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quarta-feira, 17 de julho de 2024

Contos de Tchékhov - Volume 4

 

Li o quarto volume da extensa coleção Contos de Tchékhov da Relógio d'Água, gosto muito deste contista russo e esporadicamente vou à biblioteca pública buscar um volume para assim ir lendo a coleção.

Este volume possui 14 contos, os dois últimos mais extensos, quase novelas com perto de 100 páginas, os anteriores, na sua maioria, na ordem de uma dezena de páginas. Temos ao longo das diferentes narrativas curtas protagonistas de várias classes e situações mais ou menos comuns, desde um guardador de um cadáver que o abandona por um serviço pago, à mulher que trai o marido com um jovem enquanto aquele trabalha, à jovem que se apaixona pelo talento de um pintor medíocre e outra por um estatístico, ao caso das memórias de uma paixão passada que abre uma exceção no presente até a um lobo que ataca um redil cujas culpas caem num humano, etc.

Já as narrativas mais longas tornaram-se me mais cansativas, para mim Tcheckhov é mesmo genial em histórias curtas, numa, um espião tem ocasião para se apaixonar e não para desenvolver o seu objetivo ao ver uma relação de uma amante apaixonada por um homem que não se quer incomodar com a esta e não tem coragem para o assumir. Na outra, assistimos ao regularizar das relações matrimoniais dentro de um casamento com um início incerto cujo comodismo se instala com o tempo.

Confesso que me delicia a escrita (ou tradução) de Tchekhov, e as histórias curtas, embora possam relatar situações tristes, banais e a vida de gente comum, de tão bem narradas que estão, dão sempre grande prazer de ler. Gostei muito

terça-feira, 10 de maio de 2022

"O Duplo" de Fiódor Dostoievski

 

Acabei de ler a novela "O Duplo" do russo Fiódor Dostoievski, uma obra da juventude literária do escritor, talvez autor que mais me marcou até hoje.

Yakov Petrovich Goljadlkin é um funcionário público de meia idade que trabalha numa repartição, um dia opta por faltar ao serviço e gozar um pouco de liberdade, alugou uma carruagem para viajar por São Petersburgo, onde, sem querer, se cruza com colegas e o seu chefe, nesta tensão, decide ir ao seu médico onde se torna evidente o seu estado de perturbação psicológica. Ali critica as pessoas que lhe são próximas e o doutor avisa-o da necessidade de tomar a medicação. À noite, na sua viagem, encontra uma réplica sua mais nova, Goljadkin Jr., que se torna seu amigo inicial, mas, no dia seguinte descobre que é o seu novo colega e entra desequilíbrio e em guerra com o seu duplo, sente que este conspira contra ele e todos à sua volta o pretendem destruir, até assistirmos ao desenlace possível desta luta  consigo mesmo e as instituições.

A novela tem uma escrita por vezes vertiginosa e um relato caótico que mostra a amargura de Goljadkin e a sua perturbação psicológica, embora sem a profundidade das obras maduras de Dostoievski, mas já aqui estão presentes os temas de desequilíbro da personalidade fruto das pressões sociais e a revolta impotente dos cidadãos contra as instituições, isto numa Rússia onde o poder dos superiores não é discutido pelos inferiores.

A narrativa pode ser vista como uma alegoria das dificuldades porque passou o escritor cruzada com um retrato dos problemas da sociedade russa e das disfunções que minam a sanidade mental. Gostei do livro, é uma boa iniciação ao autor, mas ainda muito longe da profundidade de outras obras posteriores que definem a sua genialidade. Fácil de ler.

sábado, 17 de julho de 2021

"Contos de Tchékhov - Volume III"

 

Acabei de ler o terceiro volume da coleção completa de Contos de Tchékhov publicados pela Relógio d'Água, este reúne 16 narrativas que oscilam entre perto de uma dezena a poucas dezenas de páginas, em todos eles o português dos tradutores é magnífico, permitindo uma qualidade de texto de elevada envergadura.

Todos contos passam-se longe das grandes cidades da Rússia, na sua quase totalidade situam-se em pleno meio rural isolado. Une-os ainda um descontentamento psicológico com a vida do protagonista ou do povo dessas aldeias vítima de injustiça, ignorância e arreigado a costumes que impedem o seu desenvolvimento. Nuns casos temos senhores burgueses ou nobres ricos que não sabem como ser solidários com os pobres e desejando ardentemente ser bons para com estes e por isso insatisfeitos consigo próprio; noutros, temos pobres que não sabem como sair desta realidade e se perdem no álcool ou noutros problemas; ainda há os infelizes acomodados com a sua situação sem arte para dela se libertarem, desperdiçando oportunidades; e também não falta gente no fim da vida desiludida com o modo como viveram, com medo da morte ou do julgamento do além. Na generalidade os retratos da sociedade e das personagens é triste, mas narrados com grande beleza de escrita e pormenores da vida quotidiana no Rússia do final do século XIX, construindo um excelente retrato de época.

Gostei muito do livro, apesar do tom melancólico e nostálgico os textos não são deprimentes e mostram porque Tchékhov é considerado um dos melhores contadores de histórias curtas da literatura mundial de todos os tempos, fico sempre com vontade de ler outro volume desta coleção.

quinta-feira, 1 de abril de 2021

"O caso do Camarada Tulaev" de Victor Serge

 
Citações
"Heróis de ontem, o lixo de hoje, é a dialética da História..."

"Encontramo-nos cobertos de crimes, todavia temos razão perante o Universo..."

"Talvez seja muito bom, isto de não podermos dominar por completo o nosso cérebro, e que ele nos imponha imagens e ideias que preferíamos rejeitar cobardemente: é assim que a verdade faz o seu trajeto..."

Acabei de ler o romance do russo-belga Victor Serge "O Caso do camarada Tulaev" uma obra de ficção que procura retratar o período de perseguição estalinista.
Kostia vive amargurado com as injustiças e infelicidade que vê num regime que procura libertar o Homem e numa conversa com o vizinho do quarto ao lado este empresta-lhe uma arma que acabara de adquirir. Depois, ao passear na noite moscovita, cruza-se casualmente com Tulaev, um dos maiores do regime, e num impulso faz justiça dispara e consegue fugir. Começa então a perseguição aos homens fortes do aparelho que poderiam estar interessados neste crime, teremos então uma série de interrogatórios a quem pode ter ambições e fazer sombra aos sonhos de outros ou à revolução, une-os o facto de estarem todos inocentes neste caso mas um perigo no sistema.
Ao longo dos vários capítulos vamos percebendo de forma crua o que foi a fidelidade de cada um dos suspeitos à revolução em curso, o respetivo modo de ascensão no aparelho, a exigência de obediência cega imposta pelo partido e como se criou uma justiça destruidora dos seus heróis em nome dessa revolução que eles próprios fizeram de tal modo que praticamente todos estão à espera de serem condenados nesta teia que teceram que já os levou à derrota na guerra civil espanhola.
A escrita é de grande qualidade estética, bela e cheia de reflexões, o que torna esta obra não só uma denúncia política do autor (um anarquista, comunista e trostkista filho de russos mas nascido na Bélgica) um texto literariamente rico, profundo e originalidade na trama, com um humor subtil com ironia e sarcasmo que se subentende a partir dos pensamentos e frases dos personagens que vão desfilando e, entre eles, o que nunca é identificado pelo nome: Estaline.
Apesar do ambiente tenso é uma obra fácil de ler, a riqueza de pensamentos torna-o apto a muitos sublinhados e fonte de citações, o que justifica ter sido considerado uma obra-prima da literatura de exílio de meados do século XX. Muito bom... excelente!

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

"Khadji-Murat" de Lev Tolstoi

 

Acabei de ler a última das obras de ficção do russo Lev Tolstoi, uma novela que só foi publicada postumamente: "Khadji-Murat". 
A trama passa-se no Cáucaso e dá-nos uma imagem da guerra de ocupação russa da Chechénia e da resistência do seu povo. Khadji-Murat é um chefe guerrilheiro checheno, convertido profundamente ao islamismo, que mesmo sem confiar no líder do seu povo, que o conduz numa "guerra-santa" contra o invasor cristão russo, lutou intensamente ao seu lado com importantes vitórias. Todavia, a desconfiança e o mal que reconhece em Chamil, leva-o a optar por pessoalmente se entregar ao czar através de militares ocupantes que lhe despertam confiança. Decorre então um período de desconfiança dos russos que o mantém cativo experimentalmente, entretanto Khadji-Murat é alvo de chantagem do seu imã que tem como refém a família do protagonista. Neste período vamos descobrir um homem íntegro que se vê entre o mau e ambicioso líder checheno e uma sociedade de militares e nobreza sem valores morais, viciada e interesseira, uma tensão entre dois mundos perversos em confronto que conduzirá ao choque final.
Uma obra curta, sem o vigor dos seus maiores romances, mas onde a filosofia que marcou Tolstoi está presente: a integridade do homem bom no seio do mal, as divisões culturais entre a Rússia e a Europa ocidental, o conflito do império com os vizinhos do sul, os valores das religiões e o desprezo por quem as usa como estandarte para conquistar ou manter o poder. 
Tolstoi, apesar de assumidamente cristão e russo, neste livro deixa claro os podres que gangrenam o seu povo e os crentes, sendo a integridade humana uma raridade que dificilmente resiste estas ameaças.

sábado, 19 de setembro de 2020

"CONTOS de Tchékhov" - Volume II - Anton Tchékhov

 


Penso que nenhum escritor é tão famoso pela obra contista como Tchékhov, uma das estrelas maiores da sublime literatura russa do século XIX, sei que escreveu centenas de contos e penso que estão todos publicados nesta coleção da Relógio d'Água com mais de uma dezenas de volumes. Não costumo falar da editora, mas são tantos os livros com narrativas dele que se não os referenciarmos podemos estar a falar de coletâneas completamente diferentes. Não sei o critério de distribuição dos contos nesta série, mas não é cronológica.
No volume II "Contos de Tchékhov" temos 11 narrativas, algumas com cerca de uma dezena de páginas e outras acima de 50, talvez só numa o desfecho é uma lição de moral, na sua maioria são relatos da personagens comuns acomodadas ou vítimas da vida, por vezes vivendo com dificuldades, noutras vencendo como oportunistas e há ainda os desiludidos e os indecisos, um conjunto de protagonistas que não são heróis diferentes da população em geral, mas todos são únicos e essa particularidade é tratada com mestria pelo contista.
Não sei russo para falar da escrita original, mas a tradução origina textos magníficos, ricos em vocabulário, inclusive de uso na época, e tratados com um cuidado que faz sentir dentro do leitor o frio da Sibéria, a injustiça da estratificação social, a fome do pobre, a modorra do ocioso ou indeciso, a esperteza do oportunista ou a fé e superstição do crente. Narrativas que transmitem reflexos multifacetados de uma jóia excelentemente talhada que me deslumbra e fazem o retrato do povo Russo à época, apesar de uma realidade bem diferente da de hoje podemos ver muitos casos similares no presente.
Vale a pena ler, isto é literatura no seu estado puro sob a forma de conto, gostei muito...

sexta-feira, 1 de maio de 2020

"Contos de São Petersburgo" de Nokolai Gogo

Acabei de ler o livro "Contos de São Petersburgo" do russo de origem ucraniana: Nikolai Gogol, um conjunto de 6 contos não muito curtos. A minha iniciativa de comprar este livro foi impulsionada pelo "O Retrato" que faz parte deste conjunto mas que já lera, gostara muito e é o mais extenso, por isso surge muitas vezes em separado. Todos situam-se na antiga capital da Rússia, deduz-se que no século XIX, época em que o escritor viveu e decorrem sempre fora do estrato social da eleite palaciana do czar, dos nobres ou dos burgueses.
Gogol escreve muito bem e ao estilo típico da literatura russa daquele século, um género de que eu gosto particularmente, mas se adorara "O Retrato", não posso dizer que me agradaram de igual modo todos os restantes contos deste conjunto. Dois deles, "A Caleche", o mais curto, e "O Nariz" são muito divertidos. O primeiro conto do livro cruza duas estórias independentes de dois cidadãos que surgem inicialmente juntos na "Avenida Névski", pelo que quase se pode dizer que são sete contos em um. Na grande maioria os protagonistas não saem bem da estória e talvez seja isso o que me deprimiu nesta coleção. "Diário de um Louco" tive pena pela saída da realidade do narrador que não entende a razão do maltrato de que é vítima e o último da série "O Capote" torturou-me mesmo ver a desgraça escalpelizada ao extremo daquele funcionário pobre, desprezado e vítima da sociedade que o abandona e o explorou.
Três contos, O Retrato, O Nariz e O Capote têm componentes surrealistas, curiosamente são nessas passagem que Gogol conseguiu divertir-me ou dar lições de moral de uma forma que me cativou e gostei, noutros momentos aprofundou descrições da cidade ou de personagens de uma forma para mim exagerada que me cansou e nalguns casos cortou o fio da narrativa. Assim, o conjunto tem momentos excelentes e um conto magnífico, mas ao longo dele não foi homogéneo o prazer da leitura.

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

"O Adolescente" de Fiódor Dostoiévski


Citação
"A juventude, já por ser juventude, é pura"

Acabei de ler o romance "O Adolescente", mais uma obra do escritor que mais me tem marcado ao longo dos anos, o russo do século XIX Fiódor Dostoiévski.
Arkádi narra a sua vida após os seus estudos pré-universitários em Moscovo, onde fora educado como interno, sendo então um revoltado pela sua condição de filho ilegítimo de um viúvo e de uma empregada casada com quem o pai mantinha uma relação pública inaceitável, mas onde o marido, bem mais velho, aceitou assumir a sua paternidade, inclusive de uma irmã mais nova. O adolescente era então um idealista com um projeto de vida para superar o preconceito social: "a ideia", e com esta se vingar do seu sucesso pessoal. Partiu para Petersburgo e encontrou-se com a família de sangue, mas todo o seu comportamento na capital foi desastrado por não saber lidar com os vícios e hábitos da sociedade aristocrática e seus oportunistas que abusaram da sua inépcia. A evolução dos acontecimentos, com paixões, traições, questões filosóficas, tradição, idealismos e mudanças sociais, leva ao desastre e com este Arkádi amadurece e olha para trás e conta este passado de crescimento humano em sociedade.
Integrado nos grandes romances de Dostoiévski, todas as suas temáticas queridas estão presentes: sentimentos extremos, nacionalismo russo, fé e ateísmo, a prática do bem e do mal e o seu reflexo nas consciências com ou sem valores morais arreigados. Talvez pelo estilo de relato pessoal e onde se pretende evidenciar a imaturidade do protagonista, o evoluir dos acontecimentos surge aqui mais caótico e por isso o narrador ora dá pistas incompletas para eventos futuros ora justifica ações ilógicas, conferindo deste modo a esta obra uma estrutura menos linear que noutras por ele escritas, contudo não deixa de ser um grande e magnífico romance sobre o desenvolvimento da consciência moral e ética da pessoa humana em sociedade.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

"Um Gentleman em Mocovo" de Amor Towles


O romance "Um Gentleman em Moscovo", do norteamericano Amor Towles, apesar de ser uma obra contemporânea, é um dos melhores exemplos do que é a delicadeza e a graciosidade colocada em ficção para transformar um livro numa joia de entretenimento com alguma informação histórica  intercalada quanto baste para não perder a sua essência de leveza literária e agradar ao leitor que não deseja aventurar-se para além de um lazer leve com charme e humor inteligente.
O Conde Aleksandr Rostov, descendente de uma das famílias da melhor nobreza da Rússia czarista, na sequência da revolução bolchevique é levado a julgamento pelo seu passado aristocrático, todavia um poema de 1913, de quem é reconhecido como autor e com um elogio à causa comunista, livra-o da pena de morte, ficando apenas limitado a prisão-perpétua domiciliária no hotel mais luxuoso de Moscovo, o Metropol, no qual era hóspede residente. Assim, é despromovido para os alojamentos dos antigos criados dos clientes e recomeça a sua vida.
Se antes fora um cavalheiro de hábitos requintados, um exemplo de aplicar a melhor etiqueta social da Europa e conviveu com a sociedade mais nobre do Velho Continente, lentamente o Conde adaptar-se-á à nova realidade, aproveitando o que de melhor pode usufruir no seu hotel descobrindo recantos antes vedado a ele como hóspede, deste modo vai cativando amizades nos empregados, estabelece contacto com hóspedes pela sua habilidade diplomática e cultura, inclusive ensina regras a personalidades do novo regime e assim sobrevive ao longo de décadas, onde se vai descobrindo certas mudanças no país, alguns pormenores absurdos do regime e inclusive desenvolve amizades, uma relação amorosa e até consegue educar uma criança.
Com uma escrita que procura conciliar a delicadeza do estrato aristocrático e típica do estilo anglo-saxónico, conciliada com uma ironia subtil que permite criticar muitos aspetos da União Soviética sem ofender ideologicamente o leitor e sem sobranceria para com a pátria e cultura russa, o Conde Rostov, como gentleman, consegue uma vida de charme e luxo numa sociedade onde os problemas eram transversais à maioria da população, mas sem deixar de ser um prisioneiro político exilado na sua pátria que ama. Uma leitura leve, cheia de bom-humor, boa-disposição e agradável mas inteligente bastante diferente da maioria da literatura contemporanea.


terça-feira, 7 de novembro de 2017

"A Mãe" de Maksim Gorki


"A Mãe" de Gorki é um romance que tem como inspiração uma perseguição real movida aos organizadores de uma manifestação do 1.º de Maio ainda na Rússia czarista no início do século XX e julgamento dos seus líderes, para assim apresentar o movimento clandestino de divulgação das ideias de luta de classes no seio dos operários fabris e dos agricultores (mujiques) através de uma rede de fornecimento de livros e jornais proibidos.
A obra centra-se numa mulher de meia-idade que depois de uma vida vítima de violência doméstica por marido alcoólico e frustrado devido ao trabalho, fica viúva e descobre no filho uma conversão à leitura, aos ideais revolucionários e participação num célula clandestina que progressivamente ela vai conhecendo e aderindo para se tornar numa importante ativista, onde descobre um conjunto de pessoas exemplares que agem na sombra ou até são presas sem nunca desistir.
A obra é marcadamente ideológica, raramente esta é dita de socialista e nunca comunista, a ideia é apresentada como a "verdade" e ou se está com esta ou com as forças opressoras que defendem os ricos capazes de tudo para a posse de bens.
O romance está bem escrito por vezes com uma frieza narrativa temperada de metáforas do neorrealismo e da propaganda. Há momentos onde as emoções da grande dureza das forças do Estado e o sacrifício dos oprimidos é intensamente explorada em contrapeso com o facto de no grupo os sentimentos serem abandonados em prol da causa que defendem, onde não pode haver sujeição ao amor, nem ao familiar.
Sendo uma obra anterior à instalação do comunismo na Rússia não se pode dizer que a esperança assumida pelo romance nesta causa que leva a justiça aos mais fracos omitiu o que de negro possa ter havido quando o regime foi depois posto em prática, revolução que faz hoje, por coincidência, precisamente 100 anos. Apesar do carácter propagandista gostei do romance e é de muito fácil leitura.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

"Humilhados e Ofendidos" de Fiódor Dostoiévski


Na generalidade as obras do escritor Fiódor Dostoiévski denunciam a injustiça social no mundo russo do século XIX através de uma reflexão e confronto entre modelos políticos de valores e ética tradicionais e outros revolucionários hedonistas de corte com o passado e ainda com a dialética filosófica entre crentes e ateus, criando narrativas tensas onde a maldade ou o oportunismo de alguns gera vítimas inocentes arreigadas aos seus princípios, sendo tudo isto temperado com dramas românticos com paixão não dominadas em personagens exemplares que ficam reféns de maquiavélicas conjuras. Assim estas obras  tornam-se manifestos e apelos de conversão da sociedade a um mundo mais justo e pleno moral.
"Humilhados e Ofendidos" é uma narrativa de um escritor prometedor em início de carreira e por isso tem algo de autobiográfico e é um romance que não se envolve em ideias políticas ou discussões religiosas que mais tarde caracterizam Dostoiévski, mas mantém a estrutura e o estilo básico dos maiores clássicos deste escritor, mostrando quão maus podem alguns ser, semeando dor, injustiça e destruição de paixões por mero egoísmo sobre outros mais fracos e honestos e quanto orgulho e os princípios de honra podem ainda ampliar estes efeitos nefastos em quem é ofendido e humilhado pelo mais forte e sem escrúpulos.
Assim, Humilhados e Ofendidos, sem deixar de ser um magnífico romance típico de Dostoiévski, é mais acessível ao leitor que se sente perdido em discussões filosóficas e ideológicas de outras grandes obras deste escritor, mas preserva o essencial: a luta entre o bem o mal que importa para tornar o mundo melhor.
Gostei muito e para quem nunca leu este autor e teme a complexidade dos conteúdos, este romance pode ser uma obra de entrada para abrir portas às maiores obras da literatura mundial escritas por Dostoiévski de quem sou um admirador convicto.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

"A morte de Ivan Ilitch" de Lev Tolstoi


Não sei se "A morte de Ivan Ilitch" de Lev Tolstói é um grande conto, uma novela ou um pequeno romance, mas é uma excelente narrativa com uma magnífica reflexão sobre a vida que a generalidade das pessoas anseia levar.
No início sabemos da morte de Ivan com a leitura do jornal pelos seus colegas de trabalho no Tribunal e vemos a importunação que o facto provoca nos pretensos amigos, o incómodo de praticar certos atos sociais para o momento e o início da competição para tirar da situação oportunidades de carreira ou vaga para familiares. Depois, vem o enfado de visita fúnebre onde cada um tem uma estratégia para se libertar da situação e, perante o corpo de Ivan entramos na terceira parte do livro: o relato e reflexão na primeira pessoa do que foi a vida do morto, as ambições, as  hipocrisias sociais, os subterfúgios para ascensão na carreira, o pisar os outros até ao declínio final e a chegada do medo da aproximação da morte e a sensação de incómodo e desprezo dos mais próximos.
Ivan descobre no exame à sua vida aquilo que parece comuns a todos os humanos: a aparente subida na vida é uma descida cada vez mais vertiginosa, mas todos à volta caem neste engano e só descobrem isso tarde.
Apesar da hipocrisia social desnudada nas primeiras páginas e da descoberta da ilusão do que foram as conquistas da vida na segunda parte, a obra além de pequena, não é triste e a narrativa é de uma enorme beleza e sensibilidade ou não estivéssemos perante um dos maiores vultos da literatura mundial. Gostei muitíssimo e recomendo a qualquer leitor esta curta obra-prima.

sábado, 26 de agosto de 2017

"O Ruído do Tempo" de Julian Barnes


Acabei de ler o "O Ruído do Tempo" do escritor inglês Julian Barnes. Um romance que tenta expor os prováveis receios e complexos de consciência da vida da personagem histórica Shostakovitch (Chostakovitch), o compositor erudito mais famoso que viveu e compôs sempre sob o regime soviético sem nunca tentar fugir do País e alvo de enormes pressões para que as suas obras obedecessem às diretrizes do PCUS.
O livro dá destaque às atitudes de Shostakovitch no período de terror de Estaline e depois nas reviravoltas da época de Kushchev e como terá sido usado como exemplo da supremacia artística da União Soviética pelos dois líderes.
A obra é escrita numa sucessão de textos, como bilhetes postais, onde Julian Barnes vai mostrando a biografia de Shostakovitch em peças soltas que se colam e montam a vida deste, as suas relações com mulheres, os casamentos e as suas ideias musicais e sociais avançadas cercada pela cobardia de as pôr em prática. Exibe ainda as suas eventuais reflexões e exames de consciência. Um momento chave é quando ainda jovem vê a sua grande ópera após um sucesso estrondoso na União Soviética e Mundo ser ostracizada pela crítica, que pode ter sido escrita por Estaline, e o leva a optar por não dormir e a esperar a sua prisão e morte à porta do elevador para a família não assistir.
"Ser herói era muito mais fácil do que ser cobarde. Para ser herói só é preciso ser bravo por um momento... ...mas ser cobarde era embarcar numa carreira que durava toda a vida. Nunca podíamos descansar."
A partir de então toda a sua vida foi sobreviver com a sua cobardia e continuar a compor pretendendo agradar ao sistema para ser ouvido e com medo de pôr as suas ideias na música, em paralelo renega artistas que admirava ou heróis de resistência. Chega a assumir discursos discursos que não escreveu e opiniões que nem concordava no País e no Estrangeiro e quando da abertura do regime uma nova humilhação que não previra.
Há escritores que produzem obras-primas de literatura sendo originais e bons em estilos e géneros diferentes, depois de "O sentido do Fim", que li este ano, agora outra obra-prima nada semelhante à anterior. Um texto com uma dose contínua de ironia, por vez sarcástica, bem redigido e num estilo brilhante, Julian Barnes é um escritor que quero continuar a ler e descobrir o que já publicou ou venha a publicar.

segunda-feira, 1 de maio de 2017

"A verdadeira vida de Sebastian Knight" de Vladimir Nabokov


O romance "A Verdadeira vida de Sebastian Knight" foi o primeiro livro deste famoso escritor e crítico literário russo: Vladimir Nabokov, que se exilou nos Estados Unidos após a revolução bolchevique, sendo este o primeiro livro que escreveu originalmente em inglês, idioma que adotou em definitivo para a sua obra posterior.
Sebastian Knight (SK) é um escritor de qualidade, de origem russa e radicado nesta cultura, mas depois naturalizado inglês pela origem materna e cuja língua seleciona para a sua escrita morre ainda jovem, então o seu meio-irmão do lado paterno, decide conhecer e fazer um livro sobre a sua vida, tendo em conta uma biografia publicada na qual ele deteta grandes discrepância face ao que conhece dele apesar de distante nos últimos anos.
Assim, inicia-se o relato da investigação sobre SK desde o seu afastamento, com as suas paixões, viagens e estilos de vida, tendo como fonte o conteúdo da sua obra, cujos enredos e estilo se vai expondo, e também fruto das memórias do irmão e de colegas, amigos e amantes que partilharam os anos da sua carreira na Inglaterra. Num jogo de espelhos entre o próprio Nabokov e SK, a obra evidencia o esforço perfecionista do escritor narrado e a busca de perfeição do real autor do livro, inclusive os paralelismos das dificuldades de alguém criado numa língua que quer ser perfeito noutra adotada, Vamos conhecendo personagens da bibliografia ficcionada de SK, as suas estórias, enquanto as fontes após uma aproximação que evidencia que se vai descobrir algo de importante sobre o falecido, depois, por um falso pudor intencional, não nos é revelado, deixando um conjunto de questões sobre quem foi de facto Sebastian Knight.
Nabokov é de facto um escritor dotado de uma magnífica escrita e busca a perfeição plena na construção do texto. No romance disserta sobre este objetivo e vês que quis edificar uma obra de arte literária e neste encontro entre a perfeição da escrita, da narração e da estrutura do romance edifica uma obra que é isso mesmo e quase se esgota neste domínio. A beleza está quase em exclusivo na forma, anulando-se na comunicação de ideias ou de outras questões para além do abstrato da arte de escrever. Gostei e para quem aprecia análise literária é uma pérola ficcionada no género.

terça-feira, 11 de abril de 2017

"RESSURREIÇÃO" de Lev Tolstói


Acabei de ler "Ressurreição" do grande escritor russo Lev Tolstói, um romance onde o autor expõe a sua filosofia de vida, a sua moral e fé de forma clara, com um apelo de conversão ao bem e tendo como referência a denúncia da injustiça que domina a sociedade que cria vítimas permanentes, não reabilita, nem resgata as pessoas do mal, proclamando uma visão do cristianismo muito própria e livre das interpretações oficiais das religiões cristãs tradicionais.
Nekhliúdov é um príncipe e com um bom coração amolecido pelo bem-estar da sua classe e luta permanente entre o ideal que busca e os hábitos e vícios a que se afeiçoou que o seu estrato social apoia e tem como a norma. No seio disto apaixona-se e abusa de uma doméstica órfã que engravida, é ostracizada e levada para a prostituição, vendo-se anos mais tarde envolvida num crime e sujeita a um tribunal de júri onde, por coincidência, ele se senta como jurado.
O príncipe, acobardado entre a vergonha e o dever, além dos interesses pessoais das personagens judiciais, assiste à condenação da inocente ao desterro e trabalhos forçados. Começa então a luta do herói para resgatar e reabilitar a mulher de que se sente culpado da sua situação, enquanto abdica das suas terras por ideais de justiça e se dedica completamente à condenada, inclusive oferece-se em casamento. Todavia a burocracia judicial, os seus intervenientes e os preconceitos dificultam a reparação dos próprios erros da justiça, o que o leva a acompanhar a sua vítima para a Sibéria e a conhecer os horrores do sistema prisional e a quantidade de inocentes que a sociedade condena e se desfaz e não salva.
Tolstói faz uma crítica forte do sistema económico e social da Rússia de então, expõe com crueza o sofrimento intolerável do regime judicial e, à semelhança de Victor Hugo, denuncia a aplicação cega da Lei contra as pessoas que mantém o sistema. Propõe o modelo económico de Henry George, que tem uma perspetiva mais rural do que o proposto por Marx para o seu proletariado urbano, a que associa a necessidade de uma prática do Evangelho livre da estrutura eclesial, mas ligada a Cristo.
Ao contrário de "Guerra e Paz" e "Anna Karénina", aqui Tolstói tem uma única linha narrativa, não havendo histórias paralelas a atravessar toda obra e servem de comparação a opções de vida alternativas. Todavia Nekhliúdov conhece muitas prisioneiros, de crimes a razões políticas, cujas vidas são comunicadas para destacar os defeitos do sistema vigente. Sem dúvida um grande romance, menos consensual que os outros citados, pois em Ressurreição as ideias do escritor são ditas diretamente sem preocupação de ferir ou divergir do leitor. Tolstói quer mesmo agitar a consciência de quem lê e tirar os acomodados da sua situação de conforto. Gostei e recomendo.

sábado, 4 de fevereiro de 2017

"Pais e Filhos" de Ivan Turguéniev


O excelente romance"Pais e Filhos" do russo Ivan Turguéniev, escrito em meados do século XIX, além de ser um dos clássicos mais importantes da literatura deste país, é uma obra marcante na literatura mundial, pois é ele que define e cria o termo "niilismo" como forma de pensar e de ser de uma personagem que questiona e rejeita, à priori, qualquer autoridade, instituição ou  costume de modo a querer revolucionar a sociedade, tema que posteriormente será desenvolvido por Dostoievski e outros importantes escritores, com todas as suas forças e fraquezas, benefícios e perigos e ainda alvo de linhas filosóficas, nomeadamente Nietzche, aspetos que moldaram profundamente a literatura global no último século e meio.
Escrito de uma forma fácil, mas elegante, e com pormenores descritivos subtis, que não só embelezam o texto como também caracterizam situações e sentimentos; a história é essencialmente marcada pelo conflito das formas de pensar em duas gerações: a dos filhos no final da juventude, então com todo o vigor, espírito de contestação e vontade de mudar o mundo, insatisfeitos com a dos pais, onde estes com as lições da vida se tornaram já conservadores, acomodados e inseguros perante os seus descendentes, para quem vivem e a quem admiram, sem saber como gerir este desacordo geracional.
Centrado sobretudo em duas famílias diferentes mas de pais recatados e filhos de espírito revolucionários ou influenciados por estes ideais, junto com algumas personagens, incluindo femininas fortes que vão criar o choque não só entre as ideias geracionais como também com a natureza biológica da vida e dos sentimentos. A história coloca a nu o conflito geracional de séculos e as suas limitações da própria natureza e realidade que leva a que ora uns saiam vencidos pela crueza do acaso, embora com um futuro promissor e vítimas de aspetos menores do destino e outros se arrumem perante a força do mundo, tornando-se em pessoas com carreiras consideradas modelos para o comum dos mortais na sociedade em que se inserem.
Um livro não muito grande, fácil e muito rico não só em mensagens, como influente filosoficamente que marcou o futuro da literatura. Gostei muito e recomendo.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

"O homem que gostava de cães" de Leonardo Padura


Acabei de ler "O homem que gostava de cães" do cubano Leonardo Padura, o livro cruza, através de capítulos intercalados, as vidas ficcionadas de Trosky, apenas como vítima e refugiado de Estaline; do seu assassino, o catalão Mercader; e os encontros do narrador do livro, um escritor falhado e vítima da opressão do regime em Cuba, com um homem doente, amante de cães que teria conhecido o criminoso e confidente dos pormenores da vida deste desde criança até ser formatado para o crime encomendado por Estaline e das suas reflexões posteriores.
Todos os capítulos, tanto nos aspetos ficcionados como nos históricos, são bastante prolixos em pormenores e descritos ora na primeira pessoa como memórias, ora como espetador, ora de forma romanceada, o que torna a obra muito densa, não só em termos de informação dos factos conhecidos, como também ao nível da especulação e, sobretudo, no aprofundamento do que foi a mentira criada em torno de uma proposta de modelo de sociedade igualitária para a libertação do Homem que se transformou num dos maiores pesadelos, máquina de morte e de opressão do século XX, onde Mercader um catalão inicialmente envolvido na guerra civil de Espanha foi trabalhado para ser um instrumento a ser usado para este engano, inicialmente como utopista de um sonho, depois desconfiado das mentiras e montagens que assistiu e por fim já consciente do mal mas impossibilitado de mudar o seu destino, no apaziguar da culpa ficou-lhe o amor pelos cães, tal como perdurou em Trostky e no narrador.
Um romance denso que é uma explicação de como foi possível transformar uma utopia numa distopia tão desumana. Uma narrativa onde, por vezes, o texto tem o aspeto de um relato quase jornalístico, noutras um estilo mais floreado com reflexões das personagens e dos sonhos e desilusões do mesmos, mas, sobretudo, uma denúncia destas terem sido conduzidas e vítimas do medo, um sentimento que é comum à outra obra de Padura que li este ano e falei aqui. Gostei e recomendo para quem quiser conhecer melhor o que foi o pesadelo estabelecido à sombra de um modelo que tinha como princípio libertar o Homem e cujo escritor também conheceu por dentro na sua adaptação a Cuba.

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

"O Mestre e Margarita" de Mikaíl Bulgákov


"O Mestre e Margarita" escrito pelo russo Mikhaíl Bulgákov em plena ditadura de Estaline é daquelas obras alegóricas e metafóricas cujo enredo simboliza algo muito diferente da história narrada e só nesta perspetiva pode ser entendido e admirado, pois se levado à letra é um romance de imaginação e loucura vertiginosa.
Dois literatos, na época da lua cheia do equinócio da primavera (semana da Páscoa), discutem numa alameda de Moscovo um texto a publicar que evidencie a inexistência de Jesus, então o Diabo decide intervir, instalar-se na cidade e semear a confusão, explorando os principais defeitos e vícios das pessoas e instalando o caos generalizado, incluindo algumas mortes, escolhendo os escritores e um grupo ligado a um teatro como meio para atingir os seus fins. Intercaladamente há uma segunda narrativa com reflexões e a perspetiva de Pôncio Pilatos a descrever os dias da paixão de Yeshua em Jerusalém numa Páscoa longínqua. Só a meio da obra e com a entrada do Mestre na história se percebe ser este o romance escrito por ele e interdito por influentes no seio editorial, em paralelo ele se apaixonou por Margarita, uma bela mulher bem de vida e disposta a largar tudo por ele quando este desaparece.
Enquanto na antiga história da paixão, muito pormenorizada e com grandes diferenças do relato evangélico de Mateus, que escreve aqui notas dos seus dias com Yeshua, se vê alguém bom ser acusado e condenado inocentemente sem recorrer ao poder sobrenatural para alcançar a vitória do bem e onde a cobardia de Pôncio Pilatos conduziu à derrota da justiça, na história atual em Moscovo, Wolan e o seu séquito diabólico, pelo contrário utilizam toda uma panóplia de magia e feitiçaria para espalhar o seu mal e cativar as pessoas com eventos onde a imaginação e loucura é levada ao extremo e lembra contos de fadas e bruxaria com um enorme desvio à realidade natural das coisas.
Como alegoria, Bulgákov faz uma crítica feroz a Estaline e ao aparelho que consegue ainda ultrapassar o líder nos seus excessos, não faltando analogias a desaparecimentos, à censura, as clínicas psiquiátricas, à tortura e ao confisco, mas onde a cobardia do meio cultural colabra e é a principal ferramenta da instalação do mal na sociedade. Sem compreensão desta metáfora, o romance torna-se ilógico tal a sequência de traquinices inverosímeis que vão acontecendo ao longo do livro, por vezes os tradutores anotam a referência indireta e crítica aos defeitos do regime ditatorial que em denúncia numa escrita fluída e elegante duma narrativa que parece louca e divertida enquanto descobre uma situação grave que se vivia então em Moscovo e por isso considerado uma obra-prima da literatura do período soviético. Por tudo isto a obra pode não ser fácil para todos.

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

"O Retrato" de Nicolai Gogol


"O Retrato" do escritor russo do século XIX Nicolai Gogol, será mais um conto do que romance, dividido em duas partes: na primeira um pintor com talento, mas em dificuldades financeiras, cruza-se com um retrato inacabado num antiquário e fica fascinado pela força com que os olhos da pintura o fixam e consegue comprá-lo, só que a força desse olhar e um acontecimento, que parece fortuito, virão mudar a sua vida, dando-lhe nome como profissional, mas mediocridade no aproveitamento dado ao seu dom. Na segunda, compreender-se-á a origem da pintura e a razão da maldição que transportam esses olhos.
Não sendo uma obra que navega no mundo do fantástico, este insinua-se, tanto pelos efeitos nefastos que o quadro provocou no pintor, como na suposta transposição para a pintura dos efeitos do mal do agiota retratado.
"O Retrato", mesmo sem ser considerado a obra-prima de Gogol, neste conto, ele aborda a ideia de que é fulcral a arte contribuir para a edificação do Homem, sendo que o uso dos talentos para outros fins menos nobres um desvio deste objetivo, o qual pode ter reflexos na propagação do mal. Em paralelo, está também patente o conceito de ligação da origem do mal às causas e agentes de injustiça social, provavelmente uma influência das ideias políticas veiculadas pela revolução francesa, onde o "pecado" contra os mais pobres e desfavorecidos passa a ter uma relevância na moral muito mais forte do que no passado.
Muito bem escrito, como é característico da escola russa daquele século, e de fácil leitura, este conto é, sobretudo, uma alegoria ou parábola sobre o contributo da arte para moralização do Homem e uma crítica contra a injustiça social, preocupações que se refletirão noutros escritores como Dostoievki, Tchekhov e Tolstoi e assim se compreende porque Gogol está entre os génios literários mais influentes da Rússia. Gostei e recomendo.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

"O Meteorologista" de Olivier Rolin


O livro "O Meteorologista" do escritor francês contemporâneo, Olivier Rolin, apesar de possuir na capa o termo: "ficção"; não é, nem uma biografia de uma personagem histórica ficcionada, nem um relato de um acontecimento real exposto em forma de romance, mas sim, uma espécie de relatório com a exposição da vida de um cientista russo, Alexei Vangenheim (ou Wangenheim), que liderou a investigação meteorológica na URSS entre as duas grande guerras, foi um comunista convicto e uma vítima do genocídio do período estalinista, sem se saber exatamente a verdadeira causa da sua condenação e que curiosamente enquanto preso desenhou um conjunto de quadros didáticos que remeteu à sua pequena filha os quais estão anexos ao livro que por si só merecem uma observação atenta.
A obra baseada em investigação do autor e de terceiros, encontra-se intercalada com reflexões do escritor, interpretações hipotéticas sobre o seu período de deportado, considerações sobre a época e uma análise final sobre o sonho que foi a revolução russa e a desumanidade que esta trouxe através do terror que destruiu o próprio objetivo. do comunismo soviético. O texto, embora sem deixar de ser o de um relato, está trabalhado literariamente e cuidado, havendo numerosas metáforas, referências a ideias lançadas por romances clássicos e questões filosóficas e excertos das cartas do Meteorologista e de documentos oficiais do seu processo ou que o enquadram na época. Apesar de tudo e da crueldade do acontecimento lê-se com um prazer e com grande facilidade, compreendendo-se porque Rolin é um dos escritores e romancista da atualidade francesa já com diversos prémios pela qualidade das suas obras.
Curiosamente, em investigação na internet, eu descobri que Rolin ideologicamente é ele mesmo um comunista maoista... outro campo sobre o qual seguramente há muito a investigar para se compreender como também a revolução cultural contribuiu para a destruição do mesmo sonho ideolgógico. 
Mesmo sem ser um romance, gostei muito de ler este livro que me deu o mesmo prazer como se fosse uma obra de ficção e as análises políticas e sociais que são feitas sobre o comunismo, o estalinismo e o Meteorologista não são feitas de uma forma ideológica para atacar o que está na base desta ideologia. Recomendo a qualquer leitor que goste de boas leituras e fáceis, independentemente de serem ou não ficção.