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terça-feira, 5 de janeiro de 2021

"TRAGÉDIAS I" Eurípides

 


Iniciei o novo ano estreando-me num género literário e período histórico totalmente diferente do habitual: teatro grego da época clássica. "Tragédias I", do poeta dramático Eurípides do século V antes de Cristo, é o primeiro volume de um conjunto de três que reúnem as tragédias escritas por este autor que chegaram até hoje. Livros editados pela "Imprensa Nacional Casa da Moeda", encontrando-se o segundo esgotado enquanto o terceiro comprei antes que deixasse de estar disponível.
O presente livro contém quatro peças, uma sátira: Ciclope; e três tragédias: Alceste, Medeia e Heráclidas. A primeira corresponde a um episódio baseado na Odisseia, a aventura de Ulisses quando se vem abastecer em terra com a sua tripulação do regresso da Guerra de Troia e se encontra na gruta do gigante de um só olho e antropófago, o ciclope Polifemo, que imediatamente procura utilizar estes homens nos seus futuros repastos, mas a astúcia de Ulisses com o uso do vinho e aliciando os sátiros que serviam o ciclope lá se conseguirá libertar da situação. Uma peça cheia de humor com uma linguagem por vezes brejeira e fácil.
As restantes 3 peças são de uma profundidade e grande e todas elas envolvem lições de moral.
Em Alceste, Admeto, o rei de Feras, está condenado a morrer doente pelos deuses da morte, exceto se alguém der a sua vida por ele, ninguém assume tal ato, nem os seus pais idosos, então em segredo a sua mulher e mãe dos seus filhos, Alceste, assume o sacrifício com todas as tensões e análises morais que tal ato heroico e comportamento das personagens implica. Hércules conhecendo a situação irá procurar resgatar a heroína do mundo dos mortos e devolvê-la ao marido com toda a abordagem pós clímax. 
Medeia é uma história de infidelidade e vingança. Uma filha de rei que fugiu da sua casa real, que se opunha ao seu objetivo de se casar com grego Jasão, provocando ainda a morte do irmão. Jasão mais tarde decide abandoná-la com os filhos para se casar com a filha do rei da sua nova cidade Atenas. Apesar da condenação dos personagens pelo ato do marido, o rei ainda expulsa Medeia da cidade por questões de segurança. Só que a vingança de Medeia levará ao homicídio dos seus próprios filhos e da princesa, para não haver redenção em Jasão. Uma peça que analisa as questões morais do comportamento das personagens envolvidas e com um elogio belíssimo sobre os valores morais e de justiça defendidos por Atenas. 
Heráclidas, o nome dado aos filhos de Hércules, é uma peça com um teor moral mais fluído. Após a morte do herói Hércules por perseguições do rei Eristeu, este decide perseguir os próprios filhos daquele que se abrigaram no estrangeiro à sombra de um templo a Zeus na cidade de Maratona. Defendendo o princípio de hospitalidade o rei anfitrião, mesmo perante a ameaça de invasão resiste, mas é abalado quando os oráculos vaticinam a derrota de Maratona se não houver o sacrifício de uma jovem nobre, algo que Demofonte não está em condições de implementar no seu reino democrático. Eis que Macária, uma das filhas de Hércules, assume o sacrifício pela sua família e cidade de acolhimento, o que levará à derrota do inimigo e à entrega de Eristeu à velha mãe de Hércules, mas apesar das regras de clemência de Maratona este o modelo não é respeitado pela anciã Alcmena.
Nenhuma peças é extensa, necessitando de poucas horas de leitura, contudo o livro está cheio de anotações de peritos na arte clássica e existe para cada uma destas obras uma introdução de contexto que muito enriquece a respetiva compreensão e nos dão informações sobre a representação, o mundo helénico à época de Eurípides e o seu papel na abordagem das grandes questões morais, filosóficas, sociais e políticas de então que o levaram a tornar num dos três maiores trágicos clássicos.
Gostei muito, valeu a pena e o terceiro volume em breve deverá merecer a minha atenção. Foi um grande prazer apreciar estas obras com deuses e seres mitológicos perante grandes questões morais e sociais encenadas para o teatro há cerca de 2500 anos.

sábado, 12 de maio de 2018

"A Ilha do Doutor Moreau" de H. G. Wells


Excertos
"No entanto sabia que, se toda aquela dor estivesse a ser experimentada no aposento ao lado por alguém sem voz, acredito que poderia conviver com ela. É somente quando a dor alheia é dotada de voz e põe os nossos nervos à flor da pele que a piedade brota dentro de nós."

"Suponho que existe algo na forma humana que atrai a nossa mentalidade artística de modo mais poderoso do que uma forma animal qualquer. Mas não me restringi a produzir humanos."

"O tipo de inteligência que consigo em geral é de nível muito baixo."

Confesso que durante anos não li "A ilha do Doutor Moreau" de H. G. Wells por pensar que estaria perante uma obra juvenil, erro meu. Esta obra pode de facto ser lida de forma limitada como uma estória simples ou resultar numa adaptação ao cinema acéfalo dos efeitos especiais que despertam emoções sem regar a razão, mas o texto e a trama do livro inclui grandes reflexões ao nível de questões de ética na investigação científica e os riscos que a humanidade pode correr se a sua curiosidade não for temperada pelo bom-senso.
Como pessoa formada em ciências, este romance alerta que o querer saber e experimentar deve ter limites deontológicos. O primeiro excerto que acima publiquei aponta também para outro problema do comportamento do homem perante o sofrimento da humanidade e a sua consciência.
Após um naufrágio, o protagonista relata como foi salvo e despejado numa ilha onde um cientista obsessivo leva ao extremo a tentativa de transformar animais em humanos. Claro que esta aberração quando implementa só poderia levar à catástrofe e Wells é um escritor genial em contar histórias enquanto põe o leitor a refletir sobre a ética em ciências.
Tratando-se de uma obra anterior à descoberta da genética, a ferramenta encontrada para alcançar o fim pretendido parece-nos hoje arcaica, mas com manipulação de genes ou formas para o homem criar uma biodiversidade ao seu gosto de criador as questões de ética são as mesmas e são estas que saltam junto com a aventura do nosso náufrago.
Um livro muito fácil de se ler devido a uma narrativa límpida, elegante e descritiva sem recurso a grandes criatividades de escrita que perturbem o desenrolar dos acontecimentos e as reflexões são feitas de uma forma tão bem enquadra no evoluir da história que não dificultam a leitura. Gostei muito espero ainda ler mais obras deste escritor e um dos pais da ficção científica que vai além do entretenimento.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

"O Estranho caso caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde" de Robert Louis Stevenson


O livro "O Estranho caso caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde" do escocês Robert Louis Stevenson que acabei de ler é uma edição com três contos, onde o que dá nome ao livro tem a dimensão quase de uma novela e é talvez a obra mais famosa do autor. A capa no post é diferente da que li, pois a publicação que tenho não está à venda, mas a capa mostras contém precisamente à mesma coletânea.
Todas as histórias entram no domínio do gótico ou temas que exploram a aproximação de mortos, situações de quase terror, embora nestes relatos pareçam envolvidas pelo saber científico numa Inglaterra vitoriana. A primeira: "O furta-defuntos", baseia-se no problema ocorrido no Reino Unido no século XIX da comercialização ilegal de cadáveres para investigação médica, neste caso, além de encobrimento dos crimes, especula-se uma situação arrepiante que os traficantes terão enfrentado.
No segundo, "Olalla", um soldado ferido é acolhido numa família de montanha para recuperação, onde os anfitriões com um passado nobre sofreram degenerescência ao longo de séculos pelo mal que terão feito e o amor do hóspede por uma jovem fica refém dessa maldição. Uma forma regressiva de trazer para a literatura a teoria de evolução de Darwin, então tentar vencer na opinião pública.
A última história: "O Estranho caso caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde", que dá o nome ao livro, é uma referência na literatura, clássico do género gótico. Dr. Jekyll, um homem exemplar e benemérito, surge associado a um Sr. Hyde que além de assustar pela sua falta de humanidade, pratica um crime hediondo e parece protegido do doutor, sem se saber que motivações obscuras dão ascendente do execrável personagem ao bondoso doutor. Após se pensar estar numa situação de chantagem, descobre-se a explicação final que envolve a luta permanente entre o bem e mal no ser humano, as cedências a este e a curiosidade do cientista quando despreza a ética. Um magnífico conto que vai muito além de uma história de ficção, entrando sim no campo das reflexões sobre o comportamento das pessoas perante os desafios e as escolhas morais e éticas.
Uma escrita com parágrafos extensos característica das narrativas daquele período, com magníficas metáforas e outras figuras de estilo que deliciam o leitor. Gostei sobretudo do último conto: magnífico.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

"Humilhados e Ofendidos" de Fiódor Dostoiévski


Na generalidade as obras do escritor Fiódor Dostoiévski denunciam a injustiça social no mundo russo do século XIX através de uma reflexão e confronto entre modelos políticos de valores e ética tradicionais e outros revolucionários hedonistas de corte com o passado e ainda com a dialética filosófica entre crentes e ateus, criando narrativas tensas onde a maldade ou o oportunismo de alguns gera vítimas inocentes arreigadas aos seus princípios, sendo tudo isto temperado com dramas românticos com paixão não dominadas em personagens exemplares que ficam reféns de maquiavélicas conjuras. Assim estas obras  tornam-se manifestos e apelos de conversão da sociedade a um mundo mais justo e pleno moral.
"Humilhados e Ofendidos" é uma narrativa de um escritor prometedor em início de carreira e por isso tem algo de autobiográfico e é um romance que não se envolve em ideias políticas ou discussões religiosas que mais tarde caracterizam Dostoiévski, mas mantém a estrutura e o estilo básico dos maiores clássicos deste escritor, mostrando quão maus podem alguns ser, semeando dor, injustiça e destruição de paixões por mero egoísmo sobre outros mais fracos e honestos e quanto orgulho e os princípios de honra podem ainda ampliar estes efeitos nefastos em quem é ofendido e humilhado pelo mais forte e sem escrúpulos.
Assim, Humilhados e Ofendidos, sem deixar de ser um magnífico romance típico de Dostoiévski, é mais acessível ao leitor que se sente perdido em discussões filosóficas e ideológicas de outras grandes obras deste escritor, mas preserva o essencial: a luta entre o bem o mal que importa para tornar o mundo melhor.
Gostei muito e para quem nunca leu este autor e teme a complexidade dos conteúdos, este romance pode ser uma obra de entrada para abrir portas às maiores obras da literatura mundial escritas por Dostoiévski de quem sou um admirador convicto.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

"O Homem Domesticado" de Nuno Gomes Garcia


"O homem domesticado" do português Nuno Gomes Garcia mostra uma distopia que veio instalar na Europa, mais intensamente em França, após uma catástrofe "O Grande Flagelo" que matou a maioria dos homens e em menor escala as mulheres, só que as deixou na generalidade inférteis, e com chegada à Presidência de Marine (suspeito que este e outros nomes não são casuais na obra) onde se construiu uma sociedade com reprodução humana artificial, não uterina e com a geração de machos homogeneizados, submissos ao domínio absoluto da mulher. Após se compreender o modelo social, um acontecimento violento transforma transforma a narrativa quase num policial, onde deduções certas e erradas da estória e justificação política terão a explicação até ao final.
Ao contrário de outras distopias recentes, onde pelo exagero se denunciam tendência e riscos em que a sociedade pode cair, casos de "Submissão" de Houellebecq ou de "Oryx e Crake" de Atwood; Gomes Garcia cria uma realidade distinta da atual, embora sem ignorar ideias atuais, como considerar estereótipos de género não naturais certas características de feminilidade ou masculinidade, preconceitos de que a violência social com origem só no homem, optando assim por um estilo muito mais próximo de Huxley em O Admirável Mundo Novo ou "A Ilha". 
Contudo, ao contrário de muitas distopias que li, onde é evidente a mensagem subjacente, a ideia a passar em "O Homem Domesticado" é algo dúbia. Tanto pode chocar para levar à reflexão sobre certos preconceitos machistas através destes machos completamente submissos onde o papel na sociedade se limita ao estereótipo ultrapassado da mulher como mera serva do homem e até publicamente oculta através com a burka, aqui na versão cache-tout para os machos; como pode ser o de satirizar a ideia supremacista da superioridade da raça branca, loura e de olhos azuis aqui bem degenerada; ou de evidenciar que os atuais defeitos da sociedade não resultam da predominância do homem nos lugares de poder, pois a mulher é bem capaz de criar um sistema opressivo, violento e ditatorial onde a justiça é subjugada ao objetivo político ou até denunciar tiques másculos de extrema-direita em Marine Le Pen. Quem sabe se não será tudo isto em simultâneo?
A escrita é clara, com poucos floreados poéticos como em muitas distopias, sem excluir algum recurso a metáforas e comparações estilísticas para a embelezar literariamente. Um livro fácil de se ler, para alguns terá momentos chocantes, mas não me marcou com a intensidade dos romances do mesmo género e acima citados.

terça-feira, 13 de junho de 2017

"As Regras da Casa da Sidra" de John Irving


O romance do norte-americano John Irving "As regras da Casa da Sidra" que acabei de ler, não sei se intencional ou não, apresenta um resumo, tanto no site onde comprei o livro, como no verso da capa deste, que se desvia em muito do cerne da questão principal levantada pela obra: o aborto pela livre escolha da mulher. Não importa se o leitor deste post é a favor da questão ou não, mas os vários episódios principais que marcam as personagens de um modo ou outro encaminham sempre o problema para esta questão ética.
Wilbur Larch jovem do Maine decide seguir medicina, na sua fase de viragem a adulto é-lhe ofertada pelo pai uma noite com uma acompanhante mais velha, depois conhece a filha, mais tarde já como médico e perante uma gravidez indesejada desta, ele recusa-se à interrupção, o que a conduz indiretamente à morte. Uma marca deixada pela mãe e o fim da filha levam-no a recolher-se num orfanato onde se torna no médico residente, viciado em éter, que estabelece uma rotina com os acolhidos e de onde dá plena liberdade às grávidas que ali se dirigem para estas criarem um novo órfão, a acolher na instituição para adoção, ou de evitar um filho indesejado. Uma prática então ilegal, este agir leva a que o estabelecimento seja visitado por muitas mulheres e entre os bebés que acolhe afeiçoa-se a um: Homer, cujas peripécias o impediram de ser adotado. Wilbur ensina-lhe a sua profissão e torna-o num obstreta dotado de prática exemplar, mas que recusa o papel de Deus na decisão de uma vida. Um casal jovem, bonito e rico vai ao orfanato e recebe o jovem de igual idade para a sua quinta de maçãs e sidra. Começa então uma relação amorosa a três que mistura admiração mútua, desejo, respeito e transgressões, com tempo este órfão torna-se central na empresa, mas à distância o médico velho prepara o seu sucessor e sabe que só o seu educando pode ocupar aquele local e monta uma estratégia para o seu trabalho continuar.
A obra está escrita por vezes de uma forma crua, com  tons científicos de práticas médicas, noutros está cheia de ternura, numa mostra de relações humanas onde se cruzam questões éticas e os instintos íntimos, redigido de uma forma elegante. Para mim a personagem principal da obra não é o protagonista Homer, mas sim quem o criou.
Sim, gostei muito do romance, que até no amor entre personagens principais cria situações incómodas para os princípios éticos de uma relação familiar, de amizade e amorosa, além de outras situações que perturbam o leitor, é sem dúvida um grande romance, inclusive no tamanho (750 páginas), bem escrito, com ironia e amargura temperada com questões de ética, carinho e paixão, que recomendo a quem o preconceito não se sobrepõe à questão ética que a obra aborda.

sábado, 6 de maio de 2017

"A Vegetariana" de Han Kang


Acabei de ler "A vegetariana" da escritora sul coreana Han Kang, romance vencedor do Man Booker Internacional Prize de 2016 onde na lista final também se encontrava o livro de expressão original portuguesa "Teoria Geral do Esquecimento" de J E Agualusa aqui abordado.
Estamos perante um romance que narra três episódios em torno de Yeong-hye, uma mulher sem nada de excecional que leva a sua pacata vida de casada numa normalidade obscura que de repente decide rejeitar comer qualquer alimento de origem animal, impondo tal disciplina em casa e encontra uma grande oposição de toda a sua família.
No primeiro relato, esta mudança de comportamento é vista pelo lado do marido que pede auxílio aos parentes da esposa para enfrentar a situação. O segundo relato decorre após o termo do primeiro e conta na primeira pessoa a atração e relação desencadeada no cunhado, artista que pinta flores em corpos nus com cobertura video desse trabalho, para com a figura central do livro, desenvolvendo-se então uma história em simultâneo erótica, sexual, imoral e também inocente. A terceira parte é a exposição da irmã que tenta salvar recém-convertida ao vegetarianismo, aquela analisa o que foi a vida desta, as atitudes de sobrevivência de ambas, o choque do comportamento do marido e a opção pelo tratamento psiquiátrico de Yeong-hye, com todas as consequências que daí resultarão face a uma mudança cada vez mais radical desta de unir-se ao mundo vegetal.
Não conheço a língua coreana para analisar como terá sido a escrita original de Han Kang, o romance resulta da tradução a partir da versão inglesa e em português transformou-se num texto claro, com frases elegantes e com um recurso escasso a floreados, apesar das flores serem muito importantes na obra. O início da obra é literariamente deslumbrante, depois perde alguma beleza face a uma violência psicológica e física que me surpreendeu, depois na segunda parte há uma conciliação entre beleza de escrita, erotismo, imoralidade e crueldade, sem o texto perder o seu carácter de obra de arte não pornográfica.
A terceira parte é uma narrativa deprimente de onde resultam mais questões do que ideias da escritora. Quais os limites das opções individuais sobre o uso do seu corpo e das atitudes de cada um? Pode um percurso imoral e de rejeição social ser o caminho para a salvação de alguém? Teremos o direito de comprometer o futuro de uma pessoa em nome dessa ética perante atitudes que não prejudicam terceiros? Gostei do romance, embora não seja uma obra que me tenha marcado especialmente, pois apenas levanta questões sem deixar mensagens claras. A opção do júri para dar a vitória a esta obra em detrimento da de Agualusa levanta-me dúvidas, embora a prefira a este livro de Ferrante que também gostei mas perdeu igualmente para "A vegetariana".

sexta-feira, 10 de março de 2017

"Submissão" de Michel Houellebecq


Decidi ler "Submissão", do escritor francês contemporâneo Michel Houellebecq, tendo em conta a situação eleitoral agora em curso naquele País Europeu, uma vez que este livro é um romance recente e onde se disserta sobre o futuro da França resultante de umas eleições presidenciais em 2022 cujos candidatos na segunda volta (segundo-turno no Brasil) são apenas o da extrema-direita e o de um futuro partido dos muçulmanos.
Sendo Houellebecq um escritor frequentemente polémico, esta obra também tem elementos discutíveis e ideias que pretendem mesmo agitar consciências e levar à reflexão, contudo não deixa de apresentar o risco de uma evolução distópica da atual civilização ocidental a partir de França. François, um professor universitário na Paris III - Nova Sorbonne, especialista no escritor, não fictício, francês do século XIX Huysmans (que de amigo de Zola e satanista se converteu ao catolicismo, deixando plasmado nas suas obras a sua evolução pessoal). O protagonista e narrador é um fruto típico da época ocidental atual, um niilista e hedonista que segue desinteressadamente a política do seu país sem se envolver e sem se aperceber do evoluir da situação e dos  riscos de mudança possíveis na sua terra preparadas nos bastidores pelas forças ideológicas e religiosas em presença, Num repente, o mundo em que viveu muda radicalmente, o poder é tomado por um líder forte de uma das fações da segunda-volta que negoceia e salvaguarda os interesses dos políticos adversários tradicionais fracos, comodistas e egoístas, que aceitam um conjunto de mudanças no sistema onde se retiram o atual papel da mulher na sociedade e levam uma campanha simpática de mudança de mentalidade através do ensino, que à semelhança da distopia de "O admirável mundo novo", de Aldous Huxley, pode levar a que a submissão seja entendida pelos submetidos a uma nova forma de se sentirem felizes neste mundo em que uma parte da humanidade não tem voz nem estatuto social.
Embora Houellebecq não escreva de uma forma bela, antes pelo contrário, estamos perante um texto cru e por vezes chocante, mesmo quando descreve crueldades de uma forma ardilosamente simpática, a leitura é fácil pela clareza colocada no texto. Pontualmente, na vida íntima do protagonista, o escritor não se limita a um erotismo subtil, avança para uma linguagem e pormenores que podem mesmo ferir a suscetibilidade do leitor, todavia é evidente que tal é a intenção do escritor.
Fiquei curioso por conhecer a obra de Huysmans, que também se deduz ter sido muito importante na literatura francesa do século XIX, mas cuja importância foi intencionalmente abafada por a sua evolução colidir com a estratégia em rumo de uma civilização laica onde as questões de fé são retiradas do espaço coletivo.
Como livro que fala de um futuro próximo e a partir dos dados da data da sua publicação inicial, 2015, alguns pormenores previstos em 2017 sofreram vários desvios, além de terem surgido alguns aspetos maus não considerados, mesmo assim no cerne a obra mantém-se bem atual e a sua mensagem não perdeu qualquer atualidade. 
Apesar de um futuro negro apresentado em tons cor de rosa e de algumas opções descritivas que não são do meu inteiro agrado, que considero quase pornografia na literatura, gostei mesmo muito do livro, que procura agitar e despertar consciências que vivem como sonâmbulas nesta sociedade laica, onde os valores religiosos são silenciados enquanto outros procuram impor as suas crenças e modelo sem que o cidadão comum se aperceba.

sábado, 2 de abril de 2016

"O Deus das Pequenas Coisas" Arundhati Roy



O romance "O deus das pequenas coisas" é o único livro de ficção da escritora indiana Arundhati Roy, com uma vasta obra ambientalista, e ganhou logo o Booker Prize de 1997 e foi um grande sucesso editorial ao nível planetário.
A história que envolve o declínio em três gerações de uma família indiana de nível socioeconómico e cultural acima da média, com intervenção científica e industrial, de religião cristã síria e anglófila, no sudeste da Índia, que se vê enredada na sua teia de vícios individuais misturados com preconceitos locais e a tradição de castas, que assim se autodestrói por invejas, paixões, ódios entre si agravada por fatalidades acidentais enquanto procura assimilar a cultura inglesa como forma da identidade e de afirmação numa época de aceso confronto ideológico da guerra fria.
É uma obra intercultural, onde as influências inglesas e indianas se misturam constantemente na história num período de instabilidade no país devido ao confronto ideológico que marca a guerra fria. Na escrita a autora efetua ainda uma integração na linguagem do misticismo hindu, com o racionalismo ocidental, a força do ambiente meteorológico e da biodiversidade do sudoeste da Índia, sobretudo vistos e interpretados pelos olhos de duas crianças gémeas filhas desta aculturação num período onde uma paixão contra as regras estabelecidas faz soltar todos os demónios que estavam atados nesta teia complexa de encontro de civilizações, credos, mentalidades numa Índia pós independência e politicamente a balançar entre uma democracia de mercado livre e a perspetiva marxista. Todos estes mundos e interesses conflituam nesta obra ferindo e destruindo pessoas de uma forma dura, capazes de não perdoar um amor e aproveitar-se de um acidente perante os olhos de duas crianças gémeas alvo de todas estas tensões.
Por ser uma obra que integra várias culturas inclusive no estilo do texto, nomeadamente a indiana bem distante da europeia, no princípio pode-se estranhar, mas depois de se compreender a forma cheia de metáforas e simbolismos, torna-se num belíssimo romance multicultural e cheio de referências à ecologia da Índia que justifica o sucesso do livro.

sábado, 12 de março de 2016

"Desmobilizados" de Phil Klay


O livro "Desmobilizados" de Phil Klay reúne 13 contos que num jogo de espelhos conseguem denunciar o absurdo da guerra em si, as questões psicológicas dos militares, a sua diversidade de ver a morte, o inimigo, a ética, a moral; questionar ainda a política, a sociedade americana e as razões desta invasão; também mostrar o medo e o vazio da religião perante a dureza do que se passa bem como os aproveitamentos no campo de batalha por muitos iraquianos e norteamericanos, o ridículo por vezes do estatuto do veterano e os traumas com que estes podem ficar para sempre.
Escritos de uma forma realística sem grandes artifícios estilísticos de nível literário, alguns contos possuem a linguagem dura de caserna com todos os tiques de calão e de mentalidade grosseira, machista e de heroicidade oca com que são doutrinados psicologicamente nos treinos, outros usam uma uma narrativa mais introspetiva e moral de quem questiona a ética nesta guerra ou desempenha papeis religiosas na frente de combate. Os contos completam-se e constroem uma visão global do que se pode ver do lado ocidental da segunda guerra no Iraque sem esconder o que foi a destruição da sociedade e cultura no país invadido. 
A obra não julga diretamente esta guerra, mas questiona tudo e de facto constitui um grande livro e um tratado sobre esta guerra que vale a pena ler, apesar de algumas páginas psicologicamente e outras fisicamente muito violentas.
Um livro cujo texto traduzido apresenta alguns falhas que deveriam ser revistas caso haja uma nova edição, mas que pela riqueza do retrato que faz de uma realidade atual justifica o facto do original ter sido uma obra premiada em 2014 e ainda por cima escrita por quem viveu esta guerra por dentro. Gostei muito e embora seja uma obra de guerra, penso que muitos a deviam ler pelas questões e situações com que nos faz confrontar sobre o que ainda se passa neste momento no médio oriente.

domingo, 12 de julho de 2015

"Os Demónios" de Fiódor Dostoievski


"Os Demónios" será outro livro de Fiódor Doistoievski  que me vai deixar marcas profundas na minha carreira de leitor e apesar de parecer menos citado que outras obras deste escritor russo, como: "O Idiota" e o "Os Irmãos Karamazov" já dissertados neste blogue, a verdade é que pelo tema e estrutura, despertou-me um interesse não inferior aos acima citados e ainda levantou-me questões sobre o mundo atual.
Depois do romance apresentar algumas personalidades de uma cidade provincial russa, dois revolucionários clandestinos voltam a esta terra natal com a missão de ali criar um núcleo de agitadores, fundado numa estratégia de luta nacional e internacional. Um destes, sem qualquer escrúpulo, aproveita a situação para além de agitar a vida social local e destruir o governo provincial, implementar ainda com uma estratégia despudorada para cimentar o núcleo clandestino em desrespeito à ética, vingar-se em alguns elementos do grupo por questões pessoais e até servir-se de filosofias individuais em proveito próprio e dos ideais políticos que propõem.
Dostoievski, como normal na sua obra, cria personagens complexas, psicologicamente extremadas e coloca-as intervenientes numa sociedade onde se denunciam os seus defeitos e a forma de pensar e agir russa. Reúne assim figuras contraditórias em situações de debate e choque de ideias com uma elevadíssima carga dramática características de representações teatrais e desencadeia uma série frenética de acontecimentos que acaba em catástrofe.
Alguns debates são profundamente filosóficos: a importância de um suicídio racional de um ateu para demonstrar a inexistência de Deus, este, em paralelo, levanta questões éticas ao servir de aproveitamento para fins de guerrilha. Outros desenvolvimentos mostram o choque de consciência moral entre a pureza das ideias, os meios para as implantar e a manipulação despudorada de pessoas aderentes à causa para se alcançar o objetivo pessoal em detrimento do político e social. Um livro que em paralelo leva a refletir sobre a confusão que reina na Europa atual