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terça-feira, 31 de dezembro de 2019

"O Bizarro Incidente do Tempo Roubado" de Rachel Joyce


O fim de 2019 chega com o termo da leitura de mais um romance que por sua vez se encerra na madrugada de um ano novo a brotar flores. Não sei porque a tradutora adotou do original Perfect o título em Portugal de "O Bizarro Incidente do Tempo Roubado" para esta obra escritora inglesa Rachel Joyce. A verdade é que foi este estranho título que me chamou a atenção por me recordar obras da adolescência e depois de verificar que o livro estava com uma grande promoção, a autora já ganhara em 2012 o National Book Award com o seu primeiro romance e as críticas no site eram todas muito favoráveis que me decidi pela compra.
Em 1972 a sociedade astronómica internacional decidiu adicionar dois segundos ao ano para compensar o tempo de atraso da translação da Terra, Byron, um adolescente, teme que nesse momento possam acontecer coisas terríveis, num dia em que a mãe o leva à escola deteta um recuo no ponteiro dos segundos do seu relógio e enquanto chama a atenção para o facto apercebe-se de um acidente, a partir de então foca-se neste facto e com a ajuda do seu amigo inteligentíssimo James elaboram o Plano Perfeito para diagnosticar e corrigir a situação, mas este desencadeará um conjunto de imprevistos na sua família que acabarão em tragédia com reflexos na amizade e na sua vida ao longo de décadas.
Rachel Joyce escreve bem e tem uma excelente capacidade de tecer a narrativa, neste caso entrelaçando capítulos alternados entre o verão de 1972 e uma época de natal já em pleno século XXI e com fins de suspense para manter a tensão. Também não teme em denunciar males da sociedade no relacionamento entre classes sociais e dentro da família de um modo fora do politicamente correta habitual que as linhas da literatura mais recente tendem a seguir ou a impor. É prolixa em pormenores de que fazem estender a estória e retardam o desenlace. Constrói personagens que nos enternecem mesmo nas situações de grande tensão e desespero, enquanto os que nos despertariam um certo ódio estão pouco expostos de modo que será a amizade e o amor os sentimentos fortes no livro. Gostei muito do romance que é de fácil leitura para todos.

Feliz Ano de 2020 e boas leituras.

sábado, 28 de dezembro de 2019

"Conduz o Teu Arado sobre os Ossos dos Mortos" de Olga Tokarczuk


Excerto
"Toda a complexa psique humana foi-se formatando para impedir o Homem  de compreender aquilo que realmente vê,... ...O mundo é uma prisão cheia de sofrimento, construída de modo que, para se sobreviver, seja preciso infligir dor a outros."

Esta leitura resultou precisamente do facto de a autora polaca ter ganho este ano o prémio Nobel da literatura. "Conduz o Teu Arado sobre os Ossos dos Mortos" é uma espécie de romance policial, psicologicamente perturbador, não por ser um manifesto da causa animalista que considera os animais seres com estatuto igual ao dos humanos, uma espécie de religião ateia.
Num planalto isolado pouco povoado na fronteira entre a Polónia e a República Checa, na sequência da morte de um caçador furtivo uma vizinha deste - antiga engenheira de pontes mas forçada a abandonar a profissão por doença, professora de inglês mas reformada compulsivamente, tradutora de poesia, vegan e defensora dos animais - levanta a hipótese de que ele foi assassinado por corças em protesto pelo sofrimento infligido à fauna. Apesar do mau acolhimento da teoria, aos poucos outros caçadores da zona são assassinados com sinais de ação de animais. Ela pressiona a polícia a investigar os desrespeitos na caça e o ataque aos seus cães. A tensão cresce perante o desprezo das autoridades e a cooperação do padre nesta crueldade, até que tudo se descobre sobre estes crimes em série.
Olga Tokarczuk escreve bem, com a particularidade de colocar em maiúsculas substantivos a que dá importância: Animais, sentimentos como a Ira e certos Objetos. Paralelamente a narrativa faz-nos acompanhar da poesia de Blake, fala da literatura de terror e do instalar deste na sociedade caçadora, enquanto a protagonista como ativista vai acusando a sociedade de crimes ambientais, forçando a mudança de mentalidade das autoridades e convivendo com amigos desenraizados destes vícios civilizacionais.
O romance lê-se muito bem, tem suspense e incomoda com questões lançadas. Não concordo com todas as ideias da protagonista, mas estes argumentos têm-se alastrado na sociedade atual através de grupos que tentam impor este pensar a toda a comunidade. Um livro que recomendo.

domingo, 22 de dezembro de 2019

"A Inocência do Padre Brown" G. K, Chesterton


Estreei-me no escritor inglês G. K. Chesterton com o livro de 12 contos policiais "A Inocência do Padre Brown", todos protagonizados por este sacerdote católico de Inglaterra frequentemente com a ajuda do experiente do ex-ladrão Flambeau que se torna num cidadão honesto por ação do clérigo.
O escritor escreve muito bem e os seus textos são mais cheios de figuras de estilo literário e maior cuidado de escrita que muitas obras do género literário policial. Na narrativa, o Pe. Brown usa intensamente aspetos intuitivos e de apreciação do carácter moral e de tensão religiosa das personagens, o que dá uma originalidade na forma que torna bem distinta esta série detetivesca dos mais habituais romances criminais ingleses do início do século XX. O herói, no seu ar algo simplório de cura católico desintegrado da vida-comum das pessoas, esconde uma grande inteligência e perspicácia psicológica, em parte explicada pelo facto de na sua profissão estar habituado a ouvir o mal humano e se basear em parte na experiência do seu amigo e antigo ladrão.
Todos os contos tem aproximadamente a mesma extensão, cerca de 30 páginas, e a maioria está cheia de humor, são fáceis de ler e por vezes há pormenores implícitos de elogio da virtude ou do reconhecimento da superioridade da crença religiosa face ao ateu, nalguns momentos designado de pagão, o que soa estranho. Há um conto que é exceção, pois é pura especulação em torno da morte de um general herói da história cuja dedução e conclusão não é comprovada e com uma narrativa para mim algo fastidiosa.
Os contos da inocência do padre são os primeiros da série desta personagem, mas estes estendem-se por mais quatro volumes com outras qualificações do cura, por isso aqui surgem ainda histórias de Flambeau como ladrão, onde se inclui uma divertidíssima em que Brown o atrai a uma armadilha, noutra em que o leva a abandonar a atividade e outras onde este já é detetive refugiado. Pelo meio temos histórias com vigários vigaristas das novas religiões de raiz americana, sacerdotes criminosos, velhos príncipes reféns das suas maldades de juventude, maçons em luta contra o catolicismo, inocentação de acusados perante suicidas, jóias roubadas e demonstração de homicídio em caso de suicídio.
Gostei do livro, embora os contos imponham um desenvolvimento rápido da situação logo colada à conclusão e com pouca investigação, além de ter estranhado a valorização da intuição e da crença no herói face à dedução, a normal peça central do género policial.

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

"Solaris" de Stanislaw Lem

Excertos
"Seria possível a existência de pensamento sem consciência?"

"-E como é que tu sabes quem és?"

Acabei de ler o romance de 1960 "Solaris" do género de ficção-científica e escrito pelo polaco Stanislaw Lem, que é em simultâneo uma obra de análise filosófica sobre a questão da individualidade, da identidade pessoal, da necessidade de comunicação humana, da inteligência e até da questão de Deus. Um livro considerado de culto neste campo literário, pela sua qualidade e profundidade de análise, complementada com um drama romântico que já deu origem a dois filmes, um em 1972 e outro em 2002.
Kelvin, um psiquiatra, é mandado da Terra à estação sobre o planeta Solaris que orbita em torno de dois sóis, devido a preocupações narradas por um cientista ali estabelecido e antigo professor do médico.
Chegado ao destino, Kelvin é recebido com frieza e medo por um tripulante, sabe da morte do professor e que o outro investigador se está a isolar. Algo de estranho ocorre ali e afeta a mente de todos. Kelvin relê os dados e recolhidos ao longo de décadas e respetivas teorias sobre Solaris. Este é um astro coberto por um extenso oceano rico em matéria orgânica que já foi classificado como um ser vivo e com o qual se tenta infrutiferamente comunicar, embora este até controle características do planeta: será dotado de consciência? Após dormir Kelvin vê-se confrontado pela visita da sua mulher que se suicidara 10 anos antes e em conversa com a restante tripulação percebe que o oceano lhes lê as mentes e as controla, recriando as pessoas que os assombram, mas estas não são iguais aos humanos em termos moleculares, nem são destruíveis pelos terrestres, a situação entra em confronto com a memória e consciência destes que são incapazes de comunicar com o torturador. Kelvin tenta corrigir a sua culpa na morte da ex-mulher perante esta réplica e a tensão entre sentimentos, consciência, identidade, memória, vontade e ciência irá num conflito que coloca em questão princípios da humanidade.
A escrita de Lem é cuidada e algumas das passagens são muito filosóficas e difíceis, havendo outras muito descritivas, embora a história seja alimentada com diálogos fáceis brilhantemente elaborados que põe a nu as questões levantadas. Assim, está-se perante uma obra complexa, densa e não numa mera aventura no espaço típica de muita ficção pseudocientífica comercial.
Raramente após a leitura de um romance vou procurar os filmes na internet, mas neste caso a riqueza dos pormenores no texto levaram-me a tal, embora os filmes sejam bons, seguem o mais fácil, sem aprofundar as descrições dos fenómenos oceanográficos e muita filosofia do livro. Este, apesar de partes difíceis, gostei muito.

Solaris pelo realizador Tarkovski em 1972



sábado, 14 de dezembro de 2019

"A Ronda da Noite" de Agustina Bessa-Luís


Excertos
"O que sabem as mulheres dá para arrasar montanhas."

"A experiência faz o cavalheiro, o treino faz a profissão."

" - Abandonas a política? ...
- Nunca. É como uma árvore que não dá fruto mas que dá sombra."

Acabei de ler o último romance escrito por Agustina Bessa-Luís (escritora portuguesa de culto, talvez aquela com a produção literária mais profícua do século XX de cerca de 50 livros, maior número de prémios e recentemente falecida): "A Ronda da Noite".
O romance roda em torno da vida de Maria Rosa: uma mulher bonita, casada no Porto na família burguesa Nabasco, que gosta de se vestir bem, ir às compras e de receber na sua casa amigos que comentam a sociedade portuguesa. A narrativa também se debruça sobre o neto Martinho que a protagonista criou e vive na mesma casa. Os Nabascos ricos vivem ociosamente do seu nome, das relações sociais com um passado próximo da realeza e do seu património constituído por moradias rurais e no Porto. O marido de Maria Rosa tem um quadro que não se sabe de onde veio, se é o original ou uma réplica de A Ronda da Noite de Rembrandt, esta obra vai impondo a sua presença na família e no desenvolvimento da personalidade de Martinho, que não tem uma profissão, se ocupa do restauro das casas da família e para o qual a avó até lhe criou e lhe entregou a mulher, órfã, acolhida e filha de uma mãe assassinada e de pai preso.
Como na generalidade dos romances de Agustina, as mulheres são as personagens fortes, neste Martinho ocupa um papel relevante, mas a sua fragilidade, inadaptação social e indecisão servem de contraponto à força de Maria Rosa. A narrativa é marcada pelo seu estilo habitual de divagações a partir de um tema que vão divergindo e entroncar-se noutro e retomado outra sequência, onde a estória vai sendo composta por sobreposição deste fluxos narrativos aparentemente caóticos.
Assim, como habitual nos livros que li de Agustina, a estória dá-me a sensação de se ir compondo lentamente como no pintar de um quadro a espátula que vai traçando diferentes manchas, ora num local da paleta, ora noutro e a imagem vai sobressaindo desta montagem.
Pelos ditos sábios de Maria Rosa que não carecem de demonstração, dos seus criados mais próximos, pelos hábitos do marido, pelas conversas oportunistas dos amigos onde uns vão desaparecem novos e outros a acompanham e envelhecem, pelos reparos do comportamento social do norte e dos portugueses, pelas denúncias dos vícios ocultos dos Nabascos ou da burguesia portuense, pelas mudanças de comportamento desde o tempo do Estado Novo, Revolução de Abril, democracia e integração Europeia, pelos interesses da sua filha como herdeira do património da família, casada em segundas núpcias com um oficial da armada em Lisboa e mãe dos outros netos distantes, "os cadetes" com um estilo mais contemporâneo e urbano; Agustina faz um retrato social do Portugal burguês, do norte do País e das pessoas que vivem em torno deste estrato social e do evoluir político.
Entretanto, a Ronda da Noite, que obrigou a obras em moradias para o seu acolhimento, que se suspeita do seu elevado valor, vai-se impondo cada vez mais pelas suas personagens e diferentes, posturas no quadro sobretudo a Martinho, até à solução final e degradação desta família.
As obras de Agustina, são assim: peças de culto, para muitos difíceis, que se vão abrindo ao leitor que se entregar passivamente a uma narrativa sem pressa e sem uma linha única do tempo ou espaço que no fim compõe um excelente quadro como o da mais famosa obra de Rembrandt e eu continuo fã desta escritora que de forma única mostra este Portugal cheio de defeitos mas de que se gosta.

sábado, 7 de dezembro de 2019

"Um crime em Ponta Delgada" de Francisco José Viegas


Excertos
"Nas ilhas temos de inventar coisas para não morrermos. Temos de viver no meio de ilusões que gostamos muito."
"Não vale a pena sair da ilha para procurar paz em outro sítio qualquer."

Este é já o terceiro romance que leio do português Francisco José Viegas. Crime em Ponta Delgada, à semelhança de todos os anteriores, está classificado como policial, género de que fui um grande fã na adolescência. Pela minha parte este autor nas suas obras fala, sobretudo, de melancolia, de memórias, da beleza das terras reais que servem de cenário à estória, do interior das personagens e dos desencontros humanos na sociedade e isto une-se através de uma investigação criminal que atravessa a narrativa e dá corpo ao romance. É esta integração que me agrada nos livros de Viegas.
Um taxista transporta à noite para junto de uma praia nas imediações da cidade de Ponta Delgada um homem que reconhece ser um importante membro do partido do Governo dos Açores, pouco depois encontra-o morto na estrada com uma bala. O Comissário Castanheira em Lisboa sente-se estranho à cidade, divorciou-se da sua mulher com quem continua a conviver, mas decide ocupar uma vaga na ilha de São Miguel e é-lhe de imediato entregue o caso.
Castanheira procura conhecer quem é esta vítima, António Gomes Jardim: faialense, casado com uma continental e regressado ao Faial no período do conflito independentistas da FLA e autonomista do PSD que leva ao poder regional Mota Amaral e com a adesão à vida política Jardim mudara-se para a maior ilha do Arquipélago. Castanheira vai descobrir que este casal de mentalidade moderna e acomodado ao cosmopolitismo da Horta vai entrar em choque com a sociedade conservadora, elitista e reservada do poder político e económico micaelense. Estará perante um crime político entre separatistas e autonomistas ou Jardim terá pisado os usos das grandes famílias de São Miguel e então estaríamos perante um crime passional ou uma vingança de costumes.
Pelo meio Castanheiro terá tempo de descrever ilhas e perceber o que foi a conquista da Autonomia dos Açores, os abusos, os compromissos e os silenciamentos, bem como, o que era o estilo de vida em Ponta Delgada com um estrato social dominador, cheio de abusos ocultos que não permite forasteiros.
Gostei muito, sobretudo porque me recordou uma época que vivi como adolescente e jovem, década de 1970/80, porque curiosamente parte da narrativa ocorre precisamente onde vivi em São Miguel ou na ilha onde resido e vim morar quando criança. Um romance onde a descoberta do interior das personagens e os seus sentimentos são parte importante da narrativa com uma escrita cuidada e cheia de belas descrições humanas e paisagísticas do Faial e São Miguel, além de um retrato de época visto de um ângulo diferente do meu.

sábado, 30 de novembro de 2019

"A Mancha Humana" de Philip Roth

Excerto
"as defesas mais fortes estão crivadas de pontos fracos."
"a liberdade é perigosa. A liberdade é muito perigosa"
"cada dia que passa as palavras que ouço dizer parecem corresponder cada vez menos à descrição do que as coisas realmente são."

Li "A Mancha Humana" do escritor norteamericano Philip Roth, a escolha deste livro foi mais ponderada do que o habitual, pois apesar dos muitos elogios e popularidade deste autor, o primeiro livro que comecei a ler dele desisti: enojado e irritado "O Complexo de Portnoy". Assim levei vários anos a ouvir recomendações para uma segunda oportunidade ao autor, este título era um dos mais sugeridos, não o único, e quando saiu nesta coleção de baixo-preço e seleccionados pela sua qualidade, decidi-me. Desde já ficou em muito reabilitada a imagem de Philip Roth, pois gostei muito da trama e da mensagem do livro, embora a sexualidade seja tratada com alguma grosseria e vernáculo, esta não é o centro obsessivo da obra com uma escrita escorreita e agradável, mas não a senti excecional na beleza e forma.
Está-se no ano do escândalo sexual do Presidente Clinton com Mónica, quando nasceu a amizade entre o escritor Zuckerman e Coleman Silk. Este é um homem de 71 anos que foi reitor da universidade local, a revolucionou e modernizou pela sua capacidade, atingindo o auge de reconhecimento público e deixando ódio em medíocres oportunistas do meio académico. Eis que de repente toda a sua vida desmorona ao utilizar uma palavra num dado sentido que também pode ser racista. O escândalo leva-o a afastar-se, a mulher tem morte súbita e ele encontra suporte amoroso numa empregada de limpeza de trinta anos, inculta e analfabeta mas em que o ex-marido - com síndrome pós-traumático do Vietname - pretende destruir o casal que vêm de facto a morrer. Zuckerman vai então descobrir quem foi Silk e descobre um segredo na sua origem que é uma mancha que apesar disso ele conseguiu ultrapassar e vencer socialmente num meio cheio de preconceitos, racismo e intolerância quando tudo parecia impossível decidindo passar a livro toda essa descoberta.
O romance faz um retrato profundo da América, onde se mistura o puritanismo, os traumas dos veteranos e onde o topo do sucesso social estava reservado a uma elite branca que tolerava outras cores mas numa realidade segregacionista onde se ferem e condicionam pessoas numa guerra racista, moralmente hipócrita e de competitividade sem tréguas nem ética.
Vale a pena ler esta obra por esta informação bem estilizada nos vários aspetos da trama e cheia de deixas críticas que denunciam vícios que estão a ameaçar o desenvolvimento e a humanidade em sociedade.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

"Antigas e Novas Andanças do Demónio" de Jorge de Sena


Acabei de ler "Antigas e Novas Andanças do Demónio" do português Jorge de Sena, naturalizado brasileiro por fuga à ditadura e depois autoexilado nos Estados Unidos pela mesma razão.
Considerado uma dos maiores escritores de ficção, ensaio e crítico de literatura português de meados do século passado, este livro é uma coletânea de contos publicados em dois editados ao longo da década de 1960 em Portugal: Andanças do Demónio e Novas Andanças do Demónio.
Os diferentes contos têm estilos diferentes, nota-se que Sena experimentou correntes literárias como o neorrealismo, o realismo mágico e o simbolismo, entre outras, e dissertou sobre temas variados: textos com personagens bíblicas e históricas, demência geriátrica e de ideologia ditatorial, solidão, erotismo e paganismo, por onde atravessam males da humanidade ou que a influenciam nesse sentido, ora com humor, ora em retrato negro, toca estilos infantis e também reservado a adultos.
Alguns contos divertem: "A Razão de o Pai Natal ter barbas brancas" onde o menino Jesus narra com inocência infantil e humor como escapou aos ardis do demónio, abre esta série e ouvi-o ainda adolescente. Foi a saudade deste texto que me fez comprar o livro e li-o no mês do centenário do nascimento de Jorge de Sena.
A velha solitária que da janela se excita a espreitar um par de jovens apaixonados com um final surpreendente; o oficial nazi que expõe a sua justificação da supremacia germânica para tolerar abusos sobre homens, mulheres e crianças de outros povos; os últimos dias difíceis, na miséria e doente, de Camões apoiado por sua mãe; e o diálogo do convertido Paulo de Tarso com um chefe da casa de imperadores como Tibério e Nero onde ocorrem atos sádicos por prazer no palácio; são contos que marcam o leitor, não pelo prazer mas pelo choque da crueza do conteúdo.
Os milagres do frade para vencer os salteadores e as embrulhadas genealógicas que o espírito da sua árvore acompanhou através de mortes e reencarnações das gentes da sua aldeia em diferentes animais típica das crenças animistas que além de lições de moral são contos atravessados por humor.
Esta edição têm ainda os prefácios originais dos dois livros originais e notas escritos pelo autor. 
Jorge de Sena escreve muito bem, embora com tendência para parágrafos muito extensos com uma sequência de muitos pormenores, ideias encadeadas e riqueza lexical que exige atenção e esforço para acompanhar a narrativa, por vezes fez-me lembrar Proust, mas sem dúvida é um mestre no domínio da língua portuguesa. Espero voltar a este distinto escritor.

sexta-feira, 15 de novembro de 2019

"Eu creio que a Verdade Crua Cura" de Nuno Sobral


Acabei de ler a obra de ficção "Eu creio que a verdade crua cura" do português Nuno Sobral, residente em Aveiro que conhece este blogue e por ele tomou a iniciativa de me oferecer o seu segundo livro, recentemente publicado e sem qualquer contrapartida.
Estamos perante uma pequena obra dividida em três partes: 1ª. Prólogo, onde em primeira voz se ouve Maria Baptista a contar a sua vida de criança acolhida, abusada pelo trabalho e sexualidade, entregue para casar, viúva numa década que depois para sobreviver se tornou bruxa, mantendo as obrigações da sua religião. 2ª. Narrativa, dividida em capítulos, onde alguém conta uma ação de Maria feita a pedido de um padre na sequência do apelo de Briolanja, afilhada de Juliana e por esta acolhida e escravizada, que assistiu à morte desta a profetizar que encarnaria num gato enquanto o seu próprio desaparecia tal como a sua fortuna. 3ª. Epílogo, onde Juliana conta as sua desditas da vida, a importância do seu animal até ao esconderijo do seu tesouro. Deste modo, num jogo de espelhos e a três vozes se completa a estória cuja estrutura e dimensão estará entre um conto extenso e uma pequena novela.
A primeira e última parte do texto têm o tom das lendas rurais sobre mulheres infelizes cujo amor por elas passou rápido e se foi. A narrativa central parece um conto de Edgar Allan Poe com tom de mistério e junção do sobrenatural e análise pseudocientífica da crendice, aqui temperada por um humor sarcástico do terror típico da ignorância popular e dos aproveitamentos dos oportunistas.
Nuno Sobral escreve de forma escorreita numa prosa poética e com agilidade e criatividade capaz de dar às diferentes partes tons distintos sem a obra perder a sua homogeneidade interna, o que dá prazer descobrir e ler.
Gostei deste pequeno livro e recomendo a sua leitura a quem quer conhecer pérolas literárias que se publicam em Portugal fora do círculo imposto pelas grandes editoras nacionais onde abundam interesses comerciais que ofuscam estas preciosidades.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

Dinossauro Excelentíssimo de José Cardoso Pires

Citações
"Na Comarca dos Doutores onde se via pobreza devia ler-se modéstia"

Acabei de ler a pequena obra de José Cardoso Pires "Dinossauro Excelentíssimo" escrito entre 1969 e 71 como uma fábula satírica ao ditador Oliveira Salazar que desde o original tinha um conjunto de desenhos a representar o texto e curiosamente o livro passou pela censura e até serviu de argumento de que havia liberdade de imprensa no Portugal então.
A obra pretende ser um conto narrado a uma criança: Ritinha, nele se fala do nascimento de uma criança de família humilde em meio rural cujos senhores da terra discutiam o seu futuro, tendo os pais conduzido-a à Universidade na Cidade dos Doutores deste país onde o povo era mexilhão ignorante que sofria às mãos dos DêErre. Depois com o Estado caótico os Conselheiros DR vão buscá-lo para gerir o País e este cria uma revolução das palavras, fecha-se na sua torre onde doutrina com aplausos os mexilhões que dão graças à sua pobreza defronte da sua Estátua que mostra aquele poder estático, enquanto os Conselheiros aplicam as leis emanadas por este Dinossauro e asseguram a sua idolatria, um Mestre tão isolado em sofrimento pelos seus mexilhões... até que um acidente fará que haja um líder que  pensa governar quando na realidade os Conselheiros criaram um executivo paralelo e com a ideia que tão Excelentissíma pessoa ainda dirige estes mexilhões. 
O texto imensamente divertido está cheio de referências metafóricas e satíricas dos honrosos elogios ocos dados a Salazar e ao regime, muitas vezes com paráfrases e excertos de provérbios e ditos populares que insinuam a verdade oculta e denunciam a realidade do Portugal miserável e ignorante de então, através do recurso a uma escrita criativa que trabalha de uma forma magistral as palavras, a pontuação e a forma de impressão na obra decompondo e metamorfoseando estes aspetos de modo a insinuar problemas reais sem os dizer.
Lendo este livro não compreendo como esta fábula satírica ou paródia à ditadura passou o crivo da censura, a verdade é que José Cardoso Pires com os seus romances abriu horizontes literários em Portugal e foi através dele que me reconciliei com literatura que se fazia neste País nas décadas de 1960 e 70 e foi com ele que saltei dos simples livros de entretenimento policiais e fáceis para obras mais profundas e ricas. Dinossauro Excelentíssimo mostra bem o valor, a imaginação e a frescura deste escritor que me cativou que há anos não lia, um excelente e divertido livro melhor compreendido para quem sabe a história da ditadura do Estado Novo e sobretudo os seus anos finais.

sábado, 9 de novembro de 2019

"Cisnes Selvagens" de Jung Chang


Excerto
"Mao conseguira transformar o povo na arma suprema da ditadura... Ao fazer vir à tona e alimentar o que de pior havia nas pessoas, Mao criara um deserto moral e uma terra de ódio."

Acabei de ler o livro "Cisnes Selvagens" da chinesa Jung Chang. Mas este não é romance nem ficção: é a história da família da escritora desde o início do século XX com as memórias da autora sob o regime comunista e de culto da personalidade implantado por Mao Zedong (Tse Tung) até esta se estabelecer no Reino Unido em 1978.
Assim, sem omitir considerações pessoais e recuando ao tempo de juventude dos avós, Jung Chang relata os sofrimentos da sua família infligidos pelos sucessivos regimes que estiveram no poder na China: o fim da monarquia, a ocupação japonesa antes da II Grande Guerra, a república nacionalista Kuomitang e por último e em grande pormenor Mao Zedong com todas as suas fases: a guerra civil, a conquista, o grande salto em frente e a revolução cultural.
A escritora mostra bem o peso da tradição milenar no comportamento das pessoas que subsistiu às mudanças, bem como as esperanças e receios que cada um transição trazia e a desilusão posterior, atingindo o auge com o comunismo: não só por ambos os pais terem aderido convictamente à ideologia e ao líder, tendo mesmo alcançado altos lugares na administração provincial e aderido ao Partido, mas também pela integridade com que exerceram princípios políticos que se diziam subjacentes ao comunismo, o que até fez ricochete nas vinganças de maus caracteres oportunistas.
Na narrativa evidencia-se a desumanidade na instalação do comunismo, pois a transição é sempre um momento de vingança de adversários, de abusos sem lei e de convite à denúncia do outro como burguês, capitalista ou seguidista, por vezes empurrados para sobreviver, e também mostra que este modelo é intrinsecamente contra o indivíduo humano: há a necessidade de destruir tudo o que se relaciona com a liberdade de pensamento e da identidade individual. Desumaniza até a relação familiar, no amor entre avós, pais e filhos ou entre esposos e irmãos. Tudo isto foi ainda agravado pela culto de personalidade a Mao, que teve de alimentar ódios e terrores entre todos e de conduzir o povo à ignorância para nesta divisão e histeria coletiva ser o único idolatrado inquestionavelmente, eliminando quem resistisse ou mostrasse algum pensamento intelectual ou crítico. Daí os livros e intelectuais serem alvo de uma razia feroz dos seguidores acríticos do Presidente.
É habitual a dizer-se em Portugal que os comunistas não comem crianças, mas uma das páginas mais negras do livro prende-se mesmo com a alienação que o regime criou que conduziu à fome e morte de milhões de pessoas que até levou à antropofagia de crianças.
Na obra é evidente que mesmo nas perseguições e humilhações públicas das sucessivas vagas de terror, o Estado assegurava salário às vítimas proscritas e torturadas, mas não o direito a um local de lar e alimentação da família, substituído pela imposição de sítios de residência, por vezes afastando os membros da célula familiar básica, e obrigando a refeições em cantinas coletivas.
A narrativa dá maior destaque às vidas das mulheres da família da escritora: dela, da mãe e da avó materna, mas também o pai desta e os irmãos são tratados como personagens principais da obra. No texto não há diálogos, só citações avulsas do que disseram a pessoas da narrativa.
Como curiosidade, não fui surpreendido pelo conteúdo, pois em estilo de romance ficcionado o livro "Não digam que não temos nada" aborda a mesma temática numa escrita mais literária, estendendo-se até a revolta de Tiananmen. Contudo, Cisnes Selvagens é uma descrição bem mais profunda e comenta politicamente  os horrores do período de Mao Zedong, repisando as múltiplas formas como sofreram os diferentes membros da família de Jung Chang. Um tratado histórico e prolixo deste regime que esteve ao serviço de um ditador desumano.
O livro  publicado em 1991 contém um epílogo a atualizar a sua situação pessoal e da família e ainda com perspetivas positivas que a autora tem sobre a China pós Mao que eu visitei em 2018, havendo ainda nesta edição 28.ª um posfácio de 2003 com novas atualizações de Jung Chang.
Gostei, mas doeu esta leitura pelo pormenor dos factos, pela violência psicológica e tensão descrita.

quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Por Budapeste

Nestes dias o blogue tem andado sem vistorias minhas, pois ando em férias por Budapeste. Hungria.





 Cidade muito bonita, com monumentos marcantes construídos ou redesenhados sobretudo no século XIX, com forte imponência sobre o Danúbio.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

"Um Estudo em Vermelho" de Arthur Conan Doyle

Acabei de ler aquele que terá sido a obra em que o escritor inglês Conan Doyle criou a personagem do investigador Sherlock Holmes que se tornou na principal referência mundial de detetive na literatura policial. "Um Estudo em Vermelho", é assim não só a obra do aparecimento deste investigador, como também da apresentação deste ao seu futuro e fiel companheiro de aventuras Dr. John Watson, sendo este o principal narrador do livro.
John Watson estabelece-se em Londres após ser ferido na guerra do Afeganistão, procura um alojamento condigno ao nível dos seus rendimentos, então um amigo apresenta-o a um conhecido que pretende partilhar as despesas do seu apartamento: Sherlock Holmes, um assíduo do laboratório por interesse de segredos de medicina legal e venenos. Após se conhecerem aceitam viver no mesmo domicílio, este impressiona-o pelas suas deduções e explica-lhe a sua metodologia de análise de crimes. Eis que pouco depois um inspetor policial pede-lhe ajuda na resolução de um homicídio ocorrido numa casa vazia, sem marcas de violência sobre a vítima mas em que este espelha o terror de quem sabe que está a ser morto. Logo Sherlock convida-o ao acompanhar e a assistir ao seu trabalho e troca com Watson as suas induções e deduções, enquanto o polícia e um seu rival da esquadra esgrimam esforços de obtenção de louros em parte à custa dos trabalho de Holmes, mas eis que um segundo assassinato vem destruir todas as teorias dos agentes oficiais e o nosso detetive brilha com a captura do criminoso. Dá-se então um salto no tempo onde se conhece as causas distantes no EUA para o ato de vingança agora perpetrado em resultado de uma injustiça gerada na época do estabelecimento dos mórmones no Utah e edificação da sua capital Salt Lake City que sem dúvida Sherlock conseguiu induzir através das suas pesquisas.
Mesmo não sendo uma obra de plena maturidade de Conan Doyle, gostei do romance, é de fácil leitura e já todas as premissas do que foi a sua obra literária no campo policial surgem enunciadas neste romance, que vale ainda por se conhecer ao nascimento desta dupla e a apresentação do seu estilo único.


domingo, 13 de outubro de 2019

"Autobiografia" de José Luís Peixoto

Excerto
"... os segredos sem alguém que os guarde são o desconhecido."
"Muitas vezes , os outros não nos deixam mudar porque não estão dispostos a mudar a forma como nos veem, fazê-lo  implicaria que eles próprios mudassem."

Já foram muitos os livros que li do atual escritor Português José Luís Peixoto (JLP). Aliás, foi com ele que despertei para a literatura que se ia fazendo neste País no início do século XXI pelas novas gerações, logo, sempre que leio quem já tanto me impressionou qualquer nova leitura arranca numa perspetiva elevada. "Autobiografia", tão divulgado e cheio de elogios críticos nos OCS, obriga-me a que a minha apreciação a este livro tenha de ser liberta de ambos efeitos.
"Autobiografia" recentemente publicado passa-se em 1997/98 quando José, um jovem com vontade de se tornar num bom escritor, com apenas o seu primeiro romance publicado, pretende escrever o segundo e se vê perante a encomenda de fazer uma biografia ficcionada do já reconhecido autor José Saramago e com este entra em contacto para levar a cabo esse trabalho. Paralelamente, Saramago não só lê em segredo o único livro de José como revê nele as suas angústias e potencialidades de iniciante na arte literária no começo da carreira. Decide então ajudá-lo sem José se aperceber, até porque este também está a lutar com vícios privados que o conduz a situações extremadas e uma relação amorosa  que perturbam a sua perceção da realidade.
A partir destes temas JLP constrói uma teia de textos que intercalam pura ficção, apresentação de aspetos reais da vida de Saramago até à atribuição do prémio Nobel e ainda reconstruções imaginadas do passado deste, a que mistura o dia-a-dia da personagem José e das pessoas à sua volta, família, amante e amigos, bem como excertos do seu trabalho biográfico e descrição dos contactos dele com o escritor. Deduz-se a integração e recriações das memórias do verdadeiro intercâmbio ocorrido entre Saramago e JLP, em parte associado à atribuição do prémio Saramago a este, então um jovem escritor e recebido pelo seu segundo romance.
Assim, este livro com influências pós-modernas de fusão da ficção com a realidade, a inclusão de notas de rodapé do protagonista sobre o texto que estaria a escrever, a menção de obras importantes de Saramago e uma escrita criativa que mistura estilos distintos para expor realidades diferentes e ainda com a própria forma de escrever de JLP, que no presente já não consegue me surpreender como nos seus primeiros livros. Tudo isto gera um jogo de espelhos da admiração de JLP a Saramago e o respeito deste àquele demonstrado quando da aproximação entre os dois, a que acresce as angústias de um escritor enquanto jovem versus a maturidade do idoso reconhecido já como mestre.
Nem sempre leitura é fácil, não só porque este jogo de espelhos nem sempre é evidente no início de cada parágrafo, como também os saltos no tempo e entre a realidade e a ficção levam a que o leitor se possa perder ou estranhar o teor da narrativa numa escrita que não perde a criatividade e poesia na diferentes formas. Gostei e para quem gosta dos dois escritores por trás desta obra ou queira conhecer as dificuldades desta carreira recomendo este romance, cheio de particularidade e originalidades.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

"Um Crime na Exposição" de Francisco José Viegas


Excerto
"A Expo  é esse desígnio e nada a pode prejudicar, nem um crime, nem dois, nem, muito menos, três crimes como parece ser o caso. Três crimes destes seria a glória de qualquer romancista, evidentemente, não se desse o caso de estarmos a falar de Expo."

"Um crime na Exposição" de Francisco José Viegas (FJV) é o segundo romance deste escritor que leio. Uma personalidade pública dos média portugueses e se a primeira obra me tinha interessado, a segunda fez-me render ao seu  estilo particular de literatura policial.
O inspetor Jaime Ramos foi remetido do Porto para Lisboa durante a Expo'98 como pena de uma exaltação excessiva com um criminoso. Na Exposição ocorre o crime de um biólogo marinho encontrado no aquário, um investigador de rocaz-dos-Açores e a quem lhe cortaram um dedo do pé. Dois dias a seguir uma colega do oceanário, mexicana e amante daquele, também estudiosa da mesma espécie, é morta com evidências do crime ter sido perpetrado pelo mesmo autor. Segue-se o assassínio de uma arquiteta paisagística desta feira. Tal série tem o risco de gerar um escândalo que estoire o desígnio de Portugal neste evento. Entretanto, líderes políticos aproveitam-se para atacar o governo, existem relações diplomáticas em perigo por as vítimas estarem ao serviço de diferentes países ou terem aparecido em pavilhões de Estados estrangeiros. O protagonista - desenraizado do seu Porto nesta capital que lhe é estranha, com o seu vício por cigarrilhas dos Açores, a sua paixão pelo seu clube e com o seu habitual ajudante Isaltino de Jesus - vê uma teia que envolve amor, traição e espionagem científica internacional, ausculta o subinspetor Filipe Castanheiro em Ponta Delgada sobre as atividades universitárias nos Açores das vítimas, onde um cadáver é descoberto aparentemente sem qualquer relação e um professor disserta sobre estes jovens.
A originalidade da narrativa de FJV está que a investigação policial não gera um suspense acelerado. A intriga é um acessório que se vai desenrolando aos poucos, com pistas e descobertas ao ritmo do dia-a-dia, sendo atravessada por divagações, comportamentos e palavras das personagens sobre a solidão e o envelhecimento masculino; as paixões e os vícios dos portugueses, e à descrição poética da beleza geral e dos recantos magníficos que existem nos locais da ação. Uma divulgação dos principais atrativos do País e Regiões citadas.
Na narrativa há ainda a interferência de personalidades e entidades públicas reais que agem de forma coerente com a imagem delas e, de uma forma saudável, expõem-se as rivalidades conhecidas entre as instituições as pessoas mencionadas, fazendo-se uma crítica com humor à sociedade portuguesa.
Não conheço nenhum açoriano que descreva de forma tão encantadora e solitária a ilha de São Miguel e a cidade do Porto como as personagens criadas nos livros de FJV, cuja força permite que as mesmas atravessem já um conjunto de romances de anti-heróis que marcam o leitor. Por tudo isto gostei muito desta obra que é também um livro de viagens por Portugal e pela Expo'98 com uma escrita bem cuidada e de qualidade, cujo cerne é um romance policial mas não um thriller.

quinta-feira, 3 de outubro de 2019

"A Aventura de um Fotógrafo em La Plata" de Adolfo Bioy Casares

Excerto
"Não há burlador que não seja simpático: é um requisito indispensável para a burla."

Adolfo Bioy Casares é um autor argentino que eu desconhecia de todo e que me foi recomendado por um amigo meu de Minas Gerais. Poucos dias depois cruzei-me numa feira com dois livros dele, embora nenhum coincidisse com a primeira indicação recebida, mas comprei ambos, um de contos, em espera, e este pequeno romance "A Aventura de Fotógrafo em La Plata".
Trata-se de um romance quase novela cujo ritmo vertiginoso associado a uma escrita muito cativante nos prendem à leitura desta estória essencialmente lúdica.
Nicolás Almanza é um ajudante de fotógrafo num bom estúdio de uma pequena cidade, neste um rico encomenda um fotografias para um livro sobre a cidade de La Plata, por coincidência vê um trabalho do jovem e admira a sua qualidade, sendo que cliente e patrão acordam em entregar a cobertura ao aprendiz, que terá todas as despesas cobertas e salário em função da entrega de fotos. Mal Nicolás chega a La Plata conhece uma família, um pai e duas filhas, que logo o acediam, por sua vez todas pessoas com quem vem a cooperar, o seu amigo detetive na cidade com companhias suspeitas de subversão política vão alertá-lo para o perigo da relação sentimental que vai desenvolvendo com as duas jovens e o progenitor que parecem usá-lo com objetivos duvidosos e onde todos o parecem disputar.
Paralelamente vamos descobrindo as descrições de La Plata através dos imóveis fotografados e das embrulhadas que o repórter se vai envolvendo numa sequência alucinante de paixões, ciúmes, conselhos, encontros furtivos e deambulações por restaurantes, ruas e pensões sem vir o dinheiro prometido apesar de persistir em cumprir a encomenda e tudo conduz a um final surpreendente.
Um doce romance divertido e empolgante devido à técnica de narrar e de escrever do autor. Gostei muito como um doce aperitivo à qualidade literária de Casares.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

"Máquinas como Eu" de Ian McEwan

Excerto
"... a mente que outrora se tinha revoltado contra os deuses estava prestes as ser destronada fruto do seu próprio extraordinário alcance. Numa versão comprimida, inventaríamos uma máquina um pouco mais inteligente do que nós... ...Que necessidade haveria então de nós?"

Acabei de ler o último romance do inglês Ian McEwan, que me tem fascinado nos últimos tempos e este apesar de me ter surpreendido em muitos aspetos não me desiludiu
"Máquinas como Eu" possui um conjunto de originalidades: é do género ficção científica mas passa-se no passado, década de 1980; está imbuído de referências históricas da época, mas estas por norma têm sentido oposto ao dos acontecimentos então ocorridos de facto adiciona até subtilezas dos problemas atuais do Brexit; apesar de conter andróides que nem hoje existem e especular sobre a sua humanidade, inclui um conjunto de tecnologias, gadgets e internet que então não existia e ainda transportando para o momento génios reais há muito então desaparecidos, surpreendendo-nos a cada passo com estas alterações ficcionadas. Penso que a geração jovem atual pouco conhecedora do passado recente talvez nem se aperceba como McEwan reconta a história contemporânea da juventude dos seus pais, mas para estes parece-me interessante verem uma realidade diferente da que assistiram.
Charlie Friend com o dinheiro da herança da mãe opta por comprar um exemplar da última geração de robôs humanizados, como os de género feminino esgotaram ficou-se por um Adão. Este tem opções de programação de personalidade, Charlie opta então que as características sejam selecionadas a 50% por ele e os restantes pela sua amiga/vizinha por quem está apaixonado, para que ele se torna como um filho de ambos. Só que Adão não é uma simples máquina, aprende, desenvolve comportamentos sentimentais e sexuais, tem uma lógica nas relações humanas e de paixão incapaz de integrar a hipocrisia das pessoas que viabiliza um entendimento social e este choque vai colidir com os problemas pessoais de Adão e da namorada e com reflexos na justiça e neste amor triangular.
McEwan escreve de uma forma que intercala beleza literária e poética ao texto com reflexões oportunas sobre o limite da distinção e sobreposição de carácter do que é um ser humano ou uma máquina e várias outras questões éticas e sociais não só da década de 1980, como também do passado e presente face ao evoluir dos conhecimento, da tecnologia e respetivos choques com a fé/crença íntima de cada um. Gostei muito .

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Coelho em Paz de John Updike

Excerto
"Estou velho de mais para me renovar."

Terminei o último volume desta tetralogia de John Updike: "Coelho em Paz", também vencedor do prémio Pulitzer para ficção. À semelhança de cada romance anterior a sequência entre eles corresponde ao salto de uma década, agora está-se no ano de 1988, na transição de Reagan para Bush(pai), em plena perestroika, declínio do domínio soviético, ascensão do terrorismo árabe e a SIDA (aids) é uma epidemia que marca toda a sociedade. Harry já é avô, tem agora 56 anos, sofre de graves problemas cardíacos, o seu estatuto social leva-o a ter um condomínio na Florida para o inverno, delegou a gestão do seu stand automóvel no filho, Nelson, sente-se atraído pela nora, enquanto a sua mulher permanece com espírito jovem e empreendedor. Apesar das disfunções da idade e da doença, os hábitos e defeitos de Coelho mantém-se e a sua má relação com Nelson persiste na desconfiança mútua e ressentimentos, mas encanta-se com os netos.
Provavelmente com o objetivo de pôr termo à tetralogia, Updike coloca este cinquentão com tiques de um septuagenário. As imensas memórias do passado permitem narrar a evolução dos costumes e do urbanismo nos EUA e talvez sejam estas recordações as partes mais profundas e trabalhadas do livro. O facto de o ter envelhecido antes da idade e doente permitiu manter os desejos sexuais num corpo com limitações físicas ainda com o peso do desejo no seu comportamento. Coelho deixa-se arrastar por uma relação que evidencia a falta de valores éticos de quem se deixa levar pelo instinto. Igualmente o choque de gerações é agudizado pela toxicodependência de Nelson que leva a uma situação insustentável na família e serve para expor situações de preconceito, a não reconversão das pessoas na velhice embora volúveis ao amor avô-netos.
Este volume e o primeiro foram os que mais gostei, apesar das questões de sexo serem em todos tratadas sem tabus de pensamentos e atos e tal levar a uma linguagem grosseira no texto se recato, a exposição das fragilidades da velhice, o amor aos netos, a casmurrice de quem arca com muitas memórias e se vê no ocaso da vida e o retrato da evolução social de 40 anos nos EUA dão a este romance muita ternura e interesse. Até consegui simpatizar com este Coelho: um cidadão que teve sonhos elevados quando estrela de basquetebol na juventude que se tornou numa pessoa banal e cheia de complexos, mas atado aos desejos sexuais e incorrigível, apesar de ver os defeitos de todos os outros, ele foi um homem comum insatisfeito que procurou o amor sem o saber dar ou receber.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

"Coelho Enriquece" de John Updike


Excerto
"Como se pode respeitar o mundo se este é conduzido por um grupo de miúdos que envelheceram."

No terceiro volume da tetralogia Coelho, o escritor norte-americano John Updike transporta-nos para a vida nos Estados Unidos em 1979, na presidência de Carter em plena crise dos reféns da embaixada dos EUA em Teerão.
Em "Coelho Enriquece" vencedor do prémio Pulitzer para ficção, Harry já é quarentão, acomodado numa vida social e profissional rotineira e entediante, após alcançar o desafogo financeiro pelas cedências pessoais economicamente oportunas e quando o filho jovem sente todas as inseguranças da idade (muito semelhantes às do progenitor que ele agora não compreende), originando o conflito de gerações ao tentar encaminhar o herdeiro contra a vontade deste que se quer afirmar sem se afastar de casa e responsabilizando o pai de todos os seus males. O protagonista casualmente encontra uma jovem que suspeita ser sua filha da relação contada em "Corre, Coelho" que irá despertar a sua curiosidade e levá-lo a agir em conformidade.
Apesar de neste volume não haver o culminar de uma crise e depois a descompressão à semelhança dos anteriores, a tensão vai ardendo sempre em lume-brando com picos mais elevados mas sem nunca ser plenamente resolvida. Um dos aspetos mais fortes neste romance é a insistência da vertente sexual das personagens com numerosos pormenores libidinosos e obsessivos  na vida íntima de Coelho que são descritos sem filtro na narrativa. Embora sem um estilo pornográfico, as descrições destes atos e pensamentos eróticos são pormenorizadas com um realismo intenso que podem repugnar alguns leitores. Pior ainda quando parecem ser transversais a toda a sua geração saída da revolução sexual com a queda de tabus e ávida de experiências antes que a velhice chegue.
A escrita bem trabalhada, por isso não casual, mas assegura aquele estilo realista de aparente despreocupação comum a muitas obras das últimas décadas nos Estados Unidos.
Gostei da história, recordei muitos acontecimentos noticiosos que marcaram a minha adolescência, aliás o prémio atribuído por norma premeia retratos históricos dos EUA, mas senti um certo enfado nas obsessões e pormenores da vida íntima de Coelho, não sendo eu partidário de censuras morais, aprecio algum recato e pudor em arte, apesar de Updike seguramente pretender retratar a influência do líbido das pessoas no seu comportamento social e mostrar que apesar de uma vida pública adulta ninguém na realidade se liberta das tensões hormonais iniciadas na adolescência, agindo-se emocionalmente muitas vezes como criança sob uma falsa fachada madura num permanente conflito.


quarta-feira, 28 de agosto de 2019

"O Assassinato de Roger Ackroyd" de Agatha Christie


Voltei após muitas década a um policial de Agatha Christie, com uma obra que não devo ter lido antes "O Assassinato de Roger Ackroyd".
Numa pequena aldeia o médico Sheppard, narrador da história, depara-se com o suicídio de uma doente sua e confidente de Roger Ackroyd, este também amigo do doutor. Ela enviara uma carta a Roger a contar que estava a ser chantageada por alguém próximo, após o jantar ele começa a ler perante o clínico. Este pouco depois regressa a casa e recebe um telefonema do assassinato do amigo, e descobre que nenhum dos pernoitara com o morto se apercebera do crime, que estava fechado no seu escritório. Porque telefonaram a Sheppard  do exterior?
Os indícios apontam para o enteado da vítima, ausente mas que esteve na área no período da homicídio, ou talvez um estranho que visitou o prédio, mas poderá ser qualquer um dos hóspedes da casa: cunhada, sobrinha, mordomo, governanta, secretário particular, um militar amigo e até uma criada. A polícia está determinada a provar a culpa do enteado mas a sobrinha pede ao médico para este interceder para que o seu vizinho reformado ajude o resolver este caso para não se cometer um erro, só então Sheppard descobre que ao lado vive o famoso Hercule Poirot. Este aceita, coloca o médico como seu ajudante neste processo sem esquecer a irmã deste, uma mulher curiosa e perspicaz pronta a palpitar.
Este romance talvez tenha uma das tramas e solução mais elaboradas das muitas obras de Christie, escrito escorreita, mas sem nenhum destaque estilístico em termos literário, vale pelo enredo e interesse num crescendo ao longo do livro até ao surpreendente final que até a mim me apanhou desprevenido após sentir que dominava as regras das intrigas imaginados por esta autora.
Um policial que mostra o expoente alto da genialidade da autora em criar romances deste género. Gostei e é uma leitura cheia de emoção e prazer lúdico.

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

"Regressa, Coelho" de John Updike

Excerto
"é tudo vida, sexo, fogo, respiração, uma combinação com oxigénio a todo o momento deslizamos à beira da conflagração"

"Regressa, Coelho", o segundo romance da tetralogia Coelho do norteamericano John Updike, decorre em 1969 cerca de uma década após as desilusões do início da vida adulta do primeiro volume que apresentei aqui.
Agora Coelho já tem vários anos de vida familiar rotineira, a mãe envelheceu e tem a doença de Parkinson, ele trabalha como tipógrafo, o filho Nelson é adolescente, a mulher Janice tem emprego na empresa do pai dela, enquanto na sociedade há a revolução sexual, hippie e a contestação à guerra do Vietname. A monotonia do lar é afetada por uma crise quando a mulher se satura do marido, arranja um colega como amante e toda a situação se desmorona. Coelho a seguir conhece num bar de negros uma jovem de um meio rico, fugida de casa que sobrevive vendendo-se. Ele decide acolhê-la e traz para casa um conjunto de novos problemas que agravar-se-ão com o aproveitamento de um amigo dela preto, traficante de drogas, despudorado e revoltado contra a comunidade branca. 
A obra faz um retrato das fragilidades das famílias perante as novas ideias sociais de comportamento sexual, emancipação das mulheres e conflito de gerações; agravadas pelo racismo, o capitalismo desumano, a política interesseira, o sonho comunista e as feridas da guerra do Vietname. Como no primeiro romance, as tensões irão num crescendo até uma catástrofe a cerca de um terço do fim da obra, dando-se então o retorno a um novo equilíbrio de sentimentos e razão após a crise.
Neste volume a religião passa para um plano supérfluo e a vida sexual das personagens torna-se o foco das relações humanas: medos, sonhos, experimentação, desinibição do pudor e desilusão. Deste modo e numa linguagem realista sem tabus há a descrição de relatos de práticas e pensamentos sexuais, sem filtro linguístico, o que leva ao uso de calão e ditos eróticos e grosseiros que podem ferir algumas suscetibilidades, contudo não têm fins de escrita erótica, mas evidenciam o peso da intimidade e dos desejos na estabilidade emocional das pessoas num estilo nu e cru.
Tirando o reparo de pudor a eventuais interessados no livro, gostei do romance que novamente não faz juízos de valor, é de fácil leitura e um retrato intenso de uma época nos Estados Unidos.

domingo, 18 de agosto de 2019

"Zero K" de Don DeLillo

Excertos
"Todos querem ser donos do fim do mundo."
"O que é o eu?... Mas seremos alguém sem os outros?"
"A morte é um hábito que custa a perder."

Não sei bem como classificar o mais recente romance do americano Don DeLillo: "Zero K"; ficção científica ou especulação científica? Para o primeiro género, a obra passa-se na atualidade e na Terra, sem imaginar civilizações longínquas ou futuras. Para a segunda denominação que inventei, a estória fala de facto do uso atual da criogenia, a conservação do corpo pelo frio de doentes incuráveis antes de morrerem naturalmente, técnica usada na crença de que tal os permitirá um dia "ressuscitar" no futuro e curá-las dos seus males quando se encontrar a solução para tal. Algo que algumas pessoas, por norma muito ricas, se estão a sujeitar com base nesta especulação científica. O vencer a morte é o tema que em forma de ensaio e sem se dirigir para a criogenia já Yuval Noah Harari discute no livro Homo Deus que li este ano e com as mais diversas questões de ética e moral que a ciência pode colocar à humanidade, salvá-la ou destruí-la.
O romance é narrado por Jeffrey Lockhart, que tem dúvidas em como organizar a sua vida adulta: anda à procura de emprego e rejeita a influência do nome de seu pai, um multimilionário de Nova Iorque. Este convida-o a visitar um laboratório que patrocina algures na Ásia, lá descobre que se trata de um local de recolha de órgãos e conservação dos corpos de pessoas por criogenia. Nesta deslocação verifica que a sua madrasta, arqueóloga e com uma doença degenerativa, optou por esta solução e está à espera de se submeter à passagem para depois esperar por uma nova vida no futuro. Entretanto, Jeff recorda a sua relação com a mãe falecida, é confrontado com questões sobre a vida e a morte nas conversas com a madrasta e exposto a uma encenação sobre a crise global: guerras, catástrofes naturais, solidão e desespero que convidam à fuga deste mundo à espera de um outro diferente, havendo voluntários saudáveis para esta passagem denominados arautos e para os quais foi criada a zona Zero K que atrai o pai para acompanhar a mulher.
Entre os problemas da sua vida e daqueles com quem se relaciona socialmente, Jeff analisa a problemática em torno deste assunto: a ética, as incertezas, a solidão da espera e a ânsia de domínio da morte.
Uma escrita escorreita, em tom realista e sóbria, a que me habituei na literatura norteamericana atual que descreve de forma nua as situações incómodas da sociedade de hoje consumista, onde escasseia a esperança e os valores humanos. Contudo gostei do livro, apesar da perspetiva sombria que atravessa a obra.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

"Um Crime Capital" de Francisco José Viegas

Excerto
"Falta-te alguma experiência literária para seres um bom polícia. Todos nós devíamos, antes de entrar para isto, ler uma biblioteca."

"Um crime capital" foi o primeiro livro que li de Francisco José Viegas, homem dos meios da comunicação social e da cultura em Portugal e com vários livros publicados de poesia e policiais traduzidos e é nesta última categoria que o presente romance se insere.
Após a realização de um concerto de música erudita integrado na organização do "Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura" um casal de ouvintes é descoberto morto na bancada do anfiteatro, pouco depois um brasileiro do sistema informático do evento é baleado. São estes os pontos de partida para o velho polícia da judiciária Jaime Ramos investigar, então cruzar-se-á com uma antiga amante envenenada que lhe deixa recordações antigas, com uma rede de contrabando de quadros de pintura brasileira que tem como base a cidade do Porto e usa este evento europeu em proveito próprio, com a descoberta de adultério entre casais de sócios inimigos públicos mas cooperantes na clandestinidade e com um advogado de um clã do Brasil da alta-finança e comércio de arte que faz a ligação entre o interesses nestes dois países lusófonos.
Este romance é um exemplo de que uma obra do género policial pode também ser uma boa obra de escrita literária, fornecedora de informação cultural  que aproveita um acontecimento histórico, neste caso a Porto-2001, tendo mesmo sido publicado em folhetins num jornal da cidade durante aquele importante evento cultural, mantendo um vertente lúdica, de mistério e qualidade cultural.
Um romance que descreve com poesia e realismo a paisagem e o clima da cidade do Porto, que fala de prazeres particulares em forma de hábitos e tem a inteligência de apresentar pintores brasileiros e falar de livros, semeando interesses culturais sem maçar o leitor e assegurando o ritmo da narrativa. Jaime Ramos é um detetive à moda antiga, com gostos pessoais bem vincados, fugindo à disciplina burocrática e desencontrado com este presente informatizado e acelerado, ama o seu Porto belo, chuvoso e com passado e de onde é capaz de fugir à revelia das regras para pensar com cabeça fria e à distância, numa ilha dos Açores de onde descreve maravilhas que passam fora da rota do vulgar turista deste Arquipélago.
Gostei muito e lê-se com facilidade e com qualidade de escrita, informação e formação. Espero voltar ao escritor.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

"Corre, Coelho" de John Updike


Excerto
"A princípio, acontece muitas vezes que o caminho certo parece errado."

Estreei-me em John Updike, um dos escritores norteamericanos mais premiado, com o primeiro volume da sua tetralogia mais famosa em torno da personagem Coelho, Rabbit no original, romance com o título "Corre, Coelho". Havia tempo que tentava conhecer este autor, mas pretendia começar por este conjunto, só que nunca encontrava os 4 volumes juntos, esta semana numa promoção, quando a editora já nem existe, eis que finalmente os encontro de forma a completar o ciclo.
Harry Angstrom, conhecido por Coelho, tem 26 anos em 1959, foi uma estrela de basquetebol no liceu numa cidade de média dimensão na Pensilvânia. Ao acabar os estudos casou-se apressadamente por uma gravidez não desejada e entrou numa vida rotineira e vazia, tem um emprego frustrante de vendedor de máquinas de cozinha e a mulher desmazelada e alcoólica espera novo filho. Cansado disto, decide abruptamente abandonar o lar, recolhe-se em casa do seu antigo treinador que o apresenta a uma prostituta por quem ele se sente atraído e encontra uma companheira com virtudes por que ele ansiava. Só que um pastor Pentecostal com preocupações sociais tenta a reconciliação dele com a sua paroquiana, apesar de Harry ter formação Luterana, e eis que a esposa tem uma filha e surge uma oportunidade, pouco depois seguida de um acidente. Destas situações brotarão as temáticas desenvolvidas no romance: o amadurecimento humano, a desilusão no arranque da vida adulta, as questões de família face ao vazio matrimonial onde a relação sexual conta mas quando ainda subsistem tabus face à excitação da descoberta de uma companhia alternativa sem preconceitos, situações que levam as questões de moral e de religião com as diferenças de pensamento em credos distintos que se misturam com os problemas do dia-a-dia de cidadãos comuns numa sociedade capitalista, oca pronta para acusações.
John Updike tem uma boa escrita mas tipicamente norteamericana: escorreita, elegante e cheia de figuras de estilo, só que dá a impressão de estarmos perante um texto informal, quer pela menção de pormenores banais e corriqueiros, quer pela referência a marcas comerciais conhecidas, diálogos básicos e ainda um retrato da sociedade não floreado. Algumas vezes a narrativa entra em cenas mais íntimas, contudo sem descer à vulgaridade na descrição e sem ser chocante, mas subentende-se a prática do ato. Este é um aspeto que por vezes é difícil de integrar em literatura sem ser uma expressão de arrojo ou afronta, mas o escritor fá-lo de forma equilibrada e tem importância para as decisões das personagens, mas o romance não faz um julgamento individual dos vários comportamentos, o que também evidencia ponderação na obra.
Gostei da estória, da escrita, das abordagens e pretendo continuar. Só não o faço de imediato pois quando leio estórias por muito tempo em contínuo ocorre uma imersão minha nas personagens o que por vezes me perturba, mas espero voltar muito em breve a esta tetralogia. Fácil leitura.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

"Contos Escolhidos" de Maupassant

Há uns anos atrás pediram-me para cooperar num quiosque de venda de livros antigos numa feira para recolha de fundos de uma instituição de proteção de animais. Enquanto exercia a função de voluntário vendedor fui explorando o espólio e entre as obras descobri este "Contos Escolhidos" do francês do século XIX Guy Maupassant, editado em 1966, com folhas já muito amarelas e várias delas ainda por abrir, desconhecendo o autor decidi comprar para um dia o descobrir, e apesar do tempo decorrido posso agora dizer que valeu a pena, tal como os outros usados que então adquiri.
Um conjunto de 26 contos ao estilo realista, na sua maioria pequenos, passados frequentemente no meio rural da Normandia, onde se narra uma ocorrência com gente comum ou onde alguém conta uma memória de algo que com ela se passou ou assistiu e muitas vezes com um final inesperado ou com uma crítica de costumes ou a vícios pessoais.
Escrita fácil acessível e deliciosa de se ler. Gostei muito e um bom indício para mais leituras de contos de Maupasant.

domingo, 4 de agosto de 2019

"O Pátio Maldito" de Ivo Andric


O croata, Ivo Andric é um dos dois escritores laureados com o Nobel da literatura, então como jugoslavo, que penso já ter lido tudo o que está neste momento editado e disponível em Portugal,  "O Pátio Maldito", a terceira obra que leio dele, soube-me a pouco, este pequeno livro tinha potencial para uma narrativa longa mas ficou-se por uma novela com pouco mais de 100 páginas. Todas as premissas do que foi o efeito do império otomano sobre os povos dos Balcãs e o sudeste da Europa, incluindo península itálica com o venezianos e a Igreja Católica está lá... mas o autor limitou-se a um retrato ligeiro que deixa à imaginação o leitor aprofundar.
Dois frades de um convento limpam a cela e os despojos deixados por frei Petar velho e recém-falecido, mas o jovem frei Rastislav apenas recorda as memórias dos relatos Petar de quando foi a Istambul e preso por suspeita de espionagem, tendo então ficado vários meses detido n'O Pátio Maldito de onde contava: a vida do diretor da prisão de marginal a polícia; do jovem de Esmirna detido por gostar de ler e se ter encantado com a biografia do irmão de um sultão que lutou pelo trono e vencido tendo sido utilizado pelo ocidente como refém ao em benefício dos interesses de uma ordem religiosa, do Vaticano, de França e de Nápoles; do detido que apenas via denunciantes nos outros detidos e da panóplia de prisioneiros e de tipos de carácter que por ali encontrou das várias nacionalidades do império Otomano.
Muito bem escrito, embora de uma forma literariamente  conservadora, Andric mostra a diversidade das gentes do império muçulmano que dominou a Europa oriental por 500 anos, exposta na vitrina que era a prisão da capital e vista pelos olhos de um cristão bósnio.
Gostei, mas soube-me a pouco, pois tinha assuntos para estas 100 páginas se multiplicarem por quatro o cinco vezes de uma forma deliciosa.

quarta-feira, 31 de julho de 2019

"Auto de Fé" de Elias Canetti

Acabei de ler "Auto-de-Fé", o único romance de Elias Canetti, autor búlgaro que adquiriu a cidadania inglesa, escreveu sobretudo em alemão e vencedor do prémio Nobel da literatura, essencialmente pelas suas obras de ensaio e memórias. Um livro que me deixou impressões contraditórias.
Peter Kien é um apaixonado por livros, estudioso e perito em sinologia, dono da maior biblioteca privada da cidade e detentor de uma fenomenal memória, mas vive isolado do convívio humano por ser um misantropo exacerbado. Na sua casa conhece o porteiro, que lhe assegura o afastamento de intrusos, e a criada, mas deixa-se cativar por esta que lhe demonstra interesseiramente uma admiração por livros que o confunde e com quem vem a casar. Começa então o seu calvário com a ganância da esposa, a sua infidelidade e a ocupação do seu espaço, mas na sua delicadeza é ele que abandona o lar, onde conhece a escória da sociedade com o pior tipo de personagens que se aproveita dele. Peter leva a sua biblioteca na cabeça e contrata um anão para o ajudar no seu transporte livreiro. O choque da sua inadaptação levam ao descalabro psicológico e à confusão da sua imaginação desenraizada do convívio, talvez possa ser salvo pelo seu irmão distante, um psiquiatra gestor de um manicómio que se entusiasmou na cura de loucos.
Canetti leva o aprofundamento das suas personagens trágicas ao extremo da racionalidade, criando situações que se desenvolvem ao pormenor e longamente, o que por vezes leva a uma certa saturação do desenrolar da estória. O que acompanha com a intercalação de muitas informações provenientes da vasta cultura do escritor e do protagonista, este considera o livro acima da pessoa humana.
A escrita é riquíssima, cheia de imagens fortes, a narrativa toca o irrealismo que é enriquecido com a loucura e o desencontro das mentes dos personagens na interpretação do outro e da sociedade. É sem dúvida um grande romance, mas também pela extensão que nalguns momentos satura, mas a beleza do texto assegurou a persistência da leitura e levou-me sobretudo a querer conhecer a obra de memórias autobiográficas de Canetti.
Uma obra difícil e desafiante.

domingo, 21 de julho de 2019

"Um, ninguém e cem mil" de Luigi Pirandello


Excerto
"Você acredita que se conhece, se não se construir de alguma maneira?... Só somos capazes de conhecer aquilo a que conseguimos dar forma."

Em "Um, ninguém e cem mil" o escritor italiano Luigi Pirandello, laureado com o Nobel da literatura, constrói uma dialética, cheia de humor e reflexão, em torno da busca de identidade que cada um tem de si e daquelas que e os outros fazem de nós próprios,não somos únicos mas uma miríade de personagens. Somos uma composição múltipla de todas essas individualidades criadas por nós e por quem socializamos.
A partir de um comentário da mulher enquanto Vitangelo Moscarda se olhava ao espelho, no qual ela lhe comunica a inclinação do seu nariz de que ele nunca se apercebera, começa um conjunto de reflexões de como sou eu? Que imagem têm os outros de mim? Questões que se tornam numa obsessão que vão mudar a sua vida de banqueiro a viver à sombra da sua riqueza herdada em alguém que não apenas se quer mudar mas deseja que os outros o modelem com uma personalidade diferente.
Escrito em estilo de autorreflexão, onde trespassa ao longo dos parágrafos humor, apreciação do problema e dedução, Pirandello monta a mudança de uma personalidade a partir de um ensaio de autoanálise do protagonista.
Originalíssmo e divertido, embora exaustivo pela miríade de variantes que se vão labirinticamente cruzando, não perde interesse por ser relativamente curto, o que alimenta a vontade de saber como ficará Vitangelo Moscarda no fim do romance.
Fiquei com curiosidade de descobrir outras obras deste escritor.

domingo, 14 de julho de 2019

"O legado de Humboldt" de Saul Bellow


Excerto
"É verdade que as melhores coisas da vida estão à livre disposição de qualquer um, mas ninguém é suficientemente livre para desfrutar as melhores coisas da vida."

"Antigamente, os mais amargos reveses da vida enriqueciam apenas os corações dos desgraçados ou tinham unicamente um valor espiritual. Mas hoje em dia qualquer acontecimento pavoroso pode ser transformado numa mina de ouro."

Ao fim de muitos anos voltei a Saul Bellow, vencedor do Nobel da literatura, nascido no Canadá, de ascendência judia e naturalizado Norte-Americano, através do romance: O legado de Humboldt.
Charlie Citrine parte do interior dos EUA para Nova Iorque com o objetivo de conhecer o poeta que o deslumbrou: Humboldt. Com este desenvolve uma amizade profunda que acompanha o auge da carreira dele, só que esta entra em declínio enquanto a de Charlie caminha para o sucesso. Este vem para Chicago onde cresceu, só que a ascensão não é bem digerida por quem entrou em decadência, o que leva ao distanciamento entre ambos, mas não ao fim da admiração. Quando na meia-idade a vida de Citrine se começa a complicar, culturalmente e ao nível privado, já Humboldt morreu, mas ficaram as recordações e as lições por ele deixadas, enquanto se embrulha com mulheres, divórcio e amigos pouco abonatórios da cidade dos gangsters, é então que vem a descobrir que não foi esquecido pelo seu antigo amigo que lhe deixou um legado e a vida dará uma volta.
Bellow escreve bem, de uma forma realista, crua e cobre tudo isto com ironia amarga, humor inteligente e crítica ao estilo de vida norteamericano e de Chicago, que é fútil, onde imperam sonhos básicos capitalistas. Tudo isto é intercalado com numerosas referências/citações culturais, religiosas e filosóficas de pensadores do ocidente. Assim, a narrativa desta amizade serve de pretexto para retratar a sociedade dos Estados Unido, onde o dinheiro complica as relações humanas e os sentimentos, as escapatórias no sexo são normais e os oportunistas pululam construindo fachadas de sucesso e abusando da bondade, o que cria momentos de depressão, vazio moral e sede do transcendente.
Apesar de extenso, mais de 500 páginas, gostei muito, durante dias vivi as amarguras e desventuras deste génio cheio de recordações que nunca perdeu a admiração e amizade pelo seu ídolo cultural numa América oca, onde o dinheiro e a ânsia de sucesso são o modo de vida por excelência.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

"Os dados estão lançados" J. P. Sartre


Li o romance/novela "Os dados estão lançados" do filósofo francês laureado com o Nobel da literatura: Jean Paul-Sartre, apesar de o ter feito em ebook, esta obra existe em livro conforme o link associado ao nome do mesmo.
A obra começa com o desenrolar de dois homicídios: de Pedro - um líder revolucionário em véspera da revolta, morto por um espião; e de Eve - uma esposa rica e infeliz, envenenada pelo marido. Os assassinados no reino dos mortos podem observar sem serem vistos o que se passa no mundo dos vivos e tomam conhecimento de riscos que desejam evitar: Adão envolvendo os seus correlegionários e Eva uma armadilha montada à irmã. Entretanto aquelas vítimas apaixonam-se entre si, só que o amor só se concretiza em vida, mas um artigo da lei permite reviver pessoas que destinadas uma à outra que não se encontraram antes. Assim, terão a morte revogada para concretizar o amor num prazo pré-determinado, só que também se sentem obrigados a evitar os males a que os entes queridos estão expostos, surgindo o problema de conciliar as duas tarefas e mudar o curso da história com os dados lançados não é fácil.
Escrito numa linguagem fria, quase telegráfica e sem recorrer a figuras de estilo evidentes, a trama desenrola-se de uma forma rápida que entrecruza cenas associados aos dois protagonistas assemelhando-se a uma dramatização teatral, e talvez só não seja uma peça por necessitar de recorrer a algumas soluções técnicas para descrever a realidade dos mortos e dos vivos e complexidade de encenar numerosos quadros curtos em ambiente muito distintos.
A ideia de destino e de fatalidade da existência humana atravessa a obra sem obrigar a grandes reflexões e a  crença romântica da força do amor é posta à prova por este filósofo existencialista.
Curto, muito fácil de se ler e consegue ter bom humor no seio das situações tristes em que Pedro e Eva se veem envolvidos, terminando com uma dúvida de esperança. Gostei muito.