segunda-feira, 22 de março de 2021

"O Livro dos Baltimore" de Joël Dicker

 

Acabei de ler mais um livro do escritor suíço Joël Dicker que tem publicado recentemente obras de grande sucesso, sobretudo do género suspense e policial. "O livro dos Baltimore" não se enquadra bem em nenhum dos géneros citados, embora tenha o mesmo protagonista do livro de suspense e investigação policial "A verdade sobre o caso Harry Quebert".

Marcus Goldman, o escritor que no anterior romance procurou descobrir o que estava por detrás do desaparecimento de Nolla Kellergan que destruíra a vida do seu professor de literatura, agora vira-se para uma narrativa de memórias autobiográfica de criança até ao presente em que goza de grande fama. A obra envolve a comparação e a sua admiração progressiva pelos seus parentes Goldman ricos e com sucesso público de Baltimore face à mediania da sua família Goldman em Montclair, as amizades entre primos e amigos comuns onde também a rivalidade do amor dá entrada na adolescência. 

A narrativa, à semelhança da outra, desenrola-se cruzando episódios ocorridos em vários períodos da história das personagens e distanciados entre si de anos e décadas, sem respeitar uma perfeita ordem cronológica que se intercalam com situações no presente, o que permite reconstituir a linha evolutiva dos acontecimentos. Desde o início temos a perceção que algo de catastrófico decorreu nesta viagem temporal que só no fim o protagonista perceberá tudo o que aconteceu e os seus erros de perceção. Entretanto, assistimos ao estilo de vida de uma família da classe média e outra da classe alta no leste dos Estados Unidos e com alguns olhares para a realidade desta sociedade. Afinal, quantos segredos estavam escondidos por trás das atitudes públicas das relações entre ambos os ramos e dentro de cada agregado que desembocaram numa drama trágico que nunca se imaginaria possível.

Joël Dicker escreve muito bem sem procurar ser revolucionário e sabe manter ocultos aspetos que prendem o leitor à narrativa, pois lança pistas de interesse para só descobrir tudo posteriormente. Cria assim uma obra que tem um excelente carácter lúdico, fácil, mas com um nível literário acima da mediania de muitos romances de sucesso rápido. Gostei da história que prende num género de livro entretenimento que agrada a quem também valoriza a qualidade da escrita.

sábado, 13 de março de 2021

"H. G. Wells FICÇÃO CURTA COMPLETA" - Volume 2

Depois de ter lido o 1.º volume desta coletânea, completei a leitura da "Ficção Curta Completa" de H. G. Wells com o volume 2, um livro com contos de géneros bem diferentes entre si e do anterior livro, mas aqui também coexistem narrativas perspetivadas no futuro e outros recuadas ao período pré-histórico, além de alguns especulativos ao nível do paranormal, da investigação científica e da invenção tecnológica contemporâneos da vida do autor do final do século XIX ao primeiro quartel do XX.

Trinta contos, dois mais extensos e quase novelas mas inferiores a uma centena de páginas, enquanto a maioria ronda as 20. Alguns gostei mesmo muito, uns pelo mero aspeto lúdico, outros pela imaginação do que seria a sociedade no século XXI perspetivada há cem anos atrás e outros pela informação antropológica à luz de então de como seria a humanidade há uma dezenas de milhares de anos atrás com as suas primeiras invenções, aventuras para dominar o território da Europa e o contacto com o homem de Neandertal, além dos das especulações mágicas e paranormais enquadradas no período vitoriano. Verdade que também alguns contos não me agradaram, mas como ficção curta passaram depressa e da maioria de tirei grande prazer na leitura.

Transversalmente aos diferentes contos, persiste uma escrita de grande elegância e literariamente rica, por vezes com tiques e humor muito britânico e nem sempre politicamente corretos à luz dos atuais julgamentos históricos descontextualizados que vão surgindo na sociedade nos nossos tempos.

Gostei mais do primeiro volume, mas valeu a pena completar este ciclo do autor da Guerra dos Mundos e renovador da ficção científica no início do século XX que cativa todos os géneros de leitor.