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domingo, 1 de outubro de 2017

"O Colecionador de Mundos" de Ilija Trojanow

O livro "O Colecionador de Mundos", do Búlgaro refugiado na Alemanha que viveu na Jugoslávia, Itália, Índia e Quénia e presentemente na Austria e escreve em alemão: Ilija Trojanow, narra de modo romanceado três importantes ações da vida do militar, aventureiro, espião e diplomata inglês do século XIX: Sir Richard Francis Burton.
Como todas as obras históricas, o romance está amarrado no essencial aos factos então ocorridos, mas vale pela forma de os narrar e os floreados à sua volta, criando uma obra original, criativa, com a análise social do encontro de culturas (indiana hindu e muçulmana, árabe e africana) e juntando ficção à realidade dos acontecimentos.
O livro é composto por três momentos da vida de Burton, cada um exposto com uma dupla visão que se intercalam e se completam: primeiro o serviço na Índia com a descoberta do hinduísmo, do islão, o choque de culturas e a desconfiança entre povos e onde se conhecem as impressões do protagonista e a versão do chefe de criadagem, um natural local; depois a sua peregrinação a Medina e a Meca, haje ou hadj, disfarçado de muçulmano indiano e integrado numa caravana de povos a partir do Cairo, neste feito que chocou o islão vemos o relato de Burton e uma recolha de testemunhos de companheiros crentes na tentativa de julgar o sacrilégio do infiel; e por fim a expedição a partir do Zanzibar que levou à descoberta do lago Vitória e da nascente do Nilo narrada por ele e um escravo local libertado guia dos ocidentais.
Assim se revela a vida de uma lenda que até à sua morte levantou especulação de qual a sua verdadeira fé, o seu modo de ver o mundo, os povos e as religiões. Um livro muito interessante, cheio de ensinamentos culturais, história, aventura e excelentemente escrito. Recomendo.



sexta-feira, 4 de agosto de 2017

"Bombaim - a um mundo de distância" de Thrity Umrigar



Acabei de ler "Bombaim a um mundo de distância" da escritora indiana Thrity Umrigar, um romance com uma escrita simpática, agradável e cheia de sentimentos, sem ser "meladamente" sentimental, que narra a vida de duas mulheres já no final da vida adulta, de condições sociais distantes mas cuja vida foi durante muitos anos próximas. A obra recorre a frequentes memórias de cenas passadas por cada uma delas, dando assim saltos no tempo que permite conhecer o que foi a vida delas e as feridas e cicatrizes que se vão abrindo com problemas do presente.
Uma das mulheres é pobre, hindu, residente num bairro de lata, trabalhadora incansável e uma mãe coragem perante as adversidades dos desprotegidos intocáveis; a outra é de uma família culta, instruída, parsi (seita zoroastriana), com uma vida não menos sofrida psicologicamente que teve a primeira como criada durante décadas e de quem se sente amiga com todas as barreiras que as separações por castas, religiões e preconceitos impõem. A primeira enfrenta a gravidez imprevista da neta orfã e por ela acolhida na sua miséria. A segunda alegra-se com a gravidez de um casamento de sonho da filha, mas só que este momento de infelicidade e felicidade pela vinda de um filho a cada um destes lares vai ser razão para se abrirem ainda mais divisões e virem mais injustiças a nu típicas da sociedade de Bombaim.
Gostei, o texto é de fácil leitura e mesmo sem ser de uma genialidade literária que mereça neste campo outros encómios é uma história de denúncia social bem narrada e por vezes de elevada tensão. Recomendo a quem quer conhecer melhor a sociedade indiana e muitos dos seus problemas estruturais geradores de divisões, desconfianças e injustiças que distanciam pessoas aparentemente próximas.

sábado, 2 de abril de 2016

"O Deus das Pequenas Coisas" Arundhati Roy



O romance "O deus das pequenas coisas" é o único livro de ficção da escritora indiana Arundhati Roy, com uma vasta obra ambientalista, e ganhou logo o Booker Prize de 1997 e foi um grande sucesso editorial ao nível planetário.
A história que envolve o declínio em três gerações de uma família indiana de nível socioeconómico e cultural acima da média, com intervenção científica e industrial, de religião cristã síria e anglófila, no sudeste da Índia, que se vê enredada na sua teia de vícios individuais misturados com preconceitos locais e a tradição de castas, que assim se autodestrói por invejas, paixões, ódios entre si agravada por fatalidades acidentais enquanto procura assimilar a cultura inglesa como forma da identidade e de afirmação numa época de aceso confronto ideológico da guerra fria.
É uma obra intercultural, onde as influências inglesas e indianas se misturam constantemente na história num período de instabilidade no país devido ao confronto ideológico que marca a guerra fria. Na escrita a autora efetua ainda uma integração na linguagem do misticismo hindu, com o racionalismo ocidental, a força do ambiente meteorológico e da biodiversidade do sudoeste da Índia, sobretudo vistos e interpretados pelos olhos de duas crianças gémeas filhas desta aculturação num período onde uma paixão contra as regras estabelecidas faz soltar todos os demónios que estavam atados nesta teia complexa de encontro de civilizações, credos, mentalidades numa Índia pós independência e politicamente a balançar entre uma democracia de mercado livre e a perspetiva marxista. Todos estes mundos e interesses conflituam nesta obra ferindo e destruindo pessoas de uma forma dura, capazes de não perdoar um amor e aproveitar-se de um acidente perante os olhos de duas crianças gémeas alvo de todas estas tensões.
Por ser uma obra que integra várias culturas inclusive no estilo do texto, nomeadamente a indiana bem distante da europeia, no princípio pode-se estranhar, mas depois de se compreender a forma cheia de metáforas e simbolismos, torna-se num belíssimo romance multicultural e cheio de referências à ecologia da Índia que justifica o sucesso do livro.