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quinta-feira, 4 de setembro de 2025

"MaddAddam" de Margaret Atwood

 

Reli, desta vez em português: "MaddAddam", da escritora canadiana Margaret Atwood, o terceiro volume da trilogia distópica sobre um fim possível e próximo da humanidade provocado de modo intencional e iniciado pelo volume "Órix e Crex".
A primeira leitura, em inglês, deu origem a esta publicação, apesar do título deste volume manter o nome original, no interior, MaddAddam está adequadamente traduzido por MarAdão, e corresponde a um grupo dos escassos sobreviventes da catástrofe que juntam genialidade científica e religiosidade ecologista, pelo que serão os novos Adões da humanidade, mas muitos com um comportamento marado na sociedade capitalista destruída pela catástrofe infligida por Crex. Talvez a tradução passada a título não fosse comercializável, embora, como trilogia, deveria assegurar o público que lera os volumes anteriores. Para manter alguma tensão romanesca, descobrimos que também sobreviveram alguns fora-da-lei para entrar em confronto com os bem intencionados MarAdões. 
Em MaddAddam assistimos ao evoluir social dos sobreviventes humanos do grupo MarAdão, sobretudo pelo testemunho de Toby, personagem que já era importante no segundo volume, bem como, ao contacto daqueles com os seres perfeitos criados por Crex para substituir os Homens. Estes estão destituídos de maldade, são vegetarianos e sem sentimentos de propriedade e de hierarquia, inclusive, conceitos de família, de modo a evitar instintos bélicos, tensões sociais e sexuais como ciúme e ainda ganância.
À semelhança dos anteriores volumes, as memórias do passado narradas pelas por Toby e Zeb já antes importante, vão completando o retrato do viver violento, hedonista, de tecnologia sem ética desenvolvido por um capitalismo ganancioso e desigual, bem como ambientalmente insustentável que levou à opção de Crex exterminar a humanidade e criar o seu homem novo.
Alguns dos animais geneticamente modificados ou com cruzamento de genes e partes do homem, entretanto desenvolveram capacidades humanas, pelo que a nova sociedade tenta encontrar vários equilíbrios ecológicos e sociais entre espécies distintas.
A incumbência de Jimmy para instruir os Crexianos, por impedimento deste, passa agora a ser assumida por Toby, mas se Crex queria um mundo natural sem crenças que perturbassem a racionalidade e a relação com a natureza no homem por ele criada, tal como já se perspetivava desde o primeiro volume, a mente humana anseia por narrativas e uma nova mitologia crexiana surge dando as bases para uma futura religião com entes superiores criacionistas cujas vontades moldam a realidade à semelhança das religiões do passado.
Por sua vez o desejo sexual e o amor levam ao surgimentos de ser híbridos em coabitação com os humanos sobreviventes e os crexianos que no futuro darão origem a uma civilização radicada em saberes do passado que permitiria uma tetralogia que até hoje Atwood não escreveu, mas fica a ideia que se a humanidade natural tem muitos defeitos, a solução de um novo homem perfeito não gera a perfeição.
Gostei muito desta distopia e Atwood é de facto uma escritora com uma criatividade difícil de igualar e está atenta aos riscos do mundo atual que denuncia como alerta e como nas notas finais ela explica, tudo o que romanceou é hoje possível com os conhecimentos e tecnologias disponíveis... 
Já noutra distopia: "História de uma Serva", com perto de 40 anos, que li há muito, ela mostrava a possibilidade de os EUA evoluírem para um regime autoritário, com fanatismos e extremismos, quem diria. 

segunda-feira, 25 de agosto de 2025

"O Ano do Dilúvio" de Margaret Atwood

 

Acabei a releitura do segundo volume da trilogia distópica sobre um possível fim da humanidade escrita pela canadiana Margaret Atwood, mas agora na sua tradução para Portugal: "O Ano do Dilúvio". 
No primeiro volume "Órix e Crex" viu-se o fim da civilização humana através dos olhos de Jimmy, o Homem das Neves, que até perto do fim do romance parece ser o único sobrevivente da pandemia gerada por Crex, feita como revolta contra esta civilização capitalista, injusta e desigual, levando à substituição de homem natural atual por um novo Humano, perfeito e criado por manipulação genética.
Se em "Órix e Crex o mundo é visto pelos olhos de quem vivia nos espaços privilegiados das grandes corporações da economia global, com as sua regalias e luxo, em O Ano do Dilúvio conhecemos o que era a vida dos cidadãos comuns nas zonas exteriores e miseráveis através das memórias de duas sobreviventes da pandemia criada por Crex: Toby e Ren.
Assim, temos um mundo cheio de violência, de consumismo incentivado pelas corporações, niilismo e graves problemas ambientais com extinção de numerosas espécies animais, subida dos mares e tempestades num clima tórrido. Situação que leva ao surgir de uma nova religião ambientalista, os Jardineiros de Deus, a que pertenceram as protagonistas. Vemos a vida destes auto-excluídos vegetarianos, a sua mensagem teológica radicada no Génesis bíblico, enquanto esperam um fim do mundo próximo num dilúvio seco. Conhecemos  as suas festividades com santos que são grandes nomes da ecologia e das ciências naturais, sermões do líder Adão Um e como louvavam a biodiversidade e se preparavam para o pós-dilúvio como novos Adãos e Evas. Assistimos ao cruzar das personagens importantes dos dois volumes e ao encontro final entre os dois tipos de seres humanos: Jardineiros, dois representantes do mal passado e os crexianos, a nova humanidade, deixando assim pistas para o terceiro volume que irei ler em Português.

A principal novidade desta releitura em português foi ficar claro algumas ligações entre os dois volumes que antes me escaparam, por ter levado uma década de intervalo entre as primeiras leituras dos mesmos, é sem dúvida um romance ecologista, cuja mensagem procura despertar para um modo de vida sustentável e em equilíbrio com a biodiversidade, por vezes mostrado através de algum radicalismo, mas também com a análise crítica do mesmo, sem excluir o criacionismo do Génesis revisto à luz do evolucionismo. A versão inglesa está enriquecida com hinos das festividades que se podem seguir musicalmente na net, enquanto a lusa, apenas temos os seus versos, contudo, o tradutor procurou respeitar não só o espírito dos textos originais como acompanhar a criatividade linguística de neologismos necessários para a compreensão do mundo ficcionado pela autora canadiana. 

quinta-feira, 14 de agosto de 2025

"Órix e Crex (O último homem)" de Margaret Atwood

Passado cerca de 20 anos, reli, agora em português, o romance "Órix e Crex" que encontrei na biblioteca pública da Horta. Um livro da canadiana Margaret Atwood, que na tradução lusa tem o subtítulo "O Último Homem", no original só "Oryx and Crake". Este é o primeiro livro de uma trilogia que já li integralmente em inglês, contudo, apenas falei neste blogue do último volume, já que as leituras dos anteriores decorreram antes da existência de Geocrusoe ou deste se ter tornado um espaço para falar de livros.

O romance decorre num futuro próximo, distópico, com o descontrolo da investigação tecnológica, sobretudo, da genética; num ambiente de catástrofe das alterações climáticas, no niilismo das pessoas e da dominância dos interesses económicos e capitalistas dos empórios industriais e comerciais. O que gerou uma sociedade de desigualdades na vidas do génios, acolhidos pelas empresas, face à dos cidadãos comuns, uma realidade geradora de uma violência intensa, novas religiões ecologistas e separação entre os espaços paradisíacos para os protegidos e os infernais para os restantes, as plebelândias. Um sistema mantido à custa de uma polícia de segurança altamente poderosa com uns serviços de informação que espiam tudo e prontos a agir para a preservação da situação sem qualquer respeito pelos direitos dos cidadãos.

No livro vemos o mundo pelos olhos de Jimmy, de inteligência mediana, criado no mundo dos privilegiados, que estabeleceu amizade com o seu colega de escola Glenn, um génio nas ciências de ponta. Este adota o nome de Crex como guru na maratona entre os animais extintos e as novas criações genéticas, ambos viram as suas famílias dilaceradas por questões de segurança e no passatempo de pornografia da internet descobrem outra criança por quem se apaixonam, em adultos, esta será chamada a viver no seu mundo como Órix, só que a desilusão de Crex com a humanidade leva-o a criar um ser perfeito e a destruir a espécie humana, deixando Jimmy a tarefa de cuidar da sua criação no pós-humanidade, quando este adota o nome de Homem das Neves.

A narrativa passa-se no período pós-humanidade, onde vemos a vida quotidiana do Homem das Neves, o sobrevivente da calamidade premeditada por Crex que protegeu apenas Jimmy, vamos então percebendo o seu papel de cuidador dos crexianos criados por Crex e a descrição destes seres perfeitos na ideia daquele, este presente é intercalado com as memórias da sua vida anterior dentro dos grandes espaços dos privilegiados, descrição dos produtos destas empresas: géneros alimentares altamente processados e geneticamente modificados, drogas para sensações de bem-estar além do natural e animais e plantas híbridos  para os fins mais diversos. Neste mundo, os dois amigos têm como passatempo a internet, com jogos e onde se percebe a vida miserável e violenta nas plebelândias.

É um romance ao mesmo nível dos de ficção distópica do futuro da humanidade na Terra como "1984" e o "Admirável Mundo Novo", Órix e Crex mostra o caminho arriscado atual da humanidade com a combinação da evolução tecnológica, o capitalismo desigual e o niilismo da sociedade, além do perigo de alguém genial se revoltar contra este mesmo mundo e intencionalmente o destruir e ainda como pode ser uma aberração querer criar algo perfeito com base em critérios humanos.

Esta obra foi uma das mais marcantes que li na minha vida e nesta releitura voltou a despertar-me os mesmos sentimentos da primeira vez. Tinha a curiosidade de perceber como seriam traduzidos os neologismos de Atwood para nomear todas as criações e tecnologias colocadas em obra e confesso que os tradutores foram brilhantes e conseguiram passar para a língua lusa a genialidade da escritora.

Antes li os três volumes da trilogia com intervalos de largos anos, pois não foram publicados em anos consecutivos e tinha de os encomendar no estrangeiro, perdi então alguns pormenores de ligação e continuidade na série, dado que esta obra não perdeu a frescura da primeira leitura, nem se desatualizou nos alertas que deixa, optei agora pela releitura dos três romances de forma consecutiva e em português, tendo já iniciado o segundo que sei mostrar a vida numa plebelândia.

sábado, 15 de fevereiro de 2025

"O ASSASSINO CEGO" de Margaret Atwood

 

Reli o romance "O Assassino Cego", vencedor do Booker Prize de 2000, da minha escritora canadiana favorita: Margaret Atwood, embora a primeira leitura, há já quase duas décadas, tenha sido no original em inglês, livro que possuo ainda e permitiu-me algumas comparações entre as duas versões, concluído que este é uma boa tradução para  português.

O romance inicia-se com a recordação da octogenária Iris Chase do acidente de carro de sua irmã Laura poucos dias após o termo da II Grande Guerra Mundial, estando Iris consciente que se tratou então de um suicídio. A partir desta memória com uma fotografia na mão, ela reconstitui a história da sua família e da sua vida: a vida na sua cidade natal no sudoeste de Ontário, os seus antepassados, a relação com o seu pai veterano da primeira guerra e industrial decadente, as razões do seu casamento e os litígios com a família do marido cheio de ambições políticas, a retirada da sua filha, o com foco no facto de, na sequência da morte de Laura, Iris ter publicado um livro que aquela teria deixado manuscrito, onde narra uma relação secreta de amantes com encontros em locais escondidos e que se supõe ser ela com um amigo comum de ambas as irmãs. Na intimidade os dois montavam uma história de ficção científica numa sociedade distópica, passada no planeta Zycron, onde um cego vem a ser incumbido de matar o rei de uma cidade-estado, enquanto em paralelo se preparava uma invasão externa por um povo bárbaro. Em paralelo esta narrativa será uma descoberta do amor pelo assassino e o romance tornou-se num grande sucesso, sinal de emancipação feminina e Laura um símbolo para futuras gerações de mulheres, enquanto Laura se se deixou de fora deste fenómeno literário e libertário.

Um romance que é uma matrioska russa de histórias, onde - sobre um cenário que é a história socioeconómica do Canadá, o modo de viver de uma pequena cidade do Ontário e o evoluir das mentalidades ao longo do século XX neste país - se projeta a vida de uma mulher da classe média alta provinciana com os seus temores e sujeita aos preconceitos do mundo que a rodeava, que por sua vez são transpostos para a vida da sua irmã e em seguida refletidos num romance que seria o alter ego desta, onde o amor é gozado plenamente e os anseios da juventude e os seus medos são remetidos para um planeta distante que permite por a nu os tabus terrenos que aprisionam as paixões e os vícios que molda a sociedade. Todos estes níveis contados de forma intercalada levam a que até desenrolar da última camada desta boneca russa surjam sempre surpresas e reconstruções do passado.

É uma obra com uma escrita sem pressa, tal como pode ser a monotonia da vida de uma octogenária, que não se inibe de ser crítica de todos os preconceitos e amarras da hipocrisia da moralidade social que foram caindo ao longo do século XX, para assim evidenciar que no final daquele século muito sofrimento íntimo das mulheres do passado poderiam ter sido evitados e como a sociedade facilmente cai num engano e cria mitos e heróis apenas pela aparência das narrativas.

Quando li pela primeira vez O Assassino Cego considerei uma obra que mostrava a versatilidade narrativa de Margaret Atwood, hoje, ao relê-la, já depois de ler muitas outras obras da autora, considero a sua obra literariamente mais rica e variegada. Exige alguma maturidade ao leitor para assimilar a riqueza deste romance, este não se prende a estereótipos, nem a subterfúgios fáceis para o agarrar. É uma narrativa para se ir degustando lentamente as suas mais de 600 páginas até se saborear de facto a grandiosidade deste romance que justifica ter um prémio do gabarito do que recebeu, uma obra que não precisa de receber um Nobel da literatura para estar a esse nível.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2024

"Canção do Profeta" de Paul Lynch

 

Excerto
"o profeta canta não sobre o fim do mundo mas sobre o que foi feito e o que será feito a uns mas não a outros, que o mundo está constantemente a acabar num sítio mas não noutro e que o fim do mundo é sempre um acontecimento local, chega ao nosso país e visita a nossa cidade e bate à porta de nossa casa..."

Acabo de ler "Canção do Profeta" do irlandês Paul Lynch, o romance vencedor do Booker Prize de 2023. Na trama, o partido nacionalista chegou ao poder na Irlanda, pouco depois, dois agentes batem à porta de Eilish a perguntar pelo marido, um dirigente do sindicato dos professores, então o medo entra em casa, ela tem de o proteger, bem como aos seus quatro filhos, que vão desde um jovem ainda menor até um bebé e, ainda, ao seu pai idoso e com sinais de senilidade mental a viver sozinho, mas a situação só piora: o sindicalista é levado pouco mais tarde, depois, querem recrutar-lhe o filho mais velho para o exército, o pai dela não percebe o que se passa no mundo e toma ações arriscadas, o país entra em guerra civil e todos os direitos humanos são pisados. Eis uma epopeia de luta desta mãe coragem que de derrota em derrota não desiste até fim do livro.
O texto é sempre descrito pelos olhos e pensamento de Eilish: as suas memórias dos tempos de normalidade, os seus medos do presente, os acontecimento aterradores que acontecem, a necessidade de proteger cada um dos seus familiares, a constatação que o poder nada respeita e a violência psíquica e física que evolui desde a retaliação política até ao aproveitamento do ser humano sobre o outro fragilizado.
Numa escrita muito própria e intimista, existem momentos onde se deduz atos de violência e tortura extrema e, sobretudo, chocante ou revoltante, eis um alerta sobre os riscos que o mundo democrático atual está a correr com os extremismos em crescimento no seu seio... até ao dia em que a canção do profeta nos bata à porta.
Gostei do romance, tem uma grande qualidade de escrita, mas confesso que sofri ao ler, doeu, mais ainda olhando para o desenrolar dos acontecimentos em curso no mundo democrático atual e perceber o que nos pode acontecer. Muito bom.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

"O Silêncio" de Don DeLillo

 



Acabei de ler "O Silêncio" do norteameriano Don DeLillo, apesar de no original ter como subtítulo "Um romance", está-se mais perante um conto ou novela que nem chega a 90 páginas.

Cinco pessoas combinam jantar no intervalo do grande jogo do super bowl em casa de um casal: uma professora de física, seu marido inspetor de seguros, um ex-aluno e professor de física, e um casal amigo, muito viajados que a chegar de avião de uma visita a Paris. Tudo na expectativa da partida, enquanto os professores esperam falam de Einstein, do mundo físico imaginado pelo cientista, ele pensa no apenas em jogadas enquanto o outro casal no avião ele fixa o monitor e vai lendo as informações e ela anota pensamentos e momentos para seus livros ou mais tarde recordar. Até que se dá um apagão global de todos os sistemas informáticos e todos os ecrãs se apagam, TV, telemóvel, computadores, comunicações dos avião. Uma catástrofe que as pessoas não estavam preparadas, um silêncio que obriga as pessoas a falar se ainda forem capazes.

Tenho gostado de todos os livros de Din DeLillo que tenho lido, todos resultam em obras que possuem momentos e diálogos desconcertantes que tocam os receios da humanidade ocidental atual e os riscos da civilização contemporânea, como que esta esteja à beira de cair num precipício para uma catástrofe final. Este não é exceção, não é uma distopia típica, eis um escritor menos absurdo que Kafka de há um século atrás, sem dúvida mais realista, toca nas sombras provocadas pelo desenvolvimento socioeconómico das últimas décadas, mas com ele sinto sempre aquela sensação estranha de que estamos a viver num mundo absurdo, um sonho que não é um pesadelo, mas sem luz ao fim do túnel.

Gostei muito e recomendo a quem ainda não conhece este escritor ou a todos que gosta dele, um pequenino mas típico Don DeLillo.

sábado, 22 de janeiro de 2022

"A Laranja Mecânica" de Anthony Burgess

 

Citação

"Será porventura um homem que escolhe o mal de certa forma melhor que um homem ao qual foi imposto o bem?"

Acabei de ler "A Laranja Mecânica" do inglês Anthony Burgess escrito na década de 1960 e adaptado ao cinema por Kubrik, não considero uma obra de ficção científica, mas é sem dúvida uma obra distópica, uma reflexão sobre a violência juvenil e dos limites do Estado para impor-se aos cidadãos para controlar essa mesma violência.

Alex narra a sua vida de adolescente e líder de um gangue cuja vida noturna era atacar cidadãos pacíficos, roubar e violar mulheres, para durante o dia ter uma vida mais calam ou de ressaca da noitada. Só que num desses atos é preso por homicídio. Pela sua idade o detido é convidado para cobaia de um método psiquiátrico sem o informar plenamente das suas consequências. Estas retiram-lhe o livre arbítrio pois torna-se incapaz de fazer o mal a outros por uma indução de indisposição no exercício de tal prática. Sendo ainda alvo de aproveitamento político depois destes danos.

A obra, um clássico da literatura distópica, tem a particularidade de estar escrita com recurso a uma gíria (denominada Nadsate) que Burgess criou, a qual procura evidenciar o linguajar hermético da adolescência e também  como em literatura este tipo de vocabulário não é utilizado, contudo a leitura torna-se no início difícil, havendo um dicionário no fim para dar apoio ao leitor. Todavia a dinâmica que o autor imprime ao texto, se houver habituação aos vocábulos, a leitura torna-se não só fluída como nos faz entrar na mente de um adolescente.

O filme que vi pela primeira vez há várias décadas é um dos filmes que mais me marcou até hoje e o livro ainda é mais impressionante, mas pode não ser uma obra fácil de ler devido a série de atos de violência física ou psicológica ao longo da narrativa, além do Nadsate... mas gostei muito do livro

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2021

"MaddAddam" de Margaret Atwood

Ao fim de vários anos regressei à trilogia "Oryx and Crake" da escritora canadiana Margaret Atwood com o terceiro romance "MaddAddam". Para uns leitores este conjunto será classificado de ficção científica ou uma distopia, mas para mim é mais um alerta, em forma de ensaio ficcional, criativo e especulativo sobre os riscos que podem  resultar do modelo de desenvolvimento científico, tecnológico e socioeconómico da sociedade atual hedonista, sem ética e moral, ou seja, uma civilização global desequilibrada, uma natureza descaracterizada e um ambiente doente que já se começa a insinuar e poderá permitir a revolta e vingança de alguém com pretensão de justiceiro que leve á autodestruir da humanidade acompanhado do desejo de substituir o Homem por um outro ser humano idealmente perfeito.

MaddAddam, que li em inglês  e penso não estar traduzido em Portugal e cujo o título traduziria por LoucoAdão, vai buscar muita da sua inspiração ao criacionismo do Génesis da Bíblia e ao anseio do homem participar da criação para criar um mundo sem os defeitos do atual, logicamente, tal como em Frankeinstein, este desejo de fazer o papel de deus tende a gerar outra realidade monstruosa.

No primeiro volume, "Oryx and Crake", assistimos à vida da elite ligada às multinacionais, com os seus estrategas e criativos genéticos e de produtos consumíveis geradores de prazer que escravizam a maioria da população e a tornam refém desta globalização amoral e do nascer da revolta e vingança de Oryx que cria um novo homem e arquiteta e implementou a destruição da humanidade.

No segundo, "The Year of the Flood" vemos a vida no exterior dos  complexos de luxo das elites, os bairros degradados, violentos com clubes de prazer numa sociedade consumista onde, em paralelo, surgem movimentos ambientalistas e humanistas que se tornam num nova religião até que que a pandemia provocada intencional leva ao dilúvio seco e ao fim do homem.

Neste terceiro volume estamos perante os sobreviventes do dilúvio seco que, à semelhança do velho Noé, viram os sinais dos tempos e se prepararam para sobreviver, bem como o encontro destes com o "homem novo" - geneticamente modificado para ser pacifista, vegetariano, sem ambição e maldade, mentalizados para viver numa sociedade igualitária, comunal e sem complexos de sexualidade - mas desta ligação nascerá uma nova mitologia com os seus deuses e guias superiores, talvez os primórdios de uma futura religião ambientalista, mas teísta. A obra abre a porta ao cruzamento genético dos dois tipos de seres humanos, mas tal não é explorado, talvez uma oportunidade para uma tetralogia.

A narrativa está cheia de criaturas aberrantes dos tempos próximos filhas da engenharia genética. A escrita está inundada de neologismos, palavras compostas fruto dessa criatividade e invenção da sociedade consumista e hedonista. por vezes o texto é quase infantil para evidenciar a ingenuidade do homem novo sem maldade, outras bem adulto, com insinuações eróticas nas interpolações ao passado e para explicar a vida dos sobreviventes, alguns nada perfeitos outros idealistas, mas que conhecemos em volumes anteriores, cujas vidas ao serem narradas aos espécimes criados por Oryx gerarão uma nova mitologia e crença.

Regressei a esta sequela tendo em conta que o mundo da atual pandemia me tem levado a desanimar com o comportamento humano de uma forma demasiado abrangente. Assim, com esta desilusão e ao saber deste substituto perfeito que me chocara no primeiro romance, esperava agora voltar a ter saudades do homem atual com as suas virtudes e defeitos. Confesso que o objetivo não foi alcançado completamente, mas também não desejo que a humanidade seja substituída por homúnculos belos e ingénuos à imagem de outra mente humana desiludida com a humanidade.

Para quem gosta de ficção que especula a evolução do mundo atual para o abismo, é uma excelente história. Gostei e cativou-me, apesar de não considerar o estilo de escrita nestes dois últimos volumes da trilogia como tendo um grande valor literário, mas vale muito pela imaginação, momentos de tensão, suspense, criatividade e alerta para o mundo de hoje.


terça-feira, 14 de abril de 2020

"The Testaments" - "Os testamentos" de Margaret Atwood


Acabei de ler, na língua original, o romance "The Testaments", da escritora canadiana Margaret Atwood, obra premiada com o Booker Prize de 2019 e, presentemente, já se encontra disponível em português com o nome "Os Testamentos". 
O romance corresponde a uma sequela de outro do género distopia e escrito em 1985: "História de uma Serva", lido há muitos anos, contudo não há nenhuma impedimento de se ler a obra mais recente a quem não leu o anterior, pois as tramas são distantes no tempo, embora o ambiente político seja o mesmo e haja uma personagem importante agora que foi secundária no anterior e uma referência final para a anterior protagonista.
A obra cruza três narrativas que se intercalam no género de memórias, na primeira pessoa, das 3 protagonistas:
- Agnes desde criança até à juventude, viveu na ditadura religiosa, de moral fundamentalista e machista, de Gilead, esta resultou de uma revolução que fragmentou os Estados Unidos (ocorrida no romance anterior) aonde às mulheres compete procriar (parideiras profissionais) ou ser esposas ou ter tarefas domésticas e a quem está interdita a alfabetização;
- Daisy, de criança a adolescente que cresceu em liberdade em Toronto, Canada, num meio que luta pelo fim do regime em Gilead e;
- Lydia, já de idade avançada que descreve como se tornou numa das mulheres e fundadoras do regime de Gilead e um pilar do sistema ao assumir uma estrutura de mentalização da subserviência feminina e de atribuição dos papeis destas, apesar do seu passado americano de defensora dos direitos da mulher, os membros da sua instituição são as únicas que tem acesso a formação literária e possibilidade de lerem obras que lhes vão sendo autorizadas em função do seu grau de subserviência e fidelidade ao regime.
A partir dos relatos de cada uma percebemos a forma como Gilead subordina as mulheres, cujos mecanismos instalação foram descritos no livro anterior, quais os diferentes tipos papeis atribuídos a estas na estrutura social machista, a ignorância que existe na comunidade devido ao controlo da informação e da propaganda ao serviço do regime, que é minado pela corrupção e imoralidade da elite que governa e impõe uma justiça moralista, repressiva e sangrenta.
Em contraste no Canada livre, a governação não se intromete na política do Estado vizinho para evitar uma guerra, mas deixa espaço para uma organização contestatária e de resistência a Gilead que suporta ainda a fuga de mulheres escravizadas em torno da qual vive Daisy, mas onde em paralelo a estrutura de Lydia opera com missionários para atrair mulheres que faltam em Gilead.
Com o evoluir da trama, cujo ritmo se vai acelerando, as três personagens cruzar-se-ão e a estória tornar-se-á num thriller onde a todas as protagonistas terão um papel de luta contra o obscurantismo, uma homenagem à força do papel feminino dentro da humanidade.
Gostei mesmo muito do livro, a escrita de Atwood é fácil e adapta-se desde o estilo infantil das personagens na infância, ao astuto dos adultos e ao ardiloso dos que promovem a revolução sem nunca perder consistência de todas as partes, no fim um simpósio de reflexão científica sobre Gilead no século XXI.

sexta-feira, 6 de março de 2020

"Arranha-céus" de J. G. Ballard

Excerto
"o arranha-céus era um exemplo de tudo o que a tecnologia tinha feito para tornar possível a manifestação de uma psicopatologia verdadeiramente «livre»."

Terminei de ler o meu segundo livro do inglês J. G. Ballard: "Arranha-céus". Este escritor, nas suas obras, criou e explorou ambientes de tensão psicológica extrema fruto dos desequilíbrios do modelo de desenvolvimento socioeconómico atual que podem despertar o pior que há no íntimo das pessoas, criando mundos de da realidade demencial. Todavia estas criações distinguem-se das distopias futuristas que procuram denunciar o caminho errado da sociedade contemporânea as situações deste autor ocorrerem no presente, dentro de determinados locais ou nichos, como também acontece neste romance, e servem para polarizar ao máximo essas disfunções, enquanto o mundo envolvente aparentemente continua na sua normalidade absurda.
No presente livro, escrito nos anos de 1970, um arranha-céus de 40 andares e dois mil residentes no leste de Londres é o expoente máximo que integra tecnologia, arquitetura de vanguarda, conforto e prazer pelos serviços de lazer e comerciais: piscinas, supermercados, bancos, escolas, cabeleireiros, parques infantis, restaurantes, etc. tudo está estrategicamente disponível dentro do edifício, mas neste subsiste a estratificação social: uma classe mais baixa na parte inferior, uma classe média na sua zona central e uma elite pequena e dominadora no topo, tal como o luxo e a qualidade dos serviços se arrumam de acordo com esta hierarquia social. No que parecia um mundo em equilíbrio inicial e com relações interclasses entre as mais variadas profissões liberais, eis que alguns abusos e preconceitos vindos de cima geram revoltas nos andares inferiores. Estes incidentes irão num crescendo até a um nível de loucura e violência extrema, mas mantém cativos alguns viciados nesta guerra de classes amoral, sem limites e geradora da implosão desta comunidade... enquanto no exterior o dia-a-dia decorre sem nada que se considere fora da norma.
A escrita escorreita, por vezes com metáforas duras, está ao serviço de um mundo onde se perde a dignidade e humanidade, algumas cenas são de grande violência, tanto psicológica, como física e inclusive contra animais domésticos, criando um retrato negro do que a espiral da loucura pode levar. Gostei, lê-se facilmente, mas pode impressionar leitores sensíveis.
Como vários livros de Ballard, este também passou a filme, entre as várias adaptações cinematográficas da sua obra está uma vencedora de melhor filme do ano em Hollywood (Crash), o trailer abaixo é respeitante a arranha-céus.

sexta-feira, 8 de março de 2019

"A Guerra das Salamandras" de Karel Capek


Excertos
"Não podemos fruir calmamente dos dons da nossa civilização nem dos frutos da nossa cultura enquanto existirem à nossa volta milhões e milhões de seres infelizes e inferiores, mantidos artificialmente num estado animal."

"Terá de ser sempre a natureza a aparar os golpes dos homens? Estás a ver? Nem tu próprio acreditas que eles vão ajudar-se a si próprios! Estás a ver? No fundo gostarias de te fiar que a humanidade vai ser salva por alguém ou alguma coisa!"

Acabei de ler "A Guerra das Salamandras" do checo Karel Capek, uma alegoria e uma sátira divertida e também uma denúncia distópica sobre a via suicida da civilização gananciosa que leva a humanidade à escravidão e à autodestruição. Publicado em plena ascensão do nazismo, este regime é criticado subtil, inteligente e metaforicamente, tal como a estratégia desastrosa e interesseira dos restantes Países Europeus para enfrentar aquela perigosa ideologia. Contudo este romance não perdeu qualquer atualidade e pode-se ver nele as denúncias dos erros do neoliberalismo, os perigos da hipocrisia em democracia e ainda a ameaça de catástrofe ecológica provocada pelo Homem e sua tecnologia no presente. O livro poderia ter sido escrito tal e qual hoje como denúncia dos vícios da globalização no presente.
Toda a estória é alegórica: O comandante Van Toch, um checo da marinha mercante ao serviço da Holanda numa ilha da Indonésia, descobre uma espécie de salamandra desconhecida, consegue relacionar-se com elas e verifica que as mesmas são ótimas caçadoras de pérolas em troca de utensílios, pois têm vocação de construção de estruturas subaquáticas e espírito comercial e social. Van Toch desenvolve então um projeto com o apoio de um capitalista judeu colega de escola para criar um império comercial usando como mão de obra estes animais povoando numerosos recantos do Índico com estes animais. Aos poucos o segredo torna-se público e alvo do interesse de todas os Países que querem adquirir salamandras como mão de obra escrava barata para o meio marinho, dada as suas capacidade laborais e de engenharia, só que estas desenvolvem a capacidade de falar e de aprender a cultura dos homens. A mudança e crescimento da economia global torna-se então gigante e dependente desta espécie que debaixo de água desenvolve secretamente a sua própria nação até se revoltar contra a exploração dos humanos e declarar-lhes guerra para os dominar.
Não é possível classificar o estilo literário de Capek nesta obra, onde há um desfile de escrita criativa: temos textos com estilo escorreito e quase vitoriano; partes que correspondem a excertos de peças jornalísticas, incluindo parangonas de arte gráfica numa linguagem bem distinta; atas de empresas com as suas especificidades; artigos científicos, sobretudo biologia e geologia; capítulos que são puro ensaio filosófico sobre o rumo da humanidade e baseados no comportamento das duas espécies cujo confronto se adivinha; análises sociológicas e sátiras ao modo de ser dos vários povos que não apenas europeus(o português nem é esquecido); etc. construindo assim uma panóplia de géneros e formas com uma imaginação fértil enorme.
Apesar da denúncia do destino sombrio do rumo da humanidade e momentos catastróficos, o bom humor e a ironia atravessam toda a obra, inclusive a intervenção do autor perante conveniência de alcançar um fim digno para o Homem no livro ou não fosse este o verdadeiro protagonista da estória e alvo do alerta e aviso de Karel Capek.
Uma obra genial ao nível de "O admirável mundo novo", "1984" e outras distopias marcantes da história da literatura, mas com a particularidade de não ser deprimente mas sim divertida. Uma obra-prima.
Como curiosidade, outra obra deste autor criou a palavra hoje usada internacionalmente de "robot" e diz-se que não recebeu o prémio Nobel da literatura para não irritar Adolfo Hitler.

quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

"2084 O Fim do Mundo" de Boulalem Sansal


Excertos
"correr em direção à queda é uma inclinação muito humana."

" a vida do crente perfeito é uma continuidade ininterrupta de gestos e palavras que se repetem, sem que lhe reste qualquer espaço para sonhar, hesitar, refletir; descrer, eventualmente, crer, talvez."

"O escravo que se reconhece escravo será sempre mais livre do que o seu senhor, mesmo que este seja o rei do mundo."

Interessou-me de imediato o tema deste romance, uma visão distópica futura em resultado do aparecimento de uma idade das trevas devido à tomada do mundo por uma ditadura global religiosa, uma obra do argelino Boulalem Sansal. "2084 O Fim do Mundo" foi vencedor do prémio da academia francesa em 2015.
O título pretende deixar clara a relação com o romance "1984" já falado neste blogue, um novo alerta de que certos maus sinais do presente podem conduzir ao fim da liberdade e a um regime de poder absoluto, só que a via seguida para esta distopia não é a apresentada antes por Orwell, agora alicerça-se num fanatismo religioso e no risco de uma guerra santa global que termina numa nova idade das trevas e ao fim do mundo como o conhecemos agora.
Ati foi exilado para um sanatório distante por tuberculose, nesse mundo questiona o seu País, o Abistão, único no mundo, onde todos são submetidos a uma fé e às suas cláusulas sem possibilidade de duvidar devido ao risco de morte, mas há noticiadas e boatos de guerras contra infiéis inimigos que não poderiam existir num Estado global. A elite religiosa governa e vive num espaço fechado em condições muito diferentes das consideradas conformes para o Povo. Após a sua cura, no regresso encontra um arqueólogo que descobriu uma cidade de antes da conversão da humanidade e este dá-lhe a entender que a história pode ser muito diferente da narrada oficialmente. Apesar da semente da dúvida estar lançada, a sua reinserção do sistema obriga-o a seguir as regras, até que se cruza com Koa em quem encontra a mesma curiosidade e perguntas. Começa então uma nova caminhada onde vão descobrir guetos de infiéis que sobrevivem em conluio com a elite, servindo a fundamentos da luta e a interesses da classe alta, empreendem uma viagem à capital, a cidade santa, onde se cruzam com  líderes num mundo de luxo mas num conflito fraticida para conquista total do poder, conhecem alguém com nostalgia do século XX que poucos sabem ter existido, memórias de uma época com problemas mas em que havia liberdade e não apenas submissão a uma lei religiosa criada à medida dos interesses dos líderes... uma revolução está em curso e eles serão peças usadas neste xadrez de uma sociedade organizada para a submissão do Povo.
Apesar da contracapa falar da globalização do islamismo como mote da obra, não sei se por questões de segurança do escritor, a verdade é que a estória decorre no domínio de uma nova religião que não é nenhuma das grandes da Terra no presente, embora certas características indiciem qual lhe terá servido de raiz principal, veja-se a máxima "Não há outro deus senão Yölah e Abi é o seu Delegado", mas na obra é assumido que resultou do aproveitamento de oportunistas gananciosos de outra anterior com valores, podendo até argumentar-se que tal só terá ocorrido no futuro sem acusar qualquer líder religioso até hoje, mas a similitude com algumas ideologias e radicalismos do presente torna esta obra num alerta para o caminho que a humanidade pode estar a trilhar. Contudo penso que nenhuma grande religião se pode sentir isenta dos vícios perigosos apontados em 2084.
Os capítulos tem características diferentes ao longo do desenrolar da estória, o primeiro é sem dúvida mais filosófico com uma análise sobre o aproveitamento religioso como arma de submissão física do povo e da sua mente capaz de travar a liberdade de pensamento. A seguir vêm a tentativa de explicar o nascimento da nova civilização e as incoerências do seu modelo, depois a caminhada da descoberta até ao clímax, no final da ainda se levantam alguns aspetos que dão que pensar sobre as virtudes do presente que se podem irrefletidamente deitar fora.
As referência a 1984 são muitas não só no texto, mas também nalgumas situações da narrativa e citações, mas é uma obra totalmente diferente da de Orwell. Também tem alguns aspetos menos aprofundados, mas muito do seu valor está nas entrelinhas e na capacidade de nos deixarmo-nos surpreender com a imaginação de um autor que consegue falar dos perigos do fanatismo religioso, possivelmente defendendo uma sociedade agnóstica,  a partir de um país islâmico ao criar uma cultura de tal forma estilizada que não o tornou num alvo a abater pela sua liberdade de escrever um romance deste teor quando muitos outros foram vítimas de fatwas por blasfémia denunciando o mesmo que Sansal... só por isto vale a pena ler o livro, além de toda a reflexão contida no romance. Talvez isto também justifique o prémio literário alcançado e sem gerar polémicas religiosas, numa obra que é de fácil leitura e um alerta para que a humanidade abra os olhos aos sinais deste tempo.

domingo, 10 de junho de 2018

"Será que os androides sonham com ovelhas elétricas?" de Philip K. Dick


Excertos
« ...os androides equipados com a nova unidade cerebral Nexus-6 tinham, numa perspetiva grosseira, pragmática e eficiente, evoluído para além de um maior - mas inferior - segmento da humanidade. Para o melhor ou para o pior. O servo tinha-se, em alguns casos, tornado mais inteligente que o seu senhor

« Terás de fazer coisas erradas onde quer que vás... É a condição básica da vida, teres de violar a tua própria identidade. Em determinada altura, todas as criaturas que vivem devem fazê-lo. É a sombra final, a derrota da criação; esta é a maldição em funcionamento...»

Poucos parecem saber que o primeiro filme "Blade Runner" se baseia no livro "Será que os androides sonham com ovelhas elétricas?" escrito pelo americano, famoso pelas suas obras de reflexão e humor negro em ficção científica, Philip K. Dick, várias das quais adaptadas ao cinema.
Após uma guerra o planeta está contaminado, a maioria das espécies extintas e a humanidade vive só em certas cidades sob alertas de radioatividade e com certas máquinas de controlo psicológico que cria uma nova religião social, mas o desejo mais comum das pessoas é ter animais domésticos reais face à oferta de cópias elétricas. Há colónias no sistema solar onde foram fabricados androides servis, que com a evolução são cada vez mais indistintos dos humanos, até que alguns nos ultrapassam, querem viver em liberdade, desejam estabelecer-se na Terra, aonde estão interditos e para onde fogem. Surge assim a profissão liberal de caçadores de androides remunerada por prémios de captura. Os Nexus-6, topo de gama na inteligência, dão luta, surge a possibilidade sentimental entre pessoas e máquinas e assim se desenrola nesta sociedade distópica o trabalho policial de Rick em São Francisco com reflexões morais e éticas entre tecnologia e o seu controlo.
A obra original é mais abrangente que a adaptação cinematográfica, esta limita-se ao essencial da caça, embora várias das questões do livro tenham sido transpostas para o filme. O romance, além de bem escrito, é mais profundo nas reflexões e não se limita a mostrar a questão dos sentimentos nos androides, pois mostra o vazio nas pessoas no mundo contemporâneo. Tendo sido publicado em 1968 o futuro imaginado evoluiu diferentemente nalgumas situações do que o imaginado na obra, pelo que há um desfasamento na visão do futuro tecnológico, mesmo sendo claro que se estaria na última década do século XX,  pode-se sempre transpô-la para um futuro posterior ao nosso presente.
Gostei muito do livro que é de fácil leitura, mas já me encantara com Blade Runner, obras diferentes e ambas geniais no seu género de ficção-científica, distópica  e levantando questões de ética e moral.

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

"O Homem Domesticado" de Nuno Gomes Garcia


"O homem domesticado" do português Nuno Gomes Garcia mostra uma distopia que veio instalar na Europa, mais intensamente em França, após uma catástrofe "O Grande Flagelo" que matou a maioria dos homens e em menor escala as mulheres, só que as deixou na generalidade inférteis, e com chegada à Presidência de Marine (suspeito que este e outros nomes não são casuais na obra) onde se construiu uma sociedade com reprodução humana artificial, não uterina e com a geração de machos homogeneizados, submissos ao domínio absoluto da mulher. Após se compreender o modelo social, um acontecimento violento transforma transforma a narrativa quase num policial, onde deduções certas e erradas da estória e justificação política terão a explicação até ao final.
Ao contrário de outras distopias recentes, onde pelo exagero se denunciam tendência e riscos em que a sociedade pode cair, casos de "Submissão" de Houellebecq ou de "Oryx e Crake" de Atwood; Gomes Garcia cria uma realidade distinta da atual, embora sem ignorar ideias atuais, como considerar estereótipos de género não naturais certas características de feminilidade ou masculinidade, preconceitos de que a violência social com origem só no homem, optando assim por um estilo muito mais próximo de Huxley em O Admirável Mundo Novo ou "A Ilha". 
Contudo, ao contrário de muitas distopias que li, onde é evidente a mensagem subjacente, a ideia a passar em "O Homem Domesticado" é algo dúbia. Tanto pode chocar para levar à reflexão sobre certos preconceitos machistas através destes machos completamente submissos onde o papel na sociedade se limita ao estereótipo ultrapassado da mulher como mera serva do homem e até publicamente oculta através com a burka, aqui na versão cache-tout para os machos; como pode ser o de satirizar a ideia supremacista da superioridade da raça branca, loura e de olhos azuis aqui bem degenerada; ou de evidenciar que os atuais defeitos da sociedade não resultam da predominância do homem nos lugares de poder, pois a mulher é bem capaz de criar um sistema opressivo, violento e ditatorial onde a justiça é subjugada ao objetivo político ou até denunciar tiques másculos de extrema-direita em Marine Le Pen. Quem sabe se não será tudo isto em simultâneo?
A escrita é clara, com poucos floreados poéticos como em muitas distopias, sem excluir algum recurso a metáforas e comparações estilísticas para a embelezar literariamente. Um livro fácil de se ler, para alguns terá momentos chocantes, mas não me marcou com a intensidade dos romances do mesmo género e acima citados.

sexta-feira, 10 de março de 2017

"Submissão" de Michel Houellebecq


Decidi ler "Submissão", do escritor francês contemporâneo Michel Houellebecq, tendo em conta a situação eleitoral agora em curso naquele País Europeu, uma vez que este livro é um romance recente e onde se disserta sobre o futuro da França resultante de umas eleições presidenciais em 2022 cujos candidatos na segunda volta (segundo-turno no Brasil) são apenas o da extrema-direita e o de um futuro partido dos muçulmanos.
Sendo Houellebecq um escritor frequentemente polémico, esta obra também tem elementos discutíveis e ideias que pretendem mesmo agitar consciências e levar à reflexão, contudo não deixa de apresentar o risco de uma evolução distópica da atual civilização ocidental a partir de França. François, um professor universitário na Paris III - Nova Sorbonne, especialista no escritor, não fictício, francês do século XIX Huysmans (que de amigo de Zola e satanista se converteu ao catolicismo, deixando plasmado nas suas obras a sua evolução pessoal). O protagonista e narrador é um fruto típico da época ocidental atual, um niilista e hedonista que segue desinteressadamente a política do seu país sem se envolver e sem se aperceber do evoluir da situação e dos  riscos de mudança possíveis na sua terra preparadas nos bastidores pelas forças ideológicas e religiosas em presença, Num repente, o mundo em que viveu muda radicalmente, o poder é tomado por um líder forte de uma das fações da segunda-volta que negoceia e salvaguarda os interesses dos políticos adversários tradicionais fracos, comodistas e egoístas, que aceitam um conjunto de mudanças no sistema onde se retiram o atual papel da mulher na sociedade e levam uma campanha simpática de mudança de mentalidade através do ensino, que à semelhança da distopia de "O admirável mundo novo", de Aldous Huxley, pode levar a que a submissão seja entendida pelos submetidos a uma nova forma de se sentirem felizes neste mundo em que uma parte da humanidade não tem voz nem estatuto social.
Embora Houellebecq não escreva de uma forma bela, antes pelo contrário, estamos perante um texto cru e por vezes chocante, mesmo quando descreve crueldades de uma forma ardilosamente simpática, a leitura é fácil pela clareza colocada no texto. Pontualmente, na vida íntima do protagonista, o escritor não se limita a um erotismo subtil, avança para uma linguagem e pormenores que podem mesmo ferir a suscetibilidade do leitor, todavia é evidente que tal é a intenção do escritor.
Fiquei curioso por conhecer a obra de Huysmans, que também se deduz ter sido muito importante na literatura francesa do século XIX, mas cuja importância foi intencionalmente abafada por a sua evolução colidir com a estratégia em rumo de uma civilização laica onde as questões de fé são retiradas do espaço coletivo.
Como livro que fala de um futuro próximo e a partir dos dados da data da sua publicação inicial, 2015, alguns pormenores previstos em 2017 sofreram vários desvios, além de terem surgido alguns aspetos maus não considerados, mesmo assim no cerne a obra mantém-se bem atual e a sua mensagem não perdeu qualquer atualidade. 
Apesar de um futuro negro apresentado em tons cor de rosa e de algumas opções descritivas que não são do meu inteiro agrado, que considero quase pornografia na literatura, gostei mesmo muito do livro, que procura agitar e despertar consciências que vivem como sonâmbulas nesta sociedade laica, onde os valores religiosos são silenciados enquanto outros procuram impor as suas crenças e modelo sem que o cidadão comum se aperceba.

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

"1984" George Orwell


O romance "1984", de George Orwell, é uma "sátira" ou um alerta sobre até onde os totalitarismos de meados do século XX poderiam levar a humanidade.
A obra de 1949 projeta um futuro sombrio em 1984, onde a revolução para criar uma sociedade sem classes foi subvertida com o fim único de se preservar como poder com o controlo total das ameaças ao edifício político construído. Ironicamente gera-se outra estratificação, a grande maioria continua esmagada, a prole; uma minoria faz de classe média e apoia uma ínfima parte que domina uma sociedade que se tornou globalmente mais pobre e onde os escassos privilégios para o topo são valorizados.
Com três máximas: guerra é paz, liberdade é escravidão e ignorância é força; explicadas em livro; com a criação de uma novilíngua que limite o pensamento por falta de conceitos que sirvam a argumentação da contestação; e com uma verdade oficial trabalhada; a classe dominante, com um mítico líder o "grande irmão" vigia tudo e todos, de facto não a prole que por si só não é um perigo.
O livro centra-se num protagonista da classe média, cuja profissão é alterar os arquivos da história para os acomodar à verdade do presente as vezes que for necessário, cuja memória questiona o presente e o passado e busca seres com dúvidas, cujo controlo deteta e o vai transformar para que no seu íntimo acredite que a verdade do partido é absoluta e rejeite até a incoerência desta com as recordações, a lógica e a verdade científica.
Este excelente romance é um perfeito complemento a "O Maravilhoso Mundo Novo" de Aldous Huxley, onde era a técnica para a predestinação e a alienação que tornava os seres apáticos e a aceitarem a sua distopia; agora é a psicologia através da omnipresença da vigilância, o controlo absoluto da mente e da informação que o faz a pessoa acreditar na verdade oficial e até temer a dúvida. Um magnífico livro, um bom suporte à reflexão sobre as estratégias para a instalação e preservação do totalitarismo absoluto.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

"Admirável mundo novo" de Aldous Huxley


"Admirável mundo novo" de Aldous Huxley é um romance sobre um futuro distópico onde as ciências são colocadas não ao serviço da verdade, mas para cimentar uma sociedade estável onde cada indivíduo é sujeito a um condicionamento psicológico desde a sua gestação em cadeia extra-uterina, para não ser afetada por relações sentimentais de laços familiares, bem como através de uma produção programada biofisico-quimicamente que gera seres predestinados a preencher a estrutura da sociedade conformes às necessidade coletivas e adaptados à classe a que se destinam ou tarefas a realizar e ainda mentalmente controlados e educados para se sentirem realizados nesse posto, servindo-lhes ainda alucinógenos sem ressaca para fugirem a qualquer perturbação psicológica, além de uma desinibição sexual para não permitir elos amorosos consistentes, criam-se assim seres acomodados à sua situação sem liberdade de a questionar, embora felizes na sua demência.
Num prefácio de 1946, na celebração da edição dos 20 anos da sua obra, Aldous Huxley escreve os elementos de referência que enquadram o romance: "Um estado totalitário verdadeiramente eficiente será aquele em que o todo-poderoso comité executivo dos chefes políticos e o seu exército de diretores terá o controlo de uma população de escravos que será inútil constranger, porque todos terão amor a sua servidão."
Texto que penso ser claro para descrever o conteúdo  deste Admirável Mundo Novo, em que Deus foi substituído pela criador do trabalho em cadeia Ford e onde Shakespeare (de onde é tirado o nome do romance) é desconhecido por ser pernicioso a estas crianças felizes na sua ignorância, contudo no planeta preservam-se relíquias do passado em reservas onde a realidade também não era perfeita, onde um Selvagem tem como referência cultural principal o autor de Hamlet, mas o contacto viabilizado entre estes dois mundos também não foi positivo. Uma obra-prima intemporal e um clássico no seu género literário.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

"A ilha" de Aldous Huxley


Acabei de ler "A Ilha" de Aldous Huxley, onde um jornalista consegue aceder e compreender o modelo de gestão social de uma ilha situada no Índico interdita a muitos estrangeiros, sobretudo a pessoas da imprensa, para proteção do seu estilo de governação, cuja forma e as prioridades são bem diferente das do resto do mundo.
O autor expõe assim uma sociedade utópica, governada por ideais para denunciar muitos dos vícios da sociedade ocidental, mas também demonstra que perante a globalização uma alternativa do género dificilmente resiste à ambição económica e política instalada na rede mundial.
A obra que aborda assuntos que vão deste a educação, a saúde, a morte, o consumismo e a religião, neste campo contrastes entre o dogmatismo e a reflexão budista, é heterogénea, tem momentos de crítica social que parecem denúncias perfeitas do mundo atual, noutros, Huxley entra em devaneios e contradições, inclusive o recurso a psicotrópicos para compreender o fim em si.
Em "A Ilha" mostra-se um mundo muito mais viável e contemporâneo que a visão futurista de "O admirável mundo novo", mas onde o ideal da perfeição e a centralidade do ser humano são os pilares da sociedade, infelizmente valores que estão ameaçados por uma civilização consumista, belicista e preconceituosa por crenças dogmáticas que não valorizam o Homem. Gostei da obra e recomendo.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

"O Castelo" de Franz Kafka

Edições Livros do Brasil

É mais fácil ler o romance "O Castelo" de Franz Kafka  do que dissertar sobre ele. A trama está cheia de contrassensos absurdos como num sonho e as peças não se encaixam, nem seguem a ordem natural das coisas. Contudo cada momento é justificado profundamente na discussão das personagens com K, recorrendo a uma engenhosa e extensa argumentação plena de subtileza que desmonta as ideias contrárias em confronto sem dela brotar uma lógica consistente.
Um agrimensor estrangeiro vai ao encontro de uma vaga aberta no condado do castelo, chega à terra e sente uma desconfiança de toda a população e dos funcionários para com ele. É admitido, mas o lugar não abriu por necessidade, só que no sistema burocrático não mais é viável aquele ser cancelado, pois o seu funcionamento bloqueia a correção até por que a sua perfeição inexplicável é um facto e aceite por todos e a lógica dos decisores vem de entidades inacessíveis.
Para quem já leu "O Processo de Kafka verifica que os dois romances seguem rumos opostos para o personagem K. No Castelo este vai ao encontro do poder que não precisa dele mas aceita-o, para logo a seguir se lhe tornar inacessível, K pretende alcançar a remissão dos seus erros de que não foi acusado. Em "O Processo" é a máquina da justiça que vai ao encontro de K, este não sabe que mal cometeu, tenta e não consegue libertar-se da culpa de que o sistema o acusa. As duas obras completam-se na perfeição.
O livro da foto tem um posfácio de Max Brod, amigo de Kafka, a apreciar obra e expondo textos rasurados e não publicados nas versão inicial e póstuma deste romance. A sua apreciação sobre os 2 romances mencionados não se limita a uma visão terrena do conteúdo e crítica política, estende-se a uma perceção teológica e filosófica, análises que enriquecem em muito a interpretação, embora eu não consiga libertar-se da ideia mais terrena daquele absurdo Governo, até que alguns destes são mesmo  pecados da administração pública. Um excelente livro, que pode não ser acessível a todos, mas que serve como denúncia e reflexão ao sistema político em que vivemos.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

"Utopia" de Thomas More

Provavelmente se passasse por uma livraria e visse o livro "Utopia" de Thomas More, escrito em 1518 não o compraria, apesar de saber o impacto que o mesmo provocou nas mentalidades do século XVI, do seu autor ter sido chanceler mor no tempo de Henrique VIII, deste o ter mandado matar pela sua fidelidade ao papa e mais recentemente ter sido elevado à categoria de Santo pela igreja Católica e um padroeiro dos políticos.
Todavia ao ter-me cruzado com esta obra em ebook gratuito decidi baixá-la e lê-la. Um livro fascinante, onde Thomas More disserta sobre uma sociedade ideal quase perfeita na ilha imaginária de Utopia, País em que há uma partilha responsável do trabalho entre todos, ausência de ócio pernicioso e a segurança e o bem-estar é assumido pelo Estado a um povo tolerante e inimigo das guerras.
Não subscrevo tudo o que Thomas More propõe, talvez nem ele, é um ensaio sobre um modelo ideal de sociedade e sem dúvida que mesmo decorridos quase cinco séculos é ainda um livro revolucionário que vale a pena ler e refletir.