sexta-feira, 27 de setembro de 2019

"Máquinas como Eu" de Ian McEwan

Excerto
"... a mente que outrora se tinha revoltado contra os deuses estava prestes as ser destronada fruto do seu próprio extraordinário alcance. Numa versão comprimida, inventaríamos uma máquina um pouco mais inteligente do que nós... ...Que necessidade haveria então de nós?"

Acabei de ler o último romance do inglês Ian McEwan, que me tem fascinado nos últimos tempos e este apesar de me ter surpreendido em muitos aspetos não me desiludiu
"Máquinas como Eu" possui um conjunto de originalidades: é do género ficção científica mas passa-se no passado, década de 1980; está imbuído de referências históricas da época, mas estas por norma têm sentido oposto ao dos acontecimentos então ocorridos de facto adiciona até subtilezas dos problemas atuais do Brexit; apesar de conter andróides que nem hoje existem e especular sobre a sua humanidade, inclui um conjunto de tecnologias, gadgets e internet que então não existia e ainda transportando para o momento génios reais há muito então desaparecidos, surpreendendo-nos a cada passo com estas alterações ficcionadas. Penso que a geração jovem atual pouco conhecedora do passado recente talvez nem se aperceba como McEwan reconta a história contemporânea da juventude dos seus pais, mas para estes parece-me interessante verem uma realidade diferente da que assistiram.
Charlie Friend com o dinheiro da herança da mãe opta por comprar um exemplar da última geração de robôs humanizados, como os de género feminino esgotaram ficou-se por um Adão. Este tem opções de programação de personalidade, Charlie opta então que as características sejam selecionadas a 50% por ele e os restantes pela sua amiga/vizinha por quem está apaixonado, para que ele se torna como um filho de ambos. Só que Adão não é uma simples máquina, aprende, desenvolve comportamentos sentimentais e sexuais, tem uma lógica nas relações humanas e de paixão incapaz de integrar a hipocrisia das pessoas que viabiliza um entendimento social e este choque vai colidir com os problemas pessoais de Adão e da namorada e com reflexos na justiça e neste amor triangular.
McEwan escreve de uma forma que intercala beleza literária e poética ao texto com reflexões oportunas sobre o limite da distinção e sobreposição de carácter do que é um ser humano ou uma máquina e várias outras questões éticas e sociais não só da década de 1980, como também do passado e presente face ao evoluir dos conhecimento, da tecnologia e respetivos choques com a fé/crença íntima de cada um. Gostei muito .

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Coelho em Paz de John Updike

Excerto
"Estou velho de mais para me renovar."

Terminei o último volume desta tetralogia de John Updike: "Coelho em Paz", também vencedor do prémio Pulitzer para ficção. À semelhança de cada romance anterior a sequência entre eles corresponde ao salto de uma década, agora está-se no ano de 1988, na transição de Reagan para Bush(pai), em plena perestroika, declínio do domínio soviético, ascensão do terrorismo árabe e a SIDA (aids) é uma epidemia que marca toda a sociedade. Harry já é avô, tem agora 56 anos, sofre de graves problemas cardíacos, o seu estatuto social leva-o a ter um condomínio na Florida para o inverno, delegou a gestão do seu stand automóvel no filho, Nelson, sente-se atraído pela nora, enquanto a sua mulher permanece com espírito jovem e empreendedor. Apesar das disfunções da idade e da doença, os hábitos e defeitos de Coelho mantém-se e a sua má relação com Nelson persiste na desconfiança mútua e ressentimentos, mas encanta-se com os netos.
Provavelmente com o objetivo de pôr termo à tetralogia, Updike coloca este cinquentão com tiques de um septuagenário. As imensas memórias do passado permitem narrar a evolução dos costumes e do urbanismo nos EUA e talvez sejam estas recordações as partes mais profundas e trabalhadas do livro. O facto de o ter envelhecido antes da idade e doente permitiu manter os desejos sexuais num corpo com limitações físicas ainda com o peso do desejo no seu comportamento. Coelho deixa-se arrastar por uma relação que evidencia a falta de valores éticos de quem se deixa levar pelo instinto. Igualmente o choque de gerações é agudizado pela toxicodependência de Nelson que leva a uma situação insustentável na família e serve para expor situações de preconceito, a não reconversão das pessoas na velhice embora volúveis ao amor avô-netos.
Este volume e o primeiro foram os que mais gostei, apesar das questões de sexo serem em todos tratadas sem tabus de pensamentos e atos e tal levar a uma linguagem grosseira no texto se recato, a exposição das fragilidades da velhice, o amor aos netos, a casmurrice de quem arca com muitas memórias e se vê no ocaso da vida e o retrato da evolução social de 40 anos nos EUA dão a este romance muita ternura e interesse. Até consegui simpatizar com este Coelho: um cidadão que teve sonhos elevados quando estrela de basquetebol na juventude que se tornou numa pessoa banal e cheia de complexos, mas atado aos desejos sexuais e incorrigível, apesar de ver os defeitos de todos os outros, ele foi um homem comum insatisfeito que procurou o amor sem o saber dar ou receber.

segunda-feira, 9 de setembro de 2019

"Coelho Enriquece" de John Updike


Excerto
"Como se pode respeitar o mundo se este é conduzido por um grupo de miúdos que envelheceram."

No terceiro volume da tetralogia Coelho, o escritor norte-americano John Updike transporta-nos para a vida nos Estados Unidos em 1979, na presidência de Carter em plena crise dos reféns da embaixada dos EUA em Teerão.
Em "Coelho Enriquece" vencedor do prémio Pulitzer para ficção, Harry já é quarentão, acomodado numa vida social e profissional rotineira e entediante, após alcançar o desafogo financeiro pelas cedências pessoais economicamente oportunas e quando o filho jovem sente todas as inseguranças da idade (muito semelhantes às do progenitor que ele agora não compreende), originando o conflito de gerações ao tentar encaminhar o herdeiro contra a vontade deste que se quer afirmar sem se afastar de casa e responsabilizando o pai de todos os seus males. O protagonista casualmente encontra uma jovem que suspeita ser sua filha da relação contada em "Corre, Coelho" que irá despertar a sua curiosidade e levá-lo a agir em conformidade.
Apesar de neste volume não haver o culminar de uma crise e depois a descompressão à semelhança dos anteriores, a tensão vai ardendo sempre em lume-brando com picos mais elevados mas sem nunca ser plenamente resolvida. Um dos aspetos mais fortes neste romance é a insistência da vertente sexual das personagens com numerosos pormenores libidinosos e obsessivos  na vida íntima de Coelho que são descritos sem filtro na narrativa. Embora sem um estilo pornográfico, as descrições destes atos e pensamentos eróticos são pormenorizadas com um realismo intenso que podem repugnar alguns leitores. Pior ainda quando parecem ser transversais a toda a sua geração saída da revolução sexual com a queda de tabus e ávida de experiências antes que a velhice chegue.
A escrita bem trabalhada, por isso não casual, mas assegura aquele estilo realista de aparente despreocupação comum a muitas obras das últimas décadas nos Estados Unidos.
Gostei da história, recordei muitos acontecimentos noticiosos que marcaram a minha adolescência, aliás o prémio atribuído por norma premeia retratos históricos dos EUA, mas senti um certo enfado nas obsessões e pormenores da vida íntima de Coelho, não sendo eu partidário de censuras morais, aprecio algum recato e pudor em arte, apesar de Updike seguramente pretender retratar a influência do líbido das pessoas no seu comportamento social e mostrar que apesar de uma vida pública adulta ninguém na realidade se liberta das tensões hormonais iniciadas na adolescência, agindo-se emocionalmente muitas vezes como criança sob uma falsa fachada madura num permanente conflito.