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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

"A Crise do Capitalismo Democrático" de Martin Wolf

 

Acabei de ler, em ebook, o ensaio de Martin Wolf, jornalista e editor económico do Financial Times, intitulado "A Crise do Capitalismo Democrático", uma análise, elaborada em 2023, do caminho que o capitalismo tem seguido à escala global nas últimas décadas e dos riscos dele resultantes para as democracias ocidentais e sobrevivência deste tipo de governação.  
O autor informa ser defensor da união entre democracia e o capitalismo liberal, que, apesar de imperfeito, se mostrou ser o melhor de todos até hoje, considera que estas partes não podem subsistir uma sem a outra, mas esta relação está agora em risco, por isso pretende corrigi-la, de modo a que o casamento sobreviva sem descambar em autocracia populista autoritária ou em ditadura.
O livro expõe os efeitos da deslocalização de unidades produtivas dos países democráticos para regiões desfavorecidas, desemprego na Europa e EUA e contenção salarial abaixo do crescimento económico. Denuncia os privilégios das elites e multinacionais que junto com a corrupção e a avidez predatória consomem a maioria da riqueza produzida e esmagam a classe média com degradação dos seus níveis de vida, gerador de desconfiança nas soluções governativas tradicionais das democracias liberais.
O desespero nos eleitores tem levado à atração por opções radicais perigosas, exploradas pelo populismo que descredibilizam ainda mais as instituições democráticas, empolam a sensação de corrupção e criam novos culpados como imigrantes, grupos étnicos e os desfavorecidas apoiados pelo estado social, arregimentando estas vítimas do neocapitalismo em torno de ilusões fáceis e discriminatórias.
Wolf analisa ainda os potenciais efeitos das novas tecnologias no emprego que ampliam a desilusão, empolada pela indignação através das redes sociais com notícias falsas sem controlo, apelos a nacionalismos e rejeição da comunicação social moderada.
Depois, Wolf apresenta um conjunto de propostas, não limitadas ao nível do Estado, mas também, de âmbito de cooperação em todo o espaço democrático para reformular a relação entre governança democrática e os agentes económicos privados, de forma a criar um sistema mais justo que credibilize perante os cidadãos a união do capitalismo liberal com a democracia, caso contrário, esta será vítima dos abusos que estão ocorrer e condenada a cair em regimes autocráticos ainda mais perniciosos e injustos para as classes esmagadas ao longo do caminho seguido atualmente.
O livro foi escrito no interregno dos mandatos de Trump, o populista mais poderoso e menos poupado no ensaio, pelo que a situação descrita na obra agravou-se ainda mais. O autor reconhece o atual poder da China e o crescimento económico desta, um império que é uma ameaça muito diferente da União Soviética e bem mais forte que a Rússia de Putin, países com sistemas condenados por Wolf, pelo que considera que a mudança não será fácil e só pode ter sucesso se implementada em cooperação e adesão de todo o espaço ainda em plena democracia e aceitação de regulação entre os seus Governos e a classe privilegiada atual e multinacionais, de modo a criar um equilíbrio mais justo que beneficie as classes mais baixas sem destruir o espírito e a motivação, a criatividade dos empreendedores e a iniciativa dos investidores que apostam no crescimento da economia.
A obra aprofunda intensamente os diversos aspetos considerados e embora seja de compreensão acessível a qualquer leitor, é bastante técnica em "economês".
Pessoalmente, considero que é difícil não concordar com o retrato disfuncional desta união do capitalismo liberal com a democracia e da insustentabilidade da via que está a ser trilhada. As propostas envolvem algum voluntarismo dos principais beneficiários do modelo atual e na generalidade concordo com as reformas apontadas, apesar de, infelizmente, não acreditar que sejam aceites por todos, o que compromete a solução, nem acredito no pressuposto de Wolf para a sua estratégia de se criar um padrão de vida sempre crescente, partilhado por todos e sustentável numa Terra fisicamente limitada.