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segunda-feira, 13 de abril de 2026

"A Morte Eterna" de Liu Cixin

 

Citações

"A era da liberdade decadente da humanidade chegou ao fim. Se quiserem sobreviver, têm de reaprender o coletivismo e recuperar a dignidade da vossa espécie."

"Perder a nossa humanidade é perder muito; perder a nossa ferocidade é perder tudo."

"por duas vezes, em nome do amor, fez o mundo mergulhar no abismo."

Acabei de ler "A Morte Eterna" do chinês Liu Cixin que corresponde ao terceiro volume da Trilogia "O Passado do Planeta Terra", iniciada com "O problema dos três corpos".

A história estende-se por várias eras, inicia-se com um evento associado à queda de Constantinopla e só depois entram os protagonistas, na sua grande maioria diferentes dos anteriores volumes, este é o mais extenso e, cientificamente, o mais especulativo dos três romances. A narrativa recomeça na "Era da Crise" quando a humanidade está refém dos trisolarianos, que controlam os resultados das experiências de mecânica quântica para a humanidade não evoluir tecnologicamente e assim a civilização alienígena poder tomar a Terra, era em que os humanos procuram lançar uma nave para alerta da iminência do ataque de Trisolaris. 

As personagens principais - através da hibernação para as pessoas acordarem quando puderem ser curadas de doenças incuráveis ou para acompanhar projetos científicos e políticos de primordial importância de longa duração - sobrevivem a diferentes eras, a segunda era corresponde à da "Dissuasão", iniciada no final do romance "A Floresta Sombria", quando Luo Ji tomou o controlo da situação que trava o invasor e se descobre que o Universo é um mundo hostil, ideia que se impõe ao longo de quase toda a obra que decorre por milhões de anos com viagens relativas no tempo.

Ao longo das eras fica evidente a necessidade de sobrevivência face à ameaça do cosmos, assiste-se a períodos de crescimento socieconómico e tecnológico dos humanos que são acompanhados por "desmasculinização" dos homens, comodismo e valorização do pacifismo contra opções determinadas e duras, uma evolução catastrófica para a civilização. Esta, no início está limitada à Terra, depois expande-se à sua volta, passa para o sistema solar, até perder a sua origem por o humanismo se sobrepor à ferocidade dissuasora defensiva e sobrevive no espaço galático pela sua racionalidade.

A última parte passa-se milhões de anos depois, é poética e cientificamente muito especulativa, parece ser um antídoto à filosofia reinante em quase toda a obra, onde o instinto duro e racional era crucial à sobrevivência face ao sentimentalismo desejado pelo coração humano confortado no bem-estar.

A obra desenvolve na narrativa os mesmos princípios filosóficos d'A Floresta Sombria, mas pouco traz de novo. Mostra eras onde a riqueza, o bem estar e o conforto são vias para o conformismo, a decadência e a sobrevalorização da bondade em detrimento das opções duras e racionais para assegurar a sobrevivência da civilização, parece ser uma crítica ao liberalismo democrático ocidental assente no aumento do consumo, do sentimentalismo e com uma tolerância cega a comportamentos individuais.

O livro tem passagens como o fim da era dissuasão, a era dos bunkers e o fim desta, que são desenvolvidas de uma forma muito cinematográfica excelentes para filmes de Hollywood, incluindo as experiências nas naves espaciais, a arquitetura futura e as bolsas em diferentes dimensões físicas, nestas, a especulação científica é extrema e com explicações das novas descobertas, onde o leitor se apercebe que se está a ultrapassar as leis da física atuais, que até são discutidas como armas civilizacionais.

O autor continua a mostrar um fascínio pelo pensamento, arte e cultura europeia, com referências muito interessantes, sem esconder a chinesa. Vê o desenvolvimento global de uma forma multipolar: América do Norte, Europa e China, mas é omisso sobre a América Latina e África, soa-me preconceituoso.

Gostei do terceiro volume, mas sem me surpreender tanto pela positiva como os dois anteriores romances, tem passagens excessivamente pormenorizados que até me cansaram, outras de grande intensidade e suspense, mas a necessidade do antídoto final para valorizar o amor em detrimento da racionalidade nua e crua para a sobrevivência senti-a como uma cedência gratuita aos valores do humanismo para agradar ao leitor e confesso que só recorrendo à IA percebi que o acontecimento na época da queda de Constantinopla se relacionava com Cortazar, algo rebuscado de facto... 

Apesar de menos cativado com este volume, continuo motivado para mais leituras do género da ficção-científica.