domingo, 29 de março de 2020

"As Mil e Uma Noites" Volume 1


Excerto
"nada detém uma mulher quando ela quer alguma coisa."

Acabei de ler o primeiro volume da edição dos contos da obra "As mil e uma noites", um dos clássicos da literatura universal, com origem na idade média saído do mundo islâmico, sendo esta edição uma tradução da versão mais antiga conhecida em língua árabe editada por crowdfunding.
Este volume começa com um historial sobre as origens geográficas, linguísticas e divulgação desta obra até chegar ao ocidente e depois alguma evolução que esta sofreu já na Europa por adições para satisfazer o público não constantes no início, onde fica evidente porque se está perante uma das obras mais conhecidas das pessoas que simultaneamente o real conteúdo é desconhecido. Apesar da sua importância para o contexto da obra, confesso que apenas folheei e li excertos.
Depois segue-se a obra propriamente dita, onde se descobrem as razões porque o rei Xariar decidiu todos os dias casar com uma súbdita diferente, matá-la a seguir à noite de núpcias e a estratégia de Xerazade para pôr termo a esta carnificina através de se oferecer em casamento a ele e iniciar um série de contos narrados a sua irmã, Dinazarde, que alimentassem a curiosidade do marido e a mantivesse viva.
Os contos, na sua grande maioria, são do estilo fantástico ou do género fábula, não com bruxas e fadas do estilo ocidental, mas com os seus equivalentes no imaginário do médio oriente: génios e ifrites, cuja narrativa pode atravessar várias noites, sendo interrompida em momentos de suspense para manter o interesse e quando terminam deixam com frequência pistas por esclarecer que permitem o encadear de estórias e preservar a curiosidade.
Os contos encerram muitas vezes lições de moral e bons costumes, intercalados com aprendizagens da vida sobre as injustiças na vida terrena, havendo partes em prosa e outras em verso que sintetizam provérbios ou são cantos de amor ou do elogio à beleza física e intelectual. Pelo meio há algumas passagens quase eróticas e mesmo momentos brejeiros. Contudo o papel superior da vontade do Deus único, como agente do triunfo da Justiça e do Bem sobre a perfídia e  malvadez, é frequentemente invocado e atravessa todo livro, mas não se está perante o deus ex-machina da literatura clássica ocidental que intervém diretamente para castigar ou corrigir o mal.
O tradutor disponibiliza numerosas notas em rodapé que esclarecem pormenores do texto relativos à cultura da época, à mentalidade do médio oriente ou do mundo muçulmano e, inclusive, dificuldades de tradução e enquadramentos históricos que muito enriquecem o saber do leitor e ajudam a compreender e a referenciar aspetos que passariam despercebidos.
Não sou um habitual fã de contos fantásticos, mas reconheço a riqueza destas histórias, a influência cultural das mesmas e confesso que além de se estar perante uma obra de fácil leitura, o suspense que é mantido assegura o interesse e o prazer da leitura e em breve espero entrar no volume seguinte deste clássico da literatura mundial que vale a pena conhecer.

domingo, 22 de março de 2020

"A Aldeia" de William Faulkner


A acabei de ler o romance do norteamericano de William Faulkner, escritor laureado com o prémio Nobel da literatura, "A Aldeia". Esta obra é a primeira de uma trilogia em torno da família Snopes no Mississipi.
Neste romance, passado no meio rural, Will Varner é o rico da aldeia, dono de vastas propriedades incluindo O Velho Domínio do Francês. Praticamente toda a atividade económica gira em torno dele: a produção de algodão, as lojas, os empregados e os arrendatários. Um dia Ab Snopes entra na loja e arrenda um terreno ao filho Jody, mas pouco depois descobre-se que ele já causara problemas a outros rendeiros da vizinhança: associado a fogos sobre armazéns dos proprietários; mesmo assim o negócio avança e pouco depois o filho de Ab, Lem, torna-se empregado da loja e vão chegando outros parentes que se instalam e o clã a cresce na economia numa teia de conluios a que os aldeões assistem e compreendem, sobretudo, através dos comentários de Ratliff que vive na cidade e conhece de infância Ab. Quem se deixará enganar pelos Snopes e até onde irão? Vai-se descobrindo neste volume da Trilogia.
William Faulkner desenvolveu um estilo de escrita literária que pratica neste romance denominado fluxo da consciência: narrativa vai sucessivamente tecendo uma teia de ideias, comentários, descrições da ação, da envolvente cénica, personagens e seu enquadramento que obriga a uma grande atenção. Isto porque do início à conclusão de um parágrafo pode existir um extenso texto cheio de complementos com referência a outros sujeitos, factos, tempos, locais e ações onde nos podemos perder, assim a leitura da narrativa vá-se montando como peças de um puzzle que permitem a compreensão do geral e dos pormenores lançados.
Algumas páginas dão grande prazer de ler pela beleza do texto, outras entram em conflito com a atenção do leitor e tornam-se muito difíceis, embora o tom sardónico por norma presente e o suspense associado às pistas lançadas permitam manter vivo o interesse na continuidade da leitura de quem resista à dificuldade do estilo de escrita. Gostei, até mesmo muito, já tenho comigo os restantes volumes, mas preciso de uma pausa a este esforço de atenção. Desejo retomar os Snopes em breve.

domingo, 8 de março de 2020

"Os da minha rua" de Ondjaki

Acabei de ler o pequeno livro "Os da minha rua" constituído por 22 contos, por norma curtos, do escritor angolano Ondjaki. 
São histórias que decorrem na cidade de Luanda em torno do narrador, deduz-se que o próprio escritor, quando este era adolescente e estudante no ensino básico e talvez secundário, envolvendo o próprio, membros da sua família, vizinhos, colegas de escola e amigos dele, num tempo em que Angola ainda estava sob o regime comunista, mas aberta às novelas brasileiras e com um relacionamento próximo com Portugal.
As histórias por norma estão cheias de ternura e humor, desenvolvem-se numa linguagem simples, com muitos termos locais populares e atravessadas pela sensação de saudade do que foi o tempo feliz da infância e da adolescência.
Os contos ora estão cheios da inocência daquela idade, ora temperados com a curiosidade da descoberta da sexualidade no convívio dos rapazes e raparigas e, frequentemente, revelam as aventuras na época relacionadas com particularidades, vícios e defeitos de cada uma da pessoas da sua rua e do narrador. Uma forma de mostrar como sobreviviam no dia-a-dia e se relacionavam entre si naquele tempo e as aventuras de crescimento que misturam a ingenuidade e a esperteza típicas do crescimento em família na transição de criança para jovem e a experiência de vida dos mais velhos.
Um pequeno livro, lindo, amoroso de escrita fácil, onde se mostra o falar de Luanda e que dá um enorme gosto ler.

sexta-feira, 6 de março de 2020

"Arranha-céus" de J. G. Ballard

Excerto
"o arranha-céus era um exemplo de tudo o que a tecnologia tinha feito para tornar possível a manifestação de uma psicopatologia verdadeiramente «livre»."

Terminei de ler o meu segundo livro do inglês J. G. Ballard: "Arranha-céus". Este escritor, nas suas obras, criou e explorou ambientes de tensão psicológica extrema fruto dos desequilíbrios do modelo de desenvolvimento socioeconómico atual que podem despertar o pior que há no íntimo das pessoas, criando mundos de da realidade demencial. Todavia estas criações distinguem-se das distopias futuristas que procuram denunciar o caminho errado da sociedade contemporânea as situações deste autor ocorrerem no presente, dentro de determinados locais ou nichos, como também acontece neste romance, e servem para polarizar ao máximo essas disfunções, enquanto o mundo envolvente aparentemente continua na sua normalidade absurda.
No presente livro, escrito nos anos de 1970, um arranha-céus de 40 andares e dois mil residentes no leste de Londres é o expoente máximo que integra tecnologia, arquitetura de vanguarda, conforto e prazer pelos serviços de lazer e comerciais: piscinas, supermercados, bancos, escolas, cabeleireiros, parques infantis, restaurantes, etc. tudo está estrategicamente disponível dentro do edifício, mas neste subsiste a estratificação social: uma classe mais baixa na parte inferior, uma classe média na sua zona central e uma elite pequena e dominadora no topo, tal como o luxo e a qualidade dos serviços se arrumam de acordo com esta hierarquia social. No que parecia um mundo em equilíbrio inicial e com relações interclasses entre as mais variadas profissões liberais, eis que alguns abusos e preconceitos vindos de cima geram revoltas nos andares inferiores. Estes incidentes irão num crescendo até a um nível de loucura e violência extrema, mas mantém cativos alguns viciados nesta guerra de classes amoral, sem limites e geradora da implosão desta comunidade... enquanto no exterior o dia-a-dia decorre sem nada que se considere fora da norma.
A escrita escorreita, por vezes com metáforas duras, está ao serviço de um mundo onde se perde a dignidade e humanidade, algumas cenas são de grande violência, tanto psicológica, como física e inclusive contra animais domésticos, criando um retrato negro do que a espiral da loucura pode levar. Gostei, lê-se facilmente, mas pode impressionar leitores sensíveis.
Como vários livros de Ballard, este também passou a filme, entre as várias adaptações cinematográficas da sua obra está uma vencedora de melhor filme do ano em Hollywood (Crash), o trailer abaixo é respeitante a arranha-céus.

domingo, 1 de março de 2020

"A Casa Sombria" de Charles Dickens


Excerto
"Nunca o nevoeiro será bastante espesso, nunca o barro e a lama terão suficiente profundidade para estar ao nível da cerração e das dificuldades por que hoje passa este Tribunal Supremo da Chancelaria, o mais nauseante de todos os velhos pecadores, à face da terra."

Acabei de ler um extenso, denso e profundo romance do inglês Charles Dickens "A Casa Sombria". Um casal de jovens primos, órfãos é acolhido sob proteção de um tutor parente na sua Casa Sombria enquanto aqueles aguardam a posse da sua herança retida pelo Supremo Tribunal em Londres há gerações num processo de denúncia do testamento e apaixonam-se entre si. Em paralelo, o dono da casa escolhe outra jovem para dama de companhia que é filha de pais incógnitos, ela sabe ser fruto de uma relação ilegítima e escondida para salvar a honra de uma família que percebemos ser de alta sociedade e é a principal narradora da estória.
Em torno das duas famílias de origem dos três jovens da Casa Sombria, bem como do bairro do tribunal, circulam advogados honestos e interesseiros, tarefeiros, espiões, criados, interessados da justiça, gente detentora de segredos familiares ambiciosa, chantagistas, pessoas que se apaixonam, cidadãos doentes, pobre explorados, honrados ou revoltados ao sentirem-se vítimas de erros do passado ou da situação social, médicos, indivíduos que morrem, criminosos e ainda usurários exploradores da desgraça alheia, detetives policiais, pessoas amigas e adversárias e até beneméritos sociais mais atentos às suas causas solidárias públicas do que às suas obrigações sobre os que lhe são mais próximos e estão a seu cargo, tecendo um malha exaustiva do retrato coletivo da sociedade londrina sobre a qual paira um sistema judicial que é o maior agente de injustiça que se abate em cima desta população.
Efetivamente, no livro há personagens criminosas, assassinas e gente com sede de Justiça, mas torna-se evidente que a mais criminosa, a mais assassina e a mais injusta é a montada pelo sistema judicial, ou seja: a justiça neste Estado de Direito.
Charles Dickens escreve este romance sem pressa. Ao longo das três primeiras centenas de páginas vai introduzindo personagens, isoladas ou em família, que tanto podem ser modelos de virtude ou vilões que vão sendo caracterizadas em pormenor: não só através do seu comportamento individual e indicação de pistas de intenções ocultas, como também através do meio onde vivem e das características urbanas dos locais onde trabalham ou residem e várias delas vemos inclusive o seu regredir fruto do sistema social e de justiça vigente. As exposições cénicas e dos ambientes sociais são de uma grande riqueza estilística descritiva e metafórica pois é um meio para fazer um paralelo entre a realidade paisagística, arquitetónica, meteorológica ou de higiene com os desequilíbrios das personagens e da sociedade. Desta técnica narrativa Dickens mostra genialmente o obscurantismo corrosivo, doentio e até mortal da justiça com recurso clima pestilento resultante da humidade, neblina e frio em que insere logo no início o trabalho proveniente do Supremo Tribunal da Chacelaria.
Nas últimas centenas de páginas, nunca com pressa, os nós soltos da primeira metade começam a unir-se e a montar a teia que constrói o retrato global que até às últimas páginas nos vai surpreendendo, não apenas com revelações e desenlaces agradáveis para um final feliz, mas também com relatos das consequências duras e revoltantes de todos os aspetos negativos que Dickens denunciou publicamente com este romance.
É um magnífico romance e como não houve pressa na narrativa torna-se longo e nem sempre belo, Dickens através da fealdade evidenciou a força e os efeitos do mal que grassava no sistema de justiça da inglês em meados do século XIX e temperou a crueza desta realidade com a beleza do amor romântico e solidário que permite a sobrevivência do humanismo nesta sociedade injusta, cheia de egoísmos e de oportunistas, inclusive é realçada em alguém cuja a doença a desfigura mas sempre bela pela força humana que dela continua a brotar. Um livro marcante.