segunda-feira, 29 de junho de 2020

"A Torre da Barbela" de Ruben A.


Excerto
"E a multidão que no Jardim dos Buxos entretinha o tempo, em nada se diferenciava das outras multidões: apenas não se viam - viviam no suspenso dos sons. Os que se individualizaram, como Dom Raymundo, o Cavaleiro, Dona Mafalda, Madeleine, etc. é porque em si sintetizavam a necessidade premente de continuar a história do mundo pelas vias da Criação."

"A Torre da Barbela" do português Ruben A., é um romance publicado em 1965, vencedor então de um prémio literário que caiu no esquecimento e agora foi reeditado como uma obra a redescobrir, não só pela sua reconhecida originalidade e temática, mas também por mostrar o papel do seu autor como um importante escritor que deu novos rumos ao evoluir da literatura em Portugal.
O romance é uma obra macabra, centrada em torno de uma torre nas margens do rio Lima no Minho que existe desde os primórdios de Portugal e casa de uma das famílias nobres mais importantes e participativas no evoluir da história do País até ao século XX: os Barbela. Durante o dia o monumento nacional é alvo de visitas diárias onde o guia/caseiro recebe excursões, discursa sobre a heroicidade dos Barbelas e promove as belezas e produtos locais; só que durante a noite são os antepassados ligados à Torre, ao solar e seus parentes próximos que saem dos túmulos e convivem entre si, amam, odeiam e mexericam independentemente do século em que viveram. Estes desfilam com todas as características individuais que tinham quando vivos, construindo um retrato satírico e psicológico das virtudes e defeitos dos fidalgos lusos e dos vícios sociais que moldaram este Povo.
Ruben A. pertencente a uma famílias de vultos da cultura portuguesa no século XX e numa linguagem mordaz mostra um Portugal tacanho, provinciano, sujeito publicamente ao clero católico e em segredo transgressor de toda a moralidade religiosa, uma hipocrisia falsa que inveja o estrangeiro e fala das virtudes e superioridade do seu País.
O autor foi um mestre na arte de escrever bem e utilizar ao máximo os recursos da língua combinada com a imaginação e coexistência de falares, mentalidades e tecnologias de diferentes épocas ao longo dos séculos e aqui extrema estas capacidades. Na obra, cada personagem está amarrada ao seu século: o cavaleiro medieval desloca-se a cavalo sem tal impedir que a sua amada viaje de carro e outro parente já use o avião; tal como numa guerra há a opção do uso da força no homem companheiro de luta de D. Afonso Henriques e os argumentos demagógicos e populistas de um político do século XX. Nesta estória cruzam-se amores infiéis, bastardos, homossexuais, amantes de soberanos, beatas, padres, santos, bruxas, cruzados e marinheiros,  além de uma fábrica de enguias fumadas secular e muito mais.
Apesar destas impressionantes características do romance, da excelente descrição de muitas das belezas paisagísticas, do património cultural do Minho e da imaginação que por vezes me deslumbraram, também houve momentos que me cansaram por serem demasiado prolixas, mas valeu a leitura.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

"Doutor Jivago" de Boris Pasternak

Excerto
"Já aconteceu assim algumas vezes na história. O que foi concebido como ideal e elevado, acabou em grosseiro materialismo.  Assim a Grécia se tornou Roma, assim o Iluminismo russo se tornou na Revolução Russa."

Acabei de ler o romance "Doutor Jivago" que está na origem da atribuição do prémio Nobel da literatura ao seu autor: Boris Pasternak, russo de nascimento, galardoado quando soviético, apesar de então o livro ter sido proibido na União Soviética, foi igualmente adaptado ao cinema em Hollywood com o mesmo nome e vencedor de vários prémios, incluindo 5 Oscar e 5 Globos de Ouro, entre outros.
Apesar de tantos galardões em torno desta obra, eu tinha algum preconceito relativamente a este romance por saber que alguns prémios foram usados como arma política na guerra fria, o que me deixava dúvidas sobre o seu valor intrínseco. Agora tenho de reconhecer que é de facto um grande romance que mistura componentes históricas, paixão romântica, prosa e poesia e enraizado no legado filosófico e literário dos escritores geniais da Rússia: Dostoiévski e Tolstoi.
A obra divide-se em duas partes: a primeira até à I Guerra Mundial e início da revolução russa, esta arranca com a apresentação de numerosas personagens de várias classes sociais, muitas delas ainda crianças e adolescentes, mas quase todas afetadas por questões de injustiça ou problemas familiares e onde conhecemos o quarteto das personagens em torno do qual se centrará a obra: Iuri Jivago, Toina, Lara e Antipov, na qual se casam e assim entram na segunda parte que começa no tempo da guerra civil russa, a vitória do exército vermelho e vai até à segunda guerra mundial. Temos assim quase meio século de história do País e onde já brotara a defesa dos valores de justiça e fé na grande literatura russa, mas que desembocou numa tragédia de desconfiança e perseguição política que estilhaçou famílias e o amor, nomeadamente na vida dos protagonistas vítimas de tudo isto apesar de abraçarem quase os mesmos valores e até professarem simpatia ou pelo menos não alimentarem antipatia pelo comunismo.
Zivago, médico e poeta com o seu conflito entre a fidelidade conjugal para com Toina e amor à família e a sua paixão por Lara que sofre de um dilema semelhante com a sua admiração pelo marido, o revolucionário Antipov, e o seu amor para com Iuri, aspetos que vão estar presentes no confronto da frente ocidental russa da 1.ª Grande Guerra e no campo da guerra civil na Sibéria a oriente, passando várias vezes por Moscovo e levantando questões filosóficas dos valores da revolução até ao extremismo e a desilusão de uma mudança que em nome da libertação levou não só à destruição como à opressão do povo que era para libertar. A estória não é contra os ideais revolucionários iniciais mas  evidencia como o seu evoluir acabou por destruir o que defendia de forma injustificada. No fim veremos os poemas de Zivago numa rara adição póstuma do trabalho poético do protagonista ao seu tempo de vida.
Gostei do romance, tive dificuldade em entrar nele devido ao elevado número de personagens que vão desfilando no início em espaços paralelos, mas depois de fixado o elenco, as suas relações, pensamentos e a evolução política no País, descobre-se uma grande obra, que fica mais rica para quem já conhece a literatura russa do século XIX, onde se é evidente a constatação de que a solução para as denúncias de injustiça e a defesa dos valores levaram depois a uma degradação desumana bem contrária ao proposto por Dostoiévski e, sobretudo, Tolstoi.
Uma obra que levanta questões políticas e filosóficas temperadas com um amor romântico racionalizado entre pessoas maduras que não deixam de se questionar sobre a relação entre as suas obrigações pessoais face à rendição sentimental às paixões o que o torna num excelente livro onde a razão e o desejo não convivem facilmente..

quinta-feira, 11 de junho de 2020

"A Cidade" de William Faulkner


"A Cidade" de William Faulkner", norteamericano laureado com o Nobel da literatura, é o segundo volume da trilogia da família Snopes, cujo primeiro "A Aldeia" li recentemente.
Em A Aldeia Lem Snopes dominou a economia rural do Velho Domínio do Francês, enriqueceu ao entrar na família de Will Varner e no fim partiu para a capital do condado: Jefferson. 
Aqui, a sua ambição desmedida não pára, para tal alia-se ao presidente da câmara, explorando a relação deste com a sua mulher e mãe da sua filha Linda, bastarda, mas que o levou ao casamento de conveniência. Assim, em paralelo, desvia bens municipais de que sai ileso devido à teia montada, enquanto os seus parentes, já conhecidos anteriormente, vão sendo atraídos do campo para esta cidade com atos mais ou menos duvidosos até ao desfalque no banco onde Lem e o sogro tem ações. A partir de então começa a fase deste subir no domínio da cidade, enriquecer e limpar o seu nome socialmente numa terra de moral conservadora das religiões protestantes britânicas e ainda vingar-se como marido traído, retendo Linda de quem depende grande parte do património que deseja, expulsa os elementos do clã que lhe sujam o nome e vai até ao sucesso final com vítimas pelo caminho. Ficam as pistas para o terceiro volume.
Toda a estória é contada por três testemunhas das práticas de Lem Snopes: (1) Rattlif que fora o principal narrador do primeiro volume que o compreende, explica e perspetiva as ações futuras dele; (2) Gavin Stevens, advogado e depois procurador público de Jefferson, que se apaixona também pela mulher de Lem e mais tarde por Linda e vive em permanente luta entre os seus sentimentos, a aproximação e o cuidado social, sendo alvo dos reparos e conselhos da sua irmã gémea, casada e com quem coabita e (3) o filho desta, Charles Mallison, cujos primórdios de Lem na cidade lhe foram contados por um primo e passa a testemunha e agente envolvido como criança e adolescente que servia de intermediário inocente entre partes em jogo.
O texto tem, por norma, um tom sarcástico, irónico ou de crítica social, o que o torna divertido, e recorre à técnica escrita de fluxo da consciência: o narrador vai expondo de forma cruzada e sequencial no parágrafo as ações, os comentários, os à partes, reposições de omissões de dados passados, as reflexões pessoais do narrador e até as suas hesitações, erros e correções. Isto obriga a uma grande atenção do leitor devido às variações bruscas no tempo, lugar e de sujeitos, com frequentes intercalações estranhas entre a introdução da ideia da frase e a conclusão do assunto.
Apesar de leitura difícil diverti-me muito, embora certos capítulos se tornem prolixos de pormenores do início à conclusão da ação devido ao fluxo da consciência, o que pode cansar, mas em paralelo permite um retrato social profundo das populações dos Estados Unidos longe dos grandes centros urbanos.

terça-feira, 2 de junho de 2020

"A Letra Escarlate" de Nathaniel Hawthorne


Excerto
"É assunto curioso de especulação, se o ódio e o amor não serão no fundo a mesma coisa... ...filosoficamente, as duas paixões parecem essencialmente a mesma, excepto que uma nos aparece cercada de uma luz celeste, e a outra de uma luz baça e vermelha"

Li o romance "A letra Escarlate", um dos clássicos da literatura norteamericana escrito no século XIX por um dos principais autores do país: Nathaniel Hawthorne, sobretudo famoso pelos seus numerosos contos e por esta obra, aqui traduzida por Fernando Pessoa.
Na cidade de Boston, então colónia de Inglaterra, é dominada pelos protestantes puritanos ingleses, sendo ainda mais extremados do que na origem. Hester, uma imigrante recente cujo marido médico ainda não chegara, é condenada a subir a um cadafalso na praça central com uma recém-nascida e a exibir para sempre sobre o vestido letra A de adúltera num pano vermelho, mas recusa-se a denunciar quem é o pai da filha, no evento ela descobre na multidão o seu idoso marido. Este, como médico e sem assumir o lugar de esposo, visita-a e obriga-a a manter o segredo da sua relação, mas permanece na cidade para descobrir e vingar-se lenta e continuadamente do ultraje, feito por alguém idolatrado pela sua virtude. Hester sobrevive pelos dotes de costureira isolada e de forma exemplar mas cheia de brio individual, só que o remorso e a vingança vão crescer neste terreno ultraconservador para pecados privados e estalar.
Hawthorne é descendente dos juízes que condenaram as bruxas de Salém e grande parte da sua obra vai no sentido de destruir a intolerância e este romance entra neste género. A narrativa está cheia de reflexões sobre a moralidade pudica sem amor cristão e da luta no interior da consciência e dos sentimentos das personagens, os diálogos estão subjugados a esta análise, além de descrições pormenorizadas da cidade, vestuário e costumes.
A escrita é trabalhada com grande qualidade estilística e a suas metáforas e comparações são extensas, gerando parágrafos densos, algo longo e profundos. Apesar de tudo, o autor tempera no carácter das suas personagens para que a leitura não se torne tão negra quanto a sociedade que descreve. Um magnífico romance que vai muito além da sua trama.