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segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

"Oliver Twist" de Charles Dickens

 

Acabei de ler um dos livros mais conhecidos do escritor inglês do século XIX Charles Dickens, o romance em parte autobiográfico "Oliver Twist". A narrativa corresponde à vida de um órfão nascido numa estrutura de acolhimento de crianças abandonadas e onde a mãe, uma desconhecida a aparentar fugir de uma família para salvar a honra desta, morreu ao dar à luz o bebé e batizado por Oliver Twist.

No início, os responsáveis pelos órfãos sem amor deixam-nos passar fome e frio para economizar verbas e daí tirar dividendos da poupança excessiva e o protagonista, humilde e de bom trato, é uma das maiores vítimas. Ao chegar à idade em que é possível explorá-lo como mão-de-obra infantil entra outra série de sofrimentos e perseguições a que foge e cai nas mão de ladrões que exploram adolescentes nos seus roubo. Na ingenuidade num treino de assalto é preso mas acolhido por alguém bom que vê nele os traços de uma conhecida, só que a tentativa de os bandidos o recuperarem leva-o ao que parece ser o seu destino até que num assalto mal sucedido a situação levará a um confronto entre a tentativa da sua retoma pelos bandidos, a identificação das suas origem e alguém que o odeia e deseja a sua perdição.

Esta obra, como muitas outras de Dickens, é uma denúncia da injustiça social, a defesa da reabilitação das vítimas pela vitória do bem. Oliver Twist cumpre esta estrutura na íntegra, tendo também memórias da sua infância e mostra do submundo da pobreza e crime na Londres de então. Muito bem escrita, embora com a leveza típica de obra publicada por fascículos em jornais da época, e é muito fácil de ler. Também, como habitualmente em Dickens, a maioria das personagens são estilizadas de forma aos maus não terem virtudes e inspirarem ódio, enquanto os bons são quase perfeitos e vítimas dos primeiros e ansiamos a sua salvação, tudo isto sob uma luz de conceitos religiosos sobre a luta entre  bem e o mal com uma lição de moral, o que dá uma encenação algo forçada, mas é género fácil de agradar a qualquer leitor.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

"O rapaz que seguiu Ripley" de Patricia Highsmith

 

Acabei de ler o quarto livro dos romances da americana Patricia Highsmith com a personagem Tom Ripley, um criminoso amoral, simpático e amante de uma vida elegante com luxo e bom gosto artístico: "O rapaz que seguiu Ripley".

O protagonista americano continua a viver numa vivenda nos arredores de Paris com a sua esposa, filha de gente rica, que é tolerante com a suspeita dos seus atos ilegais. Um dia-a-dia de bem-estar na prática musical, a acompanhar os seus investimentos nas galerias e escola de pintura de que é sócio onde se introduziram quadros falsos de um pintor antes assassinado e a apreciar boa comida e convívio social. Nisto cruza-se com um adolescente que ele descobre ser alguém fugido de uma família milionária nos EUA após a morte do pai, rapaz que se sente atraído por Ripley dado o seu passado de suspeito criminoso. Desenvolve-se então uma amizade entre os dois apesar do risco do jovem vir a ser reconhecido das notícias sociais e ser alvo de rapto para resgate, mas Tom descobre-lhe um ato criminoso no adolescente. Na tentativa de o levar até à sua família e distraí-lo, enquanto um detetive o busca eles viajam por Berlim, Hamburgo e serão ainda vítimas de bandidos que obrigam o protagonista aos seus habituais atos geniais de disfarce e crime de modo a salvar o rapaz.

Apesar deste livro ter momentos de tensão, assassinatos e viagens a submundos, neste caso a noite gay de Berlim Ocidental dentro do muro, e a frieza de Ripley, é um romance suave, terno atravessado pela veia protetora do criminoso amoral que chega a ser paternal para com o rapaz. Uma obra de entretenimento mais suave que as anteriores e de menor suspense nas dificuldades que o protagonista atravessa, um carácter que mesmo sendo mau é capaz de gerar simpatias noutros personagens dos seus livros e no leitor. Gostei, manteve-me interessado mas sem a tensão tão elevada como os anteriores, sempre bem escrito e entretém.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

"Khadji-Murat" de Lev Tolstoi

 

Acabei de ler a última das obras de ficção do russo Lev Tolstoi, uma novela que só foi publicada postumamente: "Khadji-Murat". 
A trama passa-se no Cáucaso e dá-nos uma imagem da guerra de ocupação russa da Chechénia e da resistência do seu povo. Khadji-Murat é um chefe guerrilheiro checheno, convertido profundamente ao islamismo, que mesmo sem confiar no líder do seu povo, que o conduz numa "guerra-santa" contra o invasor cristão russo, lutou intensamente ao seu lado com importantes vitórias. Todavia, a desconfiança e o mal que reconhece em Chamil, leva-o a optar por pessoalmente se entregar ao czar através de militares ocupantes que lhe despertam confiança. Decorre então um período de desconfiança dos russos que o mantém cativo experimentalmente, entretanto Khadji-Murat é alvo de chantagem do seu imã que tem como refém a família do protagonista. Neste período vamos descobrir um homem íntegro que se vê entre o mau e ambicioso líder checheno e uma sociedade de militares e nobreza sem valores morais, viciada e interesseira, uma tensão entre dois mundos perversos em confronto que conduzirá ao choque final.
Uma obra curta, sem o vigor dos seus maiores romances, mas onde a filosofia que marcou Tolstoi está presente: a integridade do homem bom no seio do mal, as divisões culturais entre a Rússia e a Europa ocidental, o conflito do império com os vizinhos do sul, os valores das religiões e o desprezo por quem as usa como estandarte para conquistar ou manter o poder. 
Tolstoi, apesar de assumidamente cristão e russo, neste livro deixa claro os podres que gangrenam o seu povo e os crentes, sendo a integridade humana uma raridade que dificilmente resiste estas ameaças.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

"Baía dos Tigres" de Pedro Rosa Mendes

 

Excerto

"Capitalismo é exploração. Comunismo não traz progresso. Mas este país é miséria. Só há uma lei: manda quem pode e obedece quem tem juízo."

Acabei de ler o livro "Baía dos Tigres", prémio PEN clube de 1999, do jornalista, escritor e repórter de guerra português Pedro Rosa Mendes. Apesar da obra estar qualificada como romance, de facto é uma reportagem, provavelmente com personagens e passagens ficcionadas, mas radicadas em factos e pessoas que foram narrados ao autor ou este se cruzou.

Pedro Rosa Mendes em 1997, período de interregno na guerra civil angolana na sequência do acordo de Lusaka, implementou uma travessia de Angola a Moçambique que, em simultâneo, recordava várias viagens de séculos anteriores que foram então feitas na tentativa de unir estas colónias portuguesas e para o controlo luso desta faixa africana.  O livro é composto de pequenos textos com impressões da sua viagem que aqui são reunidos sob a forma de crónica, conto, ensaio ou reportagem, os quais fazem um retrato, sobretudo, do sul de Angola, um pouco de Moçambique e até da Zâmbia. Não sei se poderia chamar literatura de viagem, mas sem dúvida que é uma mistura de ficção e reportagem.

Mesmo escrito por um jornalista, todos os textos são trabalhados literariamente de um forma bastante rica e diversificada, nele estão incorporados figuras de estilo literário clássicas e formas tipicamente africanas: vocabulário, modo de pensar, falar e estar. Existem momentos a descrever o terror com humor, até hilariantes e de grande beleza imagética. Há outras passagens que são, sobretudo, narrativas descritivas e memórias ricamente trabalhadas de forma estética, que vão do alegre ao terror da guerra e passam pela amargura de um povo que não pode ter perspetivas à sua frente e onde os mais velhos têm memórias de outros tempos e os mais novos nem passado nem futuro, apenas a sobrevivência do presente. Há ainda poesia a pontuar a obra, poemas de guerra, poemas cheio de alma e tradições do sul de Angola. Há denúncias de situações, há relatos de horror e da sua destruição louca, mas nunca a escrita perde a forma de ser grande literatura, como qualificou a obra José Eduardo Agualusa.

No conjunto, o livro está cheio de vozes como as que compõe as obras da laureada com o Nobel da literatura Svetlana Alexijevich e não menor riqueza literária. No livro há sobretudo vítimas, percebe-se quem foram os senhores da guerra, percebe-se que há culpados e há oportunistas ainda piores que os maus e nem o poder oficial ou oposição são isentados nesta obra, mas o que Pedro Rosa Mendes faz é um retrato da situação no terreno naquele momento de interregno da guerra e por isso o tom alegre inicial vai-se tornando mais triste. Gostaria que houvesse uma obra equivalente atual para saber como está a situação no terreno hoje.

Uma obra que apesar de dura, a ternura e a beleza de escrita a tornam fácil de ler e gostei muito.


quarta-feira, 25 de novembro de 2020

"As aventuras de Augie March" de Saul Bellow

 
Acabei de ler o romance "As Aventuras de Augie March" do escritor nascido no Canadá que adquiriu a nacionalidade Norte-americana e vencedor do prémio Nobel da Literatura.
A obra é a autobiografia de Augie que a narra desde criança, quando viveu num bairro pobre de Chicago na década de 1920, até homem estabelecido socialmente e a viver no centro de Paris. Filho de mãe abandonada, com um irmão mais velho e outro mais novo com atraso mental e a partilhar o apartamento com uma anciã aristocrata fugida à revolução russa, ali acolhida para suportar os encargos da família carecida de dinheiro. Do amor à mãe lutadora aos conselhos da idosa autoritária que reconhece potencial nos irmãos mais velhos, o protagonista desenvolve a vontade de viver entre gente rica mas sem perder a sua liberdade individual. O seu aspeto atraente conjugado com o ar de filho abandonado inspiram os endinheirados a acolhê-lo e a adotarem-no, algo não muito diferente ocorre ao nível de mulheres bonitas. Numa vida comparada com a do irmão, que sobe mais rápido acomodado às exigências dos objetivos, Augie, além dos passos rebeldes da infância de bairro, segue uma luta de resistência aos seus protetores sempre que implique cedências pessoais, desperdiçando oportunidades flagrantes na sua alma rebelde à subserviência e por vezes passando por situações arriscadas com a lei, com a vida e com os seus grandes amores, mas sem nunca se desligar da necessidade de proteger as fragilidade do irmão mais novo e da mãe que vai cegando.
As aventura e desventuras de Augie são magníficas. Os retratos de Chicago pobre, do pequeno banditismo, dos efeitos da depressão e do modo de criação de fortuna em certas famílias são excelentes. O exotismo de certas personagens e das cenas passadas no México é fabuloso. Além das numerosas referências à cultura clássica e a personalidade da história da Europa e da América numa coletânea que demonstra o elevado nível cultural do autor. Todavia, o texto muitas vezes estende-se por numerosos pormenores e uma adjetivação excessiva que para mim o tornou demasiado extenso, nalguns momentos mesmo fastidioso de tão prolixo.
Por tudo isto, apesar de ser uma excelente história, confesso que para mim teria sido um magnífico romance se o autor tivesse tido a vontade de sintetizar e de cortar os excessos para que as mais de 700 páginas em letra miúda tivessem passado a cerca de 500 com uma dimensão agradável à leitura. Um bom romance que sei de leitores que desistiram cedo e por isso perderam muitas destas excelentes aventuras, mas a obra exige mesmo alguma resistência ao exagero de palavras.

sexta-feira, 13 de novembro de 2020

"A Nuvem de Smog e a Formiga Argentina" de Italo Calvino

 

Li "A Nuvem de Smog e A Formiga Argentina" do italiano Italo Calvino, um livro constituído por dois contos que precisamente formam o seu título.

Apesar de diferente, ambos os contos evidenciam um desequilíbrio incómodo com a natureza envolvente, a obra tem o subtítulo de "Uma narrativa lírico-simbólica da relação de um homem com uma realidade" e, de facto, ambas narrativas são algo absurdas e narradas por um personagem masculino.

No primeiro conto, o narrador vem para uma cidade liderar o projeto jornalístico do trabalho de uma empresa em prol da melhoria da qualidade do ar, sendo que o seu gestor integra a de outra poluidora da atmosfera. O jovem vai aprendendo a arte de comunicar em conformidade com os objetivos do empregador, sendo que em paralelo observa o smog e o pó que conspurca tudo sobre a cidade, descobre a vida no bairro onde mora. Entretanto mantém uma relação com uma apaixonada rica que o visita, mas que vive fora da realidade do mundo do cidadão comum, com o avançar ele descobre um mundo de limpeza.

No segundo, uma família vem viver para uma cidade e descobre que a sua zona é dominada pela formiga argentina, esta tende a ocupar todos os espaços livres  e na luta do marido este descobre  um conjunto de vizinhos que vivem obcecados nessa guerra, embora cada um de forma distinta e por vezes com métodos contraditórios, havendo ainda quem renegue ver o problema por orgulho, para um final encontram um local onde gozam a ausência do novo inimigo.

Gostei do livro, embora os contos nos deixem algo incomodados, a obra evidencia que já na década de 1950 o autor se questionava sobre problemas do ambiente e os interesses que permitiam alastrá-los.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

"As Dez Figuras Negras" de Agatha Christie

 

Acabei de ler o romance de suspense, mistério e terror de Agatha Christie "As Dez Figuras Negras". Dez pessoas que não se convivem entre si são convidadas por um desconhecido a passar uma semana na ilha do Negro de que ele é proprietário e a curiosidade leva-as aceitar. Chegadas ao destino descobrem que o anfitrião não está. No quarto de cada um está a lengalenga dos 10 negrinhos que vão sucessivamente desaparecendo. Na primeira refeição são sujeitas a uma voz que as acusa individualmente de terem provocado a morte de alguém inocente devidamente identificado e são questionadas se têm alguma coisa a dizer em sua defesa. Após negações de uns e confirmações de outros, o comum é que nenhuma fora condenado pela justiça e decidem desistir da estadia, mas ficam isoladas pelo mau tempo enquanto vão acontecendo mortes que seguem o registo do texto dos 10 negrinhos. O terror vai-se instalando e a desconfiança sobre quem entre eles é o assassino até chegarmos às últimas vítimas.

Este é um dos enredos mais elaborados e imaginativos que já li na obra de Agatha Christie, bem escrito e com os pormenores muito bem articulados, num último capítulo percebemos como a estratégia foi montada, por quem e levada a cabo com o objetivo justiceiro de culpados cuja justiça não conseguia condenar. Gostei mesmo muito deste romance, foi do melhor que já li no género de suspense e terror sem nada de sobrenatural ou irracional. Recomendo.

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

"As Mansão" de William Faulkner

Acabei de ler o romance "A Mansão" escrito pelo norteamericano galardoado com o prémio Nobel da literatura: William Faulkner. Este constitui o último da trilogia da família Snopes que li ao longo do corrente ano.
Esta saga familiar iniciada com a A Aldeia, onde Rattlif, um vendedor ambulante residente na cidade de Jefferson e excelente perceção, relata como Flem Snopes, o filho de um rendeiro recém-acolhido  nos domínios rurais Will Varner consegue, de forma capciosa e pouco escrupulosa, assumir a liderança dos negócios do homem forte e tornar-se senhor dos seus terrenos e ainda trazer parentes de forma a criar um clã ominoso e execrável que controle a zona. Seguiu-se a A Cidade, onde Ratliff, o seu amigo advogado Stevens e o sobrinho deste ainda criança relatam como o mesmo Flem vem com a mulher e a filha para Jefferson, a esposa deslumbra o advogado, enquanto a filha o tio e sobrinho, e em simultâneo por vias igualmente pouco dignas Flem estabelece relações com o Presidente da Câmara e banqueiro e com isso não só se torna maioritário na instituição como senhor da sua mansão e como afasta de forma vil os seus familiares que possam manchar a sua reputação pouco digna.
Este volume prossegue a saga de Snopes, desde a década de 1930 e prolonga-se pela de 1940 e é de novo contada pelos mesmos três narradores do segundo romance. Agora assistiremos ao modo como Flem se acomodou à sua situação de rico, como um primo Snopes detido de modo perpétuo nos volumes anteriores por falta de ajuda do líder do clã procurará agora vingar-se e o papel da filha do banqueiro em tudo isto a coberto de uma bondade ideológica onde tentará corrigir erros e retaliará dentro de portas, no que culminará com o fim do domínio regional de Flem Snopes.
Logo no início do livro Faulkner alerta-nos para a existência de incoerências entre este romance e os anteriores e de facto algumas são mesmo incompatíveis ou inconsistentes, mas faz parte da evolução de como ele desejou para as suas personagens, sendo que este último foi escrito duas décadas depois do anterior. Uma vez que os lera há poucos meses a memória logo se apercebeu de contradições e reformulações, por vezes extensas, de acontecimentos contados antes.
No que se refere ao estilo de escrita, Faulkner, além do quase permanente tom de ironia e insinuação a aspetos futuros, utiliza o fluxo de consciência, ou seja: a narrativa vai sendo destilada ao ritmo da memória, da fala e da observação dos acontecimentos, sendo ainda intercalada com análises e considerações do narrador que surgem encadeadas e sem filtro ao longo de frases extensas. Isto faz com que o texto pareça caótico com mudança brusca de sujeito, do tempo, do local ou do ângulo do comentário e exige grande atenção para o leitor não se perder. Eu adotei há muito um método de ultrapassar esta dificuldade em Faulkner: ler ao ritmo da narrativa, construindo mentalmente a história sem me fixar nos pormenores que a rodeiam, o que torna mais fluida a leitura, mas há por vezes que reler um parágrafo descubro aspetos da narrativa não fixados, só que o essencial fora retido. Ler Faulkner é um desafio, pois cada parágrafo é um denso ramalhete das mais díspares informações cuja beleza brota do conjunto e exige técnica.
O primeiro volume tem um tradutor diferente dos outros dois, estes parecem-me ter um brilho e vivacidade superior, mostrando como a tradução pode realçar ou enfraquecer um livro escrito em língua estrangeira. Há outros escritores com narrativas intencionalmente difíceis, mas poucos me cativam como Faulkner. Recomendo-o a quem gosta de desafios de leitura e sabe tirar prazer destes.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

"Os últimos dias dos nossos pais" de Joël Dicker

 
Citação
"A coragem não é não ter medo: é ter medo e, mesmo assim, resistir."

Após ter lido a segunda obra de ficção do escritor suíço Joël Dicker", regressei a este autor com o seu primeiro romance publicado "O último dia dos nossos pais" com a qual ganhou o prémio Escritores de Genebra de 2010, este é um livro que se distingue de todos os outros que ele desde então saíram, pois não é um livro policial nem uma obra de suspense apesar de incluído no género de espionagem.

Após a invasão alemã de França, no início da II Grande Guerra, o jovem de 21 anos parisiense, órfão de mãe e extremamente ligado ao pai, decide ir para Inglaterra para lutar contra o invasor. Em Londres é selecionado para integrar uma rede de espionagem na sua pátria a exercer em território ocupado. Acompanhamos a sua formação intensa com cerca de duas dezenas de pessoas, só uma é mulher, o que dura vários meses de exercícios duros com grande desenvolvimento de amizade e espírito de grupo, apesar de alguns irem sendo eliminados, os finalistas tornaram-se numa família coesa embora com gente diferente, Paul e Laura apaixonam-se, mas o respeito na equipa é total. Estes espiões são enviados para o terreno com tarefas específicas e separados uns dos outros, pontualmente cruzam-se mas o segredo das ações de cada um é fundamental para a segurança. Todos são ricos de sentimentos e o amor do casal ou a carência deste noutros está presente, mas o mais forte é o amor filial de Pal, o que o leva a uma medida drástica e de risco que depois será conhecida pelos colegas que nunca deixarão que um colega perca a honra de herói e até um alemão inimigo deixa-se cativar por aquele filho.

Apesar da escrita deste romance não se pautar pela criatividade e riqueza de figuras de estilo literário, o texto é todo ele de uma grande elegância e atravessado pela amizade, amor fraterno, filial e romântico, o que lhe confere uma grande beleza e mesmo quando a narrativa é de tensão e tragédia nunca perde o tom e postura calma, o que é uma raridade em obras de espionagem em ambiente de guerra e talvez este seja o melhor trunfo deste livro, pois a dor é coberta de ternura que se estende ao inimigo. Um romance diferente que gostei e fácil de ler.

segunda-feira, 12 de outubro de 2020

"Sinais de Infinito" de Humberto Moura


Acabei de ler o romance "Sinais de Infinito" da autoria de Humberto Moura, açoriano e residente na ilha do Faial e de quem sou amigo de família desde jovem, tendo recebido este exemplar por oferta do próprio, com dedicatória já há uns anos e já octogenários mas portador de uma grande lucidez e cultura em vários campos. 

A presente obra vem na sequência de outro romance do autor: "Sismo na Madrugada" que já li ainda antes deste blogue se dedicar à divulgação das minhas leituras, que me deixara então bem impressionado, o qual era referente a um filho do Faial e de mãe solteira que se destacara pela sua inteligência e por condicionantes pessoais e da ilha que o levara a sair da sua terra se tornara num jornalista de referência numa cadeia estrangeira e correra o mundo, passando a ser uma pessoa mundialmente influente, conhecida e próxima de muitos líderes  e acontecimentos que marcaram o século XX, mas que no ocaso da vida se recolhera às origens como um simples cidadão pouco compreendido pelos seus conterrâneos ainda isolados do exterior.

Sinais de Infinito prossegue a saga familiar através da neta: jornalista e igualmente famosa na mesma cadeia internacional de comunicação social. Contudo o anterior protagonista apenas soube da sua existência e a conheceu nas vésperas da sua morte já no final do anterior romance. Harriet Terra agora irá tentar perceber melhor quem foi o avô através dos seus amigos mais chegados no Faial nos últimos tempos e por um diário que terá sobrevivido ao sismo de 1998. Entretanto faz uma reportagem televisiva sobre a sua personalidade que coloca a ilha no palco do mundo, gerando um alvoroço na terra e a seguir vai visitar locais por onde ele andou e ver-se-á envolvida no cenário de uma das maiores guerras de transição do século XX para XXI.

O autor cria um romance com elementos históricos e conteúdo enciclopédico pelo saber e diversidade das personagens em torno das quais a obra progride que têm uma amizade de grupo: a jornalista conhecedora e crítica do mundo contemporâneo, um padre historiador do Faial, um médico local que questiona o seu papel na sociedade e, sobretudo, um investigador da Horta de ciências, entendido nos maiores filósofos, gnóstico e herético e interessado em descobrir o prolongamento da vida. A este núcleo juntam-se personagens secundárias que complementam o ramalhete: o presidente da câmara interessado em tirar proveito político do fenómeno, um leitor dos documentos dos Açores no arquivo nacional, uma criada do Pico entendida no saber popular e um operador de câmara sobrinho de um escritor famoso com sucessos sobre conflitos com temas de sociedades ocultas, religiões e o graal.

Deste leque brotarão numerosas reflexões sobre questões éticas e morais da sociedade contemporânea, menções a personalidades do passado e suas ideias que se destacaram pelo seu saber gnóstico, científico ou filosófico e foram vítimas dos poderes da sua época, o que permite um debate sobre os objetivos da vida, o envelhecimento, o prolongamento da esperança de vida com qualidade e as questões das ciências, tudo isto com uma pitada de especulação em torno do ocultismo e a colocação do Faial no centro de um papel messiânico para a humanidade. A referência a temas gnósticos, maçónicos e filosóficos tem um papel muito importante na obra.

A narrativa opta por ser escorreita sem a perturbação de escritas criativas que estão na moda, contudo autor destaca em itálico numerosas expressões locais e pensamentos que pretende levar à reflexão, postos em confronto, por vezes devem refletir a opinião do autor expressados pelos seus personagens, concorde-se ou não com essas deduções.

Gostei imenso da contextualização da Horta no evoluir da história dos últimos cinco séculos devido ao seu papel como porto que acolhia a navegação mundial que passava no Atlântico Norte e como polo das telecomunicações no final do século XIX até meados do XX, dando oportunidade para numerosas revelações do passado da ilha e da complementaridade com o Pico. Apesar da referência a se estar perante uma obra de ficção, na verdade é possível perceber a influência de certas personalidades da ilha que serviram de fonte às personagens e, inclusive, o quanto do autor (porque o conheço) está na forma de olhar o mundo de hoje e as questões morais e éticas levantadas.

Apesar da grande quantidade de assuntos abordados mais ou menos profundamente, o livro lê-se muito bem e mesmo centrado no Faial tem temática para interessar leitores de qualquer outra região, mas sem dúvida a compreensão da sua riqueza aumenta se o leitor conhecer bem as ilha do Faial e Pico e suas gentes, permitindo assim tirar muito mais gozo da leitura desta obra. Não é essencial ler o romance anterior, mas não só ajuda como é muito interessante esse primeiro volume da saga que poderia dar uma trilogia.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

"A Casa Grande de Romarigães" de Aquilino Ribeiro

 

Excerto
"O amigo está numa casa em que todos, até os mais patifes, eram católicos desde as unhas dos pés até à flor dos cabelos. Lá que alguns pecaram pecaram....Uma casa fidalga sem pecado é mais enfadonha que uma boda sem bebedeira."

Acabei de ler o romance, o autor chama-lhe crónica romanceada, "A Grande Casa de Romarigães" do escritor português Aquilino Ribeiro, que possui uma obra vasta desde o final de 1.ª Grande Guerra até à década de 1960.
O livro conta a história das várias gerações que construíram, ampliaram e viveram nesta casa solarenga do Minho, com capela e uma grande quinta do lugar de Romarigães, um imóvel classificado de interesse público. A narrativa começa no início do século XVII, período de Portugal sob o domínio espanhol, e vai até meados do século XIX, já no período constitucional após as lutas liberais. Um solar com origem no sonho de um padre em adquirir o terreno, o que conseguiu a bom preço, que duma relação amorosa ilícita teve um filho que  permitiu prosseguir uma dinastia fidalga que dominou a zona e ali se estendeu por cerca de 300 anos, onde se falará da restauração, do terramoto de Lisboa, das invasões francesas, das lutas liberais vistas à distância da capital.
Não existe uma trama, mas sim uma sequência de biografias dos senhores da casa (desconheço se são personagens reais), sendo que desde o início até ao final praticamente todos cheios de defeitos morais, tanto na sua vida privada, como nos métodos de assegurar a influência social e de preservar o património na família. Seis gerações de escassas virtudes e muitos vícios, vários dos atos mais importantes na obra estão ilustrados com estampas a preto e branco que valorizam o livro.
Aquilino Ribeiro viveu nesta casa como genro de um dos primeiros Presidentes da República que dela foi proprietário e quando esta já fazia parte de outra família que não a da dinastia das crónicas deste livro, considerado um dos mais importantes da literatura nacional de meados do século XX.
O escritor utiliza um vocabulário muitíssimo rico, com muitos regionalismos do Alto Minho, a que adiciona numerosos sinónimos raros das palavras de uso comum, pelo que deduzimos o seu significado: ora pelo contexto, ora com recurso ao dicionário se quisermos acompanhar toda a riqueza lexical da prosa. O tom utilizado é, na generalidade, satírico e mordaz, o que cria uma sucessão genealógica que varia de mesquinha a pródiga, patrões injustos e abusadores, quezilentos, dominados pela lascívia, preguiça ou oportunistas, tudo isto a coberto de valores tradicionais religiosos, ligados ao clero e ao poder. A literatura lusa tende a ser  um contraste absoluto da inglesa que tende a dignificar os líderes da comunidade e o seu povo, nesta obra praticamente ninguém desperta respeito, algo que talvez explique uma certa mentalidade portuguesa que penso também ter deixado escola o Brasil, que conduz à normalização da maledicência e à destruição da imagem da generalidade dos seus líderes sociais.
Como romance está excelentemente escrito e é uma narrativa cheia de vida.

Estado pouco conservado do imóvel presentemente
(fonte Wikipedia)

terça-feira, 29 de setembro de 2020

"O Mundo de Ontem" de Stefan Zweig

 

Acabei de ler, em formato e-book mas disponível em suporte de papel, o livro de memórias "O Mundo de Ontem" de Stefan Zweig. Judeu, austríaco, autor de largas dezenas de novelas em que explora as situações extremas a que podem levar as tensões dos sentimentos de que muito tenho gostado, escreveu também várias biografias de investigação sobre personalidades históricas que admirava. Considerava-se cidadão do mundo e fugiu do país natal com a ascensão do nazismo e teve como último refúgio o Brasil.
Nesta obra Zweig começa por enquadrar a sua família judia no contexto do centro leste da Europa, o modo como a comunidade a que pertencia se integrava e dinamizava a sociedade de então e faz um retrato da mentalidade coletiva da época onde os seus ascendentes enriqueceram.
Seguem-se as memórias da sua infância na cidade de Viena, a vida nesta, os seus deslumbramentos pela atividade cultural desta capital, sobretudo patrocinada pelos judeus, os preconceitos e os tabus morais de então, usando uma língua que em simultâneo mostra compreensão e crítica aspetos ultraconservadores que hoje nos chocam. Zweig encontrou-se com líderes culturais do teatro à literatura que lhe estenderam a mão e tal possibilitou a entrada no mundo do pensamento, teatro, literatura e dos jornais tendo então e viajado por numerosos países europeus, América e Ásia sempre a encontrar-se com os pensadores que admirava e almejava compreender. A sua lucidez nunca o impediu de ver os riscos do alheamento e da crença no sucesso do mundo que se vivia na Áustria e na Europa que ignorava as ameaças que conduziram à primeira grande guerra e a uma mudança de mentalidade de todo Continente.
No pós-guerra, mais amadurecido e já reconhecido como um dos grandes pensadores da época, Zweig integra-se na comunidade de filósofos e escritores defensores de uma Europa unida, supranacional e em prol do desenvolvimento fraternal da humanidade, assim fala com alguns dos grandes líderes culturais do velho Continente, volta a viajar pelo mundo, apercebe-se das loucuras dos anos vinte, das mudanças exacerbadas das mentalidades, dos extremismos que a cultura e a moral estavam a seguir e das dificuldades das populações nos Estados derrotados. Esteve ns União Soviética sem se deixar enganar pela propaganda e cedo temeu a ascensão dos nacionalismos e extrema-direita no ocidente. Insistiu em denunciar a situação, contou com a colaboração de grandes pensadores e com Hitler a tomar o poder viu a sua obra ser proibida e a premonição levou-o a fugir para Inglaterra e a tornar-se pária, mas ficou cidadão de Estado inimigo quando da guerra, Compreende-se então, mas não conta, o exílio no Brasil. Deixa claro que teve esperança que a América Latina fosse o fiel depositário dos valores humanitários que brotaram da Europa que se a suicidava em nome de ideologias destrutivas.
Não sei, talvez porque no exílio tenha compreendido que o Brasil não iria continuar o seu sonho de um mundo supranacional e humanitário ligado aos valores fraternais por que lutata suicidou-se pouco depois de terminar estas memórias.
Na realização dos retratos da época, exposição dos pensamentos do autor, forma de ser dos povos e o evoluir destes ao longo de meio século, bem as esperanças e desilusões das gentes, a análise crítica de Zweig é escrita com uma perfeição tal e com uma capacidade de síntese enorme, que ele próprio explica, que deslumbram e dão uma vida à narrativa que parece estarmos a viver o que ele viveu, as suas alegrias e tristezas vistas na primeira pessoa. Vale mesmo a pena ler este livro para conhecer o mundo de ontem e, sobretudo, ver e comparar com o presente para compreender melhor o mundo de hoje e as ameaças que nos estão a cercar. Muito, muito bom mesmo.

sábado, 26 de setembro de 2020

"FANNY OWEN" de Agustina Bessa-Luís

 
EXCERTOS
"A amizade não proíbe a ingratidão da lucidez."
"O amor não é senão uma cristalização do desejo."
"As calunias fáceis são obra de desejos infecundos."

Acabei de ler o romance "Fanny Owen" de Agustina Bessa-Luís, baseado num caso real, com personagens históricas e ocorrido em meados do século XIX na cidade do Porto. Segundo o prefácio da autora, esta obra surge na sequência do convite para fazer os diálogos do filme "Francisca" de Manuel de Oliveira. Contudo, lendo-a, é fácil ver que este livro não é a montagem desses diálogos.
José Augusto é um jovem morgado rural que perdeu a mãe. É dado a uma instabilidade emocional sofredora e vive uma certa devassidão no Porto à sombra da amizade do escritor Camilo Castelo Branco. Nesta cidade vai conhecer as filhas Maria e Francisca (Fanny) de um militar escocês que casou em Portugal com uma mulher da corte de D. Pedro IV (I no Brasil) no Rio de Janeiro. Entre estes dois amigos e as duas irmãs vai surgir uma relação de amor, ciume, traição, escândalo público e um casamento, que Camilo, talvez por vingança, levará a uma tragédia. Pelo meio reflexões da guerra civil onde o escritor lutara ao lado da fação miguelista perdedora e o modo de Camilo sobreviver com as suas publicações nos jornais locais.
Agustina, como sempre nas suas obras, não faz uma narrativa linear, vai dissertando sobre a complexidade psicológica das personagens, as suas inseguranças, intenções e ações irrefletidas, o que vai intercalando com situações ocorridas no passado misturadas com pistas para o futuro da história que está a contar e o momento que está a relatar, tudo isto de uma forma labiríntica, pontuado por máximas que saem naturalmente da autora que deixa soltas no texto. Isto conduz à montagem de um "puzzle" ou à pintura de um quadro global esbatido entre as numerosas reflexões, considerações, possibilidades psicológicas e a história em si.
Neste conjunto de quatro protagonistas centrais tratados ao pormenor, Agustina faz um retrato maior de Camilo, disseca a personalidade do escritor mais profícuo do século XIX em Portugal, ela que é sem dúvida a escritora mais profícua do século XX neste País, gerando assim um choque de gigantes da literatura portuguesa, que faz faíscas, ao misturar admiração com abominação, reconhecimento de uma genialidade literária criativa com um agir maquiavélico destrutivo para os que lhe são contemporâneos. Um caso único nos numerosos livros que li.
Se nas obras de pura ficção Agustina arquitecta narrativas complexas que esboçam por detrás retratos da realidade, sobretudo, do norte de Portugal e da personalidade feminina; neste relato histórico, ela consegue espremer as possibilidades da realidade que a torna num esboço ficcional do que pode ter ocorrido e coloca Camilo com todas as suas contradições num estrato acima da mediania que o cercava. Gostei, para mim foi uma obra fácil de ler por gostar e estar familiarizado com o estilo, para outros poderá exigir esforço para seguir a direito este labirinto narrativo.


sábado, 19 de setembro de 2020

"CONTOS de Tchékhov" - Volume II - Anton Tchékhov

 


Penso que nenhum escritor é tão famoso pela obra contista como Tchékhov, uma das estrelas maiores da sublime literatura russa do século XIX, sei que escreveu centenas de contos e penso que estão todos publicados nesta coleção da Relógio d'Água com mais de uma dezenas de volumes. Não costumo falar da editora, mas são tantos os livros com narrativas dele que se não os referenciarmos podemos estar a falar de coletâneas completamente diferentes. Não sei o critério de distribuição dos contos nesta série, mas não é cronológica.
No volume II "Contos de Tchékhov" temos 11 narrativas, algumas com cerca de uma dezena de páginas e outras acima de 50, talvez só numa o desfecho é uma lição de moral, na sua maioria são relatos da personagens comuns acomodadas ou vítimas da vida, por vezes vivendo com dificuldades, noutras vencendo como oportunistas e há ainda os desiludidos e os indecisos, um conjunto de protagonistas que não são heróis diferentes da população em geral, mas todos são únicos e essa particularidade é tratada com mestria pelo contista.
Não sei russo para falar da escrita original, mas a tradução origina textos magníficos, ricos em vocabulário, inclusive de uso na época, e tratados com um cuidado que faz sentir dentro do leitor o frio da Sibéria, a injustiça da estratificação social, a fome do pobre, a modorra do ocioso ou indeciso, a esperteza do oportunista ou a fé e superstição do crente. Narrativas que transmitem reflexos multifacetados de uma jóia excelentemente talhada que me deslumbra e fazem o retrato do povo Russo à época, apesar de uma realidade bem diferente da de hoje podemos ver muitos casos similares no presente.
Vale a pena ler, isto é literatura no seu estado puro sob a forma de conto, gostei muito...

sábado, 12 de setembro de 2020

"Perry Mason e o caso do Gato Distraído" de Erle Standley Gardner

 

Depois de uma obra tão densa, seguiu-se um policial de puro entretenimento "Perry Mason e o Caso do Gato Distraído" do escritor norteamericano Erle Standley Gardner de quem lera várias obras na minha adolescência.

Helen recebe um telefonema do tio a solicitar um encontro secreto para trazer consigo o advogado Perry Mason, tio que desaparecera há 10 anos quando ela era adolescente, e será guiada por hóspede de um hotel, logo a seguir é avisada por sua tia que o gato está com convulsões, descobrindo-se no veterinário que fora envenenado. Mesmo assim, Helen encontra-se com o advogado, mas dá-se o assassinato do guia e ela, Mason com a sua secretária veem-se numa noite atribulada, onde Helen e o namorado quase são mortos, ocorrem desvios de testemunhas na competição entre a polícia e o advogado, acabando o caso no tribunal onde a perícia de Mason e o comportamento do gato levará à descoberta por ele da verdade que clara é diferente da teoria das autoridades.

A trama desenrola-se a um ritmo alucinante, num jogo de competição onde o advogado recorre a métodos estrambólicos no limiar da legalidade e por isso muitas cenas estranhas surgem sequencialmente, mas quando tudo parece perdido para Mason, ele consegue ligar todos factos de modo simples e ainda vencer.

A escrita em português é elegante e bem tratada, apesar de ser uma mera trama de entretenimento, suspense e onde várias explicações surgem de forma que nos surpreendem, lê-se bem devido ao ritmo dos eventos e dos métodos pouco ortodoxos do advogado e do seu sentido de humor. Gostei e é de muito fácil leitura.

sábado, 5 de setembro de 2020

"Os Sete Pilares da Sabedoria" de T. E. Lawrence

 

Acabei de ler um livro com cerca de 800 páginas que é em simultâneo um romance e um relato histórico real, memórias narradas e vividas pelo autor. Uma obra de grande sensibilidade e beleza de escrita literária e também um texto de reflexão sobre o que era o papel e a mentalidade das potências europeias sobre os outros Povos no início do século XX que se torna numa mensagem de respeito e tolerância pelas outras nações, suas culturas e religiões. "Os Sete Pilares da Sabedoria" é o relato da batalha da frente árabe durante a primeira guerra mundial, vista do lado dos árabes mas através dos olhos de um inglês ao serviço da Inglaterra, T E Lawrence, mais conhecido por Lawrence das Arábias na sequência da adaptação desta obra ao cinema. O autor teve como papel estudar e unir todos os povos da península arábica a Damasco numa identidade nacional para assim lutarem pela sua independência do império Otomano governado pelos turcos de Istambul, tendo no seu trabalho integrado a mentalidade dos povos a sublevar e assumido a personagem e comportamento árabe sem renegar a sua identidade de origem como modo a conseguir o respeito e confiança das mais variadas etnias árabes.

Lawrence encontra-se na embaixada no Egito durante a 1.ª Guerra Mundia sendo encarregue de procurar no seio dos árabes um líder para fazer aderir os povos do médio-oriente a uma causa contra os turcos aliados dos alemães. Parte para a península e entre as famílias dominantes da zona e entre vários contactos seleciona Faiçal da dinastia dos Hashemitas para liderar a sublevação com a promessa de posteriormente estes Povos puderem ter independência e estados com a liberdade dos europeus. Passa a integrar os militares da Faiçal e em paralelo dá início a uma guerra de guerrilha e cativa as tribo para o combate, viajando com os árabes adota os seus costumes, trajes e passa grande parte do tempo isolado dos ingleses. Mais tarde as suas vitória tornam as suas forças num braço armado autónomo mas a servir os ingleses na conquista da zona até Damasco, embora tenha a consciência que as potências europeias se vencerem não darão o estatuto de independência que considera justo. 

Brilhantemente escrito, é um relato de guerrilha, mas só na última centena de páginas assistimos a relatos de combates clássicos, o livros com várias viagens em território desértico descreve pormenorizadamenre a paisagem, o clima e a geologia da região, enquanto vamos descobrindo como são as tribos, a sua diversidade e mentalidade e os problemas de consciência de Lawrence, tão próximo sentimentalmente de Faiçal e dos seus chefes guerreiros com quem desenvolve uma amizade e respeito profundo. Uma edição que foi publicada por crowdfunding de potenciais leitores pela E-Primatur, na qual participei, um livro com várias imagens que me orgulho de ter contribuído para a sua publicação, apesar de extenso e do grande número de personagens e topónimos difíceis de decorar, apesar de vários mapas de apoio. A obra mais rica e importante que li nos últimos tempos. Uma obra-prima.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

"Crime no Vicariato" de Agatha Christie

 

Acabei de ler mais um policial de Agatha Christie, "Crime no Vicariato", a obra onde a autora integrou pela primeira vez a sua personagem de Miss Marple. Um dos romances considerados entre os mais geniais da escritora.

Na aldeia de St. Mary Mead o vigário vai-se se reunir com o coronel Protheroe para uma fiscalização às contas da paróquia depois de uma fiel ter reclamado que dera uma maior nota na coleta que o valor declarado. Toda a gente sabe do encontro e muitos odeiam o militar que persegue caçadores e cidadãos pacatos em nome duma justiça sem tolerância. Antes da hora da reunião o vigário é chamado a casa de uma doente, um falso alarme, no regresso encontra um pintor que fora expulso da mansão de Protheroe e amigo da esposa deste e da filha em delírio por ter encontrado o inspetor assassinado no escritório de vicariato. Entre o sacerdote, a sua esposa e passando até pela família da vítima há muitos suspeitos locais para o crime que a polícia investiga, mas a vizinha da casa ao lado é uma velhota observadora de tudo o que se passa à volta e apesar de um pouco inconveniente é capaz de interpretar o comportamento de todos e, com tal atributo indiscreto, de desvendar quem matou de facto o coronel.

A obra, de escrita escorreita simples, tem como primeiro narrador o vigário que conhece toda aldeia, inclusive os que ali estão de forma um pouco estranha, aos poucos chegam-lhe aos ouvidos todos os mexericos do lugar e, inclusive, os comentários daquela vizinha humilde mas inconveniente e vê a arrogância do polícia. Assim, surpreendidos com a lógica avançada da idosa e o trabalho árduo da autoridade vamos percebendo as muitas hipóteses, exclusões e motivos que até podem ter raízes antigas, até que quando tudo parece esclarecido Miss Marple ainda tem mais uma palavra dar na solução final. Para lazer é um excelente romance no género, onde transpira o ambiente rural inglês e o estilo de vida da comunidade anglicana. Gostei e valeu a pena ler.