terça-feira, 19 de janeiro de 2021

"Yaka" de Pepetela

 

Acabei de ler o romance "Yaka" do escritor angolano Pepetela. Este narra a vida da família Semedo de ascendência portuguesa desde o nascimento acidentado de Alexandre Semedo em 1890 até à independência de Angola em novembro de 1975, atravessando 5 gerações em torno de Benguela.

O romance tem como narrador principal Alexandre, um helenista filho de um exilado português, que conta toda a sua vida, a da sua família, a do estilo de vida dos colonos e das etnias do sul de Angola, e da cidade de Benguela, numa montagem que reúne a sua análise crítica politicossocial em resultado da sua troca de opiniões com as impressões que retira de uma escultura indígena "Yaka" guardada na sua casa. Deste modo se monta a história da colónia desde o final do século dezanove, ainda quando a metrópole era uma monarquia, se passa pela esperança da 1.ª república, à dureza da ditadura do Estado Novo, se desemboca na revolução do 25 de Abril e termina com o domínio local do partido MPLA imediatamente antes da independência e o início da guerra após a invasão da África do Sul como aliada da UNITA e feroz anticomunista.

O romance mostra o ambiente de guerrilha alimentado pela comunidade portuguesa que, apesar de ter livres pensadores humanistas no seu seio, permitiu que esta controlasse o comércio e expoliasse as populações autóctones dos melhores terrenos, tendo como suporte desta estratégia o regime governativo ao serviço dos lusitanos. Neste meio, o protagonista, um ser humanista e fascinado pela cultura grega, foi-se acomodando a esta gestão política que ele próprio rejeitava.

A visão apresentada é ocidentalizada e a análise crítica para o final do romance só considera como salvador o partido MPLA a que o escritor pertencia, todavia o livro vale por dar a conhecer as tensões que sempre subsistiram no terreno desde o século XIX, as suas causas e oportunismos, para melhor se compreender o que foi a vida nesta colónia. Não há uma apreciação isenta e justificativa das divergências entre partidos que lutaram pela independência que permita compreender porque Angola foi depois palco da guerra civil mais longa em África e sugada por um único partido que se transformou num sistema de capitalista centrado em nepotismo e corrupção.

A escrita é fácil, apesar dos numerosos vocábulos angolanos, há um pequeno dicionário no fim, e a própria narrativa não oral utiliza uma sintaxe distinta da que de Portugal e do Brasil. Um bom romance para compreender Angola, agradável em estilo de saga, o que permite ver a evolução dos tempos e a diversidade dentro de uma família e de uma comunidade colonial, onde os portugueses não ficam bem nos seus comportamentos coletivos, mas que consegue ser delicado para não se tornar num manifesto contra todos os lusitanos. Gostei.

4 comentários:

ematejoca disse...

Nunca li nada do escritor angolano.
Foi um prazer ler a análise escrita pelo Carlos.
Quando visitava Portugal ofereciam-me ou eu comprava diversos livros de autores que escrevem na língua portuguesa.
E sabe-se lá, quando me é permitido visitar a cidade invicta. Nesta terça-feira, o governo alemão decretou um „lockdown“ muitíssimo mais rigoroso até fins de Fevereiro.

Carlos Faria disse...

Já li 3 livros dele, um desiludiu-me "O quase fim do mundo", outro gostei muito e recomento "Geração da Utopia" e este que ouvi ser um dos melhores dele, gostei sobretudo entre 1890 e 1961, a última parte é de facto uma visão de um simpatizante do MPLA, lê-se bem, mas é um olhar parcial desta fase. Tenho um amigo que me recomendou ainda outro e já ouvi falar bem de mais outro, mas não me parece um escritor que mantém o mesmo nível em todas as obras.
Aqui no Faial a situação está relativamente controlado, um caso ativo de alguém que viajou ao exterior e está confinado. O facto de quem chegar ter de ser testado, por norma antes e depois ter de fazer 2.º teste ao sexto dia e o isolamento dado pelo mar tem permitido este controlo da situação.

Pedrita disse...

fiquei curiosa. nunca tinha ouvido falar. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

Nunca ouviu falar do autor ou do romance. Pepetela esta entre os 3 autores mais conhecidos de Angola desde a independência, foi inclusive prémio Camões. Para a literatura angolana por norma se destaca nos últimos tempos Agualusa, Ondjaki e Pepetela. Deste último já aqui referi e recomendo A Geração da Utopia, também misturando ficção com história mas muito mais profundo e isento que este.