de culturas e por isso ajuda a compreender melhor de modo diplomático os conflitos do mundo em que vivemos.