Páginas

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

"Cadáveres às Costas" de Miguel Real


Conheço o escritor e filósofo Miguel Real (pseudónimo), sobretudo, a partir dos seus ensaios, dos quais já li dois em ebook, embora soubesse que escrevia romances históricos, pelo que é melhor conhecido e premiado, e ter um romance distópico que já me despertou interesse em ler, optei por este romance, de difícil classificação, onde mostra que Portugal pouco evoluiu em termos de mentalidade e estrutura social ao longo do último século.

Em "Cadáveres às Costas" o narrador é um jovem, filho de um antropólogo de renome e de uma professora de história desiludidos com o colapso de comunismo que fora a religião deles. Na sequência da morte do pai num acidente e de uma herança avultada, ele decide abandonar o curso de direito imposto e sair de casa para alugar um quarto num palacete no centro de Lisboa, residência de uma família histórica, para, em liberdade, seguir o seu sonho de escrever um romance. Na casa contacta com os seus moradores: o chefe de família, um ex-combatente aristocrata; sua esposa coberta de joias; o primogénito, um deputado cheio de ambições políticas; uma filha jornalista; a atraente mais nova que ele deseja; e a matriarca, uma idosa a fazer 100 anos que diz ver a vidente Lúcia, momentos com descrições pormenorizadas no livro e que ocorrem, precisamente, nas datas em que se vão completando as do centenário das aparições em Fátima, a idosa é ainda assistida por duas criadas idosas, supersticiosas e diligentes. As  pretensas visões agitam a diocese de Lisboa que move crentes para ter um novo trunfo e estender o seu poder. Residem ainda na casa dois hóspedes: o filho de um antigo ordenança do chefe de família quando este foi combatente na guerra do ultramar, o amigo do proprietário e seu irmão de armas que, por amizade, tem um quarto sempre disponível na casa.´

Nos contactos, o jovem vai descobrindo segredos negros na origem da casa, casos violentos na história da família, infidelidades atuais, negócios escuros e jogos da igreja para tirar dividendos e manipular a sociedade, enquanto isso, a mãe do narrador descobre uma traição do marido recém falecido e entra em depressão. Ele segue indeciso sobre o que escrever com tantos temas que se lhe deparam que mais não são do que fantasmas do passado, cadáveres às costas, a que se associa uma falta de inspiração na qualidade de escrita afetada pelo desejo da filha mais nova da casa que o usa. 

A narrativa desenrola-se muito lentamente, com a adição de descobertas históricas que levam a descrições de períodos da inquisição, de torturas e perseguições no tempo do fascismo, da vida passada das personagens e as vivências atuais no palacete,  na casa materna e dos movimentos da diocese para criar um novo facto e mobilizar a crença, que mais não são que numerosas alternativas de assuntos para o potencial romance, que vai compilando e no fim montam toda a obra.

A escrita com parágrafos extensos, muitas vírgulas e remissões ao estilo de outros escritores reconhecidos de Portugal, intercaladas de análises psicológicas e críticas que imprimem um tom sardónico, por vezes velado, outras vezes bastante direto e mordaz dos oportunismos na política e na igreja, da mentalidade provinciana dos portugueses e das manipulações de que estes são alvo e vítimas há séculos, além da denúncia da hipocrisia das elites cheias de negócios escuros, interesses e vícios privados com mantos de honestidade, que montam uma caricatura do Portugal da segunda década do século XXI radicada no seu passado que nunca ultrapassou e convive naturalmente com estes cadáveres às costas.

Gostei do romance, apesar do seu ritmo em tom morno, mas com algumas passagens muito duras, que aos poucos vai levantando pontas sem nunca acelerar, cujo retrato montado não é de facto muito favorável à imagem de Lisboa, uma capital saloia, num Portugal com cicatrizes do passado e de um fascismo nada brando, de que não se libertou e um Povo que se deixa manipular por oportunistas, deixando um gosto amargo sobre este País. Contudo, fiquei curioso sobre os seus romances históricos e ver se mantém este tipo de registo de escrita sardónica, muito adjetivada e lenta, diferente dos seus ensaios sem deixar de serem muito mordazes sobre Portugal.

Sem comentários: