domingo, 17 de março de 2019

"A importância de ser Earnest - e outras peças" de Oscar Wilde


Excertos
"Oh, dever é o que nós esperamos dos outros, não é o que nós próprios fazemos."
"Digo-te que há tentações terríveis, às quais para ceder é preciso ter força e coragem. É jogar toda a nossa vida num momento, arriscar tudo numa cartada."
"A verdade é raras vezes pura e nunca é simples."

Um livro com quatro peças de teatro com destaque para aquela que talvez seja a mais famosa do britânico Oscar Wilde: "A importância de ser Earnest", muitas vezes traduzido corretamente em português para "Ernesto", apesar de na nossa língua não carregar no senso comum um significado para além de mero nome próprio de pessoa (curiosamente o meu segundo nome) enquanto em inglês também quer dizer sério, confiança e solene, etc.
As outras peças são: "O leque de Lady Windemere",  "Uma mulher sem importância" e "Um marido ideal" e todas são pouco extensas, divertidas e com críticas implícitas à moral hipócrita, comportamento interesseiro e guerra dos sexos na aristocracia inglesa no final do século XIX em Londres. 
Apesar de os diálogos parecerem meras conversas banais, ocas e preconceituosas numa sociedade de fachada, vai-se construindo uma denúncia e crítica social mordaz cheia de bom humor que faz o retrato de uma elite que vive de bons rendimentos sem trabalho e pronta para a coscuvilhice no convívio social, havendo sempre um final com alguma lição de moral ou de cedência ao bom-senso sem contudo resultar numa mudança de estilo de vida.
Assim, temos quatro peças que são um prazer de leitura e diversão que sem ofender denunciam muito do mal que grassa nas elites sociais que se lê com muito gosto.

domingo, 10 de março de 2019

"Uma história de Xadrez" de Stefan Zweig


Acabei de ler a excelente novela ou talvez conto longo, pois nem chega a 70 páginas, "Uma história de Xadrez" do austríaco Stefan Zweig, a sua última obra de ficção, escrita já no seu auto-exílio no Brasil, por fuga a Hítler, enviada ao editor pouco antes do suicídio do casal Zweig.
Numa viagem de barco entre Nova Iorque e a Argentina o narrador descobre que entre os passageiros viaja o campeão mundial de xadrez à época, ele e outro passageiro afoito decidem enfrentá-lo e apesar daquele ser uma pessoa arrogante aceita o desafio, o jogo vai-lhe correndo favoravelmente como seria de esperar, até que um desconhecido começa a aconselhar os amadores, só depois se sabe da amarga vida que teve que o levou a ser um genial jogador como defesa psicológica que não deveria jamais voltar a jogar.
Como as várias novelas de Zweig que já li, a narrativa começa a desenrolar-se com uma escrita elegante num meio social elevado até que um imprevisto leva a se descobrir uma situação de enorme tensão psicológica cujo escritor expõe de forma magistral, mas preservando sempre a beleza, a nobreza e os valores na forma do texto e na descrição e esta obra não foge a essa estrutura tão típica.
Sou um grande apreciador deste género distinto e ímpar de Zweig, sempre fácil de ler, cordial e de grande tensão emocional. Gostei muito.

sexta-feira, 8 de março de 2019

"A Guerra das Salamandras" de Karel Capek


Excertos
"Não podemos fruir calmamente dos dons da nossa civilização nem dos frutos da nossa cultura enquanto existirem à nossa volta milhões e milhões de seres infelizes e inferiores, mantidos artificialmente num estado animal."

"Terá de ser sempre a natureza a aparar os golpes dos homens? Estás a ver? Nem tu próprio acreditas que eles vão ajudar-se a si próprios! Estás a ver? No fundo gostarias de te fiar que a humanidade vai ser salva por alguém ou alguma coisa!"

Acabei de ler "A Guerra das Salamandras" do checo Karel Capek, uma alegoria e uma sátira divertida e também uma denúncia distópica sobre a via suicida da civilização gananciosa que leva a humanidade à escravidão e à autodestruição. Publicado em plena ascensão do nazismo, este regime é criticado subtil, inteligente e metaforicamente, tal como a estratégia desastrosa e interesseira dos restantes Países Europeus para enfrentar aquela perigosa ideologia. Contudo este romance não perdeu qualquer atualidade e pode-se ver nele as denúncias dos erros do neoliberalismo, os perigos da hipocrisia em democracia e ainda a ameaça de catástrofe ecológica provocada pelo Homem e sua tecnologia no presente. O livro poderia ter sido escrito tal e qual hoje como denúncia dos vícios da globalização no presente.
Toda a estória é alegórica: O comandante Van Toch, um checo da marinha mercante ao serviço da Holanda numa ilha da Indonésia, descobre uma espécie de salamandra desconhecida, consegue relacionar-se com elas e verifica que as mesmas são ótimas caçadoras de pérolas em troca de utensílios, pois têm vocação de construção de estruturas subaquáticas e espírito comercial e social. Van Toch desenvolve então um projeto com o apoio de um capitalista judeu colega de escola para criar um império comercial usando como mão de obra estes animais povoando numerosos recantos do Índico com estes animais. Aos poucos o segredo torna-se público e alvo do interesse de todas os Países que querem adquirir salamandras como mão de obra escrava barata para o meio marinho, dada as suas capacidade laborais e de engenharia, só que estas desenvolvem a capacidade de falar e de aprender a cultura dos homens. A mudança e crescimento da economia global torna-se então gigante e dependente desta espécie que debaixo de água desenvolve secretamente a sua própria nação até se revoltar contra a exploração dos humanos e declarar-lhes guerra para os dominar.
Não é possível classificar o estilo literário de Capek nesta obra, onde há um desfile de escrita criativa: temos textos com estilo escorreito e quase vitoriano; partes que correspondem a excertos de peças jornalísticas, incluindo parangonas de arte gráfica numa linguagem bem distinta; atas de empresas com as suas especificidades; artigos científicos, sobretudo biologia e geologia; capítulos que são puro ensaio filosófico sobre o rumo da humanidade e baseados no comportamento das duas espécies cujo confronto se adivinha; análises sociológicas e sátiras ao modo de ser dos vários povos que não apenas europeus(o português nem é esquecido); etc. construindo assim uma panóplia de géneros e formas com uma imaginação fértil enorme.
Apesar da denúncia do destino sombrio do rumo da humanidade e momentos catastróficos, o bom humor e a ironia atravessam toda a obra, inclusive a intervenção do autor perante conveniência de alcançar um fim digno para o Homem no livro ou não fosse este o verdadeiro protagonista da estória e alvo do alerta e aviso de Karel Capek.
Uma obra genial ao nível de "O admirável mundo novo", "1984" e outras distopias marcantes da história da literatura, mas com a particularidade de não ser deprimente mas sim divertida. Uma obra-prima.
Como curiosidade, outra obra deste autor criou a palavra hoje usada internacionalmente de "robot" e diz-se que não recebeu o prémio Nobel da literatura para não irritar Adolfo Hitler.

sábado, 2 de março de 2019

2 de Marco de 2007 a 2 de março de 2019 - 12 anos do blogue Geocrusoe


12.º Aniversário


Pois é, já nem me lembrava do aniversário e de repente fui ver as origens e cá está, hoje é o dia de anos deste blogue Geocrusoe.
Fica este post aqui só para marcar a data, uma idade que no mundo da blogosfera já é longa.

sexta-feira, 1 de março de 2019

"Luz em agosto" de William Faulkner


Excerto
"A memória acredita antes de o conhecimento recordar. Acredita por mais tempo do que recorda, por mais tempo até do que o conhecimento se interroga. Sabe, recorda, acredita num corredor num prédio de tijolo vermelho, grande e comprido, decrépito, frio e povoado de ecos..."

"Lembro-me de uma vez lhe ter dito que há um preço a pagar por se ser bom tal como o há por se ser mau; há sempre um custo. E são os bons que não podem recusar-se a pagar a fatura, quando ela chega."

Voltei pela segunda vez a William Faulkner, escritor norteamericano laureado com o Nobel da literatura, com este "Luz em Agosto" que conta a vida várias personagens de terras diferentes do sudeste dos Estados Unidos que se cruzam na cidade de Jefferson (fictícia), estado do Mississipi, num momento fulcral e de grande tensão para as mesmas, um local marcada pelo ódio racial, o radicalismo religioso conservador e as feridas resultantes da derrota do sul esclavagista perante o norte abolicionista e liberal.
Lena, uma adolescente, grávida e solteira parte do Alabama em busca do pai do seu filho chegando a Jefferson num dia de um incêndio de uma casa debruçada sobre a cidade. Joe é um irresponsável pouco inteligente que parte secretamente da sua relação clandestina e vai trabalhar para uma serração em Jefferson e é acolhido pelo colega de trabalho Natal (Christmas). Este por sua vez é um órfão fugido de uma família adotiva ultraconservadora que não consegue suportar a sua suspeita de ter sangue negro, vive numa cabana de uma solteirona descendente de uma família do norte, abolicionista, com um passado marcante, dona duma moradia sobranceira à cidade, ambos estabelecem uma relação amorosa secreta que acaba em crime e incêndio. Byron, de meia-idade, é um pacato trabalhador da mesma serração que acolhe a grávida, apercebe-se da sua situação de mãe solteira,algo não aceitável na comunidade, apercebe-se de quem é o pai e intimamente apaixona-se. Hightower é um ex-pregador metodista cuja admiração pelo avô morto na guerra civil é o cerne da sua divulgação da apostólica em detrimento dos temas da fé o que  associado a um escândalo com a sua mulher o leva à excomunhão, só que se torna no elo entre toda esta gente, apesar do seu conflito entre fé, dever, memória e descrença. Tudo isto atinge o climax no momento do assassínio da solteirona com a fuga de Natal, a perseguição, o parto, o encontro da parturiente com o pai e a sua irresponsabilidade numa cidade onde ódio racial e religião impedem o bom-senso.
Um retrato da América profunda, complexada e disfuncional no período entre as duas grandes guerras, cheia de feridas históricas.
Faulkner tem uma escrita própria, com um estilo literário complexo denominado fluxo de consciência que marcou o modernismo no após a 1.ª grande guerra, onde sequencialmente, temos narrativa da estória, pensamentos das personagens, reflexões do autor, diálogos, saltos no tempo e comentários numa cadeia de parágrafos longos que exigem concentração por na mesma frase sujeitos, predicados e factos estarem cruzados subtilmente ou muito distantes, parecendo que houve um lapso gramatical mas depois o leitor compreende a lógica da sintaxe.
Apesar de não ser sempre fácil, a escrita de Faulkner está cheia de beleza com metáforas originais, reflexões e personagens complexos e cheios de conflitos internos, mas obriga a um esforço do leitor por autor dispersar momentos e focos distintos no encadeado da narrativa que só muito mais tarde se cruzam, se completam e se tornam compreensíveis como a montagem de um quebra-cabeças.
Poucas personagens na literatura são tão densas e profundas como algumas das de Faulkner, Natal é uma do expoente máximo desta criatividade. Chega a ser suicida ao completar-se como um branco racista, orgulhoso e supremacista junto com a sua luta na vontade de alimentar a suspeita do seu sangue negro que o revolta e o obriga a vingar-se das humilhações de raça inferiorizada e a lutar pelo reconhecimento do direito à sua liberdade e igual dignidade. Outras personagens neste romance atingem níveis quase tão elevados como o dele neste conflito interno que os divide, une e os completa.
Confesso, gosto muito desta luta dentro da beleza do texto que está cheio de imagens parciais refletidas como por uma bola de espelhos, onde os retratos montados por Faulkner compõem um quadro final excelentemente estruturado com uma mirídade de peças que pareciam desencaixadas, mesmo que às vezes me irrite com as cambalhotas e desvios que sou forçado a dar ao longo da narrativa.
Um grande escritor, um génio e um expoente máximo da literatura que ao ser galardoado com o Nobel, reforça a credibilidade deste prémio e o honra por o ter reconhecido e premiado.