quinta-feira, 29 de outubro de 2020

"As Mansão" de William Faulkner

Acabei de ler o romance "A Mansão" escrito pelo norteamericano galardoado com o prémio Nobel da literatura: William Faulkner. Este constitui o último da trilogia da família Snopes que li ao longo do corrente ano.
Esta saga familiar iniciada com a A Aldeia, onde Rattlif, um vendedor ambulante residente na cidade de Jefferson e excelente perceção, relata como Flem Snopes, o filho de um rendeiro recém-acolhido  nos domínios rurais Will Varner consegue, de forma capciosa e pouco escrupulosa, assumir a liderança dos negócios do homem forte e tornar-se senhor dos seus terrenos e ainda trazer parentes de forma a criar um clã ominoso e execrável que controle a zona. Seguiu-se a A Cidade, onde Ratliff, o seu amigo advogado Stevens e o sobrinho deste ainda criança relatam como o mesmo Flem vem com a mulher e a filha para Jefferson, a esposa deslumbra o advogado, enquanto a filha o tio e sobrinho, e em simultâneo por vias igualmente pouco dignas Flem estabelece relações com o Presidente da Câmara e banqueiro e com isso não só se torna maioritário na instituição como senhor da sua mansão e como afasta de forma vil os seus familiares que possam manchar a sua reputação pouco digna.
Este volume prossegue a saga de Snopes, desde a década de 1930 e prolonga-se pela de 1940 e é de novo contada pelos mesmos três narradores do segundo romance. Agora assistiremos ao modo como Flem se acomodou à sua situação de rico, como um primo Snopes detido de modo perpétuo nos volumes anteriores por falta de ajuda do líder do clã procurará agora vingar-se e o papel da filha do banqueiro em tudo isto a coberto de uma bondade ideológica onde tentará corrigir erros e retaliará dentro de portas, no que culminará com o fim do domínio regional de Flem Snopes.
Logo no início do livro Faulkner alerta-nos para a existência de incoerências entre este romance e os anteriores e de facto algumas são mesmo incompatíveis ou inconsistentes, mas faz parte da evolução de como ele desejou para as suas personagens, sendo que este último foi escrito duas décadas depois do anterior. Uma vez que os lera há poucos meses a memória logo se apercebeu de contradições e reformulações, por vezes extensas, de acontecimentos contados antes.
No que se refere ao estilo de escrita, Faulkner, além do quase permanente tom de ironia e insinuação a aspetos futuros, utiliza o fluxo de consciência, ou seja: a narrativa vai sendo destilada ao ritmo da memória, da fala e da observação dos acontecimentos, sendo ainda intercalada com análises e considerações do narrador que surgem encadeadas e sem filtro ao longo de frases extensas. Isto faz com que o texto pareça caótico com mudança brusca de sujeito, do tempo, do local ou do ângulo do comentário e exige grande atenção para o leitor não se perder. Eu adotei há muito um método de ultrapassar esta dificuldade em Faulkner: ler ao ritmo da narrativa, construindo mentalmente a história sem me fixar nos pormenores que a rodeiam, o que torna mais fluida a leitura, mas há por vezes que reler um parágrafo descubro aspetos da narrativa não fixados, só que o essencial fora retido. Ler Faulkner é um desafio, pois cada parágrafo é um denso ramalhete das mais díspares informações cuja beleza brota do conjunto e exige técnica.
O primeiro volume tem um tradutor diferente dos outros dois, estes parecem-me ter um brilho e vivacidade superior, mostrando como a tradução pode realçar ou enfraquecer um livro escrito em língua estrangeira. Há outros escritores com narrativas intencionalmente difíceis, mas poucos me cativam como Faulkner. Recomendo-o a quem gosta de desafios de leitura e sabe tirar prazer destes.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

"Os últimos dias dos nossos pais" de Joël Dicker

 
Citação
"A coragem não é não ter medo: é ter medo e, mesmo assim, resistir."

Após ter lido a segunda obra de ficção do escritor suíço Joël Dicker", regressei a este autor com o seu primeiro romance publicado "O último dia dos nossos pais" com a qual ganhou o prémio Escritores de Genebra de 2010, este é um livro que se distingue de todos os outros que ele desde então saíram, pois não é um livro policial nem uma obra de suspense apesar de incluído no género de espionagem.

Após a invasão alemã de França, no início da II Grande Guerra, o jovem de 21 anos parisiense, órfão de mãe e extremamente ligado ao pai, decide ir para Inglaterra para lutar contra o invasor. Em Londres é selecionado para integrar uma rede de espionagem na sua pátria a exercer em território ocupado. Acompanhamos a sua formação intensa com cerca de duas dezenas de pessoas, só uma é mulher, o que dura vários meses de exercícios duros com grande desenvolvimento de amizade e espírito de grupo, apesar de alguns irem sendo eliminados, os finalistas tornaram-se numa família coesa embora com gente diferente, Paul e Laura apaixonam-se, mas o respeito na equipa é total. Estes espiões são enviados para o terreno com tarefas específicas e separados uns dos outros, pontualmente cruzam-se mas o segredo das ações de cada um é fundamental para a segurança. Todos são ricos de sentimentos e o amor do casal ou a carência deste noutros está presente, mas o mais forte é o amor filial de Pal, o que o leva a uma medida drástica e de risco que depois será conhecida pelos colegas que nunca deixarão que um colega perca a honra de herói e até um alemão inimigo deixa-se cativar por aquele filho.

Apesar da escrita deste romance não se pautar pela criatividade e riqueza de figuras de estilo literário, o texto é todo ele de uma grande elegância e atravessado pela amizade, amor fraterno, filial e romântico, o que lhe confere uma grande beleza e mesmo quando a narrativa é de tensão e tragédia nunca perde o tom e postura calma, o que é uma raridade em obras de espionagem em ambiente de guerra e talvez este seja o melhor trunfo deste livro, pois a dor é coberta de ternura que se estende ao inimigo. Um romance diferente que gostei e fácil de ler.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

"Sinais de Infinito" de Humberto Moura


Acabei de ler o romance "Sinais de Infinito" da autoria de Humberto Moura, açoriano e residente na ilha do Faial e de quem sou amigo de família desde jovem, tendo recebido este exemplar por oferta do próprio, com dedicatória já há uns anos e já octogenários mas portador de uma grande lucidez e cultura em vários campos. 

A presente obra vem na sequência de outro romance do autor: "Sismo na Madrugada" que já li ainda antes deste blogue se dedicar à divulgação das minhas leituras, que me deixara então bem impressionado, o qual era referente a um filho do Faial e de mãe solteira que se destacara pela sua inteligência e por condicionantes pessoais e da ilha que o levara a sair da sua terra se tornara num jornalista de referência numa cadeia estrangeira e correra o mundo, passando a ser uma pessoa mundialmente influente, conhecida e próxima de muitos líderes  e acontecimentos que marcaram o século XX, mas que no ocaso da vida se recolhera às origens como um simples cidadão pouco compreendido pelos seus conterrâneos ainda isolados do exterior.

Sinais de Infinito prossegue a saga familiar através da neta: jornalista e igualmente famosa na mesma cadeia internacional de comunicação social. Contudo o anterior protagonista apenas soube da sua existência e a conheceu nas vésperas da sua morte já no final do anterior romance. Harriet Terra agora irá tentar perceber melhor quem foi o avô através dos seus amigos mais chegados no Faial nos últimos tempos e por um diário que terá sobrevivido ao sismo de 1998. Entretanto faz uma reportagem televisiva sobre a sua personalidade que coloca a ilha no palco do mundo, gerando um alvoroço na terra e a seguir vai visitar locais por onde ele andou e ver-se-á envolvida no cenário de uma das maiores guerras de transição do século XX para XXI.

O autor cria um romance com elementos históricos e conteúdo enciclopédico pelo saber e diversidade das personagens em torno das quais a obra progride que têm uma amizade de grupo: a jornalista conhecedora e crítica do mundo contemporâneo, um padre historiador do Faial, um médico local que questiona o seu papel na sociedade e, sobretudo, um investigador da Horta de ciências, entendido nos maiores filósofos, gnóstico e herético e interessado em descobrir o prolongamento da vida. A este núcleo juntam-se personagens secundárias que complementam o ramalhete: o presidente da câmara interessado em tirar proveito político do fenómeno, um leitor dos documentos dos Açores no arquivo nacional, uma criada do Pico entendida no saber popular e um operador de câmara sobrinho de um escritor famoso com sucessos sobre conflitos com temas de sociedades ocultas, religiões e o graal.

Deste leque brotarão numerosas reflexões sobre questões éticas e morais da sociedade contemporânea, menções a personalidades do passado e suas ideias que se destacaram pelo seu saber gnóstico, científico ou filosófico e foram vítimas dos poderes da sua época, o que permite um debate sobre os objetivos da vida, o envelhecimento, o prolongamento da esperança de vida com qualidade e as questões das ciências, tudo isto com uma pitada de especulação em torno do ocultismo e a colocação do Faial no centro de um papel messiânico para a humanidade. A referência a temas gnósticos, maçónicos e filosóficos tem um papel muito importante na obra.

A narrativa opta por ser escorreita sem a perturbação de escritas criativas que estão na moda, contudo autor destaca em itálico numerosas expressões locais e pensamentos que pretende levar à reflexão, postos em confronto, por vezes devem refletir a opinião do autor expressados pelos seus personagens, concorde-se ou não com essas deduções.

Gostei imenso da contextualização da Horta no evoluir da história dos últimos cinco séculos devido ao seu papel como porto que acolhia a navegação mundial que passava no Atlântico Norte e como polo das telecomunicações no final do século XIX até meados do XX, dando oportunidade para numerosas revelações do passado da ilha e da complementaridade com o Pico. Apesar da referência a se estar perante uma obra de ficção, na verdade é possível perceber a influência de certas personalidades da ilha que serviram de fonte às personagens e, inclusive, o quanto do autor (porque o conheço) está na forma de olhar o mundo de hoje e as questões morais e éticas levantadas.

Apesar da grande quantidade de assuntos abordados mais ou menos profundamente, o livro lê-se muito bem e mesmo centrado no Faial tem temática para interessar leitores de qualquer outra região, mas sem dúvida a compreensão da sua riqueza aumenta se o leitor conhecer bem as ilha do Faial e Pico e suas gentes, permitindo assim tirar muito mais gozo da leitura desta obra. Não é essencial ler o romance anterior, mas não só ajuda como é muito interessante esse primeiro volume da saga que poderia dar uma trilogia.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

"A Casa Grande de Romarigães" de Aquilino Ribeiro

 

Excerto
"O amigo está numa casa em que todos, até os mais patifes, eram católicos desde as unhas dos pés até à flor dos cabelos. Lá que alguns pecaram pecaram....Uma casa fidalga sem pecado é mais enfadonha que uma boda sem bebedeira."

Acabei de ler o romance, o autor chama-lhe crónica romanceada, "A Grande Casa de Romarigães" do escritor português Aquilino Ribeiro, que possui uma obra vasta desde o final de 1.ª Grande Guerra até à década de 1960.
O livro conta a história das várias gerações que construíram, ampliaram e viveram nesta casa solarenga do Minho, com capela e uma grande quinta do lugar de Romarigães, um imóvel classificado de interesse público. A narrativa começa no início do século XVII, período de Portugal sob o domínio espanhol, e vai até meados do século XIX, já no período constitucional após as lutas liberais. Um solar com origem no sonho de um padre em adquirir o terreno, o que conseguiu a bom preço, que duma relação amorosa ilícita teve um filho que  permitiu prosseguir uma dinastia fidalga que dominou a zona e ali se estendeu por cerca de 300 anos, onde se falará da restauração, do terramoto de Lisboa, das invasões francesas, das lutas liberais vistas à distância da capital.
Não existe uma trama, mas sim uma sequência de biografias dos senhores da casa (desconheço se são personagens reais), sendo que desde o início até ao final praticamente todos cheios de defeitos morais, tanto na sua vida privada, como nos métodos de assegurar a influência social e de preservar o património na família. Seis gerações de escassas virtudes e muitos vícios, vários dos atos mais importantes na obra estão ilustrados com estampas a preto e branco que valorizam o livro.
Aquilino Ribeiro viveu nesta casa como genro de um dos primeiros Presidentes da República que dela foi proprietário e quando esta já fazia parte de outra família que não a da dinastia das crónicas deste livro, considerado um dos mais importantes da literatura nacional de meados do século XX.
O escritor utiliza um vocabulário muitíssimo rico, com muitos regionalismos do Alto Minho, a que adiciona numerosos sinónimos raros das palavras de uso comum, pelo que deduzimos o seu significado: ora pelo contexto, ora com recurso ao dicionário se quisermos acompanhar toda a riqueza lexical da prosa. O tom utilizado é, na generalidade, satírico e mordaz, o que cria uma sucessão genealógica que varia de mesquinha a pródiga, patrões injustos e abusadores, quezilentos, dominados pela lascívia, preguiça ou oportunistas, tudo isto a coberto de valores tradicionais religiosos, ligados ao clero e ao poder. A literatura lusa tende a ser  um contraste absoluto da inglesa que tende a dignificar os líderes da comunidade e o seu povo, nesta obra praticamente ninguém desperta respeito, algo que talvez explique uma certa mentalidade portuguesa que penso também ter deixado escola o Brasil, que conduz à normalização da maledicência e à destruição da imagem da generalidade dos seus líderes sociais.
Como romance está excelentemente escrito e é uma narrativa cheia de vida.

Estado pouco conservado do imóvel presentemente
(fonte Wikipedia)