segunda-feira, 24 de agosto de 2020

"Crime no Vicariato" de Agatha Christie

 

Acabei de ler mais um policial de Agatha Christie, "Crime no Vicariato", a obra onde a autora integrou pela primeira vez a sua personagem de Miss Marple. Um dos romances considerados entre os mais geniais da escritora.

Na aldeia de St. Mary Mead o vigário vai-se se reunir com o coronel Protheroe para uma fiscalização às contas da paróquia depois de uma fiel ter reclamado que dera uma maior nota na coleta que o valor declarado. Toda a gente sabe do encontro e muitos odeiam o militar que persegue caçadores e cidadãos pacatos em nome duma justiça sem tolerância. Antes da hora da reunião o vigário é chamado a casa de uma doente, um falso alarme, no regresso encontra um pintor que fora expulso da mansão de Protheroe e amigo da esposa deste e da filha em delírio por ter encontrado o inspetor assassinado no escritório de vicariato. Entre o sacerdote, a sua esposa e passando até pela família da vítima há muitos suspeitos locais para o crime que a polícia investiga, mas a vizinha da casa ao lado é uma velhota observadora de tudo o que se passa à volta e apesar de um pouco inconveniente é capaz de interpretar o comportamento de todos e, com tal atributo indiscreto, de desvendar quem matou de facto o coronel.

A obra, de escrita escorreita simples, tem como primeiro narrador o vigário que conhece toda aldeia, inclusive os que ali estão de forma um pouco estranha, aos poucos chegam-lhe aos ouvidos todos os mexericos do lugar e, inclusive, os comentários daquela vizinha humilde mas inconveniente e vê a arrogância do polícia. Assim, surpreendidos com a lógica avançada da idosa e o trabalho árduo da autoridade vamos percebendo as muitas hipóteses, exclusões e motivos que até podem ter raízes antigas, até que quando tudo parece esclarecido Miss Marple ainda tem mais uma palavra dar na solução final. Para lazer é um excelente romance no género, onde transpira o ambiente rural inglês e o estilo de vida da comunidade anglicana. Gostei e valeu a pena ler.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

"O Herói das mulheres" de Adolfo Bioy Casares

 

Estava com saudades de estórias curtas, pelo que optei por ler o livro de contos do argentino Bioy Casares: "O herói das Mulheres", correspondendo este título ao do último desta coletânea de 8 narrativas reunidas em cerca de 150 páginas.

Existem alguns contos muito curtos, os maiores têm cerca de uma trintena de páginas, como os que abrem e fecham a coleção. Temos sobretudo narrativas fantásticas ou surrealistas na mesma linha da do amigo do autor: Jorge Luis Borges, com quem partilha a honra de ser um dos maiores escritores da Argentina. Algumas tornam-se divertidas pelo seu final surpreendente, outras são absurdas, mas o conjunto evidencia a diversidade por onde a psique humana se perde, labirintos entre a realidade e a imaginação.

Desde de um túnel curto que une pontos longínquos por onde um estudante se desviou em fuga aos estudos e encontrou o amor que se lhe tornou inacessível; a uma descoberta útil para o aproveitamento da dor física; ao jovem que não segue os conselhos da mãe e sai protegido pela magia; ao homem que foge da mulher obsessiva mas que a encontra no fim da sua fuga; à mulher que viaja em primeira-classe justificando as desvantagens; um intrincado jardim fantástico que embaraça a fuga de um jornalista perseguido politicamente; ao rapto por fantasma que talvez seria um tigre. Tudo isto numa panóplia diversificada e interessante. 

Para quem gosta do género é um livro muito bom entre o estilo de Kafka e de Borges, e também excelentemente escrito e narrado.

sábado, 15 de agosto de 2020

"A Improvável Viagem de Harold Fry" de Rachel Joyce

 

CITAÇÃO
"uma vida não fica completa enquanto não encontra o seu desfecho."

Acabei de ler o romance de estreia de Rachel Joyce: "A improvável viagem de Harold Fry", com o qual ganhou o National Book Ward para o melhor primeiro romance de escritor em 2012, embora eu já tivesse lido este outro romance posterior dela.
Harold vive numa cidade no extremo sul da Inglaterra, reformado, vive com a mulher que o rejeita e o critica permanentemente, recebe uma carta de uma ex-colega a informar que está em fase terminal de um cancro e espera que ele esteja bem. Harold, que já não a via há 20 anos, lembra-se de uma amizade que terminou com o despedimento dela. Enche-se de compaixão e responde-lhe uma carta singela que decide pôr no correio, na ida sente que é pouco, alguém lhe fala de atos de fé para salvar outra doente e ele toma de imediato a resolução de ir a pé até ao hospital que se situa na cidade mais a norte do País. A decisão é logo posta em prática e já no caminho após muitas horas comunica-a à mulher e prossegue a viagem que durará dezenas de dias, sacrifícios extremos, conhecimento do mais diversificado tipo de pessoas, interesse jornalística e aproveitamentos. Em paralelo, ele vai dando notícias à mulher que não sabe come agir e ambos vão refletindo nos falhanços do seu passado como um exame de consciência e de compreensão do outro que mudará para sempre as suas vidas.
Um romance muito original, cheio de ternura e dureza em simultâneo, que faz uma crítica à sociedade atual e aos comportamentos coletivos e muito bem escrito. Tem uma técnica que por vezes parece deixar-nos cair num sentimentalismo fácil que logo é cortado por uma chamada à razão de forma implacável, pois a realidade é mesmo assim: com alegrias e dores e temos de conviver com isto e superar o mau sem nos amarrarmos a sonhos impossíveis.
Gostei muito da narrativa, por momentos comoventes, outros duros, alguns irritantes, alguns murros ao leitor que se deixar levar pela crendice fácil e surpresas praticamente até ao final.

sábado, 8 de agosto de 2020

"Meio Sol Amarelo" de Chimamanda Ngozi Adichie

Excerto
"Há coisas tão imperdoáveis que tornam outras facilmente perdoáveis."

Acabei de ler "Meio Sol Amarelo" da nigeriana de etnia igbo Chimamanda Ngozi Adichie, vencedor do Pulitzer Prize. Este é o terceiro romance de ficção dela que leio, ela que também é autora de ensaios sobre o feminismo, mas os romances não se centram nesta temática.
No início da década de 1960 Ugwu é uma criança de 13 anos que a tia leva para cidade para ser o criado da casa do professor universitário Odenigbo, ele será o narrador central à sua volta. Na morada reúne-se gente com esperança no futuro glorioso de África. O dono tem uma relação amorosa com Olanna, filha de um dos homens mais ricos do País e habituado à corrupção para singrar nos negócios, via que a filha rejeita. Esta tem uma irmã gémea, Kainene, que dirige empresas do pai e desenvolve uma relação com um jornalista inglês encantado com a cultura local. Todos vivem tempos de fartura e esperança no Estado recém-independente. Este grupo, culto e rico, é da etnia igbo, maioritariamente cristã ou animista que vive no sudeste do país e é o que mais progride politica e economicamente na Nigéria, mas a rivalidade de outras tribos leva ao seu massacre no norte muçulmano. Então as províncias onde eles se concentram declaram-se independentes sob o nome de Biafra, o que levará a uma guerra civil com grande mortandade dos civis pela fome devido ao bloqueio alimentar com o conluio das grande potências mundiais e pelos bombardeamentos federais. É o o período de luta pela sobrevivência em que a esperança dá lugar ao medo e à necessidade de decisões extremas e os problemas do passado terão de ser ultrapassados pelo amor e altruísmo, face aos ódios, oportunismos e morte no Biafra.
O livro está dividido em quatro partes: na primeira, início da década, ficamos a conhecer o estilo de vida desta gente pelos olhos de Ugwu; na segunda, já no início da guerra, é evidente terem existido problemas nos casais por ciúmes, traições e choque cultural; a terceira vai ao revelar as situações problemática nestas famílias; e na última, a mais extensa, acompanhamos o agudizar da crise humanitária até à derrota do Biafra onde todas as anteriores tensões são secundárias face ao que se vive durante a guerra. Contudo, quase não há relatos de combates, a obra centra-se na dificuldade das pessoas civis e não na frente.
A escrita é escorreita, sem grandes rasgos estilísticos, bem temperada pelos sentimentos humanos e vida íntima, o que torna a obra fácil de se ler, pois toca o coração do leitor. No conjunto aprende-se o que foi a vida no Biafra durante a guerra vista do lado de quem, cheio de esperança, lutou pelo que acreditava e viu-se derrotado. Uma lição de história romanceada, eu que nem sabia onde era o Biafra fiquei a saber muito do que foram as feridas abertas pelo colonialismo, descolonização e guerra-fria em África.
Portugal, nunca é referido diretamente na obra, mas esteve do lado do Biafra e um corredor humanitário existente no romance fazia abastecimento alimentar com grande risco via São Tomé, então colónia portuguesa, mostrando a posição lusa. Gostei sobretudo pelo que aprendi numa boa narrativa onde o humanismo nunca desaparece mesmo no meio das atrocidade que vamos assistindo.

sábado, 1 de agosto de 2020

" Morte no Nilo" de Ágatha Christie



Acabei de ler o policial "Morte no Nilo" da escritora britânica rainha neste género literário: Agatha Christie; um dos romances considerados no grupo dos seus mais geniais.
Uma jovem rica e bela, e alvo de colunas sociais, na sequência de um pedido de ajuda de uma amiga para dar emprego ao seu noivo conquista-o e casa com ele, indo a seguir passar a lua-de-mel numa subida ao rio Nilo, só que a outra ofendida decide perseguir com a sua presença todos os locais por onde o casal passa.
Em paralelo, o casamento rápido levou a advogados da milionária e a gestores do seu património e menos honestos a agir e a participarem na mesma viagem para um golpe, onde embarcam outras pessoas da elite social relacionadas ou não com os recém-casados e entre eles o genial Poirot, até que se dá a morte da jovem e muitos até têm motivos para o assassínio, mas talvez o crime não tenha sido perfeito, o que conduz a uma série de incidentes e o célebre detetive terá de pôr os seus neurónios em ação para deslindar o caso e claro que consegue com um final surpreendente.
Escrita fácil, mas escorreita e sem grandes rasgos artísticos, mas permitindo uma leitura muito agradável com uma metade a apontar para um potencial crime futuro e uma segunda parte com o suspense e surpresas até à resolução final. Gostei muito do intrincado esquema montado para o crime até à sua descoberta.