Excerto
"... só posso recorrer a mim como parceiro das minhas conversas.
Neste longo monólogo «tu» é o objecto do meu discurso, de facto, é um eu que me ouve atentamente, «tu» és apenas a sombra de mim.
Enquanto ouvia atentamente o meu próprio «tu», fiz-te criar «ela» porque tu és como eu, não consegues suportar a solidão, também tens de encontrar alguém com quem falar."
Na pesquisa de um autor na Biblioteca Pública da Horta, que não encontrei então disponível, cruzei-me com "A Montanha da Alma" do primeiro vencedor do prémio Nobel da literatura Chinês: Gao Xingjian, que também é pintor. Sendo eu um admirador da cultura chinesa, decidi, em alternativa, ler este romance.
Numa viagem de comboio um passageiro desconhecido desperta interesse ao narrador, alter ego de Gao Xingjian, para visitar a Montanha da Alma, recebendo informações de como chegar, inicia a sua caminhada.
Segue-se a narrativa da viagem solitária em busca deste lugar, aliás, grande parte da obra parece literatura de viagem, em que se descrevem as terras atravessadas, se escutam as suas gentes que contam as suas lendas e história que se cruzam com as recordações do autor que, na sua solidão, fala consigo, o seu "eu" que é o "tu" que denuncia as suas intenções e comportamentos e juntos criam terceiras personagens, frequentemente mulheres, com quem discutem as relações humanas, os desejos e especulam sobre as necessidades físicas e psicológicas de cada um.
O texto descreve as paisagens do sudoeste interior montanhoso da China da província de Sichuan e envolvente, com a sensibilidade de um pintor poeta. Expõe a história da região desde há milhares de anos, das suas etnias, religiões, templos, filosofias e culturas, com referência a cronistas e a poetas. Denuncia os abusos ao longo dos tempos, passando pela revolução cultural e do poder opressivo do regime contemporâneo ao livro, que, além de destruir o património desta área, também agride as pessoas, mas que evidencia um grande orgulho patriótico em toda esta herança.
O autor não esconde as influências literárias do ocidente, inclusive chega a ironizar com isso através de uma personagem que lhe diz "Mais um modernista que tenta em vão imitar o Ocidente.", havendo várias páginas em que se discute a própria estrutura da obra. Nos capítulos além dos diálogos entre o eu, o tu e o ela, fica-se, por vezes, na dúvida se algumas das outras personagens resultaram de encontros reais ou das suas reflexões e memórias.
A leitura tem capítulos fáceis, cativantes, belos e de escrita poética e plástica, outros, frequentemente alternados, mais filosóficos, alguns com relatos ora duros, ora absurdos e por vezes com saltos no tempo e lugar por onde nos perdemos e difíceis de continuar. Não é uma narrativa linear com um enredo é mais um puzzle que se vai montando com uma miríade de quadros, histórias, lendas e personagens que se entrecruzam numa obra modernista com diálogos que me recordam Beckett num romance que foi proibido no país do seu autor, mas que já antes se exilara em França. Não é uma obra fácil, mas tem páginas muito belas.

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