terça-feira, 18 de setembro de 2018

"Artigo 22" ou "CATCH-22" de Joseph Heller


Excertos
"- Eles tentam matar-me - afirmou Yossarian, calmamente.
- Ninguém tenta matar-te!
- Então, porque fazem fogo sobre mim?
- Fazem fogo sobre todos. Querem matar toda a gente.
- Não vejo onde está a diferença."

"Não fui eu que provoquei esta guerra, por muito que o imundo Wintergreen diga o contrário. Procuro apenas reduzi-la a um clima de negócios. Que há de errado nisso?"

"Artigo 22", no Brasil "Ardil 22" e no original "Catch-22", do norte-americano Joseph Heller, é considerado um dos mais importantes romances do século XX nos EUA e é uma paródia do princípio ao fim sobre o absurdo da guerra, os proveitos económicos e os interesses de pessoas ligadas ao meio militar, incluindo as suas altas patentes.
A estória passa-se numa base aérea na pequena ilha italiana de Pianosa, junto à Toscânia, durante a segunda grande guerra. Centrada numa esquadrilha de oficiais após o início da invasão pelos aliados da Itália e ao longo da reconquista da península a Mussolini e a Hítler. Yossarian, comandante de bombardeiro, após dezenas de operações começa a ter medo de morrer ao ver a agressividade da luta anti-aérea alemã e após atingir o número de operações a que estava obrigado quer regressar aos Estados Unidos, só que o Coronel e líder da base vai sempre subindo o número de operações de forma que Yossarian nunca consegue atingir o limite, entretanto, ele vai implementando estratégias de doença, de loucura e desentendimentos para conseguir o seu objetivo. Enquanto isso, vamos conhecendo as guerrilhas entre as chefias para ascenderem de posto vitimizando os inferiores, os esquemas de negócios das messes e o mercado negro, a prostituição em torno de tantos homens sós, algumas baixas inglórias, problemas de consciência do médico e do capelão e, sobretudo, os sonhos de projeção na comunicação social de altas patentes para subir de posto, capazes de imaginar o absurdo para serem heróis de notícias, além do ardil que consta no artigo 22 tantas vezes invocado, que nunca se conhece na íntegra, para que tudo se mantenha tão mal como está. São largas dezenas de oficiais que se veem emaranhados nesta teia parodiada onde nada tem saída nem lógica.
O romance desenvolve-se com toda a amargura do absurdo kafkiano, só que numa narrativa onde todo o mal e medo é dissecado pelo ridículo humorístico das situações parodiadas, tecendo-se uma teia de onde nada tem saída para continuar tudo estranhamente na mesma, é o ardil de onde nada tem solução no sistema montado é a guerra como meio de sobrevivência de alguns. Divertido, mesmo em momentos tristes o que pode chocar alguns, mas é por esse gozo que gostei do romance.

9 comentários:

Pedrita disse...

tenho a impressão que o filme é vi. não li o livro. deve ser interessante. só o diálogo que escolheu já é surreal. beijos, pedrita

Carlos Faria disse...

Quase todos os capítulos são surreais, poucas mais que as últimas folhas tem uma reflexão sobre o absurdo do narrado que é uma espécie de catarse de tanto absurdo... o essencial vai-se subentendendo ao longo da obra.

Kelly Oliveira Barbosa disse...

Oi Carlos,

Livro interessante. Gosto da exploração desse recurso: "O romance desenvolve-se com toda a amargura do absurdo kafkiano,"

Abs.

Carlos Faria disse...

Simplesmente Kafka põe-nos a pensar sem sorrir, aqui rimos do absurdo e depois ficamos a pensar, mas se leu O Castelo, onde o protagonista nunca chega ao seu objetivo apesar de tantos percursos, aqui todos os percursos esbarram em becos e nunca se sai.

Bárbara Ferreira disse...

Gostei muito deste livro, tão absurdo, tão humano... mesmo a forma como se apresenta a comédia no meio da desgraça.

Carlos Faria disse...

Na realidade este livro tem personagens que para o bem ou para o mal são na generalidade muito humanas e de facto fazer-nos rir no seio da desgraça sem ser ofensivo demonstra muita inteligência do autor.

Pedrita disse...

adoro livros surreais. falei de livro no meu blog.

Mister Vertigo disse...

Este livro teve uma excelente adaptação cinematográfica feita pelo cineasta Mike Nichols. Li o livro depois de ter visto o filme.
Bom dia!

Carlos Faria disse...

Já há muito tempo que não vejo cinema e sobretudo bons filmes, tenho de me reorganizar nos meus hobbies e já fui um cinéfilo, mas perdi-me nos últimos anos.