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sábado, 4 de janeiro de 2025

"Um animal Selvagem" de Joël Dicker

 

Regressei ao escritor suíço Joël Dicker - grande génio atual em obras de suspense de puro entretimento pela sua originalidade no modo de contar a história - com "Um animal selvagem" que comprova o estilo que descrevi.

O romance começa logo por apresentar o início de um assalto a uma joalharia em Genebra e de imediato apercebemo-nos da perfeição do planeamento do ato, só que, de de súbito, o autor faz-nos recuar 20 dias para nos apresentar as personagens que estarão envolvidas na trama: duas famílias, uma endinheirada e com vida de luxo que se amam que inclui um dos assaltantes; e outra de um polícia de intervenção que virá a descobrir o plano e deve ter a função de evitar o roubo, mas que vive num bairro humilde e onde a mulher aspira ao estilo da outra, os dois casais conhecem-se e tornam-se grandes amigos entre si nos dias que antecedem ao furto.

Depois, numa sucessão de pequenos episódios diários, vamo-nos apercebendo da vida familiar e do plano a ser montando por uns, alternando com curtíssimas cenas do desenrolar do assalto, intercalados com relatos de segredos do passado, alguns com mais de 15 anos, que levaram às personagens a alcançarem o sucesso. Entretanto, nos dias de preparação, as paixões, os ciúmes e as invejas vão minando a relação entre os vigiados, desejados e invejados e os vigilantes e assim vão-se montando armadilhas uns aos outros, além de outras personagens que interferem nesta teia, até conhecermos completamente como decorreu o roubo, o passado dos ladrões e as consequências de todas ciladas perpetradas entre os envolvidos nesta história.

Joël Dicker é um mestre em levar o leitor a deduções erradas e em criar, sequencialmente, as mais espetaculares reviravoltas no desenrolar dos acontecimentos e nas reinterpretações das pistas lançadas. Assim, o escritor nunca deixa de nos surpreender até à última página, quando se fica rendido pelas voltas que aconteceram ao longo da narrativa sem esta nunca perder a consistência. Um deleite de entretimento e suspense ao longo de um texto fácil, escorreito, sem grande virtuosismo literário, mas que é difícil parar de ler pelo entusiasmo que desperta.

segunda-feira, 22 de março de 2021

"O Livro dos Baltimore" de Joël Dicker

 

Acabei de ler mais um livro do escritor suíço Joël Dicker que tem publicado recentemente obras de grande sucesso, sobretudo do género suspense e policial. "O livro dos Baltimore" não se enquadra bem em nenhum dos géneros citados, embora tenha o mesmo protagonista do livro de suspense e investigação policial "A verdade sobre o caso Harry Quebert".

Marcus Goldman, o escritor que no anterior romance procurou descobrir o que estava por detrás do desaparecimento de Nolla Kellergan que destruíra a vida do seu professor de literatura, agora vira-se para uma narrativa de memórias autobiográfica de criança até ao presente em que goza de grande fama. A obra envolve a comparação e a sua admiração progressiva pelos seus parentes Goldman ricos e com sucesso público de Baltimore face à mediania da sua família Goldman em Montclair, as amizades entre primos e amigos comuns onde também a rivalidade do amor dá entrada na adolescência. 

A narrativa, à semelhança da outra, desenrola-se cruzando episódios ocorridos em vários períodos da história das personagens e distanciados entre si de anos e décadas, sem respeitar uma perfeita ordem cronológica que se intercalam com situações no presente, o que permite reconstituir a linha evolutiva dos acontecimentos. Desde o início temos a perceção que algo de catastrófico decorreu nesta viagem temporal que só no fim o protagonista perceberá tudo o que aconteceu e os seus erros de perceção. Entretanto, assistimos ao estilo de vida de uma família da classe média e outra da classe alta no leste dos Estados Unidos e com alguns olhares para a realidade desta sociedade. Afinal, quantos segredos estavam escondidos por trás das atitudes públicas das relações entre ambos os ramos e dentro de cada agregado que desembocaram numa drama trágico que nunca se imaginaria possível.

Joël Dicker escreve muito bem sem procurar ser revolucionário e sabe manter ocultos aspetos que prendem o leitor à narrativa, pois lança pistas de interesse para só descobrir tudo posteriormente. Cria assim uma obra que tem um excelente carácter lúdico, fácil, mas com um nível literário acima da mediania de muitos romances de sucesso rápido. Gostei da história que prende num género de livro entretenimento que agrada a quem também valoriza a qualidade da escrita.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

"Os últimos dias dos nossos pais" de Joël Dicker

 
Citação
"A coragem não é não ter medo: é ter medo e, mesmo assim, resistir."

Após ter lido a segunda obra de ficção do escritor suíço Joël Dicker", regressei a este autor com o seu primeiro romance publicado "O último dia dos nossos pais" com a qual ganhou o prémio Escritores de Genebra de 2010, este é um livro que se distingue de todos os outros que ele desde então saíram, pois não é um livro policial nem uma obra de suspense apesar de incluído no género de espionagem.

Após a invasão alemã de França, no início da II Grande Guerra, o jovem de 21 anos parisiense, órfão de mãe e extremamente ligado ao pai, decide ir para Inglaterra para lutar contra o invasor. Em Londres é selecionado para integrar uma rede de espionagem na sua pátria a exercer em território ocupado. Acompanhamos a sua formação intensa com cerca de duas dezenas de pessoas, só uma é mulher, o que dura vários meses de exercícios duros com grande desenvolvimento de amizade e espírito de grupo, apesar de alguns irem sendo eliminados, os finalistas tornaram-se numa família coesa embora com gente diferente, Paul e Laura apaixonam-se, mas o respeito na equipa é total. Estes espiões são enviados para o terreno com tarefas específicas e separados uns dos outros, pontualmente cruzam-se mas o segredo das ações de cada um é fundamental para a segurança. Todos são ricos de sentimentos e o amor do casal ou a carência deste noutros está presente, mas o mais forte é o amor filial de Pal, o que o leva a uma medida drástica e de risco que depois será conhecida pelos colegas que nunca deixarão que um colega perca a honra de herói e até um alemão inimigo deixa-se cativar por aquele filho.

Apesar da escrita deste romance não se pautar pela criatividade e riqueza de figuras de estilo literário, o texto é todo ele de uma grande elegância e atravessado pela amizade, amor fraterno, filial e romântico, o que lhe confere uma grande beleza e mesmo quando a narrativa é de tensão e tragédia nunca perde o tom e postura calma, o que é uma raridade em obras de espionagem em ambiente de guerra e talvez este seja o melhor trunfo deste livro, pois a dor é coberta de ternura que se estende ao inimigo. Um romance diferente que gostei e fácil de ler.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2020

"A verdade sobre o caso Harry Quebert" de Joël Dickers


Terminei a leitura do romance de suspense e policial "A verdade sobre o caso Harry Quebert" do suíço francófono Joël Dickers. Um livro vencedor de numerosos prémios literários: Prix de la Vocation Bleustein-Blanchet, o Grande Prémio do Romance da Academia Francesa, o Prémio Goncourt des Lycéens e o prémio da revista Lire para Melhor Romance em língua francesa. Na generalidade está-se perante uma obra essencialmente de entretimento, mas com uma trama bem elaborada, uma escrita literária cuidada além da investigação criminal. Em paralelo mostra a pressão  que por questões de mercado o mundo editorial atual exerce sobre os escritores, as angústias do autor e as táticas de promoção em que estes se veem embrulhados por quem coloca os livros no mercado. Assim, estamos perante um livro que discute as angústias dos escritores com obras de sucesso.
Em 1975 Nola é vista a ser perseguida e pouco depois dá-se o homicídio da testemunha e o desaparecimento da moça. Mais de trinta anos depois Marcus, um jovem escritor cuja primeira obra foi um sucesso que se atolou no gozo da fama, sente-se sem inspiração e é pressionado pelo editor pela obrigação de fazer um segundo livro. Decide socorrer-se do seu antigo professor, Harry Quebert, que já teve uma obra de sucesso e o ensinou a ser autor, mas de repente algo leva a que o seu mentor se torne suspeito de ser o criminoso de Nola. Parte então para a cidade de Aurora para demonstrar a inocência do seu amigo, mas o caso não é simples: uma antiga relação amorosa com uma menor, o envolvimento de um grandes empresário, provas contraditórias que apontam para Harry, além de muitas feridas de relações de ódios e ciúme antigos e investigações policiais viciadas complicam tudo. Em paralelo a comunicação social propaga estes escândalos a todos os Estados Unidos. Marcus vê-se com a ajuda de um polícia estadual numa sucessão de descobertas chocantes e reviravoltas que nos vão surpreendendo até ao final do romance, enquanto a editora quer o máximo proveito da situação com a exposição pública de Marcus só sanável com o cumprimento contratual de escrita de um livro que deverá explicar toda a verdade e descobertas. A pressão da investigação e da publicação cruzam-se num universo de escritores modelos que também são capazes de atos condenáveis.
A obra deixa-nos quase sempre em suspense e a ser surpreendido até ao fim e apesar do género policial está cuidadosamente escrita e pontuada com numerosas reflexões sobre a escrita literária e as ambições editoriais que desrespeitam a arte e o interesse público. Fácil leitura e recomendo a qualquer tipo de leitor.