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quarta-feira, 1 de julho de 2026

"O cão dos Baskervilles" de Conan Doyle

 

A grande maioria das narrativas protagonizadas por Sherlock Holmes são contos e apenas quatro têm dimensão e estrutura de romance, sendo "O cão dos Baskervilles" talvez o mais famoso escrito pelo inglês Conan Doyle.
Sherlock recebe a visita de um médico do interior a informar da morte do Baskerville que parece ter-se aterrorizado na charneca que envolvia a casa deste e suspeitam de uma maldição em resultado de malfeitorias de um antepassado, cujos descendentes da casa senhorial são perseguidos por um demónio em forma de cão. Não acreditando no sobrenatural, pensa que o herdeiro que tomará a casa esteja em perigo por alguém interessado em servir-se desta lenda. Chegado o novo dono, Sherlock envia Watson para o acompanhar ao Devonshire, onde acontecimentos estranhos e interesses de vizinhos parecem evidenciar o perigo, enquanto o detetive acompanha as ocorrências à distância até tudo ser explicado.
Um policial puro, com suspense e entrada no mundo das superstições, as personagens são mais trabalhadas que nos contos, um leitura fácil acessível a qualquer pessoa. Um clássico no seu género que gostei e recomendo.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

"O Regresso de Sherlock Holmes" Arthur Conan Doyle


Enquanto não me chegam o segundo e o terceiro romances da trilogia "O Passado do Planeta Terra" começada com "O Problema dos três Corpos", que encomendei no início da leitura deste, mas cujos correios demoram já três semanas para me os entregar, optei pelos contos policiais do britânico Conan Doyle com "O Regresso de Sherlock Holmes" que  já lera parcialmente neste título, onde constam 7 histórias das do conjunto de 13 deste livro, sendo este está em conformidade com as primeiras edições inglesas em livro destas histórias que começaram por ser publicadas avulso na revista Strand Magazine.
Reli alguns dos contos nesta diferente tradução, que gostei muito mais, e verifiquei que pouco retivera em memória dos mesmos, apesar de na releitura e já perto do meio destas começava a recordar e a antever o desenlace, embora me lembrasse de como o escritor imaginou a sobrevivência de Sherlock que foi dado como morto no conto "O Problema final" que consta deste livro que é anterior ao da coletânea que agora li.
Tal como nos anteriores contos, Sherlock brilha pela sua sagacidade em observar e interpretar pormenores em torno dos casos que investiga, embora, por vezes, sujam aspetos que não estão acessíveis ao leitor para acompanhar o raciocínio do detetive que acompanha mistérios, quase sempre criminais, envolvendo famílias aristocráticas e com técnicas muito distantes dos métodos científicos atuais.
Como todos os livros com contos ou romances, são de leitura muito acessível, por vezes com esquemas e desenhos, e são de excelente entretenimento. 

sábado, 1 de novembro de 2025

"Sensibilidade e Bom Senso" de Jane Austen

 

Acabei de ler "Sensibilidade e Bom Senso" da escritora inglesa do início do século XIX Jane Austen, apesar de se situar entre os escritores mais importantes daquele século, esta foi a minha obra de estreia na autora.

Eliane e Marianne são duas irmãs de comportamento distinto, a primeira racional ou sensata e a segunda romântica ou sensível, vivem com os pais, só que por morte do progenitor a casa e o dinheiro passam a pertencer maioritariamente ao meio irmão mais velho como primogénito. Este encontra-se casado com uma mulher ciosa da herança do sogro, o que leva a madrasta e suas filhas a terem de partir para outro condado para uma casa mais em conta e a uma gestão apertada dos rendimentos. Eliane tem uma paixão mal disfarçada pelo cunhado do irmão que também não assume o seu amor por ela, mas ambos mantêm o relacionamento num estado de letargia escondido dos olhos sociais. Marianne conhece Edward por quem se apaixona perdidamente e este também exibe a sua paixão, ambos de forma descuidada, enquanto outro vizinho mais velho nutre um amor por esta de forma discreta. Entre gestão de interesses de riquezas por casamento, traições, confusões e gestão racional ou irracional de paixões, a situação complica-se, sobretudo para Marianne, enquanto Eliane traz o bom-senso e cuida da irmã, mas quando tudo parece perdido a razão mostra-se superior para um inesperado final da obra.

A obra faz um retrato da época e da vida dos estratos sociais médio-alto a alto, em que a racionalismo e o romantismo estão em confronto, quando as mulheres estão fortemente dependentes dos maridos, numa classe onde os casamentos eram frequentemente por interesse e o amor pouco contava na família para este tipo de união.

Uma escrita lúcida, elegante, mais descritiva do que criativa e fortemente temperada pelo ângulo feminino, numa época em que ser mulher e escritora era praticamente impossível e só concretizada por alguém que pela sua qualidade narrativa e tato conseguiu se impor no panorama cultural, pela sua genialidade de retratar tensões de conveniência social, sensibilidade e de moralidade, bem como a arte de sobrevivência em sociedade. Gostei, apesar de ser uma obra datada, centrada no feminino e apenas nos estratos sociais mais altos.

segunda-feira, 13 de outubro de 2025

"Aventuras de Sherlock Holmes" de Arthur Conan Doyle

 

Acabei de ler o livro "Aventuras de Sherlock Holmes" da editora Leya, que possui uma seleção de sete contos com este detetive e escritos por Arthur Conan Doyle.

Neste caso, confesso, que o título induziu-me em erro, pois pretendia comprar as histórias curtas mais antigas  com este detetive, pois estas foram sendo publicadas avulso na revista "The Strand Magazine" e depois reunidas, cronologicamente, em conjuntos de livros, onde os primeiros ficaram numa coletânea com o título "The Adventures of Sherlock Holmes". Apesar da semelhança no título, este livro seleciona 7 dos 13 contos do terceiro volume que possui o título original "The Return of Sherlock Holmes" que possuo com o nome de "O retorno de Sherlock Holmes", que ainda não li, duma diferente editora e tradução distinta.

Apesar desta confusão, os sete contos são todos eles cativantes, sendo que neste se encontra "A aventura da casa vazia", onde se narra como Sherlock Holmes sobreviveu ao conto anterior "O Problema Final" no qua se deduzia da morte do detetive e fechava a coletânea com o nome "As memórias de Sherlock" Holmes" que consta do livro aqui falado no neste blogue.

Histórias fáceis de ler, bem construídas, com mistérios e crimes desvendados pela argúcia do poder de observação de Sherlock Holmes", faltam-me ler agora os restantes contos contidos em "O retorno de Sherlock Holmes".

sexta-feira, 12 de setembro de 2025

"O Signo dos Quatro" por Conan Doyle

Li mais um livro policial com Sherlock Holmes, "O Signo dos Quatro", escrito pelo inglês Conan Doyle. Das muitas investigações deste detetive, só 4 têm dimensão de romance, sendo este o segundo por ordem cronológica, já que importa referir que, por vezes, nos casos relatados, tanto em obras maiores, como nos contos, existem referências a obras anteriores.

Neste Sherlock começa por dizer a Watson que está deprimido por falta de enigmas por resolver, quando uma jovem lhe vem bater à porta e contar a situação do desaparecimento do seu pai, há já vários anos, sem deixar rasto, mas que nos anos mais recentes passou a ser presenteada por uma pérola como justificação pelo facto de ter sido prejudicada no que teria direito de seu pai e, nesse mesmo dia, fora convocada para um encontro para se fazer essa justiça. Para tal deveria levar dois amigos como testemunhas, pelo que os vinha convidar para o efeito. A situação vai levá-los a deparar-se com outro assassinato e à resolução do caso pela perícia de Sherlock, numa aventura que tem um momento de grande suspense numa perseguição em barcos pelo rio Tamisa. 

Este é o romance em que Watson se apaixona, precisamente pela jovem que os convidou a acompanhar e a tentar resolver o caso, decide casar pelo que nas obras cronologicamente posteriores, a dupla deixa de viver no mesmo apartamento e separam-se e só se reúnem temporariamente para resolver casos a pedido de Sherlock.

Livro fácil de ler, numa narrativa lúdica, agradável e com suspense que recomendo a quem gosta de obras policiais clássicas, pouco violentas apesar de crime, mistério e solução.

quarta-feira, 16 de julho de 2025

"As memórias de Sherlock Holmes" de Arthur Conan Doyle

 

Pela primeira vez li contos protagonizados por este famoso detetive da literatura policial e escritos pelo profícuo autor inglês: Arthur Conan Doyle, apesar de as narrativas curtas serem independentes, existem, por vezes, referências a histórias publicadas anteriormente, pelo que, em parte a narrativa é sequencial, mas um erro meu no momento da compra, levou-me a adquirir inicialmente o segundo livro destas histórias, precisamente "As memórias de Sherlock Holmes".

Neste volume são narradas 11 aventuras pelo seu permanente companheiro de investigação, o médico Watson, dimensões semelhantes e na ordem e duas a três dezenas de páginas cada. Todas são como memórias, não do protagonista, mas do doutor que o acompanhou, algumas são charadas, outras crimes e a última um confronto épico de inteligência com o seu inimigo figadal: o Professor Moriarty por Sherlock lhe destruir a sua quadrilha de malfeitores.

São contos muito fáceis de ler e de puro entretenimento, mas muito diferentes do estilo de Agatha Christie de quem tanto tenho lido, nesta autora é, sobretudo, a análise psicológica que leva à descoberta do criminoso, em Conan Doyle, são pistas físicas que cuja análise e interpretação conduzem à descoberta, mas onde os conhecimentos do detetive vão mais longe que os dados postos na narrativa e dificilmente o leitor se sente na posse de tudo. Sendo histórias da transição do século XIX para XX, muitas das tradicionais pesquisas forenses dos policiais mais recentes estão ausentes aqui, não se fala de impressões digitais, ADN, tipos e pesquisas de sangue oculto, etc.

Gostei e penso explorar mais este personagem que de facto só mais recentemente comecei a ler e recomendo a qualquer leitor que goste do género policial.


segunda-feira, 26 de maio de 2025

"O Papagaio de Flaubert" de Julian Barnes

 
Excerto

O que é que nos faz querer saber o pior? É por nos cansarmos de preferir saber o melhor?... Ou, mais simplesmente, aquele desejo de saber o pior é a perversão favorita do amor?

Regressei novamente ao escritor britânico Julian Barnes de quem tudo o que li até hoje gostei e "O papagaio de Flaubert" não foi exceção.

O médico inglês, reformado e viúvo, Braithwaite, visita Ruão, na Normandia, como admirador do escritor Gustave Flaubert, onde se depara com dois papagaios embalsamados em dois museus e ambos a assumir a autenticidade de corresponderem à ave que esteve no centro de um dos contos famosos do autor. O dilema leva a uma dissertação sobre a vida do grande romancista francês do século XIX, iniciador do realismo literário, os seus defeitos, virtudes, a sua genialidade, os seus gostos, o seu bestiário, o seu comportamento público e incoerências privadas, as suas relações amorosas e culturais, o seu posicionamento perante os maiores autores da sua época, as suas viagens e pesquisas, os seus ditos e aspetos dos seus livros mais importantes, como "Madame Bovary". Tudo isto para no fim procurar descobrir a verdade sobre qual era mesmo o papagaio de Flaubert.

À semelhança de "O ruído do Tempo" cuja personagem principal é o histórico músico Shostakovitch do século XX; o romance que agora li, também não é bem uma biografia no verdadeiro sentido do termo sobre a figura histórica de Flaubert, seguramente não é uma coletânea de verdades sobre o mesmo, mas é um encadeado de factos sobre o escritor, com algumas especulações e reflexões sobre o mesmo, bem como uma análise sobre a literatura, a verdade no interior da ficção, a presença do autor e dos seus conhecidos dentro desta e uma discussão sobre a cultura e o papel da arte num contexto de época. Tudo isto muito bem escrito, com algum humor, irreverência e sentido crítico.

Talvez não seja uma narrativa fácil para quem gosta de seguir uma história linear simples, mas é sem dúvida um excelente texto, provavelmente uma obra de culto que se pode tornar num clássico do final do século XX. Gostei imenso.

sábado, 22 de fevereiro de 2025

"Um punhado de centeio" de Agatha Christie

 

Acabei de ler mais um romance policial da escritora inglesa Agatha Christie "Um punhado de centeio" da série Miss Marple.

No escritório da sua empresa Rex Fortescue, depois de beber um chá servido pela sua voluptuosa secretária, tem um ataque súbito, é levado para o hospital e morre, descobrindo-se em seguida que fora envenenado por um tóxico que deveria ter sido ingerido ao pequeno almoço, tendo ainda sido encontrado um bolso do casaco cheio de centeio. Na investigação sobre a refeição caseira ao inspetor Neele todos em casa lhe parecem ter tido oportunidade para o ato e vários a beneficiar do caso, mas porquê aquele cereal? No chá da tarde toda a família reúne-se mais um filho que, entretanto, chega de África, mas pouco depois a atual mulher de Rex surge morta por envenenamento, eliminando a principal beneficiária e, mais tarde, uma antiga criada é encontrada morta no quintal com uma mola de roupa no nariz e o caso fica cada vez mais confuso. Entretanto, Miss Marple lê sobre as mortes nos jornais e descobre que a criada era uma sua antiga empregada e decide dar um apoio. Diz a Neele que os crimes parecem ligados pela rima de uma canção infantil antiga e, aos poucos, com a sua simpatia vai recolhendo informação dentro desta casa, onde todos parecem antipáticos e suspeitos, mas não se coíbe de dar as suas teorias ao inspetor, até à descoberta a verdade surpreendente.

Como é típico nas obras desta escritora, a narrativa dá várias reviravoltas e os suspeitos vão rodando, assistimos a cenas não ausência do inspetor e de Miss Marple que nos vão lançando pistas e falsas pistas e, como é habitual para esta série, as conclusões são sempre rebuscadas e mais fundadas na psicologia do que na dedução de factos evidentes. É sempre um prazer um policial de Agatha Christie

quinta-feira, 13 de junho de 2024

"A Premonição" de Agatha Christie

 

Acabei de ler "A Premonição", uma obra de investigação detetivesca da famosa escritora inglesa Agatha Christie, este tem como protagonistas para deslindar o mistério o casal Tommy e Tuppence, menos famosos que Miss Marple e Poirot, mas também figuram em diversos romances desta autora.
Na sequência de uma visita à Tia Ada ao lar, onde tudo parece em ordem, Tuppence conhece outra residente, Mrs. Lancaster, que lhe pergunta "era sua a pobre criança? e insinua que esta chora ainda por detrás da lareira. Pouco depois, a Tia morre e descobrem que aquela lhe ofertara um quadro com uma casa à beira de um canal de que Tuppence se lembra de ter visto antes, só que Mrs. Lancaster fora levada do lar repentinamente e limparam todas a vias de chegar ao contacto com ela. Correrá ela risco de vida? Qual a sua ligação à casa do quadro e onde ela a vira? Após descobrir o lugar e tentar saber histórias do passado daquela terra rural, Tuppence sofre um ataque que coloca Tommy também na investigação e um mistério de mortes em série no passado e uma rede criminosa são desmontados. 
A obra apresenta elementos de cultura geral artística mais ampla que os habituais romances com Miss Marple e Poirot e também é menos linear, mesmo a meio do livro não sabemos ainda se houve ou não um crime, de quem e o que procuramos, é mais uma suspeita do que um facto que coloca Tuppence com o seu faro a investigar. Por isso a trama evolui calmamente em meio rural inglês conservador, só que o mistério vai-se adensando até se tornar claro que de facto algo deve ter acontecido e com ajuda do o marido com a sua experiência de ex-agente secreto que ambos deslindam o caso. Gostei, apesar de não ser um policial dos mais típicos da escritora 

terça-feira, 20 de fevereiro de 2024

"O Apóstolo" de Hall Caine

 

Citação

"Os estadistas conhecem muito bem a crueldade clerical que se esconde por detrás de leis seculares."

Acabei de ler "O Apóstolo", livro publicado em 1897 e escrito pelo inglês do final do século XIX: Hall Caine, um autor profícuo, mas pouco reconhecido pelo seu valor literário, mas com grande sucesso à época. Adquiri esta obra por apresentar temas como a sexualidade, a liberdade e o estatuto da mulher face à religião (neste caso anglicana) e discutir preconceitos e a acomodação desta face aos vícios sociais e às elites para se preservar e manter o seu estatuto no sistema instalado da promiscuidade entre Igreja e Estado.

John Storm e Glory Quayle são dois jovens da ilha de Mann, onde se conheceram e secretamente desenvolveram um grande amor entre si não assumido publicamente. Ambos partem para Londres, ele com grandes sonhos de se tornar um clérigo e purgar a sociedade dos seus vícios, sobretudo, o tratamento discriminatório dado às mulheres  e o uso das mais humildes pelos homens de maior estatuto social, trazendo para os seus sermões as questões de castidade e a proteção dos mais pobres. Ela vem para se tornar enfermeira uma das poucas profissões dignas para mulheres naquela época, mas sonha ser uma atriz e cantora e sente-se atraídas pelas regalias, a adulação do público e o dinheiro. Na capital encontra espaço para a concretização destes anseios. Duas personagens intensamente apaixonadas e fortes na defesa das suas ideias que chocam entre si e com a sociedade quando um desmascara o farisaísmo da Igreja e das elites e a outra faz sucesso e se instala num mundo de luxo e vício.

O romance junta uma visão religiosa ultraconservadora nos costumes com opção por uma igreja pelos pobres e o conflito desta com um mundo laico, onde dinheiro, luxo e luxúria estruturam uma sociedade estratificada e onde o clero se instala comodamente. Todavia a trama não se limita a este confronto, sente-se alguns preconceitos que depois são em parte resolvidos, como a quase incompatibilidade entre ser-se atriz ou cantora profana e a dignidade cristã, uma valorização do sofrimento e martírio e também que este último aspeto é mais típico do catolicismo e assume a necessidade de reformular a ligação Igreja-Estado dado existirem personagens próximas que integram o Governo.

No texto são evidentes alguns problemas de tradução, ora parecem-me vocábulos inadequados ao século XIX, ora frases com erros gramaticais que pontualmente perturbam a leitura, contudo é um bom e grande romance. A narrativa talvez tenha algum sentimentalismo excessivo. Não sei se o não reconhecimento literário do autor se deve mais a preconceitos pelo modo como aborda assuntos religiosos e a denúncia desta moral decadente e injusta ou pela qualidade de escrita, mas a partir de "O Apóstolo" deduzo que o sucesso à época pode dever-se a escrever uma literatura fácil que se pode enquadrar num estilo de educação cristã com um pendor romântico num período de luta pelo laicismo.

Um drama acessível e novelesco que levanta várias questões morais que me impressionou, me fez pensar e gostei de ler.

domingo, 26 de março de 2023

"Testemunha muda" de Agatha Christie

 


Voltei aos romances policiais da mestre inglesa Agatha Christie, agora com um investigação de Hercule Poirot com "Testemunha Muda".

Durante a estadia em sua casa dos sobrinhos, a idosa Emily Arundell sofre um acidente que é atribuído a um descuido com um brinquedo do seu cão, mas memória desta permite desconfiar de um caso premeditado vindo dos seus hóspedes ávidos da sua herança. Semanas depois ela morre naturalmente, mas deixou todos os seus bens à sua dama de companhia, só que, entretanto, alguém expeliu para Hercule Poirot uma carta esquecida da falecida para investigar o acidente. Este entra em ação e está convencido que, apesar das aparências, Emily foi assassinada. Por qual sobrinhos e familiares ou a empregada que de repente se tornou numa rica herdeira. O nosso detetive, com as suas células cinzentas, estuda a psicologia dos envolvidos e dos seus testemunhos para chegar à verdade.

Numa escrita simples, sem grandes rasgos artísticos, eis mais um caso típico ao estilo desta autora, narrado pelo ajudante Hasting que nos mantém entretidos com a sua imaginação ao tentar perceber o que de facto aconteceu ao acompanhar o seu mestre, mas onde só Poirot consegue ligar todas as pontas. Gostei, fácil de ler e muito acessível.

sexta-feira, 28 de outubro de 2022

"A Informação" de Martin Amis

 

Sabia que o estilo de narrativa de Martin Amis me criava dificuldade de concentração na leitura do texto, este é o terceiro romance do escritor que lia, contudo ando numa fase pessoalmente difícil e onde esforço não é compatível com lazer e prazer e por isso não concluí a leitura da obra, apesar de tudo confesso que nos meus bons momentos teria me divertido com as agruras desta vida contemporânea.

A informação trabalha o ódio entre um escritor que fez 40 anos de idade, que se considera de qualidade, mas que escreve livros que não têm saída devido à dificuldade leitura dos mesmos, e outro amigo pessoal de igual idade que com uma escrita e assuntos banais é um sucesso editorial. Assim o primeiro decide-se vingar sobre o invejado medíocre escritor.

Houve momentos em que me diverti na crítica sarcástica e mordaz da vida urbana dos tempos modernos e frustrações da meia-idade e outros onde não me consegui concentrar para os pormenores. Talvez volte um dia à obra. Por agora uma pausa, mas ainda li até à página 203, um sinal promissor que valeria a pena ler em bons momentos, mas a cultura não precisa de me gerar sofrimento e ansiedade sem a devida compensação de tal também me dar um prazer maior, o que com este livro não estava a conseguir neste momento.

domingo, 24 de julho de 2022

"O mistério de Edwin Drood" de Charles Dickens

 

Regressei ao inglês Charles Dickens com a leitura do seu último romance publicado, mas que, devido a morte súbita do escritor, o deixou inacabado: "O Mistério de Edwin Drood".

Edwin é um jovem órfão cujo pai deixou o seu futuro casamento acordado com a filha do seu melhor amigo, curiosamente também falecido, ficando assim ambos os noivos sem pais e com o seu futuro decidido e gerido pelos seus tutores. Tudo corria normalmente até que um casal de irmãos, de novo órfãos, vêm viver para a mesma cidade, os rapazes se tornam adversários e parece desenvolverem uma atração pelas raparigas do outro par ao arrepio do acordado. Entretanto, na noite de Natal, após um encontro realizado na tentativa de se efetuar uma reconciliação entre os jovens, Edwin desaparece e o outro logo fica alvo de todas as suspeitas. Terá sido? O clérigo que protege o acusado está convicto da inocência deste, entretanto, descobre-se que o tio de Edwin nutria uma paixão pela sua futura sobrinha de quem era professor de canto e no seu sofrimento viciara-se em ópio. Tutores, raparigas e tio tentam descobrir a verdade até à chegada de um potencial detetive... as pistas apontam várias hipóteses e a obra ficou inacabada...

Sem dúvida está-se perante a primeira parte do que seria um grande romance do género policial num período em que este tipo de literatura estaria a iniciar-se, mas os mais importante é o próprio rol de hipóteses que ficam em aberto perante um cenário de provável crime onde não há justiça, o que cria um mito e uma abertura à especulação que é colocada no livro num posfácio do grande escritor G K Chesterton, que se foi um dos pioneiros da literatura de crime e mistério e muito conhecido pelas investigações do padre Brown.

O conjunto do romance incompleto com a especulação de Chesterton torna este livro muito interessante, fácil de ler e agradável. Fica a dúvida de como Dickens solucionaria realmente o mistério e também o espanto por algumas frases da obra mostrarem que este grande mestre da literatura e da denúncia das injustiças sociais, ele próprio, tinha os seus pecados preconceituosos à luz dos princípios humanos de hoje.

quarta-feira, 30 de março de 2022

"O teu rosto amanhã" Vol. I - Febre e Lança - de Javier Marías

 

Excertos

"tudo tem o seu tempo para ser acreditado, até o mais inverosímil e o mais anódino, o mais incrível e o mais ignorante."

"Há uma obsessão por compreender o odioso, no fundo há uma malsã  fascinação por isso, e com isto faz-se um imenso favor aos odiosos. Eu não compartilho essa curiosidade infinita do nosso tempo..."

Há muito que ouvia falar do espanhol Javier Marías como um dos escritores mais originais da atualidade, mas só agora me decidi a descobrir e logo através da sua obra mais extensa: o romance de três volumes "O teu rosto amanhã". No primeiro tomo duas partes do romance: "Febre" e "Lança".

Jacques Deza, começa a obra a explicar a importância de estar calado, de nunca se contar nada, ele, um madrileno recém-separado regressou à Inglaterra para fazer um programa de cultura espanhola na BBC, doutorado na Universidade de Oxford, frequenta a casa de um professor amigo naquela academia, lá é convidado a integrar um grupo secreto. Este procura interpretar o comportamento de pessoas seguidas pelo serviços de informação britânicos e ver-se-á num mundo onde responder, contar e dizer são armas bumerangue que atacam quem fala. Seguem-se reflexões sobre os indivíduos, a importância da comunicação, a pressão social, questões da atualidade, efeitos psicológicos da guerra civil de Espanha e da II Grande Guerra, disserta ainda sobre a sua vida individual, familiar e com quem convive e vai contando, contando, contando memórias ao contrário do que avisara.

A escrita, com um vocabulário rico e culto, cheia de referências linguísticas, é de uma fertilidade de adjetivos e pormenores, sinonímias lexicais que se estendem por longos parágrafos que vão desenvolvendo uma musicalidade em ritmos lentos que é única nos autores atuais que conheço. A densidade dos pensamentos, dos conteúdos desenvolvidos e das referências históricas e culturais tornam o texto como uma versão contemporânea de Proust, Musil temperado com o género de literatura de ficção académica anglo-saxónico típico de Robertson Davies e David Lodge, mas  mais rebuscado que estes.

A narrativa não tem pressa em concluir as ideias e os temas que vai lançando... vai divagando sem se perder no ponto inicial, embora o leitor por vezes se desencontre, mas após uma caminhada mais ou menos longa retoma com um remate final e completa o assunto começado muitas linhas ou páginas antes.

Não será um texto fácil para leitores apressados ou que não apreciem deixar-se passear na beleza do texto saboreando-o para depois chegar à conclusão, é um romance que avança a velocidade lenta, quase de caracol, mas para quem sabe apreciar é delicioso e compreendo porque se diz ser mais um candidato a Nobel, não sei, para mim já atingiu tal nível que não necessita de tal prémio para eu reconhecer a sua grande qualidade... não consigo parar e já adquiri e iniciei o segundo volume.

sábado, 22 de janeiro de 2022

"A Laranja Mecânica" de Anthony Burgess

 

Citação

"Será porventura um homem que escolhe o mal de certa forma melhor que um homem ao qual foi imposto o bem?"

Acabei de ler "A Laranja Mecânica" do inglês Anthony Burgess escrito na década de 1960 e adaptado ao cinema por Kubrik, não considero uma obra de ficção científica, mas é sem dúvida uma obra distópica, uma reflexão sobre a violência juvenil e dos limites do Estado para impor-se aos cidadãos para controlar essa mesma violência.

Alex narra a sua vida de adolescente e líder de um gangue cuja vida noturna era atacar cidadãos pacíficos, roubar e violar mulheres, para durante o dia ter uma vida mais calam ou de ressaca da noitada. Só que num desses atos é preso por homicídio. Pela sua idade o detido é convidado para cobaia de um método psiquiátrico sem o informar plenamente das suas consequências. Estas retiram-lhe o livre arbítrio pois torna-se incapaz de fazer o mal a outros por uma indução de indisposição no exercício de tal prática. Sendo ainda alvo de aproveitamento político depois destes danos.

A obra, um clássico da literatura distópica, tem a particularidade de estar escrita com recurso a uma gíria (denominada Nadsate) que Burgess criou, a qual procura evidenciar o linguajar hermético da adolescência e também  como em literatura este tipo de vocabulário não é utilizado, contudo a leitura torna-se no início difícil, havendo um dicionário no fim para dar apoio ao leitor. Todavia a dinâmica que o autor imprime ao texto, se houver habituação aos vocábulos, a leitura torna-se não só fluída como nos faz entrar na mente de um adolescente.

O filme que vi pela primeira vez há várias décadas é um dos filmes que mais me marcou até hoje e o livro ainda é mais impressionante, mas pode não ser uma obra fácil de ler devido a série de atos de violência física ou psicológica ao longo da narrativa, além do Nadsate... mas gostei muito do livro

segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

"O Mistério de Sittaford" de Agatha Christie

 

Acabei de ler mais um livro do género policial da genial escritora inglesa Agatha Christie: "O Mistério de Sittaford".

Numa pequena aldeia isolada, durante um nevasca, um grupo de vizinhos reúne-se em convívio e decide fazer uma sessão de espiritismo onde é anunciado o assassinato de Trevelyan que se encontra a 10 km de distância, imediatamente o seu maior amigo não deixa passar o assunto em branco e vai a pé confirmar o facto. Depois disso, o inspetor Narracott decide prender um sobrinho da vítima endividado que o foi visitar à hora do crime e fugido, mas a namorada deste está convicta da sua inocência e com um jornalista decide investigar até à descoberta da verdade.

Este é um dos romances de Agatha Christie onde a investigação não é protagonizada pelos seus personagens mais comuns: Poirot e Miss Marple, o que é bom, pois imprime um estilo diferente sem perder o suspense típico desta escritora que possui uma escrita escorreita mas nunca com a genialidade da sua criatividade da literatura policial.

Um romance de entretenimento simpático, fácil que gostei e recomendo a qualquer leitor, sobretudo aos amantes do género policial.

quinta-feira, 28 de outubro de 2021

"O Mistério do Comboio Azul" de Agatha Christie

Acabei de ler mais um policial de Agatha Christie "O Mistério do Comboio Azul". O multimilionário americano Van Aldin compra secretamente um rubi valioso em Paris, mas logo no momento é alvo de uma emboscada de que consegue escapar sem perda da pedra preciosa para oferecer à sua filha para a compensar da sua má relação com o marido interessado no dinheiro dela e com uma amante. Para resolver a situação o pai impõe o divórcio mas descobre que a sua herdeira também tem telhados de vidro por ter um amante de reputação duvidosa. Ao encontro do seu amante no sul de França viaja a filha no comboio azul onde se encontra com uma jovem dama de companhia que acaba de receber uma grande herança, esta curiosamente cruza-se com Poirot, mas ao chegar-se ao destino descobre-se que não só a filha foi assassinada como o rubi foi roubado, Quem de facto viajava no comboio e quem teve oportunidade de cometer o homicídio, quem lucrava? Terá sido o roubo e o assassinato cometido pela mesma pessoa? Poirot e Miss Grey irão cooperar naquilo que é para esta uma aventura real dos livros policiais que julgava apenas possíveis em ficção.

Como todas as obras de Agatha Christie, após pistas verdadeiras e erradas e suspeitos vários, no fim o génio Poirot não só consegue desmontar os factos, como a obra conduz a um mundo mais justo, onde os maus são castigados e os bons recompensados. Fácil de ler, gostei e recomendo a qualquer tipo de leitor.

sábado, 25 de setembro de 2021

"Os treze Enigmas" de Agatha Christie

 

Acabei de ler o livro "Os Treze Enigmas" da escritora inglesa Agatha Christie. Este corresponde a 12 narrativas curtas de crimes contados em serões de duas casas pelos presentes e onde o narrador, um dos presentes e em rotação entre eles, sabe a solução do mistério, todos os restantes tentarão identificar quem foi o criminoso, mas em todos eles é Miss Marple quem descobre a verdade, tendo em conta o conhecimento que tem da psicologia das gentes de Saint Mary Mead. O 13.º caso, também curto, decorre fora dos serões e corresponde a um homicídio em que alguém está prestes a ser condenado e ela vai falar com um dos intervenientes para que este colabore com a polícia local e informa-o à priori quem é o assassino e logicamente acerta, enquanto o leitor só no fim se apercebe que seguiu uma falsa pista.

Na sua linguagem simples e típica de convívio está-se perante um livro de contos cuja união será serem narrados pelos convivas que partilham os serões e por isso surgem nas várias histórias independentes. O leitor não se apercebe de todas as pistas importantes que Miss Marple sagaz apreende que são muito mais de intuição com base no comportamento humano do que em provas e indícios deixados pelo criminoso. Contudo é um livro de leitura muito agradável que junta 13 mistérios em vez de um único mais extenso e todos ao estilo de Agatha Christie.

Gostei e recomendo. 

quinta-feira, 1 de julho de 2021

"O Natal de Poirot" de Agatha Christie

 

Acabei de ler outro livro de investigação criminal da autoria da genial escritora policial Agatha Christie: "O Natal de Poirot".

O idoso Lee, um milionário sádico e de passado mulherengo e conflituoso, decide reunir pelo Natal toda a sua família para se deliciar com as rivalidades entre os seus filhos, humilhá-los e informar da intenção em alterar o testamento e assim observar o desespero e irritação criado neles.

Depois de todos juntos e a seguir ao jantar, quando Lee está só nas suas instalações, eis que é assassinado no seu escritório fechado por dentro com sinais de luta violenta ouvida por todos. Quem o terá matado e como saiu o criminoso daquele quarto? Poirot está hospedado em férias na casa do chefe da polícia local e é convidado a acompanhar as investigações, onde verifica que quase todos têm um motivo, descobre-se então um roubo em paralelo e um conjunto estranho de ocorrências que o nosso protagonista conseguirá justificar no fim.

Com várias referências a obras clássicas da literatura e música, está-se perante um crime em espaço fechado e isolado onde parece que todos têm um alibi e sem acesso ao local do assassinato, mas onde a imaginação para explicação do caso e as pistas que vão sendo lançadas tornam este romance um exemplo de grande criatividade e de solução surpreendente. Um magnífico enredo cheio de imaginação. Gostei muito e recomendo a quem é fã do género policial e como obra de entretenimento e suspense.

quinta-feira, 10 de junho de 2021

"Némesis" de Agatha Christie

 

Acabei de ler o policial "Némesis" de Agatha Christie, o último romance com a personagem Miss Maple escrito por esta autora inglesa e, apesar da vitalidade forçada desta velhota que resolve mistérios de crimes pela perspicácia e análise psicológica dos suspeitos, são evidentes na obra os indícios de fim de vida desta protagonista que a escritora estava a caracterizá-la.
Miss Maple, após ler a notícia da morte natural de um conhecido milionário com quem resolvera um mistério num passado recente, recebeu deste uma proposta para tentar descobrir uma situação, verificar se a justiça fora correta e, possivelmente, corrigi-la, só que nada é dito se houve um crime, quem foi a vítima ou o alvo da injustiça, mesmo assim aceita o desafio e aos poucos descobre que os passos a seguir foram programados pelo falecido e incluem uma excursão turística, mas onde e quando terá havido um crime julgado que tem de desvendar se quem lhe legou o mistério também já não lhe pode responder?
Aos pouco e durante a viagem Miss Maple vai descobrindo pistas situações e excursionistas que mais não são que resultado de um programa legado, entretanto  um acidente suspeito ocorre, percebe os riscos mas ela irá percebendo cada vez mais o mistério que lhe foi posto no caminho,.

Como em todos todos os romances de Agatha Christie, a leitura é fácil e a resolução do mistério está na compreensão do comportamento psicológico das personagens apesar da confusão de sinais lançados ao longo do desenrolar do romance, gostei da obra e recomendo a quem gosta desta escritora genial no estilo de crime e mistério.