terça-feira, 28 de janeiro de 2020

"Nós, os micróbios e uma visão alargada da vida" de Ed Yong


"Nós, os micróbios e uma visão alargada da vida", do jornalista inglês Ed Yong, é um livro, li-o em e-book, de divulgação científica das espantosas descobertas nas últimas décadas na área da microbiologia que aponta para o fim do preconceito contra estes seres minúsculos que à partida consideramos como prejudiciais ao Homem quando, na realidade, apenas uma minoria escassa é patogénica enquanto a grande maioria vive em cooperação connosco e até podem ser instrumentos para reforçar as nossas defesas contra doenças.
Curiosamente terminei a obra em plena preocupação com uma possível nova epidemia global provocada por um coronavírus, mas, nesta obra, os micróbios amigos dos animais e das pessoas são bactérias e dos vírus, na generalidade, não tiramos benefícios, antes pelo contrário.
A obra tem uma escrita fácil e deixa claro as razões do nosso preconceito contra os micróbios. Depois, através da exposição de um grande número de casos naturais, mostra a cooperação entre animais e bactérias: simbiose. Demonstra que a maioria das espécies macroscópicas, inclusive o homem, vive em permanente intercâmbio com micróbios corporais que residem no exterior e no interior do corpo, o nosso bioma, e deixa claro que quer o nosso bem-estar quer a saúde, das pessoas e outros animais, resulta desta cooperação, onde cada um de nós é, na realidade, uma comunidade: um ser de maior dimensão carregado de bactérias e o individuo adição de todos estes seres.
Impressiona a descoberta de que o facto de sermos gordos ou magros e certas doenças podem estar dependente das bactérias que transportamos e existem evidência de transplantes de micróbios a curar certas maleitas e até alterar o peso no combate à obesidade e a tolerância de muitos alimentos.
Igualmente esperançoso é a possibilidade de várias viroses muito graves que afetam grande número de pessoas e sua transmissão, como o dengue, o zica, a elefantíase, etc. poderem vir a ser controladas pelo uso de bactérias.
Um livro que mostra que na generalidade as bactérias são nossas amigas que precisamos de saber conviver com elas para tirar o máximo proveito desta realidade.

sábado, 25 de janeiro de 2020

"Stoner" de John Williams


Citação
"Viu homens bons a afundar-se num lento declínio de desespero, destroçados como a sua visão de uma vida decente era destroçada;"

Li o romance "Stoner" escrito pelo norteamericano John Williams, um livro que me despertara interesse pois, apesar de ter sido publicado sem qualquer furor na década de 1960, no início do século XXI foi considerado uma das melhores obras da literatura do país e se tornou num caso de sucesso e de elogios transversais a numerosos países.
William Stoner é o protagonista e o exemplo de como se pode fazer uma magnífica narrativa com uma biografia de alguém de bom carácter que passa pelo mundo sem metas muito elevados e se deixa emaranhar na teia de um casamento oco e de um meio profissional de ódios e concorrência que lhe vai restringindo a vida, destruindo os seus sonhos e paixão de modo a se tornar numa pessoa socialmente mediana, embora cumpridora dos seus deveres de cujo o balanço final é de quem tinha um grande potencial e se deixou atolar na mediania do sistema em que viveu sem arriscar para vencer os obstáculos postos no caminho.
Stoner é um professor universitário, filho de humildes agricultores rurais que de licencia numa cidade de média dimensão no interior dos EUA, não se entusiasma com fogachos na juventude e acomoda-se à sua faculdade onde, mais do que a investigação, decorre uma luta de docentes combativos e cheios de vícios que se pisam os princípios da instituição. Em paralelo vemos como foi evoluindo a sociedade norteamericana no interior do continente ao longo de 50 anos e vividos alguns dos acontecimentos centrais da história do país e do mundo: as duas grandes guerras.
Com uma escrita fácil e em simultâneo bela e atraente que choca pelo prazer e entusiasmo que dá a sua a leitura da progressiva decadência deste professor de molde que é difícil parar de ler o desenrolar da vida de Stoner, talvez seja isto o mais marcante que tornou este romance numa obra-prima cativante com o relato de uma vida falhada. Gostei muito e recomendo a quem admira grande literatura.

sábado, 18 de janeiro de 2020

"A Máscara de Ripley" de Patrícia Highsmith

Porque cá em casa tive de aumentar intensamente o número de livros policiais, género de que minha mãe com 84 anos é fã, e porque há muito tempo lera o primeiro volume da série Ripley e adorara, li agora o segundo romance desta personagem "A máscara de Ripley" (Ripley Under Ground) da americana Patricia Highsmith.
Esta escritora escreve bem, coloca cuidado estético na narrativa como deve haver em qualquer livro de boa literatura, mas os seus romances são de mero entretenimento sem preocupações morais e de mensagens ideológicas ou filosóficas. Uma das características das obras desta autora é de por norma saber-se do início o autor dos crimes e assistimos mais à forma como estes conseguem ludibriar a polícia do que o trabalho destes.
Assim, é normal que Highsmith tenha criado uma personagem como Ripley de gostos elitistas, apreciadora da boa vida, simpática e inteligente, mas amoral e criminosa para assegurar o seu modo de viver que se vê em imbróglios para se escapar à ação da justiça na sequência dos seus atos.
Se no primeiro e magnífico romance que li há muitos anos e nunca esqueci o jovem americano Tom Ripley que saiu da sua vida miserável para se tornar herdeiro do jovem rico de que ele assassinou, após ter sido fortuitamente encarregado de o trazer da Itália para a família nos Estados Unidos. Neste segundo romance o nosso herói malvado está bem estabelecido e casado com uma jovem rica pouco escrupulosa nos arredores de Paris, lucrando com um negócio levado a cabo por uns amigos em Londres que comercializam novos quadros de um pintor desaparecido da sociedade mas que o grupo sabe estar morto, até que um norteamericano desconfia que as pinturas são falsas e tenta desmascarar a rede. Tom sente-se ameaçado e terá de agir e claro por vezes de forma extrema para salvar a sua imagem sem deixar provas suficientes que o incriminem.
Algumas passagens são muito intensas, contudo o suspense e as dificuldades nunca comprometem a forma de viver deste Ripley: o seu bom gosto, estilo de vida burguesa e bom anfitrião das suas vítimas e detetives e, apesar das suspeitas que o cercam, lá vai ultrapassando com escapatórias impressionantes. A obra decorre na década de 1960 e sente-se o facto de os telefonemas frequentes ao longo do livro estarem dependentes de telefonistas sem a rapidez de hoje, o que soa estranho.
Continuo a admirar as histórias deste vilão cheio de classe e em breve pretendo voltar a acompanhá-lo, até porque já possuo todas as suas aventuras. 

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

"O Nervo Ótico" de María Gainza


Acabei de ler um livro muito elogiado pela crítica e numerosos leitores "O Nervo Ótico" da argentina María Gainza. A obra embora seja ficção não corresponde a um romance, são uma série de contos ou crónicas narradas por uma personagem feminina, guia turística, amante de pintura e residente em Buenos Aires.
Cada capítulo corresponde a uma crónica diferente no qual a narradora nos faz recordar um quadro, por norma do Museo Nacional de Belas Artes de Buenos Aires, e cruza a sua situação pessoal com os efeitos dessa pintura sobre ela ou conta um pormenor ou aspeto central da vida do pintor.
Assim, ao longo das diferentes estórias vamos percebendo pormenores da vida da narradora: a sua gravidez, memórias de família, a doença do marido, a juventude e namoros deste, a doença dela, o pânico de voar, relações de amizade que servem de mote para valar de episódios da vida, o estilo de pintura de artistas argentinos como o maneta Cándido Lopez, o espírita Augusto Schiavoni, ou outros e ainda nomes da pintura europeia como o mestre em pintar cavalos de Dreux, o academismo incómodo de Courbet, o deficiente Toulouse-Lautrec, uma partida de mau-gosto de Picasso e uma certa inveja de El Greco face a Michelangelo Buonarroti, etc.
Saliento a excelente escrita da María Gainza, dá prazer a sua estética, muito contemporânea, bela e fácil de ler, nem sempre comum nalguns novos estilos de escrita. 
Por norma sou um grande apaixonado por literatura que junta narrativa e informações artísticas como pintura e me faz descobrir obras ou autores. Hoje em dia com a internet posso complementar esses dados com pesquisas onde aprofundo essas indicações. Curiosamente, este livro conseguiu isso tudo numa técnica narrativa original, mas o livro não me deslumbrou como esperava, talvez porque as expectativas já eram muito altas após tantos elogios. Contudo, suspeito que entre as razões da minha falta de deslumbramento se tenha prendido com o grande número dos artistas da obra não serem os que mais me tocam e quando refere os que mais gosto a personalidade que deixa transparecer não é a mais favorável, assim aconteceu com Picasso e, sobretudo, com El Greco, por quem tenho uma grande admiração e conheço extensivamente a sua obra exposta, inclusive em Toledo.
Há um outro aspeto que me incomodou: a narradora é sempre a mesma mas há pormenores desta que não me soam coerentes e senti isso dentro de um mesmo capítulo. Apesar de tudo é uma obra interessante que dá a conhecer artistas, nem sempre os que mais brilham na constelação da história da pintura, e tem uma escrita que encanta.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

"A Lebre de Olhos de Âmbar" de Edmund de Waal


O arranque das leituras do ano 2020 coincidiu com uma excelente obra, uma das que mais gostei nos últimos anos. "A lebre de olhos de âmbar" do artista plástico inglês de ascendência holandesa e judaica Edmund Waal, mas não é um romance, nem ficção, é sim a história da família judia Ephrussi desde o início do século XIX de que o autor descende, com base na sua investigação e da sua relação com uma coleção de pequenos objetos japoneses que atravessou várias gerações e chegou até ele.
Edmund é um escultor oleiro que ganhou uma bolsa para Tóquio para desenvolver o intercâmbio cultural e linguístico entre a Inglaterra e o Japão. Na sua estada neste País, onde residia um seu tio-avô, entra em contacto com uma coleção de família de pequenos utensílios nipónicos antigos, feitos para prender objetos aos quimonos, artisticamente esculpidos e denominados netsuke, de que depois se torna herdeiro descrevendo vários deste conjunto de 264 peças. O fascínio dos netsuke leva-o a tentar saber como chegaram até aos seus antepassados, atravessarem gerações e sobreviverem a duas guerras mundiais e perseguições.
A história começa como o seu tetravô, um judeu polaco no interior da Ucrânia, criou uma empresa em Odessa, enriqueceu, colocou os seus filhos em Paris e Viena para ampliar os negócios e estes construíram um dos maiores impérios financeiros na Europa, grandes palácios, integraram-se na elite austríaca e francesa, tornaram-se mecenas, colecionaram obras de arte e conviveram com grandes artistas e pensadores deste Continente: Renoir, Monet, Pissaro, Moreau, Rilke, Proust, Mahler, etc. Membros serviram de modelo a grandes personagens da literatura e a quadros impressionistas, enfrentaram o preconceito a judeus, viram o seu esplendor e riqueza devassado pelos progroms, queda do império Austro-húngaro e ocupação de França pelos nazis. Os que sobreviveram até hoje são cidadãos comuns, dispersos por três continentes mas onde a cultura, a arte e o colecionismo está presente, partilham outros credos religiosos e continuam profissionalmente válidos e ativos.
Neste relato compreendemos o estilo de vida, os defeitos e o glamour da alta sociedade europeia por mais de 100 anos. Veremos como  Charles Ephrusi foi o modelo de Proust para Charles Swann e por quem os netsuke entraram na família em Paris e os enviou para Viena. Saberemos como estes escaparam à Gestapo, passaram por Tóquio e agora estão em Inglaterra em casa de Edmund. Veremos como caiu o império centrado em Vienta, como foi a entrada de Hitler na cidade e a ocupação inicial desta e dos americanos em Tóquio.
Os autor escreve muito bem e narra de uma forma que até os momentos difíceis e de horror estão trespassados por ternura, não faltam reflexões pessoais de Edmund, descrições do que o património da família foi e é hoje e de como era a vida nessas cidades das elites sociais. Como a guerra espoliou e como Estados atuais apagaram as suas culpas. Tudo isto sem nunca o texto se render ao amargo dos lesados devido ao amor de família que atravessa toda a narrativa até se virar para as atuais crianças futuras herdeiras dos netsukes.
Fácil de ler, com várias fotos e uma grande obra escrita já no século XXI que mostra o que foi e é a Europa ao longo dos últimos 200 anos. Uma maravilha que recomendo.
Um netsuke em forma de noz (imagem Wikipédia)