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segunda-feira, 1 de julho de 2024

"O Silêncio" de Don DeLillo

 



Acabei de ler "O Silêncio" do norteameriano Don DeLillo, apesar de no original ter como subtítulo "Um romance", está-se mais perante um conto ou novela que nem chega a 90 páginas.

Cinco pessoas combinam jantar no intervalo do grande jogo do super bowl em casa de um casal: uma professora de física, seu marido inspetor de seguros, um ex-aluno e professor de física, e um casal amigo, muito viajados que a chegar de avião de uma visita a Paris. Tudo na expectativa da partida, enquanto os professores esperam falam de Einstein, do mundo físico imaginado pelo cientista, ele pensa no apenas em jogadas enquanto o outro casal no avião ele fixa o monitor e vai lendo as informações e ela anota pensamentos e momentos para seus livros ou mais tarde recordar. Até que se dá um apagão global de todos os sistemas informáticos e todos os ecrãs se apagam, TV, telemóvel, computadores, comunicações dos avião. Uma catástrofe que as pessoas não estavam preparadas, um silêncio que obriga as pessoas a falar se ainda forem capazes.

Tenho gostado de todos os livros de Din DeLillo que tenho lido, todos resultam em obras que possuem momentos e diálogos desconcertantes que tocam os receios da humanidade ocidental atual e os riscos da civilização contemporânea, como que esta esteja à beira de cair num precipício para uma catástrofe final. Este não é exceção, não é uma distopia típica, eis um escritor menos absurdo que Kafka de há um século atrás, sem dúvida mais realista, toca nas sombras provocadas pelo desenvolvimento socioeconómico das últimas décadas, mas com ele sinto sempre aquela sensação estranha de que estamos a viver num mundo absurdo, um sonho que não é um pesadelo, mas sem luz ao fim do túnel.

Gostei muito e recomendo a quem ainda não conhece este escritor ou a todos que gosta dele, um pequenino mas típico Don DeLillo.

terça-feira, 26 de dezembro de 2023

"Trilogia" de Jon Fosse



Acabei de ler o meu primeiro livro do norueguês Jon Fosse, o vencedor do prémio Nobel de 2023. A obra "trilogia" é constituída por três novelas, em que cada uma surgem as mesmas personagens principais, de modo a que o conjunto se completa num romance mais vasto.

Na primeira novela, Alse, tocador de violino, e Alida, empregada doméstica e grávida, ambos pouco mais que adolescentes, saem da terra rural natal para Bjorgvin (Bergen), uma fuga da sua situação mal tolerada pelo conservadorismo da aldeia; na cidade buscam alojamento que não conseguem encontrar, até que chega à hora de nascer Sigvald, em paralelo assistimos ao pensar de cada um sobre como vê o outro. Na segunda, Alse adota o nome de Olav e veio à cidade a partir do local que ocupou para residir e com a ideia de comprar uma aliança para Alida, ela agora com o nome de Aste, mas na viagem encontra um velho que mostra saber de todas as malfeitorias que Alse terá feito na primeira novela, enquanto o chantageia ele consegue comprar uma prenda alternativa para a sua companheira, mas a denúncia levará a um final diferente, igualmente cada membro do casal imagina sobre o outro. Na terceira, Alida já morreu, mas pelos olhos de sua filha, Ale, sabemos que a mãe terá ficado sem o seu primeiro companheiro e juntou-se ao seu pai numa solução para a sua situação de abandono e assistimos ao evoluir desta nova realidade.
Jon Fosse tem, efetivamente, um estilo muito próprio de construir a sua narrativa: uma sucessão de frases muito curtas: ora unidas pela conjunção "e", ora constituindo diálogos sem sinais de interrogação ou de exclamação, mas rematados por disse ele, ela ou outro interlocutor, deixando pontualmente a dúvida de quem de facto o disse, mas que, por adição, vai montando a história de modo semelhante ao pontos que no pontilhismo constroem a imagem impressionista. Surge assim um texto minimalista que parece ritmado e sincopado com abundância de notas de união.
A história é de fácil apreensão, mas os sentimentos parecem ausentes, o que dá um caracter frio e de solidão nas relações humanas, apesar de se sentir a presença do amor, do ódio e do oportunismo na forma como cada personagem fala ou reflete sobre o outro.
Gostei, foi um experiência de leitura de uma narrativa escrita de forma diferente.

sábado, 30 de maio de 2020

"O Físico Prodigioso" de Jorge de Sena

Excerto
"...Disseste-me também que eu era um deus. E eu sinto que sou. Ou sinto que estou sendo. E é uma coisa insuportável."

Acabei de ler a novela "O Físico Prodigioso" do português Jorge de Sena, obra inicialmente integrada na coletânea de contos do autor "Antigas e Novas Andanças do Demónio", mas que depois da queda da ditadura ficou com o seu texto definitivo, a ter vida própria e foi publicada autonomamente por vontade do escritor.
Uma novela que vai buscar as suas raízes em dois mitos antigos expostos em contos portugueses da idade média que o autor integra num só, numa narrativa do género fantástico, mágico e gótico.
Um jovem inocente e de beleza impressionante desperta a paixão no Demónio que lhe permite poderes fantástico de físico (mago/médico da idade média). Aquele ao banhar-se num lago é descoberto por três donzelas que o cativam para a sua senhoria, uma viúva retida no seu castelo e a definhar de uma doença que se diz apenas ser curada por um jovem belo e virgem. Aceite o desafio irá então desenrolar-se uma evolução orgíaca, a descoberta de um passado sangrento da castelã e momentos de bruxaria que desemboca num tribunal coletivo religioso com juízes (magníficas caricaturas de puritanos cheios de ruindade) que o julgará no obscurantismo da igreja com a intervenção do demónio numa luta entre o misticismo, o castigo da sujeição às tentações e a liberdade individual.
Uma narrativa onde a língua portuguesa é trabalhada com genialidade numa escrita criativa que vai da prosa à poesia com timbre medieval e textos paralelos que põem frente a frente o ocultismo da época, o erotismo e o misticimo religioso, puritano e castrador. Jorge de Sena cria uma trama que está entre um conto das mil e uma noites numa cultura cristã e um história gótica de terror e luta com a religião e o demónio, qual deles mais pernicioso ao homem e à liberdade neste contexto.
A novela, com pouco mais de 100 páginas, é seguida por uma pequena nota explicativa de Jorge de Sena sobre os mitos em causa e excertos dos dois contos medievais que serviram de inspiração a esta obra, o que permite uma compreensão mais vasta que a simples leitura da narrativa.
Uma obra diferente com insinuações eróticas tratadas na liberdade de um mundo fantástico como projeções de sonhos livres sem as inibições sociais e morais dos desejos, o que pode ferir sensibilidades, mas que me deu um enorme gozo de leitura, pela imaginação e o tratamento da língua lusa.

domingo, 4 de agosto de 2019

"O Pátio Maldito" de Ivo Andric


O croata, Ivo Andric é um dos dois escritores laureados com o Nobel da literatura, então como jugoslavo, que penso já ter lido tudo o que está neste momento editado e disponível em Portugal,  "O Pátio Maldito", a terceira obra que leio dele, soube-me a pouco, este pequeno livro tinha potencial para uma narrativa longa mas ficou-se por uma novela com pouco mais de 100 páginas. Todas as premissas do que foi o efeito do império otomano sobre os povos dos Balcãs e o sudeste da Europa, incluindo península itálica com o venezianos e a Igreja Católica está lá... mas o autor limitou-se a um retrato ligeiro que deixa à imaginação o leitor aprofundar.
Dois frades de um convento limpam a cela e os despojos deixados por frei Petar velho e recém-falecido, mas o jovem frei Rastislav apenas recorda as memórias dos relatos Petar de quando foi a Istambul e preso por suspeita de espionagem, tendo então ficado vários meses detido n'O Pátio Maldito de onde contava: a vida do diretor da prisão de marginal a polícia; do jovem de Esmirna detido por gostar de ler e se ter encantado com a biografia do irmão de um sultão que lutou pelo trono e vencido tendo sido utilizado pelo ocidente como refém ao em benefício dos interesses de uma ordem religiosa, do Vaticano, de França e de Nápoles; do detido que apenas via denunciantes nos outros detidos e da panóplia de prisioneiros e de tipos de carácter que por ali encontrou das várias nacionalidades do império Otomano.
Muito bem escrito, embora de uma forma literariamente  conservadora, Andric mostra a diversidade das gentes do império muçulmano que dominou a Europa oriental por 500 anos, exposta na vitrina que era a prisão da capital e vista pelos olhos de um cristão bósnio.
Gostei, mas soube-me a pouco, pois tinha assuntos para estas 100 páginas se multiplicarem por quatro o cinco vezes de uma forma deliciosa.

quinta-feira, 11 de julho de 2019

"Os dados estão lançados" J. P. Sartre


Li o romance/novela "Os dados estão lançados" do filósofo francês laureado com o Nobel da literatura: Jean Paul-Sartre, apesar de o ter feito em ebook, esta obra existe em livro conforme o link associado ao nome do mesmo.
A obra começa com o desenrolar de dois homicídios: de Pedro - um líder revolucionário em véspera da revolta, morto por um espião; e de Eve - uma esposa rica e infeliz, envenenada pelo marido. Os assassinados no reino dos mortos podem observar sem serem vistos o que se passa no mundo dos vivos e tomam conhecimento de riscos que desejam evitar: Adão envolvendo os seus correlegionários e Eva uma armadilha montada à irmã. Entretanto aquelas vítimas apaixonam-se entre si, só que o amor só se concretiza em vida, mas um artigo da lei permite reviver pessoas que destinadas uma à outra que não se encontraram antes. Assim, terão a morte revogada para concretizar o amor num prazo pré-determinado, só que também se sentem obrigados a evitar os males a que os entes queridos estão expostos, surgindo o problema de conciliar as duas tarefas e mudar o curso da história com os dados lançados não é fácil.
Escrito numa linguagem fria, quase telegráfica e sem recorrer a figuras de estilo evidentes, a trama desenrola-se de uma forma rápida que entrecruza cenas associados aos dois protagonistas assemelhando-se a uma dramatização teatral, e talvez só não seja uma peça por necessitar de recorrer a algumas soluções técnicas para descrever a realidade dos mortos e dos vivos e complexidade de encenar numerosos quadros curtos em ambiente muito distintos.
A ideia de destino e de fatalidade da existência humana atravessa a obra sem obrigar a grandes reflexões e a  crença romântica da força do amor é posta à prova por este filósofo existencialista.
Curto, muito fácil de se ler e consegue ter bom humor no seio das situações tristes em que Pedro e Eva se veem envolvidos, terminando com uma dúvida de esperança. Gostei muito.

terça-feira, 16 de abril de 2019

"Eusébio Macário" de Camilo Castelo Branco

Regressei à literatura portuguesa com "Eusébio Macário" de Camilo Castelo Branco e escrito no início do último quartel do século XIX.
A obra é uma paródia sobre o estilo de vida provinciano rural, com padres devassos, homens e mulheres promíscuos que vivem na hipocrisia e má-língua dos pecados alheios mas que por conveniência financeira são capazes de aceitar uma vida dentro das regras morais.
Eusébio tem uma farmácia e um casal de filhos é amigo do abade que tem uma amante, o regresso do Brasil do irmão desta, após longe ter feito fortuna, irá levar a uma revolução na vida desta comunidade, onde a moral e os bons costumes são chaves de beneficiar deste filho retornado à terra que por sua vez está ávido de reconhecimento social público.
Camilo que está à época em conflito com as novas ideias literárias procura nesta paródia reagir aos seus adversários, pelo que satiriza o realismo escrevendo com muita adjetivação e com uma riqueza lexical enorme, sendo que em tal excesso de palavras muitas destas caíram em desuso ou são regionalismos, pelo que nos parecem estranhas, embora no contexto se perceba. Nesta novela o contraste com o seu contemporâneo Eça de Queirós torna-se flagrante no modo de parodiar os problemas nacionais, ambos génios no domínio da língua, só que com estilos bem diferentes e o autor de Os Maias é de uma elegância ímpar.
Igualmente o escritor aproveita para explicar alguns comportamentos e expressões que caracterizam a sociedade da sua época cheia de vícios privados mas defensora de virtudes públicas e para falar de alguns reviravoltas políticas no conturbado período que se seguiu à luta entre absolutistas e liberais defensores do regime Constitucional. 


domingo, 10 de março de 2019

"Uma história de Xadrez" de Stefan Zweig


Acabei de ler a excelente novela ou talvez conto longo, pois nem chega a 70 páginas, "Uma história de Xadrez" do austríaco Stefan Zweig, a sua última obra de ficção, escrita já no seu auto-exílio no Brasil, por fuga a Hítler, enviada ao editor pouco antes do suicídio do casal Zweig.
Numa viagem de barco entre Nova Iorque e a Argentina o narrador descobre que entre os passageiros viaja o campeão mundial de xadrez à época, ele e outro passageiro afoito decidem enfrentá-lo e apesar daquele ser uma pessoa arrogante aceita o desafio, o jogo vai-lhe correndo favoravelmente como seria de esperar, até que um desconhecido começa a aconselhar os amadores, só depois se sabe da amarga vida que teve que o levou a ser um genial jogador como defesa psicológica que não deveria jamais voltar a jogar.
Como as várias novelas de Zweig que já li, a narrativa começa a desenrolar-se com uma escrita elegante num meio social elevado até que um imprevisto leva a se descobrir uma situação de enorme tensão psicológica cujo escritor expõe de forma magistral, mas preservando sempre a beleza, a nobreza e os valores na forma do texto e na descrição e esta obra não foge a essa estrutura tão típica.
Sou um grande apreciador deste género distinto e ímpar de Zweig, sempre fácil de ler, cordial e de grande tensão emocional. Gostei muito.

sábado, 29 de dezembro de 2018

"Um copo de cólera" de Raduan Nassar

Excerto
entenda, pilantra, toda 'ordem' privilegia» «entenda, seu delinquente que a desordem também privilegia, a começar pela força bruta»"

Li, apenas num único dia, a novela "Um copo de cólera" do escritor brasileiro Raduan Nassar, vencedor do prémio literário Camões de 2016. O objetivo foi mesmo descobrir o autor que me era desconhecido, há décadas que não publicava e mesmo assim recebeu um dos galardões mais importantes da escrita em língua Portuguesa.
A novela, com pouco mais de 100 páginas, conta o período de vida do protagonista ao longo de uma noite e um dia na sua residência. Este chega a casa ao anoitecer e encontra a sua amante, uma jornalista, que já ali o espera... após uma noite de paixão e sono, acorda de manhã, inicia a sua rotina matinal, toma o pequeno almoço numa calma de pessoa satisfeita pelos seus prazeres e então descobre que a sua sebe sofreu um ataque de formigas que o enraivece: a sua cólera vira-se primeiro contra os insectos, depois para os empregados e por fim a sua companheira que o irrita intencionalmente, então desenvolve-se um diálogo cada vez mais irado que culmina numa relação de luxúria animalesca que termina em agressão verbal e física extrema que os separa, até que após êxtase e a saída para o trabalho no regresso nova noite começa...
A estória mais não é que um relato de luxúria e fúria, a obra vale sobretudo pela escrita. Cada parágrafo tem a extensão do capítulo em que se insere, sendo que o maior é mais de metade da novela num texto continuado sem interrupções que envolve descrições, sentimentos e diálogos numa grande criatividade de formas no uso da língua Portuguesa e foi efetivamente esta arte de tratar as frases que gostei e deve justificar o prémio décadas depois do abandono da carreira literária.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

"Obra Reunida" de Juan Rulfo


Excertos
"Esta aldeia está cheia de ecos. Parece que estão fechados no interior das paredes ou por baixo das pedras. Quando andas, sentes que vão pisando os teus passos. Ouves estalidos. Gargalhadas. Umas gargalhadas já muito velhas, como estivessem cansadas de rir. E vozes já gastas pelo uso."
in Pedro Páramo, novela.

"San Gabriel sai do nevoeiro húmido de orvalho. As nuvens da noite dormiram sobre o povoado procurando o calor das gentes. Agora está para sair o sol e a névoa levanta-se devagar, enrolando o seu lençol, deixando fios brancos em cima dos telhados. Um vapor cinzento, apenas visível, sobe das árvores e da terra molhada atraído pelas nuvens;..."
in "Na madrugada", conto.

"Quem exercia este ofício era Dionisio Pinzón, um dos homens mais pobres de San Miguel del Milagro. Vivia numa casinha do bairro do Arrabal, na companhia da sua mãe, enferma e velha, mais pela miséria do que pelos anos."
in O galo de ouro, novela.

O mexicano Juan Rulfo é considerado o pai do estilo realismo mágico da América Latina e o escritor que segundo Gabriel Garcia Marquez (GGM), mais o terá influenciado. Este livro, além um um preâmbulo de GGM, junta três obras deste escritor: as novelas "Pedro Páramo" e "O Galo de Outro", bem como o conjunto de contos publicados sob o título "A planície em chamas" ou "O Llano em Chamas". No fundo o conjunto da sua produção literária que abandonou a sua criação no auge do seu sucesso.
A primeira novela é de facto surpreendente, narra a vida de Pedro Páramo, o homem forte numa terra rural onde ele põe e dispõe de tudo e de todos, inclusive das mulheres e das vida e propriedade dos homens de forma incólume, entretanto na sua vida há uma paixão marcante que no seu domínio totalitário teve de esperar décadas para ser atendida. A história é contada como memórias e vozes de consciência dos colaboradores, das vítimas e até dos lamentos dos mortos, expostas de forma dispersa, sem uma sequência cronológica nem respeito pela continuidade da trama, misturando situações díspares, o real e o mágico para no fim se completar o quadro num estilo de escrita que é de facto ímpar e literariamente de uma riqueza difícil de explicar.
A seguir seguem-se vários contos pouco extensos e passados na planície semiárida do interior do México, com momentos da guerra dos cristeros, outros de vinganças, outros de amores que dão um ideia do que seria a vida no coração profundo do país e distante dos centros urbanos, normalmente pautado pela pobreza e desolação, só que todos eles são magnificamente escritos.
A última novela conta a vida de um indigente desprezado por todos que de pregoeiro toma conta de um galo de combate derrotado e ferido e o torna num vencedor, então começa a sua peregrinação onde encontra uma mulher cantadeira que lhe dará a sorte e o azar do futuro da sua vida. Novamente o realismo mágico impõe-se associado a uma escrita de um génio.
Gostei do livro e tal como Gabriel Garcia Marquez se deixou maravilhar por Juan Rulfo, vale a pena conhecer esta genialidade, cujas obras se limitam a poucas centenas de páginas brilhantes, felizmente aqui reunidas, embora também existam em separado. Soube-me a pouco o que de facto este mexicano legou à literatura latinoamericana, pena não haver mais obras.primas de Juan Rulfo.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

"A morte de Ivan Ilitch" de Lev Tolstoi


Não sei se "A morte de Ivan Ilitch" de Lev Tolstói é um grande conto, uma novela ou um pequeno romance, mas é uma excelente narrativa com uma magnífica reflexão sobre a vida que a generalidade das pessoas anseia levar.
No início sabemos da morte de Ivan com a leitura do jornal pelos seus colegas de trabalho no Tribunal e vemos a importunação que o facto provoca nos pretensos amigos, o incómodo de praticar certos atos sociais para o momento e o início da competição para tirar da situação oportunidades de carreira ou vaga para familiares. Depois, vem o enfado de visita fúnebre onde cada um tem uma estratégia para se libertar da situação e, perante o corpo de Ivan entramos na terceira parte do livro: o relato e reflexão na primeira pessoa do que foi a vida do morto, as ambições, as  hipocrisias sociais, os subterfúgios para ascensão na carreira, o pisar os outros até ao declínio final e a chegada do medo da aproximação da morte e a sensação de incómodo e desprezo dos mais próximos.
Ivan descobre no exame à sua vida aquilo que parece comuns a todos os humanos: a aparente subida na vida é uma descida cada vez mais vertiginosa, mas todos à volta caem neste engano e só descobrem isso tarde.
Apesar da hipocrisia social desnudada nas primeiras páginas e da descoberta da ilusão do que foram as conquistas da vida na segunda parte, a obra além de pequena, não é triste e a narrativa é de uma enorme beleza e sensibilidade ou não estivéssemos perante um dos maiores vultos da literatura mundial. Gostei muitíssimo e recomendo a qualquer leitor esta curta obra-prima.

sábado, 4 de junho de 2016

"Vinte e Quatro Horas da Vida de Uma Mulher" de Stefan Zweig



"Vinte Quatro Hortas da Vida de Uma Mulher", do austríaco Stefan Zweig, é uma pequena novela que evidencia como uma situação, não preparada, nem intencional, pode levar a comportamentos repentinos, socialmente criticáveis e ostracizantes, mas onde uma mente aberta e compreensiva é capaz não só de entender, como até de não deixar afetar o seu relacionamento com que assim age. Há sentimentos por vezes mais fortes que a razão que fomentam a loucura e marcam uma pessoa e, em simultâneo, correspondem até ao ponto mais alto da vida e aquele por qual valeu a pena viver.
Uma escrita muito elegante, tal como o meio social onde o enredo se passa, a trama principal é uma narração em estilo de confidência em primeira pessoa, despoletada por uma crítica social e coscuvilheira sobre o comportamento de uma terceira pessoa. O texto evidencia uma mestria do escritor na  forma de descrever sentimentos e de expor a sua expressão psicológica e física.
Uma novela que se lê muito bem, tanto pela beleza da escrita, como pela elegância com que a história é narrada. Gostei muito e recomendo a qualquer leitor.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

"A Pérola" de John Steinbeck


Não sei se "A Pérola" é um conto ou uma novela, mas sei que é uma excelente fábula do laureado com o Nobel da literatura John Steinbeck, maravilhosamente escrita e procura mostrar que apesar das dificuldades da pobreza, o encontrar de um tesouro desejado pode não ser o fim de todos os problemas e até atrair muitos outros males que estão no coração das pessoas.
A forma de passar a música os sentimentos sentidos pelo pescador de pérolas perante a realidade que sente e vê à sua volta é genial e a escrita é tão bela que várias vezes repeti parágrafos para me deliciar. Um lindo conto ou novela, com uma lição de moral subjacente que recomendo a qualquer tipo de pessoa que goste de ler.