Páginas

sábado, 5 de setembro de 2020

"Os Sete Pilares da Sabedoria" de T. E. Lawrence

 

Acabei de ler um livro com cerca de 800 páginas que é em simultâneo um romance e um relato histórico real, memórias narradas e vividas pelo autor. Uma obra de grande sensibilidade e beleza de escrita literária e também um texto de reflexão sobre o que era o papel e a mentalidade das potências europeias sobre os outros Povos no início do século XX que se torna numa mensagem de respeito e tolerância pelas outras nações, suas culturas e religiões. "Os Sete Pilares da Sabedoria" é o relato da batalha da frente árabe durante a primeira guerra mundial, vista do lado dos árabes mas através dos olhos de um inglês ao serviço da Inglaterra, T E Lawrence, mais conhecido por Lawrence das Arábias na sequência da adaptação desta obra ao cinema. O autor teve como papel estudar e unir todos os povos da península arábica a Damasco numa identidade nacional para assim lutarem pela sua independência do império Otomano governado pelos turcos de Istambul, tendo no seu trabalho integrado a mentalidade dos povos a sublevar e assumido a personagem e comportamento árabe sem renegar a sua identidade de origem como modo a conseguir o respeito e confiança das mais variadas etnias árabes.

Lawrence encontra-se na embaixada no Egito durante a 1.ª Guerra Mundia sendo encarregue de procurar no seio dos árabes um líder para fazer aderir os povos do médio-oriente a uma causa contra os turcos aliados dos alemães. Parte para a península e entre as famílias dominantes da zona e entre vários contactos seleciona Faiçal da dinastia dos Hashemitas para liderar a sublevação com a promessa de posteriormente estes Povos puderem ter independência e estados com a liberdade dos europeus. Passa a integrar os militares da Faiçal e em paralelo dá início a uma guerra de guerrilha e cativa as tribo para o combate, viajando com os árabes adota os seus costumes, trajes e passa grande parte do tempo isolado dos ingleses. Mais tarde as suas vitória tornam as suas forças num braço armado autónomo mas a servir os ingleses na conquista da zona até Damasco, embora tenha a consciência que as potências europeias se vencerem não darão o estatuto de independência que considera justo. 

Brilhantemente escrito, é um relato de guerrilha, mas só na última centena de páginas assistimos a relatos de combates clássicos, o livros com várias viagens em território desértico descreve pormenorizadamenre a paisagem, o clima e a geologia da região, enquanto vamos descobrindo como são as tribos, a sua diversidade e mentalidade e os problemas de consciência de Lawrence, tão próximo sentimentalmente de Faiçal e dos seus chefes guerreiros com quem desenvolve uma amizade e respeito profundo. Uma edição que foi publicada por crowdfunding de potenciais leitores pela E-Primatur, na qual participei, um livro com várias imagens que me orgulho de ter contribuído para a sua publicação, apesar de extenso e do grande número de personagens e topónimos difíceis de decorar, apesar de vários mapas de apoio. A obra mais rica e importante que li nos últimos tempos. Uma obra-prima.

segunda-feira, 24 de agosto de 2020

"Crime no Vicariato" de Agatha Christie

 

Acabei de ler mais um policial de Agatha Christie, "Crime no Vicariato", a obra onde a autora integrou pela primeira vez a sua personagem de Miss Marple. Um dos romances considerados entre os mais geniais da escritora.

Na aldeia de St. Mary Mead o vigário vai-se se reunir com o coronel Protheroe para uma fiscalização às contas da paróquia depois de uma fiel ter reclamado que dera uma maior nota na coleta que o valor declarado. Toda a gente sabe do encontro e muitos odeiam o militar que persegue caçadores e cidadãos pacatos em nome duma justiça sem tolerância. Antes da hora da reunião o vigário é chamado a casa de uma doente, um falso alarme, no regresso encontra um pintor que fora expulso da mansão de Protheroe e amigo da esposa deste e da filha em delírio por ter encontrado o inspetor assassinado no escritório de vicariato. Entre o sacerdote, a sua esposa e passando até pela família da vítima há muitos suspeitos locais para o crime que a polícia investiga, mas a vizinha da casa ao lado é uma velhota observadora de tudo o que se passa à volta e apesar de um pouco inconveniente é capaz de interpretar o comportamento de todos e, com tal atributo indiscreto, de desvendar quem matou de facto o coronel.

A obra, de escrita escorreita simples, tem como primeiro narrador o vigário que conhece toda aldeia, inclusive os que ali estão de forma um pouco estranha, aos poucos chegam-lhe aos ouvidos todos os mexericos do lugar e, inclusive, os comentários daquela vizinha humilde mas inconveniente e vê a arrogância do polícia. Assim, surpreendidos com a lógica avançada da idosa e o trabalho árduo da autoridade vamos percebendo as muitas hipóteses, exclusões e motivos que até podem ter raízes antigas, até que quando tudo parece esclarecido Miss Marple ainda tem mais uma palavra dar na solução final. Para lazer é um excelente romance no género, onde transpira o ambiente rural inglês e o estilo de vida da comunidade anglicana. Gostei e valeu a pena ler.

terça-feira, 18 de agosto de 2020

"O Herói das mulheres" de Adolfo Bioy Casares

 

Estava com saudades de estórias curtas, pelo que optei por ler o livro de contos do argentino Bioy Casares: "O herói das Mulheres", correspondendo este título ao do último desta coletânea de 8 narrativas reunidas em cerca de 150 páginas.

Existem alguns contos muito curtos, os maiores têm cerca de uma trintena de páginas, como os que abrem e fecham a coleção. Temos sobretudo narrativas fantásticas ou surrealistas na mesma linha da do amigo do autor: Jorge Luis Borges, com quem partilha a honra de ser um dos maiores escritores da Argentina. Algumas tornam-se divertidas pelo seu final surpreendente, outras são absurdas, mas o conjunto evidencia a diversidade por onde a psique humana se perde, labirintos entre a realidade e a imaginação.

Desde de um túnel curto que une pontos longínquos por onde um estudante se desviou em fuga aos estudos e encontrou o amor que se lhe tornou inacessível; a uma descoberta útil para o aproveitamento da dor física; ao jovem que não segue os conselhos da mãe e sai protegido pela magia; ao homem que foge da mulher obsessiva mas que a encontra no fim da sua fuga; à mulher que viaja em primeira-classe justificando as desvantagens; um intrincado jardim fantástico que embaraça a fuga de um jornalista perseguido politicamente; ao rapto por fantasma que talvez seria um tigre. Tudo isto numa panóplia diversificada e interessante. 

Para quem gosta do género é um livro muito bom entre o estilo de Kafka e de Borges, e também excelentemente escrito e narrado.

sábado, 15 de agosto de 2020

"A Improvável Viagem de Harold Fry" de Rachel Joyce

 

CITAÇÃO
"uma vida não fica completa enquanto não encontra o seu desfecho."

Acabei de ler o romance de estreia de Rachel Joyce: "A improvável viagem de Harold Fry", com o qual ganhou o National Book Ward para o melhor primeiro romance de escritor em 2012, embora eu já tivesse lido este outro romance posterior dela.
Harold vive numa cidade no extremo sul da Inglaterra, reformado, vive com a mulher que o rejeita e o critica permanentemente, recebe uma carta de uma ex-colega a informar que está em fase terminal de um cancro e espera que ele esteja bem. Harold, que já não a via há 20 anos, lembra-se de uma amizade que terminou com o despedimento dela. Enche-se de compaixão e responde-lhe uma carta singela que decide pôr no correio, na ida sente que é pouco, alguém lhe fala de atos de fé para salvar outra doente e ele toma de imediato a resolução de ir a pé até ao hospital que se situa na cidade mais a norte do País. A decisão é logo posta em prática e já no caminho após muitas horas comunica-a à mulher e prossegue a viagem que durará dezenas de dias, sacrifícios extremos, conhecimento do mais diversificado tipo de pessoas, interesse jornalística e aproveitamentos. Em paralelo, ele vai dando notícias à mulher que não sabe come agir e ambos vão refletindo nos falhanços do seu passado como um exame de consciência e de compreensão do outro que mudará para sempre as suas vidas.
Um romance muito original, cheio de ternura e dureza em simultâneo, que faz uma crítica à sociedade atual e aos comportamentos coletivos e muito bem escrito. Tem uma técnica que por vezes parece deixar-nos cair num sentimentalismo fácil que logo é cortado por uma chamada à razão de forma implacável, pois a realidade é mesmo assim: com alegrias e dores e temos de conviver com isto e superar o mau sem nos amarrarmos a sonhos impossíveis.
Gostei muito da narrativa, por momentos comoventes, outros duros, alguns irritantes, alguns murros ao leitor que se deixar levar pela crendice fácil e surpresas praticamente até ao final.

sábado, 8 de agosto de 2020

"Meio Sol Amarelo" de Chimamanda Ngozi Adichie

Excerto
"Há coisas tão imperdoáveis que tornam outras facilmente perdoáveis."

Acabei de ler "Meio Sol Amarelo" da nigeriana de etnia igbo Chimamanda Ngozi Adichie, vencedor do Pulitzer Prize. Este é o terceiro romance de ficção dela que leio, ela que também é autora de ensaios sobre o feminismo, mas os romances não se centram nesta temática.
No início da década de 1960 Ugwu é uma criança de 13 anos que a tia leva para cidade para ser o criado da casa do professor universitário Odenigbo, ele será o narrador central à sua volta. Na morada reúne-se gente com esperança no futuro glorioso de África. O dono tem uma relação amorosa com Olanna, filha de um dos homens mais ricos do País e habituado à corrupção para singrar nos negócios, via que a filha rejeita. Esta tem uma irmã gémea, Kainene, que dirige empresas do pai e desenvolve uma relação com um jornalista inglês encantado com a cultura local. Todos vivem tempos de fartura e esperança no Estado recém-independente. Este grupo, culto e rico, é da etnia igbo, maioritariamente cristã ou animista que vive no sudeste do país e é o que mais progride politica e economicamente na Nigéria, mas a rivalidade de outras tribos leva ao seu massacre no norte muçulmano. Então as províncias onde eles se concentram declaram-se independentes sob o nome de Biafra, o que levará a uma guerra civil com grande mortandade dos civis pela fome devido ao bloqueio alimentar com o conluio das grande potências mundiais e pelos bombardeamentos federais. É o o período de luta pela sobrevivência em que a esperança dá lugar ao medo e à necessidade de decisões extremas e os problemas do passado terão de ser ultrapassados pelo amor e altruísmo, face aos ódios, oportunismos e morte no Biafra.
O livro está dividido em quatro partes: na primeira, início da década, ficamos a conhecer o estilo de vida desta gente pelos olhos de Ugwu; na segunda, já no início da guerra, é evidente terem existido problemas nos casais por ciúmes, traições e choque cultural; a terceira vai ao revelar as situações problemática nestas famílias; e na última, a mais extensa, acompanhamos o agudizar da crise humanitária até à derrota do Biafra onde todas as anteriores tensões são secundárias face ao que se vive durante a guerra. Contudo, quase não há relatos de combates, a obra centra-se na dificuldade das pessoas civis e não na frente.
A escrita é escorreita, sem grandes rasgos estilísticos, bem temperada pelos sentimentos humanos e vida íntima, o que torna a obra fácil de se ler, pois toca o coração do leitor. No conjunto aprende-se o que foi a vida no Biafra durante a guerra vista do lado de quem, cheio de esperança, lutou pelo que acreditava e viu-se derrotado. Uma lição de história romanceada, eu que nem sabia onde era o Biafra fiquei a saber muito do que foram as feridas abertas pelo colonialismo, descolonização e guerra-fria em África.
Portugal, nunca é referido diretamente na obra, mas esteve do lado do Biafra e um corredor humanitário existente no romance fazia abastecimento alimentar com grande risco via São Tomé, então colónia portuguesa, mostrando a posição lusa. Gostei sobretudo pelo que aprendi numa boa narrativa onde o humanismo nunca desaparece mesmo no meio das atrocidade que vamos assistindo.

sábado, 1 de agosto de 2020

" Morte no Nilo" de Ágatha Christie



Acabei de ler o policial "Morte no Nilo" da escritora britânica rainha neste género literário: Agatha Christie; um dos romances considerados no grupo dos seus mais geniais.
Uma jovem rica e bela, e alvo de colunas sociais, na sequência de um pedido de ajuda de uma amiga para dar emprego ao seu noivo conquista-o e casa com ele, indo a seguir passar a lua-de-mel numa subida ao rio Nilo, só que a outra ofendida decide perseguir com a sua presença todos os locais por onde o casal passa.
Em paralelo, o casamento rápido levou a advogados da milionária e a gestores do seu património e menos honestos a agir e a participarem na mesma viagem para um golpe, onde embarcam outras pessoas da elite social relacionadas ou não com os recém-casados e entre eles o genial Poirot, até que se dá a morte da jovem e muitos até têm motivos para o assassínio, mas talvez o crime não tenha sido perfeito, o que conduz a uma série de incidentes e o célebre detetive terá de pôr os seus neurónios em ação para deslindar o caso e claro que consegue com um final surpreendente.
Escrita fácil, mas escorreita e sem grandes rasgos artísticos, mas permitindo uma leitura muito agradável com uma metade a apontar para um potencial crime futuro e uma segunda parte com o suspense e surpresas até à resolução final. Gostei muito do intrincado esquema montado para o crime até à sua descoberta.

domingo, 26 de julho de 2020

"A Colmeia" de Camilo José Cela

Acabei de ler uma das obras de referência do escritor da Galiza e vencedor do prémio Nobel, Camilo José Cela: A Colmeia,
A obra decorre na cidade de Madrid pouco depois do confronto que colocou Franco no poder, em plena II Grande Guerra, quando esta começa a ser desfavorável aos alemães, e narra o dia-a-dia de um conjunto de cidadãos da classe média e baixa, com a escassez de dinheiro, os seus artifícios diversos de sobrevivência e manhas numa sociedade influenciada pela hipocrisia pública religiosa e conservadora e uma prática privada cheia de vícios.
O romance não tem propriamente uma trama, temos uma série de cenas curtas (às vezes de um pequeno parágrafo e na maioria das vezes estendendo-se por perto de uma página de texto), onde em cada uma se relata um episódio da vida das personagens que vão sendo apresentadas sucessivamente, por vezes com repetição, outras uma única vez e só um pequeno número surge desde perto do início do livro e continuam a reaparecer até quase ao fim do mesmo. Uma parte dos episódios decorre no café da senhora Rosa, onde vemos as suas relações duras com vários empregados e clientes, histórias da vida destes, do engraxador, do vendedor de tabaco, da criança cigana que canta rua, da mulher de vida em final de carreira e solitária em busca de um conforto para o futuro, do poeta sem dinheiro e dos músicos que animam o espaço, entre outros.
Outro conjunto de episódios decorre numa pensão barata de encontros íntimos onde por coincidência frequenta um pai, uma filha e os respetivos amantes, que procuram esconder entre si as sua relações íntimas. Há também uma casa de apartamentos onde ocorre um homicídio de uma idosa e mãe de um homossexual de vida escandalosa, aqui coexiste gente diversa, incluindo um médico e sua família. Há ainda uma casa de um contabilista que nos trabalhos ajeita as contas em favor dos clientes, casado cuja mulher tudo faz para ajudar o poeta pobre apesar da relação conflituosa deste com o cunhado. Além destes casos, onde é possível traçar uma linha evolutiva, existem cenas de rua e muitos outros episódios em mais locais que no conjunto envolvem 160 personagens (o número consta de um prefácio) em duas centenas e meia de páginas que dão um retrato da miséria de vida das gentes de Madrid no pós guerra civil e numa Europa em luta. Uma espécie de colmeia onde a maioria busca salvar-se individualmente e por vezes com que dores. 
O texto é muito bem escrito, vai desde linguagem popular até outra mais trabalhada e literariamente é uma obra bem original. Gostei de muitos episódios, a minha dificuldade resultou do facto de eu ser péssimo e memorizar  nomes e nesta sequência tive de fazer um esforço significativo para identificar as personagens que tinham linha evolutiva na obra e quando as comecei a identificar o contexto o romance estava a acabar... se acabou de facto!
Para quem gosta de experiências literárias: recomendo; não pelo enredo da narrativa que é escasso mas é uma obra inesquecível.

terça-feira, 21 de julho de 2020

"A Luz de Pequim" de Francisco José Viegas

Excerto
"Se tivesses de juntar todas as histórias que acontecem, nunca terias um livro, por exemplo, e nunca terminarias de fazer ligações, de descobrir coincidências que são apenas coincidências. Temos de caminhar sempre em frente até chegar a um lugar onde não há mais caminhos."

Acabei de ler o romance mais recente do escritor português Francisco José Viegas: "A Luz de Pequim", com o seu habitual personagem: o inspetor Jaime Ramos. Só que desengane-se quem, como eu, pensou tratar-se de um livro policial. Sim, na obra há assassinatos, há inquéritos e até há conclusões sobre quem os cometeu, mas este é uma narrativa melancólica sobre a vida do protagonista já em fim de carreira e considerado ultrapassado pelas ondas de modernização e voracidade da administração para com os mais antigos e curricula marcante.
Assim surgem demonstração do seu passado imperfeito, reflexões privadas da sua militância política em conversas com aqueles que mais o marcaram e de quem o investiga. Depois, a propósito ou a despropósito, vêm inúmeras referências ou descrições do Porto, do seu rio, dos seus cafés, restaurantes e gastronomia, das suas livrarias, dos seus bairros, da sua atmosfera chuvosa, do estilo de vida dos seus marginais em conflito mortífero entre gangues dispersos pelas periferias. O autor junta ainda retratos paisagístico e do bucolismo do Alto Douro e dos vícios das elites nacionais e seu modo de moldar a política de Portugal e até este País visto por um espião brasileiro como forma de tecer a sua teia para cativar um lusitano na sua rede, denunciando assim habilidosamente como somos.
No início, um assassinato e o aparecimento de um corpo de um traficante pendurado na ponte D. Luís I no Porto, depois investigações, interrogatórios a algumas famílias de renome ou de riqueza duvidosa e um pedido particular de um amigo para lhe encontrar o filho que sabe ter ido para o Brasil, ter-se licenciado e aparecer depois em convites oficiais no extremo oriente. Neste País pequeno estará tudo ligado ou serão apenas coincidências? É que após muitos anos de vida ele já vê e sabe muito mais do que são os pequenos bandidos do Porto, os Portugueses e Portugal.
Eu fiquei amarrado às múltiplas descrições que vão surgindo surpreendentemente no livro, quer se cruzem entre si ou apenas surjam na narrativa como algo paralelo que brota no dia-a-dia além do programado, nem sempre juntando informação à trama mas dando muito à narrativa. É sem dúvida um romance marcado pelo tom melancólico que cerca a perspetiva de ocaso da carreira deste inspetor que sempre viveu a espreitar o crime e conhece bem de mais a vida dos criminosos e a ingratidão do tempo e, sobretudo, ama o seu Porto e o modo de viver nele.

quarta-feira, 15 de julho de 2020

"A desvastação do Silêncio" de João Reis

Excerto
"Era preciso, isso sim, comer, apercebi-me de que me doía a cabeça por conta da fome e o dia não era já tão agradável como fora de manhã cedo, o médico prosseguiu o discurso e, nesse momento, desejei morrer, jamais ter existido, mas, verdade seja dita, se queria assim tanto morrer, talvez não fosse preciso ir comer..."

Li o pequeno livro "A devastação do silêncio" do ainda jovem escritor português João Reis, é também uma obra ilustrada pelo artista luso Lord Mantraste, cujo traço dos vários desenhos interiores é o mesmo do da capa.
No fim da 1.ª Grande Guerra o narrador encontra-se com um amigo num café antes de uma viagem de comboio, este pede-lhe que conte a sua experiência de gravação de voz para uma equipa de cientistas germânicos, só que este opta por falar de como capitão do Exército Expedicionário Português foi capturado pelos alemãs, enviado para um campo de prisioneiros, roubado e por não possuir comprovativo de ser oficial foi obrigado a ficar com os soldados, portugueses e de outras nacionalidades, onde a vida era marcada pela escassez de alimentos, parasitas, trabalhos forçados e jogos de cartas. Desenvolveu então amizade com o médico do campo do qual ouve as suas confidências dos seus problemas familiares e que pretende apresentá-lo a um grupo que estuda pronúncias através de gravações. O protagonista foi constantemente torturado pela fome e a ânsia do silêncio e todos insistem em conversar, desabafar e as autoridades  usam a falta de comida como arma de poder.
O desenvolvimento da vida no campo é pontualmente intercalado pela insistência do companheiro interessado na gravação e pelas cenas no café, mas narrativa centra-se na vida de prisioneiro e as peripécias por que o narrador então passou.
O texto é muito contemporâneo e trabalhado com um persistente humor sarcástico, por vezes com sequências absurdas que evidenciam o vazio da guerra, o ilógico de povos que partilham sentimentos e a civilização estarem em confronto e levarem o inimigo a situações humilhantes e desumanas apenas pelo contexto do confronto bélico cujos motivos nunca parecem justificados.
O romance fez-me lembrar o impressionante Catch-22, por também pôr a nu o absurdo da guerra e deixar muito mais questões do que soluções e em suspenso o assunto lançado praticamente no início da narrativa.
A leitura não cansa por a obra ser pouco extensa (130 páginas), ter momentos de suspense, o permanentemente humor mordaz e as ilustrações ajudarem a visualizar alguns episódios.
Gostei, é uma obra arrojada para apreciadores que degustam a arte de narrar de forma original e a escrita criativa, não é uma simples estória linear de estilo mais tradicional.

sábado, 11 de julho de 2020

"O velho que lia romances de amor" de Luis Sepúlveda


Excertos
Dê-me um romance bem triste, com muito sofrimento por causa do amor e com um final feliz».
"A vida na floresta temperou-lhe cada pormenor do corpo. Adquiriu músculos felinos que, com o passar dos anos se tornaram secos. Sabia tanto da floresta como um shuar."

Acabei de ler o meu primeiro livro do chileno Luis Sepúlveda "O velho que lias romances de amor".
A obra, apesar de ficção, baseia-se numa pessoa que o autor conheceu quando esteve refugiado na floresta que o acolheu durante uma tempestade na chocha em que residia, na qual, além do essencial, guardava conjunto de livros que para ler nas horas livres. Em sua homenagem, Sepúlveda criou um personagem fã de romances de paixões que se acolheu e adaptou à floresta.
Antonio José Bolívar reside na Amazónia do Equador, mas saberemos dos acontecimentos do seu passado: o seu casamento infértil, o seu acolhimento pela tribo shuar e a sua saída desta comunidade;  até ao seu exílio atual. No presente, o representante do Governo no local depara-se com a chegada de um cadáver de ocidental trazido numa canoa por indígenas, aquele pretende acusá-los de assassínio mas a experiência do protagonista prova que o homem fora morto por uma onça por lhe terem abatido as crias que deverá estar nas redondezas. Outro incidente fortalece as suspeitas de Bolívar e a tensão levará a que António José tenha de enfrentar a fera sozinho num jogo de inteligência felina face à do conhecedor da Amazónia em contraste com a estupidez de quem não ama esta floresta.
O texto, bem escrito, numa linguagem cheia de carinho e humor, homenageia o índio e os homens que protegem a Amazónia da ganância de forasteiros. Fica-se a conhecer um conjunto de costumes dos shuar e curiosidades essenciais à sobrevivência neste ecossistema peculiar e cheio de perigos para quem não é capaz de entrar em comunhão e equilíbrio com esta selva a proteger e a respeitar.
Gostei, uma obra pequena, fácil de ler que recomendo.

quarta-feira, 8 de julho de 2020

"A Princesa de Gelo" de Camilla Läckberg


Acabei de ler o romance policial "A Princesa de Gelo" da sueca Camilla Läckberg.
Numa povoação piscatória que no verão é inundada por turistas, mas que no inverno é um pequeno lugar pacato, um residente encarregado de reparar a caldeira de uma habitação de uma família rica local e residente na cidade ao deslocar-se à casa depara-se com uma mulher que aparentemente se suicidou na banheira onde ficou congelada pelo frio nórdico. Este pede ajuda a uma amiga de infância da falecida que passava, agora escritora de biografias. Esta, chocada com a cena, começa depois a pesquisar a história de vida da vítima e conhece um agente policial por quem se apaixona. Juntos cooperam na investigação que afinal é um assassinato talvez com motivos em factos escabrosos de há várias décadas quando a protagonista estranhamente vira sem perceber o afastamento da sua amiga.
Um romance que além das descobertas dos investigadores junta os sentimentos e os problemas individuais e familiares das personagens principais e dos suspeitos, pelo que vemos o evoluir do trabalho policial e das relações humanas criando uma atmosfera romântica.
Uma escrita escorreita, sem grande rasgos de originalidade literária, que ao integrar os sentimentos das personagens e os ingredientes do suspense da descoberta do criminoso permite construir uma estória simpática e agradável que alimenta o interesse do leitor. Uma obra fácil que gostei de ler, sem a violência física sádica de alguma literatura policial nórdica, pois opta mais pela análise da psicologia dos envolvidos, que também descobrem atos bem chocantes.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

"A Torre da Barbela" de Ruben A.


Excerto
"E a multidão que no Jardim dos Buxos entretinha o tempo, em nada se diferenciava das outras multidões: apenas não se viam - viviam no suspenso dos sons. Os que se individualizaram, como Dom Raymundo, o Cavaleiro, Dona Mafalda, Madeleine, etc. é porque em si sintetizavam a necessidade premente de continuar a história do mundo pelas vias da Criação."

"A Torre da Barbela" do português Ruben A., é um romance publicado em 1965, vencedor então de um prémio literário que caiu no esquecimento e agora foi reeditado como uma obra a redescobrir, não só pela sua reconhecida originalidade e temática, mas também por mostrar o papel do seu autor como um importante escritor que deu novos rumos ao evoluir da literatura em Portugal.
O romance é uma obra macabra, centrada em torno de uma torre nas margens do rio Lima no Minho que existe desde os primórdios de Portugal e casa de uma das famílias nobres mais importantes e participativas no evoluir da história do País até ao século XX: os Barbela. Durante o dia o monumento nacional é alvo de visitas diárias onde o guia/caseiro recebe excursões, discursa sobre a heroicidade dos Barbelas e promove as belezas e produtos locais; só que durante a noite são os antepassados ligados à Torre, ao solar e seus parentes próximos que saem dos túmulos e convivem entre si, amam, odeiam e mexericam independentemente do século em que viveram. Estes desfilam com todas as características individuais que tinham quando vivos, construindo um retrato satírico e psicológico das virtudes e defeitos dos fidalgos lusos e dos vícios sociais que moldaram este Povo.
Ruben A. pertencente a uma famílias de vultos da cultura portuguesa no século XX e numa linguagem mordaz mostra um Portugal tacanho, provinciano, sujeito publicamente ao clero católico e em segredo transgressor de toda a moralidade religiosa, uma hipocrisia falsa que inveja o estrangeiro e fala das virtudes e superioridade do seu País.
O autor foi um mestre na arte de escrever bem e utilizar ao máximo os recursos da língua combinada com a imaginação e coexistência de falares, mentalidades e tecnologias de diferentes épocas ao longo dos séculos e aqui extrema estas capacidades. Na obra, cada personagem está amarrada ao seu século: o cavaleiro medieval desloca-se a cavalo sem tal impedir que a sua amada viaje de carro e outro parente já use o avião; tal como numa guerra há a opção do uso da força no homem companheiro de luta de D. Afonso Henriques e os argumentos demagógicos e populistas de um político do século XX. Nesta estória cruzam-se amores infiéis, bastardos, homossexuais, amantes de soberanos, beatas, padres, santos, bruxas, cruzados e marinheiros,  além de uma fábrica de enguias fumadas secular e muito mais.
Apesar destas impressionantes características do romance, da excelente descrição de muitas das belezas paisagísticas, do património cultural do Minho e da imaginação que por vezes me deslumbraram, também houve momentos que me cansaram por serem demasiado prolixas, mas valeu a leitura.

segunda-feira, 22 de junho de 2020

"Doutor Jivago" de Boris Pasternak

Excerto
"Já aconteceu assim algumas vezes na história. O que foi concebido como ideal e elevado, acabou em grosseiro materialismo.  Assim a Grécia se tornou Roma, assim o Iluminismo russo se tornou na Revolução Russa."

Acabei de ler o romance "Doutor Jivago" que está na origem da atribuição do prémio Nobel da literatura ao seu autor: Boris Pasternak, russo de nascimento, galardoado quando soviético, apesar de então o livro ter sido proibido na União Soviética, foi igualmente adaptado ao cinema em Hollywood com o mesmo nome e vencedor de vários prémios, incluindo 5 Oscar e 5 Globos de Ouro, entre outros.
Apesar de tantos galardões em torno desta obra, eu tinha algum preconceito relativamente a este romance por saber que alguns prémios foram usados como arma política na guerra fria, o que me deixava dúvidas sobre o seu valor intrínseco. Agora tenho de reconhecer que é de facto um grande romance que mistura componentes históricas, paixão romântica, prosa e poesia e enraizado no legado filosófico e literário dos escritores geniais da Rússia: Dostoiévski e Tolstoi.
A obra divide-se em duas partes: a primeira até à I Guerra Mundial e início da revolução russa, esta arranca com a apresentação de numerosas personagens de várias classes sociais, muitas delas ainda crianças e adolescentes, mas quase todas afetadas por questões de injustiça ou problemas familiares e onde conhecemos o quarteto das personagens em torno do qual se centrará a obra: Iuri Jivago, Toina, Lara e Antipov, na qual se casam e assim entram na segunda parte que começa no tempo da guerra civil russa, a vitória do exército vermelho e vai até à segunda guerra mundial. Temos assim quase meio século de história do País e onde já brotara a defesa dos valores de justiça e fé na grande literatura russa, mas que desembocou numa tragédia de desconfiança e perseguição política que estilhaçou famílias e o amor, nomeadamente na vida dos protagonistas vítimas de tudo isto apesar de abraçarem quase os mesmos valores e até professarem simpatia ou pelo menos não alimentarem antipatia pelo comunismo.
Zivago, médico e poeta com o seu conflito entre a fidelidade conjugal para com Toina e amor à família e a sua paixão por Lara que sofre de um dilema semelhante com a sua admiração pelo marido, o revolucionário Antipov, e o seu amor para com Iuri, aspetos que vão estar presentes no confronto da frente ocidental russa da 1.ª Grande Guerra e no campo da guerra civil na Sibéria a oriente, passando várias vezes por Moscovo e levantando questões filosóficas dos valores da revolução até ao extremismo e a desilusão de uma mudança que em nome da libertação levou não só à destruição como à opressão do povo que era para libertar. A estória não é contra os ideais revolucionários iniciais mas  evidencia como o seu evoluir acabou por destruir o que defendia de forma injustificada. No fim veremos os poemas de Zivago numa rara adição póstuma do trabalho poético do protagonista ao seu tempo de vida.
Gostei do romance, tive dificuldade em entrar nele devido ao elevado número de personagens que vão desfilando no início em espaços paralelos, mas depois de fixado o elenco, as suas relações, pensamentos e a evolução política no País, descobre-se uma grande obra, que fica mais rica para quem já conhece a literatura russa do século XIX, onde se é evidente a constatação de que a solução para as denúncias de injustiça e a defesa dos valores levaram depois a uma degradação desumana bem contrária ao proposto por Dostoiévski e, sobretudo, Tolstoi.
Uma obra que levanta questões políticas e filosóficas temperadas com um amor romântico racionalizado entre pessoas maduras que não deixam de se questionar sobre a relação entre as suas obrigações pessoais face à rendição sentimental às paixões o que o torna num excelente livro onde a razão e o desejo não convivem facilmente..

quinta-feira, 11 de junho de 2020

"A Cidade" de William Faulkner


"A Cidade" de William Faulkner", norteamericano laureado com o Nobel da literatura, é o segundo volume da trilogia da família Snopes, cujo primeiro "A Aldeia" li recentemente.
Em A Aldeia Lem Snopes dominou a economia rural do Velho Domínio do Francês, enriqueceu ao entrar na família de Will Varner e no fim partiu para a capital do condado: Jefferson. 
Aqui, a sua ambição desmedida não pára, para tal alia-se ao presidente da câmara, explorando a relação deste com a sua mulher e mãe da sua filha Linda, bastarda, mas que o levou ao casamento de conveniência. Assim, em paralelo, desvia bens municipais de que sai ileso devido à teia montada, enquanto os seus parentes, já conhecidos anteriormente, vão sendo atraídos do campo para esta cidade com atos mais ou menos duvidosos até ao desfalque no banco onde Lem e o sogro tem ações. A partir de então começa a fase deste subir no domínio da cidade, enriquecer e limpar o seu nome socialmente numa terra de moral conservadora das religiões protestantes britânicas e ainda vingar-se como marido traído, retendo Linda de quem depende grande parte do património que deseja, expulsa os elementos do clã que lhe sujam o nome e vai até ao sucesso final com vítimas pelo caminho. Ficam as pistas para o terceiro volume.
Toda a estória é contada por três testemunhas das práticas de Lem Snopes: (1) Rattlif que fora o principal narrador do primeiro volume que o compreende, explica e perspetiva as ações futuras dele; (2) Gavin Stevens, advogado e depois procurador público de Jefferson, que se apaixona também pela mulher de Lem e mais tarde por Linda e vive em permanente luta entre os seus sentimentos, a aproximação e o cuidado social, sendo alvo dos reparos e conselhos da sua irmã gémea, casada e com quem coabita e (3) o filho desta, Charles Mallison, cujos primórdios de Lem na cidade lhe foram contados por um primo e passa a testemunha e agente envolvido como criança e adolescente que servia de intermediário inocente entre partes em jogo.
O texto tem, por norma, um tom sarcástico, irónico ou de crítica social, o que o torna divertido, e recorre à técnica escrita de fluxo da consciência: o narrador vai expondo de forma cruzada e sequencial no parágrafo as ações, os comentários, os à partes, reposições de omissões de dados passados, as reflexões pessoais do narrador e até as suas hesitações, erros e correções. Isto obriga a uma grande atenção do leitor devido às variações bruscas no tempo, lugar e de sujeitos, com frequentes intercalações estranhas entre a introdução da ideia da frase e a conclusão do assunto.
Apesar de leitura difícil diverti-me muito, embora certos capítulos se tornem prolixos de pormenores do início à conclusão da ação devido ao fluxo da consciência, o que pode cansar, mas em paralelo permite um retrato social profundo das populações dos Estados Unidos longe dos grandes centros urbanos.

terça-feira, 2 de junho de 2020

"A Letra Escarlate" de Nathaniel Hawthorne


Excerto
"É assunto curioso de especulação, se o ódio e o amor não serão no fundo a mesma coisa... ...filosoficamente, as duas paixões parecem essencialmente a mesma, excepto que uma nos aparece cercada de uma luz celeste, e a outra de uma luz baça e vermelha"

Li o romance "A letra Escarlate", um dos clássicos da literatura norteamericana escrito no século XIX por um dos principais autores do país: Nathaniel Hawthorne, sobretudo famoso pelos seus numerosos contos e por esta obra, aqui traduzida por Fernando Pessoa.
Na cidade de Boston, então colónia de Inglaterra, é dominada pelos protestantes puritanos ingleses, sendo ainda mais extremados do que na origem. Hester, uma imigrante recente cujo marido médico ainda não chegara, é condenada a subir a um cadafalso na praça central com uma recém-nascida e a exibir para sempre sobre o vestido letra A de adúltera num pano vermelho, mas recusa-se a denunciar quem é o pai da filha, no evento ela descobre na multidão o seu idoso marido. Este, como médico e sem assumir o lugar de esposo, visita-a e obriga-a a manter o segredo da sua relação, mas permanece na cidade para descobrir e vingar-se lenta e continuadamente do ultraje, feito por alguém idolatrado pela sua virtude. Hester sobrevive pelos dotes de costureira isolada e de forma exemplar mas cheia de brio individual, só que o remorso e a vingança vão crescer neste terreno ultraconservador para pecados privados e estalar.
Hawthorne é descendente dos juízes que condenaram as bruxas de Salém e grande parte da sua obra vai no sentido de destruir a intolerância e este romance entra neste género. A narrativa está cheia de reflexões sobre a moralidade pudica sem amor cristão e da luta no interior da consciência e dos sentimentos das personagens, os diálogos estão subjugados a esta análise, além de descrições pormenorizadas da cidade, vestuário e costumes.
A escrita é trabalhada com grande qualidade estilística e a suas metáforas e comparações são extensas, gerando parágrafos densos, algo longo e profundos. Apesar de tudo, o autor tempera no carácter das suas personagens para que a leitura não se torne tão negra quanto a sociedade que descreve. Um magnífico romance que vai muito além da sua trama.

sábado, 30 de maio de 2020

"O Físico Prodigioso" de Jorge de Sena

Excerto
"...Disseste-me também que eu era um deus. E eu sinto que sou. Ou sinto que estou sendo. E é uma coisa insuportável."

Acabei de ler a novela "O Físico Prodigioso" do português Jorge de Sena, obra inicialmente integrada na coletânea de contos do autor "Antigas e Novas Andanças do Demónio", mas que depois da queda da ditadura ficou com o seu texto definitivo, a ter vida própria e foi publicada autonomamente por vontade do escritor.
Uma novela que vai buscar as suas raízes em dois mitos antigos expostos em contos portugueses da idade média que o autor integra num só, numa narrativa do género fantástico, mágico e gótico.
Um jovem inocente e de beleza impressionante desperta a paixão no Demónio que lhe permite poderes fantástico de físico (mago/médico da idade média). Aquele ao banhar-se num lago é descoberto por três donzelas que o cativam para a sua senhoria, uma viúva retida no seu castelo e a definhar de uma doença que se diz apenas ser curada por um jovem belo e virgem. Aceite o desafio irá então desenrolar-se uma evolução orgíaca, a descoberta de um passado sangrento da castelã e momentos de bruxaria que desemboca num tribunal coletivo religioso com juízes (magníficas caricaturas de puritanos cheios de ruindade) que o julgará no obscurantismo da igreja com a intervenção do demónio numa luta entre o misticismo, o castigo da sujeição às tentações e a liberdade individual.
Uma narrativa onde a língua portuguesa é trabalhada com genialidade numa escrita criativa que vai da prosa à poesia com timbre medieval e textos paralelos que põem frente a frente o ocultismo da época, o erotismo e o misticimo religioso, puritano e castrador. Jorge de Sena cria uma trama que está entre um conto das mil e uma noites numa cultura cristã e um história gótica de terror e luta com a religião e o demónio, qual deles mais pernicioso ao homem e à liberdade neste contexto.
A novela, com pouco mais de 100 páginas, é seguida por uma pequena nota explicativa de Jorge de Sena sobre os mitos em causa e excertos dos dois contos medievais que serviram de inspiração a esta obra, o que permite uma compreensão mais vasta que a simples leitura da narrativa.
Uma obra diferente com insinuações eróticas tratadas na liberdade de um mundo fantástico como projeções de sonhos livres sem as inibições sociais e morais dos desejos, o que pode ferir sensibilidades, mas que me deu um enorme gozo de leitura, pela imaginação e o tratamento da língua lusa.

segunda-feira, 25 de maio de 2020

"O Amigo Americano" de Patricia Highsmith


Acabei de ler o romance de suspense e crime "O Amigo Americano" da escritora dos EUA: Patrícia Highsmith, famosa pela estrutura original das suas narrativas policiais que são por norma expostas do lado dos criminosos e não dos agentes de investigação e esta obra não é exceção e corresponde à terceira aventura do conjunto de cinco protagonizada por Tom Ripley, um anti-herói amoral, criminoso, apreciador de pintura, música erudita, gastronomia e de gostos sociais caros e bem-parecido que consegue escapar à justiça e aos inimigos.
No presente livro, alguém honesto e com uma doença incurável diz algo menos simpático a Tom, este então decide vingar-se e fazê-lo sofrer, criando um boato sobre o seu estado de saúde para lhe dar ansiedade e propô-lo a um amigo que busca um contratado para um serviço criminoso para o assediar nesse trabalho sujo e troco de dinheiro. Na sequência desta tensão o doente deixa-se tentar num crime contra um capo da máfia, só que quem desperta ódios nesta rede fica alvo de retaliações e Ripley também fica envolvido  numa sequência de tentativas de vinganças, crimes, ocultação de cadáveres e ainda a necessidade de o aniversariante ter de se justificar perante a mulher dos seus atos inexplicáveis, os seus estranhos tratamentos médicos e as suas contas bancárias chorudas e a desconfiança daquele amigo americano de passado duvidoso Tom Ripley.
Bem escrito, cheio de tensão, mas a doença grave faz-nos desenvolver uma simpatia para com o nosso contratado para crimes aconselhado por aquele agradável amigo que atrai o mal à sua volta, mas sai sempre por cima. Gostei, mais uma história de crime e quadrilhas intercalada com momentos com Bach e pintura que sai fora da rotina dos livros deste tipo de suspense