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sexta-feira, 28 de junho de 2024

"O Intruso" de Stephen King

 

Citação

 "O universo não conhece limites"

Ao fim de muitos anos regressei a um dos escritores de maior sucesso das últimas década, o americano Stephen King e procurei uma obra relativamente recente que juntasse dois dos ingredientes para tal popularidade: literatura de ficção policial e de terror e optei por "O Intruso".

Ralph Anderson decide prender em pleno estádio e durante um jogo de final dos escalões juvenis o seu treinador, um muito popular da cidade: Terry Maitland, pelo assassínio e violação com extrema violência de uma criança. Todas as provas se conjugam para ser ele o criminoso: testemunhos na zona próxima do crime, câmaras de vigilância, impressões digitais e evidências de sangue nas suas roupas. Só que pouco depois o advogado de defesa consegue evidenciar que Terry estava a mais de 100 km e de novo câmaras, testemunhos e impressões digitais asseguram essa realidade, mas em auxílio da polícia vêm as perícias  laboratoriais como o ADN que o levam a levar ao juiz quando um atentado justiceiro termina na morte do potencial culpado. Como explicar a ubiquidade do criminoso? Anderson não fica satisfeito e um conjunto de incidentes agrava tudo, só que o trabalho detetivesco vai evidenciar uma realidade para além do normal, que ultrapassa o natural, é uma luta contra o mal enraizado em crenças e lendas e nesta guerra há que salvar a imagem da vítima acusada, tudo indica, injustamente. Poderá Anderson vencer esta força do mal e reparar a honra que ele sujou?

A narrativa, após a prisão inicial, segue a forma de um trabalho policial clássico, com um conjunto de depoimentos e contra-argumentos da defesa intercalados com choques emocionais do lado da família das vítimas e do preso, além de dúvidas do lado dos investigadores, que são descritos por um autor que domina bem a escrita literária e expostos de uma forma consistente. Perto do meio da obra, quando subtilmente começam a surgir indícios menos naturais, a forma desliza para aspetos incríveis e as suspeitas do terror vão deslizando cada vez mais com passagens para campo do terror, não psicológico, mas paranormal e com momentos repugnantes para o final e deixa-se de estar num simples policial lógico até ao desenlace final mas num misto de ciência e paranormal.

Confesso que a parte natural de investigação da luta da acusação com a defesa me cativou, mas os argumentos lendários transportados para a realidade da narrativa esbarraram com a minha mentalidade científica que nem no campo lúdico se sente atraído, exceto em histórias mitológicas que pretendam representar grandes dilemas humanos como nos clássicos antigos ou as óperas de Wagner. Todavia, é um romance muito fácil de ler, bem escrito e acessível a todos, mas não recomendo a quem o terror o transporte para o reino dos pesadelos ou suscetível a náuseas

quarta-feira, 8 de abril de 2020

"A Lã e a Neve" de Ferreira de Castro


Excerto
"eu julgava que se um homem fosse económico, podia, só com o seu trabalho, levantar a cabeça."

Acabei de ler o romance "A Lã e a Neve" de um dos escritores portugueses da primeira metade do século XX mais traduzidos internacionalmente, sobretudo conhecido por "A Selva": Ferreira de Castro.
Durante a II Guerra Mundial, Horácio, que desde a adolescência fora pastor na serra da Estrela, acabou de concluir o serviço militar na região de Lisboa e voltou a Manteigas cheio de planos: adiar o seu casamento com Idalina para construir uma casa com as condições das que viu pela capital para a sua mulher e filhos, deixar de guardar rebanhos dos outros e ser operário numa fábrica de lanifícios na Covilhã, mas aos poucos descobre as dificuldades em concretizar os seus sonhos: primeiro as dívidas dos pais e a oposição dos futuros sogros obrigam-no a ter de continuar a subir a serra com as ovelhas, depois, quando consegue o emprego desejado, verifica que a miséria dos salários é um mal geral e os colegas que lutam no sindicato sujeitam-se a perseguições do regime, mas eis que surge um programa habitacional municipal e o fim da guerra, só que a crueza da vida não o larga.
Escrito com um grande domínio da língua portuguesa e recurso a numerosos vocábulos já desusados e termos técnicos da laboração têxtil e da pastorícia, Ferreira de Castro é exímio em mostrar a conjugação da beleza da região serrana com a dureza da vida dos seus habitantes pobres, tanto pastores como operários, e evidencia os abusos dos mais poderosos na zona durante os anos da guerra e a seguir. A obra é um verdadeiro prenúncio do estilo neorrealista e só se distingue deste por o protagonista não ser um lutador político, só um esforçado trabalhador que vai descobrindo a injustiça de que o trabalho não permite sair da miséria, mas sem o levar a uma revolta pública.
Gostei, tirando os vocábulos desconhecido, é de leitura fácil, mas é uma obra muito dura pelo retrato social que faz.

domingo, 29 de março de 2020

"As Mil e Uma Noites" Volume 1


Excerto
"nada detém uma mulher quando ela quer alguma coisa."

Acabei de ler o primeiro volume da edição dos contos da obra "As mil e uma noites", um dos clássicos da literatura universal, com origem na idade média saído do mundo islâmico, sendo esta edição uma tradução da versão mais antiga conhecida em língua árabe editada por crowdfunding.
Este volume começa com um historial sobre as origens geográficas, linguísticas e divulgação desta obra até chegar ao ocidente e depois alguma evolução que esta sofreu já na Europa por adições para satisfazer o público não constantes no início, onde fica evidente porque se está perante uma das obras mais conhecidas das pessoas que simultaneamente o real conteúdo é desconhecido. Apesar da sua importância para o contexto da obra, confesso que apenas folheei e li excertos.
Depois segue-se a obra propriamente dita, onde se descobrem as razões porque o rei Xariar decidiu todos os dias casar com uma súbdita diferente, matá-la a seguir à noite de núpcias e a estratégia de Xerazade para pôr termo a esta carnificina através de se oferecer em casamento a ele e iniciar um série de contos narrados a sua irmã, Dinazarde, que alimentassem a curiosidade do marido e a mantivesse viva.
Os contos, na sua grande maioria, são do estilo fantástico ou do género fábula, não com bruxas e fadas do estilo ocidental, mas com os seus equivalentes no imaginário do médio oriente: génios e ifrites, cuja narrativa pode atravessar várias noites, sendo interrompida em momentos de suspense para manter o interesse e quando terminam deixam com frequência pistas por esclarecer que permitem o encadear de estórias e preservar a curiosidade.
Os contos encerram muitas vezes lições de moral e bons costumes, intercalados com aprendizagens da vida sobre as injustiças na vida terrena, havendo partes em prosa e outras em verso que sintetizam provérbios ou são cantos de amor ou do elogio à beleza física e intelectual. Pelo meio há algumas passagens quase eróticas e mesmo momentos brejeiros. Contudo o papel superior da vontade do Deus único, como agente do triunfo da Justiça e do Bem sobre a perfídia e  malvadez, é frequentemente invocado e atravessa todo livro, mas não se está perante o deus ex-machina da literatura clássica ocidental que intervém diretamente para castigar ou corrigir o mal.
O tradutor disponibiliza numerosas notas em rodapé que esclarecem pormenores do texto relativos à cultura da época, à mentalidade do médio oriente ou do mundo muçulmano e, inclusive, dificuldades de tradução e enquadramentos históricos que muito enriquecem o saber do leitor e ajudam a compreender e a referenciar aspetos que passariam despercebidos.
Não sou um habitual fã de contos fantásticos, mas reconheço a riqueza destas histórias, a influência cultural das mesmas e confesso que além de se estar perante uma obra de fácil leitura, o suspense que é mantido assegura o interesse e o prazer da leitura e em breve espero entrar no volume seguinte deste clássico da literatura mundial que vale a pena conhecer.

domingo, 8 de março de 2020

"Os da minha rua" de Ondjaki

Acabei de ler o pequeno livro "Os da minha rua" constituído por 22 contos, por norma curtos, do escritor angolano Ondjaki. 
São histórias que decorrem na cidade de Luanda em torno do narrador, deduz-se que o próprio escritor, quando este era adolescente e estudante no ensino básico e talvez secundário, envolvendo o próprio, membros da sua família, vizinhos, colegas de escola e amigos dele, num tempo em que Angola ainda estava sob o regime comunista, mas aberta às novelas brasileiras e com um relacionamento próximo com Portugal.
As histórias por norma estão cheias de ternura e humor, desenvolvem-se numa linguagem simples, com muitos termos locais populares e atravessadas pela sensação de saudade do que foi o tempo feliz da infância e da adolescência.
Os contos ora estão cheios da inocência daquela idade, ora temperados com a curiosidade da descoberta da sexualidade no convívio dos rapazes e raparigas e, frequentemente, revelam as aventuras na época relacionadas com particularidades, vícios e defeitos de cada uma da pessoas da sua rua e do narrador. Uma forma de mostrar como sobreviviam no dia-a-dia e se relacionavam entre si naquele tempo e as aventuras de crescimento que misturam a ingenuidade e a esperteza típicas do crescimento em família na transição de criança para jovem e a experiência de vida dos mais velhos.
Um pequeno livro, lindo, amoroso de escrita fácil, onde se mostra o falar de Luanda e que dá um enorme gosto ler.

segunda-feira, 6 de agosto de 2018

"As oito Montanhas" de Paolo Cognetti


O romance "As oito montanhas" do italiano Paolo Cognetti é a história de uma criança de pais que se uniram após agruras nas cordilheiras dos Alpes orientais da Itália, se apaixonaram pelas montanhas e quiseram ensinar com grandes dificuldades esse amor pelas alturas ao seu rebento. É a narrativa do nascer da amizade entre este filho e um pequeno guardador de gado montanhês que se foi desenvolvendo de forma pura e agreste como os pináculos dos Alpes ocidentais até à idade madura. É a evidenciação do contraste entre a beleza e poesia da natureza e da vida nestas altitudes quilométricas face à rotina e à fealdade do dia a dia comum nas grandes urbes desenvolvidas nas planícies do sopé destes monumentos naturais que se erguem aos céus no norte da Itália. É a dificuldade da sobrevivência do amor perante os constrangimentos da sociedade moderna.
O livro é um poema em prosa, uma descrição de uma cultura em extinção, o homem montanhês perante a pressão desta sociedade desnaturalizada que invade tudo, mas que apesar de não se adaptar aos cumes dos Alpes e bordeja os Himalaias, sabe como destruir esse património e saber de vida centenário.
Um romance originalíssimo de um jovem milanês escrito em 2016 que toca a alma, mas também faz doer com o ocaso de uns tempos que pela mudança estão a desaparecer.

terça-feira, 22 de maio de 2018

Mordomo das Festas do Espírito Santo

As coroas em 2012

Já várias vezes falei neste blogue da maior festa religiosa tradicional dos Açores, comum a todas as ilhas do Arquipélago que se realiza sempre no domingo de Pentecostes (50 dias após a Páscoa): as festividades em louvor do Divino Espírito Santo, mas que duram três dias no Faial, Pico e São Jorge e que há década têm oficialmente associado, na segunda-feira, o dia da Região Autónoma dos Açores.

Foto de grupo como mordomo em 2012

Sendo uma celebração religiosa de raiz popular, esta tradição de séculos tem como cerne o culto do Espírito Santo, simbolizado por uma coroa encimada por uma pomba, sendo os festejos organizados por irmandades de leigos, cuja sede se chama império, com os seus estandartes e bandeiras. O elemento que num dado dia assume a organização do festejos chama-se Mordomo, nesta terça-feira de 2018 assumo eu esta tarefa em representação de minha mãe, as celebrações, além de atos litúrgicos como missa e procissão, envolvem distribuição de esmolas, organização de uma refeição de sopas de caldo de carne e pão (Sopas do Espírito Santo), arroz doce e outras iguarias típicas, além de atividades lúdicas organizadas pela direção da irmandade.

Refeição em 2012 na irmandade do Império Amarelo da Ribeirinha

No histórico de Geocrusoe encontrarão muitos outros posts sobre esta celebração de séculos que os Açorianos já exportaram para o Rio Grande do Sul e Santa Catarina no Brasil, Nova Inglaterra e Califórnia nos EUA, Ontário e Colúmbia Britânica no Canada, entre outras partes do mundo. Se quiser saber mais consulte aqui símbolos, aqui sopa, aqui estandarte, aqui ritos religiosos, aqui impérios, aqui lendas. Pode igualmente clicar na etiqueta "Espírito Santo" onde haverá mais dissertações sobre o tema.

segunda-feira, 4 de setembro de 2017

"Três Tristes Tigres" de Guillermo Cabrera Infante


Há livros que são uma biblioteca e o romance "Três Tristes Tigres" de Guillermo Cabrera Infante é de facto uma louca adição de estórias, textos de géneros distintos, miscelânea de línguas, charadas de palavras, experiências de escrita e dissecação de vocábulos e pronúncias, mecanismos de destravamento ou travamento linguístico e tal como explicado inicialmente, o bom seria ler em voz alta para melhor entender toda a riqueza fonética ali contida. Tudo isto tem como pano de fundo a vida noctívaga de Havana no tempo de Batista pouco antes da revolução cubana sem qualquer preocupação ou censura moral.
A obra é narrada essencialmente a partir de três personagens maiores: um fotógrafo, um ator radiofónico e um escritor, com a ensombração de um poeta prestidigitador das palavras e de uma cantora cuja a voz e o corpo formariam um monumento gigante, devidamente secundado por toda a panóplia de personalidades que animam a noite boémia: músicos, coristas, prostitutas, homossexuais pessoal de bares, cabarés e restaurantes numa promiscuidade cujas combinações são impossíveis de quantificar, a que se associa de forma intercalada uma voz singular perante o seu psiquiátrica.
Os Três Tristes Tigres são uma enciclopédia da cultura ocidental: tanto musical erudita e popular latinoamericana; literária com citações e deformações e reescritas dos mais diversos escritores e provérbios universais e do saber dos filósofos, havendo uma parte onde se destacam autores cubanos e ainda ao nível do cinema norteamericano sobretudo das décadas 1930/40 e 50, todavia a obra não tem uma linha continuada da estória.
Após uma apresentação dos debutantes que serão reexpostos depois no livro que poderemos redescobrir a quem correspondem, acompanharemos a vertiginosa vida de um fotógrafo encantado com uma cantora, assistiremos períodos de engates entre o ator radiofónico na companhia dos seus amigos escritores e músicos, como veremos em imitações de escritores cubanos várias versões em torno da morte de Trotsky, para passar por um período louco de palíndromes, jogos numéricos, dissecações e transformações de um poeta cuja "deficiência" do cérebro descoberta em necropsia justifica a causa da genialidade de deformação das palavras e da linguagem, para se avançar para um dia louco de reflexões existenciais que se prolonga por numerosas páginas até um epílogo que mais não é que outro trabalho de escrita.
Um livro único do mesmo ano de "Cem anos de solidão", que por vezes com tanto exercícios de escrita pode cansar, noutros divertir o leitor, mas sobretudo é um trabalho que prova que já tudo parece ter sido inventado antes de Saramago, Llosa e outros revolucionários da escrita e da loucura narrativa terem transformado a literatura contemporânea.
Apesar de tudo, para quem não se deixa entusiasmar por estes ensaios de escrita, Três Tristes Tigres pode ser uma obra fastidiosa, ininteligível e desesperante, mas é uma obra-prima para quem gosta mesmo de literatura como arte de saber trabalhar as línguas, as letras, a sintaxe e os sons que a escrita tentam transpor para o papel e sendo um castelhano, suponho que grande parte da dinâmica linguística pode ser bem aproveitada pelo tradutor que seguramente se viu perante um trabalho hercúleo para colocar tal monumento em Português.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

"O Clube Dumas" de Arturo Pérez-Reverte


O romance "O Clube Dumas" do escritor espanhol Pérez-Reverte é uma obra de suspense e mistério que envolve a busca de livros históricos raros, a validação de um manuscrito de Alexandre Dumas pai, aventura, ocultismo, perseguições, charadas e crimes, numa narrativa onde existe preocupações de juntar a literatura como objeto de lazer sem desvalorizar a qualidade de escrita e em paralelo fornecer informações ao nível de histórias de literatura, sobretudo, do autor que cujo nome consta no título.
Como todos os livros de suspense e aventura, este lê-se bem e desperta curiosidade para cenas futuras, algumas destas são em Portugal, o que já não é primeira vez nos livros que leio deste escritor. Uma obra sobre livros, amantes de destes e fãs de um escritor, cruza o secretismo associado a obras de ocultismo e os artifícios que os seus crentes fizeram para manter viva as suas mensagens e no desenlace Pérez-Reverte fala da importância do leitor em se deixar envolver pelo mundo das obras e o risco que quando se mistura realidade e ficção, um jogo romanceado bem feito que diverte, alimenta o gosto pela leitura e divulga factos da história de escritores e da adoração dos livros como objeto de culto. Gostei e acessível a qualquer tipo de leitor. 

quinta-feira, 24 de novembro de 2016

"História da Menina Perdida" de Elena Ferrante - Volume IV de "A amiga genial"


"História da Menina Perdida" de Elena Ferrante corresponde ao quarto e último volume da tetralogia "A amiga genial" e completa a história de uma amizade de vida inteira vista pelos olhos da amiga que se tornou culta e escritora mas que nunca deixou de ter uma admiração e até talvez um complexo de inferioridade face a outra companheira que apesar de não ter tido a mesma oportunidade de estudo lutou com todas as forças para sobreviver, ascender socialmente e revoltada criar um mundo à sua medida à sua volta e enfrentar dificuldades pessoais difíceis de ultrapassar.
Neste livro, após uma primeira metade ainda muito novelesca com amores e ódios, percursos políticos e sociais, bem como conflitos típicos da cidade berço da obra, não só das personagens que acompanhámos nos volumes anteriores, mas também agora dos seus filhos que assim passam de crianças a adolescentes a jovens; segue-se uma segunda parte mais instrospetiva, madura, com reflexões sobre a vida e marcada pelas desilusões, visualização da repetição dos mesmos erros nos mais novos após o calo e o saber dos mais velhos, as relações sociais, a amizade, os problemas socioeconómicos dos desfavorecidos, a corrupção económica e social na Itália e uma descrição nostálgica do que é Nápoles, bem como as mudanças de estilo de vida desde os anos 1990 até à atualidade fecham o ciclo.
Ideologicamente o livro já não promove um idealismo de esquerda, neste campo também com o tempo muitos se acomodam e torna-se evidente que certos ídolos tinham pés de barro e eram oportunistas de uma classe com privilégios que não estão dispostos a prescindir, apesar do discurso solidário. A escrita também se adapta à idade da pretensa narradora, tornando-se ela mesmo mais madura.
São inclusive dadas explicações do essencial da obra de uma forma indireta, isto quando se abprdam o conteúdo de publicações da narradora a falar da amizade, surgindo assim objetivos dos livros dentro do livro que não são mais que a tradução dos da tetralogia, numa perspetiva de alguém que os expõe arreigada a valores humanos fortes, mas libertos de tabus religiosos e pudores tradicionais muito característicos de alguém que viveu a revolução sexual dos anos 1960/70. Valeu a pena a maratona.

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

"História de Quem Vai e de Quem Fica" Volume III de "A Amiga Genial" de Elena Ferrante


"História de Quem Vai e de Quem Fica", o volume III da tetralogia de "A Amiga Genial", da escritora italiana Elena Ferrante, aborda, sobretudo, o início da vida de casada da narradora e da sua experiência de mãe nos anos de 1970, sendo neste mais escassas, frias e desconfiadas as referência à amiga sobre quem se centraram essencialmente o olhar da pretensa autora do texto nos dois anteriores livros.
Além da continuação da trama novelesca de amores, ódios, ciumes e traições, a componente de confronto ideológico esquerda direita, as sombras do terrorismo na sociedade de Itália e a contra ofensiva fascista, que caracterizou de facto a época em questão, têm agora um papel muito mais forte neste volume, todavia o livro não é isento, praticamente todas personagens conotadas com a esquerda têm bons princípio na sua conduta, enquanto o outro lado são sempre exploradores ou corruptos e limitam a liberdade dos seus opositores.
Para além do estilo elegante que caracteriza a escrita, a partir deste volume passa a ter um papel importante a exposição realista de pormenores descrições das sensações dos atos íntimos da narradora, como para vincar a liberdade e fundamentar a atitude da mulher na sua emancipação na sociedade, como também se intensifica a linguagem grosseira para tornar claro a forma de expressão e de pensar natural das pessoas sem o verniz pudico que muitas vezes cobre a literatura. Curiosamente o papel desse tipo de relatos na literatura é de forma indireta discutido na obra pelo impacte que provoca nos leitores.
Continuo a gostar do romance, apesar da sua extensão para a conclusão da obra, poder por vezes dar-me saudades de outros géneros onde pese menos o olhar feminino e sentimental do mundo. Já a ler o IV volume.

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

"História do Novo Nome" ou Vol. II de "A Amiga Genial" de Elena Ferrante


O segundo volume da tetralogia "A Amiga Genial", agora intitulado: "História do Novo Nome", de Elena Ferrante, vem numa sequência perfeita do final do primeiro romance, que narra o nascimento e fortalecimento de uma amizade desde a infância escolar até à adolescência dos protagonistas exposta de forma integrada na vida social de um bairro pobre de Nápoles, terminando o anterior na mesma cerimónia de casamento que dá início ao presente livro que estende a estória destas relações e percursos individuais até ao final dos estudos da narradora, quando esta irá passa a ser uma jovem pronta para uma vida independente.
Tal como já dera a entender, a escrita é muito agradável e de fácil leitura, sendo que a trama se aproxima do desenrolar de uma telenovela popular, só que a escritora faz na obra análises individuais que permitem criar personagens complexas, cheias de virtudes e defeitos, expor as dificuldades de quem vive em meios sociais pobres, falar das barreiras que têm de se ultrapassar para uma integração num estrato cultural e económico mais elevado, incluindo os complexos de inferioridade de origens, e ainda mostrar a corrupção, vícios políticos e preconceitos que minam a vida dos cidadãos em Nápoles, sem esquecer as principais lutas ideológicas que marcaram a juventude na década de 1960.
Esta reunião de aspetos permite que se crie um romance acessível e fácil a leitores pouco atraídos para escritas e enredos complexos, que se limitem a estórias de paixões e ódios, mas sem deixar de interessar a apreciadores de obras mais profundas pela riqueza de informações e o pormenor com intervenientes, intensamente caracterizados e detentores de fortes em personalidade com potencialidades de serem referências na literatura.
Elena Ferrante, despe-se de preconceitos, faz uma obra realista nos aspetos públicos e pormenores da vida privada e íntima das suas personagens, sem apagar experiências marcantes da juventude associadas à descoberta e entrada na vida sexual ativa. Continuo a gostar muito da obra e a recomendar a qualquer leitor, sabendo que por questões de moral podem existir divergências do exposto no livro em termos de ideias e atos. Para já a avançar no terceiro volume desta narrativa.

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

"A Amiga Genial" de Elena Ferrante



"A Amiga Genial" de Elena Ferrante é a primeira obra que leio desta escritora italiana contemporânea, correspondendo a um dos maiores fenómenos literários dos últimos anos por em simultâneo coincidir com um grande êxito editorial e reconhecimento de qualidade do romance, sendo este o motivo que me despertou interesse após ouvir numerosas recomendações para a respetiva leitura.
Este título corresponde ao primeiro volume de uma tetralogia que conta pelos olhos da narradora as histórias de vida e da amizade desta com outra rapariga da mesma idade iniciada nos bancos da escola primária até ao começo da velhice integradas na teia das relações sociais do seu bairro pobre e popular de origem em Nápoles até ascensão e sucessos pessoais da autora e da sua amiga nesta cidade. O presente tomo vai da infância, passa pela adolescência e chega até à entrada da vida adulta da sua colega e decorre a partir da década de 1950. A autora que deseja ser escritora vai descobrindo que a companheira possui uma genial inteligência, mas descobre-se que há uma admiração mútua, grandes sonhos de ambas em ascensão socioeconómica, uma influência nos comportamentos entre si, onde cada uma considera a outra um modelo de capacidades, vontade de estudar e exemplo para condicionar a sua atitude.
A escrita do livro é magnificamente agradável e desperta um grande prazer de leitura que se associa ao conteúdo narrativo, onde somos cativados pelas lutas de sobrevivência destas personagens, as descobertas íntimas da puberdade, do amor, os estilos de vida familiar e social num bairro pobre de operários com pequenos empresários locais, os defeitos do sistema, desde a sombra das redes do crime organizado, aos esforços dos empreendedores, às vicissitudes porque estes passam até aos preconceitos e hábitos destas gentes que os preserva num gueto de onde é muito difícil sair ou subir na vida.
É um livro de muito fácil leitura, onde a análise social é exposta por meios simples, descomplicando a narrativa e a reflexão, gostei de tal modo do volume que imediatamente encomendei os restantes três para próximas leituras, reforçado pelo facto de ainda este ano Nápoles ter sido a minha região de férias e descoberta, havendo passagens que me recordam aqueles dias tão agradáveis que ali passei. Recomendo a qualquer leitor.

terça-feira, 11 de outubro de 2016

"O Lobo das Estepes" de Hermann Hesse


"O Lobo das Estepes" do escritor germânico Hermann Hesse, laureado com o prémio Nobel da literatura, apresenta o desencanto e revolta de um homem com a humanidade mas que inconscientemente anseia integrar-se no mundo que refuta e despreza por considera a sociedade rendida a um estilo de vida banal e medíocre nas suas relações em comunidade, curiosamente a sua luta para ultrapassar esta misantropia e depressão que o atrai para o suicídio desenvolve-se, precisamente, com a ajuda de pessoas de grupos sociais marginais e despromovidos, como prostitutas e músicos de salão traficantes de psicotrópicos, que lhe demonstram como valorizar e aproveitar a vida, desde a produção de arte genial e eterna, até tirar proveito da obra popular passageira capaz de só despertar o prazer frugal do momento e fundamental para temperar a vivência do ser humano e assim se justifica apostar na sobrevivência e adiar a morte inevitável em alternativa a se tornar num alienado vencido.
O romance tem uma espécie de prólogo editorial que pertence à obra, possui uma grande densidade psicológica e um conjunto de reflexões que evidenciam a contraditória luta íntima entre o aspirar ao sublime e a perfeição, exemplificados nas obras de Goethe e Mozart, e a importância de aproveitar o banal para tirar proveito da vida que justifique a sobrevivência numa luta de personalidades múltiplas de que cada indivíduo é na realidade composto, onde até mesmos génios como Goethe e Mozart são capazes de ser crianças e de amar a brincadeira, havendo assim que equilibrar a convivência na alma de cada um entre o desejo para os ideais e as tendências internas para os seus opostos.
Este romance, que é de facto uma obra-prima, antecede em muito a questão levantada por Umberto Eco em "O nome da Rosa": se o riso também faria parte de Deus ou era fruto do mal, sendo que Hesse, de uma forma diferente, evidencia que no ser humano a felicidade está em saber conjugar o sério, perfeito, maduro e imortal, com o divertido, tosco, infantil e passageiro que tempera a vida. Gostei muito do livro e a escrita é magnífica, os meus sublinhados de ideias interessantíssimas a reter surgiram em muitas das suas páginas, é uma obra que recomendo a leitura, mas a quem gosta de obras profundas e onde a facilidade do conteúdo exposto não seja um fator limitante ao prazer de ler.

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

"Jesus Cristo Bebia Cerveja" de Afonso Cruz


Acabei de ler o romance "Jesus Cristo bebia cerveja" do português Afonso Cruz, um dos escritores mais elogiados da atualidade, que tem uma forma de escrever original, cheia de metáforas e expressões estilísticas inovadoras e de quem já li vários livros, os quais, pelo menos, têm-me agradado sobretudo pela sua escrita e este não foi exceção.
Numa aldeia alentejana cruzam-se personagens tão díspares como uma arqueóloga da capital que se seduz pela rusticidade de um camponês em detrimento dos seus colegas cultos; um idoso professor ateu que conferencia com um sacerdote hindu e outro de religião africana sob o patrocínio de uma inglesa dona de uma aldeia de estrangeiros; um padre masoquista; um bar de streap num antigo avião, uma avó católica cujo maior sonho é visitar Jerusalém; uma neta que pretende atender a grande desejo dela enquanto se decide por se entregar a um pastor jovem e viril que cheira às coisas da terra ou ao idoso sábio e apaixonado que decide ajudá-la na viagem à Terra Santa através de uma solução original para a conquistar. Está assim reunido um cenário de singularidades que junto com a escrita criativa rapidamente cativa o leitor.
O desenrolar da história, misturado com ironia, comicidade e crítica social, leva à construção de páginas ora hilariantes, ora nostálgicas mas também por vezes tristes e até trágicas que denunciam injustiças e expõem sentimentos feridos e contraditórios.
Apesar de ter gostado do livro e de em muitas páginas me ter divertido, novamente aconteceu neste romance algo que me vem frequentemente a acontecer ao ler muitas das obras nacionais que se vão publicando nos últimos tempos em Portugal: prometem muito, são magnificamente trabalhadas em texto e depois esmorecem para o seu final, mas pior, não deixam uma mensagem ou conteúdo que me marque com uma ideia ou recordação forte, um sabor final a pouco face aos indícios com que começa.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

"O Sol Nasce Sempre" ou "Fiesta" de Ernest Hemingway


"O Sol Nasce Sempre", também intitulado noutra edições por "Fiesta", é um dos romances mais icónicos do laureado norteamericano com o Nobel da literatura Ernest Hemingway, embora talvez, para alguns leitores, seja moralmente dos mais difíceis de digerir, tendo em conta a sua componente hedonista ou, para os mais exagerados até niilista, e é uma obra muito diferente das outras que já li deste autor, nomeadamente as duas aqui e aqui faladas.
O romance narra, na perspetiva de um elemento pertencente a um grupo de amigos americanos e ingleses, que goza a vida passando uma temporada em Paris, homens e mulheres que procuram tirar o proveito máximo da noite boémia desta cidade onde confluem artistas plásticos, escritores e "bon-vivants", sem grandes planos que não seja usufruir desta liberdade de pensamento e divertimento, do sexo e álcool que marcou os anos loucos das décadas entres as duas guerras mundiais na capital francesa.
Este estilo desemboca também em vazio e incompatibiliza-se com sentimentos humanos como o amor e paixões de momento que brotam deste convívio sem compromissos, fidelidades mais tradicionais ou perspetivas de futuro. A ânsia de novas experiências num momento de saturação do que entretanto se foi disfrutando repetidamente e até à exaustão em Paris leva parte do grupo para festas de San Fermin em Pamplona, um meio muito diferente mas vivido num mesmo estilo na loucura daquelas festividades.
De uma forma que até parece despretensiosa, pelo estilo quase jornalístico da narração, conta-se assim o estilo de vida de uma geração de jovens hedonistas que aproveitam para gozar ao máximo o dia-a-dia, sem planos para o futuro e sem a restrições que o convívio social obriga. Diria que se "On the road" de Kerouac está para a geração beatnik nos anos 1950/60, "Fiesta" está para a geração louca e despreocupada dos anos 1920/30, duas denominadas por alguns "gerações perdidas". Se o primeiro, bem mais recente, mostra muito do modo de viver do seu autor, o gosto pelo estilo de vida preferido de Hemingway está nesta sua obra e a sua paixão pela "arte" tauromáquica está magnificamente tratada neste romance que foi sem dúvida o maior cartaz de sempre daquele festival a mundialmente famosa corrida de touros de San Fermin... a "fiesta".
Para quem pense que este livro é amoral, está errado, os riscos deste hedonismo estão bem expostos sem ser necessário narrar uma história que julgue as personagens ou dê uma lição de moral. Gostei.

sábado, 2 de abril de 2016

"O Deus das Pequenas Coisas" Arundhati Roy



O romance "O deus das pequenas coisas" é o único livro de ficção da escritora indiana Arundhati Roy, com uma vasta obra ambientalista, e ganhou logo o Booker Prize de 1997 e foi um grande sucesso editorial ao nível planetário.
A história que envolve o declínio em três gerações de uma família indiana de nível socioeconómico e cultural acima da média, com intervenção científica e industrial, de religião cristã síria e anglófila, no sudeste da Índia, que se vê enredada na sua teia de vícios individuais misturados com preconceitos locais e a tradição de castas, que assim se autodestrói por invejas, paixões, ódios entre si agravada por fatalidades acidentais enquanto procura assimilar a cultura inglesa como forma da identidade e de afirmação numa época de aceso confronto ideológico da guerra fria.
É uma obra intercultural, onde as influências inglesas e indianas se misturam constantemente na história num período de instabilidade no país devido ao confronto ideológico que marca a guerra fria. Na escrita a autora efetua ainda uma integração na linguagem do misticismo hindu, com o racionalismo ocidental, a força do ambiente meteorológico e da biodiversidade do sudoeste da Índia, sobretudo vistos e interpretados pelos olhos de duas crianças gémeas filhas desta aculturação num período onde uma paixão contra as regras estabelecidas faz soltar todos os demónios que estavam atados nesta teia complexa de encontro de civilizações, credos, mentalidades numa Índia pós independência e politicamente a balançar entre uma democracia de mercado livre e a perspetiva marxista. Todos estes mundos e interesses conflituam nesta obra ferindo e destruindo pessoas de uma forma dura, capazes de não perdoar um amor e aproveitar-se de um acidente perante os olhos de duas crianças gémeas alvo de todas estas tensões.
Por ser uma obra que integra várias culturas inclusive no estilo do texto, nomeadamente a indiana bem distante da europeia, no princípio pode-se estranhar, mas depois de se compreender a forma cheia de metáforas e simbolismos, torna-se num belíssimo romance multicultural e cheio de referências à ecologia da Índia que justifica o sucesso do livro.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

"O Francoatirador paciente" de Arturo Pérez-Reverte


O romance "O francoatirador paciente", de Arturo Pérez-Reverte, é um thriller que ao longo do seu desenrolar passa de Madrid, para Lisboa, Verona, Roma e vai até Nápoles e leva a reflexões sobre a arte urbana e contemporânea através de um mergulho e exploração do mundo dos autores de graffiti, a sua forma de contestar os defeitos da sociedade atual e, inclusive, de denúncia da subjugação da cultura ao dinheiro e à regulamentação oficial.
Este foi o primeiro livro que li deste escritor espanhol que sei possuir uma obra que varia entre romances de maior profundidade em questões contemporâneas e outros mais ligeiros, penso que o presente se situa num campo intermédio.
Uma escrita contemporânea cheia de gírias do meio dos graffiti, mas agradável e correta. Um thriller cujo suspense não esmaga a força das mensagens que o autor vai semeando no texto. Uma obra fácil , mas sem ser ligeira e recheada de reflexões pertinentes sobre o mundo urbano atual. Uma protagonista homossexual mas nada tem de manifesto sobre o tema ou de preconceito. Uma viagem ao submundo de contestação juvenil, dos gangues e de seitas adolescentes, mas sem ser agressivo ou apoiante da delinquência. Uma crítica ao império do dinheiro sem ser uma oposição barata ao sistema e um final inesperado fazem deste romance uma agradável obra de lazer e aprendizagem de uma realidade pouco conhecida que cobre as paredes das nossas cidades ocidentais.
Sem ser uma obra pretensiosa, gostei e recomendo a qualquer leitor e fiquei interessado em continuar a descobrir mais obras de Arturo Pérez-Reverte. 

sábado, 24 de outubro de 2015

"Volfrâmio" de Aquilino Ribeiro


Acabei de ler "Volfrâmio" de um dos escritores portugueses mais importantes do século XX, Aquilino Ribeiro, um romance que em simultâneo cumpre vários papeis.
Mostrar o que foi a corrida desenfreada da população ao minério de volfrâmio ou tungsténio durante a segunda guerra mundial no interior de Portugal para o exportar para a Inglaterra ou Alemanha para fabrico de armamento, tendo em conta que este elemento químico aumenta a resistência das ligas metálicas e melhora capacidade explosiva do equipamento bélico, situação que gerou uma loucura generalizada semelhante à da febre do ouro. Esta ânsia de encontrar volframite ou de adquirir terrenos potencialmente detentores deste mineral levou à riqueza de muitos, à desgraça e exploração de outros e a uma luta sem ética nas populações indiferente à mortandade que grassava na Europa.
Destruir o mito romântico de que as pessoas rurais são simples, honestas e honradas ao contrário das urbanas, no seio da província lavram todos os vícios que empestam as cidades: a argúcia maldosa, a mentira, a inveja, a mesquinhice, os grupos de malfeitorias, as traições, o domínio dos mais fortes que infernizam a vida de muitos e onde não falta a violência e o crime neste mundo tido por são e pacífico.
Por fim e não menos importante, Aquilino mostra a diversidade lexical do português das Beiras, da designação dos utensílios da economia rural e recorre ao vocabulário em vias de esquecimento, escrevendo um texto não só magnificamente elaborado e cheio de figuras de estilo com raízes nos falares e provérbios populares, como também com uma riqueza de termos e uma elegância linguística que delicia todos os que apreciam a escrita como forma de arte. Todavia nem sempre é fácil apreender o significado de todas as palavras usadas quer pela abundância, quer pela frequência e proximidade em determinados parágrafo.
Assim, por estes três aspetos estamos perante um romance histórico e uma colectânea da riqueza da língua numa história acessível, uma vezes irónica, outras divertida e com momentos densos e amargos do que foram as dificuldades vividas nas nossas aldeias devido à pobreza das pessoas e à luta entre as virtude e defeitos da população portuguesa, sendo que estes também não são poucos.

sábado, 10 de outubro de 2015

"O tempo e o Vento" de Érico Veríssimo

"O Tempo e o Vento" de Érico Veríssimo, além de ser uma importante obra-prima da literatura brasileira, que estranhamente se encontra esgotada em Portugal, é um romance que nos últimos anos procurei ansiosamente adquirir com dois outros motivos: (1) por relatar a história do povoamento do Estado do Rio Grande do Sul que contou com um importantíssimo contributo de emigrantes dos Açores no século XVIII, Região onde vivo e estão todas as minhas raízes; (2) por Porto Alegre ter-se tornado cidade irmã da Horta e esta ter-se depois geminado com aquela capital do mesmo Estado através de uma votação unânime da Assembleia Municipal da Horta, em que eu participei, e não concebo ter contribuído para este ato sem conhecer a cultura daquela metrópole onde Érico Veríssimo é um dos seus expoentes máximos literários.
Assim após intensa pesquisa só consegui encontrar num alfarrabista da feira do livro de Lisboa um livro antigo, com ortografia anterior a 1973, com os dois primeiros volumes reunidos de "O Tempo e o Vento" que constituem a primeira das três partes desta extensa obra e designada por "O Continente".
"O Tempo e o Vento" é um romance em forma de saga que desenvolve a formação da família Cambará através da fusão de sangue índio, açoriano luso-flamengo, paulista e até de um salteador errante que se torna sedentário por amor. O narrar-se estas origens no século XVIII e o posterior evoluir das várias gerações Cambará serve de meio para dar a conhecer ao leitor as lutas entre Portugal, Espanha e oportunismos ingleses, bem como o papel das Missões jesuíticas, que levam à definição das fronteira meridionais do Brasil com o Uruguai e a Argentina e prosseguir pela criação da província do Continente do Rio Grande de São Pedro, as suas guerras internas e fronteiriças, o estabelecimento da sua população com migrações brasileiras e imigrações açorianas, lusitanas, alemães e italianas, passando pela independência do País e indo até ao início da república federal com a instituição do Estado do Rio Grande do Sul já no fim do século XIX com o seu carácter cultural único, com virtudes e defeitos bem evidenciados na obra, que mistura todas as proveniências do seus habitantes, aproveitamentos políticos, influências religiosas e onde as raízes açorianas merecem um destaque no romance, não só com a Cavalhadas típicas da Ribeira Grande em São Miguel, como a dança da chamarrita tão forte no Faial e Pico e a culinária misturada com os produtos locais.
Érico Veríssimo com uma escrita elaborada que mistura linguagem popular com a escorreita, não expõe de uma forma linear esta saga: a obra começa num momento em que a família Cambará está sitiada no seu ninho histórico quando das lutas entre republicanos e federalistas em 1897 e depois com recuos e avanços em capítulos diferentes constrói toda a história destas gentes com grandes personagens e perfis psicológicos fortíssimos como Pedro Missioneiro, Ana Terra, Rodrigo Cambará, Bibiana Terra Cambará, Licurgo Cambará e Ana Valéria Terra que sem dúvida estão ao nível de outras figuras da literatura mundial. Um magnífico romance que deve ser lido não só pelo povo do Rio Grande do Sul, mas por todos os Brasileiros e Portugueses, sobretudo Açorianos.
Espero ter oportunidade de ler as sequelas desta saga: "O Retrato", e "O Arquipélago" que completam "O Tempo e o Vento" e penetram pelo século XX e onde seguramente a influência Açoriana se deve ir autonomizando e tornando-se cada vez mais Brasileira.

terça-feira, 25 de agosto de 2015

"Uma verdade incómoda" de John le Carré


A minha estreia em obras de John le Carré teve o mérito de mostrar que existem escritores de sucesso popular capazes de escrever thrillers, policiais e histórias de espionagem que vão muito para além do mero suspense que criam no leitor e são capazes de levantar questões, fazer retratos da sociedade contemporânea e de denunciar muito do mal que a domina.
"Uma verdade incómoda" ou "delicada" como no título original é isso mesmo, um romance que depois de relatar uma operação secreta que mistura ambições políticas individuais com interesses privados, tem danos colaterais que importa esconder ao comum cidadão, pisando para este objetivo todos os princípios que a democracia tem por critério pautar-se.
Sendo uma obra recente e passada na atualidade, o romance denuncia muito da hipocrisia socioeconómica presente e não se coíbe em criticar o que foram os efeitos desastrosos das opções estratégicas para o Iraque no tempo de Blair e toda a panóplia de interesses e de preconceitos religiosos hipócritas que minam presentemente os ultraconservadores dos Estados Unidos, isto numa história cujo enredo está muito distante destas matérias e tem como base uma perseguição entre quem quer mostrar a verdade e o poder que a pretende esconder.
Como normalmente acontece com romances de espetro mais popular e suspense, a escrita é fácil, mas escorreita e realista e como tal recorre à gíria banal sem recursos estilísticos muito elaborados, mesmo assim gostei da obra e recomendo a qualquer leitor, inclusive aqueles que têm receio de livros eruditos e complexos.