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domingo, 6 de setembro de 2026

"Eu que servi o rei de Inglaterra" de Bohumil Hrabal

 

Acabei de ler "Eu que servi do rei de Inglaterra" do escritor checo Bohumil Hrabal.  As memórias de um empregado de mesa num restaurante de hotel.
Pikkolo relata em monólogo a sua vida desde infância na pobreza em casa da avó no meio rural, onde se apanhava roupa abandonada do hotel na vizinhança para remendar e comercializar, passando ele a vender salsichas numa estação de comboio, onde usava de artimanhas para ficar com o troco e mudando-se depois para empregado de mesa em Praga, variando de hotel e onde serviu a burguesia e a aristocracia até atender um imperador, chegar a chefe dos criados, ter um casamento de regime até ascender a hoteleiro de luxo. Depois a descida, com a mudança de regime político, a prisão dos capitalistas e por fim acabar sozinho, feliz e a escrever as suas memórias.
À semelhança do anterior romance que li e refiro aqui, o narrador é o protagonista da sua biografia, contada na primeira pessoa e onde há sempre um misto de observação crítica da vida social que o envolve, feita num tom atravessado por um humor ácido e saudosista do passado. Num primeiro momento, há um Pikkolo que se orgulha de sair da pobreza rural e da sua esperteza em obter dinheiro. Como criado observa e analisa os vícios dos clientes mais ricos: mordomias, comida, álcool prostitutas e exibicionismo. Sonha ser igual, estreia-se num bordel e inicia-se no sexo sem deixar de ser um romântico. Na invasão nazi descobre uma alemã, mas descobre que está refém de uma relação com função procriadora da raça ariana da qual também descende. É a época de rejeição do seu povo até à libertação, momento em que toda a sua vida é uma tentativa de ser aceite pela classe que invejou, consegue ter dinheiro e chegar ao topo sem nunca ser aceite pelos pares, até à resignação e situação final feliz.
Há momentos kafkianos, com absurdos hilariantes, como a vida dos presos por serem ricos, que ele forçou a sua acusação e pagar a sua pena. Outros são mesmo ternos, românticos e nostálgicos, numa escrita de parágrafo longos, onde o tom poético atravessa toda a narrativa. Gostei e recomendo a quem aprecia excelentes textos literários cheio de criticismo subtil.