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domingo, 25 de janeiro de 2026

"A Multiplicação dos Milagres" João Pedro Porto

 

Após vários anos, regressei ao escritor de ficção e poesia açoriano João Pedro Porto, com a leitura do seu recente romance "A Multiplicação dos Milagres".

Berto Brisi é um editor em Milão muito especial, não procura obras a publicar só espera que estas lhe venham até ele, é, por isso, conhecido como o Osga. Após conhecermos a sua origem perto de Turim, das suas deambulações por Itália e do histórico sucesso inicial com dois autores, a estagnação leva a que o dono do grupo comece a exigir novas publicações, até ele próprio criar três escritores de enorme sucesso, que, logicamente, ninguém conhece e para quem lhes arranja dados biográficos e acidentes em espaços expostos para justificar a respetiva existência, mas um dia eis que os três autores se cruzam com ele e entra-se numa espiral de situações complexas entre o criador, as personagens criadas e outras imaginadas por Berto.

Uma narrativa deslumbrante, surrealista que lembra Italo Calvino, temperada com absurdos kafkianos e de Saramago, unidos pelo brilhantismo da mitologia pagã pinceladas com o fascínio da história cultural, mitológica e geografia da península itálica, construída com uma escrita mirabolante de grande riqueza lexical e estonteante que monta um edifício todo ele hiperbólico e maravilhoso.

Tal como na sobrecapa, a zona central do livro está ocupada por mais de duas dezenas de desenhos e aguarelas do reconhecido pintor desenhador açoriano: Urbano, várias parecem referências da narrativa, ou esta às pinturas, que enriquecem a obra, complementando o texto com imagem.

Tal como em "A Brecha", João Pedro Porto é um escritor Açoriano, mas não produz obras de cariz regionalista, os seus livros ultrapassam a fronteira  temática da açorianidade em que, por vezes, alguns criadores deste arquipélago se limitam, sem deixar de ser um membro da cultura Regional.

Gostei muito, li em ritmo acelerado as piruetas da narrativa, mas não é um texto fácil, pois além das numerosas referências culturais, umas reais, outras lendárias da península Itálica, com enfoque em Dante, que mostram o grande conhecimento do autor sobre esta região as reviravoltas e maravilhoso da narrativa fazem-nos perder nesta vertiginosa história, com histórias  no seu interior.

Para quem gosta mesmo de literatura em estado puro, a escrita é muito bela e cheia de frases e ditos que importa sublinhar pelas ideias que encerram e recomendo vivamente este docinho literário.

segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

"O Nervo Ótico" de María Gainza


Acabei de ler um livro muito elogiado pela crítica e numerosos leitores "O Nervo Ótico" da argentina María Gainza. A obra embora seja ficção não corresponde a um romance, são uma série de contos ou crónicas narradas por uma personagem feminina, guia turística, amante de pintura e residente em Buenos Aires.
Cada capítulo corresponde a uma crónica diferente no qual a narradora nos faz recordar um quadro, por norma do Museo Nacional de Belas Artes de Buenos Aires, e cruza a sua situação pessoal com os efeitos dessa pintura sobre ela ou conta um pormenor ou aspeto central da vida do pintor.
Assim, ao longo das diferentes estórias vamos percebendo pormenores da vida da narradora: a sua gravidez, memórias de família, a doença do marido, a juventude e namoros deste, a doença dela, o pânico de voar, relações de amizade que servem de mote para valar de episódios da vida, o estilo de pintura de artistas argentinos como o maneta Cándido Lopez, o espírita Augusto Schiavoni, ou outros e ainda nomes da pintura europeia como o mestre em pintar cavalos de Dreux, o academismo incómodo de Courbet, o deficiente Toulouse-Lautrec, uma partida de mau-gosto de Picasso e uma certa inveja de El Greco face a Michelangelo Buonarroti, etc.
Saliento a excelente escrita da María Gainza, dá prazer a sua estética, muito contemporânea, bela e fácil de ler, nem sempre comum nalguns novos estilos de escrita. 
Por norma sou um grande apaixonado por literatura que junta narrativa e informações artísticas como pintura e me faz descobrir obras ou autores. Hoje em dia com a internet posso complementar esses dados com pesquisas onde aprofundo essas indicações. Curiosamente, este livro conseguiu isso tudo numa técnica narrativa original, mas o livro não me deslumbrou como esperava, talvez porque as expectativas já eram muito altas após tantos elogios. Contudo, suspeito que entre as razões da minha falta de deslumbramento se tenha prendido com o grande número dos artistas da obra não serem os que mais me tocam e quando refere os que mais gosto a personalidade que deixa transparecer não é a mais favorável, assim aconteceu com Picasso e, sobretudo, com El Greco, por quem tenho uma grande admiração e conheço extensivamente a sua obra exposta, inclusive em Toledo.
Há um outro aspeto que me incomodou: a narradora é sempre a mesma mas há pormenores desta que não me soam coerentes e senti isso dentro de um mesmo capítulo. Apesar de tudo é uma obra interessante que dá a conhecer artistas, nem sempre os que mais brilham na constelação da história da pintura, e tem uma escrita que encanta.

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

"A Lebre de Olhos de Âmbar" de Edmund de Waal


O arranque das leituras do ano 2020 coincidiu com uma excelente obra, uma das que mais gostei nos últimos anos. "A lebre de olhos de âmbar" do artista plástico inglês de ascendência holandesa e judaica Edmund Waal, mas não é um romance, nem ficção, é sim a história da família judia Ephrussi desde o início do século XIX de que o autor descende, com base na sua investigação e da sua relação com uma coleção de pequenos objetos japoneses que atravessou várias gerações e chegou até ele.
Edmund é um escultor oleiro que ganhou uma bolsa para Tóquio para desenvolver o intercâmbio cultural e linguístico entre a Inglaterra e o Japão. Na sua estada neste País, onde residia um seu tio-avô, entra em contacto com uma coleção de família de pequenos utensílios nipónicos antigos, feitos para prender objetos aos quimonos, artisticamente esculpidos e denominados netsuke, de que depois se torna herdeiro descrevendo vários deste conjunto de 264 peças. O fascínio dos netsuke leva-o a tentar saber como chegaram até aos seus antepassados, atravessarem gerações e sobreviverem a duas guerras mundiais e perseguições.
A história começa como o seu tetravô, um judeu polaco no interior da Ucrânia, criou uma empresa em Odessa, enriqueceu, colocou os seus filhos em Paris e Viena para ampliar os negócios e estes construíram um dos maiores impérios financeiros na Europa, grandes palácios, integraram-se na elite austríaca e francesa, tornaram-se mecenas, colecionaram obras de arte e conviveram com grandes artistas e pensadores deste Continente: Renoir, Monet, Pissaro, Moreau, Rilke, Proust, Mahler, etc. Membros serviram de modelo a grandes personagens da literatura e a quadros impressionistas, enfrentaram o preconceito a judeus, viram o seu esplendor e riqueza devassado pelos progroms, queda do império Austro-húngaro e ocupação de França pelos nazis. Os que sobreviveram até hoje são cidadãos comuns, dispersos por três continentes mas onde a cultura, a arte e o colecionismo está presente, partilham outros credos religiosos e continuam profissionalmente válidos e ativos.
Neste relato compreendemos o estilo de vida, os defeitos e o glamour da alta sociedade europeia por mais de 100 anos. Veremos como  Charles Ephrusi foi o modelo de Proust para Charles Swann e por quem os netsuke entraram na família em Paris e os enviou para Viena. Saberemos como estes escaparam à Gestapo, passaram por Tóquio e agora estão em Inglaterra em casa de Edmund. Veremos como caiu o império centrado em Vienta, como foi a entrada de Hitler na cidade e a ocupação inicial desta e dos americanos em Tóquio.
Os autor escreve muito bem e narra de uma forma que até os momentos difíceis e de horror estão trespassados por ternura, não faltam reflexões pessoais de Edmund, descrições do que o património da família foi e é hoje e de como era a vida nessas cidades das elites sociais. Como a guerra espoliou e como Estados atuais apagaram as suas culpas. Tudo isto sem nunca o texto se render ao amargo dos lesados devido ao amor de família que atravessa toda a narrativa até se virar para as atuais crianças futuras herdeiras dos netsukes.
Fácil de ler, com várias fotos e uma grande obra escrita já no século XXI que mostra o que foi e é a Europa ao longo dos últimos 200 anos. Uma maravilha que recomendo.
Um netsuke em forma de noz (imagem Wikipédia)

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

"Um Crime Capital" de Francisco José Viegas

Excerto
"Falta-te alguma experiência literária para seres um bom polícia. Todos nós devíamos, antes de entrar para isto, ler uma biblioteca."

"Um crime capital" foi o primeiro livro que li de Francisco José Viegas, homem dos meios da comunicação social e da cultura em Portugal e com vários livros publicados de poesia e policiais traduzidos e é nesta última categoria que o presente romance se insere.
Após a realização de um concerto de música erudita integrado na organização do "Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura" um casal de ouvintes é descoberto morto na bancada do anfiteatro, pouco depois um brasileiro do sistema informático do evento é baleado. São estes os pontos de partida para o velho polícia da judiciária Jaime Ramos investigar, então cruzar-se-á com uma antiga amante envenenada que lhe deixa recordações antigas, com uma rede de contrabando de quadros de pintura brasileira que tem como base a cidade do Porto e usa este evento europeu em proveito próprio, com a descoberta de adultério entre casais de sócios inimigos públicos mas cooperantes na clandestinidade e com um advogado de um clã do Brasil da alta-finança e comércio de arte que faz a ligação entre o interesses nestes dois países lusófonos.
Este romance é um exemplo de que uma obra do género policial pode também ser uma boa obra de escrita literária, fornecedora de informação cultural  que aproveita um acontecimento histórico, neste caso a Porto-2001, tendo mesmo sido publicado em folhetins num jornal da cidade durante aquele importante evento cultural, mantendo um vertente lúdica, de mistério e qualidade cultural.
Um romance que descreve com poesia e realismo a paisagem e o clima da cidade do Porto, que fala de prazeres particulares em forma de hábitos e tem a inteligência de apresentar pintores brasileiros e falar de livros, semeando interesses culturais sem maçar o leitor e assegurando o ritmo da narrativa. Jaime Ramos é um detetive à moda antiga, com gostos pessoais bem vincados, fugindo à disciplina burocrática e desencontrado com este presente informatizado e acelerado, ama o seu Porto belo, chuvoso e com passado e de onde é capaz de fugir à revelia das regras para pensar com cabeça fria e à distância, numa ilha dos Açores de onde descreve maravilhas que passam fora da rota do vulgar turista deste Arquipélago.
Gostei muito e lê-se com facilidade e com qualidade de escrita, informação e formação. Espero voltar ao escritor.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

"Ao arrepio" de Joris-Karl Huysmans


O romance "Ao arrepio", por vezes traduzido por "Às avessas", é considerado a obra-prima literária de Joris-Karl Huysmans e a mais importante do estilo decandentista surgido em França no final do século XIX e terá influenciado Wilde para Dorian Gray. Apesar de revolucionário no estilo, é uma obra algo difícil pelo grande número de géneros culturais tratados e referências a autores e seus trabalhos.
Des Esseintes é o herdeiro de uma família nobre e heróis de França, mas de uma fragilidade oposta à dos antepassados Após o colégio religioso de classe entra numa vida de prazeres à sombra da riqueza, desfrutando tudo o que a sociedade lhe pode oferecer, até sentir o declínio do mundo que o cerca. Decide então afastar-se e criar numa casa o seu mundo-museu, cerca-se de tudo o que admira para fugir à realidade e entrar no ideal que lhe traga as recordações que valoriza e admira. Assim, desde o estudo das cores dos aposentos, complementada com gemas numa tartaruga para efeitos de luz; passando pela dissertação da biblioteca de clássicos da Roma decadente; continua pela descrição de quadros e de artistas contidos nas divisões; analisa a adequação das flores do jardim para criar cenários idealizados; ensaia  aromas que geram atmosferas e lembranças; disserta sobre músicas de excelência da história e critica os escritores seus contemporâneos. Tudo isto sempre com profundidade, algum sarcasmo e indolência final. Existem momentos de uma riqueza descritiva geniais e outros surpreendentes que se arrastam até um final não menos imprevisto.
Após o romance um prefácio do autor escrito 20 anos depois, onde disserta sobre o conteúdo do romance, o seu impacte no meio cultural de Paris, até o conflito que gerou com Zola, e aponta as sementes que o levaram em seguida não só à sua conversão ao catolicismo, como os pontos desenvolvidos nos seus posteriores romances, como a personagem Durtal de "Além" que aqui falei.
Apesar de por vezes ser fastidioso nas descrições e da letargia com que Des Esseintes se reveste, gostei muito da obra, contudo a bagagem informativa e os aspetos culturais focados não a tornam fácil a um leitor ávido de desenrolares rápidos e narrativas simples dos momentos, um livro diferente entre tudo o que já li.

sábado, 28 de janeiro de 2017

"O leilão do lote 49" de Thomas Pynchon


A experiência de leitura deste pequeno romance "O leilão do lote 49", do norteamericano Thomas Pynchon, teve a particularidade de apesar de muitas vezes me ter feito sentir como que perdido na narrativa, ao me cruzar com personagens paranóicas, situações absurdas, uma mistura de informação científica séria com aspeto de fantástico junto com irrealidades que se parecem verdades, além de uma série de cenas cuja lógica aparentemente está ausente, levou-me a um livro que me cativou desde a primeira página. O evoluir das situações onde a coerência está como que ausente gera uma história que toma um aspeto de mistério a resolver na tentativa de decifrar um conjunto de pistas que parecem loucas.
Oedipa é informada que foi nomeada testamenteira de um ex-namorado, multimilionário e que para as suas funções poderá contar com a ajuda de um advogado de um escritório com quem o falecido trabalhava. Surpreendida parte para a localidade deste e onde ele era o maior proprietário e investidos da zona. A partir daqui as peripécias sucedem, cada uma mais estranha do que a outra, desde a interferência do seu psiquiatra que enlouquece, ao advogado com quem ela trai o marido mas que a seguir foge com uma adolescente, passando pela envolvência do esposo como homem da rádio, mas que tem alucinações com LSD, ao contacto com um grupo musical de adolescentes denominado Paranoids cujo o nome é coerente com a respetiva forma de ser, até um grupo de teatro cujo ator principal e encenador adapta uma peça antiga deixando pistas que se combinam com elementos encontrados na coleção de selos do morto, que apontam para a existência de uma rede de correios secreta instalada na sociedade para se autonomizar das redes oficiais que Oedipa tenta descobrir através de investigadores de literatura, cientistas que trabalham na entropia dos sistemas e filatelistas, levando tudo isto a uma série de situações de paródia, com informações subtis de análise social e psicológica nos Estados Unidos.
A obra parece uma evolução dos livros de Kafka, juntando cultura pop e erudita, clássica e contemporânea, além de ciências, num mundo absurdo com análises psicológicas que geram um estilo original, por alguns denominado de pós-modernista, que a mim parece-me trazer para a literatura as correntes artísticas da pintura pop-art de Warhol, do surrealismo de Dali, entre outros, mas sendo prolixa em informações como um quadro de Pieter Bruegel, gerando-se assim uma mescla onde nos enredamos que apesar de labiríntica me deu muito prazer em sentir-me perdido em situações por vezes de difícil compreensão, se não mesmo incompreensíveis.
Gostei, contudo só recomendo a quem os esforço de análise do que se está a ler e da apreciar a forma de escrita e narrativa dão prazer, mas não a um leitor que se entusiasme apenas com enredos e textos fáceis de seguir sem esforço.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

"Adoração" de Cristina Drios


Acabei de ler o romance "Adoração" da escritora portuguesa Cristina Drios, estreado este ano de 2016 e a primeira obra que leio desta autora que tem merecido rasgados elogios nos meios literários nacionais.
O romance decorre em três épocas diferentes, que se alternam no decorrer da narrativa: a mais antiga em torno da execução do último quadro de Caravaggio, "Adoração com São Francisco e São Lourenço", exposto na capa do livro, e cobre, sobretudo, os últimos anos da vida do pintor após um crime cometido que o tornou num artista admirado mas foragido da justiça, bem como uma recriação da do patrocinador desta obra; outra época corresponde ao tempo que antecedeu ao roubo desta pintura em 1969 na cidade de Palermo, um facto real, envolvendo um conjunto de personagens relacionadas com o furto e a máfia. O último, quase contemporâneo, envolve uma jovens nascida no dia do roubo e um comissário da política marcado pela sua luta contra o crime organizado na Sicília, período em que se unem todas as pontas deixadas em aberto nos tempos anteriores.
Esclareço desde já que no conjunto mais restrito dos meus pintores preferidos está Caravaggio e este é talvez aquele que melhor conheço e de quem mais quadros visitei, pelo que tudo o que diz respeito a ele me interessa e me cativa, sentimentos que me podem influenciar na admiração que tive por este romance.
Quando comprei o livro, vendo a nota na capa "um polícia, uma rapariga, a máfia e Caravaggio" estava à espera de um mero thriller ou de um policial... mas não é. Temos um romance culto cheio de informações do conjunto dos trabalhos do artista, com denúnica dos demónios do pintor e dos demónios na Sicília de hoje, bem como a busca da redenção de quem espera o perdão, numa obra que dá a conhecer os últimos anos desesperados e de fuga do pintor, o génio cuja moralidade não é exemplar, numa sociedade onde os que se apaixonam pela arte também podem ter muito a esconder, problemas que à sua maneira se prolongam para os dois outros dois períodos da história ficcionada e mostram como hoje os mesmos fantasmas chiaroscuri característica dos quadros do pintor se repetem, apesar da arte que tempera este mundo de sombras e luz com a beleza de obras-primas onde a alma dos artistas fica exposta. Claro que se deduz que gostei do livro que tem muita reflexão íntima da mente dos personagens incluindo Caravaggio

domingo, 27 de março de 2016

Feliz Páscoa para todos

Ressurreição de El greco

Aproveito esta mensagem para desejar a todos os que por aqui passam os meus votos de Feliz Páscoa.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Férias Toscânia - Florença: o berço do Renascimento

Florença: imagem daqui

Florença foi uma das cidades que mais cedo desejei visitar, contudo, talvez tenha levado mais de uma década entre a decisão e a programação da visita, mas depois de ter passado rapidamente por Veneza, reconheci que não poderia passar mais tempo para comparar aquelas que artisticamente e arquitetonicamente devem ser as duas cidades mais marcantes da Itália.
Espero neste berço do renascimento e património mundial, não só conhecer a arquitetura como arte, como os grandes Giotto, Boticelli, da Vinci, Michelangelo Buonarroti e Caravaggio e outros artistas que viram projetada a sua luz genial através da família Medici na terra do grande Dante cuja obra-prima, "A divina comédia" já li e também de Maquiavel.
Sendo esta a capital da Toscânia, à qual cheguei de comboio para conhecer a paisagem entre a Lombardia e esta cidade, e estando numa das províncias mais cosmopolitas deste país, penso ainda visitar, pelo menos duas das cidades com património conhecido mundialmente e ainda na minha rota operática ter mais um grande momento musical, agora com um obra suis generis e como vai sendo curiosamente hábito, na Itália não ouço óperas italianas.
Espero assim ao longo desta semana colher impressões suficientes sobre a vida atual, a gastronomia e o estado da arte da cidade de Florença e da província da Toscânia.


domingo, 22 de março de 2015

"O Pintassilgo" de Donna Tartt


"O pintassilgo" de Donna Tartt que acabei de ler, que se serve da homónima obra-prima da pintura flamenga de Fabritius como ponto de partida, pode enquadrar-se no género literário habitualmente designado por "thriller", até porque os ingredientes e estrutura da obra estão lá todos, mas é também um romance muito mais profundo, pois para além da excitação e ritmo e ânsia a que este tipo de histórias normalmente se limita, há também uma reflexão e abordagem à sensação de perda de alguém que se ama, neste caso a mãe, e de quem estamos dependentes para encontrar o nosso espaço num mundo vertiginoso e niilista.  A escolha da autodestruição como revolta a esta perda e desnorte e a possibilidade de reabilitação da pessoa mesmo como consequência das más escolhas nesta via de protesto leva a uma interrogação no final do livro: será que o mal pode provocar o bem?
No romance vemos muito  de uma geração jovem norte-americana sem referências e sem o farol dos mais velhos, perdida entre a droga, a desatenção dos pais através de uma comunidade que passa pelo mundo da arte, dos antiquários e do submundo que também obscurece este grupo, com ladrões, chantagens, vítimas inocentes e culpadas.
Um livro extenso, quase 900 páginas, muito bom, num estilo de escrita que parece casual mas cuidado tipicamente norteamericano, que consegue conciliar a literatura de fácil leitura para quem se contenta com romances de entretenimento, mas que junta sem perturbar interrogações de maior dificuldade de resposta para leitores mais exigentes literariamente. Gostei muito e recomendo a qualquer pessoa.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

"Servidão Humana" de Somerset Maugham



Tendo muito de autobiográfico, "Servidão Humana" é um livro sobre as dores do amadurecimento de uma pessoa desde a infância até à entrada na vida adulta, um período que se inicia cheio de esperanças no futuro que se vão desmoronando à medida que embatem no mundo real e deixam o amargo triste da desilusão e da frustação.
A obra começa com a perda dos país de Phillip aos dez anos, a ida para casa dos tios onde a religião faz parte da profissão e das decisões, assim ainda criança o protagonista começa logo por ver-se numa teia de crenças que condicionam as suas decisões e a insegurança para romper essas amarras, quando consegue finalmente as primeiras libertações no final da adolescência é altura de serem as dificuldades da vida e as limitações humanas a evidenciarem que dificilmente se totalmente livre.
Na transição para a vida adulta novas lutas pessoais entram em jogo, as amarras das paixões, a necessidade de autossustento para sobrevivência num mundo que nem sempre é justo ou compreensivo com o protagonista e onde os erros também contribuem para essa servidão, até que se descobre que viver é saber adaptar-se a tudo isto.
Um excelente livro, magnificamente escrito, que mostra a educação e o crescimento de uma criança na classe média inglesa, onde o peso da religião e dos costumes tem muita força e cheio de referências ao mundo do estudo da arte em Paris, com destaque para a pintura e da medicina em Londres no início do século XX, bem como da realidade de sobrevivência difícil de então.
Apesar de se saber que é um romance muito autobiográfico, a obra tem uma densidade, ternura, irritação e reflexão com uma magnífica narrativa que a torna numa obra-prima literária. Recomendo a quem aprecia excelente literatura. Gostei muito.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Toronto: Visita ao AGO

Este Outono no sul de Ontario, apesar de persistirem temperaturas excessivamente altas para a época, a chuva tem ocupado o lugar da neve, o que torna mais desconfortável o passear pelas ruas de Toronto.
Apesar da baixa desta cidade estar perfeitamente adaptada a acolher visitantes e clientes durante as más condições meteorológicas, devido ao sistema de redes subterrânea PATH, já me referi a esta rede aqui há quatro anos, optei por ir ao AGO - Art Gallery of Ontario, onde durante horas observei quadros dos artistas canadianos, incluindo contemporâneos e do Grupo dos Sete, paralelamente uma exposição temporária de grande qualidade sobre Chagall e outros artistas russos estava patente neste museu.
Apesar de se estar no meio da semana, o AGO estava cheio de gente, contrariamente à última visita que fiz a uma instituição do género já este mês em Lisboa.

domingo, 3 de abril de 2011

Templos do Faial 1 - Nossa Senhora das Angústias

Dizem ser a herdeira ou depositária da primeira imagem religiosa chegada à ilha, Nossa Senhora das Angústias, e como tal o templo com raízes mais antigas da ilha, aspecto que nunca consegui ver completamente comprovado.
Com uma fachada relativamente imponente típica do século XIX, possui um interior arquitectonicamente simples de uma nave. Apresenta várias decorações recentes, talvez porque tem sido frequentemente afectada por sismos (pelo menos 1973 e 1998), onde se saliento trabalhos em madeira a recordar a antiga talha dourada, os brazões das famílias nobres da história do Faial e alguns quadros já deste século que embora sem rasgar com os estilos de pintura mais tradicional, mostram algumas perspectivas sobre o modo de encarar a arte no nosso tempo.
Nas imagens saliento a da própria Senhora das Angústias, que apesar de não apresentar grandes dimensões, possui um rosto muito expressivo e um equilíbrio global das formas interessante.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

ROMA: encontro com a mùsica e impressoes finais

Afinal hà mùsica em Roma!
Primeiro encontrei-me com ela a anunciar-se à porta de uma igreja, uma vez que està a decorrer um festival de Mùsica Barroca em Roma... assisti a um brilhante concerto com obras num òrgao do século XVIII.
Depois a mùsica expos-se à porta da sede da Orquestra Sinfònica de Roma, onde a bilheteira anunciava um concerto com 2 obras de Borodini e a 3.° Sinfonia de Brahms, dirigida pelo paulista Luis Fernando Malheiro, gostei de o ver dirigir e foi imensamente aplaudido.
Assim, esta viagem parece completa nos meus gostos: història/arqueologia, pintura, literatura, gastronomia, arquitectura e a mùsica...
Os dois grandes pintores Michaelangelos, revolucionàrios da arte, mostram-se aqui em todo o seu explendor e contradiçoes mùtuas.
Fiquei ainda ciente da importancia da obra de Bernini e muitos outros artistas.
Apesar de tanta arte, Roma é plena de vida popular e se tiverem possibilidade, venham ver esta cidade fascinante.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

ROMA cidade de arte

Galeria de Roma Antiga, quadro de Giovani Paolo Panini, imagem daqui

É isto Roma, uma galeria de arte, onde a arqueologia mostra os restos arquitectónicos da época clássica e do que foi a revolução das artes a partir do renascimento até à actualidade ao nível da pintura, escultura e da arquitectura. Tudo isto em qualidade e quantidade que sò vendo permite compreender a riqueza patrimonial desta cidade.

Também importa recordar que até ao século XIX a arte aqui tinha, sobretudo, o apadrinhamento do clero, por isso, a grande maioria das obras relacionam-se com arte religiosa... embora a igreja parece ter tido uma maior tolerancia na manifestaçao dos devarios dos deuses do classicismo do que com os prazeres dos homens.

Galeria de Roma Moderna Giovani Paolo Panini, imagem daqui

Como também sou melómano, tenho de reconhecer que na área da música é o centro e o norte da Europa que dão cartas, sobretudo o triângulo Alemanha, Áustria e República Checa. Não me pronuncio sobre o norte de Itália que não conheço. Mas, seguramente, que a Lisboa oficial mais a sua Fundação Gulbenkian não ficam atrás de Roma na arte de Orfeu.

Ah... em Roma é possivel encontrar boa gastronomia a bom preço e servida com simpatia. A condiçao é nao ficar amarrado aos restaurantes para turistas, pois estes no estilo sao iguais em todo o lado.

Jà agora, muitas... muitas vespas no transito caòtico e indisciplinado da cidade que pouco respeita o peao...

Mas vale a pena vir a Roma!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O REGRESSO DA MAGIA A PORTO PIM

Imagine-se entrar numa antiga fábrica baleeira, cercada pelo cenário paradisíaco e mágico da Baía de Porto Pim...

Momento de música e pintura no forum Multi-Artes

Depois, entre caldeiras assistir a uma demonstração de execução de escultura em tufo vulcânico ou lava, prosseguir para outra sala com uma representação teatral a meia-luz, baseada nas cartas de Franz Kafka ao Pai e terminar num espaço de exposições com um concerto intimista de Guitarra da Terra, onde se executa em simultâneo uma pintura dos sentimentos do momento, enquanto nas paredes pendem versos de Pablo Neruda em fotografia de Roberto Santadreu...
Consegue? Foi isto o que se passou no Centro do Mar no Fórum Multi-Artes numa das noites dos Encontros de Porto Pim no último fim-de-semana.

Oiça aqui Alexandra Boga, agora com viola clássica, numa das músicas mais belas da noite.

Artistas envolvidos: Escultura - Al Zei; Teatro - Companhia "O Dragoeiro"; Pintura - Margarida Madruga e Música - Alexandra Boga.

quinta-feira, 9 de abril de 2009

QUINTA-FEIRA SANTA, com el Greco

Embora não seja um perito em pintura, sou um admirador desta arte e passo horas em museus a deliciar-me com obras-primas, desde de um passado mais ou menos longínquo até às contemporâneas. Em Praga fui surpreendido pela imagem de Cristo Chorando, pintado por El Greco. Não conhecia o quadro, mas... surpreendido, ali fiquei perdido num turbilhão de sentimentos que aquela expressão desencadeava em mim e as reflexões que depois se juntavam.

Praga, Galerias Nacionais- Palácio de Sternberg

Não sendo um quadro a representar um dia específico da vida de Cristo, nunca o consegui retirar do momento de solidão, tristeza e sofrimento descrito para a Sua oração no Jardim das Oliveiras - entre a Última Ceia de Quinta-Feira Santa e a morte na Sexta-feira da Paixão. Um Cristo que velava, enquanto aqueles que se diziam seus discípulos dormiam e o mundo planeava atacar mais uma vítima inocente. Cena relatada no passado, mas um retrato tão comum nesta época... tudo isto vi neste rosto de lágrimas contidas, mas a chorar... pintado por El Greco.